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HÁ UMA FORÇA ENERGÉTICA INVISÍVEL OU UM CAMPO DE INFINITAS POSSIBILIDADES
Não há lugar nessa versão atualizada de Deus para um inferno de tormentos ou para um sádico que queira ou possa colocar você lá. Também não há espaço para a ideia de que doenças, deformidades, morte, pobreza ou limitações de qualquer tipo são a vontade de Deus. A vontade de Deus, para aqueles que insistem em usar esse termo, é o desejo permanente do espírito que há em cada um de se tornar tudo o que se é capaz de ser. Amém.
 
Todo mundo está esperando pela eternidade, e os xamãs dizem: ‘Que tal esta noite?
(Alberto Villoldo, ph.D., escritor nascido em Cuba e professor de medicina energética)
 
A premissa 
Essa experiência vai provar a você de uma vez por todas que há uma força no universo, amorosa, abundante e totalmente moderna e fashion. Algumas pessoas a chamam de Deus. Você pode chamá-la de prana, de “tudo o que há” ou até de “Cosmo Kramer”, não me interessa.
O problema, até agora, é que tínhamos que ter fé nessa força. Não nos era permitido vê-la ou tocá-la, mas, com toda a certeza, nos pediram para fazer um monte de coisas em nome dela, como nos confessar, pagar o dízimo, meditar e colocar cinzas nas nossas cabeças. Prefiro a ideia de uma força energética que se movimenta numa estrada de mão dupla. Isso lhe diz alguma coisa?
Nessa experiência, vamos fazer o Campo de Potencialidades saber que... é agora ou nunca, querido. Estamos cansados de acreditar em algo que adora ficar brincando de esconde-esconde. Nós queremos provas irrefutáveis. E queremos agora. Você conhece aquela expressão muito usada na troca de e-mails no trabalho: “Providenciarei isso o mais rápido possível.” Bem, é assim que estamos nos sentindo neste momento. Daremos ao Campo de Potencialidades exatas 48 horas para nos enviar um sinal, um sinal bem claro, um sinal que não possa passar despercebido. Luz néon ajudaria, e muito. Por comprarmos a ideia de que essa força é vaga e misteriosa, nós, na verdade, não esperamos encontrá-la. Ou, pelo menos, não ficamos surpresos por não encontrá-la. Porque não fomos treinados para percebê-la, não temos consciência dessa força inspiradora, energizante e transformadora que está circulando à nossa volta e através de nós.
 
Eu... esperar?
Se o remédio que você está usando não dá resultados, para que serve então?
(Sun Bear, líder espiritual dos nativos Chippewa)

Aqueles que preferem esperar por portões dourados..., tudo bem, podem continuar esperando. Mas isso é, mais ou menos, como uma pessoa nos dias de hoje se recusar a usar eletricidade. Tudo o que se tem que fazer para ter acesso à eletricidade é achar uma tomada e ligar um aparelho eletrônico nela e voilà! Acontecem um monte de coisas legais — comemos torradas de manhã, ouvimos música no rádio, vemos filmes, notícias e os seres humanos do outro lado do planeta que vivem de uma maneira completamente diferente da nossa.
O problema é que não conseguimos nos habituar a pensar nessa força energética da mesma maneira que pensamos na eletricidade. Nós não nos perguntamos: Sou bom o bastante para ligar a minha torradeira na tomada? Ou então: Rezei o bastante para ter o direito de acender as luzes da cozinha?
Não nos sentimos culpados por querer ligar o rádio e ouvir a nossa estação preferida. E o Campo de Potencialidades é igualmente tão sem preconceitos e tão à nossa disposição quanto a eletricidade, quando tomamos a decisão de procurá-lo de verdade. E não é muito difícil de achá-lo.

Histórias de experiências pessoais
Deus não é o bunda-mole que muitas pessoas querem fazer você acreditar que ele é.
(Alex Frankovitch, personagem do livro Skinny Bones, de Barbara Park)
 
Nessa parte, vamos falar de um assunto que muitas vezes faz as pessoas se retirarem da sala. É isso mesmo, estou falando de Deus.
A menos que você seja de outro planeta e tenha acabado de chegar por essas bandas, provavelmente já notou que as pessoas falam à beça desse camarada chamado Deus. Dedicamos um dia por semana para adorá-lo. Construímos templos de todos os tamanhos e formas para honrá-lo. Escrevemos livros, artigos e depoimentos sobre religião para jornais e revistas.
Todas as culturas que existem ou já existiram tem uma versão do “cara que está em toda parte” (para usar uma expressão do filme cult O grande Lebowski). Mesmo os físicos cuja única linha de trabalho é estudar as propriedades e interações da matéria sabem sobre essa força invisível. A maioria deles não a chama de Deus. Albert Einstein, por exemplo, dizia não acreditar na existência do Deus tradicional, mas ele, com toda a certeza, sabia que havia algo muito mais essencial lá fora no universo. Essa essência, ele dizia, era tudo com o que realmente se importava. O resto, afirmava, eram apenas detalhes.
O Deus no qual a maioria de nós acredita é uma invenção do homem, fabricado em prol de certos interesses. Aceitamos esse Deus feito pelo homem como um fato inquestionável. Mas isso não faz sentido algum. Se Deus é amor, se Deus é perfeito, se Deus é realmente todas as coisas boas que atribuímos a ele, por que mandaria alguém para a caverna dos leões? Além disso, por que alguém, no seu juízo perfeito, iria se relacionar com um deus caprichoso e injusto, que se diverte em puni-lo? Mesmo a mais maluca das mulheres sabe que não deve sair com um cara que pode machucá-la. Quero dizer, quem é que precisa de um Deus assim?

Deus, esse terrorista
Eu não sei se Deus existe, mas certamente seria melhor para a reputação dele se não existisse.
 (Jules Renard, escritor francês)

Assim que aprendi a ler e escrever me ensinaram que eu, a pequena Pammy Sue Grout, era uma pecadora infeliz e tinha perdido a glória de Deus. Isso era um fato, estava dado, da mesma forma que dois mais dois é igual a quatro e que o alfabeto tem 26 letras. A única parte redentora dessa lição tão importante era que, pelo menos, eu não estava sozinha. Isso significava que todo ser humano era pecador também. Até mesmo a minha professora carinhosa do jardim de infância, que me deixava levar a minha tartaruga de estimação para a sala de aula toda segunda-feira.
A coisa ruim em ser uma pecadora é que isso lhe garante uma passagem só de ida para o inferno. Era um pouco difícil para mim entender essa coisa de inferno, logo eu, que o mais longe que tinha ido era até uma outra cidade, na divisa do estado. Mas, segundo o meu pai, o inferno não era um lugar para onde você queria ir. Era mais quente que a casa dos meus tios no verão, com o ar-condicionado quebrado. E, diferente de uma visita aos seus tios que termina depois de quatro dias, no inferno você vai ficar por toda a eternidade. Para que eu entendesse o que era a eternidade, ele me dizia: “Você se lembra de como se sentiu no dia 26 de dezembro, quando se deu conta de que faltava um ano inteiro para o próximo Natal?”
A cláusula de rescisão é que você pode “ser salvo”.
Então, quando eu tinha quatro anos, enquanto o organista tocava uma música inspiradora, caminhei até o altar da pequena igreja metodista da cidade onde morava, e caí de joelhos — os meus joelhos ossudos de quando eu tinha quatro anos —, pedindo ao bom Deus que perdoasse os meus pecados. A minha família inteira, que vinha de uma longa tradição metodista, suspirou aliviada. Papai e mamãe chamaram todas as minhas tias e tios naquela noite para lhe dar as boas-novas.
— A nossa filha mais velha foi oficialmente salva hoje — disseram eles com orgulho. — Estamos seguros de que pelo menos Pam vai para o céu.
A melhor parte de tudo, eles imaginavam, era que a minha conversão seria inevitavelmente um bom exemplo para a minha irmã Becki, que tinha dois anos, e para o meu irmão, Bobby, que tinha apenas três meses, embora eu secretamente desejasse que os meus pais o dessem para uma outra pessoa antes que ele tivesse idade suficiente para falar.
Claro, você não quer desperdiçar nenhuma oportunidade, certo? Quero dizer, Jesus pode voltar a qualquer momento — de dia ou no meio da noite. Ele é como um ladrão. Pode entrar na sua casa de manhã, enquanto você está comendo o seu cereal matinal. Pode chegar no meio do recreio, enquanto você está pendurado de cabeça para baixo no trepa-trepa. Pode chegar até mesmo às duas da manhã, enquanto você dorme, o que pode ser um problema sério se você tiver o sono muito pesado. Jesus pode te levar embora, antes que você tenha conseguido acordar de verdade.
E tem aquela outra possibilidade sobre a qual você não quer nem pensar a respeito. Quero dizer, a casa dos meus tios era mesmo bem quente.
Ao mesmo tempo que eu estava aprendendo a aceitar a minha verdadeira identidade de pecadora, as pessoas me diziam o tempo todo que Deus era amor. E não importava muito se as igrejas o apresentavam como uma espécie de câmera escondida, que via tudo o que eu estava fazendo.
Isso não fazia sentido nenhum. Mas eu tinha apenas quatro anos. O que é que eu sabia da vida?
Muito embora estivesse bem perto de ser uma criança perfeita (tirava A em tudo, tentava não brigar com os meus irmãos, ficava longe do álcool e das drogas e até fazia a minha cama de manhã, sem que precisassem mandar), eu me sentia sempre criticada por esse “Deus amoroso”, que estava sentado lá no céu e esfregava as mãos de satisfação toda vez que eu fazia alguma coisa errada. O que só Deus sabe (ops!, lá vou eu de novo, usando o nome dele em vão!) que acontecia praticamente o tempo todo. Uma verdadeira tradição em enganar criancinhas inocentes.

Deus é misterioso como um astro do rock de óculos escuros, e outros mitos irritantes 
As nossas ideias sobre Deus falam mais sobre nós mesmos do que sobre Ele. 
(Thomas Merton, místico cristão)

Pergunte a um indivíduo qualquer se ele acredita em Deus e ele provavelmente responderá: “Claro!” No entanto, é pouco provável que esse mesmo indivíduo se pergunte o que exatamente ele entende por Deus. Quando pressionado, vai usar algum dos velhos clichês sobre o “cara lá em cima”
Tentar definir Deus obviamente é impossível. Deus não é estático, da mesma forma que a luz e a eletricidade não são estáticas. Deus existe além do mundo físico da matéria, dos corpos e das formas. Ele preenche o cosmo, satura a realidade e supera o tempo e o espaço. Mas isso não nos impede de tentar elaborar algumas definições. Aqui estão as oito bobagens mais faladas sobre Deus:
Bobagem nº 1: Deus é ele. Mesmo que algumas igrejas progressistas se referiram a Deus como ela, no Campo de Potencialidades não existe sexo. Certamente nós não pensamos numa diferenciação de gênero quando nos referimos à eletricidade e ao átomo, por exemplo; é apenas uma questão linguística, que não personifica nenhum desses elementos. Quando nos referimos à energia, temos que pensar numa força absolutamente neutra. O Campo de Potencialidades é um campo de força que rege o universo, a mesma fonte de energia que faz as flores crescerem, que forma cicatrizes nos joelhos esfolados e que constantemente impulsiona o todo.
Deus é uma força como em Guerra nas estrelas, uma presença que está dentro de nós, um princípio que nos dá vida. É por isso que Luke Skywalker e Darth Vader se tornaram um sucesso absoluto no mundo inteiro. O filme Guerra nas estrelas expõe uma crença que fala conosco num nível muito profundo. Uma parte de nós sabe que “a força” está conosco e que nós, pelas nossas palavras, pensamentos e ações, criamos o mundo.
Bobagem nº 2: Deus é misterioso como um astro do rock de óculos escuros, faz uma lista dos seus pecados, e está basicamente muito ocupado com a fome no mundo para se importar com você. Deus, se você acredita nessa bobagem comumente aceita, é mais ou menos como o personagem do vizinho misterioso, sempre olhando sorrateiramente pela janela, esperando para nos pegar fazendo alguma coisa muito, mas muito feia mesmo, em O sol é para todos. Nós não podemos vê-lo, mas nos disseram que ele está ali. Observando. Julgando. Monitorando todos os nossos movimentos. Se você não seguir os mandamentos ou se quebrar as regras, Deus vai enviar um anjo do Serviço Secreto Dele atrás de você e aí, você vai ver só.
Bobagem nº 3: Deus escolhe os favoritos dele. O Campo de Potencialidades é um campo de força que está igualmente disponível para todos nós. É uma capacidade natural em todos nós, não é um dom exclusivo, concedido a uns poucos. Na verdade, essa é uma das primeiras lições que Jesus nos ensinou. Deus está dentro de nós. Você é parte de Deus. Você pode fazer milagres.
Cultuar Jesus do jeito que fazemos é um pouco como cultuar Benjamin Franklin porque ele descobriu a eletricidade. Benjamin Franklin soltou uma pipa durante uma tempestade e demonstrou que os raios eram uma descarga elétrica. Ele fez isso para que pudéssemos utilizar a eletricidade e não para que erguêssemos templos, pintássemos retratos dele, ou usássemos medalhinhas no pescoço. Ele queria que nós conhecêssemos o princípio da eletricidade e o usássemos — e nós fazemos isso quando ligamos rádios, computadores e aparelhos de ar-condicionado. Se tivéssemos feito com a descoberta de Benjamin Franklin o que fizemos com a descoberta de Jesus, todos nós estaríamos sentados no escuro.
Benjamin Franklin não inventou a eletricidade, assim como Jesus não inventou os princípios espirituais. A luz e a eletricidade estavam disponíveis desde sempre. Nós apenas não nos dávamos conta disso ou não sabíamos como acessá-la. Galileu não inventou a força da gravidade quando lançou uma bola de madeira do alto da Torre de Pisa. Ele apenas demonstrou a existência dessa força.
Da mesma forma, Jesus demonstrou a existência dos princípios espirituais que ele quer que usemos e desenvolvamos. Desperdiçamos dois mil anos cultuando a imagem dele em vez de colocar em prática os princípios que ele nos ensinou. Procurando na Bíblia, não encontraremos nenhuma passagem onde Jesus tenha dito que devemos cultuá-lo. Ele nos pede para segui-lo. Há uma diferença enorme.
Transformando Jesus numa espécie de herói, perdemos o ponto principal. Jesus não disse: “Eu sou legal. Façam estátuas minha, e do meu aniversário uma imensa festa comercial.” Ele dizia na verdade: “Vejam o que é possível ser feito. Vejam do que nós seres humanos somos capazes.”
Jesus é nosso irmão, o nosso legado, o cara que tínhamos que imitar.
O que Jesus estava tentando dizer é que igrejas, líderes religiosos e toda a retórica estridente deles escondem a verdade de Deus. Eles cobriram os nossos olhos ao deixarem de falar que o Campo de Potencialidades não é objeto de culto, mas uma presença bem real e um princípio pelo qual nós devemos viver.
Bobagem nº 4: Deus recompensa o nosso sofrimento e nós dá pontos extra pelo nosso sacrifício (conhecida também como a “vida é uma droga e aí... você morre”).
Muitos de nós acham que a vida é um campo de treinamento para o céu. Acreditamos que esse nosso curto tempo de vida é “apenas um teste” para o paraíso que vamos eventualmente ganhar. Se aguentarmos firme e suportarmos tudo, um dia entraremos por aqueles portões dourados e seremos felizes. Esses pensamentos errados foram cristalizados nos fatos da vida. Nada é mais certo do que a inevitabilidade de tristezas e provações.
Mas e se nada disso fosse realmente necessário? E se não houvesse nenhuma razão para sermos pobres? Ou ficarmos doentes? Ou qualquer outra coisa que não fosse parte de uma vida abundante e cheia de alegria e entusiasmo? E se essas vidas trágicas e difíceis fossem apenas mais um boato criado pelas igrejas e inculcado na nossa consciência em anos e anos de condicionamento? O que eu estou sugerindo é que esse céu pelo qual estamos esperando está disponível agora. E que você já perdeu muito tempo sem saber exatamente quem é e o que é possível.
Bobagem nº 5: Deus é extremamente exigente. O Campo de Potencialidades não julga. Não pune. Não pensa assim: Muito bem, João, você foi realmente um bom menino ontem, ajudando aquela velhinha a atravessar a rua. Acho que vou atender as suas preces e fazer você ganhar na loteria. Esse é o tipo de pensamento que um juiz da suprema corte teria. O Campo de Potencialidades não precisa de nada. E não nos pede nada. Não faz nenhuma exigência. Ele não gosta mais de Madre Teresa de Calcutá do que de qualquer um de nós. Apenas seres humanos mal-informados, lutando desesperadamente para que as suas vidas façam sentido, acreditam num Deus que gosta de escolher o rumo de nossas vidas, que gosta e desgosta das mesmas pessoas que nós. O nosso medo nos aprisionou e nos dá uma percepção muito limitada de tudo.
Bobagem nº 6: Você não deve pedir muita coisa a Deus, para não irritá-lo. Como eu já disse antes, O Campo de Potencialidades não é uma pessoa, por isso você não pode deixá-lo irritado. O Campo de Potencialidades é um poder, uma força energética invisível. Não é finito nem limitado, por isso você certamente não pode pedir demais dele. É como diz um velho ditado: você pode pegar água do oceano com um conta-gotas ou com um balde; o oceano não dá a mínima. Até porque não usamos o poder do Campo de Potencialidades o bastante. Estamos falando de uma força poderosíssima, não uma equipe de resgate que vem ajudá-lo, por exemplo, a pagar as prestações da sua casa própria. O Campo de Potencialidades não é um adversário que tem que ser enfrentado numa mesa de negociação.
Bobagem nº 7: Deus é muito vago. Ao contrário. Uma vez que você se livre das nuvens escuras dos boatos e meias-verdades que encobrem a sua consciência, vai descobrir que essa força invisível se comunica com tanta clareza quanto o seu apresentador de TV favorito. Uma vez que você se livre dos bloqueios, vai saber exatamente o que fazer e como fazer.
De novo, precisamos nos condicionar a pensar em Deus da mesma maneira como pensamos na eletricidade. A eletricidade não liga para quem é que está ligando o aparelho na tomada. A eletricidade não nos pede uma prova de que somos bons o bastante para fazer torradas de manhã.
Bobagem nº 8: Deus só responde às nossas perguntas quando está de boa vontade e bem-disposto. Não há um momento sequer em que Deus ou “a força” não esteja guiando você. E você não tem que esperar pelo sinal verde ou tirar a carta “saída livre da prisão”. O “Cara” está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, e tudo o que você tem que fazer é focar a sua atenção nele. A orientação do Campo de Potencialidades simplesmente acontece (como as pessoas dizem sobre... bem, sobre outra coisa) — através de uma música que toca no rádio, do telefonema de um amigo que você não vê há muito tempo etc. O truque é observar, confiar e, vou continuar repetindo à exaustão, focar a sua atenção.
E já que estamos falando da vontade de Deus, vamos esclarecer as coisas aqui. Não há lugar nessa versão atualizada de Deus para um inferno de tormentos ou para um sádico que queira ou possa colocar você lá. Também não há espaço para a ideia de que doenças, deformidades, morte, pobreza ou limitações de qualquer tipo são a vontade de Deus. A vontade de Deus, para aqueles que insistem em usar esse termo, é o desejo permanente do espírito que há em cada um de se tornar tudo o que se é capaz de ser. Amém.

(Pam Grout -  A Energia do Quadrado)
Os antigos hebreus atribuíam tudo o que acontecia, seja no céu ou na terra, à um único deus. A evolução de uma poderosa força maligna que era oposta ao Deus Bom, apenas começou duzentos anos antes do nascimentode Jesus Cristo.

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publicado às 23:39


FELIZ (DEPOIS DO) NATAL!

por Thynus, em 28.12.15


“Depois do Natal é um momento suspenso no tempo em que a agitação dá lugar à calma, o frenesim à lentidão e à solidão. Pode ser um momento perturbador, angustiante mesmo, como todos os “depois”, um momento estranho.” (Pascale Gatineau)

Mas porquê esta angústia? Porquê tanta estranheza? Afinal não dizemos ou ouvimos dizer constantemente que o Natal é todos os dias do ano?
O nome de Deus, tantas vezes ouvido no Natal, é Emanuel, o Deus connosco ou, traduzido por outras palavras, não é o Deus que é, mas o Deus que está. O Deus que caminha connosco.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, há cerca de quarenta anos sugeriu que a humanidade aproveite o espírito de Natal para reestruturar o ano civil e, desta forma, revolucionar o modo como os homens se relacionam entre si e com o mundo. No texto "Organiza o Natal", Drummond propõe que seja Natal o ano inteiro, para que as pessoas se amem e desejem felicidades continuamente, de continente a continente. Para que o homem e a natureza – os rios, os montes, os mares, as plantas, os animais – fraternalmente sejam uma coisa só, sem dominantes nem dominados. Para que o trabalho deixe “de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.”
“Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.”
Ah, mas este é um mundo dos poetas e dos contos de fadas, diremos.... Mas sonhar é preciso! No dizer de Fernando Pessoa "é preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la." Sem sonhos o mundo seria como um jardim sem flores.

Concluo com a brilhante reflexão natalina do Pr Roberto Amorim Menezes:
"Um pouco mais e as luzes serão apagadas, as árvores guardadas, as caixas dos presentes recicladas e a vida seguirá seu curso.
O mesmo aconteceu em Belém: Jesus deixou de ser o Deus-menino e passou a ser o Deus-homem; os magos voltaram para o oriente; os pastores para os campos e a estrela deixou de iluminar os céus
A imagem estática do presépio deu lugar a histórica dinâmica e viva da redenção da humanidade. Mas, basta ler os evangelhos, para perceber que aqueles que estiveram com o menino Jesus nunca mais foram os mesmos.
(1) Os magos, divinamente avisados, não voltaram ao palácio de Herodes. Aprenderam que a sujeira de uma estrebaria é mais limpa do que a sujeira de um palácio (Mt 2:12).
(2) Os pastores voltaram para os campos louvando ao Senhor. Descobriram que, apesar de ignorados pela religião, eram alvos do amor de Deus (Lc 2:20).
(3) Maria, aquela que antes perguntava “como será”, recebeu provas de que para Deus não há impossíveis (Lc 1:37)
Em dezembro do próximo ano as lâmpadas serão novamente ligadas, as árvores novamente armadas, virão novas caixas, novos presentes... e você? Ainda será o mesmo?
Muitas vezes o “depois da festa” é o mais importante da celebração. Assim é com o casamento, com a formatura, com o nascimento, assim é com a vida. Lembrar-se de Deus, dos amigos, da família, ajudar o necessitado, alimentar o faminto, perdoar quem nos ofendeu, visitar um templo... são atitudes que precisam ser cultivadas durante todo o tempo.
Por tudo isto, quero lhe desejar um Feliz (depois do) Natal!"

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publicado às 22:04


A FILOSOFIA LIBERTINA

por Thynus, em 27.12.15
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Poema aos homens do nosso tempo
O Marquês de Sade, que viveu no século 18, é conhecido por ser o maior expoente da chamada filosofia libertina. Essa filosofia ficou conhecida como aquela contra a moral da época por excelência. Mas suspeito que, se Sade vivesse hoje, ele talvez atacasse, cruelmente – como era de seu estilo – outros signos do ridículo social. Sade vomitaria sobre o politicamente correto.
Ridículo, especialmente, é quem tenta fazer de Sade um arauto do sexo livre “entre iguais”. A república de Sade era uma república de quem gostava de violar meninas virgens. Aqui não vem ao caso defender seus exageros estilísticos, mas sim reter seu foco crítico na hipocrisia social que rege a vida sexual, ontem e hoje. Mesmo, e principalmente, quando essa hipocrisia muda de lugar. Antes essa hipocrisia era basicamente de substância religiosa; hoje, ela é de substância política. Talvez daqui a 500 anos isso fique mais claro. Nossos descendentes rirão de como tornamos a vida sexual um inferno de demandas enquanto fazíamos um discurso de liberdade. Uma das provas óbvias é que as chatinhas e os chatinhos que hoje se julgam revolucionários sexuais são superpuritanos quando se fala em pornografia. A esquerda um dia foi libertária, hoje ela é puritana. Qualquer mulher que usa o seio como ícone político é, na realidade, uma puritana, porque o seio é da mãe ou da fêmea, nunca da militante. Claro que uma mulher pode fazer o que quiser com o seio. Mas achar que isso seja uma grande coisa é que dá sono. As políticas do sexo retiram o Eros do corpo porque gozam com a política, não com o corpo. Até mesmo psicanalistas bobos falam de “pulsão política”. Se Freud ou Lacan estivessem vivos hoje para ver as bobagens que fazem em nome deles (tipo dizer que eles acreditam na transformação política do homem), também vomitariam em cima das políticas do sexo.
O que seria uma filosofia libertina hoje? Seria uma filosofia que riria das chatinhas e dos chatinhos e seus coletivos-formiga que falam a mesma coisa o tempo todo como que querendo suprimir o ruído do mundo. Em meia hora de Pré-história (nossa alma continua sendo pré-histórica e nosso inconsciente também) toda essa discussão de gênero apareceria no seu ridículo. Essas pessoas são pessoas apenas querendo viver bem com suas agonias pessoais (o que elas têm direito de fazer), e, para isso, inventam que homens e mulheres são criação social (o que elas não têm o direito de ensinar para os mais jovens, mas o fazem). Na verdade, “criação social” deles (os corretinhos), fruto da repressão deles sobre as pessoas reais. Nelson Rodrigues é a evolução de Sade: Nelson entendeu que o gozo não salva ninguém, ainda que o desejo seja irresistível. Não existe lugar no sexo libertino para o respeito, tampouco lugar para a saúde. O sexo politicamente correto é uma conversa entre mudos porque não entende o que a mulher pede quando sua boca enche de água. Não fosse isso, por que chamar o ato de fazer sexo com uma mulher de “penetração”? Uma mulher que é respeitada o tempo todo morre de tédio. A cura do tédio feminino é tratá-la como objeto de desejo.

(LUIZ FELIPE PONDÉ - GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DO SEXO)

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publicado às 23:23


O RISCO DA INVISIBILIDADE

por Thynus, em 27.12.15
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Sentir prazer e ser feliz sexualmente não é algo errado, e nós como mulheres podemos focar este aspecto de nossas vidas pensando simplesmente na nossa satisfação e bem-estar, e não nas opiniões que os outros e a sociedade possam ter.
Se o cristianismo, como dizem, deixou a mulher sem desejo porque tinha medo de sexo (algo com que eu não concordo e direi logo a razão), as “políticas do sexo” fazem um estrago ainda maior. Elas são piores que o puritanismo cristão porque não deixam nenhum espaço para o pecado e para a culpa, equivalentes a uma saia curta numa mulher. Nada é mais delicioso do que uma mulher culpada. Essas políticas corretas canalizam as relações amorosas para o ressentimento, por isso matam a coragem necessária para o amor e o sexo. A política correta do sexo deixa você numa cama vazia, mas calmo, sem as ansiedades de quem quer possuir uma mulher. O verbo “possuir” usado para o objeto “mulher” é uma das formas mais eróticas na língua portuguesa. Uma mulher possuída geme sob o sexo de “seu dono”. As políticas corretas do sexo anulam tanto homens como mulheres. Enquanto o cristianismo cobria a mulher com o manto da prostituta, e toda prostituta é desejada (por isso dizia acima que não acredito que o cristianismo fizesse tão mal ao desejo sexual), o sexo correto deixa a pele seca. A própria ideia de sexo comprado é erótica. Por isso Nelson Rodrigues dizia que a prostituição não é a profissão mais antiga da mulher, mas sua vocação mais antiga. Sua ideia não é maldizer as mulheres (só o imbecis pensam assim), sua ideia é enaltecer o caráter erótico e pecaminoso do desejo que se tem pelas mulheres. Ideias como essa do Nelson são como verdadeiros “marcadores” contra o sexo correto. Quando ouvida, quem se revolta contra ela é um analfabeto em sexo. E, infelizmente, o lugar onde se encontram mais analfabetos no Eros é onde se acumulam inteligentinhos: o mundo da cultura e do pensamento. As universidades contemporâneas são lugares sem nenhum Eros e com muita política. Apesar de as meninas andarem de shortinhos no verão, os meninos preferem seus iPhones. Temem as meninas porque muitas delas, transformadas em chatinhas corretas, não permitem que os meninos digam mais nenhuma palavra na sala de aula. Elas não percebem que, quando desaparecer o desejo masculino, elas ficarão invisíveis para si mesmas. Talvez mil anos nos curem do sexo politicamente correto, ditado por algumas pessoas que sempre tiveram má sorte no amor e pouco sexo de qualidade na vida. O sexo politicamente correto é uma receita infalível para se ficar feia.

(LUIZ FELIPE PONDÉ - GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DO SEXO)

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publicado às 22:40


A sexualidade grega

por Thynus, em 25.12.15
Não é só com relação ao ócio que devemos lembrar que os antigos tinham outros conceitos que não os nossos. Sexualidade é uma noção inventada modernamente e refere-se à maneira como se expressam as relações entre os sexos e os seus desejos. (Amor e sexualidade estão relacionados um ao outro e, no mundo ocidental em que vivemos, não se pode separar estes temas de dois aspectos que não existiam na Antigüidade grega: a herança judaico-cristã e o discurso científico surgido no século xix d.C. No primeiro caso, as relações sexuais ligam-se tradicionalmente às noções de culpa e pecado, de abstinência e controle dos desejos, considerados, de uma maneira ou de outra, ligados às forças do demônio. [pág. 052]A noção de pecado original é muito importante, pois se associa a queda do homem do Paraíso, à descoberta da nudez e, portanto, da sexualidade. Segundo o Gênesis (3, 6-7):
Viu, pois, a mulher que o fruto da árvore era bom para comer e formoso aos olhos e de aspecto agradável; e tirou do fruto dela e comeu; e deu a Adão, que também comeu. E os olhos de ambos se abriram: e, tendo conhecido que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram para si cinturas.
No Cristianismo tradicional, justifica-se a relação sexual apenas e tão-somente para a reprodução e, por isso, o casamento foi, durante muitos séculos, algo somente tolerado pela Igreja. O Protestantismo, que viria a abençoar a procriação, seguia uma tradição também presente na Bíblia, segundo a qual o homem devia "crescer e multiplicar-se". Contudo, mesmo aqui, justifica-se a relação sexual apenas na busca da procriação. Isto não significa que não tenha, sempre, havido muitas práticas diversas destas aqui expostas, mas o que importa é que havia um padrão moral que, ao não ser seguido, implicava uma sanção externa, por parte das autoridades eclesiásticas, mas também internas. A internalização da culpa associada ao sexo fez com que, ainda que o comportamento fosse muito diverso, o sentimento de culpa fosse muito forte. A partir do século xIx d.C., houve um crescente interesse do homem pelo estudo das ciências, e a sexualidade humana passou a ser considerada algo não do reino divino, mas do animal. A inserção do ser humano no reino animal foi capital para se encarar a sexualidade como instintiva e, em muitos aspectos, semelhante àquela dos outros animais. Retirada, aparentemente apenas, a culpa, a sexualidade passou a ser considerada algo cientificamente estudável. Alguns estudiosos levaram esta perspectiva aos extremos de quantificar tudo o que se refere ao sexo: quantas relações sexuais por semana, quanto tempo leva cada uma, qual o número de parceiros, qual o sexo dos parceiros. Criaram-se, então, conceitos novos, como o de "homossexualidade", tal como o usamos no dia-a-dia, ou seja, aplicado a pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo. Com o tempo, e como decorrência, surgiram conceitos como "heterossexualidade" e "bissexualidade". O que nos [pág. 053] interessa é que, hoje em dia, somos herdeiros de duas concepções bastante diversas de sexualidade: aquela tradicional, ligada às sanções morais da religião, e a abordagem derivada da ciência. Para que entendamos como era a sexualidade grega, temos que nos despir destas duas concepções que não existiam no mundo grego. As relações sexuais entre os humanos não existem fora da cultura e, por isso mesmo, nunca poderíamos pensar em relações sexuais "segundo os instintos animais", pois esses instintos, que existem, só se expressam em contextos específicos. Isto fica claro por uma analogia com outro instinto, a fome. O substrato instintivo da fome só pode se manifestar em desejos impostos por uma cultura determinada. Feijoada, hambúrguer e chucrutz são maneiras muito diversas de matar a fome, e a cultura determinará qual nos satisfaz. No caso das relações sexuais, o mesmo se passa, ainda que não o notemos tão facilmente. Hoje em dia não estamos acostumados com casamentos arranjados, mas sabemos que existem em muitos países. Tampouco é legal a poligamia no Ocidente, mas é algo aceito em outros lugares, como em alguns países muçulmanos. Quem já não ouviu falar em "harém"?)
Após este longo preâmbulo, podemos chegar aos gregos. Já mencionei que, nas elites, os casamentos eram arranjados e não ocorriam, portanto, por amor, tal como nós o concebemos, entre duas pessoas que, por comunhão de idéias e de atrações, namoram e se casam. A própria idéia de beleza feminina era completamente diferente da nossa. Em primeiro lugar, os maridos gregos procuravam nas mulheres a perfeição física, ou seja, a ausência de defeitos e, em seguida, uma robustez que permitisse antever bons partos. Pele clara demonstrava a beleza, significando que a mulher não era obrigada a se expor ao sol para o trabalho e ficava reclusa no gineceu, como se chamavam os aposentos femininos. A timidez era também considerada uma qualidade para uma boa esposa. Na escolha dos futuros maridos para as filhas, a força era valorizada, mas ainda mais o era a coragem e sua inserção social, sua posição. Isto tudo se dava entre a gente "de bem", pois, para a imensa maioria de cidadãos mais simples, o casamento, mais do que uma união de famílias e de propriedades, era uma maneira de conseguir sobreviver trabalhando em conjunto. [pág. 054]
 
Na elite, o sistema familiar era patriarcal e fortemente limitador da liberdade das mulheres. Um de seus traços mais marcantes era a separação muito clara entre o mundo feminino e o masculino, aquele voltado para a casa e para a reprodução e este para a vida em sociedade.
Desde tempos antigos, antes do uso da escrita alfabética, na sociedade homérica, já existia entre os gregos o conceito de "amor nobre", aquele entre homens. Isso mesmo, "nobre", porque baseado nas afinidades de idéias, na relação de aprendizado, a chamada pederastia. Este nome indica que se trata de uma relação "pedagógica", ou seja, de educação, de uma relação entre professor e aluno. (Em grego, menino é paidos, palavra da qual derivam pederastia e pedagogia.) Havia, pois, relações sexuais e amorosas entre adultos e meninos imberbes sem que, no entanto, houvesse a culpa (que, com vimos, se origina do Cristianismo), ou de "homossexualidade", no sentido de relação exclusiva entre homens. Esses homens, em primeiro lugar, eram considerados homens, não eram classificados como uma outra categoria, como hoje seriam os gays. Em segundo lugar, este tipo de comportamento era generalizado entre a elite grega e não era exceção, era a regra. Por isso [pág. 055] mesmo, os romanos se referiam ao amor entre homens como "amor à grega". Em terceiro lugar, esses homens não deixavam de se relacionar com mulheres; antes do casamento, mantinham relações com as hetairas, "companheiras" de banquetes, que, obviamente, não seriam as esposas legítimas. Nesses banquetes, comia-se, bebia-se e, principalmente, conversava-se, filosofava-se, mas havia também relações sexuais que envolviam tanto homens entre si como com as hetairas, enfim, verdadeiras orgias. Um poema de Alceo é claro a este respeito: "Que alguém me traga o belo Menón, se querem que eu desfrute o banquete". Os casados não deixavam de se preocupar com a reprodução da família. Porém, podia-se, ainda, manter relações sexuais com os escravos, homens ou mulheres. Havia, pois, na Grécia Antiga, diversos tipos de relações sexuais e amorosas concomitantes e socialmente bem aceitas. Já disse que os gregos não sentiam culpa, nem encaravam o sexo como algo cientificamente analisável: para eles o sexo era algo ligado à natureza das coisas e, portanto, às forças divinas. Não é à toa que acreditassem em diversos deuses ligados à sexualidade e ao amor: Afrodite, a Vênus dos romanos, era, sem dúvida, considerada a deusa mais importante. Por isso mesmo, a palavra para designar as relações amorosas era, em geral, aphrodisia, "o que está sob domínio de Afrodite". Nem todos se comportavam sexualmente do mesmo modo. A imensa maioria de camponeses não participava da cultura sexual da elite, embora, mesmo entre eles, não houvesse qualquer reprovação moral às eventuais relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo já que, como se disse, o desejo sexual era tido como algo divino. Havia, entretanto, críticas sociais a dois tipos de comportamentos gerados, em ambos os casos, pelo descontrole. Deixar-se levar pelos desejos sexuais, caso isto implicasse atitudes consideradas pouco apropriadas, como uma paixão incontrolável, era condenado. Neste caso, a reprovação poderia recair também sobre o amor desenfreado por alguém de outro sexo, mas isto era menos provável, tendo em vista as distâncias intelectuais entre homens e mulheres. Um segundo comportamento moralmente condenável era o descontrole que levava, no homem, aos modos efeminados, considerados falta de moderação. [pág. 056]

(Pedro Paulo Funari - Grécia e Roma)

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publicado às 21:44

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O Céu odeia presunto
Todas as religiões têm a tendência de apresentar alguma determinação ou proibição alimentar, seja a hoje ignorada determinação católica de comer peixe às sextas-feiras, a adoração pelos hindus da vaca como animal sagrado e invulnerável (o governo da Índia chegou mesmo a se oferecer para importar e proteger todo o gado ameaçado de abate como resultado da encefalopatia espongiforme bovina, o "mal da vaca louca", praga que varreu a Europa na década de 1990), ou a recusa por alguns outros cultos orientais de consumir qualquer carne de animal ou de ferir qualquer outra criatura, seja ela um rato ou uma pulga. Mas o mais antigo e resistente de todos os fetiches é o ódio e mesmo o medo do porco. Ele surgiu na Judeia primitiva, e durante séculos foi uma das formas — sendo a outra a circuncisão — pelas quais os judeus podiam ser identificados.
Embora a sura 5.60 do Corão condene particularmente os judeus, mas também outros nãocrentes, como tendo sido transformados em porcos e macacos — um tema muito presente na pregação muçulmana salafista recente — e o Corão descreva a carne de suíno como impura ou mesmo "abominável", os muçulmanos parecem não ver nenhuma ironia na adoção desse tabu especificamente judaico. Um verdadeiro horror aos suínos se manifesta em todo o mundo islâmico. Um bom exemplo é a manutenção da proibição do A revolução dos bichos, de George Orwell, uma das mais encantadoras e úteis fábulas do mundo moderno, uma leitura da qual os alunos muçulmanos são privados. Eu acompanhei algumas das solenes proibições escritas por ministros da Educação árabes, que são tão estúpidos que não conseguem perceber o papel malévolo e ditatorial desempenhado pelos porcos na própria história.
Orwell de fato não gostava dos porcos, em consequência de seu fracasso como pequeno fazendeiro, e essa aversão é partilhada por muitos adultos que tiveram de trabalhar com esses animais difíceis. Apertados em chiqueiros, os porcos tendem a agir porcamente, como era de esperar, e a ter lutas barulhentas e nojentas. Não é incomum eles comerem as próprias crias e mesmo o próprio excremento, enquanto sua tendência a uma vida amorosa libertina é frequentemente dolorosa para olhos mais delicados. Mas frequentemente foi observado que porcos deixados à própria conta, e com espaço suficiente, se mantêm bastante limpos, preparam pequenos nichos, criam famílias e interagem socialmente com outros porcos. As criaturas também apresentam muitos sinais de inteligência, e foi calculado que a proporção crucial — entre peso do cérebro e peso do corpo — é quase tão alta nelas quanto nos golfinhos. O porco é altamente adaptável a seu ambiente, como testemunham javalis e "porcos selvagens" em oposição aos plácidos leitões brincalhões de nossa experiência mais próxima. Mas o casco fendido se tornou sinal do diabo para os tementes, e ouso dizer que é fácil inferir o que surgiu primeiro — o diabo ou o porco. Seria meramente tedioso e estúpido especular como o criador de todas as coisas concebeu uma criatura tão versátil e então ordenou que sua maior criação mamífera a evitasse completamente ou corresse o risco de sua insatisfação eterna. Mas muitos mamíferos em outros aspectos inteligentes adotam a crença de que o céu odeia presunto.
Espero que agora você já tenha percebido aquilo que sabemos — que esse belo animal é um de nossos primos mais próximos. Ele partilha conosco boa parte do DNA, e já foram feitos transplantes bem-sucedidos de pele, válvulas cardíacas e rins de porcos para humanos. Se — o que eu espero de todo coração que não aconteça — um novo dr. Moreau pudesse corromper os recentes avanços na clonagem e criar um híbrido, em geral teme-se que um "homem porco" seria o resultado mais provável. Enquanto isso, quase tudo no porco é útil, de sua carne nutritiva e deliciosa até sua pele bronzeada como couro e seus pelos na forma de escovas. Na graphic novel de Upton Sinclair do matadouro de Chicago, The Jungle, é angustiante ler sobre o modo como os porcos são transportados pendurados em ganchos, gritando quanto suas gargantas são cortadas. Mesmo os nervos mais fortes dos trabalhadores mais calejados são abalados pela experiência. Há algo no guincho...
Para reforçar um pouco mais, pode-se notar que crianças que não são perturbadas por rabinos e imãs sentem grande atração pelos porcos, especialmente os filhotes, e que em geral bombeiros não gostam de comer porco grelhado ou torresmo. A palavra vernácula bárbara para humano tostado em Nova Guiné e em outras regiões era "grande porco": eu pessoalmente nunca tive essa relevante experiência gastronômica, mas parece que nós, comidos, temos um gosto muito parecido com o dos porcos.
Isso ajuda a tornar absurdas as habituais explicações "seculares" da proibição judaica original. Argumenta-se que a proibição era inicialmente racional, dado que em climas quentes a carne de porco se torna rançosa e desenvolve os vermes da triquinose. Essa objeção — que provavelmente se aplica ao caso de mariscos não-kosher — é absurda quando aplicada às atuais condições.
Primeiramente, a triquinose é encontrada em todos os climas, e na verdade ocorre mais nos frios do que nos quentes. Em segundo lugar, antigos assentamentos judaicos na terra de Canaã podem ser facilmente identificados pelos arqueólogos pela ausência de ossos de porcos nos depósitos de lixo, em oposição à presença desses ossos nos monturos de outras comunidades. Em outras palavras, os nãojudeus não adoeciam e morriam por comerem porco. (Afora qualquer outra coisa, se eles tivessem morrido por essa razão, não haveria a necessidade de que o deus de Moisés insistisse em que fossem massacrados pelos que não comem porco.)
Portanto, deve haver outra resposta para o enigma. Eu considero minha própria solução original, embora sem a ajuda de James Frazer e do grande Ibn Warraq eu talvez não tivesse chegado a ela. De acordo com muitas autoridades antigas, a postura dos antigos semitas em relação aos suínos era tanto de reverência quanto de desgosto. Comer carne de porco era considerado algo especial, até mesmo privilegiado e ritualístico. (Essa confusão louca entre o sagrado e o profano é encontrada em todos os credos em todas as épocas.) A simultânea atração e repulsão derivavam de uma raiz antropomórfica: o olhar do porco, o gosto do porco, os gritos de agonia do porco e a evidente inteligência do porco lembravam de forma excessivamente desconfortável o humano. Assim, a porcofobia — e a porcofilia — provavelmente teve origem em uma noite de sacrifício humano e mesmo canibalismo da qual os textos sagrados frequentemente dão mais que um vislumbre. Nada opcional — da homossexualidade ao adultério — pode ser punido a não ser que aqueles responsáveis pela proibição (e que estabelecem as terríveis punições) tenham um desejo reprimido de participar. Como mostrou Shakespeare em Rei Lear, o policial que açoita a prostituta tem um forte desejo de usá-la para o mesmo crime pelo qual ele brande o açoite.
A porcofilia também pode ser utilizada para objetivos opressivos e repressivos. Na Espanha medieval, onde judeus e muçulmanos eram compelidos pela dor da morte e da tortura a se converterem ao cristianismo, as autoridades religiosas adequadamente suspeitaram que muitas das conversões não eram sinceras. De fato a Inquisição foi fruto em parte do medo santo de que infiéis disfarçados estivessem assistindo às missas — nas quais, claro, e de modo ainda mais desagradável, eles fingiam comer carne humana e beber sangue humano na pessoa do próprio Cristo. Entre os hábitos surgidos como consequência estava o oferecimento, na maioria dos acontecimentos formais e informais, de um prato de salsichas e linguiças. Aqueles que já tiveram a felicidade de visitar a Espanha ou qualquer bom restaurante espanhol conhecem o gesto de hospitalidade: literalmente dezenas de pedaços de porco diferentemente curados e cortados. Mas a terrível origem disso é um esforço constante de identificar a heresia, e estar completamente atento a uma expressão de desgosto não disfarçada. Nas mãos de ansiosos fanáticos cristãos, até mesmo o delicioso jamón ibérico podia ser empregado como forma de tortura.
Hoje a antiga estupidez se abate novamente sobre nós. Muçulmanos fanáticos na Europa estão exigindo que Os Três Porquinhos, Miss Piggy, o bacorinho de Ursinho Pooh e outros tradicionais animais de estimação e personagens sejam afastados do olhar inocente de seus filhos. Os tristes frutos da jihad provavelmente não leram o bastante para conhecer a Imperatriz de Blandings ou o infinitamente renovado prazer do Conde de Emsworth nas esplêndidas páginas do incomparável autor sr. Whiffle em The Care of the Pig, mas haverá problemas quando eles chegarem a esse ponto. Uma velha estátua de um javali em um jardim botânico no interior da Inglaterra já foi ameaçada de um irracional vandalismo islâmico.
No microcosmo, esse fetiche aparentemente banal mostra como a religião, a fé e a superstição distorcem nossa noção geral do mundo. O porco é tão próximo de nós e tem sido tão útil a nós de tantas formas que humanistas agora defendem a tese de que ele não deveria ser criado em fazendas que parecem fábricas, confinado, separado da prole e obrigado a viver em meio a seu próprio estrume. Deixando de lado todas as outras considerações, a carne rosada e mole resultante é um tanto repulsiva. Mas essa é uma decisão que podemos tomar à luz da razão e da compaixão, que se estende a criaturas irmãs e parentes, não como resultado de sortilégios de acampamentos da Idade do Ferro, onde crimes muito piores eram festejados em nome de Deus. "Cabeça de porco em uma vara", diz o nervoso mas valente Ralph frente ao ídolo supurando e coberto de moscas (primeiramente morto depois idolatrado) criado por alunos cruéis e assustados em O senhor das moscas. "Cabeça de porco em uma vara." E ele estava mais certo do que sabia e era mais sábio que os mais velhos e os calouros delinquentes.

(Christopher Hitchens - Deus não é Grande, como a religião envenena tudo)

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 O que fazer com uma religião tóxica?

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publicado às 02:34

A vagina só podia ser reconhecida como órgão de reprodução, como espaço sagrado dos “tesouros da natureza” relativos à maternidade. Nada de prazer. As pessoas consideradas “decentes” costumavam se depilar ou raspar as partes pudendas para destituí-las de qualquer valor erótico. Frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos eram apanágios das prostitutas. Tal lugar geográfico só podia estar associado a uma coisa: à procriação.
Em 1559, outro Colombo – não Cristovão –, mas Renaldus, descobria outra América. Ou melhor, outro continente: o “amor Veneris dulcedo appeletur ” ou clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez e que era, segundo sua descrição, “a fonte do prazer feminino”. A descoberta, digerida com discrição nos meios científicos, não mudou a percepção que existia, há milênios, sobre a menoridade física da mulher. O clitóris não passava de um pênis miniaturado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. Sua existência apenas endossava a tese, comum entre médicos, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens, porém – segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV – “elas as possuíam no interior do corpo e não no exterior”. Galeno, que, no século II de nossa era, esforçara-se por elaborar a mais poderosa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, empenhou-se com afinco em demonstrar que a mulher não passava, no fundo, de um homem a quem a falta de perfeição conservara os órgãos escondidos.
(MARY DEL PRIORE - Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil)
 
Clitóris
A parte visível tem um aspecto semelhante a
uma ervilha, ou a um grão de milho. O
clitóris esconde-se por debaixo de um capuz,
na parte de cima da vulva, onde os pequenos
lábios se unem. O clitóris é formado por um
tecido esponjoso e eréctil muito sensível à
estimulação sexual. É a maior concentração
de fibras nervosas do corpo - são cerca de
8000 -, mais do que as existentes nas pontas
dos dedos, dos lábios, ou da língua e tem o
dobro de fibras nervosas do pénis. Quando a mulher se excita, 
o clitóris fica inchado (intumescido) e elástico.
Ao contrário do que se pensava, as raízes do
clitóris estendem-se interiormente, como
dois dentes, para além daquilo que é perceptível,
tornando a zona sensível e excitante
bastante mais abrangente do que se imaginava.
O clitóris é o único órgão feminino
que tem como função exclusiva: proporcionar prazer.
 
(Marta Crawford - Sexo sem Tabus)
 
Abaixo segue uma compilação de cenas que 
se repetem milhões de vezes todas as noites ao redor do mundo:
O homem finalmente consegue chegar lá embaixo
 e se atrapalha para colocar a mão onde importa.
O homem começa a fazer movimentos circulares 
ou aleatórios para cima e para baixo, rezando
para atingir o lugar certo e não parecer surpreso.
A mulher geme e o homem pensa que está se saindo bem.
A mulher para de gemer.
O homem muda de técnica e acelera, 
enquanto a mulher pede para ele ir um pouco mais devagar.
O homem vai mais devagar e, em exatamente 
cinco segundos de reação ligeiramente positiva, nada acontece.
O homem se sente como um cão tentando abrir a porta sem ter os polegares.
Se ele está ali para pegar o clitóris vivo ou morto,
como a maioria dos homens, a mulher
cuidadosamente impede o ataque a esmo depois de uns 10 minutos.
No melhor dos cenários, eles passam para algo 
que o homem consiga entender, como o pênis dentro da vagina.
Ele é um animal estúpido, pessoal. Tenham piedade.
Confusão clitoriana
O clitóris parece um pouco com a Guarda Imperial de Guerra nas estrelas.
Ele também é muito maior do que se pensa.
A glande do clitóris, à qual a maioria das pessoas se
refere como “clitóris”, estende-se para trás e se divide
num “V” invertido. Essas “pernas”, os ramos,
ficam escondidas sob os pequenos lábios.
Alguns pesquisadores acreditam que a estimulação do
“ponto G” nada mais é do que a estimulação do ramo e que
todos os orgasmos se originam da estimulação clitoriana.
Outros pesquisadores, geralmente homens, discordam.
Não há nada de novo nisso.
Os homens discutem o clitóris há cerca de 2.500 anos.
Dizem por aí que tudo começou em 1559.
Realdo Colombo, da Universidade de Pádua, na Itália,
anunciou a descoberta do clitóris e nele fincou sua bandeira:
“Como ninguém compreende essas
projeções e seu funcionamento,
se é possível dar nomes à coisa por mim descoberta, vou chamá-la
de amor ou doçura de Vênus.”
Gabriele Falloppio, sucessor de Realdo e mais tarde famoso pelas
trompas de Falópio, refutou a afirmação do seu antecessor,
como todos os italianos, dinamarqueses e todos os cromossomos Y.
Na verdade, Hipócrates havia saído na frente de Realdo
mais de 1.300 anos antes, mas o clitóris
parece cair periodicamente na obscuridade, geralmente durante décadas.
Ele existe mesmo? Ou é uma ilusão? Ele tem vida? Ou está morto?
Ninguém sabia até que ele ressurgiu de repente, assim
como Osama bin Laden na CNN.
Não é difícil entender por que os homens preferem ignorá-lo.
Se o clitóris não existe, ou se é
imprevisível, os homens podem considerá-lo
um problema feminino. E, se tudo não passa de um
problema feminino, os homens não podem ter seus
egos esmagados como uma uva entre as nádegas da Serena Williams.
(Timothy Ferriss - 4 Horas para o Corpo)
 

Suba os pequenos lábios e chegará onde eles se encontram, bem
abaixo do monte de Vênus. Ali, forma-se uma capa que protege a
glande sensível do clitóris, que é similar à glande (cabeça) do pênis no
que diz respeito à abundância de nervos sensíveis. Normalmente, a
glande está aninhada embaixo da capa, que pode ser vista puxando-a
gentilmente para trás. A glande é tão sensível que pouquíssimas mulheres
acham o estímulo direto doloroso. Estas mulheres preferem mais
o estímulo feito no eixo do clitóris, que se estende em direção do
monte e pode ser sentido logo abaixo da pele, como um tecido de estrias
salientes. Após o orgasmo, muitas mulheres acham que seu clitóris
continua sensível ao toque direto por vários minutos. Esta hipersensibilidade
é similar ao que os homens sentem após ejacular.
Como o pênis, o clitóris é feito de um tecido erétil, e a glande incha
com o sangue quando estimulada. Várias pessoas comparam o
clitóris com a cabeça do pênis, e com relação ao desenvolvimento, eles
se originam do mesmo tecido embrionário. O clitóris é inigualável,
pois é o único órgão que existe exclusivamente para o prazer sexual.
Chega de acreditar que as mulheres são mais fracas que os homens:
elas são as únicas que têm uma parte de seu corpo totalmente dedicada à excitação.

(Douglas Abrams & Mantak Chia - O Orgasmo Múltiplo do Homem)

 
Se ilustrações explícitas da anatomia feminina o incomodam, 
talvez você queira pular este capítulo.
É sério. Há vaginas em abundância.
As revistas masculinas contêm muito poucos 

conselhos porque os homens pensam: 
“Sei o queestou fazendo. Basta me mostrar uma mulher pelada.”
(Jerry Seinfeld)
 
 
 

Ainda que a sexualidade humana seja estudada há milhares de anos, existem alguns mistérios que foram revelados não faz muito tempo. Um dos segredos que permaneceram guardados por muitos séculos foi a complexidade do clitóris interno. Somente em 2009 os cientistas conseguiram entender alguns detalhes importantes da anatomia feminina.
Primeiramente, imagine o órgão sexual da mulher. Conseguiu? E se disséssemos que o que você está pensando é só a pontinha do iceberg? Na verdade, o clitóris é muito mais amplo que essa terminação nervosa conhecida como grandes lábios. Abaixo, você confere um modelo ilustrativo feito pela Ms. M, chefe e redatora do MoSex – blog oficial do Museum of Sex.
 

Entendendo o clitóris

O nome científico do “botãozinho” ou “bulbo” do clitóris é glande (glans clitoridis). Essa pequena estrutura contém aproximadamente 8 mil feixes de fibras nervosas – mais do que qualquer parte do corpo humano e duas vezes mais do que a quantidade encontrada na cabeça do pênis. Todavia, grande parte do clitóris é subterrânea, e constituída a partir de dois corpos cavernosos, duas crura (crus quando se refere a estrutura como um todo) e o bulbo clitoridiano.
A glande é conectada ao corpo ou eixo do clitóris interno, o qual é feito de dois corpos cavernosos. Quando esses tecidos ficam eretos, eles revestem a vagina de ambos os lados, como se estivessem enrolando-se e abraçando o órgão sexual da mulher.
 
Além disso, os corpos cavernosos se estendem muito além no corpo feminino, bifurcando-se para formar as duas crura. Essas duas pontas podem alcançar até 9 cm, sendo direcionadas para as coxas quando estão em estado relaxado e se encolhendo para espinha quando ficam eretas.

Os mistérios da vagina

Existem muitas razões que justificam a falta de entendimento sobre o órgão sexual feminino, porém, segundo um artigo publicado pela urologista Helen O’Connel em 2005, existem dois motivos principais. O primeiro deles seriam as descrições incompletas e erradas sobre o assunto, visto que muitos estudos só abordam a parte relativamente pequena e externa do clitóris.
Além disso, alguns se limitam a representar a anatomia com imagens bidimensional. Segundo O’Connell, esse tipo de representação fornece informações insuficientes para entender a estrutura completa.
Já a segunda razão é que ninguém nunca procurou entender o processo de excitação do clitóris até o fim da década de 1990, quando os pesquisadores finalmente decidiram utilizar métodos de ressonância magnética para analisar a estrutura interna de um exemplar vivo – a mesma estratégia já tinha sido usada para analisar a anatomia masculina na década de 1970.
 

Segundo Ms. M, somente em 2009 os cientistas Odile Buisson e Pierre Foldés produziram a primeira sonografia tridimensional de um clitóris ereto. “Eles desenvolveram esse trabalho durante três anos sem nenhum apoio financeiro”, explicou a redatora.
“Graças a eles, hoje em dia nós conseguimos compreender como o tecido teso do clitóris abraça e reveste os arredores da vagina – uma descoberta inovadora que explica porque antigamente considerávamos o orgasmo vaginal, quando na verdade ele é clitoriano”, conclui.

 (Mega Curioso)

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publicado às 17:51


Nietzsche e a “morte de Deus”

por Thynus, em 20.12.15
Niilismo (do lat. nihil: nada) 1. Doutrina
filosófica que nega a existência do *absoluto,
quer como verdade, quer como valor ético.
2. Termo empregado por Nietzsche para
designar o que considerou como o resultado
da decadência europeia, a ruína dos valores
tradicionais consagrados na civilização
ocidental do séc. XIX. Caracteriza-se pela
descrença em um futuro ou destino glorioso
da civilização, opondo-se portanto à ideia de
progresso; e pela afirmação da “morte de
Deus”, negando a crença em um absoluto,
fundamento metafísico de todos os valores
éticos, estéticos e sociais da tradição. O niilismo
nietzschiano deve, no entanto, levar a
novos valores que sejam “afirmativos da
vida”, da vontade humana, superando os
princípios metafísicos tradicionais e a “moral
do rebanho” do cristianismo e situando-se
“para além do bem e do mal”.
3. O escritor russo Ivan Turgueniev usou
a palavra “niilismo” em seu romance Pais e
filhos, dando-lhe o novo significado de “ação
revolucionária de iniciativa e cooperação de
intelectuais”, em reação à autocracia russa, e
recomendando a utilização do terrorismo
para modificar o regime econômico, social e
político da Rússia.
 
(HILTON JAPIASSÚ, DANILO MARCONDES
- DICIONÁRIO BÁSICO DE FILOSOFIA)
 
Motivos niilistas perpassam e caracterizam de modo peculiar
o pensamento francês pós-guerra. A reflexão de Jean-Paul
Sartre (1905-80) é constantemente empenhada em confrontarse
com as grandes questões que o nihil inspira: sentido da existência,
liberdade, engajamento, concepção da história. O
homem “é aquele ente em que a existência precede e determina
a essência”: isso implica na negação e na dissolução de
quaisquer idéias de Deus, princípios, valores heteronômicos. O
homem é condenado a ser livre; é obrigado, no seu abandono,
a inventar a sua própria vida. Ele não é uma realidade dada,
mas uma possibilidade que deve se dar. É aquilo que a cada vez
decide ser nas suas efetivas escolhas de vida. A liberdade,
porém, não é algo abstrato. A sua imensa força, mas também a
sua tragédia é que ela, o “para-si” — usando a terminologia de
O ser e o nada (1943) —, está sempre inserido em uma situação
determinada, lançado em uma condição, no mundo das
coisas, do “em-si”. Este choque condena o homem a uma nadificação
do mundo e de toda referência externa na qual se
apoiar, para afirmar unicamente a si próprio e a sua absoluta
liberdade que, portanto, se funda em uma falta de ser, isto é,
no nada. Na tentativa de se realizar o homem pretende, no
fundo, ser Deus. No entanto, a idéia de Deus é contraditória
porque aniquiladora, por excelência, de toda liberdade humana.
Não há soluções, “critérios” para nos fundamentar.
Escolher não faz sentido, a negatividade domina, o xeque é
(quase) mate, “o homem é uma paixão inútil”.
A mudança de caminho, que Sartre nunca deixará de
seguir, não tarda a aparecer. Em sua conferência proferida no
pós-guerra, O existencialismo é um humanismo? (1945, publicada
um ano mais tarde), o filósofo defende-se das acusações
de desengajamento e derrotismo, que sobretudo marxistas e
católicos lhe imputavam, e mostra que a filosofia
existencialista, mesmo com o seu fundo relativista e niilista, é
capaz de propor uma regeneração dos valores a partir da
“morte de Deus”. Mas isso só é possível se o homem, ao invés
de se perder em uma nostálgica busca de princípios, critérios e
verdades inexoravelmente decaídos, reinventar os seus valores
unicamente por força de si mesmo, mediante o seu engajamento
e da sua liberdade.
(Rossano Pecoraro)
 
O confronto com Nietzsche nos cursos de 1936 a 1940, e a
atenção, a preocupação com a experiência da negatividade vão
provocar a irrupção do niilismo no vocabulário filosófico de
Martin Heidegger (1889-1976), transformando-o em um conceito
fundamental da sua reflexão. No “Discurso do reitorado”
(1933) o filósofo cita Nietzsche lembrando a sentença da
“morte de Deus”, conclusão assombrosa de um lúcido diagnóstico
do presente, e tese que leva a refletir “sobre este abandono
do homem hodierno no meio dos entes”. Em 1936, em
um curso sobre Schelling, uma primeira indicação: Heidegger
discute o fenômeno do niilismo e põe, de forma suficientemente
clara, o problema do seu ultrapassamento. É nessa época
que o desafio começa: o filósofo mergulha em uma intensa
análise histórica e conceitual, que visa determinar o que é a
metafísica, o que é o niilismo, e como eles se relacionam e
definem a essência do Ocidente. Os momentos mais importantes
desta análise são dois: o confronto com Nietzsche e,
sobretudo, o diálogo com Jünger.
Na reflexão de Nietzsche, principalmente em sua última
fase, Heidegger entrevê um motivo condutor que tece as suas
doutrinas capitais (vontade de potência, eterno retorno, transvaloração,
niilismo, além-do-homem) em uma trama homogênea
ligada à tradição metafísica ocidental. Isolar um determinado
aspecto do seu pensamento, mesmo que decisivo, e
interpretá-lo a partir daí é uma operação insuficiente e reducionista:
Nietzsche não é apenas um moralista ou um psicólogo,
um pensador político e crítico da civilização ou um mero
filósofo da existência, mas sim um filósofo “objetivo”,
“rigoroso”, cujas doutrinas constituem a essencial e ineludível
consumação da metafísica, pensada de forma abismal nos seus
efeitos mais extremos.
É sabido que essa leitura heideggeriana é objeto de sérias
controvérsias e não está isenta de problemas e inexatidões. De
todo modo, o elemento que aqui deve ser ressaltado é relativo à
profunda crise pessoal e filosófica que a experiência do niilismo
nietzschiano desencadeia em Heidegger e à qual este
tenta responder nos anos sucessivos.
(Rossano Pecoraro)
 
O acontecimento que, hoje, marca a nossa relação com o
niilismo é o de que começamos a ser, e a poder ser, niilistas
consumados. E o niilismo é a nossa única chance porque a
morte de Deus e a perda da verdade são “fatos” extremamente
positivos. É necessário, portanto, acolher todos os seus efeitos,
até os mais assombrosos, e assumir radicalmente todas as suas
conseqüências sem se render — não somente às tentações do
niilismo reativo, da paralisia e do ressentimento, bem como às
de um relativismo estéril ou de um ceticismo inconcludente. Só
assim será possível intervir no mundo e indicar “fracamente”
valores éticos e políticos, ou seja, valores que não pretendem
ser definitivos, absolutos, peremptórios e violentos exatamente
porque provêm de uma concepção niilista, e também hermenêutica,
interpretativa, do mundo e da existência.
(Rossano Pecoraro)
 
 
Aula de Filosofia
 
Não é um exagero considerar Nietzsche o maior profeta e teórico do niilismo. Com efeito, é com ele que o niilismo se eleva histórica e conceitualmente a objeto e questão cardeais da especulação filosófica, quase um “ponto de estrangulamento” — a parte crítica de um problema cuja resolução abriria caminho para a compreensão, a “solução” do todo.
O termo é utilizado pela primeira vez nas notas do verão de 1880. No entanto, Nietzsche já percebera antes a importância do fenômeno e os seus traços marcantes não só seguindo o motivo da “morte de Deus”, como enfrentando os desafios postos pela sua própria elaboração, desde O nascimento da tragédia (1872) à chamada A vontade de potência, isto é, os fragmentos escritos nos anos 1885-89. É preciso assinalar aqui as influências (sucessivamente renegadas ou sutilmente reconhecidas e aproveitadas) de Schopenhauer, da “escola do pessimismo” alemão, de Dostoievski, Leopardi, e de Paul Bourget (1852-1935) — romancista e crítico literário francês cuja “teoria da decadência” constitui uma das principais bases da reflexão nietzschiana.
Essencialmente são dois os planos em que o filósofo alemão se move. No primeiro, o niilismo é um fenômeno negativo, que indica a decadência do homem ocidental cujas origens remontam ao racionalismo socrático, à oposição entre “mundo das Idéias” (ou formas) e “mundo sensível”, com a conseqüente depreciação desse último estabelecida por Platão; e ao cristianismo, definido como “platonismo para o povo”, acusado de impor uma moral da renúncia e da submissão e de desvalorizar e mortificar a vida e os seus valores em nome, e na espera, de um ideal transcendente, uma salvação, uma redenção. Por outro lado, o niilismo é positivamente avaliado, reconhecido como um “método genealógico” que o próprio Nietzsche utiliza para demolir os ídolos da tradição, desmascarar as falsidades e imposturas dos valores e das verdades tradicionais, e cujo movimento anuncia a superação do homem e o advento do “alémdo- homem” (ou do “super-homem”, outra tradução possível, mas talvez não muito adequada, do termo Übermensch).
A atitude crítica de Nietzsche manifesta-se já no começo da sua produção intelectual, isto é, nas páginas de O nascimento da tragédia quando a imagem tradicional, e dominante, do classicismo grego — com as suas formas harmoniosas, simétricas, ordenadas, definidas — é posta sob acusação. Ela não representaria o apogeu de uma civilização, mas sim o momento final de uma profunda decadência, de um processo de esgotamento de toda força criativa. O espírito grego, diz Nietzsche, é efeito de uma luta e de uma oposição; é uma reação de defesa, representa a dura vitória de Apolo, o deus das belas formas, da luz e do equilíbrio, sobre Dionísio, a divindade orgíaca da desmedida, da ebriedade e da recusa da moral e da razão. A beleza e a simetria clássica constituem, em suma, a reação diante do insustentável universo dionisíaco; representam a vitória da “ilusão apolínea”, a derrota do informe e do indistinto. A harmonia, a ordem, a serenidade dos gregos não são, portanto, origem, mas efeito. Resultam do poderoso esforço executado para superar o espanto dionisíaco, que foi tão intenso a ponto de gerar um violento contramovimento, ou seja, a imposição da medida apolínea do clássico.
Na grande tragédia grega de Ésquilo (525-456 a.C.) e de Sófocles (c.496-406 a.C.), o apolíneo e o dionisíaco — princípios constitutivos, contrapostos e meta-históricos — enfrentam-se e compõem-se. A síntese, porém, dura pouco e com as obras de Eurípides (480-406 a.C.) a tragédia morre. É a imposição de um novo ideal. É o começo do niilismo, da decadência e do declínio: o racionalismo otimista de Sócrates, a confiança no logos, o domínio do homem teórico, do sábio, abrem caminho para o platonismo, com a sua teoria dos dois mundos, e para o cristianismo.
A fase que começa no final dos anos 1870 é, de modo geral, considerada a época “iluminista” do pensamento nietzschiano, na qual se intensifica e se refina o labor de desmascaramento do chamado “mundo verdadeiro”, dos valores e das verdades da metafísica. A “análise química” (neste sentido, Humano demasiado humano (1878) adquire um fundamental caráter programático) revela que valores, (pré)conceitos, motivações e o próprio conhecimento — postos como universais, puros e desinteressados — nada mais são que metástases de razões contingentes, ordinárias, mesquinhas, humanas. A polêmica contra a “doença histórica”, a luta contra a tradição, os vínculos e os fardos de um passado asfixiante visam ao surgimento de um homem livre que, como se lê no aforismo 9 de Aurora (1881), “não possui vínculos, pois ele quer depender em tudo de si mesmo e não de uma tradição”; e têm por fim um universo emancipado, livre.
O simples exercício da razão não é suficiente, assim como não o é um movimento que visa apenas destruir ou desmascarar os valores da tradição. Ao filósofo de cunho kantiano, “operário da cultura” — que se limita a criticar o que existe em nome de um progressivo esclarecimento racional —, Nietzsche contrapõe o “filósofo legislador”, cuja capacidade artística de criar novos valores (com a lúcida consciência de que não se trata de uma verdade mais verdadeira, mas sim, apenas, de uma nova fábula, um novo mito; de uma nova máscara que é reconhecida e assumida como tal) junta-se à crítica e ao desmascaramento do mundo da tradição.
No cume da dialética do iluminismo (A Gaia ciência é a obra em que ela se consome, e abre uma nova fase da reflexão nietzschiana) é preciso “impor” o desmascaramento do desmascaramento. Torna-se necessário renunciar definitivamente ao phatos da verdade, às (vãs) promessas consoladoras do mundo verdadeiro e afundar em um universo cômico e farsesco, salvífico e criador, no qual tudo é máscara.
A quarta seção (“Como o mundo verdadeiro se tornou fábula”) do Crepúsculo dos ídolos (1888), é significativa. Delineia-se aí uma história do niilismo em seis etapas: Platão, o cristianismo, Kant, o ceticismo pós-kantiano e idealista, a abolição do mundo verdadeiro e do mundo aparente. Nesta última parte do labor de demolição reside a chave da solução, do remédio, do ultrapassamento nietzschiano do niilismo.
Veio o meio-dia: é tempo de Zaratustra e dos seus ensinamentos. Abolir o mundo aparente não significa eliminá-lo, aniquilá-lo, nem tampouco inverter a oposição, ou seja, substituir ao mundo ideal e aos seus valores já destruídos o mundo sensível, mas sim retirar-lhe o seu caráter de aparência (sem porém lhe atribuir, como é óbvio, o de verdade). Trata-se de dissolver o julgamento platônico-cristão — que depreciou este mundo e esta vida em nome de um além — de um algo totalmente outro, inalcançável porém redentor, e deste modo abrir caminho para uma nova concepção do sensível, da vida, da verdade. O mundo verdadeiro que se tornou uma fábula não é o que se definiu como “verdadeiro”, ao qual se atribuía um valor próprio de verdade, o “pretenso” mundo verdadeiro, mas sim o mundo na sua inteireza. Não possuir mais um “critério de verdade”, mediante o qual desvendar a fábula como aparência, ilusão e engano, não quer dizer apenas que a fábula não mais o é. Quer dizer que a noção de fábula não perde em absoluto o seu sentido, já que, de fato, ela proíbe atribuir às aparências que a compõem a força coercitiva que pertencia ao mundo dito “superior”, o da transcendência e dos absolutos. Em outros termos: uma autêntica emancipação não se dá com a construção de novos âmbitos de verdade, mas sim mediante a dissolução da própria noção de verdade e da criação de novas fábulas (a verdade se pluraliza) que não se fundam em nada, ou melhor, que não encontram a sua validade e a sua legitimidade na crença em um fundamento ou princípio exterior. É neste horizonte teórico que se insere a “morte de Deus”. Através de Philipp Mainländer (1841-76) — “Deus morreu e a sua morte foi a vida do mundo”, escreveu em 1876, em A filosofia da redenção, que Nietzsche conhecia — chega-se ao famoso aforismo 125 de A Gaia ciência em que o louco anuncia o assassinato de Deus: “Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos!”
A metáfora suprema, o sentido último pereceu; a verdade não existe, mundo ideal e mundo aparente se dissolvem, só há máscaras e a criação incessante de novos mitos. A consumação do “iluminismo” nos seus efeitos niilistas, porém, não encontrou ainda uma humanidade capaz de corresponder-lhe. É preciso, pois, que alguém lhe indique o caminho, vale dizer, Zaratustra, com os seus mitos e as suas máscaras. O começo dos discursos (“Das três metamorfoses”) é, a um só tempo, diagnóstico e terapia, descrição e profecia. É uma espécie de “fenomenologia do mundo” na qual Nietzsche compreende a evolução de seu próprio pensamento. O espírito que se torna camelo, “animal de carga, suportador e respeitador”, que carrega os pesados fardos da tradição; a sua transformação em leão e a revolta niilista. O leão, porém, não pode criar novos valores, mas pode criar para si a liberdade de novas criações. Ele pode conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever. Por fim, a tão almejada “redenção”, com o espírito que se torna criança. Ela é “inocência”, “esquecimento”, um “novo começo”, uma “roda que gira por si mesma”, um “movimento inicial”. Para o jogo da criação, escreve Nietzsche, é preciso “dizer um sagrado ‘sim’. O espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo”. As etapas “fenomenológicas” representadas pelas três metamorfoses são emblemáticas. O camelo e o leão avançam no deserto; e o deserto é o niilismo — condição histórica de um mundo decadente, que matou Deus e a Verdade, mas sem ainda conseguir medir as proporções do próprio ato e tirar dele todas as conseqüências. Qual o auspício de Nietzsche? A transformação em criança, a inocência do devir, o ultrapassamento da transição humana, o além-dohomem, o dizer “sim” ao eterno retorno, a criação de sempre novas (e caducas) máscaras, a vontade de potência.
O niilismo encarna-se no último homem — o que há de mais desprezível e que tudo apequena. O niilismo e o último homem devem ser ultrapassados: é preciso um contramovimento positivo cuja propulsão não pode provir do renascimento dos ideais gregos e humanistas, como pensava o jovem Nietzsche. Não substituir ídolos, não destruir para restaurar antigos valores intrinsecamente vinculados à decadência, mas sim criar valores totalmente novos, diruptivos e ultrajantes em relação aos ideais da tradição: eis o além-do-homem e do niilismo, figura do vaticínio de Nietzsche que com o eterno retorno e a vontade de potência constituem o problemático cume do seu “sistema”.
Antes de encerrar esta parte é importante nos determos em uma série de formas de niilismo, delineadas por Nietzsche na derradeira fase de sua reflexão, cuja “aplicação” e interpretação constituem, ainda hoje, um imenso desafio para os estudiosos. Isso não significa, porém, que não seja possível adentrar-se, cuidadosa e resumidamente, nos seus escritos póstumos deixando-se guiar por uma linha exegética que, de modo geral, considera as descrições nietzschianas da maneira que vamos descrever a seguir.

De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, ante a notícia de que ‘o Velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’“ – Nietzsche, Gaia Ciência, §343

O niilismo como “estado psicológico” é ainda um niilismo incompleto (não consumado, imperfeito), isto é, um movimento que se limita a demolir os antigos valores que logo são substituídos por outros sem que o caráter suprasensível, ideal e verdadeiro seja atingido. Em suma: o lugar da valoração, apesar da ruína, permanece, assim como continua a subsistir a oposição entre mundo verdadeiro e mundo aparente. No caminho em direção à consumação e ao ultrapassamento, manifestam-se: 1) o niilismo passivo — reação de defesa, motivo de ressentimento, regressão e declínio; incapacidade de avançar, de criar, de alcançar os fins almejados; e 2) o niilismo ativo — movimento que revela “um aumento da potência do espírito”, promove e acelera o processo de destruição. A fortíssima negatividade do niilismo se reverte em positividade quando junto com os valores é aniquilado também o mundo verdadeiro, são dissolvidos os princípios supremos e opressores e tudo se torna fábula, aparência. Trata-se do niilismo extremo ou extático: “Que não haja verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma ‘coisa em si’ — isto mesmo é niilismo, ou antes é o niilismo extremo.” É ao abrir caminho para a criação de novos valores, favorecendo a afirmação da vontade de potência, que o niilismo se torna, finalmente, um niilismo completo (perfeito ou consumado) e transforma-se em niilismo clássico. Um niilismo que Nietzsche, em um dos seus últimos fragmentos, reivindica para si quando toma a palavra como um espírito que arrisca e experimenta e que já uma vez se perdeu em “todo labirinto do futuro”; como “um espírito de pássaro profético que olha para trás quando narra o que virá”; como o “primeiro perfeito niilista da Europa, que porém já viveu em si mesmo, até o fim, o niilismo — que o tem atrás de si, abaixo de si, fora de si…”.

(Rossano Pecoraro - Niilismo)

 


O filósofo que nasceu póstumo

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publicado às 18:11

Passamos boa parte de nossa vida a tapar buracos, preencher vazios, realizar e fundamentar simbolicamente o pleno.
(Sartre - O Ser e o Nada)

Sabemos o quão decepcionante é essa famosa frase: "Contato de duas epidermes". A carícia não quer ser simples contato; parece que o homem sozinho pode reduzi-la a um contato, e, então, ele perde o sentido próprio da carícia. Isso porque a carícia não é simples toque: é um modelar. Acariciando o outro, faço nascer sua carne pela minha carícia, sob meus dedos. A carícia é o conjunto das cerimônias que encarnam o Outro. Mas, dir-se-á, o outro já não estava encarnado? Para ser exato, não. A carne do outro não existia explicitamente para mim, já que eu captava o corpo do Outro em situação; tampouco existia para o outro mesmo, posto que ele a transcendia rumo às suas possibilidades e rumo ao objeto. A carícia faz nascer o Outro como carne para mim e para ele. E, por carne, não entendemos uma parte do corpo, como derme, tecido conjuntivo ou, precisamente, epiderme; não se trata tampouco e forçosamente do corpo "em repouso" ou adormecido, embora geralmente seja assim que revela melhor sua carne. Mas a carícia revela a carne despindo o corpo de sua ação, cindindo-o das possibilidades que o rodeiam: destina-se a descobrir sob a ação a teia de inércia - ou seja, o puro "ser-aí" - que sustenta o corpo; por exemplo, segurando e acariciando a mão do Outro, descubro, sob o apertar que esta mão primeiramente é, uma extensão de carne e osso que pode ser capturada; e, analogamente, meu olhar acaricia quando descobre, por sob o que primeiramente é o saltar das pernas da dançarina, a extensão arqueada de suas coxas. Assim, a carícia de modo algum difere do desejo: acariciar com os olhos e desejar são a mesma coisa: o desejo se expressa pela carícia assim como o pensamento pela linguagem. E, precisamente, a carícia revela a carne do Outro enquanto carne, tanto para mim como para o outro.
(Sartre - O Ser e o Nada)  


A função imaginada por Sartre para a sua Psicanálise Existencial é radicalmente diferente da Psicanásile Tradicional. Uma vez mais, é importante que se tenha em mente o papel da moralidade na filosofia sartreana como um todo a fim de que se possa compreender e apreciar a função que ele atribuiu à Psicanálise Existencial: "as várias tarefas do para-si podem tomar-se objeto de uma psicanálise existencial, pois todas elas visam criar a síntese que falta entre consciência e ser, na forma de valor ou causa-própria"(626). Assim, a Psicanálise Existencial é descrição moral, pois nos transmite o significado ético de diversos projetos humanos. É evidente que nenhuma variação da teoria freudiana poderia preencher tais funções. Por isso, a psicanálise tradicional e a existencial continuam a ser mundos à parte e Sartre terá de escrever um novo tratado das paixões, valendo-se de seus próprios recursos, tomando como centro de referência a condição factícia do indivíduo existencial.

O mundo de ser e nada
O Ser e o Nada é uma síntese monumental – um ensaio sobre a ontologia fenomenológica – que parte da afirmação da primazia da subjetividade. ''Tudo acontece como se o Para-si tivesse uma Paixão para se perder a fim de que a afirmação "mundo" pudesse chegar ao Em-si. (…) o mundo e a coisa-instrumental, tudo isso são puros nadas hipostasiados (…). "Há ser porque sou a negação do ser, e a mundaneidade, a espacialidade, a quantidade, a instrumentalidade, a temporalidade – tudo isso passa a ser apenas porque sou a negação do ser". (217)
Afirmar a primazia do ser deve ser o ponto de partida e o alicerce necessário de análise, segundo Sartre. Ao invés de reduzir o ser a significados (conhecimento), explica o conhecimento e os significados em termos do ser e de seu projeto, insistindo em que o ser é o irredutível evidente por si mesmo e, assim, qualquer tentativa de reduzi-Io a alguma outra coisa, e tentar ir além dele, é contraditória em si mesma: pois, é impossível ir mais além do ser e teremos atingido o limite absoluto quando tivermos o projeto de ser. O que resta é elucidar esse projeto de ser, o mesmo que familiarizar o homem com sua paixão, o que, de forma alguma, implica ir além do ser ou reduzi-Io a alguma outra coisa. Ao contrário, a tarefa de elucidação importa no projeto de avançar na direção do ser como ele se constitui, e a compreensão da estrutura ontológica do ser não é um empreendimento teórico, mas sim inerentemente prático, que envolve a elaboração das Éticas e Psicanálise Existencial. A ontologia sartreana culmina, nestas últimas, fornecendo-Ihes uma fundamentação, mas, ao mesmo tempo, também se fundamenta em sua Ética e Psicanálise Existencial, uma vez que não é concebível imaginar qualquer outra fundamentação.
O Ser e o Nada só é verdadeiramente inteligível como um esboço dos esquemas originais do novo tratado das paixões, estruturado em torno da proposição de que liberdade é paixão e paixão é liberdade. Temos, assim, a afirmação apaixonada da identidade essencial das duas. Assim, não mais se concebe a liberdade como puramente transcendental, deixando o mundo da aparência e da necessidade fechado em si mesmo, enquanto se proclama superá-Io transcendentalmente pela postulação de um mundo distinto de essências e de liberdade: ela é a dimensão mais fundamental da existência humana lutando apaixonadamente por se realizar. Sartre afirma e reafirma apaixonadamente sua proposição básica relativa à liberdade e à paixão de muitas formas diferentes, e a prova existencial emerge pela plausibilidade de sua autenticidade.
Se "o projeto fundamental, a pessoa, a realização livre da verdade humana encontra-se por toda parte em todos os desejos" (567), e se é nossa liberdade mesma "que constitui os limites que subseqüentemente encontrará" (482), como afirma Sartre, então todas as variedades do determinismo psicológico são a priori postas de lado como estruturalmente incapazes de sequer perceber o problema, quanto mais de oferecer uma solução viável para suas dificuldades. Sartre insiste na impregnação prática necessária dos pontos de vista teóricos. Em sua defesa de uma Psicanálise Existencial, não procede a partir de uma refutação teórica do determinismo psicológico, mas sim a partir da identificação dos determinantes práticos que se projetam acriticamente na imagem teórica: "Em cada momento de reflexão, a angústia nasce como uma estrutura da consciência reflexiva, na medida em que esta considera a consciência como o objeto de reflexão; mas ainda continua a ser possível para mim, manter diversos tipos de conduta com respeito a minha própria angústia – particularmente padrões de fuga. Tudo se dá como se nosso comportamento essencial e imediato com respeito à angústia fosse a fuga. O determinismo psicológico, antes de ser uma concepção teórica, é primeiro uma atitude de escusa ou, se se preferir, a base de todas as atitudes de escusa. Essa é uma conduta reflexiva com respeito à angústia; afirma haver, dentro de nós, forças antagônicas cujo tipo de existência é comparável ao das coisas. Ela nos provê de uma natureza produtiva de nossos atos, dotando-os de uma inércia e de uma externalidade eminentemente tranqüilizadoras por constituírem um jogo permanente de escusas. Mas esse determinismo, defesa reflexiva contra a angústia, não é dado como intuição reflexiva. Não vale nada contra a evidência da liberdade; daí ser dada como uma fé em que refugiar-se, como o fim ideal em direção ao qual podemos fugir para escapar à angústia. Assim, fugimos da angústia tentando apreender-nos a partir de fora, com um Outro ou como uma coisa"(40-43).
Como se pode ver, as imagens reificadas do determinismo psicológico são explicadas em termos de atitudes práticas determinadas que emanam da estrutura ontológica do ser, a qual constitui a preocupação básica de Sartre nessa eidética da má-fé. Essas reificações teóricas da realidade humana são tão necessárias, na medida em que brotam da estrutura ontológica angustiante e não da teoria como tal, quanto livremente assumidas, uma vez que podem ser praticamente contraditadas por tipos alternativos de atitude e de conduta e por suas conceitualizações apropriadas. E o fracasso necessário dessas teorias deterministas de reificação psicológica, que representam uma capitulação à fuga e às escusas exigem um tratado radicalmente novo das paixões, que insista simultaneamente na inescapabilidade da liberdade: "o homem está condenado a ser livre" e na situação necessária dessa liberdade dentro da contingência da existência humana motivada por sua paixão ontológica. Pois, toda existência humana é uma paixão, sendo o famoso interesse pessoal apenas um modo livremente escolhido dentre outros para concretizar essa paixão.
A maneira pela qual os diversos temas existencialistas são desenvolvidos em O Ser e o Nada é feita no sentido de que um quadro conceitual de elementos escassos é sistematizado em detalhe mediante um número virtualmente infindável de exemplos particulares e de especificações descritivas. Por si só, o quadro conceitual pode parecer, à primeira vista, muito simples, dado o número extremamente limitado de categorias básicas. Contudo, um olhar mais atento revela algumas complicações perturbadoras em todos os níveis. As categorias constantemente recorrentes são dispostas como pares antinômicos – ser/nada; em-si/para-si; eu/outro; liberdade/contingência; possibilidade/necessidade; autenticidade/má-fé. Sartre parte sempre dos esboços nitidamente definidos da concepção global como o momento de importância suprema esmagador do dado empreendimento, o que não deixa espaço para uma dialética autêntica entre teoria e pesquisa. Desse modo, a abordagem de Sartre continua sendo a mesma. É o valor representativo desse modo único de síntese, do qual O Ser e o Nada é o exemplo, elaborado através, e não a despeito de sua subjetividade.
A carícia
 
A sexualidade
Sartre insiste que o Para-si é sexual no momento mesmo em que aparece diante do Outro e que por meio dela a sexualidade ingressa no mundo. Pois se o Para-si é sexual no momento mesmo em que aparece diante do Outro, então a sexualidade só pode ser elucidada em termos das mais profundas estruturas ontológicas. Aqui captamos o problema não como "fazer", mas como o projeto de ser. "Ser-no-mundo é construir o projeto de possuir o mundo"(597), e a sexualidade é parte integrante da realização desse projeto e, como tal, ocupa lugar central no tratado existencialista das paixões.
O significado dessas relações está longe de ser imediato: ele é simbólico. Sartre adota, como ponto de partida de sua própria hermenêutica, de que numa atividade, caçar, jogar,que seria absurda se reduzida a si mesma, havia um significado que a transcendia; isto é, uma indicação que se referia à realidade do homem em geral e a sua condição. Sartre generaliza essa abordagem e interpreta as diversas manifestações da vida psíquica como "símbolos que mantêm relações simbólicas, fundamentais, que constituem a pessoa individual"(569). Assim, seja qual for a experiência sob exame – fadiga – ao escalar uma montanha, ou desejo sexual, ou jogo, ou náusea, ou preferência por certos tipos de alimento etc. -, nossa busca de significado deve orientar-se pelo mesmo princípio: "a questão é descobrir, sob os aspectos parciais e incompletos do objeto, a verdadeira concretude que só pode ser a totalidade de seu impulso em direção ao ser, sua relação original consigo mesmo, com o mundo e com o Outro, na unidade de relações internas e de um projeto fundamental"(563).
Nesse sentido, compreende-se a sexualidade como um projeto existencial fundamental que visa simultaneamente ao Outro e ao ser em geral. Quanto ao Outro: no desejo, torno-me carne na presença do Outro a fim de apropriar-me da carne do Outro. O desejo é uma atitude que visa ao encantamento. Uma vez que só posso captar o Outro em sua facticidade objetiva, o problema é prender sua liberdade dentro desta facticidade e ao tocar esse corpo devo finalmente tocar a livre subjetividade do Outro. Esse é o verdadeiro significado da palavra posse.
E quanto ao ser em geral: tampar um buraco significa originalmente fazer sacrifício de meu corpo para que possa existir a plenitude do ser; isto é, submeter a paixão do Para-si como que para modelar, aperfeiçoar e preservar a totalidade do Em-si. Passamos boa parte de nossa vida a tampar buracos, a preencher lugares vazios e a realizar e instituir simbolicamente uma plenitude. Aqui, como em qualquer outra parte, o ideal envolvido acaba por tornar-se um ideal impossível: o desejo mesmo está fadado ao fracasso, uma vez que o prazer é a morte e o fracasso do desejo, e a plenitude do ser é igualmente irrealizável, o que afinal faz do homem uma "paixão inútil".
A realidade humana, sob o aspecto da sexualidade, corresponde às mesmas determinações ontológicas da liberdade e paixão com que nos defrontamos em outros contextos, no espírito de uma visão verdadeiramente totalizante.
As paixões, como atitudes subjetivas, estão em paridade com as volições, uma vez que ambas são manifestações da liberdade original. O ato passional é aquele que tem por motivo uma paixão específica, mas que, apesar de tudo, é livre. É o conjunto dos desejos, emoções e paixões que me impele a executar determinado ato, mas todos eles nascem com base na liberdade original.
Sartre inverte totalmente o quadro a respeito da vontade, a qual precisa ter uma posição privilegiada em relação à liberdade. Agora, sabemos que atribuir uma posição privilegiada à vontade não podia ser mais ilusório. Pois uma deliberação voluntária é sempre uma impostura.
Quando delibero, a situação é precária. E se sou levado ao ponto de deliberar, isso se dá simplesmente porque faz parte de meu projeto original conceber motivos por meio de deliberação e não por alguma outra forma de descoberta (pela paixão, pela ação), o que revela para mim o conjunto de causas e de fins, enquanto minha linguagem me informa sobre meu pensamento. Quando a vontade intervém, a decisão está tomada, e ela não tem outro valor senão o de fazer a proclamação. E isso nos leva ao significado fundamental da paixão, que não é uma atitude subjetiva, mas a base sobre a qual se erguem todas as atitudes. Em última análise, isto é, idêntico à própria "liberdade original", que postula os fins que procuramos atingir. Isso constitui nossa própria existência como "escolha original", um impulso em direção ao ser, que cria originalmente todas as causas e todos os motivos que nos podem orientar para ações parciais. Se eu quero compreender o significado existencial-ontológico do fato de me abandonar livremente à fadiga, devo referir essa ação à minha escolha original de ser, uma vez que essa paixão do corpo coincide, para o Para-si, com o projeto de fazer o Em-si existir: tudo se dá como se o Para-si tivesse uma Paixão em perder-se a fim de que a afirmação "mundo" pudesse vir para o Em-si.

Paixão e liberdade
A introdução da paixão no conjunto primário de relações modifica radicalmente tudo. Em virtude dessa paixão é que o empreendimento humano pode dar-se completamente e assumir um caráter, uma direção e um significado – sem isso, estaríamos aferrados à "consciência" e a "Iiberdade" concebidas como uma abstração cristalizada, inteiramente privada de qualquer possibilidade de desenvolvimento. Por meio da paixão, a liberdade e a consciência adquirem um "corpo" – e, de fato, não apenas em sentido figurado -, tanto que se toma possível falar sobre a "paixão do corpo" para levar a cabo o projeto original da liberdade de fazer o Em-si existir: descrição que se coloca diametralmente oposta à visão costumeira do corpo como o depositário de determinações físicas e fisiológicas. Graças à identidade primária de Liberdade e Paixão é que a liberdade pode ser "situada": isto é, concebida de tal modo que ela não possa ser senão situada, com todas as ambigüidades necessariamente implicadas.
Através dessa fusão entre Liberdade e paixão é que a liberdade se torna uma categoria existencial significativa. E a paixão, analogamente, por meio de sua fusão com a liberdade, adquire caráter único. Não é apenas uma antiga paixão qualquer, mas a paixão ontológica fundamental da realidade humana que visa fazer com que a aventura existencial se dê através da "facticidade da liberdade", presa a uma contingência absoluta e, ainda assim, permanecendo absolutamente livre. A paixão ontológica fundamental define-se como autonegação e auto-sacrifício: uma paixão para perder-se de modo que o mundo possa chegar ao Em-si, ou que a plenitude do ser possa existir, ou ainda de modo a encontrar o ser e, de um só golpe, constituir o Em-si que escapa à contingência etc. A escolha fundamental é a escolha original de nosso ser e, como tal, deve, por necessidade, ser uma escolha consciente, não uma escolha deliberada. Ao contrário, ela é o fundamento de toda deliberação, uma vez que uma deliberação requer uma interpretação em termos de escolha original.
Consciência, neste sentido sartreano, que distingue claramente entre escolha consciente e escolha consciente (deliberada), para ser capaz de descartar a idéia do inconsciente, é uma consciência não-posicional, também chamada consciência irreflexiva: embora essa consciência não nos proporcione conhecimento, ela se encontra, em sua perfeita translucidez, na origem de todo conhecer. Em correspondência à escolha não-deliberada, a consciência não-posicional é: nós-como-consciência, uma vez que ela não é distinta de nosso ser. E como ser é exatamente nossa escolha original, a consciência da escolha é idêntica à autoconsciência que possuímos. Deve-se ser consciente para escolher, e deve-se escolher para ser consciente. Escolha e Consciência são uma só e mesma coisa, sermos conscientes de nós mesmos e escolhermos a nós mesmos são a mesma coisa.
Sartre insiste que não pode haver algo que seja um fenômeno psíquico inconsciente, que os proponentes da teoria psicanalítica hipostasiaram e reificaram a má-fé, não escaparam a ela. Não é preciso dizer que a problemática do inconsciente é por demais complexa para ser resolvida por qualquer fórmula particular, uma vez que um tratamento adequado requer o desenvolvimento de uma teoria coerente da ideologia, expressa não meramente em termos gerais, mas com grande concretude e especificidade, diretamente aplicáveis a indivíduos particulares. E o que quer que se possa descobrir na filosofia de Sartre, dado seu quadro individualista de categorias, certamente não será uma teoria apropriada da ideologia.
O que está em questão neste contexto específico é que a identificação existencialista que ele faz entre escolha e ser, entre escolha e consciência, entre escolha de nós mesmos e consciência de nós mesmos de forma não-posicional, permite-lhe propor uma solução não-determinista para o problema psicanalítico do inconsciente. De saída, o inconsciente é posto à parte, por definição, como impossível a priori, uma vez que partimos da identidade original entre paixão fundamental-escolha de ser (deliberada)-consciência não-posicional; e todas as estruturas específicas da consciência, quer afetivas, como desejos, emoções e paixões, quer volitivas, reflexivas, e por aí vai, constituem-se sobre a base de sua identidade original e, por isso, compartilham inteiramente da carga de responsabilidade absoluta, como formas específicas de manifestação da síntese original. O fenômeno do inconsciente é tomado como má-fé que, ela mesma, se considera, na forma não-posicional da consciência não-reflexiva fundamental em contraposição à consciência refletida, ser inconsciente com vistas a ser capaz de escapar da angústia, ou seja, à carga da liberdade inevitável.
A possibilidade de uma estratégia como essa não é provada, mas presumida indiretamente por analogia à psicologia da Gestalt, que associa a primazia da forma total com a variabilidade das estruturas secundárias. Por conseqüência, Sartre afirma ser possível para mim, impor-me reflexivamente, isto é, no plano voluntário, projetos que contrariam meu projeto inicial sem, contudo, modificar fundamentalmente o projeto inicial. Desse modo, é possível falar-se até da má-fé da vontade, contrariando da maneira mais marcante possível qualquer teoria do Inconsciente.
Provavelmente, Sartre deve considerar a hipótese psicanalítica um absurdo total, uma vez que ela contradiz diametralmente sua própria concepção de nossa liberdade absoluta e responsabilidade absoluta, a qual insiste que somos totalmente responsáveis não só pelas guerras que sofremos, mas até mesmo por nosso nascimento, raça, nacionalidade, lugar onde vivemos e passado. O passado que sou eu tenho de ser, sem qualquer possibilidade de não ser. Assumo a responsabilidade total por ele como se pudesse alterá-lo e, contudo, não posso ser nada mais do que ele. Devemos iniciar a partir dessa antinomia: a realidade humana recebe originalmente seu lugar no meio das coisas; a realidade-humana é aquilo pelo qual algo que chamamos lugar chega às coisas. Eu existo, meu lugar sem escolha, e sem necessidade, como o puro fato absoluto de meu ser-aí. Eu estou aí, não aqui mas aí. Este é o fato absoluto e incompreensível que está na origem da extensão e, conseqüentemente, de minhas relações originais com as coisas (com estas coisas mais do que com aquelas). Um fato da pura contingência, um fato absurdo.
A facticidade é a única realidade que a liberdade pode descobrir, a liberdade é a apreensão de minha facticidade. Certamente, ao nascer eu assumi um lugar, mas eu sou responsável pelo lugar que assumi. Pode-se ver claramente aqui a conexão inextricável de Liberdade e facticidade na situação. A qualidade irremediável do passado vem de minha escolha real do futuro; enquanto a liberdade é a escolha de um fim em termos do passado, inversamente o passado é aquilo que é somente em relação com o fim escolhido. Mas Sartre sustenta, na forma de uma autenticação subjetiva, suas asserções. A questão é a seguinte: como funcionam as transformações dos conceitos sartreanos?
As relações ontológicas mais fundamentais são definidas por Sartre em termos da identidade entre Liberdade e Paixão na auto-constituição da realidade humana, o que também corresponde à identidade primária entre ser, escolha e autoconsciência.
Os conceitos primários podem ser combinados entre si e todas as derivações conceituais complementares podem fundir-se com as precedentes, o que resulta um círculo de relações e de conjuntos de definições em contínua ampliação. De modo algum Sartre se embaraça com a circularidade envolvida, chega a afirmar que é da natureza da consciência existir em círculo, reitera seguidamente que jamais podemos sair do círculo. Sartre afirma que ser é a mesma coisa que ser livre, mas se fizermos a leitura circular, acabamos por afirmar que o ser do homem como ser livre é um outro modo de afirmar a unidade entre Liberdade e situação. O procedimento é o mesmo para a afirmação da identidade entre liberdade e obrigação; ser e escolha; escolha e ação; consciência e desejo; situação e motivação, e outras combinações como intenção e ação, consciência e consciência da liberdade, facticidade da liberdade e contingência da liberdade.
O discurso sartreano é estruturado do modo como é para ser capaz de nos impor seus próprios termos de referência e, conseqüentemente, tornar aceitáveis as "absurdas" asserções existencialistas.

A transformação do homem
Os indicativos ontológicos de Liberdade e Responsabilidade absolutas surgem na filosofia de Sartre sob o signo de "dever" e operam no contexto da mais severa contingência. O caráter absoluto da liberdade é estabelecido mediante sua identidade, por definição, com a inevitabilidade da escolha, mesmo nas circunstâncias de uma recusa deliberada a escolher, e as categorias de "contingência" e "Facticidade" são trazidas ao primeiro plano para fazer-nos lembrar de que não devemos ter quaisquer ilusões voluntaristas quanto ao possível impacto de nossas ações. Sartre tem que continuar insistindo que somos absolutamente livres e absolutamente responsáveis, acrescentando que "é a contingência da liberdade e a contingência do Em-si que são expressos em situação pela impredicabilidade e pela adversidade do meio ambiente"(509), dizendo com isso que a adversidade de meu meio ambiente impõe-me a obrigação absoluta de suportar a carga total de responsabilidade também pela situação, a qual devo, pois, ser, ao invés de apenas ser nela. E Sartre fica neste equilíbrio extremamente instável, e constantemente fica empenhado em rebalancear e requaliticar os conceitos, para manter a integridade da concepção fundamental.
Sartre afirma: "Sou responsável por tudo, de fato, exceto por minha própria responsabilidade, pois não sou o fundamento de meu ser" (555). Mas, afinal de contas não sou responsável por absolutamente nada. E cria-se outro dilema. E como não há outra saída, assim como a paixão fundamental da realidade humana perde-se para a plenitude do ser, só pode ser estabelecida em termos de "como se", aqui segue a última restrição: "por isso, tudo se passa como se eu fosse compelido a ser responsável"(557). Sou absolutamente livre em virtude de ser compelido a escolher (condenado a ser livre), e porque tudo se passa na realidade humana, por meio do livre exercício de sua paixão fundamental, decidiu perder-se, então a plenitude do ser poder existir. Do mesmo modo, sou absolutamente responsável porque em meu ser absolutamente livre sou idêntico à minha situação, por mais devastador que possa ser a resistência das coisas ou objetos frente aos projetos humanos e, por isso, tudo se passa como se eu fosse compelido a ser absolutamente responsável, quer eu assuma a terrível carga dessa responsabilidade, quer tente fugir dela através das manobras da má-fé.
Mas qual a posição de Sartre nesse equilíbrio entre liberdade e responsabilidade, contingência e adversidade? A resposta é revelada por outra inconsistência, quando ocorre a discussão sobre a morte e o suicídio. Insiste que, em vista da morte ser uma contingência radical, ela não pode pertencer à estrutura ontológica do Para-si, e, conseqüentemente, deve ser afastada de todas as conjecturas ontológicas.
A morte não pode ser meu possível, uma vez que é a niilização de todos os meus possíveis, o que está fora de minhas possibilidades. Analogamente, o suicídio é um absurdo que faz com que minha vida mergulhe no absurdo e, naturalmente, traz consigo a niilização de todas as minhas possibilidades. Contudo, ao tratar de uma situação de extrema gravidade, em que as possibilidades de uma escolha autêntica estão sufocadas pela adversidade, Sartre não hesita um só momento em alçar a morte por suicídio à dignidade de uma possibilidade ontológica autêntica. E somos notificados que "não existe acidente algum numa vida; (…) se sou mobilizado para uma guerra, esta é minha guerra: ela está em minha imagem e eu a mereço. Mereço-a, primeiro, porque sempre poderia escapar a ela pelo suicídio ou pela deserção; esses possíveis são os que devem estar sempre presentes a nós quando se trata de enfrentar uma situação. Por ter deixado de fugir dela, eu a escolhi"(554).
Deserção, sim, mas suicídio? A teoria sartreana está favorável a uma ideologia que assume responsabilidade numa luta pela liberdade. Essa posição é um "dever" moral que exige, logicamente, uma justificação adequada – justificação que não se pode conceder ao suicídio nem mesmo em seus próprios termos de referência – e definitivamente não como um indicativo da ontologia. A asserção: "o suicídio é um modo entre outros de ser-no-mundo"(556), longe de ser um dos indicativos da ontologia, é uma mera racionalização de voluntarismo extremo, não importa quanto possamos simpatizar com seu intento subjacente.
E com a autenticidade subjetiva da hermenêutica existencialista de Sartre: "só pode haver um Para-si livre enquanto engajado em um mundo resistente (…). O êxito não é importante para a liberdade"(483). Estamos diante de um imperativo abstrato de "engajamento" defrontando-se genericamente com "um mundo resistente", e o empreendimento continua a ser uma aventura estritamente individual, em luta contra o "Outro" ou capitulando às ilusões da solidariedade coletiva dentro do espírito de seriedade na estrada estéril da fuga desintegradora. Se é esta a relação de forças, se é assim que se traçam as linhas de demarcação na eidética da má-fé, então é evidente que o êxito não deve ser importante para a liberdade. O que vale é a autenticidade do próprio empreendimento: princípio este que é compatível não só com a afirmação da equivalência ontológica de todas as espécies de esforço, mas até mesmo com o prognóstico sombrio do fracasso, em última análise necessário, de todos os projetos da realidade humana: prognóstico que realmente não é um prognóstico, mas sim o reconhecimento de uma certeza absoluta, inerente à estrutura ontológica fundamental do ser que define o homem como uma "paixão inútil". Estamos fadados a fracassar em nossa tentativa de dominar os outros tanto quanto no projeto de amor que carrega em seu ser-para-os-outros a semente da própria destruição.
Como já disse, toda a análise existencial de Sartre conduz necessariamente e obrigatoriamente a uma ética. Mas o seu projeto mais original se concentra na exigência de transformação do homem.
A Psicanálise Existencial procura determinar a escolha original realizada por cada indivíduo, essa escolha que é o centro de referências de uma infinidade de significações polivalentes e que constitui o projeto fundamental do homem. Vimos que Sartre rejeita o postulado do inconsciente: o fato psíquico é co-extensivo à consciência. Se o homem sabe em que consiste seu projeto fundamental, se esse projeto é vivido plenamente por ele e se é, portanto, totalmente consciente, isso ainda não quer dizer que ele lhe seja conhecido; a psicanálise existencial se propõe tornar conhecido o que todo Para-si compreende desde sempre. Impõe-se assim a transformação do homem no sentido de que se lhe torne acessível a intuição final do sujeito. E o importante é que, dessa forma, toda a ontologia encontra o seu significado último no programa que se propõe a psicanálise existencial; diante desse programa, a ontologia nos abandona: ela nos permite simplesmente determinar os fins últimos da realidade humana, seus possíveis fundamentais e o valor que a persegue. O sentido dessa teoria desemboca na prática transformadora do homem.
O Para-si é liberdade compreendida como autonomia de escolha, e Sartre leva essa autonomia às suas últimas implicações. Por ela, determina-se o conceito-chave da ética: o valor. Se a liberdade é absoluta, o valor não poderia apresentar consistência objetiva; muito pelo contrário, o valor brota da subjetividade. A ontologia e a psicanálise existencial devem mostrar ao homem que "ele é o ser pelo qual os valores existem" (722). Entenda-se por homem a individualidade subjetiva. O valor exige um fundamento; mas o fundamento não poderia ser o ser, pois se o fosse, desde que o homem se norteia por valores, o comportamento instauraria a má-fé e destruiria a liberdade. Segue-se que a liberdade é o único fundamento dos valores e que nada, absolutamente nada, me justifica ao adotar tal ou tal valor, tal ou tal escala de valores. Enquanto ser pelo qual os valores existem eu sou injustificável. E minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores. Assim como não há natureza humana que determina o que o homem deve fazer, também não há uma ordem preestabelecida de valores. Desse modo, o valor encontra a sua gênese no ato livre e absolutamente indeterminado: escolher é inventar. Disso resulta que o homem é apenas seu projeto, só existe na medida em que se realiza, ele é tão-somente o conjunto de seus atos. Se a psicanálise existencial exige a transformação do homem, resta-nos traçar os caminhos concretos que a possibilitem.

Conclusão
Se, como Sartre admite, o método proposto por ele para uma Psicanálise Existencial deixa muito a desejar, isto não se dá simplesmente, como ele sugere, "porque tudo está por ser feito nesse campo"(457), mas devido ao caráter problemático dos próprios princípios metodológicos inerentes a seu ponto de vista ontológico. A definição do projeto original como "o centro de referência para uma infinitude de significados polivalentes"(570), está associada à idéia de que o Para-si, em sua liberdade, inventa não só fins primários e secundários; inventa todo o sistema de interpretações que permite suas interconexões, o sujeito deve oferecer sua pedra de toque e seus critérios pessoais. Por conseqüência, o psicoterapeuta terá de redescobrir, a cada passo, um símbolo que funcione no caso particular que esteja considerando. Pois a escolha é viva e, conseqüentemente, pode ser revogada pelo sujeito que está sendo estudado. O método que serviu para um sujeito não se ajustará necessariamente a outro sujeito, nem ao mesmo sujeito num período posterior.

(Adalberto Tripicchio)

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Sartre e a Angútia de escolha

por Thynus, em 19.12.15

"(...)o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo."

Sartre – O Existencialismo é um Humanismo

 

Somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livres: estamos condenados à liberdade 

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

O homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser.

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

A angústia se distingue do medo porque medo é medo dos seres do mundo, e angústia é angústia diante de mim mesmo. A vertigem é angústia na medida em que tenho medo, não de cair no precipício, mas de me jogar nele.

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

0000000 L.jpgCondenados à liberdade

 

O preceito básico do Existencialismo, corrente filosófica da qual Sartre faz parte, é que a existência precede a essência. Mas o que isto significa? Para os existencialistas, o homem primeiro existe, descobre-se no mundo. Posteriormente ele se tornará alguma coisa, adquirindo características que lhe serão próprias. O homem é um projeto que se vive subjetivamente; nada existe antes deste projeto. O indivíduo será aquilo que tiver projetado ser, aquilo que escolher. Mas tal escolha não deve ser confundida. Não tratamos aqui de uma escolha no sentido de querer, ou seja, de vontade. Para Sartre, as escolhas só existem no universo prático, no plano das ações. O fato de alguém querer algo não significa que a escolha já está feita. Posso querer casar-me, mas se tal vontade não for posta em prática, não posso dizer que escolhi o matrimônio. Para que se concretize, é preciso praticá-la.

O Existencialismo ateu de Sartre nega a existência de Deus. Segundo Sartre se Deus não existe, não criou o homem à sua imagem e semelhança, não há uma essência humana precedente à existência. Também não há uma natureza humana, alguma condição comum aos homens de todas épocas, da qual todos nós partimos. O indivíduo precisa escolher sua essência, ato que ocorre a cada instante. A ausência de um conjunto de valores divino, capaz de guiar as ações humanas através da certeza do acerto, somada à necessidade de escolhermos, faz com que o homem crie seus próprios valores, sob os quais dirigirá sua vida. Sartre acrescenta que, mesmo que Deus existisse, o homem teria que escolher se deve acreditar e orientar-se pelas manifestações divinas que lhe fossem apresentadas. Esse é o dilema proposto por Kierkegaard no clássico “Temor e Tremor”. Nessa obra, Kierkegaard narra diferentes versões da história de Abraão, o qual foi designado por Deus para sacrificar seu filho. Deveria ele colocar a fé acima da ética pessoal? O que lhe garantia ser realmente Deus quem lhe ordenava o sacrifício de seu filho? Deus seria realmente capaz de ordenar-lhe tamanha monstruosidade?

Antes de prosseguirmos, porém, é necessário esclarecermos o significado do termo facticidade, muito importante para esta corrente filosófica. Por facticidade queremos designar aqueles eventos sobre os quais o homem não tem controle. Por exemplo, o fato de alguém nascer numa família rica ou pobre, ou mesmo a perda de um ente querido. Não obstante tais contigências, não há que culpá-las, pois o homem também escolhe a forma como lidar-se-á com elas. O indivíduo que, frente ao contexto de miséria da família que nasceu, sente-se impotente e incapaz de transcender tal condição, é culpado por perpetuar-se miserável.

Ditas tais palavras, podemos avançar para uma célebre expressão sartreana que talvez resuma o que há de essencial na sua filosofia – “Estamos condenados à liberdade”. Qual é o significado desta frase? Sartre entende que o homem é projeto de si mesmo. Ele se lança para um futuro e é consciente de se projetar no futuro. Isso significa que o homem é responsável por suas escolhas. Não há fuga para isso. Crer-se alienado de suas próprias decisões e atos é agir de má-fé (adiante esclareceremos este termo ). Por outro lado, a escolha individual do homem implica também algo de mais universal. Ao escolher para si, o indivíduo escolhe para todos demais homens. A escolha não é um ato referente apenas àquilo que o indivíduo quer para si mesmo como valor, mas uma atribuição geral. Escolhendo, o homem define aquilo que, ao seu ver, deveria ter validade geral. Esta concepção sartreana aproxima-se do imperativo categórico kantiano, o dever ser. O homem nunca escolhe o mal, pois aquilo que escolhe sempre é o bem, justamente porque ele escolheu. Além disso, nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Desse modo, Sartre entende que a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda humanidade. Somos responsáveis por nós e pelos outros, pois criamos uma imagem do homem como acreditamos que deveria ser. Livre e sem desculpas, o homem escolhe o homem. Finalmente, voltando à celebre expressão sartreana, estamos condenados porque não escolhemos existir, tampouco nossa condição – ser livre; mas livres, pois lançados no mundo, somos responsáveis por tudo aquilo que fizermos.

Dessa liberdade, entretanto, deriva a angústia. Reconhecendo-se livre, o indivíduo dá-se conta de que não apenas escolhe para si, mas também para toda humanidade. O indivíduo se angustia porque, desamparado, ou seja, sem orientação ou alguma escala de valores por assim dizer universal, precisa escolher sua vida, seu destino, o que suscita escolher também para os outros. A angústia de liberdade é a angústia de escolher. O homem se angustia porque se vê compelido a fazer a escolha. Fazê-la, por sua vez, implica ser responsável por suas conseqüências. O indivíduo busca refugiar-se, então, de sua própria liberdade, tentando evitar a angústia de sua condição de ser livre. Refugia-se na má-fé, com o intuito de escapar à consciência dessa condição. A atitude de má-fé consiste num disfarce, uma enganação de si próprio. Trata-se de negar-se a escolher, deixando que terceiros ou circunstâncias sejam responsáveis por suas escolhas. É uma tentativa de enganar-se a si próprio e também aos outros, pois intenciona que os demais pensem que ele é uma vítima do destino, contra o qual nada se pode. Esse é o intuito da atitude de má-fé: fugir às responsabilidades do escolher disfarçando com uma suposta impossibilidade de escolha. É iludir-se da idéia de que o destino já está traçado.

A má-fé diferencia-se da mentira pelo seguinte aspecto: a mentira implica que o mentiroso está consciente de ocultar a verdade. É um fenômeno comum daquilo que Heidegger denomina ser-com. O ser-com heideggeriano consiste num Dasein convivendo com outros, coexistindo. O ato de má-fé diferencia-se da mentira porque nele o indivíduo mente para si mesmo. Não obstante, a má-fé também é um fenômeno condicionado pelo ser-com, pois ao mentir para si, visando fugir às responsabilidades das próprias escolhas como se não detivesse o poder sobre elas, o indivíduo espera atender as expectativas alheias, porquanto seja vítima do destino, alguém impossibilitado de escolher, alvo de uma fatalidade. Busca, portanto, imaginar-se segundo os outros o vêem.

Sartre distingue entre angústia e medo. O medo origina-se de algo externo, que atinge a consciência. Trata-se de algo objetivo, determinado, que ameaça a existência do ser. A angústia, por sua vez, surge do nada. É a consciência do nada que angustia o indivíduo. O ato de nadificação deriva da consciência intencional ( para-si ). Trata-se da capacidade humana de fundamentar o juízo negativo, ou seja, incluir ausência naquilo que é presença. Por exemplo, se procuro uma pessoa num local e não a encontro, sou capaz de perceber sua ausência, mesmo envolto por tantos objetos e pessoas. Na verdade, a ausência não está ali. Lá só há presença. A ausência sou eu quem coloca. Isso ocorre porque, segundo Sartre, o nada está presente na consciência. De fato, a consciência é o nada e está sempre voltada para fora, intencionando os objetos. Se não encontro o objeto que intenciono, só me resta o nada. Eis a origem da angústia de escolha: a consciência do nada, ou seja, a noção de estarmos escolhendo baseados em nós mesmos, sem que nada preceda essa escolha. 

Referências:

O Existencialismo é um Humanismo- Jean Paul Sartre

O Ser e o Nada – Jean Paul Sartre

 

(Giovanni Bruno Carollo Gaeta - Psicológo) 

00000000 LL.jpg"Não somos livres de ser livres" 

 

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