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Vamos começar com Orfeu, cujo mito é um dos raros a ter marcado a religião cristã, talvez por contar uma história centrada numa questão que viria a ocupar um lugar fundamental nos Evangelhos: a contradição inelutável e insolúvel entre o amor e a morte,(Mais um detalhe, antes de entrar no cerne do assunto: apesar de muito antigo, o mito de Orfeu nos infernos não se encontra em Homero, nem em Hesíodo. Sabe-se que é conhecido desde o século VI a.C., mas foram sobretudo os romanos, no século I, com Virgílio e Ovídio, que nos deixaram as versões mais coerentes e detalhadas. No essencial, é a elas que recorro, apesar de, às vezes, para completá-las, buscar tais versões também do lado de autores gregos mais antigos, principalmente em Alceste de Eurípides e nas obras de Apolônio de Rodes, Diodoro e até mesmo Platão. Como sempre, a Biblioteca de Apolodoro se revela uma preciosa ferramenta) contradição que sempre dá aos humanos a ideia, e em seguida o ardente desejo, da ressurreição. Quem de nós não gostaria, do fundo do coração, que alguns seres muito amados voltassem a viver? No Evangelho, por exemplo, ao saber da morte do amigo Lázaro, Jesus chora: apesar de divino, ele passa pela experiência dessa dor infinita que o desaparecimento de um ser amado sempre causa, como qualquer um de nós. Mas, é claro — e Cristo necessariamente sabe disso, pois é a base da crença cristã —, de acordo com o seu ensinamento, “o amor é mais forte do que a morte”. E para provar isso ele traz o amigo de volta à vida, apesar de ele estar morto há tempo bastante para, pela precisão do texto evangélico, suas carnes já terem entrado em decomposição. Nada disso importa, pois o amor triunfa sobre tudo e o milagre da ressurreição se faz.
Com o mito de Orfeu, porém, é com os gregos que estamos e não com os cristãos, e tal ressurreição parece absolutamente fora de cogitação para os mortais. Ao perder a companheira, que morre sob seus olhos mordida por uma serpente venenosa, o pobre Orfeu fica inconsolável. Mas não vamos nos antecipar e, antes de entrar no principal da história, vejamos um pouco mais de perto com quem estamos lidando.
 
Orfeu é um músico, antes de tudo. É inclusive o maior de todos os tempos, segundo os gregos, superior até mesmo a Apolo, que, aliás, o acha tão admirável, tão excepcional em sua arte, que o presenteia com a famosa lira inventada pelo irmão caçula, Hermes. A lira é um instrumento de sete cordas, e Orfeu, julgando não ser o suficiente para produzir belos acordes, acrescenta duas outras, suplementares — o que, ao mesmo tempo, “acorda” seu instrumento ao número das musas, as nove divindades, filhas de Zeus, que têm fama de haver inventado as principais artes e inspirarem os artistas. Deve-se lembrar que Calíope, a rainha das musas, é simplesmente a mãe de Orfeu. Ele teve então a quem puxar. Dizem que, ao cantar acompanhado por seu instrumento, os animais selvagens, até mesmo leões e tigres, se acalmam e ficam mansos como cordeirinhos; os peixes saltam para fora d’água ao ritmo da lira divina, e os próprios rochedos que, como se sabe, têm um coração de pedra, derramam lágrimas de emoção. O que prova que sua música é mágica e, com as nove cordas que aumentam ainda mais a harmonia do seu canto, nada lhe resiste. Ao participar da expedição dos Argonautas numa embarcação construída por Argos (donde o nome) e sob a liderança de Jasão, em busca do Tosão de Ouro, foi Orfeu quem a todos salvou das Sereias, aquelas mulheres-pássaros cujo canto atrai os infelizes marinheiros sob seu encanto, empurrando-os para impiedosos recifes em que eles infalivelmente naufragam. Orfeu é o único ser no mundo que consegue encobrir suas vozes maléficas.
Voltemos, porém, ao que vai levá-lo aos infernos.
Orfeu se apaixonou loucamente por Eurídice, uma sublime ninfa que alguns dizem, inclusive, ser filha de Apolo. Tem uma beleza incomparável, mas, além disso, trata-se de um verdadeiro amor, e Orfeu literalmente não consegue mais ficar sem ela. Sem Eurídice, sua vida deixa de ter qualquer sentido. Segundo Virgílio, que em seu poema Geórgicas evoca longamente essa história, um dia em que passeava à beira de um belo rio, Eurídice é perseguida pelo insistente assédio de um certo Aristeu. Ela corre para escapar, olhando de vez em quando para trás, para ver se Aristeu se aproxima. Com isso, não vê uma víbora, em que acaba pisando com seu pezinho delicado. A morte é quase instantânea, e Orfeu fica, no sentido próprio do termo, inconsolável. Nada pode fazê-lo parar de chorar. A tal ponto que resolve tentar o impossível: ir ele próprio buscar Eurídice nos infernos, onde faria tudo para convencer Hades e sua mulher, Perséfone, a deixarem que leve consigo a bem-amada.
As descrições de Virgílio e de Ovídio da travessia dos infernos por Orfeu valem a pena ser lidas. Ainda hoje inspiram pintores, músicos e escritores. A primeira coisa que ele deve fazer é encontrar a entrada do subterrâneo, o que não é tão fácil. Orfeu consegue isso tomando como referência uma fonte que brota do chão no lugar onde um dos quatro rios infernais sai das profundezas. Ele vai precisar cruzar ou percorrer todos os quatro. O primeiro é o Aqueronte, o rio que todos os mortos precisam atravessar para entrar na morada de Hades. É onde o horrível Caronte, o barqueiro, um velho repugnante e sujo, pede um óbolo para levar as almas mortas para o outro lado do rio. Por essa razão, como disse antes, os antigos colocavam uma moeda nos olhos ou na boca dos mortos, para que eles pudessem pagar ao barqueiro, sem o que permaneceriam cem anos errando pelas margens, à espera da vez. Depois, é preciso percorrer o Cócito, rio glacial que carrega blocos de gelo, em seguida o aterrorizador Flagetonte, uma gigantesca torrente de fogo e de lava em fusão, e, finalmente, o Estige, pelas águas do qual os deuses fazem seus juramentos.
Mas essa paisagem assustadora é povoada por seres ainda mais horríveis. Há primeiro os próprios mortos, lamentáveis fantasmas sem rostos, irreconhecíveis, extremamente inquietantes para o visitante. Como se fosse possível piorar as coisas, Orfeu se defronta com monstros infernais: Cérbero, o horrível cão com três cabeças, Centauros, Cem-Braços, abomináveis hidras cujo assobio basta para gelar o sangue, Harpias que torturam indiscriminadamente, Quimera, Ciclopes... Ou seja, a descida aos infernos supera em horror tudo que um ser humano possa imaginar de mais atroz. Pelo amor de Eurídice, Orfeu está disposto a tudo. Nada pode fazê-lo parar. Aliás, a lira o acompanha ao longo de todo o terrível périplo e, como sempre, a música produz os melhores efeitos. Sob a doçura do seu canto, até os supliciados encontram algum repouso, pois dizer felicidade seria um exagero. Por um instante, Tântalo deixa de ter fome e sede, a roda de Íxion para de girar, a pedra de Sísifo suspende sua corrida retrógrada. Até Cérbero se deita como um cachorrinho de estimação. Por pouco não se teria vontade de lhe fazer um carinho. As Erínias cessam por um momento sua imunda tarefa, e o tumulto que habitualmente agita o lugar infernal se acalma. Os senhores desse reino, Hades e Perséfone, caem também sob o encanto. Ouvem Orfeu com atenção, talvez até com ternura. Sua coragem impressiona, seu amor por Eurídice, tão autêntico e incontestável, fascina as duas divindades, conhecidas por normalmente serem inacessíveis a qualquer sentimento humano.
Perséfone, ao que parece, é a primeira a se convencer. Orfeu poderá voltar à vida e à luz com Eurídice, sob uma condição: que ela o siga em silêncio e, principalmente, que ele não olhe para trás querendo vê-la, até saírem do inferno. Louco de alegria, Orfeu aceita. Leva Eurídice, que, como combinado, o segue docilmente alguns passos atrás. Mas sem que se saiba muito bem por quê — Virgílio supõe que uma espécie de loucura o tenha invadido, um ímpeto amoroso que não pode mais esperar. Já Ovídio sugere uma surda angústia que o faz duvidar da promessa dos deuses. De um jeito ou de outro, Orfeu comete o erro irreparável: não consegue deixar de se virar para ver Eurídice, e dessa vez os deuses são inflexíveis. Eurídice vai ficar para sempre no reino dos mortos. Nada mais a fazer, nada mais a se discutir, e a infeliz morre pela segunda vez, agora em definitivo e sem recurso possível.
Como você pode imaginar, Orfeu fica mais uma vez inconsolável. Desesperado, ele volta para casa e se tranca. Recusa-se a ver outras mulheres — para quê? Ele é homem de um amor único, o amor de Eurídice. Nunca mais vai poder amar como antes. Mas, ao que dizem nossos poetas latinos, Orfeu com isso acaba irritando todas as damas da cidade. Não entendem que um homem tão encantador e com um canto tão sedutor as deixe de lado. Ainda mais porque, segundo dizem, Orfeu não somente se desinteressa pelo belo sexo, mas também passa a se interessar por rapazes. Inclusive convida à sua casa maridos da vizinhança para que compartilhem a sua nova atração por jovens. As mulheres acham que isso ultrapassa toda a medida do tolerável. Nessa versão do mito, Orfeu morre literalmente despedaçado pelas esposas furiosas. Armadas de pedras, porretes e alguns instrumentos agrícolas deixados pelos camponeses nos campos, elas o atacam e o dilaceram vivo, jogando em seguida os pedaços, os diferentes membros do corpo e a cabeça decepada no rio mais próximo, que os carrega então para o mar. Seguindo o fluxo das águas, a cabeça e a lira de Orfeu vão parar na ilha de Lesbos, onde os habitantes erigem um túmulo em sua homenagem. De acordo com alguns mitógrafos, a lira de Orfeu foi transformada (por Zeus?) em constelação, e sua alma transportada para os Campos Elísios, que é mais ou menos o equivalente grego do paraíso ou, melhor dizendo, uma espécie de volta à idade de ouro.
Esse detalhe não deixa de ter sua importância, pois nos permite compreender melhor como e por que o mito de Orfeu acaba gerando um culto, para não dizer uma religião, justamente chamada “orfismo”. A teologia órfica diz se inspirar nos segredos que Orfeu teria descoberto em sua viagem e permitido, apesar de seu funesto destino nessa terra, que finalmente encontrasse a paz na morada abençoada pelos deuses. Como você vai ver logo adiante, isso estabelece uma ligação entre a história de Orfeu e essa que vou contar agora, a respeito de Deméter e dos assim chamados “mistérios de Elêusis”, a cidade onde Deméter estabeleceu seu templo e seu culto.
Mas antes devemos nos questionar sobre o sentido exato desse combate empreendido por Orfeu contra a morte. Como compreender sobretudo a estranha prescrição de Perséfone a Orfeu, de não olhar para trás? Mais estranho ainda, como pôde Orfeu ser tão burro, ao olhar, já chegando ao fim de tantas provações desagradáveis? Estranhamente, nenhum dos textos dedicados a esse mito dá a menor explicação plausível. Virgílio deixa tudo por conta do amor, impaciente e cego. Mas mesmo que assim eventualmente se explique o erro de Orfeu, a hipótese em nada esclarece quanto ao sentido da exigência imposta pelos deuses. De fato, por que olhar para trás seria fatal aos dois amantes?
Deu-se todo tipo de resposta a essa questão, e seria longo demais, e bem cansativo, enumerá-las aqui. Até porque, na verdade, nenhuma delas me pareceu realmente convincente. Muitas vezes se aplicou um olhar cristão ao mito, explicando que Orfeu se vira por duvidar da palavra divina e quem perde a fé está perdido, pois só a fé salva. Creio, no final, que se deve muito simplesmente manter o eixo principal do mito: a contradição entre o amor e a morte, insuperável para os mortais, apesar de toda a esperança investida na tentativa de Orfeu. Orfeu perde Eurídice pela segunda vez se virando para trás, e ela deve absolutamente se manter atrás dele e, de forma alguma, à frente. Isso mostra, com toda evidência, que os deuses impuseram essa série de obrigações sabendo pertinentemente que não seriam cumpridas (de outra forma, por que a prova?), pela simples razão que, olhando para trás, Orfeu deve compreender que o que está atrás está para trás e que o passado já passou. Isto é irreversível e todo mortal deve aceitar, como Ulisses na ilha de Calipso, sua condição própria, a condição da humanidade que vê sua vida transcorrer, a exemplo do rochedo de Sísifo, entre o ponto de partida e o ponto de chegada, do qual ninguém pode modificar uma vírgula sequer.
Nosso nascimento e nossa morte não nos pertencem, e, para nós mortais, o tempo é decididamente irreversível. O irremediável é o nosso quinhão comum, e a infelicidade não é conciliável. No melhor dos casos ela se acalma, se apazigua e se suaviza o bastante para que possamos retomar o curso da existência, nunca mudá-lo ou partir novamente de algum ponto situado aquém, atrás de nós. Como é frequente, apesar da proximidade com o cristianismo na colocação do problema — o amor querendo a qualquer preço se mostrar mais forte do que a morte —, a atitude grega vai no sentido inverso: é sempre a morte quem vence o amor, e temos todo interesse em saber disso logo de saída, se quisermos chegar à sabedoria que talvez seja a única maneira de chegar a viver uma vida boa. Nada pode mudar o que quer que seja nessa cartada inicial que constitui o pilar mais sólido da ordem cósmica — esse em torno do qual se constrói a diferença entre mortais e Imortais, entre os homens e os deuses. Quanto aos mistérios que os sacerdotes órficos pretendem poder revelar a seu rebanho, receio que permaneçam para sempre, como sempre acontece em casos semelhantes, o que eram no início; isto é, mistérios.
O que me leva diretamente aos de Elêusis, quer dizer, ao mito de Deméter, a deusa das colheitas e das estações. Nele você verá como o fato de ser imortal muda tudo: para os deuses bem-aventurados, diferentemente do que se passa com os infelizes mortais, é sempre possível deixar o reino de Hades, mesmo que este último esteja decidido a manter consigo o visitante.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

publicado às 10:42

Na mitologia grega, Anfitrião era marido de Alcmena, a mãe de Hércules.
Enquanto Anfitrião estava na guerra de Tebas, Zeus tomou a sua forma para deitar-se com Alcmena, e Hermes tomou a forma de seu escravo, Sósia, para montar guarda no portão. 
Uma grande confusão foi criada, pois evidentemente, Anfitrião duvidou da fidelidade da esposa.
No fim, tudo foi esclarecido por Zeus, e Anfitrião ficou contente por ser marido de uma mulher escolhida do deus.
Daquela noite de amor nasceu o semideus Hércules. A partir daí, o termo anfitrião passou a ter o sentido de 'aquele que recebe em casa'.
Portanto, ANFITRIÃO é sinônimo de: CORNO MANSO E FELIZ!
RESUMINDO: QUANDO DISSEREM QUE VOCÊ É UM BOM ANFITRIÃO FIQUE DE ORELHA EM PÉ.
CULTURA DEMAIS É UMA MERDA!

(Vamos rir?)

 

O corno é sempre o último, a saber
(Ditado popular)

 

(...) O Pai do Céu (Zeus) ficou aturdido por uma paixão tal que o deixara totalmente
cego. "Somente com ela (Alcmena)" - declarou aos outros deuses -, "serei capaz
de gerar o melhor de todos os homens, aquele que, por meio de sua
força, há de dignificar meu nome e se elevará por suas façanhas acima
do resto dos mortais."
Desse modo, Zeus decidiu assumir a aparência do incauto
Anfitrião, que de nada suspeitava, e possuir assim sua esposa
mediante um elaborado artifício. Antes de apresentar-se na alcova de
Alcmena com a impostura do triunfo, Hermes, por ordem de seu amo,
fez com que Hélio apagasse os fogos solares, deteve a Lua, desatrelou os
cavalos do Tempo da carruagem das Horas e ordenou a Morfeu que
adormecesse os homens durante três dias e três noites para que
ninguém se pudesse interpor ã consecução da infame tarefa de Zeus,
porque uma criatura tão grande como o filho que ele pretendia gerar não
poderia ser concebida às pressas.

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas)

Nada menos cristão que as cruezas eclesiásticas de um
Deus como pessoa, de um “reino de Deus” que virá, de um “reino do céu”
além, de um “filho de Deus”, a segunda pessoa da Trindade. Isso tudo é
— perdoem-me a expressão — o murro no olho — ah, que olho! — do
evangelho; um cinismo histórico-universal na derrisão do símbolo... Mas
é óbvio — não para qualquer um, admito — a que dizem respeito os signos
“pai” e “filho”: com a palavra “filho” se expressa a entrada no sentimento
geral de transfiguração de todas as coisas (a beatitude), com a palavra
“pai”, este sentimento mesmo, o sentimento de eternidade, de perfeição.
— Envergonho-me de lembrar o que a Igreja fez desse simbolismo: não
pôs ela, no limiar da “fé” cristã, uma história de Anfitrião?

(“uma história de Anfitrião”: num episódio da mitologia grega, Zeus assume a
forma de Anfitrião, marido de uma bela mulher, Alcmena, para poder possuí-la, e dessa
união nasce o semideus Héracles /Hércules. Na frase seguinte há um engano constatado já
pelos primeiros editores da obra, que o corrigiram sorrateiramente: o dogma da

“imaculada concepção” diz respeito ao nascimento de Maria, não ao de Jesus;

esse equívoco se repeteadiante, no § 56) E, ainda por cima, um dogma de “imaculada concepção”?... Mas com isso ela maculou a concepção 
( NIETZSCHE - O Anticristo — Maldição ao cristianismo e Ditirambos de Dionisio

 

00000000000000000 H.jpgZeus consegue seduzir aencantadora Alcmena, uma mortal casada com um certo Anfitrião, e se torna pai deHéracles. A criança será um “semideus”, no sentido que os gregos dão a essa palavra:um filho de Imortal por parte de pai e de ser humano por parte de mãe

 

Um poema muito antigo — provavelmente escrito por volta do século VI a.C. —, um poema por muito tempo atribuído (erradamente, mas isso pouco importa aqui) a Hesíodo, é o primeiro a nos contar em detalhe o fabuloso mito do nascimento de Héracles. O poema se intitula O Escudo porque sua maior parte se dedica a descrever esse elemento do equipamento de combate do herói. Desde os primeiros versos descobre-se por quais artifícios — bastante tortuosos — Zeus consegue seduzir a encantadora Alcmena, uma mortal casada com um certo Anfitrião, e se torna pai de Héracles. A criança será um “semideus”, no sentido que os gregos dão a essa palavra: um filho de Imortal por parte de pai e de ser humano por parte de mãe. O mais importante é que o poema nos faz uma revelação quanto às intenções de Zeus. Abrindo uma exceção em sua regra, para o deus não se tratava ali (apenas) de se divertir fazendo amor com uma bonita mulher, mas, como acrescenta Hesíodo:
o pai dos deuses e dos homens tramava outra coisa: queria, tanto para os deuses quanto para os homens, criar um defensor contra o perigo.
Um “defensor contra o perigo” é, de fato, a principal missão de nosso herói. Mas de qual perigo, exatamente? E por que Zeus, como um xerife de faroeste, quer um “auxiliar”? Com Héracles, na verdade, é literalmente um lieutenant(Em francês, o oficial que literalmente “ocupa o lugar” do oficial logo acima na hierarquia; tenente) que Zeus pretende, alguém capaz de “estar no lugar” do rei dos deuses na terra e não apenas no céu, de secundá-lo aqui embaixo em sua luta contra a incessante ressurgência das forças do caos, herdeiras longínquas dos Titãs. É bem provável que seja esse o perigo que constantemente vai estar em foco na lenda de Héracles. Talvez você me pergunte como se reconhecem tais forças. Não acha um tanto simplista se expressar como fazem os políticos, que separam com uma linha divisória única de um lado as “forças do mal”, o “grande Satã”, e, do outro, as forças do bem, que, numa feliz coincidência, em geral eles próprios representam? Na verdade, estamos longe dessa situação caricatural. Pois devemos ver que naquela época, obviamente lendária, em que os deuses não estavam separados dos mortais — como prova disso, vão para as suas camas, fazem filhos —, estávamos ainda bem perto das origens do mundo, do caos inicial e dos grandes combates “titânicos” que levaram à edificação do cosmos. Zeus acabava de vencer Tífon, o último monstro destruidor de mundo, mas em nosso planeta veem-se o tempo todo renascer “mini-Tifões” que ameaçam tomar o poder num ou noutro lugar, devendo ser remetidos a seus devidos lugares. E isso, com a força que têm e o pavor que inspiram, está longe de ser tarefa fácil para os humanos.
É essa, justamente, a missão que Zeus quer confiar a Héracles: desse ponto de vista, ele deve continuar no mundo sublunar o trabalho feito pelo rei dos deuses em outra escala, a escala do cosmos inteiro. Sua vida então será dedicada à luta, em nome de diké, pela ordem justa, contra a injustiça, contra entidades mágicas e maléficas, muitas vezes com origem no próprio Tífon, que de diversos modos encarnam sempre o possível renascimento da desordem. É absolutamente crucial a correta compreensão desse tema. Seria um erro entender aqui a palavra “desordem” no sentido moderno, quase “policial”, como quando nos referimos às “forças da ordem pública” para designar a polícia, ou também as “perturbações da ordem pública”, quando se reprime uma manifestação política. Não é, no caso, disso que se trata, mas de uma ordem entendida no sentido cosmológico do termo. É a harmonia do Grande Todo que está em causa, e as forças da desordem não são manifestantes e sim seres mágicos, frequentemente engendrados por divindades que ameaçam o ordenamento do universo e a justiça, ambos instaurados por Zeus no momento da famosa partilha original do universo. Além disso, deve-se ver que a preservação da ordem nada tem a ver com a simples polícia, pois põe em jogo a própria finalidade da vida dos homens mortais. De fato, se a vida boa, para nós, consiste em encontrar nosso lugar na ordem cósmica e, pelo modelo de Ulisses, a ele voltar custe o que custar, é preciso também que essa referida ordem pura e simplesmente exista e seja preservada. Sem isso, é todo o sentido da vida humana que naufraga e, com ele, a possibilidade de qualquer busca da sabedoria.
Por esse motivo, a filosofia estoica, que constitui um dos pontos altos do pensamento grego, viu no personagem de Héracles uma figura tutelar, uma espécie de padroeiro. A ideia fundamental que anima o estoicismo é a de que o mundo, o cosmos, é divino, no sentido de que é harmonioso, belo, justo e bom.(Para uma apresentação mais completa dessa filosofia, cf. Aprender a Viver I) Nada é mais benfeito do que a ordem natural, e nossa função na Terra, pequenos humanos que somos, é a de preservá-la, nela encontrarmos nosso lugar e nos adaptarmos. É sob esse ângulo que os pais fundadores do estoicismo se referem a Héracles como a um dos seus ancestrais. Cleanto, um dos primeiríssimos diretores da escola, gostava de que se referissem a ele como a um “segundo Héracles”, e Epiteto sublinha muitas vezes em sua obra que Héracles é um deus vivo na terra, um daqueles seres que participaram da elaboração e da preservação da ordem divina do mundo. A meta filosófica das aventuras de Héracles parece, então, considerável. Em tais condições, não surpreende que suas façanhas tenham alimentado tantas narrativas diversas, com tal riqueza de imaginação. Assim, tentarei dar uma ideia dessa extraordinária diversidade, mesmo que com isso a narrativa pareça mais complicada e menos linear.
Mas vamos por enquanto voltar ao início dessa história, ao famoso estratagema usado por Zeus para conceber Héracles. Pois essa cena primitiva, várias vezes evocada por Homero, não é anedótica. Ela tem inúmeras e consideráveis consequências sobre a futura trajetória do herói.
Alcmena, a mulher mortal que vai ser sua mãe, acaba de se casar com Anfitrião. Eles são primos-irmãos. Seus pais são irmãos, filhos de um outro herói grego famoso, Perseu, que, então, é bisavô de Héracles e já era um célebre matador de monstros, pois, como você sabe, ele enfrentou vitoriosamente a terrível Górgona Medusa, numa série de aventuras a que ainda voltaremos mais adiante. Os irmãos de Alcmena tinham sido mortos durante uma guerra contra povos que na época eram denominados tafianos e teleboanos. Deixemos de lado os detalhes; Alcmena ama Anfitrião, seu marido e primo, porém mesmo assim proíbe que venha à sua cama enquanto não tiver vingado os seus irmãos. Por isso Anfitrião parte para a guerra contra esses famosos tafianos e teleboanos. Enquanto isso, Zeus observa os acontecimentos do alto do Olimpo. Vê Anfitrião se comportar como valoroso guerreiro nos combates, conseguir a vitória e se pôr no caminho de volta para casa, querendo contar à esposa os seus feitos. Anfitrião espera assim ter finalmente acesso ao leito nupcial. É nesse momento que Zeus pensa em Héracles. Imagine que ele se transforma em Anfitrião. Simplesmente se torna seu sósia, seu perfeito duplo, e penetra nos aposentos de Alcmena como se fosse o marido. Tem inclusive a cara de pau de contar suas façanhas, como se as tivesse realizado. Chega a presenteá-la, se dermos ouvido a certas variantes, com joias e outros troféus que arrancara do inimigo. Alcmena, é claro, satisfeitíssima com o trabalho do marido, vingando seus irmãos, e fascinada por tanta intrepidez, aceita afinal se deitar com ele — quer dizer, na verdade, com Zeus, que imediatamente lhe dá um filho, o pequeno Héracles, justamente.
A cena viria a gerar, na literatura, um número impressionante de representações diversas, mas entre todos os mitógrafos a trama básica é mais ou menos a mesma, esta que acabo de revelar. Deve-se precisar ainda que, uma vez chegando em casa, o verdadeiro Anfitrião também vai para a cama com a esposa e igualmente lhe faz um filho, Ificles, que será, então, irmão gêmeo de Héracles, mesmo não tendo o mesmo pai. Algumas variantes do mito indicam que Zeus alongou o tempo, fazendo a noite durar três vezes mais do que uma noite normal, certamente para se aproveitar de Alcmena, que é linda, como eu disse, assim como para atrasar a volta do verdadeiro Anfitrião. Igualmente descreveram o espanto do marido, de regresso ao lar, constatando que a mulher já sabe tudo sobre os seus feitos antes que ele os conte e até mesmo, o que obviamente parece incompreensível a Anfitrião, possui os troféus que ele traz — e que, no entanto, ainda não havia dado a ela! No fundo, pouco importam esses detalhes. O que conta é que Héracles nasce, e não da mulher legítima de Zeus, Hera — o que faz com que esta última fique louca de raiva ao descobrir Alcmena grávida de seu marido.
Talvez você já tenha notado por si mesmo que os dois nomes — Hera, Héracles — se parecem, ou melhor, um é um pedaço do outro: de fato, há um laço entre eles. Etimologicamente, Héracles é uma palavra que quer dizer “a glória de Hera” e, uma vez mais, preciso explicar por quê: essa parte do mito possui um significado que serve de fio condutor para as principais aventuras do herói.
De início, e nesse ponto todo mundo está de acordo, Héracles se chamava Alcides — o que quer dizer “filho de Alceu” — em homenagem ao avô, que tinha esse nome e significa “forte”. Mas a partir daí, como em todos os assuntos referentes à vida de Héracles, várias histórias entram em concorrência para explicar sua troca de nome. Grosso modo, duas explicações principais se apresentam — o que é bem divertido, pois falamos como se tratássemos de um personagem histórico, apesar de, lembro uma vez mais, ser alguém totalmente mítico e lendário que nunca existiu, o que leva a pensar que os gregos certamente aderiam a essas histórias, levavam-nas com certeza muito a sério, se não num sentido factual, pelo menos na perspectiva da significação que tinham, para eles, em termos de sabedoria de vida. A primeira explicação, que devemos ao poeta Píndaro,(Pelo menos é o primeiro, ao que parece, a apresentá-la) diz que a própria Hera assim batizou o herói, e isso por um motivo bem compreensível: enlouquecida de ciúme e detestando ser, uma vez mais, enganada por Zeus, ela tem verdadeiro ódio pelo recém-nascido. Ela é que vai inventar os famosos 12 trabalhos, com a esperança de que Héracles morra rapidamente, enviado a combater monstros que ser humano algum jamais conseguiria vencer. Héracles, no entanto, não apenas sai vitorioso, mas aureolado por uma glória inigualável. Aliás, o semideus e a deusa acabam se reconciliando depois da morte de Héracles, sendo transformado em verdadeiro deus e acolhido no Olimpo. De forma que, de certa maneira, é “graças” a Hera que Héracles vai se tornar célebre no mundo inteiro. De fato, sua glória é inteiramente dedicada à mulher de Zeus, que foi também, por mais paradoxal que isso possa parecer, sua principal instigadora. Donde seu nome: “Herakleios”, a glória de Hera.
Principalmente em Apolodoro, temos uma explicação um pouco diferente, mas que no fundo tem a ver com a de Píndaro. Antes até de dar início a seus famosos trabalhos, Héracles tivera oportunidade de prestar um grande favor a Creonte, o rei de Tebas que sucedeu a um outro personagem célebre da mitologia, Édipo. Em troca, ou pelo menos em sinal de gratidão e amizade, Creonte lhe oferece em casamento a filha, Mégara. Héracles se casa e tem com ela três filhos. Vivem aparentemente felizes até que Hera, por ciúmes, lança um feitiço em Héracles para que fique louco, furioso. O sortilégio funciona e, em apavorante crise de delírio, numa demência que foge inteiramente da sua responsabilidade, Héracles lança seus três filhos no fogo e, completando o quadro, mata ao mesmo tempo dois sobrinhos, filhos do “meio-irmão gêmeo” Ificles. Voltando a si, ele se dá conta do horror da sua situação e se autocondena ao exílio. Vai a uma cidade vizinha para, segundo o costume, “se purificar”. De fato, um sacerdote ou um deus podiam, durante uma cerimônia, “purificar”, isto é, lavar a culpa — mais ou menos como Midas no Pactolo — de quem houvesse cometido algum crime grave, uma morte, por exemplo. Uma vez executado o ritual, Héracles vai a Delfos consultar a pítia. Ela é que lhe dá o nome premonitório de Héracles — a glória de Hera —, recomendando que se ponha a serviço da deusa para cumprir os 12 feitos, trabalhos impossíveis que ela vai impor por intermédio do seu primo, o horrível Euristeu (de quem falarei daqui a pouco). A pítia acrescenta ainda que Héracles, depois de cumprir os trabalhos, será imortal — não apenas pela glória, mas realmente se transformando em deus.
De um jeito ou de outro, as duas versões não estão assim tão afastadas quanto parece à primeira vista. Nos dois casos, com efeito, Héracles trabalha pela glória de Hera, e sua glória está ligada às tarefas incríveis que ela impõe por ciúmes, para se vingar do fato de ele existir, fato este que permanentemente relembra a infidelidade de Zeus. Ainda duas pequenas observações acessórias, antes de chegarmos às primeiras grandes façanhas de Héracles. São acontecimentos que antecedem os 12 trabalhos e se passaram de maneira quase miraculosa, durante a sua primeira infância. Primeiro, é anedótico, mas demonstra bem a interligação entre todas essas histórias; você pode notar que Héracles, por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista, é, ao mesmo tempo, bisneto e irmão caçula de seu bisavô Perseu! De fato, mesmo que distantes por várias gerações, ambos têm o mesmo pai, ou seja, Zeus; a imortalidade torna possível aos deuses o que é inconcebível para os humanos. Simbolicamente, permite também fazer a ligação entre os mitos, associando, como no jogo de cartas “sete famílias”, vários personagens, no caso Perseu e Héracles, que têm perfis análogos. Os dois são destruidores de monstros e herdeiros, em seu próprio nível, é claro, da obra paterna.

000000000000000 via látea.jpgO nascimento da via Láctea, 1636. Quadro do pintor barrroco Peter Paul Rubens

 A segunda observação concerne à origem “hercúlea” da Via Láctea.(Essa lenda surge bem cedo, sob forma fragmentária, mas encontram-se versões mais desenvolvidas em Pausânias, Diodoro e Higino) Como sempre, há várias maneiras de contar essa famosa lenda dos primeiros meses de vida do herói. Uma delas parece se impor com mais frequência e consiste em lembrar que para se tornar imortal um dia — e este é o destino de Héracles, como a pítia o confirma em Delfos — ele precisa absorver o alimento dos deuses, principalmente a ambrosia. Aliás, faço notar que, em grego, a palavra “ambrosia” significa, simplesmente, “não mortais”, a-(m)brotoi. Com essa finalidade, Hermes teria sido encarregado por Zeus de colocar o pequeno Héracles no seio de Hera, enquanto ela dormia. Porém, entreabrindo um olho, Hera é tomada por verdadeiro horror, vendo o bebê que não para de lhe lembrar a infidelidade de Zeus. Violentamente o afasta e são as gotas de leite perdidas no céu que dão origem à Via Láctea. Diodoro conta uma versão um pouco diferente: Héracles foi posto no seio de Hera por Atena, porém, já cheio de energia, teria mordido a deusa com uma certa voracidade! E só aí ela o repele com violência, dando nascimento a essa famosa Via Láctea. Essas variantes dão mais ou menos no mesmo e idêntico resultado final, que é a criação dessa espécie de autoestrada das estrelas. Indico simplesmente para que se tenha ideia de como, desde a Antiguidade, se apresentavam de maneira muito variada as narrativas míticas, segundo as épocas, os autores e as regiões. Apesar de tudo, dessa diversidade nasce, pelo menos em suas grandes linhas, uma cultura comum que faz sentido e que os mitógrafos vão transmitir aos filósofos — mais ou menos como, em nossa própria tradição, os contos de fada vão também ganhar variações a partir de uma base comum; afinal, entre as diferentes histórias de Cinderela, quando contada por Grimm ou por Perrault, há igualmente apenas nuanças diferentes. E, mesmo assim, a trama continua fundamentalmente a mesma.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

publicado às 01:21

Comecemos pela dimensão cultural dos mitos.
Ela praticamente fala por si mesma, se considerarmos o uso que fazemos em nossa linguagem cotidiana de uma quantidade de imagens, de metáforas e de expressões que diretamente pegamos emprestadas, sem sequer conhecer seu sentido e origem.(As explicações para essas expressões - e outras - aparecerão ao longo do livro) Algumas, que se tornaram lugares-comuns, trazem a lembrança de determinado episódio fabuloso, particularmente marcante nas aventuras de algum deus ou herói: partir em busca do “tosão de ouro”, “agarrar o touro pelos chifres”, “ficar entre Caribdis e Cila”, introduzir entre os inimigos um “cavalo de Troia”, limpar os “estábulos de Augias”, seguir o “fio de Ariadne”, ter um “calcanhar de Aquiles”, lamentar a “idade de ouro”, colocar sua ação sob a “égide” de alguém, observar a “Via Láctea”, participar dos “Jogos Olímpicos”... Outras, mais numerosas ainda, insistem em algum traço característico de determinado personagem, cujo nome se torna familiar sem que a gente saiba os motivos do sucesso nem o papel exato que ele representava no imaginário grego: pronunciar palavras “sibilinas”, decidir-se com relação ao “pomo da discórdia”, “bancar a Cassandra”, ter, como Telêmaco, um “Mentor”, mergulhar nos “braços de Morfeu” ou usar “morfina”, “mergulhar no Pactolo”, se perder num “Labirinto”, num “Dédalo” de ruelas, ter um “Sósia” (o criado de Anfitrião de quem Hermes assume a aparência quando Zeus seduz Alcmena), uma “Egéria” (a ninfa que aconselhou, dizem, um dos primeiros reis de Roma), gozar de uma força “titânica”, “hercúlea”, sofrer o “suplício de Tântalo”, passar pelo “leito de Procusto”, ser um “Anfitrião”, um Pigmalião apaixonado por sua criatura, um sibarita (habitante da luxuosa cidade de Síbaris), abrir um “Atlas”, xingar “como um carroceiro”,(A origem dessa expressão, talvez ainda menos conhecida do que a de outras, não deixa de ser engraçada. Muitas vezes me perguntei por que, afinal, o carroceiro xingaria mais do que o camponês ou o ferreiro. A resposta está ligada a um episódio dos 12 trabalhos de Hércules e que foi explicitamente contado por Apolodoro (Biblioteca, livro II, §118), a quem deixo a palavra: “Atravessando a Ásia, Hércules acostou em Termidrai, no porto de Lindos. Desatrelou um dos bois do carro de um carroceiro, sacrificou-o e se regalou. O carroceiro, não podendo se defender, subiu numa montanha e se pôs a xingar.” O pobre homem não ia querer, afinal, provocar em combate singular aquela outra montanha, só que de músculos, que devia ser Hércules!) se lançar em empreitada “prometeica”, uma tarefa infinita como a que consiste em esvaziar o “tonel das Danaides”, falar com uma voz de “Estentor”, passar por um “Cérbero” num lugar sombrio, cortar o “nó górdio”, montar “como Amazona”, imaginar “Quimeras”, ficar “medusado”, “nascer da coxa de Júpiter”, esbarrar numa “Harpia”, numa “Megera”, numa “Fúria”, entrar em “pânico”, abrir “a caixa de Pandora”, apresentar um “complexo de Édipo”, ser “narcisista”, estar na companhia de um bom “areópago”... A lista pode crescer infinitamente. Da mesma forma, será que nos damos conta de que um hermafrodita é, antes de tudo, filho de Hermes e de Afrodite, o mensageiro dos deuses e a deusa do amor; que um gorgonáceo parece petrificado como se tivesse cruzado o olhar de Medusa; que museu e música são herdeiros das nove musas; que um lince, em princípio, tem a vista penetrante de Linceu, o argonauta que era capaz de ver através de uma tábua de carvalho; que os lamentos da bonita ninfa Eco, desolada com a partida de Narciso, ainda podiam ser ouvidos depois da sua morte; que o louro é uma planta sagrada em homenagem a Dafne, e o cipreste, tão comum nos cemitérios mediterrâneos, é um símbolo do luto, tendo a ver com o infeliz Ciparissos, que sem querer matou uma pessoa querida e nunca conseguiu se consolar?... Inúmeras expressões lembram também lugares famosos da mitologia, o “campo de Marte”, os “campos elísios” ou, mais secreto, o “Bósforo”, que literalmente evoca a “passagem da vaca”, recordando Io, a pequena ninfa que Hera, esposa de Zeus, perseguiu com seu rancor ciumento e que seu ilustre marido transformou em encantadora bezerra, para protegê-la da maldade da esposa...
Na verdade, um capítulo inteiro seria necessário para juntar todas essas alusões mitológicas incorporadas e depois esquecidas na linguagem de todo dia, para reavivar o sentido de nomes como Oceano, Tifão, Tríton, Píton e outros seres maravilhosos que se apresentam incógnitos em nossa fala cotidiana. Charles Perelman, um dos maiores linguistas do século passado, falava muito saborosamente de “metáforas adormecidas” nas línguas maternas. Qual francês ainda se lembra que as lunettes, os óculos, que ele nunca sabe onde deixou e está sempre procurando, são “pequenas luas” (lunetas)? É preciso ser estranho à língua para se dar conta e, por isso, às vezes um japonês ou um indiano acham poético um termo ou uma expressão que a nós parece perfeitamente comum — da mesma forma que achamos bonitinhos ou engraçados “gota de orvalho”, “urso corajoso” e “sol matinal”, que podem servir como nome para os filhos deles...
Este livro propõe despertar essas “metáforas adormecidas” da mitologia grega, contando as maravilhosas histórias que estão em sua origem. Mesmo que seja apenas em nome da cultura, para estar capacitado a compreender a incontável quantidade de obras de arte ou intelectuais que, nos museus ou bibliotecas, buscam inspiração nessas raízes antigas e permanecem, assim, perfeitamente “herméticas” (mais uma referência ao deus Hermes!) para quem ignora mitologia, isso já vale a pena — ou melhor, como vamos ver, o prazer.
Pois o formidável sucesso linguístico da mitologia não deixa de ter, é evidente, sentido e importância. Há razões de fundo para esse singular fenômeno — sistema filosófico algum, nenhuma religião, sequer as da Bíblia, podem reivindicar semelhante status — que faz da mitologia, mesmo que na mais completa ignorância de suas fontes reais, uma parte inalienável da nossa cultura comum. Sem dúvida isso tem a ver, já de início, com o fato de ela atuar a partir de narrativas concretas e não, como a filosofia, de maneira conceitual e reflexiva. E é nesse sentido que ela pode, ainda hoje em dia, se dirigir a todos, apaixonar crianças e pais num mesmo impulso, ou até transpor, se apresentada de modo sensato, não apenas as idades e as classes sociais, mas também as gerações, se transmitindo à nossa época como vem fazendo, praticamente sem interrupção, há quase três milênios. Apesar de ter sido, por muito tempo, considerada como uma marca de “distinção”, como símbolo da mais alta cultura, a mitologia, na verdade, não está absolutamente reservada a uma elite, nem aos que se baseiam em estudos do grego e do latim: todo mundo pode compreendê-la, inclusive as crianças, com as quais se devem compartilhar as suas histórias o quanto antes, como muito bem percebeu o historiador Jean-Pierre Vernant, que gostava, ao que dizem, de contá-las ao neto. Não apenas tais narrativas trazem às crianças infinitamente mais do que os desenhos animados com que elas normalmente são nutridas, mas iluminam as suas vidas com um foco insubstituível, se tivermos nos dado ao trabalho de compreender com suficiente profundidade a prodigiosa riqueza dos mitos, nos tornado aptos, assim, a contá-los em termos compreensíveis e sensatos.
E esse é o primeiro objetivo deste livro: tornar a mitologia bastante acessível ao maior número de pais para que eles possam repassá-la a seus filhos — sem, contudo, trair nem desnaturar os textos antigos originais. Este ponto é crucial a meu ver e gostaria de nele insistir um momento.
Por seu método e por seu objetivo, o trabalho que aqui apresento não se assemelha às obras de vulgarização, no mais das vezes agradáveis, agrupadas em geral dentro de coleções do tipo “contos e lendas”. Por se dirigirem às crianças e ao grande público, com frequência despreocupadamente se juntam nelas camadas e camadas heterogêneas que pouco a pouco forjaram, no tempo, no espaço e no espírito, o que se designa como “mitologia”. Na maior parte das vezes, esses retalhos de saber permanecem descosidos e deformados, “arrumados” que foram às necessidades da causa e do momento. O significado e a origem autênticos das grandes narrativas míticas se mantêm, com isso, ocultos ou até mesmo falseados, a ponto de se reduzirem, em nossas lembranças, a um anedotário mais ou menos judicioso, arquivado em algum lugar entre os contos de fadas e as superstições herdadas das religiões arcaicas. Mais grave ainda, a coerência se perde nos floreios e ornamentos diversos, ou mesmo nos erros, pura e simplesmente — são inúmeros nesse tipo de obra —, que os autores modernos não conseguem, em geral, deixar de introduzir, en passant, nas narrativas antigas e que desnaturam o seu alcance. Pois devemos manter na consciência que a “mitologia” de forma alguma vem de determinado autor. Não há uma narrativa única, um texto canônico ou sagrado, comparável à Bíblia ou ao Corão, que se tenha religiosamente guardado ao fio dos séculos e que sirva como indiscutível referência. Pelo contrário, temos uma pluralidade de histórias que narradores, filósofos, poetas e mitógrafos (é como se chamam os que juntaram e redigiram, desde a Antiguidade, compilações de contos míticos) escreveram ao longo de 12 séculos (do VIII a.C. ao V d.C., grosso modo) — para não falar das múltiplas tradições orais das quais, por definição mesmo, sabemos pouquíssimo.
Tal diversidade, entretanto, não deve ser reduzida nem deixada de lado pelo simples motivo de não se estar escrevendo um livro exclusivamente voltado para o saber acadêmico. Apesar de não estar me dirigindo apenas a especialistas, e sim a leitores de todas as áreas, não quis confundir tudo da mesma maneira. Esforcei-me, tentando conciliar o que a erudição ensina com o que a vulgarização impõe, sem nunca sacrificar a primeira aos imperativos da segunda. Em outras palavras, para cada uma das histórias que vou contar, indico as fontes autênticas, cito tantas vezes quantas necessárias os textos originais e preciso, quando acredito ser ao mesmo tempo interessante e útil, as principais variantes que surgiram no decorrer do tempo. Acredito que esse respeito pelos textos antigos, com sua complexidade e heterogeneidade, não só em nada prejudica a inteligibilidade dos mitos, mas também, pelo contrário, é a condição necessária para a boa compreensão. Perceber as inflexões que um autor trágico como Ésquilo (século VI a.C.) ou um filósofo como Platão (século IV a.C.) puderam dar do mito de Prometeu, tal como o poeta Hesíodo, antes de todos (no século VII a.C.), havia estabelecido, não é dispersivo, e sim esclarecedor. Longe de obscurecer, enriquece a compreensão e seria absurdo privar o leitor disso, a pretexto de se pretender a vulgarização: as sucessivas reinterpretações dessas histórias só as tornam ainda mais interessantes.
Mas o que a mitologia tem de interessante não se limita ao aspecto linguístico ou cultural, e seu sucesso, é evidente, não está ligado apenas às qualidades inerentes à forma da narrativa, assumida para transmitir seus ensinamentos. Meu livro não visa, então, apenas oferecer chaves para que o leitor se situe naquilo que os gregos chamariam “lugares-comuns” da cultura — mesmo não sendo isso, absolutamente, desprezível ou negligenciável: afinal, foi a partir dessa herança que nós todos, queiramos ou não, forjamos para nós, pelo menos parcialmente, uma certa representação do mundo e dos homens; conhecer suas origens só pode nos tornar mais livres e mais conscientes de nós mesmos. Mas além da importância histórica ou estética inestimável, as narrativas que vamos descobrir ou redescobrir trazem em si lições de sabedoria de uma profundidade filosófica e modernidade que eu gostaria desde já assinalar.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos, introdução)

publicado às 00:18


O absurdo do amor

por Thynus, em 18.11.15
 
Amamos a vida não porque estamos acostumados à vida, mas a amar. 
Há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre também alguma razão na loucura.
 

Tanto nos homens quanto nas mulheres, a oxitocina e a vasopressina liberadas no cérebro depois do sexo produzem amor e atração. A oxitocina é liberada inclusive nos abraços, em especial pelas mulheres, razão pela qual um mero toque físico casual pode levar a sensações de proximidade emocional até na ausência de uma ligação consciente ou intelectual entre os participantes. 

(Leonard Mlodinow – “Subliminar,Como o inconsciente influencia nossas vidas”)

 

Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais.
O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. (...)
O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)

 

"É UM ERRO CASAR. O SEXO É COISA DO DIABO E EU TAMBÉM"
Há algum tempo conversei com uma jovem de 22 anos de idade. Haviam-lhe
ensinado que era pecado dançar, jogar cartas, nadar e sair com homens. Era
ameaçada por sua mãe, que lhe dizia que arderia eternamente no fogo do inferno
se desobedecesse à sua vontade e aos ensinamentos religiosos. Essa jovem usava
sempre vestido preto e meias pretas. Não usava rouge, batom ou qualquer outra
espécie de pintura, pois sua mãe dizia que essas coisas eram pecaminosas. A mãe
disse-lhe também que os homens eram diabólicos e que o sexo era uma coisa do
diabo, uma devassidão simplesmente diabólica.
Essa jovem teve de aprender a perdoar-se, pois estava dominada por um
sentimento de culpa. Perdoar significa renunciar. Ela teve de renunciar a todas
as suas falsas crenças nas verdades da vida e criar uma nova avaliação de si
mesma. Quando saía com jovens do escritório em que trabalhava, tinha uma
profunda sensação de culpa e pensava que Deus iria puni-la. Inúmeros rapazes
propuseram-lhe casamento, mas ela me afirmou: "O casamento é um erro.
O sexo é. coisa do diabo e eu também". Era a voz da sua consciência ou
condicionamento anterior falando.
Passou a visitar-me uma vez por semana, durante dez semanas, tendo eu
explicado o funcionamento das mentes consciente e subconsciente (...)
Gradualmente, essa jovem foi compreendendo que fora submetida a uma terrível
lavagem cerebral, mesmerizada e condicionada por uma mãe, ignorante,
supersticiosa, intolerante frustrada. Ela rompeu inteiramente com sua família e
iniciou uma nova e maravilhosa vida.
Por sugestão minha, mudou de guarda-roupa e até de penteado. Tomou lições de
dança com um homem e também aprendeu a guiar automóveis. Aprendeu a nadar, a
jogar cartas e teve inúmeros encontros com rapazes.
Começou, em suma, a amar a vida. Rezou por um companheiro perfeito, pedindo
ao Espírito Infinito que lhe atraísse um homem que com ela se harmonizasse
integralmente. Isso veio finalmente a ocorrer. Certa tarde, quando deixava meu
consultório, havia um homem esperando para ver-me e eu casualmente apresentei-os.
Estão agora casados e vivem em perfeita harmonia um com o outro...

(Joseph Murphy - O poder do Subconsciente)

 

Mas, e sobre o amor?
 
O que é mais romântico do que um jantar íntimo à luz de velas? Mas antes os dois precisam escolher se vão jantar no subúrbio ou ir até o centro. Jantar perto de casa restringe as opções de restaurantes, mas dispensa a viagem até o centro e permite um aperitivo no conforto do lar. O centro oferece mais opções, mas envolve uma viagem em transporte público e um aperitivo num bar barulhento e caro da cidade.
Esta noite, o casal decide não viajar, mas os restaurantes locais são do século passado. Quantas décadas faz que as cozinhas italiana, chinesa e indiana estavam na moda? E esses antiquados restaurantes locais parecem nunca ter ouvido a expressão “new wave”. O que o bairro precisa é de um bom restaurante vietnamita.
Depois, ele quer escolher o restaurante com antecedência e fazer uma reserva, mas ela argumenta que isso pode significar o horror de jantar num restaurante vazio!
“O que tem de errado num restaurante vazio?”
A pergunta é tão incrivelmente obtusa que ela ergue os olhos para o céu, pedindo força e paciência, até conseguir um heroico autocontrole para dizer, com toda a calma: “A gente podia andar por aí e encontrar alguma coisa”.
Então eles caminham, de cara fechada, dando uma olhada nos cardápios. Sabendo que o desejo secreto dele é um restaurante chinês, ela diz, com frieza: “Aqui vai ser tudo um grude gordurento”. Sabendo que o desejo secreto dela é a comida indiana, ele solta uma risada implacável: “Aqui a gente paga 4 libras só para ler o cardápio”. Então sobra o italiano, que nenhum dos dois deseja e onde eles encontrarão de novo aquele maître horroroso que consegue ser ao mesmo tempo obsequioso e dominador. Certa vez, o sujeito lhes ofereceu uma mesa no porão. E agora ele pergunta se eles fizeram reserva, sabendo perfeitamente que não. Ela pede uma mesa perto da janela, e o maître, com absoluta falsidade, pede desculpas, mas a mesa está reservada. O que é que esse cara está pensando? Um casal sofisticado e atraente como eles devia até ser pago para se sentar à janela e atrair outro tipo de clientela que não seja essa gente que faz o lugar parecer o refeitório de um asilo de velhos.
Mas não deu, e eles precisam se espremer até uma mesinha apertada entre duas outras, que estão ocupadas e onde até um sussurro pode ser ouvido pelos vizinhos. É intimidade demais! E ele, que estava pensando em sugerir um filme pornô mais tarde – nada grosseiro, naturalmente, mas uma produção de bom gosto que as mulheres adoram e que ele passou um tempão procurando. Ela, por sua vez, pretendia conversar sobre a diminuição de libido que vinha sentindo ultimamente.
Já se encaminhando para a cadeira que tinha vista para a sala, ela diz: “Você se importa?” Ele ri com ironia: “Estou acostumado a olhar para as paredes”.
Então chegam o cardápio e a carta de vinhos. Ele chama a atenção para a diferença considerável entre o tinto da casa e os outros vinhos. Ela lembra que o tinto da casa invariavelmente tem gosto de vinagre. Ele pede uma garrafa do caro Chianti Riserva, que o garçom traz e lhes serve, causando outro problema. Os garçons têm o hábito de se apressar a servir o vinho, roubando dos clientes a autonomia, obrigando-os a beber rápido demais e recompensando aqueles que bebem depressa. Criar uma confusão ou aceitar o aborrecimento?
Na hora de escolher a comida, no interesse do bom teatro, uma parte essencial do jantar, ela prefere que eles peçam pratos diferentes e troquem garfadas num clima romântico. Mas eles gostam dos mesmos pratos – afinal, essa é uma união simbiótica. Por isso ele adotou a estratégia de escolher e anunciar sua escolha num nanossegundo. Agora, entendendo o truque dele, ela diz, com frio desdém: “Então essa é sua nova tática”.
“Por que não podemos escolher o mesmo prato se é isso que queremos?”
 Como tantas outras perguntas dele, essa não merece uma resposta. Então, ela abre mão de sua preferência, pede uma entrada, um prato diferente do dele e fecha o cardápio com uma pancada. E só agora que o garçom os deixou eles notam que não há uma vela sobre a mesa. Em todas as outras mesas cintila uma chama. Então, esse garçom insiste em servir o vinho, que, além de desnecessário, é irritante, e esquece a única coisa essencial. Traga uma vela, imbecil.
Mas, mesmo à luz de velas, o romance não é fácil.
Na verdade, são tantas as ilusões, dificuldades, exigências, ressentimentos, apreensões e tensões que abalam os relacionamentos contemporâneos que a surpresa não é o fracasso de tantos deles, mas que algum consiga sobreviver. No entanto, nunca tantos procuraram um relacionamento com tanta urgência e entraram nele com tão altas expectativas. Porque, já que os relacionamentos atuais se transformaram em negócios de curto prazo, a crença no amor eterno como pré-requisito essencial ficou cada fez mais forte. Nos românticos anos 1960, 40 por cento das mulheres estavam dispostas a aceitar um casamento sem amor, mas, nos pragmáticos anos 1980, apenas 15 por cento aceitavam a segurança financeira sem amor.1 Parece ocorrer um efeito inverso, estranho e catastrófico: quanto menos tolerante a prática, mais exigente a teoria. Os amantes esperam mais, mas estão dispostos a oferecer menos. No entanto, os desastres inevitáveis raramente refreiam esses românticos. Os buscadores do amor vindos do ciberespaço não se deixam intimidar pelo constante fracasso passado. Em qualquer outro campo, os desnorteados e frustrados desistiriam, ou pelo menos fariam perguntas investigativas. Mas a magia do potencial, o principal elemento facilitador de nossa época, é mais forte na atração sexual. O amor – ou melhor, a experiência do amor – é de fato cego.
A principal ilusão é a de que é fácil estabelecer um relacionamento. O assunto é tratado por Erich Fromm no início de seu clássico A arte de amar: “Essa ideia – de que nada é mais fácil que o amor – continuou predominando, apesar das avassaladoras provas do contrário”.2 E apaixonar-se e amar é apenas uma questão de encontrar a pessoa certa, que imediatamente porá fim a qualquer dificuldade, insegurança e solidão, oferecendo amor eterno e protetor.
Essa crença de que é só uma questão de encontrar a pessoa certa é estimulada pela fuga à responsabilidade, a tendência de procurar fora a satisfação da demanda em vez de encontrar dentro a obrigação de satisfazê-la. Como cabe ao outro oferecer amor, quando o relacionamento se rompe a culpa deve ser do outro. Afinal, aquela não era a pessoa certa, e a solução é reiniciar a busca com maior urgência. É incrível que aqueles que têm uma sequência de relacionamentos fracassados raramente aceitam que são no mínimo parte do problema.
Ainda mais inacreditável é que a sucessão de fracassos não faz outro fracasso parecer mais provável. A série de desastres é, na verdade, uma garantia de sucesso da próxima vez. Porque, depois de tantos fracassos dolorosos, o sucesso é merecido. A sensação de merecimento é fortalecida pelo sofrimento: Eu merecia que desse certo dessa vez. Assim, em vez de cuidado, há precipitação. Parece um jogador apostando pesado para recuperar as perdas.
E quando esse apostador encontra parceiros, lançam-se os dois no relacionamento com desesperada impulsividade, acreditando que o amor significa entrega e fusão com o ser amado, uma espécie de união mística. Inunda o outro de elogios, promessas, presentes e favores sexuais, apresenta-lhe a família, os colegas e amigos, raramente sai sem sua companhia e, quando estão separados, bombardeia o amante com mensagens românticas – uma entrega total que estimula um relacionamento sadomasoquista sem que nenhum dos parceiros tenha consciência disso. Na verdade, essa dependência é quase sempre excitante a princípio, uma libertação do fardo e da ansiedade da solidão. Então, o dominador pensa que terá sempre o controle, e o dominado, que suas necessidades serão sempre satisfeitas pelo dominador. E, quando surgem os problemas, os dois amantes ficam desnorteados – como é possível que esteja dando errado se me entreguei completamente? Mas a entrega que devia garantir o amor na verdade o torna impossível. O resultado é a perplexidade, a raiva e a impaciência – e a conclusão de que aquela, afinal, não era a pessoa ideal.
Como, devido à sua intensidade, o relacionamento tem sido inconscientemente provisório, não existe mais permanência, nem no casamento. E, embora decisões reversíveis pareçam atraentes, satisfazem muito menos que as irreversíveis e permanentes. Portanto, é uma profecia autorrealizável.
Há ainda outro problema: nas cidades contemporâneas, o relacionamento a dois pode ser a única fonte de conexão, estrutura, significado e encantamento. Nas sociedades tradicionais havia as religiões para conferir significado e magia, rituais para estruturar o ano, comunidades para oferecer fortes ligações e grandes famílias para oferecer apoio. Hoje o pobre e combalido relacionamento tem que oferecer tudo isso, suportar em suas costas enfraquecidas todo o peso da vida. Não admira que desmorone sob tanta pressão.
E há também o problema de que a fase inicial do relacionamento é sempre mais excitante, em especial numa época que adora a fantasia e é enfeitiçada pelo charme do potencial. Na verdade, a primeira fase é tão diferente da fase posterior que elas são definidas por nomes diferentes. Seria mais acurado descrever a fase inicial como paixão e a fase posterior como amor. E o erro crucial é que todo mundo afirma estar procurando amor, quando na verdade procura apenas paixão.
Isso não chega a surpreender. Quase todas as chamadas histórias de amor são na verdade casos de paixão. Existe algum romance ou filme que retrate um amor maduro e feliz? Todo mundo diz que deseja essa felicidade, mas ninguém quer ler ou ver retratado esse tipo de amor.
Na verdade, a ideia ocidental de amor romântico baseia-se frequentemente na impossibilidade de convivência. Dante mal conhecia Beatriz. Abelardo logo perdeu seu membro viril e foi assim poupado do tédio de viver com Heloísa. Tristão foi traiçoeiramente assassinado sem nunca conviver com Isolda. O amor cortês dos trovadores estava reservado às damas casadas e inatingíveis – eles não podiam nem mesmo tocar, que dirá dividir a mesma casa com suas amadas. Romeu e Julieta morreram depois de uma noite de amor (a ideia de uma única noite de êxtase é eternamente popular nas histórias de paixão, de Tristão e Isolda ao romance e filme Cold Mountain). O jovem Werther(Personagem do romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.) apaixona-se por Charlotte, que está convenientemente comprometida com outro homem – e evita confusão suicidando-se. Em O morro dos ventos uivantes, Cathy e Heathcliff tiram prazer dos seus enfrentamentos. E na clássica análise da paixão Do amor, Stendhal baseou-se numa paixão não correspondida por uma mulher chamada Mathilde Dembowski.
Stendhal descreve a paixão como um processo de cristalização do ser amado. Como um galho atirado numa mina de sal abandonada se cobre de “diamantes cintilantes”, também o amor “extrai de tudo o que acontece novas provas da perfeição do ser amado”.3 Em outras palavras, o apaixonado cria uma fantasia que tem pouco a ver com a pessoa real, que é apenas uma criação sua: “No amor, apreciamos apenas a ilusão que criamos para nós mesmos”.4 Então, o amor na verdade é amor de si mesmo, uma forma de narcisismo. E ele floresce na maioria das vezes na antecipação. Como nota Stendhal, encontrar o verdadeiro amor pode se tornar um embaraço desnecessário.
O mundo se encolhe e o ser amado se expande até que eles se fundem numa imagem impressionante que ofusca tudo o mais. Portanto, a paixão não é uma maneira de aceitar a responsabilidade, mas de fugir a ela – os amantes têm o direito de evitar as tediosas obrigações que vão além do ser amado. Na lenda de Tristão e Isolda, a influência das poções desculpa o comportamento irresponsável dos amantes – e, no mundo moderno, a sanção é a natureza involuntária, até mesmo irracional, da paixão. É um distúrbio clínico, algo que os amantes não podem evitar.
Mas a paixão só parece irracional porque as forças que a dirigem não são compreendidas. Ela pode ser um encontro delirante de patologias, como quando um sádico encontra um masoquista. Ou o ser amado pode ser escolhido inconscientemente para reencenar um assunto obscuro da infância. Pode haver também uma motivação social inconsciente. Por exemplo, jovens da classe operária que obtêm uma educação superior sentem-se fatalmente atraídos por princesas de classe média – exatamente o tipo de mulher que tem maior probabilidade de menosprezá-los e ridicularizá-los. O apaixonado gosta de acreditar que é uma vítima da flecha de Cupido, quando provavelmente é vítima de carência, solidão e insegurança, alguém que está louco para renunciar à responsabilidade e tem mais talento para a fantasia do que para a consciência ou a compreensão. Mas o que isso importa se eles estão dominados por um êxtase que envolve a vida e o mundo de tanto esplendor? Não é verdade que os apaixonados têm um relacionamento sexual maravilhoso e muita diversão? O problema é que a paixão não dura. Há um consenso geral de que dura no máximo dois anos, ou talvez bem menos, com uma duração média de pouco mais de um ano. Mas, como os apaixonados não têm a menor consciência desse limite de tempo, o desencanto é um choque. Por que a paixão tem que ter fim? É um estado transcendente, uma perda do self, e estados transcendentes não podem durar. Aquele que transcende sempre volta à terra. A realidade e o self sempre recuperam o controle.
Uma recente pesquisa neurocientífica confirmou a distinção entre paixão e amor. A antropóloga Helen Fisher usa os termos “amor romântico” e “afeto” para as duas fases e identificou o amor romântico em todas as 175 culturas que estudou. Para investigar como funciona a velha magia, ela encarregou uma equipe de neurocientistas de escanear o cérebro de pessoas em diferentes fases de amor. Essas tomografias revelaram que o amor romântico e o afeto envolvem circuitos e neurotransmissores cerebrais totalmente diferentes. O amor romântico está associado a altos níveis de dopamina e baixos níveis de serotonina, enquanto o afeto está associado à oxitocina nas mulheres e à vasopressina nos homens, dois neurotransmissores envolvidos no acasalamento de animais. As conexões cerebrais e o alto nível de dopamina nos amantes românticos são semelhantes aos dos usuários de todas as principais drogas que causam dependência. Fisher conclui que o amor romântico é uma forma de vício.5 Isso confirma a visão de Stendhal de que esse amor, que se apresenta como a atividade mais altruísta, é na verdade egoísta. O amante está apaixonado não pelo outro, mas pela euforia que a paixão provoca. O ser amado é de fato excitante – da mesma forma que uma carreira de cocaína é excitante para um viciado. Isso também explica por que a paixão nunca dura. O vício cria tolerância – e doses cada vez mais altas são necessárias para produzir o mesmo efeito. Mas a dosagem da paixão não pode ser aumentada além de certo ponto, de modo que a euforia acaba se esgotando. Outra equipe de neurocientistas investigou o tempo de duração do auge do amor e concluiu que a percepção popular está correta: a paixão dura em geral de doze a dezoito meses.6
 O que fazer quando a paixão acaba? Uma opção é a aceitação estoica – a essa altura o casal pode estar casado e com filhos. Essa é uma solução comum nas sociedades tradicionais. No romance O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o príncipe descreve o amor como um ano de fogo seguido de trinta anos de cinzas,7 e sai em busca de prostitutas para seu prazer. No mundo contemporâneo, uma alternativa comum é o adultério, o turismo de aventura das pessoas de meia-idade da classe média. Outra opção é um tipo diferente de aceitação – entender que o enfraquecimento da chama é um sinal de que se deve procurar um novo parceiro. Por que viver entre cinzas se o fogo pode reacender em outro lugar? Por que não fugir da desilusão e desfrutar uma sequência de paixões? Isso também é muito comum, mas depende de a pessoa não querer criar filhos e de estar sempre atraente para novos parceiros, um atributo que diminui com o tempo. O crepúsculo desses apaixonados insaciáveis provavelmente será tão triste quando o dos hedonistas.
Uma última opção é tentar a transição da paixão para o amor. Então, enquanto a história da paixão chega ao fim com “E então eu me casei com ele”, a história de amor começa com “Então percebi que teria que passar o resto da vida com ele”. Não existem muitas histórias de amor. Uma é Felicidade conjugal, de Tolstói, na qual um casal se apaixona loucamente, se casa e desfruta de uma vida feliz em jantares íntimos, música e risos. Mas, com o tempo, a paixão acaba. Como explica a esposa: “Há muito tínhamos deixado de ser a pessoa mais perfeita do mundo para o outro, e hoje nos comparamos com outras pessoas e nos julgamos em segredo”.8 Ela sabe que o marido é um bom homem, bondoso e gentil, excelente pai e parceiro – mas descobre que ele tem uma sabedoria previsível, uma calma irritante e uma aparência envelhecida e desagradável. Deprimida e irritada, ela anseia por movimento, excitação e perigo, e, como Emma Bovary, tenta recriar o romance numa vida de festas e bailes. Mas essa excitação também acaba, e sua única consequência é separar ainda mais o casal. Entretanto, ao contrário de Emma, essa esposa quer que o casamento seja significativo. Ela confessa seus sentimentos ao marido e descobre que sua calma não é um truque para irritá-la, mas resultado de um distanciamento que lhe permitiu prever e entender os problemas do casal. Ele explica que não há alternativa a não ser superar as dificuldades: “Todos nós [...] precisamos superar o absurdo da vida de modo a voltar à própria vida; não é bom acreditar no que os outros dizem sem duvidar”. Ela entende e inicia a viagem de volta à vida: “A partir daquele dia, meu romance com meu marido acabou; o velho sentimento tornou-se uma cara lembrança irreversível, mas meu novo sentimento de amor por meus filhos e pelo pai deles fundamentou o início de outra, agora muito diferente, vida feliz”.
 Infelizmente, Tolstói não explica a natureza dessa “vida feliz muito diferente”, nem como ela foi alcançada. Sugere apenas que o processo é longo e doloroso. A transição da paixão para o amor é de fato difícil, porque os dois sentimentos são opostos. A paixão é transcendente; o amor é prático. A paixão cria fantasia; o amor aceita a realidade. A paixão é um vício; o amor é compromisso. A paixão anseia pela unidade; o amor valoriza a individualidade. A paixão foge à responsabilidade; o amor a aceita sinceramente. A paixão não faz esforço, o amor é trabalho duro.
E justo quando o realismo é mais necessário o que ocorre é a forma mais desastrosa de expectativa: planejar o casamento perfeito. Outra consequência bizarra é que, à medida que o investimento no casamento declina, o investimento na festa de casamento cresce, a ponto de a média dos casamentos no Reino Unido custar hoje muito mais do que a renda média anual.9 Esse é mais um exemplo do predomínio da imagem sobre a substância – planeja-se não para a realidade de uma vida, mas para o simbolismo de um dia. Como acontece com toda a pompa, a ideia é sugerir uma solene tradição por meio de locações históricas, roupas e acessórios: castelos e casas de campo, diademas e cartolas, carruagens e carros antigos (embora o requisito importante atualmente seja uma câmera disponível em cada mesa). Assim sendo, as festas de casamento contemporâneas são como os Jogos Olímpicos, um espetáculo de estupenda complexidade e desastrosamente caro, que exige anos de preparação e só dura algumas horas. Mesmo que tudo saia como foi planejado, uma festa de casamento dura um dia, a maior parte do qual sob as ordens dos fotógrafos, e, quando a plateia parte e as roupas retornam às suas caixas (de onde nunca mais sairão), um homem e uma mulher comuns se olham e pensam: “É só isso?”
Pode ser que uma análise dos números revele uma lei matemática: a duração de um casamento é inversamente proporcional ao custo da festa. Ou, em outras palavras, qualquer união celebrada com brinde de champanhe está fadado ao fracasso.
Depois do sonho da festa, a realidade retorna com um choque e os problemas dissimulados pelo feitiço do potencial subitamente se revelam. Como nenhum dos dois é a pessoa “certa”, não é fácil conviver, muito menos dedicar ao parceiro um amor duradouro e incondicional. Este é um axioma fundamental: não é fácil conviver com ninguém. Mas há graus de dificuldade – e é essencial perceber que o outro não está incrustado de diamantes cintilantes, mas de crenças, hábitos, superstições, neuroses, humores, doenças e mau gosto irritantes, para não falar dos desagradáveis parentes e inexplicáveis amigos. E a vida em comum expõe toda essa banalidade. Os cabelos lustrosos que brilhavam sedutoramente à luz de velas se tornam uma maçaroca desbotada no ralo do chuveiro, e o membro ereto de excitação se torna um filé encolhido pingando urina na tampa do vaso. Se ainda houver alguma compatibilidade, é mais um produto final conquistado a duras penas do que uma precondição natural. Mas, enquanto os hábitos irritantes do parceiro se tornam aparentes, é mais difícil reconhecer os próprios defeitos. Muitos, em especial os que tiveram pais indulgentes, parecem acreditar que suas excentricidades são sancionadas por uma lei natural, e que até seus hábitos mais desagradáveis são charmosos e adoráveis.
Não é fácil viver com ninguém – e não existe essa coisa de amor definitivo. Como a felicidade, o amor é um processo contínuo, uma espécie de projeto criativo conjunto que não tem fim. E, como acontece com a felicidade, a luta por satisfação se torna a própria satisfação. E, como em qualquer esforço criativo, o amor está sujeito ao ciclo de exaustão e renovação: a exaustão é essencial para o prazer da renovação. O projeto exige tempo e paciência. Uma vida inteira é necessária para aprender qualquer habilidade gratificante – e o amor não é exceção.
Não requer submissão e imersão, mas autonomia e individualidade. O crescimento do parceiro, quase sempre sentido como uma ameaça, pode ser uma fonte de renovação. O que agrada ao indivíduo e parece egoísmo pode beneficiar também o parceiro. O inverso também é verdade – o fracasso do parceiro pode inspirar desprezo e terror no outro: “Deus me livre de ter que passar uma vida inteira com isso”. E o desprezo é o maior perigo de qualquer relacionamento, pessoal ou de grupo. Os ditadores caem porque o desprezo por eles se tornou geral e extremo. Os casamentos fracassam porque o desprezo é um ácido tão corrosivo que dissolve qualquer laço. Mas um parceiro independente, por mais que seja difícil conviver com ele, tem uma probabilidade muito menor de inspirar desprezo. Portanto, um casal terá maiores chances de crescer junto se cada um estimular o outro a crescer independente – e o paradoxo é que, no amor maduro, o distanciamento favorece o apego. Como disse Rilke: “Uma pessoa apaixonada tem que tentar se comportar como se tivesse que realizar uma tarefa importante: tem que passar muito tempo só, refletindo e pensando, recuperando seu autocontrole; tem que trabalhar; tem que se tornar algo”.10 Trata-se de um conselho radical: para ter sucesso como amante, passe mais tempo só.
Portanto, o processo não é passivo e dependente, mas ativo e independente. Como sugere Rilke, o amor, assim como a felicidade, não pode ser conquistado diretamente, mas é subproduto de uma vida produtiva. Fromm afirmou:
É uma ilusão acreditar que é possível dividir a vida de tal maneira que alguém seja produtivo na esfera do amor e improdutivo em todas as outras esferas. A produtividade não permite tal divisão de trabalho. A capacidade de amor exige intensidade, atenção, vitalidade, que só podem resultar de uma orientação produtiva e ativa em muitas outras esferas da vida. Se alguém não é produtivo nas outras esferas, também não será produtivo no amor.11
Portanto, o conceito budista de “atenção plena” também é necessário para o amor. Mas vale lembrar por que Buda e outros pensadores tinham medo de amar – porque há também a insensatez. O amor se apoia num tripé formado por afeto, respeito e desejo. Se qualquer das pernas se quebra, o tripé todo vem abaixo – mas apenas o afeto e o respeito estão sujeitos à razão. O desejo é o curinga do baralho, a força obscura que torna tudo volátil, complexo e instável.
Assim como o tempo e a bolsa de valores, o casamento (ou qualquer outra forma de relacionamento sexual) é um sistema caótico. Trata-se de um sistema conduzido por forças complexas demais para serem entendidas e está sujeito a longos períodos de comportamentos semelhantes que não podem ser explicados aleatoriamente. Assim é que o bom ou mau tempo tende a continuar bom ou mau, e a tendência de alta ou de queda na bolsa costuma persistir. Da mesma forma, no casamento, a calma tende a gerar mais calma, e brigas, mais brigas. Mas outro aspecto dos sistemas caóticos é que os longos períodos podem ser interrompidos de repente por algo imprevisível e quase sempre trivial – uma mudança de nada produz o que parece uma transformação desproporcional. É o clichê da borboleta que bate as asas na América do Sul e causa uma tempestade no norte da Europa. Num casamento, isso significa que tudo pode estar aparentemente indo bem até que um dos parceiros pronuncie uma palavra errada e a vida vire um inferno.
Em outras palavras, o sistema entra em turbulência, à qual não se aplica nenhuma das leis normais. Em seu leito de morte, o físico Werner Heisenberg disse que tinha apenas uma pergunta a fazer a Deus: por que a turbulência?12 Os amantes moribundos talvez se sintam inclinados a fazer a Deus a mesma pergunta. Como é que de repente o amor se transformou em ódio, a bondade em crueldade, o desejo de agradar em desejo de ferir, e o desejo de viver com o ser amado para sempre no desejo de nunca mais ver aquela cara repulsiva? Uma briga conjugal é um fenômeno estranho e assustador, um repentino ciclone que arranca os dois parceiros do chão, os arremessa no céu como insanos por algum tempo e finalmente os atira de volta à terra, exaustos, exauridos e atordoados. Que diabos aconteceu? Mas é impossível explicar a dinâmica do processo. Embora todo casal desde Adão e Eva tenha tido essa experiência, são poucas as descrições convincentes na literatura de uma autêntica explosão conjugal. Como a maioria dos escritores, John Milton foge do problema, dizendo da primeira briga entre Adão e Eva: “E assim em mútua acusação eles gastam horas infrutíferas, mas nenhum deles confessa a culpa”.13
O fator explosivo é o sexo. Qualquer relacionamento sexual é por natureza instável. O problema é a necessidade desmedida combinada com uma total impotência em relação ao objeto dessa necessidade. O resultado é um desespero que pode fazer o amor virar do avesso de uma hora para outra e transformar-se num ódio cruel, feito de vergonha, nojo e raiva da impotência. Assim, a avassaladora necessidade de possuir se torna de repente uma igualmente avassaladora necessidade de destruir. Um juiz americano declarou que se preocupa mais com sua segurança quando lida com casais em processo de divórcio do que quando julga criminosos violentos, e que ele e muitos outros juízes têm um botão de alarme em sua sala caso a raiva conjugal escape ao controle.14
A tensão está no cerne de todo relacionamento sexual, porque as necessidades animais e emocionais são dolorosamente urgentes, mas nunca totalmente compreendidas ou controladas. No entanto, a tensão é essencial para o relacionamento. O que ameaça explodir a relação é também o que a mantém viva. Embora o companheirismo seja essencial, e o sexo entre companheiros seja um dos grandes consolos da maturidade, um relacionamento sexual nunca deve resvalar rapidamente para a mera amizade. O equilíbrio e a estabilidade podem ser tentadores, mas são o equilíbrio e a estabilidade da morte. Precisa haver sempre um elemento de perigo e de risco. Todo amante tem que ser um amante demoníaco.
Mas os demônios se enfadam facilmente. Quando um relacionamento está enfrentando problemas, a primeira coisa a diminuir é o sexo. Muitas vezes, esse declínio é um sinal de alarme. Portanto, o sexo é o canário numa mina de carvão: se ele canta, está tudo bem; se ele morre, é que o ar está ficando envenenado.
Como manter o canário cantando? Como manter o demônio interessado? Uma das muitas dificuldades em relação ao sexo é que um problema sexual raramente tem a ver com o sexo, mas com muitas outras coisas, entre elas vaidade, poder, controle, confiança, hábito, novidade ou a vontade de estar na onda e ter o que todo mundo parece ter. E hoje o sexo está se tornando um ramo da indústria do entretenimento – já há inclusive parques temáticos sexuais em vários países. Talvez eu pertença à última geração para a qual o sexo é um mistério, um milagre, uma fonte inesgotável de deslumbramento. Simplesmente estar na presença de uma mulher é ser tocado pelo sublime. Houve um tempo em que todo mundo vivia enfeitiçado, extasiado, encantado. Hoje o sexo é só mais uma forma de diversão fútil. Amor moderno é se fotografar sendo objeto de felação e, com a ajuda da moderna tecnologia, divulgar a foto na internet para o imenso círculo de amigos.
E estamos esgotados. Fizemos incontáveis experiências, impulsionados pela ênfase interminável na importância da novidade, repetindo que o segredo do sucesso do relacionamento é tornar o sexo variado. Assim como suas antecessoras políticas, a revolução sexual se tornou uma espécie de tirania.
O primeiro manual da era da liberação, Os prazeres do sexo, foi publicado em 197215 e, embora tenha sido uma revelação à época (apresentando ao mundo delícias como a flanquette), teve que ser revisado e ampliado para incluir mais de cem novas posições e para reconhecer a importância cada vez maior da BDSM(Sigla formada pelas iniciais BD (bondage, ou técnicas de amarração e imobilização, e disciplina) e SM(sadomasoquismo)) e a emergência do ânus como principal fonte de prazer heterossexual.16 Na verdade, o amante contemporâneo precisa não só de uma, mas de uma coleção inteira de obras de referência sobre mobiliário erótico (balanços do amor, caixas de sufocamento), bijuterias eróticas (piercings para os mamilos, anéis penianos, plugue anal) e, naturalmente, sobre a nova tecnologia (como o Power Bullet Multispeed, um vibrador turbo de várias velocidades, o Teledildonic Simulator, um simulador de sexo a distância). Talvez já esteja na hora de termos um Museu de Brinquedos Sexuais, onde casais de uma certa idade derramem lágrimas agridoces diante da visão do Non-Doctor Vibrator dos anos 1970, cuja embalagem mostra uma modelo mascarada, com a boca pintada de batom e cabelos fixados com laquê. Comovente a simplicidade dos velhos tempos! Hoje, fazer sexo é como montar um musical da Broadway – requer um texto original, figurinos, cenários, uma iluminação especial e, naturalmente, um elenco formado por atletas e acrobatas que cantem e dancem. Todo mundo tem que ter um circo na cama... ou melhor, na casa toda.
E para orientar os amantes confusos há um exército de terapeutas, muitos dos quais oferecem conselhos no horário nobre da tevê. Esses homens e mulheres são crentes fervorosos de uma busca contemporânea pelo Santo Graal do ponto G, um lugar tão lendário e difícil de encontrar quanto Atlântida, a cidade submersa. Na verdade, o ponto G deve seu nome a Ernst Grafenberg, um ginecologista alemão que resolveu investigar a existência de uma zona erótica na parede frontal da vagina porque o efeito estimulante da posição cachorrinho “não podia ser explicado pelos melodiosos movimentos dos testículos contra o clitóris”.17 E o novos altos sacerdotes do sexo também veneram uma Santíssima Trindade. Tudo bem com um orgasmo convencional, como concede uma radiante terapeuta da tevê, mas muito melhor é o “bigasmo”, que envolve o clitóris e o ponto G. Mas o máximo do prazer é o “trigasmo”, do qual participa a Santíssima Trindade completa: clitóris, ponto G e ânus cantando hosanas em uníssono. Mais!
O problema é que o sexo está perdendo contato com o apetite sexual e o ciclo natural do corpo. Até a identidade sexual tornou-se incerta e fluida. Poucos têm total certeza se são héteros, gays ou ambos. Existe sempre o pensamento assustador de que se está deixando de satisfazer alguma outra identidade. E, ao perder contato com a identidade e as necessidades físicas, o sexo se torna cada dia mais cerebral, impulsionado por conceitos, que são supridos pela fantasia, e por imagens, que são fornecidas pela pornografia. E a fantasia, por sua vez, é impulsionada pela novidade e pela transgressão. Daí o fascínio pelo sexo anal – o ânus é a nova vagina – e pelas emoções transgressoras da BDSM. É uma ironia, talvez muito significativa, que a era da liberação esteja ligada à bondage.
Um dos produtos mais populares na cadeia de sex shops Ann Summers é o Bondage Starter Kit. A última novidade da BDSM é pagar para ser sequestrado: você está andando calmamente pela rua quando de repente para uma van, de onde saem homens musculosos usando balaclavas e arrastam você até um porão, onde lhe infligem todas as indignidades estipuladas em contrato. (Parece haver preferências nacionais em relação aos sequestradores: os(as) ingleses(as) adoram ser dominados(as) por homens rústicos do sul dos Estados Unidos.) O aspecto mais engenhoso do serviço é que ele realiza não só o desejo de bondage, mas cria a excitação da expectativa – o(a) cliente nunca sabe quando o “sequestro customizado” vai ocorrer e passa dias, até semanas, em deliciosa espera. No final, o satisfeito sequestrado recebe de presente um DVD da experiência (afinal, uma coisa não é real a menos que seja capturada em filme). O gênio que criou esse serviço devia se candidatar a “empreendedor do século”.18 Mas qual é o mal dessa representação? Os homens de balaclavas restringem-se às estipulações contratuais, e as algemas da Ann Summers são revestidas de pele cor-de-rosa. O problema é que o sexo transgressivo sempre exige mais para reproduzir o prazer original. Assim, num minuto você pode ser deliciosamente espancado com um chicote de seda, e no minuto seguinte ter seus testículos pregados ao chão.
Os transexuais são um novo fascínio, porque encarnam o máximo de potencial ao combinar identidades, funções e equipamentos – verdadeiros canivetes suíços. Eles não são apenas conceito transformado em imagem, mas imagem construída de carne e sangue. Um travesti é um brinquedo sexual que anda, fala e respira. E o conceito também é excitante para os consumidores, porque é uma oferta do tipo leve dois e pague um – compre um sexo e leve outro grátis. Outro fator novo é que as imagens que alimentam tudo isso, os filmes pornográficos, que antes eram caros e causavam constrangimento ao comprador, agora estão disponíveis de graça no conforto do lar. Ironicamente para esta nossa era de expectativa, a pornografia omite a mais excitante expectativa: as preliminares, o encantamento da proximidade e do perfume, a eletricidade do toque tão esperado, o deslizar dos zíperes e a capitulação dos botões, o farfalhar e a lenta queda das roupas. Em vez disso, a pornografia vai direto ao ponto, aos corpos nus no ato do coito e da felação. A ação tem sempre que ser dramática e visível. Assim, em lugar da terna união há um impulso frenético, e é sempre o homem que bombeia loucamente, enquanto, para chegar ao orgasmo, a mulher precisa controlar o ritmo e torná-lo mais suave (mas não no fim). E, em vez de um orgasmo dentro do útero, há sempre o espetáculo da ejaculação sobre o corpo da mulher. Daí as novas palavras ternas murmuradas pelos garanhões: “Posso gozar na sua cara?”
Mas os orifícios, posições e combinações são limitados. Logo, tudo de que o corpo humano é capaz estará disponível na sala de estar de todo mundo. E, aí, onde vamos encontrar o prazer transgressivo? Visionários já tentam resolver o problema. David Levy, um pesquisador de inteligência artificial, promete que, por volta da metade do século XXI, o sexo com robôs será tão normal quanto o sexo com outros humanos, enquanto o número de atos e posições sexuais comumente praticados entre humanos será ampliado, já que os robôs ensinarão muito mais do que tudo o que existe nos manuais de sexo de todo o mundo.19
Essa obsessão contemporânea pela variedade como meio de evitar a rotina é inadequada. Numa pesquisa sobre o apetite, dois grupos de voluntários foram convidados a comparecer a um laboratório uma vez por semana para realizar testes, que na verdade eram um blefe: o verdadeiro objeto do experimento era o lanche oferecido como recompensa. Um grupo teve permissão para escolher todos os seus lanches com antecedência e optou pela variedade; o outro grupo recebeu seu lanche preferido todas as semanas. Quando os índices de satisfação foram comparados, os que comeram o mesmo lanche se mostraram mais satisfeitos do que os que optaram pela variedade.20 A explicação foi a seguinte: o lapso de uma semana era suficiente para renovar a atração do velho lanche preferido. Portanto, a especialidade pode ser melhor do que a variedade para vencer a armadilha do hábito, e o tempero da vida pode não estar na variedade, mas em ter aquilo que mais apreciamos a intervalos adequados.
Também inadequada é a ideia de que o amor é consequência da satisfação sexual. Bem pode acontecer o contrário: o sexo mais satisfatório ser uma expressão de ternura, não o domínio das técnicas de um manual.
Os prazeres mais profundos são aqueles obtidos por mérito, e no sexo não é diferente. As experiências mais intensas ocorrem depois de dificuldades, sofrimento, raiva e turbulência – em outras palavras, depois de disputas violentas. A reconciliação no sexo é a mais sublime experiência que a criatura humana pode desfrutar.
Naturalmente, isso é uma dádiva rara. Para um prazer comum, eis uma sugestão radical, para ser implementada só a intervalos adequados: o sexo da simplicidade, o sexo do menos, o sexo zen. Os amantes se deitam à noite, tocando-se e encantando-se, as bocas se procurando numa comunicação silenciosa e profunda de gratidão. Depois, movendo-se lentamente como um só, assumem a posição papai-e-mamãe e se unem ternamente. Então, em doce silêncio e quase imóveis (com os mínimos movimentos dirigidos pela mulher), eles permitem que o êxtase autônomo os arrebate lentamente. Será essa a maneira ideal de partir desta vida? Mas uma vida de comportamento responsável e atencioso jamais permitiria deixar ao amante o inconveniente de um cadáver. Isso arruinaria o doce e silente brilho do poente.

(Michael Foley - A era da loucura, Como o mundo moderno tornou a felicidade uma meta (quase) impossível)
O medo do amor
 
 NOTAS
1. Jeffry Simpson et al., “The association between romantic love and marriage”, Personality and Social Psychology Bulletin, 12, 1986.
2. Erich Fromm, The Art of Loving [A arte de amar], George Allen & Unwin, 1957.
3. Stendhal, De l’amour [Do amor], Garnier Frères, 1959.
4. Ibid.
5. Helen Fisher, Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love, Holt, 2004.
6. D. Marazziti et al., “Alteration of the platelet serotonin transporter in romantic love”, Psychological Medicine, 29, 1999.
7. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, The Leopard [O leopardo], Collins Harvill, 1960.
8. Em Leon Tolstói, The Kreutzer Sonata and Other Stories, Penguin, 2008.
9. Avner Offer, The Challenge of Affluence: Self-Control and Well- Being in the United States and Britain since 1950, Oxford University Press, 2006.
10. Rilke (2006), op. cit.
11. Fromm (1957), op. cit.
12. Citado em James Gleick, Chaos: Making a New Science, Penguin, 1989.
13. John Milton, Paradise Lost [Paraíso perdido], Wordsworth, 1994.
14. Rush W. Dozier, Why We Hate: Understanding, Curbing and Eliminating Hate in Ourselves and Our World, Contemporary Books, 2002.
15. Alex Comfort, The Joy of Sex [Os prazeres do sexo], Quartet Books, 1972.
16. Alex Comfort & Susan Quilliam, The New Joy of Sex, Mitchell Beazley, 2008.
17. B. Whipple et al., The G Spot and Other Discoveries about Human Sexuality, Holt, Rinehart & Winston, 1982.
18. Macdonald, op. cit.
19. David Levy, Love and Sex with Robots: The Evolution of Human-Robot Relationships, Duckworth, 2008.
20. D. Read et al., “Diversification bias: explaining the discrepancy in variety seeking between combined and separated choices”, Journal of Experimental Psychology, 1, 1995.

publicado às 03:37


A FILOSOFIA NO SÉCULO XX

por Thynus, em 16.11.15
O homem, depois de pecar, ganhou a liberdade, o direito de escolher
 
Desde o fim da Idade Média, a importância social e política da filosofia tem diminuído de forma constante. William de Ockham, um dos maiores filósofos medievais, foi contratado pelo cáiser para escrever panfletos contra o papa; naquela época, muitas questões cruciais estavam vinculadas à disputa nas escolas filosóficas. Os avanços da filosofia no século XVII estavam mais ou menos conectados à oposição política à Igreja Católica; Malebranche, é verdade, era padre, mas os padres não tinham permissão para aceitar sua filosofia. Os discípulos de Locke, na França do século XVIII, e os benthamitas, na Inglaterra do século XIX, eram, em grande parte, radicais extremos em política, e criaram o ponto de vista liberal burguês moderno. Mas a correlação entre as opiniões políticas e filosóficas reduz-se à medida que progredimos. Hume era um Tory na política, embora fosse um radical extremo na filosofia. Apenas na Rússia, que permaneceu na Idade Média até a revolução, sobreviveu a clara conexão existente entre a política e a filosofia. Os bolcheviques são materialistas, enquanto os brancos são idealistas. No Tibete a conexão é ainda mais próxima; o segundo funcionário no escalão do Estado é chamado de “metafísico-chefe”. A filosofia, em outros lugares, não é mais tida em tão alta estima.
A filosofia acadêmica, em todo o século XX, está dividida principalmente em três grupos. O primeiro consiste dos adeptos da filosofia alemã clássica, de modo geral, Kant, e algumas vezes Hegel. O segundo está formado pelos pragmáticos e por Bergson. O terceiro é constituído por aqueles que se vinculam às ciências, acreditando que a filosofia não possui um traço peculiar de verdade e nenhum método particular de atingi-la; esses homens, por conveniência, podem ser chamados de realistas, embora na verdade existam muitos entre eles para os quais esse nome não seja aplicável de modo estrito. A distinção entre as diferentes escolas não é definida, e os indivíduos pertencem em parte a uma delas e em parte a outra. William James pode ser visto como o fundador tanto do realismo quanto do pragmatismo. Os livros recentes do dr. Whitehead empregam os métodos dos realistas na defesa de uma metafísica mais ou menos bergsoniana. Muitos filósofos, não sem apresentar razões suficientes, vêem as doutrinas de Einstein como inspiradoras das bases científicas para as crenças de Kant na subjetividade do tempo e do espaço. As diferenças, de fato, são então menos claras do que as distinções na lógica. Não obstante, as distinções na lógica são úteis para oferecer uma estrutura para a classificação das opiniões.
O idealismo alemão, em todo o século XX, esteve na defensiva. Os novos livros, reconhecidos não só por professores mas também por outras pessoas como importantes, representavam escolas mais novas, e uma pessoa que as tenha julgado por resenhas de livros poderia imaginar que essas escolas tivessem agora o controle do pensamento filosófico. Mas, na verdade, a maioria dos professores de filosofia na Alemanha, França e Grã-Bretanha – talvez não na América – ainda aderem à tradição clássica. É com certeza muito mais fácil para um jovem chegar a um posto se pertencer a essa corrente do que se não o fizer. Seus oponentes tentaram mostrar que ela compartilhava a iniqüidade alemã, e que de alguma forma fora responsável pela invasão da Bélgica(Ver Egotism in German Philosophy de Santayana, por exemplo). Mas seus adeptos eram muito eminentes e respeitáveis para que essa linha de ataque fosse bem-sucedida. Dois deles, Émile Boutroux e Bernard Bosanquet, foram, até a morte, os porta-vozes oficiais da filosofia francesa e britânica, respectivamente, em congressos internacionais. A religião e o conservadorismo procuraram, sobretudo, essa escola para defesa contra a heresia e a revolução. Eles têm a força e a fraqueza daqueles que são a favor do status quo: a força que vem da tradição e a fraqueza da falta de frescor no pensamento.
No mundo de língua inglesa, essa posição foi assumida apenas pouco antes do início do século XX. Comecei a estudar filosofia seriamente em 1893, o ano em que foi publicado Appearance and Reality, de Bradley. Bradley foi um dos que lutaram para obter o devido reconhecimento da filosofia alemã na Inglaterra, e sua atitude estava bem longe da de alguém que defenda uma ortodoxia tradicional. Para mim, assim como para a maioria de meus contemporâneos, sua Logic e seu Appearance and Reality tiveram um apelo profundo. Ainda vejo esses livros com grande respeito, embora há muito tenha deixado de concordar com suas doutrinas.
O ponto de vista do hegelianismo caracteriza-se pela crença de que apenas a lógica pode nos dizer o bastante sobre o mundo real. Bradley partilha dessa crença; ele defende que o mundo, como parece ser, é autocontraditório, e, portanto, ilusório, enquanto o mundo real, visto que deve ser logicamente autoconsistente, com certeza terá determinadas características surpreendentes. Não pode ser no espaço e no tempo, não pode conter uma variedade de coisas inter-relacionadas, não pode conter egos separados ou até o grau de divisão entre sujeito e objeto que está envolvido no conhecimento. Consiste, assim, em um absoluto único, eternamente comprometido com algo mais análogo ao sentimento do que ao pensamento ou à vontade. Nosso mundo sublunar é uma ilusão e o que nele parece acontecer na verdade não importa. Essa doutrina deve destruir a moralidade, porém a moralidade é temperamental e desafia a lógica. Os hegelianos advogam como seu princípio moral básico que devemos nos comportar como se a filosofia hegeliana fosse verdadeira; mas não percebem que se fosse real nosso comportamento não importaria.
O ataque a essa filosofia veio de duas vertentes. De um lado estavam os lógicos, que apontaram as falácias em Hegel, e argumentaram que relações e pluralidade, espaço e tempo, não são de fato autocontraditórios. Do outro, estavam os que não gostam da arregimentação e da ordem envolvidas em um mundo criado pela lógica; e os mais importantes entre eles foram William James e Bergson. As duas linhas de ataque não eram logicamente inconsistentes, exceto em algumas de suas manifestações acidentais, mas tinham características diversas, e inspiravam-se em diferentes tipos de conhecimento. Além disso, o apelo era bem distinto; o de uma era acadêmico, e o da outra, humano. O apelo acadêmico argumentou que o hegelianismo era falso: o apelo humano, que ele era desagradável. Naturalmente, o último tinha mais sucesso popular.
No mundo de língua inglesa, a maior influência na superação do idealismo alemão foi William James – não como se tornou conhecido, em Psychology, mas por meio das séries de pequenos livros que foram publicados nos últimos anos de sua vida e após a sua morte. Em um artigo publicado em Mind (Mente), há muito tempo, em 1884, reeditado em um volume póstumo de Essays in Radical Empirism(P. 276-8), ele manifesta sua tendência temperamental com um charme extraordinário:
Como nós, na maioria, não somos céticos, podemos prosseguir e confessar com franqueza uns para os outros os motivos de nossas várias crenças. Eu confesso os meus com franqueza – não posso senão pensar que no fundo são de sorte estética, e não lógica. O universo “completo” parece sufocar-me com sua infalível e impecável invasão total. Sua necessidade, sem possibilidades; suas relações, sem sujeitos, me fazem sentir como se tivesse entrado em um contrato sem direitos reservados, ou melhor, como se tivesse de viver em uma grande pousada à beira-mar sem quarto privado no qual pudesse me refugiar da sociedade local. Tenho plena consciência, além do mais, de que a antiga disputa entre pecadores e fariseus tem algo a ver com a questão. Com certeza, segundo meu conhecimento pessoal, nem todos os hegelianos não são puritanos, porém sinto, de alguma forma, como se todos os puritanos tivessem de terminar, se desenvolvidos, por se tornarem hegelianos. Existe uma história de dois padres chamados, por engano, para realizar o mesmo funeral. Um chegou primeiro e não foi além de “Eu sou a ressurreição e a vida”, quando o outro entrou. “Eu sou a ressurreição e a vida”, gritou o último. A filosofia “completa”, como existe atualmente, nos lembra esse padre. Parecem por demais janotas com seus colarinhos brancos apertados e barbeados em excesso para falar sobre o vasto e lento cosmos inconsciente, com seus terríveis abismos e marés desconhecidas.
Creio que podemos apostar que nenhum ser humano, exceto William James, teria pensado em comparar o hegelianismo a uma pousada na praia. Em 1884, esse artigo não teve efeito, pois o hegelianismo ainda estava sendo atualizado, e os filósofos não haviam aprendido a admitir que seus temperamentos não tinham relação com suas opiniões. Em 1912 (a data da reedição), o cenário havia mudado em muitos casos – entre outros, a influência de William James sobre seus alunos. Não posso dizer que o tenha conhecido, senão superficialmente, exceto por seus escritos, mas me parece que é possível distinguir três tendências em sua natureza, e todas contribuem para formar seu ponto de vista. A última, porém a mais importante de suas manifestações filosóficas, foi a influência de sua educação em fisiologia e medicina, que lhe deu um viés científico e ligeiramente materialista comparado aos filósofos puramente literários provenientes de Platão, Aristóteles e Hegel. Essa tendência domina Psychology, salvo em poucas passagens cruciais, tais como a discussão da liberdade da vontade. O segundo elemento de sua composição filosófica foi o viés místico e religioso herdado do pai e compartilhado com o irmão. Isso inspirou A vontade de crer e o interesse na pesquisa física. O terceiro foi uma tentativa, feita com toda a honestidade de uma consciência da Nova Inglaterra, de exterminar as exigências excessivas naturais, que também partilhava com o irmão, e substituí-las por um sentimento democrático à la Walt Whitman. A impertinência é visível na citação acima, em que expressa o horror de uma pousada sem quarto privado (que Whitman teria amado). O desejo de ser democrático é visível na alegação de ser um pecador, não um fariseu. Com certeza, não era fariseu, mas, com toda probabilidade, cometera alguns pecados, como todos os mortais. Nesse ponto, faltou-lhe a modéstia usual.
As pessoas melhor capacitadas devem, em geral, sua excelência à combinação de qualidades supostamente incompatíveis, e esse era o caso de James, cuja importância era maior do que pensava a maioria de seus contemporâneos. Ele defendia o pragmatismo como um método de apresentar esperanças religiosas como hipóteses científicas, e adotou a concepção revolucionária de que não existe algo como a “consciência”, como forma de superar a oposição entre mente e matéria sem que uma delas predomine. Nesses dois segmentos de sua filosofia ele tinha diferentes aliados: Schiller e Bergson estão relacionados ao primeiro, e os novos realistas, ao último. Apenas Dewey, entre os homens proeminentes, concordava com ele em ambas as questões. Os dois segmentos têm diferentes histórias e afiliações, e devem ser considerados separadamente.
A vontade de crer de James é de 1897 e seu Pragmatismo, de 1907. O Humanism de Schiller e Studies in Logical Theory datam, ambos, de 1903. Ao longo dos primeiros anos do século XX, o mundo filosófico estava entusiasmado com o pragmatismo; então Bergson apostou mais alto, ao apelar para os mesmos gostos. Os três fundadores do pragmatismo diferem bastante inter se; podemos distinguir James, Schiller e Dewey como protagonistas, respectivamente, religioso, literário e científico – pois, embora James tivesse muitas vertentes, foi principalmente a vertente religiosa que encontrou abertura no pragmatismo. Mas ignoremos essas diferenças e tentemos apresentar a doutrina como uma unidade.
A base da doutrina é um determinado tipo de ceticismo. A filosofia tradicional professou ser capaz de provar as doutrinas fundamentais da religião; seus adversários declararam-se aptos a refutá-las ou, no mínimo, como Spencer, demonstrar que não podiam ser provadas. Parece, entretanto, que, se não poderiam ser provadas, também não poderiam ser contestadas. E isso parecia ser o caso de muitas doutrinas que homens como Spencer pensavam ser inabaláveis: causalidade, o reinado da lei, o valor da confiabilidade da memória, a validade da indução e assim por diante.
Todas essas doutrinas, do ponto de vista puramente racional, deveriam ser abraçadas com isenção de julgamento dos agnósticos, pois, até o ponto em que podemos constatar, são radicalmente incapazes de provar ou contestar. James argumentou que, como homens práticos, não podemos manter a dúvida sobre essas questões se queremos sobreviver. Devemos presumir, por exemplo, que o tipo de comida que nos alimentou no passado não nos envenenará no futuro. Algumas vezes nos enganamos, e morremos. O teste de uma crença não é a conformidade ao “fato”, porque nunca conseguimos alcançar os fatos envolvidos; o teste é o sucesso em promover a vida e a realização de nossos desejos. Desse ponto de vista, como James tentou mostrar em As variedades da experiência religiosa, as crenças religiosas, com freqüência, passam no teste e são, portanto, chamadas “verdadeiras”. Não é em nenhum outro sentido – sustenta ele – que as teorias que têm mais crédito na ciência podem ser chamadas “verdadeiras”: elas funcionam na prática, e é tudo que sabemos sobre o assunto.
Há muito a ser comentado quanto a essa visão, da forma como foi aplicada a hipóteses gerais da ciência e da religião. Dada uma definição cuidadosa do que se entende por “funcionar”, e a condição de que os casos envolvidos são aqueles sobre os quais não sabemos realmente a verdade, não há necessidade de contestar a doutrina nesse ponto. Tomemos exemplos mais modestos, em que a verdade incontestável não é tão difícil de obter. Suponhamos que, ao ver um raio, podemos esperar escutar um trovão, ou julgar que o raio estava longe demais para que o trovão pudesse ser ouvido ou, então, esquecer o assunto. O último é o caminho mais sensato, mas suponhamos que você adote um dos outros dois. Quando ouvir o trovão, sua crença será confirmada ou refutada, não por qualquer vantagem ou desvantagem que lhe foi trazida, mas pelo “fato”, a sensação de escutar o trovão. Os pragmáticos prestam atenção em especial a crenças que são incapazes de serem confirmadas por quaisquer fatos que aconteçam em nossa experiência. Grande parte das nossas crenças diárias sobre assuntos mundanos – por exemplo, que o endereço de fulano é tal e tal – pode ser confirmada em nossa experiência, e nesses casos o critério pragmático é desnecessário. Em muitos casos, como o do trovão, citado no exemplo acima, não se aplica, pois a verdadeira crença não possui vantagem prática sobre a falsa, e nenhuma delas é tão vantajosa como pensar sobre outra coisa. É um defeito comum dos filósofos apreciar mais “grandes” exemplos dos os que acontecem na nossa vida comum e cotidiana.
Embora o pragmatismo não contenha, em última análise, a verdade filosófica, tem certos méritos importantes. Primeiro, percebe que a verdade que podemos alcançar é apenas a verdade humana, falível e mutável como tudo no homem. O que está fora do ciclo das ocorrências humanas não é verdadeiro, mas sim acontecimentos factuais (de determinados tipos). A verdade é uma propriedade das crenças, e as crenças são eventos físicos. Além disso, sua relação com os fatos não tem a simplicidade esquemática que a lógica presume; ter demonstrado isso é o segundo mérito do pragmatismo. As crenças são vagas e complexas, e não apontam para um fato preciso, mas para diversas regiões vagas de fatos. As crenças, portanto, ao contrário das proposições esquemáticas da lógica, não são opostos definidos como verdadeiro ou falso, mas são uma névoa de verdade e falsidade; possuem tons variados de cinza, nunca brancos ou pretos. As pessoas que falam com reverência da “Verdade” fariam melhor se falassem sobre Fato e percebessem que as qualidades da reverência que homenageiam não são encontradas nos credos humanos. Existem vantagens práticas e teóricas nesse aspecto, pois as pessoas perseguem umas as outras em virtude de acreditarem que conhecem a “verdade”. Do ponto de vista psicanalítico, pode-se estabelecer que qualquer “grande ideal” mencionado com reverência pelas pessoas é, de fato, uma desculpa para infligir dor a seus inimigos. Quem tem méritos não precisa apregoá-los, e bons preceitos morais não necessitam ser expressos.
Na prática, entretanto, o pragmatismo tem um lado mais ameaçador. A verdade, segundo ele, é o que convém para as crenças. Hoje uma crença pode ser válida para o funcionamento da lei criminal. No século XVII, o catolicismo era vantajoso nos países católicos e o protestantismo, em países protestantes. Pessoas mais enérgicas podem produzir a “verdade” controlando o governo e perseguindo opiniões diferentes das suas. Essas conseqüências derivam do exagero em que caiu o pragmatismo. Admitindo-se, como assinalam os pragmáticos, que a verdade é uma questão de intensidade e uma propriedade de ocorrências puramente humanas, ou seja, de crenças, isso ainda não significa que o grau de verdade pertencente a um credo dependa apenas das condições humanas. Ao aumentar o grau de verdade em nossas crenças, nos aproximamos de um ideal, e o ideal é determinado pelo Fato, que só está sob nosso controle até certo ponto, no tocante a algumas circunstâncias menores perto ou na superfície de determinado planeta. A teoria do pragmatismo provém da prática do anunciante que, ao dizer repetidas vezes que suas pílulas valem uma libra a caixa faz com que as pessoas queiram dar seis pennies por ela, e com isso torna sua assertiva mais próxima da verdade do que se tivesse sido formulada com menos confiança. Esses exemplos de verdades criadas pelo homem são interessantes, mas seu escopo é bastante limitado. Ao exagerar o escopo, as pessoas envolvem-se em uma orgia de propaganda, que é, em última instância, terminada abruptamente por fatos comprovados na forma de guerra, peste ou fome. A história recente da Europa é uma lição objetiva da falsidade desse enfoque do pragmatismo.
É curioso que Bergson tenha sido saudado como aliado pelos pragmáticos, já que, à primeira vista, sua filosofia é a antítese perfeita da deles. Enquanto os pragmáticos ensinam que a utilidade é o teste da verdade, Bergson ensina, ao contrário, que nosso intelecto, tendo sido moldado por necessidades práticas, ignora todos os aspectos do mundo pelos quais não tem interesse, o que constitui um obstáculo à apreensão da verdade. Temos, pensa ele, uma faculdade chamada “intuição” que podemos usar se fizermos um esforço, e que nos capacita a conhecer, pelo menos na teoria, todo o passado e o presente, mas aparentemente não o futuro. Contudo, como seria inconveniente ser perturbado com tanto conhecimento, nós desenvolvemos um cérebro cuja função é o esquecimento. Mas para o cérebro, devemos lembrar tudo; devido a suas operações de falta de memória, lembramos, em geral, apenas o que é útil, e tudo o que é errado. A utilidade, para Bergson, é a fonte do erro, ao passo que a verdade chega pela contemplação mística por meio da qual todo pensamento de vantagem prática está ausente. No entanto, Bergson, como os pragmáticos, prefere a ação à razão, Otelo a Hamlet; acha melhor matar Desdêmona por intuição do que deixar o rei vivo por causa do intelecto. Isso é o que faz com que os pragmáticos o vejam como um aliado.
Donnés immédiates de la conscience de Bergson, foi publicado em 1839; e seu Matéria e memória, em 1896. Mas a grande reputação começou com A evolução criadora, publicado em 1907 – não que este livro fosse melhor do que os outros, mas continha menos argumentos e mais retórica, de modo que tinha efeito mais persuasivo. Não há, nesse livro, do começo ao fim, nenhum argumento e, portanto, nenhum mau argumento; existe apenas um retrato poético que apela para a fantasia. Não há nada nele para ajudar-nos a concluir se a filosofia por que advoga é verdadeira ou falsa; essa questão, que pode ser encarada como frívola, Bergson deixou para os outros refletirem. Porém, segundo suas próprias teorias, ele está correto, pois a verdade deve ser alcançada pela intuição, não pelo intelecto e, assim, não é uma questão de argumento.
Uma grande parte da filosofia de Bergson é apenas misticismo tradicional expresso em uma linguagem com algumas conotações novas. A doutrina da interpenetração, segundo a qual coisas diferentes não estão realmente separadas, mas o estão só pela concepção do intelecto analítico, encontra-se em cada místico, ocidental ou oriental, de Parmênides a Bradley. Bergson imprimiu um ar de novidade à sua doutrina por meio de dois dispositivos. Primeiro, ele vincula “intuição” com os instintos dos animais; sugere que a intuição é o que permite à solitária vespa Ammophila picar a larva na qual coloca seus ovos com precisão para paralisá-la sem matá-la. (O exemplo é infeliz, visto que o dr. e a sra. Peckham demonstraram que essa pobre vespa não é mais infalível do que um simples homem da ciência com seu intelecto estúpido.) Isso dá um sabor de ciência moderna a suas doutrinas, lhe permite citar exemplos zoológicos que fazem com que os incautos pensem que seus pontos de vista sejam baseados nos últimos resultados da pesquisa biológica. Segundo, ele dá o nome de “espaço” à separação das coisas como surgem para o intelecto analítico e o nome de “tempo” ou “duração” para a sua interpenetração como revelada à intuição. Isso possibilita que diga muitas coisas novas sobre “espaço” e “tempo”, que parecem muito profundas e originais quando se supõe que possuam a significação comum dessas palavras. “Matéria”, sendo o que está no “espaço”, é na verdade uma ficção criada pelo intelecto, e é vista dessa forma, assim que nos colocamos na perspectiva da intuição.
Nesse ponto de sua filosofia, à parte a fraseologia, Bergson não acrescentou nada a Platão. A invenção da fraseologia com certeza mostra grande habilidade, mas podemos considerá-la mais uma aptidão de um promotor de uma empresa do que de um filósofo. Não é essa parte de sua filosofia, entretanto, que fez com que alcançasse grande popularidade. Ele deve isso à sua doutrina do élan vital e o devir. Sua significativa e admirável inovação é ter combinado misticismo com a crença na realidade do tempo e do progresso. Vale a pena observar como ele atingiu esse feito.
O misticismo tradicional tornou-se contemplativo, convencido da irrealidade do tempo. É essencialmente uma filosofia do homem preguiçoso. O prelúdio psicológico à iluminação mística é a “noite escura da alma”, que aparece quando um homem está frustrado, sem esperanças em suas atividades práticas, ou por alguma razão perde, de repente, interesse nelas. Excluídas assim as atividades, ele passa à contemplação. É lei de nosso ser, sempre que for de alguma forma possível, que dotemos tais crenças como desejo de preservar nosso auto-respeito. A literatura psicanalítica tem inúmeros exemplos grotescos dessa lei. Do mesmo modo, o homem que foi levado à contemplação descobre que esta é o fim precípuo da vida, e que o mundo real está escondido dos que estão imersos nas atividades mundanas. Nessas bases, o restante das doutrinas do misticismo tradicional pode ser deduzido. Lao Tsé, talvez o primeiro grande místico, escreveu seu livro (afirma a tradição) em uma alfândega enquanto esperava que sua bagagem fosse examinada(O principal argumento contra essa tradição é que o livro não é muito longo); e, como era de esperar, está repleto de doutrina sobre a futilidade da ação.
Bergson procurou adaptar o misticismo àqueles que acreditam na atividade e na “vida”, que crêem na realidade do progresso e não estão, de forma alguma, desiludidos com sua existência terrena. O místico é, de modo geral, um homem de temperamento ativo forçado à inatividade; o vitalista é um homem de índole inativa com admiração romântica pela ação. Antes de 1914, o mundo estava cheio dessas pessoas, indivíduos retratados na peça A casa da desilusão, de Bernard Shaw. As características de seu temperamento eram o tédio e o ceticismo, ocasionando o amor pela excitação e a ânsia por uma fé irracional – uma fé que encontraram, em última análise, na crença de que era seu dever fazer com que as pessoas matassem umas às outras. Mas em 1907 eles não tinham essa saída, e Bergson forneceu um bom substituto.
A concepção de Bergson é algumas vezes expressa em uma linguagem que pode levar à desorientação, porque os assuntos que vê como ilusórios são às vezes mencionados de modo a sugerir que são reais. Porém quando evitamos as possibilidades de mal-entendidos, acredito que sua doutrina do tempo é a seguinte. O tempo não é uma série de momentos ou eventos separados, mas um crescimento contínuo, no qual o futuro não pode ser previsto porque é genuinamente novo e, portanto, inimaginável. Tudo o que realmente acontece persiste, como as camadas sucessivas no crescimento de uma árvore. (Isso não é uma ilustração.) Assim, o mundo está em perpétuo crescimento: mais cheio e mais rico. Tudo o que aconteceu subsiste na memória pura da intuição, em oposição à pseudomemória do cérebro. Essa persistência é a “duração”, enquanto o impulso para a nova criação é o “élan vital”. Recuperar a memória pura da intuição é uma questão de autodisciplina. Não sabemos como fazê-lo, mas suspeitamos que seja algo semelhante à prática dos iogues.
Se alguém se aventura a aplicar a filosofia de Bergson a algo tão vulgar como a lógica, certas dificuldades aparecerão nessa doutrina de transição. Bergson nunca se cansa de falar com desdém dos matemáticos por pensarem o tempo como uma série, cujas partes são mutuamente externas. Mas se existe de fato uma novidade genuína no mundo, como insiste (e sem essa característica sua filosofia perde suas qualidades atrativas), e se o que quer que venha de fato ao mundo persista (que é a simples essência de sua doutrina da duração), então a soma total da existência em qualquer tempo anterior é parte da soma total de qualquer tempo posterior. O conjunto de condições do mundo nos diversos tempos forma uma série em virtude dessa relação do todo e da parte, e essa série possui todas as propriedades que o matemático deseja e que Bergson professa ter banido. Se os novos elementos que são acrescentados nos estágios posteriores do mundo não forem externos aos antigos elementos, não há novidade genuína, a evolução criativa não criou nada, e retornamos ao sistema de Plotino. É evidente que a resposta de Bergson para esse dilema é que ocorre um “crescimento”, no qual tudo muda e ainda assim permanece o mesmo. Essa concepção, entretanto, é um mistério, que o profano não espera compreender. No fundo, o apelo de Bergson é à fé mística, não à razão; porém, nas regiões em que a fé está acima da lógica, não podemos acompanhá-lo.
Nesse ínterim, proveniente de muitas direções, cresceu uma filosofia com freqüência descrita como “realismo”, mas que se caracteriza, na verdade, pela análise como método e pelo pluralismo como metafísica. Não é necessariamente realista, pois é, de algumas formas, compatível com o idealismo berkleiniano. Não é compatível com o idealismo kantiano ou hegeliano, porque rejeita a lógica na qual esses sistemas estão baseados. Tende cada vez mais à adoção e ao desenvolvimento da concepção de James, de que a substância fundamental do mundo não é nem mental nem material, mas algo mais simples e essencial, do qual tanto a mente quanto a matéria são construídos.
Nos anos 1890, James era quase a única figura eminente, exceto entre os muito idosos, que se posicionou contra o idealismo alemão. Schiller e Dewey ainda não haviam começado a despontar, e mesmo James era visto como um psicólogo que não precisava ser levado muito a sério na filosofia. Contudo, em 1900 iniciou-se uma revolta contra o idealismo alemão, não do ponto de vista do pragmatismo, mas da perspectiva estritamente técnica. Na Alemanha, salvo os admiráveis trabalhos de Frege (que começam em 1879, mas não foram lidos até recentemente), Logische Untersuchungen, de Husserl, obra monumental publicada em 1900, logo começou a exercer um grande efeito. Über Annahmen (1902) e Gegenstandstheorie und Psychologie (1904), de Meinong, influenciaram no mesmo sentido. Na Inglaterra, G.E. Moore e eu começamos a defender concepções similares. Seu artigo sobre “The Nature of Judgement” (“A natureza do julgamento”) foi publicado em 1899; seu Principia Ethica, em 1903. Meu Filosofia de Leibniz foi editado em 1900, e Os princípios da matemática, em 1903. Na França, o mesmo tipo de filosofia era fortemente advogado por Couturat. Na América, o empirismo radical de William James (sem seu pragmatismo) foi associado à nova lógica para criar uma filosofia radicalmente inédita, dos novos realistas, de alguma forma posterior, porém mais revolucionária do que os trabalhos europeus acima mencionados, embora a Analyse der Empfindungen, de Mach, tenha antecipado parte de seu ensinamento.
A nova filosofia, assim inaugurada, ainda não chegou à sua forma final, e ainda é imatura em alguns aspectos. Além disso, existe uma dose considerável de discordância entre seus vários defensores. Algumas partes são, de certa forma, difíceis de compreender. Por essas razões, é impossível fazer mais do que apresentar algumas de suas características proeminentes. A primeira característica da nova filosofia é que ela abandona a reivindicação de um método filosófico especial ou um ramo distinto de conhecimento a ser obtido por seus meios. Considera a filosofia e a ciência essencialmente uma única entidade, diferindo das ciências especiais apenas pela generalidade de seus problemas, e pelo fato de que está preocupada com a formação de hipóteses para as quais ainda não existem evidências empíricas. Concebe todo o conhecimento como saber científico, a ser provado e verificado pelos métodos da ciência. Não procura, de modo geral, como a filosofia, até então, fazer proposições sobre o universo como um todo, nem construir um sistema abrangente. Acredita, com base na sua lógica, que não há razão para negar, aparentemente, a natureza gradativa e confusa do mundo. Não considera o mundo como “orgânico”, no sentido de que se qualquer parte for compreendida de modo adequado, o todo poderá ser entendido, como o esqueleto de um monstro extinto pode ser inferido a partir de um único osso. Em especial, não tenta, como fez o idealismo alemão, deduzir a natureza do mundo, como um todo, da natureza do conhecimento. Julga o conhecimento um fato natural como qualquer outro, sem nenhum significado místico e nenhuma importância cósmica.
A nova filosofia possuía originalmente três fontes principais: a teoria do conhecimento, a lógica e os princípios da matemática. Desde Kant, o saber tem sido concebido como uma interação, na qual algo conhecido foi modificado pelo entendimento que temos dele e, portanto, sempre teve determinadas características devidas a esse conhecimento. Afirmou-se também (embora não Kant), ser logicamente impossível algo existir sem ser conhecido. Por conseguinte, as propriedades adquiridas por serem familiares são propriedades inerentes a tudo. Dessa forma, sustentou-se que podemos descobrir muito sobre o mundo real apenas ao estudar as condições do conhecimento. A nova filosofia sustentou, ao contrário, que o saber, como regra, não faz diferença para o que é conhecido, e que não há a menor razão para não existirem coisas desconhecidas por alguma mente. Como conseqüência, a teoria do conhecimento deixa de ser a chave mágica para abrir a porta dos mistérios do universo, e fomos jogados de volta ao trabalho laborioso da investigação da ciência. Na lógica, de modo similar, o atomismo substituiu a concepção “orgânica”. Sustentou que tudo é afetado em sua natureza intrínseca por suas relações com todo o resto, de modo que um conhecimento completo de algo envolveria o completo entendimento de todo o universo. A nova lógica afirmou que o caráter intrínseco de algo não nos permite deduzir de modo lógico suas relações com outras coisas. Um exemplo esclarecerá a questão. Leibniz alega (e nisso concorda com os idealistas modernos) que se um homem estiver na Europa e sua mulher morrer na Índia, ocorre uma mudança intrínseca no homem no momento da morte da mulher. O senso comum diz que não há mudança intrínseca no homem até que saiba de seu falecimento. Essa concepção é adotada pela nova filosofia; suas conseqüências têm maior alcance do que pode parecer à primeira vista.
Os princípios da matemática sempre tiveram uma relação importante com a filosofia. A matemática aparentemente contém conhecimento a priori com elevado grau de certeza, e grande parte da filosofia aspira a possuir um saber a priori. Desde Zenão, adepto da escola aleática, os filósofos idealistas têm procurado lançar descrédito na matemática elaborando contradições a fim de mostrar que os matemáticos não haviam chegado à verdade metafísica real, e que os filósofos eram capazes de fornecer algo melhor. Essa teoria é abundante em Kant, e mais ainda em Hegel. Durante o século XIX, os matemáticos destruíram essa parte da filosofia de Kant. Lobatchevski, ao inventar a geometria não euclidiana, minou o argumento matemático da estética transcendental de Kant. Weierstrass provou que a continuidade não envolve os infinitesimais; Georg Cantor inventou uma teoria da continuidade e uma teoria do infinito que aboliram todos os antigos paradoxos nos quais os filósofos floresceram. Frege mostrou que a aritmética segue a lógica, o que Kant havia negado. Todos esses resultados foram obtidos por métodos matemáticos comuns, e eram tão inquestionáveis quanto a tabela de multiplicação. Os filósofos confrontaram a situação não lendo os autores envolvidos. Apenas os novos filósofos assimilaram os resultados recém-adquiridos e, por isso, obtiveram uma vitória argumentativa fácil sobre os partidários da manutenção da ignorância.
A nova filosofia não é só crítica. É construtiva, porém como a ciência é construtiva: pouco a pouco e por tentativa. Tem um método técnico especial de construção, ou seja, a lógica matemática, um novo campo da matemática de imagens mais parecidas com a filosofia do que os ramos tradicionais. A lógica matemática torna possível, como nunca, perceber qual o resultado, para a filosofia, de determinado corpo da doutrina científica, que entidades devem ser presumidas, e as relações entre elas. A filosofia da matemática e da física fez enormes avanços com a ajuda desse método; parte dos resultados para a física foi a apresentação feita pelo dr. Whitehead em três trabalhos recentes(The Principle of Natural Knowledge, 1919; The Concept of Nature, 1920; The Principle of Relativity, 1922. Todos publicadospela Cambridge University Press.). Existe motivo para esperar que o método provará ser igualmente útil em outros campos, porém é técnico demais para ser mostrado aqui.
Grande parte da filosofia pluralista moderna tem sido inspirada pela análise lógica de proposições. No início, esse método foi aplicado com demasiado respeito à gramática; Meinong, por exemplo, sustenta que, como podemos de fato dizer “o quadrado redondo não existe”, deve haver um objeto como um quadrado redondo, embora deva ser um objeto inexistente. O presente escritor, no início, não se eximiu desse tipo de raciocínio, porém descobriu em 1905 como escapar dele por meio da teoria das “descrições”, da qual se infere que o quadrado redondo não é mencionado quando dizemos “o quadrado redondo não existe”. Pode parecer absurdo perder tempo em tópicos ridículos como esse do quadrado redondo, mas esses temas com freqüência propiciam os melhores testes lógicos das teorias. A maioria das teorias lógicas é condenada pelo fato de que levam a absurdos; portanto, o lógico precisa estar ciente dos absurdos e manter-se vigilante. Muitos experimentos laboratoriais pareceriam triviais a qualquer um que não soubesse de sua importância, e os absurdos são os experimentos dos lógicos.
Em virtude da preocupação com a análise lógica das proposições, a nova filosofia teve no início uma forte coloração platônica e de realismo medieval; considerava que a abstração tinha o mesmo tipo de existência que a concretude. A partir dessa concepção, à medida que a lógica se aperfeiçoava, tornava-se cada vez mais livre. O que resta não choca o senso comum.
Embora a matemática pura estivesse mais preocupada do que qualquer outra ciência com o início da nova filosofia, a influência mais importante nos dias atuais é a da física. Isso ocorreu em particular pelo trabalho de Einstein, que alterou de modo fundamental nossas noções de espaço, tempo e matéria. Este não é o lugar para uma explicação sobre a teoria da relatividade, porém umas poucas palavras sobre algumas de suas conseqüências filosóficas são inevitáveis. Dois itens especialmente importantes na teoria da relatividade, do ponto de vista filosófico, são: (1) de que não existe um tempo único que abrange tudo e no qual todos os eventos do universo têm lugar; (2) de que a parte convencional ou subjetiva em nossa observação dos fenômenos físicos, embora bem maior do que se supunha antes, pode ser eliminada por meio de determinado método matemático conhecido como cálculo tensorial. Não direi nada sobre este último tópico, pois é intoleravelmente técnico.
Ao considerar o tempo, deve-se ter em mente, para começar, que não estamos lidando com uma especulação filosófica, mas com uma teoria necessária aos resultados experimentais e incorporada às fórmulas matemáticas. Existe o mesmo tipo de diferença entre os dois tal como entre as teorias de Montesquieu e a Constituição americana. O que emerge é: enquanto os eventos que acontecem a certa parte da matéria têm uma ordem de tempo definida do ponto de vista do observador que compartilha seu movimento, os eventos que acontecem a pedaços de matéria em lugares diferentes nem sempre têm uma ordem de tempo definida. Para ser preciso: se um sinal luminoso é enviado da Terra para o Sol, e refletido de volta para a Terra, retornará à Terra dezesseis minutos depois de ter sido enviado. Os eventos que ocorrem na Terra durante esses dezesseis minutos não são anteriores nem posteriores à chegada do sinal luminoso ao Sol. Se imaginarmos observadores que se movem por todos os caminhos possíveis em relação à Terra e ao Sol, verificando os eventos na Terra durante esses dezesseis minutos, e também a chegada do sinal luminoso ao Sol; se presumirmos que todos esses observadores levam em consideração a velocidade da luz e empregam cronômetros precisos; então alguns desses observadores julgarão qualquer evento sucedido na Terra durante esses dezesseis minutos como sendo anterior à chegada do sinal luminoso ao Sol, alguns os julgarão simultâneos, e outros, posteriores. Todos estão igualmente certos e errados. Do ponto de vista impessoal da física, os eventos na Terra durante esses dezesseis minutos não são nem anteriores nem posteriores à chegada do sinal luminoso ao Sol, nem mesmo simultâneos. Não podemos dizer que o evento A em um pedaço de matéria é definitivamente anterior ao evento B em outro, a menos que a luz possa viajar de A a B, começando quando o evento anterior acontece (segundo o tempo de A), e chegando antes de o evento posterior ocorrer (segundo o tempo de B). Caso contrário, a aparente ordem de tempo dos dois eventos varia segundo o observador e não representará, portanto, qualquer fato físico.
Se velocidades comparáveis à da luz fossem comuns em nossa experiência, é provável que o mundo físico parecesse complicado demais para ser estudado pelos métodos científicos e, assim, teríamos de nos contentar com os curandeiros até os dias de hoje. Mas se a física tivesse de ser descoberta, deveria ter sido a física de Einstein, já que a física newtoniana seria inaplicável por razões óbvias. As substâncias radioativas enviam partículas que se movem com velocidade próxima à da luz, e o comportamento dessas partículas seria ininteligível sem a nova física da relatividade. Não há dúvida de que a antiga física contém erros, e do ponto de vista filosófico não há desculpa para dizer que é “apenas um pequeno erro”. Precisamos reconhecer que, em determinados limites, não existe nenhuma ordem de tempo definida entre eventos que acontecem em diferentes lugares. Este é o fato que levou à introdução de um complexo único chamado “espaço-tempo”, em vez de dois complexos separados denominados “espaço” e “tempo”. O tempo que consideramos como cósmico é, na verdade, o “tempo local”, um tempo vinculado ao movimento da Terra com pouca reivindicação de universalidade, assim como um navio que não altera seus relógios ao cruzar o Atlântico.
Quando consideramos o papel que o tempo desempenha em todas as nossas noções comuns, tornase evidente que nosso ponto de vista mudaria profundamente se pensássemos de modo imaginativo o que os físicos realizaram. Tomemos a noção de “progresso”: se a ordem de tempo for arbitrária, haverá progresso ou retrocesso segundo a convenção adotada na mensuração do tempo. A noção de distância no espaço está, é claro, também afetada: dois observadores que empregam todos os dispositivos possíveis para garantir a precisão chegam a diferentes estimativas da distância entre dois lugares se os observadores estiverem em movimento relativo rápido. É óbvio que a própria idéia de distância tornou-se vaga, porque a distância deve ser medida entre coisas materiais, e não entre pontos de espaço vazio (que são ficções); e deve ser a distância em determinado tempo, pois essa distância entre dois corpos quaisquer muda continuamente; e um determinado tempo é uma noção subjetiva, dependendo do deslocamento do observador. Não mais podemos falar de um corpo em um dado tempo, mas falar apenas de um evento. Entre dois eventos existe, de modo bastante independente de qualquer observador, uma certa relação chamada de “intervalo”. Esse intervalo será analisado distintamente por diferentes observadores em um componente espacial e um temporal, mas essa análise não possui validade objetiva. O intervalo é um fato físico objetivo, porém sua separação nos elementos espacial e temporal não é.
É óbvio que nossa antiga e confortável noção de “matéria sólida” não pode perdurar. O pedaço de matéria nada é senão uma série de eventos que obedece a certas leis. A concepção de matéria surgiu em uma época em que os filósofos não tinham dúvidas sobre a validade da concepção de “substância”. A matéria era a substância no espaço e no tempo; a mente, a substância que estava só no tempo. A noção de substância tornou-se mais vaga na metafísica no decorrer dos anos, porém sobreviveu na física porque era inócua – até a relatividade ser inventada. A substância, tradicionalmente, é uma noção composta de dois elementos. Primeiro, tinha a propriedade lógica de ocorrer apenas como sujeito em uma proposição, mas não como predicado. Segundo, era algo que persistia ao longo do tempo, ou, no caso de Deus, que era totalmente atemporal. Essas duas propriedades não tinham necessariamente conexão, contudo, isso não era percebido, visto que os físicos ensinavam que pequenos pedaços de matéria eram imortais e a teologia ensinava que a alma era imortal. Ambos, portanto, pensavam ter as duas características da substância. Agora, entretanto, a física nos força a considerar os eventos evanescentes como substâncias no sentido lógico, ou seja, como sujeitos que não podem ser predicados. Um pedaço de matéria, que tomávamos como uma entidade persistente única, é na verdade uma cadeia de entidades, como os objetos aparentemente contínuos em um filme. E não há razão pela qual não possamos dizer o mesmo quanto à mente: o ego persistente parece tão fictício quanto o átomo permanente. Ambos são apenas uma cadeia de eventos que têm certas relações interessantes uns com os outros.
A física moderna nos permite dar corpo à sugestão de Mach e de James de que a “essência” do mundo mental e do mundo físico é a mesma. A “matéria sólida” era, obviamente, bem diferente dos pensamentos e também do ego persistente. Mas, se a matéria e o ego são apenas convenientes agregações de eventos, é bem menos difícil imaginá-los compostos dos mesmos materiais. Além disso, o que pareceu ser, até então, uma das peculiaridades mais marcantes da mente, ou seja, a subjetividade, ou a posse de um ponto de vista, invadiu agora a física, e percebeu-se que não envolve a mente: câmeras fotográficas em diferentes lugares podem fotografar o “mesmo” evento, porém fotografarão de modo diverso. Mesmo os cronômetros e as réguas métricas tornaram-se subjetivos na física moderna; o que registram de forma direta não é um fato físico, mas sua relação com o fato físico. Assim, física e psicologia aproximaram-se uma da outra, e o antigo dualismo de mente e da matéria entrou em colapso.
Talvez valha a pena salientar que a física moderna ignora o termo “força” no sentido antigo ou popular da palavra. Costumávamos pensar que o Sol exercia uma “força” sobre a Terra. Agora pensamos que o espaço-tempo, na proximidade do Sol, é moldado de forma que a Terra encontre menos dificuldade de se mover. O grande princípio da física moderna é o “princípio da menor ação”, isto é, que ao passar de um lugar para outro um corpo sempre escolhe a rota que envolve menor ação. (Ação é um termo técnico, mas seu significado não deve nos preocupar no momento.) Os jornais e alguns escritores que querem ser tidos como assertivos gostam da palavra “dinâmico”. Não há nada “dinâmico” na dinâmica, que, ao contrário, acha tudo dedutível da lei da preguiça universal. E não existe algo como um corpo “controlando” os movimentos de outro. O universo da ciência moderna é bem mais parecido com o de Lao Tsé do que com o dos que tagarelam sobre “grandes leis” e “forças naturais”.
A filosofia moderna do pluralismo e do realismo tem, de alguma forma, menos a oferecer do que as primeiras filosofias. Na Idade Média, a filosofia era uma teologia manufaturada; até hoje, seus títulos constam dos catálogos dos vendedores de livros. Considerou-se, de modo geral, como assunto da filosofia provar as grandes verdades da religião. O novo realismo não professa ser capaz de prová-las, ou mesmo de não prová-las. Tem por objetivo apenas esclarecer as idéias fundamentais das ciências, e sintetizar as diferentes ciências em uma concepção única e abrangente desse fragmento do mundo que a ciência obteve êxito em explorar. Desconhece o que se encontra mais além; não possui talismã para transformar ignorância em conhecimento. Oferece prazeres intelectuais àqueles que os valorizam, mas não tenta bajular conceitos humanos como a maioria das filosofias faz. Se parece árida e técnica, devemos culpar o universo, que escolheu funcionar de um modo matemático e não do modo que os poetas e os físicos teriam desejado. Talvez isso seja lastimável, mas dificilmente espera-se que um matemático o lamente.

 (Bertrand Russel - Ensaios Céticos)

publicado às 23:21


MItologia e Filosofia

por Thynus, em 12.11.15

Minha fórmula para o que há de grande no homem é amor fati: nada desejar além
daquilo que é, nem diante de si, nem atrás de si, nem nos séculos dos séculos. Não se
contentar em suportar o inelutável, e ainda menos dissimulá-lo — todo idealismo é
uma maneira de mentir diante do inelutável —, mas amá-lo.
(Nietzsche, "Ecce Homo")
A lição de Dioniso e a espiritualidade laica
Não volto à construção dessa representação do cosmos que a mitologia lega à filosofia. Vimos o bastante, ao longo deste livro, em quantos sentidos múltiplos e complexos a vida boa pode se encontrar nela, pelo menos se considerarmos o que por muito tempo foi o essencial da cultura grega, na existência em harmonia, tanto quanto possível, com a ordem cósmica. Mas com a tragédia de Édipo, começamos também a perceber outra coisa: as disfunções do sistema, os grãos de areia que podem afetá-lo, criar problema e, no mínimo, parecerem trágicos a nós, humanos. É por onde eu gostaria de concluir, dando prosseguimento à reflexão sobre o que podemos designar de maneira geral como “a alteridade” ou “o Outro” do cosmos e da harmonia, isto é, no fundo, nós mesmos, os mortais. Pois a grandeza dos mitos gregos não reside exclusivamente na sublime descrição dos esplendores do universo. Ela se encontra ainda no esforço quase desesperado de integrar aquilo que não se inclui na bela ordenação dentro de um esquema dominante de pensamento que, no entanto, privilegia a harmonia antes de tudo. É um fato: a cosmologia põe em epígrafe a ordem e a justiça, a concordância e a identidade. Mas nem por isso deixa de ser sensível ao que cria também o perturbador atrativo do caos, da diferença, da festa, da embriaguez, ou seja, tudo que à primeira vista se remete à loucura, mais do que à sabedoria. Frequentemente se diz que essa vertente, por assim dizer “dissidente” do pensamento grego, se encarnava em outra tradição filosófica, diferente da cosmologia platônica ou estoica, em uma espécie de “contracultura”, passando pelas teorias dos atomistas, dos epicuristas e dos sofistas — uma forma de “desconstrução”, pode-se dizer, avant la lettre, em que já se exprime de maneira explícita a paixão pelo caos mais do que pela ordem, pela diferença mais do que pela identidade, pelo corpo mais do que pela alma.
Se nos colocarmos sob esse ponto de vista, o que parece realmente admirável nas construções mitológicas é que tenham tido a incrível ousadia de abrir espaço para esse aspecto das coisas, levando-o em consideração de maneira absolutamente explícita e encarnando-o num personagem que já encontramos no caminho: Dioniso, de quem gostaria de dizer algumas palavras em conclusão. Para início de conversa, é muita cara de pau tornar olímpico um sujeito tão pouco recomendável, deixando-o integrar de maneira tão chamativa e assumida o centro do sistema cosmológico.

Pois o mínimo a se dizer é que não é fácil de se digerir Dioniso. Já disse que ele nasceu saindo da “coxa de Júpiter”, arrancado in extremis da barriga de Semelê, sua mãe, que não era uma deusa, mas simples mortal que tinha se inflamado — no sentido literal, consumir-se em chamas — ao ver o amante, o rei dos deuses. Desde o início Dioniso é um ser bem à parte. Primeiro, é o único olímpico a ser filho de uma mortal. Isso já quer dizer que ele carrega em si uma parte de caos, uma diferença fundamental, uma espécie de imperfeição. Há, porém, mais do que isso: dizem que tem algo de oriental, que não tem a aparência de um grego de “pura cepa - tudo bem, a expressão é discutível, por isso coloco entre aspas, para marcar que, do ponto de vista da tradição, Dioniso parece mais o que os gregos chamam um “meteco”, um estrangeiro. Para “piorar”, ele desde a mais tenra infância se disfarça de menina, num mundo que no espaço público só valoriza os homens. De início, foi para fugir da raiva de Hera que o rei Atamas, com quem Hermes deixou a criança-deus, impôs o disfarce. Aliás, de acordo com algumas fontes convergentes, Hera já fizera a mãe dele arder em chamas, sugerindo que ela pedisse a Zeus que se mostrasse sob seu aspecto verdadeiro — e a deusa sabia muito bem que a jovem mortal não resistiria por um minuto à resplandecência do senhor do Olimpo, morrendo fulminada. Com o correr do tempo, porém, Dioniso toma gosto pelas roupas femininas. Para se vingar, Hera o enlouquece assim que descobre o truque, e Dioniso vai precisar de esforços de purificação quase sobre-humanos para escapar dos delírios insensatos que a esposa de Zeus lhe enfiara na cabeça. Este último, para resgatá-lo da ira de sua mulher, o transforma em cabrito, coisa que, deve-se confessar, torna Dioniso um ser cada vez mais estranho: não somente é filho de mortal, não somente é oriental, feminino e louco, mas, além disso, tem um passado animalesco! O mínimo que se pode dizer é que, em princípio, ele é muito pouco olímpico. Além disso, tem tudo para desagradar quando passa com seu séquito de Sátiros, Bacantes e Silenos com hábitos inimagináveis por cidades gregas dominadas por valores viris e marciais de ordem justa. Com seu cortejo de extravagantes em estado de desmedida embriaguez, desenfreada sexualidade e sadismo louco, ele é hybris dos pés à cabeça! Insisto: realmente foi preciso uma singular audácia para colocar essa figuraça na lista canônica dos deuses mais legítimos. Questão bem simples, pelo menos em aparência: por quê?

Talvez seja preciso, para melhor perceber o que está em jogo e não responder superficialmente demais, lembrar os primeiros episódios marcantes do seu itinerário(Sigo essencialmente a narrativa de Apolodoro, mas não deixa de ser útil completá-la tanto com os Hinos Homéricos quanto com as famosas Dionisíacas, de Nono de Panópolis) — sobretudo a morte de Penteu, que evoquei de passagem, mas que não contei realmente em detalhes, indo ao fundo da narrativa. No entanto, temos nela muitas informações sobre a singularidade dessa estranha divindade.

Desde o seu nascimento, Hera, como eu disse, o persegue com todo seu ódio, como já fizera com tantos outros, Io e Héracles por exemplo, e pelos mesmos motivos. Hermes então o esconde em lugar seguro, a mando de Zeus, e Dioniso é criado sob os disfarces de que já falei. Ao descobrir o embuste, Hera não somente o enlouquece, mas também a seus pais adotivos, Atamas e Ino (diga-se de passagem que talvez seja como nasce, segundo certas versões, o mito do Tosão de Ouro, com os filhos de Atamas tentando escapar da loucura paterna). Zeus então novamente esconde o menino, dessa vez num país longínquo, chamado Nisa, onde ele é criado por ninfas — alguns dizem ser desse episódio que Dioniso tira seu nome, que significaria “o Zeus ou o deus de Nisa”. Seja como for, ele viaja muito e acaba se curando da loucura. Tenta voltar à Trácia, mas é violentamente barrado por Licurgo, rei dessa região. Como qualquer prefeito mais intolerante, vendo chegar ciganos à sua bem-comportada e limpa cidade, ele não quer por ali aquele cortejo maluco; manda prender Dioniso e seu bando. Péssima ideia — o deus, apesar de ainda bem jovem, não deixa de ser tremendamente poderoso. Lança uma praga contra Licurgo, que, por sua vez, cai na loucura. Ele acaba de maneira atroz, despedaçado por seus súditos, depois de ter cortado a própria perna, num acesso de demência. Após outras viagens, Dioniso volta finalmente à sua cidade ou pelo menos à de sua mãe, Semelê, que, você se lembra, é filha de Cadmos e Harmonia, soberanos e fundadores de Tebas. Semelê tem uma irmã, Agave, que teve um filho, Penteu, primo-irmão de Dioniso. Este último, então, também é neto de Cadmos. O pai de Penteu, isso tem sua importância na história a seguir, é um daqueles famosos “semeados”, um daqueles spartoi dos quais já falei. Trata-se inclusive do mais famoso de todos, Équion, um autêntico “autóctone”, um ser nascido da terra — o que em essência é o caso dos “semeados”. É então o contrário de Dioniso: não um exilado, mas um indígena, não um estrangeiro, mas um homem do torrão, um produto local. Com o avô ficando velho demais para governar a cidade, ele, Penteu, se torna o novo rei. Agave, no entanto, sempre tinha zombado da irmã, a mãe de Dioniso: nunca chegou a acreditar na história do Zeus fulminante, nem na da “coxa de Júpiter”, fazendo correr o rumor de que todo esse caso não passa de fábula, para não dizer de impostura — o que desagrada ao extremo Dioniso. Por dois motivos: primeiro por não gostar que caluniem sua mãe, e depois porque isso nega a sua filiação divina. E Penteu e sua mãe irão pagar caro, muito caro por isso.

Como Jean-Pierre Vernant contou maravilhosamente essa história, o que posso fazer de melhor é passar-lhe a palavra para expor pelo menos a cena inicial, a chegada de Dioniso a Tebas:
Na cidade que é uma espécie de modelo de cidade grega da Antiguidade, Dioniso chega disfarçado. Não se apresenta como o deus Dioniso, mas como o sacerdote do deus. Sacerdote ambulante e vestido de mulher, com os cabelos longos até as costas, ele tem tudo do meteco oriental de olhos escuros, ares sedutores, bem-falante [...] Tudo que pode deixar eriçado o “semeado” do chão de Tebas, Penteu. Os dois têm mais ou menos a mesma idade. Penteu é um rei bem jovem, da mesma maneira que o suposto sacerdote é um juveníssimo deus. Em torno do sacerdote gravita um bando de mulheres jovens e mais velhas, de Lídia, ou seja, do Oriente. Do Oriente como tipo físico e como maneira de ser. Nas ruas de Tebas elas provocam um rebuliço, sentando-se, comendo e dormindo ao ar livre. Penteu vê isso e fica furioso. O que faz ali aquele bando de errantes? E quer expulsá-los(Universo, os Deuses, os Homens, op.cit)

O que se nota perfeitamente na descrição de Vernant, e que me levou a citá-la aqui, é o formidável contraste entre Dioniso e Penteu, o exilado e o homem nativo, o meteco e o autóctone. Sente-se logo de início que eles não podem se entender. Dioniso monta uma armadilha funesta. Por trás do furor do jovem rei, como muitas vezes é o caso, há uma forma inconsciente de tentação. No fundo, ele se sente fascinado por todas aquelas mulheres, toda aquela sensualidade que se expõe nas ruas, toda aquela liberdade de tom e de espírito, para ele que é travado como nenhum outro, criado desde criança na dureza, pela maneira “espartana”, dentro dos valores “viris” de sua cidade-modelo. E Dioniso se aproveita disso, usa esse fascínio. Convida-o — deve-se reconhecer — perversamente a ir à floresta para assistir às festas, as famosas “bacanais” ou “dionísias” que se darão em homenagem ao deus. Penteu fica tentado. Ele sobe numa árvore para se esconder e ver sem ser visto o espetáculo espantoso que deve acontecer, inteiramente contrário ao que ele é no íntimo, mas que, por isso mesmo, exerce em sua alma, e quem sabe também em seu corpo, uma secreta e confusa atração. As Bacantes — as mulheres do séquito de Dioniso são assim chamadas em referência  a Baco, um dos outros nomes desse deus de múltiplas facetas — começam a delirar, dançar, beber, fazer amor, correr atrás de filhotes de animais para comê-los vivos, torturá-los, despedaçá-los. Resumindo, é a loucura dionisíaca em estado bruto, em que se misturam todas as paixões mais obscuras, a sexualidade, é claro, o gosto pelo vinho, evidentemente, mas também o sadismo, os transes, os êxtases delirantes. Para sua infelicidade, Penteu rapidamente é descoberto — Dioniso cuidou disso, é claro. As mulheres apontam para ele. Torna-se a nova presa! Elas arqueiam a árvore, obrigam-no a descer, e Agave, sua própria mãe, que dirige as operações como um general de exército, dilacera vivo o filho, com a ajuda das comparsas. Em delírio, ela achou se tratar de um animal selvagem e, orgulhosa, volta para casa e mostra o troféu a seu pai, Cadmos: a cabeça de Penteu sanguinolenta, enfiada na ponta de um dardo.

Vamos deixar de lado o restante da história — o velho Cadmos, nem é preciso dizer, fica arrasado e Agave também, assim que recupera o espírito, enquanto Dioniso revela sua identidade, mostrando às claras seu poder. Mas não está nisso o essencial, e sim no fato de os gregos terem precisado completar seus mitos cosmológicos, suas lendas inteiramente dedicadas à glória da harmonia e da ordem, com esse tipo de episódio, próximo da menos defensável e menos conveniente demência. Temos aí algo tão estranho que é preciso questionar o significado da integração de semelhante entidade no universo dos deuses. Mais uma vez a interrogação se impõe: por quê?
A resposta agora pode ser bem simples. Antes de tudo, o principal é não se enganar. Dioniso não é, como os Titãs ou como Tífon, um ser apenas “caótico”, um opositor “furioso”, se podemos assim dizer, da edificação do cosmos por Zeus. Se fosse, não seria, como você bem pode imaginar, um olímpico; isso não seria possível. Ele estaria, como todas as outras forças arcaicas, trancafiado no Tártaro, jogado sob boa vigilância nas vísceras de Gaia. Não se constitui então, pelo menos não exclusivamente, como um dos dois polos caos/cosmos, mesmo que, como vimos no comentário de Nietzsche sobre a música, haja evidentemente nele algo do caótico, do titânico. Para dizer a verdade, ele é uma espécie de reunião dos dois, uma forma de síntese cheia de sentido, pois nos faz entender que não existe harmonia sem se levar em conta a diversidade, não há Imortais sem mortais, identidade sem diferença, autóctones sem metecos, cidadãos sem estrangeiros.

Por que essa mensagem é tão importante que deva simbolicamente se estabelecer no centro do Olimpo? Muitas vezes se responde essa pergunta com duas interpretações opostas, mas ambas aparentemente plausíveis, do personagem de Dioniso. Aliás, é normal que surjam várias leituras dos mitos, uma vez que não existem propriamente autores que possam ser identificados. Como é o caso com os contos de fadas, temos nas mãos uma literatura “genérica”, criações que não se atribuem a ninguém em particular e nas quais, em consequência, é sempre difícil imaginar uma intenção consciente que facilmente se possa identificar. É impossível entrevistar, como se faria hoje em dia na televisão, Homero. Não apenas por ele estar morto, mas porque possivelmente ele não passe de um nome-código, recobrindo talvez várias pessoas, em todo caso várias tradições orais, sem que indivíduo algum possa pretender ser o autor consciente e responsável. É sempre, então, “de fora” que temos que tentar reconstituir um sentido, e nessas condições é perfeitamente natural que diferenças de perspectiva sejam possíveis — muito mais, sem dúvida, do que quando se pode remeter a obra a um autor “pessoal”. A reconstrução do sentido se torna com isso ainda mais interessante. Evitemos ceder à tentação, tão frequente no passado recente, que consiste em, sob o pretexto de se tratar mais de “textos” do que de obras, ver neles apenas “estruturas”, sem nunca buscar extrair um significado. Com certeza seria um erro grave.

Segundo uma primeira leitura que pode ser dita “nietzschiana” (embora de maneira bem vaga, pelo tanto que, na verdade, se afasta do pensamento autêntico de Nietzsche), Dioniso encarna o lado festivo da existência. Representa os momentos de loucura, verdade que meio delirantes, certamente excessivos, mas tão lúdicos quanto alegres, inclusive em seu excesso mesmo, ou seja, nos instantes de amável transgressão que uma vida “liberada” deve reservar ao hedonismo, ao prazer, à satisfação das paixões eróticas, por mais secretas. Seria esta uma interpretação “de esquerda” dos ritos dionisíacos, uma espécie de antecipação do anarquismo, para não dizer de Maio de 1968. Aliás, é num sentido bastante próximo a isso que a tradução romana descreveu Baco: um velho beberrão, é verdade, mas simpático, bon-vivant, cheio de bom humor, de amor e, em última instância, como seu companheiro Sileno, um verdadeiro sábio. “Viver como um vulcão” talvez pudesse ser, nessa perspectiva, a divisa máxima de Dioniso.
O problema é que nada em sua existência, pelo que nos contam os mitos, corrobora essa imagem idílica. É evidente que a verdade está noutro lugar. Em momento algum a vida do deus do vinho e da festa se assemelha minimamente a algo feliz. O nascimento é sofrido e a infância, tumultuada. Ao ser expulso por Licurgo, nas viagens pela Índia e pela Ásia, ao voltar para se vingar de Agave e Penteu, sua vida se passa mais no medo e no ódio do que no amor e na alegria. Além disso, as festas dionisíacas, se nos dermos o trabalho de considerar de maneira atenta o que dizem os textos fundadores — a realidade era sem dúvida um pouco diferente —, se assemelham infinitamente mais a um filme de terror do que a uma alegre orgia: cenas com animais estraçalhados vivos, crianças torturadas, estupros coletivos e mortes atrozes que se encadeiam em ritmo assustador, levando a achar que a imagem que muitos têm da boa e velha festa estudantil de 1968 ou da orgia romana se encaixa muito pouco nesse tema. Como se não bastasse, como podemos ver com relação ao primo Penteu, Dioniso está longe de se comportar como herói simpático. Ele encanta, é verdade, seduz, concordo, mas sempre por hipocrisia e mentira, praticando traições, delações, enfim, recorrendo a artifícios que nada têm, se olharmos mais de perto, a ver com o que os defensores dessa interpretação pretendem normalmente valorizar: o excesso e a transgressão, sim, mas na alegria e no amor. De fato, há em Dioniso excessos e transgressão, mas muito pouco alegria e amor.

Outra interpretação, já bem mais justa, se inspira não num nietzschianismo adulterado, mas em Hegel. Consiste em dizer, em substância, que Dioniso representa o momento da “diferença”(O que Hegel chama “ser-aí”, na tríade em si, ser-aí, para si) que corresponde à ideia de que se deve dar, por assim dizer, tempo à eternidade e ao cosmos para que integrem o que é diferente deles. Para tentar formular as coisas mais simplesmente, sem jargão, esse deus do delírio encarnaria, com isso, frente ao universo calmo e divino, eterno e estável fundado e garantido por Zeus, a necessidade de se levar em consideração tudo que, de fato, é contrário a essa ordem, diferente ou até mesmo oposto: não, certamente, o caos absoluto (foi a tarefa dos Titãs e de Tífon, que também são deuses e foram dominados antes até de o cosmos estar completamente estabelecido), mas o acaso, a confusão, a contingência, os dilaceramentos e outras imperfeições do mundo humano. É preciso, de certa maneira, que tudo isso se exprima para ser, num terceiro tempo (sendo o primeiro o da criação do cosmos), recuperado e reintegrado na harmonia geral. Por isso é que existiria o lugar de Dioniso em pleno centro do Olimpo.

Com essa segunda leitura, sem dúvida estamos bem mais perto da verdade das lendas dionisíacas. Sim, devem ser levadas em conta a alteridade, a estranhice, a desordem e a morte, ou seja, aquilo que é diferente do divino. A única nuança, no entanto essencial, que eu acrescentaria ao ponto de vista hegeliano, é a de que, no final, não há síntese feliz e bem-sucedida. Com certeza deve-se inventar Dioniso e colocá-lo em lugar privilegiado, pois a vida de verdade, a vida boa, tanto para nós quanto para os deuses, está no cosmos e no caos reunidos, em mortais e Imortais juntos. Com apenas o cosmos, a vida se imobiliza, paralisada, mas com o caos apenas, as coisas não melhoram: ela explode. Livre para agir, a desordem das bacanais leva ao desastre e à morte. É preciso que outro princípio lhe ponha um limite; reciprocamente, a ordem cósmica sem os seres humanos, sem os vivos que se agitam nesse tempo que é o da história real, constitui outra forma de morte, por congelamento na imobilidade.
Como é o caso naquilo que Nietzsche chama “grande estilo” (mas falo do “verdadeiro” Nietzsche, que não é absolutamente “nietzschiano” e menos ainda “de esquerda”), deve-se integrar em si o inimigo,(Ver o capítulo sobre Nietzsche em Aprender a Viver I) não deixá-lo de fora, pois seria muito perigoso e, pior ainda, entediante — o que explica o fascínio do filósofo alemão pelo personagem de Dioniso, em que ele próprio se reconhece. Os dois momentos por ele descritos em seu livro O Nascimento da Tragédia, o apolíneo e o dionisíaco, são inseparáveis um do outro, ambos necessários à vida. Assim como não há cosmos sem caos, também não há eternidade sem tempo, identidade sem diferença.
Pelo simples fato de existir, Dioniso nos lembra permanentemente as origens do mundo, a abissal escuridão de onde ele vem. Sempre que necessário, ele nos faz sentir o quanto o cosmos se construiu sobre o caos e o quanto essa construção, vinda da vitória de Zeus sobre os Titãs, é frágil. Tão frágil que justamente se esquecem a origem e a precariedade — razão pela qual a festa assusta e a loucura inquieta, pois sentimos que nos são muito próximas, que, na verdade, estão em nós. É este, no fundo, o ensinamento de Dioniso, ou melhor, de sua integração no universo dos olímpicos. Trata-se, como na tragédia, de nos fazer compreender que toda essa construção, no final, é pura e simplesmente feita pelos e para os humanos, para aqueles que não apenas são membros do cosmos eterno, mas também estão mergulhados no mundo da finitude, nessa mesma dimensão de dilaceramento e de desordem de que, em toda circunstância, fala Dioniso.
Não há reconciliação final, entretanto, como na interpretação hegeliana, nada de happy end, e talvez seja nesse ponto que o mito de Dioniso nos permite, melhor do que qualquer outro, apreender como todas essas construções míticas nos afetam ainda hoje de maneira tão íntima.

É por falarem de nós, mortais, de maneira diferente do que farão as religiões: em termos de espiritualidade laica e não de crença, em termos de salvação humana, mais do que em fé em Deus. O que é comovente na trajetória de Ulisses é que ele faz tudo para se virar sozinho, tentando ser lúcido, mantendo seu lugar, recusando a imortalidade e a ajuda fácil dos deuses. Alguns, é claro, como Atena e Zeus, o socorrem, outros infernizam sua vida — é o caso de Poseidon. No final, porém, ele é que se vira por conta própria, assumindo a morte que o aguarda. Nesse sentido, apenas a filosofia assume essa herança. Uma vez mais, tenho plena consciência do que tem de paradoxal essa afirmação para um leitor mais apressado: com a mitologia tão evidentemente sobrecarregada de deuses, povoada como é de seres sobrenaturais, como simplesmente dizê-la “laica”, sem outra forma de averiguação?

É claro que concordo, a objeção é evidente. Mas, justamente, não se deve depender apenas da evidência. Se aprofundarmos um pouco o olhar, como tentamos fazer ao longo dessas páginas, descobrimos nos mitos algo bem diverso de uma religião: uma tentativa, e é isso o que Dioniso simboliza, à qual nenhuma outra se assemelha, de dar conta da realidade da finitude humana, a verdade dessa loucura que os deuses relegaram por inteiro aos homens e ao mundo dos sentidos, com o intuito de se livrar disso e de preservar o seu próprio cosmos. É a esse mundo, a esse universo sublunar e marcado pelo tempo que se deve tentar, apesar de tudo, dar um sentido, ou melhor, toda uma plêiade de significados possíveis frente a seu Outro, o cosmos dos deuses imortais. No fundo, o que a mitologia nos oferece e vai legar à filosofia como ponto de partida é uma descrição cheia de vida dos itinerários possíveis para os indivíduos que somos, no coração do universo ordenado e belo que nos foge por todos os lados. Numa época como a nossa, em que as religiões se esfumaçam cada vez mais — refiro-me ao espaço laico dos europeus e não aos continentes ainda marcados pelo teológico-político —, a mitologia grega explora uma questão que nos afeta como nunca: a do sentido da vida fora da teologia, e é isso que, no fundo, pode ainda nos servir de modelo para pensarmos nossa própria condição.
Por isso eu gostaria de insistir novamente, para terminar, no caráter paradoxalmente laico, não religioso, humano e às vezes demasiado humano, da sabedoria ou espiritualidade que a mitologia vai legar à filosofia.
 
Da filosofia em geral como secularização da religião e da filosofia grega como secularização da mitologia em particular: do nascimento de uma espiritualidade laica
 
Já tive oportunidade em outros livros de desenvolver a ideia de que, a meu ver, a filosofia está sempre ligada a um processo de secularização de uma religião,(É um tema que já abordei no capítulo X de A Sabedoria dos Modernos, Martins Editora, 1999, bem como em O que é uma Vida Bem-sucedida?, Difel, 2004) pelo menos em seus momentos mais grandiosos. Mesmo quando ela se pretende materialista, em ruptura radical com a atitude religiosa, não deixa de manter uma continuidade, menos visível, mas ainda assim fundamental. De fato é da religião que a filosofia recebe suas interrogações mais essenciais que, dessa forma, só se tornam suas depois de forjadas no espaço religioso. É essa continuidade, para além da ruptura, que permite compreender como a filosofia retoma por conta própria a questão da vida boa em termos de salvação com relação à finitude e, desse modo, à morte, abandonando as respostas religiosas pela condição de ilusão. Daí também sua pretensão de se dirigir a todos os seres humanos e não somente aos crentes, assim como sua preocupação em buscar, desse modo, ultrapassar os discursos particulares, na direção de uma dimensão de universalidade que, desde a origem, se opõe aos comunitarismos religiosos. 
Que essa ruptura e continuidade se confirmem na Grécia desde o nascimento da filosofia é algo que nossa análise dos mitos torna evidente e que Jean-Pierre Vernant esclareceu, com muita acuidade, se inspirando nos trabalhos de um de seus colegas, Francis Cornford, dedicados à passagem da religião — dos mitos — à filosofia na Grécia. Ele mostrou como o nascimento da filosofia na Antiguidade não constituía um “milagre” insondável, como tantas vezes se disse e se repetiu, mas se explicava por um mecanismo que se pode dizer de “laicização” do universo religioso em que viviam os gregos. Esse ponto merece nossa atenção, pois tal processo inaugural de “desencantamento do mundo” apresenta uma face dupla: de um lado, os primeiros filósofos vão retomar por conta própria toda uma parte da herança religiosa como descrita principalmente nas grandes narrativas míticas que analisamos referentes ao nascimento dos deuses e do mundo; de outro lado, porém, essa mesma herança será consideravelmente modificada, ao mesmo tempo traduzida e traída por uma nova forma de pensamento, o pensamento racional, que lhe dá um novo sentido e uma nova condição. Assim, de acordo com Vernant, a filosofia antiga, essencialmente,
transpõe, numa forma laicizada e no plano de um pensamento mais abstrato, o sistema de representações que a religião elaborou. As cosmologias dos filósofos retomam e prolongam os mitos cosmogônicos [...] Não se trata de uma analogia vaga. Entre a filosofia de um Anaximandro e a teogonia de um poeta inspirado, como Hesíodo, Cornford mostra que as estruturas se correspondem até mesmo no detalhe.(Cf. Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet, La Grèce Ancienne. Du Mythe à la Raison, “Points” Seuil, 1990, p. 198)

De fato, desde a aurora da filosofia, essa secularização da religião, que a conserva ao ultrapassá-la — a problemática da salvação e da finitude é preservada, mas as respostas propriamente religiosas são abandonadas —, assume já clara e firmemente o seu lugar. O que é particularmente interessante é que se pode ler esse processo em dois sentidos. Podemos estar mais ou menos vinculados ao que liga a filosofia às religiões que a precedem e informam ou, pelo contrário, ao que a afasta e que se poderia designar como seu momento laico ou racionalista. Enquanto Cornford é mais sensível aos laços que unem as duas problemáticas, Vernant, sem absolutamente negar a paternidade religiosa da filosofia, procura acentuar o que as opõe. É verdade, ele escreve, os primeiros

filósofos não tiveram que inventar um sistema de explicação do mundo; encontraram-no já pronto [...] Mas hoje que a filiação, graças a Cornford, está estabelecida, o problema necessariamente ganha uma forma nova. Não se trata mais de apenas buscar o antigo na filosofia, mas de extrair o realmente novo: aquilo pelo qual a filosofia deixa de ser o mito para se tornar filosofia.(Ibid., p. 202)

Uma revolução, se podemos assim dizer, na continuidade, que se opera em pelo menos três planos. Primeiro, em vez de falar, como a mitologia, em termos de filiação — Zeus é filho de Cronos, que é filho de Urano etc. —, a filosofia, racionalista e secularizada, vai se exprimir em termos de explicação, de causalidade. Tal elemento engendra tal outro elemento, tal fenômeno produz tais efeitos etc. Nesse mesmo sentido, não se fala mais de Gaia, de Urano ou de Ponto, mas da terra, do céu e das águas do mar; as divindades se apagam diante da realidade dos elementos físicos — é onde se encontra a ruptura —, o que não impede que — é onde se encontra a continuidade — o cosmos dos fisicistas herde todas as características fundamentais (harmonia, justeza, beleza etc.) que possuía nas visões antigas, religiosas e míticas. A imagem do filósofo finalmente emerge, diferente daquela do sacerdote. Sua autoridade não vem dos segredos que possui, mas das verdades que ele torna públicas; não dos mistérios ocultos, mas dos argumentos racionais de que é capaz.

Mesmo sem entrar numa análise mais aprofundada, podemos ter uma ideia da reviravolta assim introduzida pelo pensamento filosófico se considerarmos um pouco mais de perto o segundo ponto, ou seja, a maneira pela qual os filósofos vão passar do sagrado ao profano, esforçando-se para “extrair” ou “abstrair” das divindades gregas elementos “materiais” constitutivos do universo, ao passar, como acabo de dizer, de Ponto à água, de Urano ao ar celeste, de Gaia à terra etc. No detalhe, é mais complicado do que posso indicar agora, mas o princípio é esse. Trata-se de não se preocupar tanto com as entidades divinas e religiosas, para se interessar pelas realidades naturais e físicas. Alguns séculos depois, encontramos em Cícero repercussões engraçadas dessa revolução “laica” com a qual, em seus próprios termos, “os deuses dos mitos gregos foram interpretados pela física”. Cícero pega o exemplo de Saturno (nome latino de Cronos) e de Caelus (nome latino de Urano) e explica da seguinte maneira a laicização introduzida pela filosofia estoica, diante das antigas “superstições” mitológicas: 
A Grécia, há muito tempo, se viu invadida pela crença de que Caelus foi mutilado por seu filho Saturno, e Saturno, por sua vez, acorrentado por seu filho Júpiter. Uma rebuscada doutrina física inclui-se nessas fábulas ímpias. Elas querem dizer que a natureza do céu, que é a mais alta e feita de éter, isto é, de fogo, e engendra tudo por si mesma, não conta com esse órgão corporal que precisa se juntar a outro para engendrar. Quiseram designar com Saturno a realidade contendo o curso e a revolução circulares dos espaços percorridos e dos tempos, dos quais vem seu nome em grego; pois é chamado Cronos, que é o mesmo que chronos, “espaço de tempo”. Mas foi chamado Saturno por ser “saturado” de anos; e finge-se que ele tem o costume de comer seus próprios filhos, porque a duração devora os espaços de tempo.(Da Natureza dos Deuses, capítulo XXIV)
Deixemos de lado a questão do valor de verdade filológica dessa leitura das grandes teogonias gregas. O que importa neste momento é que o mecanismo de “secularização” é claramente elucidado em seu princípio: não se trata tanto de romper com a religião, mas de reorganizar seu conteúdo, não de fazer tábula rasa, mas de desviar os grandes temas para um novo modo de ver. E é propriamente essa dualidade — ruptura e continuidade — que vai, desde a origem, marcar, mas de maneira indelével, as relações ambíguas da filosofia com sua única rival séria, a religião. Essa tese não deve se limitar exclusivamente ao espaço do pensamento grego, como já mostrei em outro lugar.(Sobretudo em A Sabedoria dos Modernos, op.cit.) Tem um alcance tão geral que vai se confirmar ao longo de toda a história da filosofia, até nos pensadores conhecidos como bem pouco religiosos. Por enquanto posso ser apenas alusivo — somente nos próximos volumes de Aprender a Viver poderei entrar de maneira exaustiva e clara nos detalhes dessa argumentação. Digamos apenas, esperando voltar a isso mais profundamente, que a tese se verifica, sem qualquer exceção, em todos os grandes autores da tradição filosófica.

Desse modo, Platão, os estoicos, Espinosa, Hegel e Nietzsche, por exemplo, vão continuar a se interessar, cada qual à sua maneira, claro, em radical ruptura com as religiões constituídas, pela problemática da salvação e, ao mesmo tempo, da eternidade. Não é por acaso então, em Platão e em Aristóteles, que o sábio é aquele que morre menos do que o louco, quando se trata de se “tornar imortal tanto quanto possível”, como é dito no final de Ética a Nicômaco, o grande livro de moral de Aristóteles. Nada surpreendente, também, que Ética, de Espinosa, no mesmo sentido, apesar de bases bem diferentes, pretende superar as morais simplesmente formais para nos levar à “beatitude”. Também para ele, não há vida boa que não tenha se livrado do medo da morte, com tudo se passando como se o bom êxito na vida e o bom êxito na morte formassem uma só e mesma coisa. Não se pode viver bem se não se venceu todo medo, e o meio para se chegar a isso é o de tornar sua vida tão sábia, tão afastada da loucura, que se consegue “morrer o menos possível”. É o tema bem conhecido dos espinosistas e longamente analisado por Gilles Deleuze, um dos seus mais célebres intérpretes, segundo quem, de novo, o “sábio morre muito menos do que o louco”. Ainda em Hegel, a definição do “saber absoluto”, ponto culminante de todo o seu sistema, é diretamente herdada da religião cristã. Trata-se de um ponto em que, como no cristianismo, o finito e o infinito, o homem e Deus enfim se reconciliam — a diferença com a religião vinda principalmente do fato de que, a seu ver, essa reconciliação deve se efetuar, como Hegel diz em seu jargão próprio, “no elemento do conceito”, e não no da fé. Não chega a surpreender, também, que as obras de Nietzsche apresentando sua doutrina do “eterno retorno” frequentemente ganhem a forma parabólica, que é a marca característica dos grandes textos evangélicos; mais uma vez, trata-se de descrever um critério de existência que permita diferenciar o que absolutamente vale a pena ser vivido do que, em contrapartida, não merece tanto durar. Vê-se novamente como continuidade subterrânea e ruptura, às vezes radical, marcam a relação complexa que une e, ao mesmo tempo, separa filosofia e religião.

Voltaremos, como disse, a todos esses grandes momentos da filosofia — e a muitos outros mais — nos próximos volumes de Aprender a Viver. Essas observações, evidentemente alusivas demais no presente estágio, me levam de maneira simples às duas últimas observações que, ao mesmo tempo, confirmam a abordagem introduzida no primeiro volume e anunciam o fio condutor da continuação.

A primeira é a de que se deve, para compreender a filosofia, evitar o pior dos erros: confundir, como hoje em dia se faz com tanta frequência, a moral e a espiritualidade. A moral, em todo e qualquer sentido, significa respeito pelo outro, por sua liberdade, por seu direito de buscar a felicidade como bem entender, desde que não prejudique ninguém. Para exprimir essa ideia de modo simples, para nós, hoje, a constituição da moral comum se confunde, grosso modo, com nossas declarações dos direitos do homem. Perfeitamente aplicadas, não haveria mais nesse planeta estupro, roubo, assassinatos nem injustiças sociais flagrantes. Seria uma revolução. E no entanto — nem por isso deixaríamos de envelhecer, de morrer, de perder alguém que nos é muito querido e nem de, às vezes, sermos infelizes no amor ou nos entediarmos na vida cotidiana, mergulhada na banalidade. Pois todas essas questões — a da morte, do amor e do tédio — não são questões morais. Você pode viver como um santo ou uma santa, respeitar maravilhosamente o próximo, aplicar os direitos do homem como ninguém — e envelhecer, morrer e sofrer. Mais uma vez, uma coisa nada tem a ver com a outra. É essa segunda esfera de questões que se remete ao que estou chamando “espiritualidade”, em oposição à moral — e como o primeiro volume de Aprender a Viver insiste nisso, tenciono que, em essência, a filosofia, ao contrário das religiões, seja uma espiritualidade laica. Em outras palavras, é absurdo reduzi-la a uma simples moral.

Mas igualmente errado é reduzi-la à estrita dimensão da teoria. Com demasiada frequência, nos liceus e universidades, ensinamos aos alunos a ideia de que a filosofia é reflexão, espírito crítico, argumentação. Sem dúvida é bom que se saiba refletir, criticar e argumentar para pensar direito, e isso, claramente, faz parte da filosofia. Mas da mesma forma concerne à sociologia, à biologia, à economia e até ao jornalismo. Como tive oportunidade de explicar em Aprender a Viver I, a reflexão crítica não é de modo algum a propriedade característica da filosofia. O que a mitologia lega de mais profundo à filosofia antiga, sua herdeira direta nesse ponto, é que a questão essencial é pura e simplesmente a de se saber como chegar a uma vida boa no coração desse cosmos, mesmo já secularizado e desdivinizado à maneira platônica e estoica. A filosofia nasce na Grécia porque o mito ali preparou o terreno, refletindo já de maneira extraordinariamente profunda a condição dos mortais no centro do universo. De forma que a interrogação fundamental dos filósofos já se encontrava inteiramente pré-formada quando ela emerge; trata-se de saber como vencer os medos ligados à finitude para alcançar a sabedoria, isto é, a serenidade, que é a condição única para a salvação, no sentido etimológico do termo, o que nos salva da angústia da morte inerente à nossa condição humana.
É nesse sentido que a análise da passagem da mitologia para a filosofia confirma em todos os pontos a ideia de a filosofia ser de fato uma “doutrina da salvação sem deus”. É uma tentativa de se salvar dos medos sem recorrer à fé nem a um ser supremo, mas exercendo a simples razão e tentando se virar por conta própria. É essa a verdadeira diferença entre filosofia e religião, e mesmo que os mitos gregos estejam repletos de deuses, esses têm a grandeza propriamente filosófica de afastar dos seus poderes a questão da salvação dos homens. Cabe a nós, mortais, e somente a nós, ajustá-la o quanto possível, sem dúvida imperfeitamente, mas por nós mesmos e por nosso raciocínio e não com a ajuda da fé ou dos Imortais. Como veremos juntos no próximo volume, é pura e simplesmente esse o desafio que vai aceitar a grande tradição da filosofia antiga. E um dos seus charmes mais impressionantes vem do fato de que, a partir dessa problemática singular, ela “inventa”, de maneira propriamente genial, uma pluralidade de respostas que nos oferecem, ainda hoje, iguais possibilidades para compreendermos nossas vidas.
 
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

publicado às 23:58

Qual animal anda com quatro patas pela manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite, e que, contrariando a regra geral, fica mais fraco à medida que tem mais patas?
 
“Decifra-me ou Devoro-te!” – Édipo diante da Esfinge

É um fato pouco duvidoso: os humanos nem sempre merecem as calamidades que lhes caem em cima e devastam suas vidas. As catástrofes naturais, os acidentes e as doenças mortais afetam homens bons e maus, indiferentemente. Não escolhem e, exceto se apelarmos para a superstição religiosa mais obscurantista, a desgraça não pode nem deve ser interpretada como um castigo divino. A partir disso, não se pode eludir a questão: num mundo em que se imagina que reinem a justiça e a harmonia, num universo no coração do qual os deuses estão onipresentes e se metem em tudo, como compreender tanta injustiça? Que sentido dar ao escândalo que é a infelicidade humana quando ela parece perfeitamente injusta? Mesmo tendo muitas outras conotações — outras “figurações harmônicas” —, é antes de tudo a essa questão que o mito de Édipo responde. Seu estudo se revela então um complemento indispensável para os capítulos precedentes. Ele particulariza a significação e sobretudo os limites dessa famosa harmonia cósmica que ocupa o centro da visão grega do mundo, pelo menos dessa que a teogonia e a mitologia vão legar à maior parte da filosofia antiga.
A vida de Édipo vira um pesadelo — apesar de seus erros, se é que os cometeu, não terem sido “de propósito”, como dizem as crianças. É um homem de inteligência excepcional, com uma coragem e senso de justiça fora do comum. Em vez de ganhar uma recompensa, não apenas a sua existência vai se tornar um verdadeiro inferno, mas, apesar de toda sua clarividência, ele se torna o objeto de acontecimentos e de forças cegas que o ultrapassam e das quais ele nunca vai compreender — pelo menos até que seu fim trágico ponha um termo a seus terríveis sofrimentos. Como é possível uma tal denegação da justiça? Como contemplar um destino tão trágico quanto injusto sem achar que o mundo, longe de ser um cosmos harmonioso, não passa de um tecido de loucuras organizadas por deuses maus que brincam com os homens como fazem as crianças que se divertem em arrancar asas de moscas e esmagar formigas? Para tentar dar uma resposta à questão — que você entende que deve ter se colocado num ou noutro momento, no âmbito da cosmologia grega — proponho começar olhando mais de perto as histórias de Édipo e de sua filha, Antígona. Num segundo momento, vamos tentar compreender seu sentido profundo, com a finalidade de completar a visão do mundo que os outros mitos nos permitiram construir progressivamente.
Indico entretanto, já de início e antes de voltarmos a isso mais profundamente, o princípio geral da solução: se o cosmos porventura se desregra, é impossível que a ordem se restabeleça sem causar consideráveis estragos colaterais. Por essa razão, por exemplo, quando o pai comete um crime atroz, pode ser necessário que as gerações seguintes paguem por ele, não por serem propriamente responsáveis ou culpadas, mas porque a ordem não pode voltar de uma só vez. É claro, não temos que prestar contas daquilo que nossos pais fizeram, mas não deixa de ser verdade que as suas ações nos comprometem e que o jeito de eles conduzirem as suas vidas pode ter repercussões consideráveis na nossa, sem nosso consentimento ou conhecimento. Se, por exemplo, eles pecaram gravemente por hybris, é possível que a ordem do mundo se ressinta e, caso o cosmos tenha sido abalado, o reparo não vem num piscar de olhos. Leva tempo, e esse tempo é exatamente aquele da infelicidade dos homens, mesmo inocentes. Por isso é necessário, para quem quiser realmente compreender o mito de Édipo sem se limitar aos clichês habituais da psicanálise ou da filosofia moderna, voltar para analisar a própria personagem. É no que antecede seu nascimento que se encontra a origem dos seus males.
Tal concepção do mundo pode parecer bem ultrapassada. Pode realmente ser chocante sob o ponto de vista dos critérios morais de hoje. De fato, adquirimos o hábito de considerar que um castigo nunca deve recair sobre alguém que nada fez de mal; exceto nos países totalitários, ninguém pensa em punir filhos pelo comportamento dos pais. No entanto, veremos que essa concepção não é assim tão absurda, sendo possível dar um número infinito de exemplos que ilustram, ainda hoje, o fato de que um mundo desregulado, no plano social assim como no natural, aniquila seres que nada têm a se censurar em particular. Todos sabem, aliás, como se diz na língua familiar dos provérbios, que lorsque les parents boivent, les enfants trinquent...(“Quando os pais bebem, os filhos brindam” (bebem ainda mais, significando que pagam as consequências))
Mas não vamos nos antecipar e vejamos primeiramente em que consiste, segundo a lenda, a história do infeliz Édipo e de sua filha, Antígona — sendo os dois mitos inseparáveis um do outro.

“Édipo e Antígona exilados em Tebas”, por Eugene-Ernest Hillemacher (1843)
 
 Édipo e Antígona: o arquétipo do destino trágico, ou como a desgraça pode se abater cegamente sobre os mortais

Como sempre na mitologia, existem várias versões para essa narrativa, e cada episódio da vida de Édipo gera uma quantidade de variantes. Dispomos entretanto de uma fonte arcaica principal que são as tragédias gregas, sobretudo as de Sófocles: Antígona, Édipo rei e Édipo em Colono (nome da cidade em que ele se refugia após a série de catástrofes que vou contar). É claro, em determinados momentos o melhor é ter em mente também outras versões que podem às vezes trazer esclarecimentos interessantes,(No que concerne ao período arcaico — até o século V a.C. —, encontram-se algumas preciosas menções ao mito de Édipo em Homero, Hesíodo e Píndaro. As Fenícias, de Eurípides, sob determinados ângulos fornece um ponto de vista bem diferente do de Sófocles. Mais tardiamente, devemos nos remeter, é claro, a nossos dois mitógrafos “habituais”, Apolodoro e Higino, assim como a Pausânias e a Diodoro de Sicília) mas é quase sempre a Sófocles que a literatura se remete para contar e interpretar esse mito que se situa entre os mais célebres. No essencial, então, é a sua trama que vou seguir.
Antes, algumas palavras sobre o período que precede o nascimento do pequeno Édipo. Ele é um descendente direto do famoso Cadmos, rei de Tebas que várias vezes já mencionei — irmão de Europa, que, por sua vez, é mãe de Minos, rei de Creta, de quem Zeus era o pai. Depois de se casar com Harmonia, filha de Ares e Afrodite, Cadmos fundou a cidade em que a parte essencial do drama se desenvolve. O pai de Édipo se chama Laio e sua mãe, Jocasta. No momento em que nossa história começa, eles acabam de ter conhecimento de um terrível oráculo, dizendo que, se por acaso tiverem um filho, ele mataria o pai e, segundo alguns, ainda por cima causaria a destruição de Tebas. Como era frequente na época nesse tipo de situação, os pais tomam a triste decisão de abandonar a criança — “expô-la”, como se dizia então, porque eram em geral amarradas numa árvore e expostas ao apetite de animais selvagens, mas também, eventualmente, à clemência dos deuses. Laio e Jocasta entregam o bebê a um dos seus empregados, um pastor, para que ele o abandone em algum lugar. O homem trata o infeliz como se fosse uma caça: fura-lhe os tornozelos para passar uma corda e transportá-lo mais facilmente nas costas, para em seguida pendurá-lo numa árvore e deixá-lo “exposto”. É de onde vem o nome de Édipo, que em grego significa simplesmente “pés inchados” (oidos, que por exemplo dá origem à palavra “edema” e quer dizer “inflado”, com pous significando “pé”). No caminho, o empregado de Laio cruza “por acaso” — mas o espectador da tragédia de Sófocles sabe que esse suposto acaso é apenas outro nome que se dá à vontade dos deuses — com os homens do rei de uma outra cidade, Corinto. Esse rei, chamado Políbio, não consegue gerar filhos e, justamente, adoraria ter um. Como o bebê é bem bonitinho, os homens de Políbio se propõem a ficar com ele. Por que não? Afinal, se Laio preferiu expô-lo em vez de matá-lo, foi por querer lhe dar uma chance. Pensam levá-lo a Políbio, que certamente há de querer adotá-lo. É como se passam as coisas e o bebê é salvo in extremis.
Édipo cresce na cidade de Corinto, longe de Tebas, onde nasceu, na corte do rei e da rainha que ele evidentemente acredita serem seus pais. Tudo se passa bem para ele. Um dia, porém, numa brincadeira de criança, ele briga com um colega. Algo totalmente banal, que acontece com todo menino. Só que o pequeno rival diz uma palavra que vai ressoar por muito tempo em seu ouvido, se afigurando terrível: ele o chama “bastardo”, insinuando que seus pais não são seus pais “de verdade”, que ele não passa de uma criança abandonada para a qual sempre se mentiu. Ele volta correndo para casa e interroga Políbio, o pai “oficial”, e este, pego de surpresa, nega de modo um tanto frouxo, deixando em Édipo uma sensação difusa, uma vaga desconfiança ou dúvida. Ele decide tirar isso a limpo e, com essa finalidade, vai a Delfos para também consultar a célebre pítia de Apolo, como fizeram seus pais “biológicos”, Laio e Jocasta. Perguntalhe quem ele é, de onde vem, quem são seus pais. Seguindo sua maneira habitual, a pítia responde obliquamente, não com indicações em torno do passado, mas, pelo contrário, com uma previsão do futuro. E a previsão é terrível: de acordo com o oráculo, Édipo haveria de matar o próprio pai e se casar com a mãe. Foi de onde, é claro, Freud tirou o nome do famoso “complexo de Édipo”, aquela atitude infantil que, segundo ele, invariavelmente leva os meninos a inconscientemente desejar a mãe e a rejeitar com violência o pai, em determinado momento da vida. Porém, como você vai ver mais adiante, mesmo que esta dimensão esteja presente no mito grego, está infinitamente distante de poder nos dar a sua chave. De um jeito ou de outro, claro está que, ao ouvir o oráculo, Édipo se sente arrasado. Para evitar que o vaticínio se cumpra, ele resolve deixar Corinto para sempre. É a cidade, continua ele a achar, apesar das dúvidas, em que moram seus pais, Políbio e Periboea (é o nome da rainha). Deixando o local, não correria o risco de matar o pai nem de dormir com a mãe. Só que o rei Políbio não é seu pai, nem Periboea é sua mãe, pelo menos no sentido biológico do termo, e se afastando de Corinto o infeliz Édipo vai de forma inexorável, de maneira totalmente cega, fazer justo o contrário do que quer — ele se aproxima ainda mais do cumprimento da previsão oracular. Ou seja, tentando evitar, ele inconscientemente prepara a sua realização — contradição em que se baseia um dos melhores atrativos da tragédia de Sófocles. É claro, nesse contexto em que tudo já foi previsto pelos deuses, como comprovam os dois oráculos que não passam de tradução da vontade divina, Édipo se dirige a Tebas, a cidade de seus pais originais, Laio e Jocasta. Acontece que naquela época, vindo “apimentar” o caso, a cidade de Tebas estava sendo vitimada por uma terrível epidemia a dizimar sua população. Mais uma vez, o espectador é levado a supor, mesmo sem ser explicitamente dito, tratar-se de um flagelo enviado pelos deuses. Ele deve se perguntar por qual razão. Mas continuemos: dentro desse contexto catastrófico, Laio também decide, assim como Édipo, ir a Delfos, para novamente consultar o oráculo quanto ao que deve ser feito para salvar os habitantes da cidade.
Nesse momento, estamos no cerne do nó trágico que certamente comovia todo o público. Imagine o pai, convencido de que o filho morreu, e o filho, convencido de que seu pai está em Corinto, indo, sem saber, um ao encontro do outro! Os destinos se cruzam, nos sentidos próprio e figurado: os coches de Laio e de Édipo se encontram frente a frente, no cruzamento de três estradas tão estreitas que ambos são obrigados a parar seus veículos e equipagem. Um dos dois precisa dar marcha a ré e se colocar fora do caminho, para que o outro passe, mas os dois são orgulhosos, cada um achando estar em seu direito, ou mesmo prioridade: o rei Laio por ser rei de Tebas, e Édipo por ser príncipe de Corinto. O conflito se agrava. Os criados se insultam e, pelo relato, o próprio rei Laio dá uma bengalada em Édipo. Eles partem para a briga e, tomado pela raiva, Édipo mata seu pai, assim como o cocheiro e os guardas que o acompanham. Apenas um dos empregados escapa, fugindo a correr, mas que contudo, pois isso vai ser importante mais tarde, testemunhou toda a cena. E cumpre-se assim a primeira parte do oráculo! Sem que Édipo — nem Laio, aliás — tenha já se dado inteiramente conta do que acaba de acontecer, ele matou o próprio pai...
Na total ignorância de sua identidade — sua e também a do adversário —, Édipo continua o caminho na direção de Tebas. É claro, o violento episódio que acaba de acontecer é desagradável, mas os dois lados estavam errados, e Édipo se sente desculpado pela legítima defesa. Afinal, não partiu dele a agressão. Ele acaba então esquecendo o caso e chegando à sua cidade natal, após longa e sinuosa viagem. A epidemia aparentemente acabara, mas outra calamidade, com origem certamente também divina, se abate sobre a cidade, cujo novo rei, no trono desde a morte de Laio, é Creonte, irmão de Jocasta e consequentemente tio de Édipo. Essa nova calamidade tem um nome: Esfinge, a Esfinge, pois trata-se de uma mulher que tem um corpo de leão e asas de abutre. E ela literalmente aterroriza a cidade, propondo um enigma para todos os seus habitantes jovens. Como eles não conseguem decifrar, ela os devora, de forma que a cidade começa a ficar bastante deserta. Cito uma das versões — há outras formulações, com mais ou menos o mesmo resultado — do enigma em questão:
 Qual animal anda com quatro patas pela manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite, e que, contrariando a regra geral, fica mais fraco à medida que tem mais patas?
Édipo ouve falar da Esfinge e não hesita: apresenta-se a ela e pede que lhe proponha a fatídica adivinhação. Assim que o problema é enunciado, ele não tem a menor dificuldade para responder: trata-se evidentemente do homem, que, na manhã da sua vida, ainda bebê, engatinha, usa as duas pernas quando é adulto e, enfim, estando mais fraco, no crepúsculo da existência, usa três — uma vez que precisa se apoiar numa bengala. De acordo com uma antiga profecia, a Esfinge morreria se algum ser humano chegasse a resolver algum dos seus enigmas. Diante de Édipo, ela se joga do alto dos muros da cidade e se espatifa no chão. A comunidade fica livre do monstro. Como se pode imaginar, Édipo é recebido como verdadeiro herói. O povo inteiro o festeja e oferece suntuosos presentes. A multidão aplaude quando ele passa, e como a rainha Jocasta está livre — é uma viúva bem jovem, pois Laio acaba de ser morto —, Creonte, agradecido, oferece a Édipo a irmã em casamento e, junto, o trono de Tebas. Passa-lhe o lugar que ele, na verdade, ocupava apenas interinamente.
Cumpre-se então a segunda parte do oráculo. Édipo, que continua na total ignorância daquilo que guia a sua vida, tendo já matado o pai, casa-se com a mãe. Tem com ela quatro filhos: dois meninos que um dia irão disputar até a morte sua sucessão no poder, Etéocles e Polinice, e duas meninas, Ismênia e Antígona. Por cerca de vinte anos, no entanto, tudo se passa bem. Édipo administra com sabedoria a cidade de Tebas, ao lado da esposa e mãe Jocasta, criando os filhos com cuidado.
Infelizmente, quando esses últimos se aproximam da idade adulta, uma terrível epidemia de peste volta a fazer estragos na cidade. Nada parece remediá-la. Para ainda piorar tudo, se isso for possível, ocorrem muitos acidentes incompreensíveis, como mulheres dando à luz crianças natimortas ou monstruosas, e multiplicam-se mortes súbitas e inexplicáveis — de forma que Édipo envia de novo um mensageiro para consultar o oráculo de Delfos. Este último responde, de forma excepcionalmente clara, que o flagelo só vai deixar de devastar a cidade quando se tiver capturado e castigado quem matou Laio. Semelhante crime, de fato, não pode permanecer impunemente em aberto — o que mais uma vez prova, diga-se de passagem, que os deuses seguem todo o caso, desde o início e em detalhe, como indica de maneira indubitável o fato de todos os reflexos serem anunciados pela boca dos representantes diretos de Apolo.
Édipo continua sem ter a menor ideia de ser ele o culpado e pretende de fato seguir o oráculo. Organiza a investigação e manda chamar, a conselho de Creonte, o adivinho mais célebre do reino, o famoso Tirésias, que já encontramos várias vezes em outros mitos. Tirésias naturalmente tem conhecimento de toda a verdade — ou ele não seria adivinho. Sente-se porém pouco à vontade, para não dizer horrorizado, com os segredos que descobre e se mostra muitíssimo reticente em divulgá-los publicamente, na presença de Édipo, que continua na mais total ignorância. Este último então se zanga, acusa Tirésias de ter montado tudo aquilo com a cumplicidade de Creonte, ou seja, cria um caso tamanho que o adivinho acaba cedendo. Conta a história inteira: muito bem, se quer realmente saber, foi ele, Édipo, quem matou Laio e este, segundo o oráculo, era pura e simplesmente o seu pai, de forma que, no mesmo embalo, se podemos assim dizer, veio a se casar com a própria mãe! Jocasta, prostrada, nega, tenta persuadir-se e também a Édipo de que o adivinho delira. Para convencê-lo, oferece detalhes sobre a morte do primeiro marido, sobre a encruzilhada em que se deu o drama: não foi um homem sozinho que o matou, mas um grupo de bandidos, não podendo então se tratar dele propriamente! Para nada esconder, ela revela que realmente teve um filho no passado, mas que foi “exposto”. Édipo não se sente totalmente tranquilizado: a descrição da tal encruzilhada traz recordações inquietantes, mas tudo permanece ainda bastante confuso.
Nesse ínterim, um mensageiro chega de Corinto: anuncia a Jocasta e a Édipo a morte daquele que ele acredita ainda ser seu pai, Políbio — o que entristece Édipo, mas ao mesmo tempo o alivia: pelo menos ele não matou o pai! Só que o mensageiro não deixa de acrescentar uma funesta precisão: Édipo não precisa ficar tão aflito, diz ele, pois de qualquer maneira Políbio não era realmente seu pai. Édipo foi uma criança exposta, encontrada por acaso e adotada pelos soberanos de Corinto. E zás! O quebra-cabeça inteiro se monta de uma vez só. Para limpar a consciência, Édipo convoca o pastor que havia exposto o filho de Laio e Jocasta. Por coincidência, o pastor é o mesmo servidor que acompanhava Laio no momento em que foi morto. Desde então, ele buscara refúgio na montanha e também havia declarado, para que o deixassem em paz, que o rei de Tebas tinha sido morto por bandidos — o que levara Jocasta a achar que Édipo não podia ser o culpado. Mas o ex-pastor e servidor confessa toda a mentira: Tirésias e o mensageiro de Corinto dizem a verdade; a criança exposta é mesmo Édipo e foi uma única pessoa e não um bando de bandidos que matou Laio. Cada um fez seus cálculos e pôde reconstituir toda a história: finalmente se reconhece que se cumprira o terrível oráculo de Apolo. É em plena tragédia que nos encontramos. E não espere que as coisas melhorem. Pelo contrário, elas só pioram. Jocasta se suicida assim que descobre a conclusão da história. Édipo, vendo-a enforcada no quarto, pega o broche que prendia o vestido da mulher e fura irremediavelmente os olhos. Faz isso com raiva e, como sempre, o castigo está diretamente ligado a seu “crime” — ponho a palavra entre aspas porque ele, na verdade, nada quis de tudo aquilo que aconteceu. Mas seu drama, justamente, é nada ter visto. Apesar da sua grande inteligência, manteve-se do início ao fim cego. E como pecou por completa falta de visão, de clarividência, é igualmente como deve ser punido. À sua cegueira mental passa a se equiparar a cegueira física.
Seu fim de vida é igualmente triste. Se continuarmos seguindo a versão de Sófocles — há várias outras, mas esta se tornou canônica —, Édipo imediatamente deixa o trono, que de novo é assumido de forma interina por Creonte. Refugia-se em Colono, onde ele, rei durante vinte anos por todos homenageado como o salvador de Tebas, passa a viver miseravelmente como vagabundo. Sua filha, Antígona, boa e com profundo senso de família, o acompanha, cheia de cuidados. Depois ele se dirige a Atenas, onde reina um excelente rei, o magnânimo Teseu. Na estrada, perto de um pequeno bosque, ele reconhece o lugar em que deve morrer: de fato, o bosque pertence às Erínias, as terríveis divindades nascidas do sangue de Urano, espalhado sobre Gaia, a terra, depois da sua castração cometida pelo filho, Cronos. As Erínias, é preciso que se lembre, por essa sua origem receberam a missão prioritária de punir os crimes cometidos no seio das famílias. Desse ponto de vista, o pobre Édipo, apesar de não ter procurado nem desejado, é um campeão em todas as categorias. É normal, assim, que seja nas mãos dessas famosas “benfeitoras” que ele termine sua infeliz existência. Mas o bosque é sagrado. Servidores do rei de Atenas acreditam estar agindo corretamente ao expulsar Édipo daquele lugar maldito. Ele ordena então que busquem Teseu, e o rei, sempre bem-intencionado, vem imediatamente. Com real generosidade, se apieda de Édipo e o acompanha na morte: a terra se abre, as Erínias o levam, mas ninguém nunca saberá o local exato do seu desaparecimento. Teseu cumpre as honras fúnebres de Édipo, em sinal de amizade e de perdão por seus crimes involuntários. É este, grosso modo, o roteiro básico, a trama fundamental do mito. É preciso ainda acrescentar algumas palavras sobre as últimas consequências relacionadas aos filhos do infeliz herói. Podemos encontrá-las em parte em Antígona, de Sófocles, mas também na única peça de Ésquilo que chegou até nós e que trata desse assunto (há muitas outras, infelizmente perdidas): Os Sete contra Tebas . Etéocles e Polinice, os dois filhos de Édipo, se comportaram mal com o pai ao saber a verdade da sua história. Humilharam-no e maltrataram, a ponto de este último acabar invocando para eles a ira dos deuses. Com sucesso; os dois irmãos se tornam os piores inimigos do mundo. Para tentar resolver a disputa referente ao poder, herdado com a morte de Édipo, eles decidem se revezar anualmente no governo do reino: Etéocles ocuparia o trono de Tebas no primeiro ano, Polinice no segundo, Etéocles de novo no terceiro e assim em diante. Só que, uma vez no poder, Etéocles recusa entregá-lo ao irmão. Este último organiza um exército para retomar Tebas e garantir o acordo feito. Esse exército é dirigido por sete chefes, que correspondem às sete portas da cidade que Polinice quer sitiar — donde o título da peça de Ésquilo: Os Sete contra Tebas.
Para resumir o final: Tebas, bem protegida por suas muralhas, resiste bravamente aos assaltos dos sete e esse exército perde lamentavelmente a batalha. Os dois irmãos inimigos se enfrentam diante da sétima porta e, num combate singular, um mata o outro. Creonte, que com isso se mantém no poder, decreta que se enterre com honrarias quem defendeu a cidade, no caso Etéocles, enquanto Polinice, que a atacou, ficará sem sepultura, o que se considera uma suprema humilhação. Ele deve ser abandonado aos cães e aos pássaros. Se porventura alguém for contra o decreto, estará automaticamente condenado à morte!
É nesse ponto que começa a tragédia de Antígona. Apesar de muito breve, muito se escreveu sobre ela, numa infinidade de comentários. A intriga no entanto é bastante simples: Antígona declara — se seguirmos a peça de Ésquilo — que deve assumir seu lugar na sua comunidade de origem, a família, quaisquer que tenham sido os infortúnios sofridos. A seu ver, a esfera privada deve se sobrepor à lei da cidade. Ela contraria então as ordens do tio, Creonte, e enterra o irmão, Polinice. Evidentemente, é presa e condenada à morte. A peça de Ésquilo para aí. Se continuarmos a história a partir de Sófocles, descobrimos que Creonte, de início, se mantém inflexível. Depois, por pressão dos seus próximos, ele volta atrás e pede que soltem Antígona, que acabava de ser jogada na prisão, aguardando a execução da sentença de morte. Tarde demais! No momento em que vêm libertá-la, descobre-se que ela se enforcou. Para acrescentar alegria em tudo isso, a mulher de Creonte se suicida também, e deixa o velho rei meditando sozinho as consequências das más decisões. Mais tarde, os filhos dos sete, que serão chamados “Epígonos”, vão querer vingar seus pais. Retomam as armas, e a cidade de Tebas é destruída.
Assim termina o sinistro ciclo das lendas tebanas. Do destino de Édipo e da revolta de Antígona foram dadas dezenas de interpretações. O mito fascinou durante séculos e ainda hoje não se passa um ano sem que se publiquem novas obras eruditas a seu respeito. Em tais condições, parece muita presunção arriscar o menor comentário. É impossível, no entanto, não prosseguir. Com a maior prudência, proponho, em vez de acrescentar mais uma leitura moderna, voltar à maneira como os próprios gregos deviam considerar o mito — pelo menos se acreditarmos no que diz Ésquilo, que faz discreta, mas clara, alusão às narrativas a respeito do nascimento de Tebas. No fundo, o que dizem essas diferentes histórias? Primeiro e com toda evidência, que Édipo não é “culpado”, no sentido em que nossa concepção moderna de justiça entende. Édipo, fica claro, nada soube nem desejou nada daquilo que aconteceu. Também fica evidenciado, visto o lugar crucial ocupado pelos oráculos e, com isso, pelos deuses, que ele é manipulado por um destino superior que lhe escapa por todos os lados. Acrescentemos, pois seria um erro esquecer os “pequenos” nesse caso, que os tebanos também não são, de perto nem de longe, responsáveis — em todo caso, não o povo — pelas calamidades e outros flagelos que invariavelmente se abatem sobre eles, até a destruição final da cidade, pelos Epígonos.
A verdade é que uma maldição antiga pesa já de início sobre toda a linhagem dos reis de Tebas, e essa maldição, ligada a uma desordem inicial, só pode terminar após um reordenamento da família e da cidade. Esta última, no fim, mais ou menos como nos mitos de Deucalião ou de Noé, passa pela destruição total dos protagonistas. Os infelizes habitantes nada podem contra o que lhes ocorre, e isso sim é trágico. São envolvidos por um destino que lhes escapa e esmaga, façam eles o que for, pois a maldição se remete a um tempo longínquo. Está ligada, se começarmos pela geração imediatamente anterior à de Édipo, ao crime cometido por seu pai, Laio, contra o filho de Pélops. É preciso saber que Pélops havia anteriormente hospedado e criado Laio como se fosse um membro da sua família. Por motivos sobre os quais não vou entrar em detalhes, o menino passa toda a sua infância na casa dele. Um dia, porém, Laio se apaixona pelo jovem Crísipo, filho de Pélops, e tenta violentá-lo. O rapaz, horrorizado, se suicida, e Pélops, louco de raiva e de dor, lança uma terrível invocação aos deuses: se um dia Laio tiver um filho, que este o mate — sempre a mesma proporção entre o erro e a punição — e que a cidade de Tebas seja destruída. Segundo alguns mitógrafos, Hera e Apolo nunca perdoaram os tebanos de terem posto Laio à frente da cidade, sem em momento algum terem pensado em punir seu crime. Todo o restante se engrena de maneira implacável. Apolo, através do seu oráculo, previne os esposos Laio e Jocasta sobre a catástrofe que cairá sobre eles, caso tenham um filho. Laio, aliás, não gosta muito de mulheres, preferindo de longe os rapazes. De acordo com a maioria das versões do mito, foi por ter bebido e já em estado avançado de embriaguez que ele faz amor e gera o pequeno Édipo.
Veja o que diz o Coro, com relação a isso, na tragédia de Ésquilo:
De fato, penso no antigo erro, logo punido, mas com efeitos que duram até a terceira geração, no desvio de Laio, surdo à voz de Apolo que, três vezes, em seu trono fatídico de Pito, umbigo do mundo, declarou que ele devia morrer sem filhos, se quisesse salvar sua cidade. Cedendo porém ao insensato desejo (Laio está sob o domínio do álcool ao fazer amor com Jocasta), ele engendra sua própria morte, Édipo, o parricida que, no rego sagrado da mãe que o nutriu, ousou plantar uma raiz sangrenta. O delírio havia unido os esposos ensandecidos (ainda o álcool explicando o esquecimento da recomendação de Apolo). Um mar de males lança sobre nós as suas vagas. Cada uma que rebenta ergue outra, três vezes mais forte, a estrondear fervilhando contra a popa da nossa cidade [...] Pois aqui se cumpre o terrível acerto de contas de antigas imprecações.
Um pouco mais adiante, descobre-se, dentro da mesma estrita lógica, que Polinice, “o augusto sétimo chefe”, é morto pelo irmão, ainda por efeito direto da vontade de Apolo. O deus reservou para si o direito de ocupar ele próprio a sétima porta, aquela em que se dá o combate mortal entre os dois irmãos, para que se cumpra, na raça de Édipo, o castigo do antigo erro de Laio. As coisas não podem ser ditas de maneira mais clara e é inútil procurar mais além, em quaisquer considerações psicológicas. A peça em seguida volta a insistir nisso várias vezes: todos os descendentes de Laio são vítimas de um destino que lhes foge, do qual não são responsáveis, que responde à vontade dos deuses, neste caso representados por Apolo. O mesmo vale para Antígona, que explica de maneira direta sua vontade de desobedecer às ordens de Creonte e enfrentar a morte como uma escolha, com certeza livre, mas no entanto decidida dentro de um contexto em que nada é livre, em que tudo é imposto, predeterminado pelo destino cósmico e pelos deuses. Ela diz:
Forçosamente estamos ligados à comunidade no seio da qual nascemos, filhos de uma mãe miserável e de um pai infortunado. Assim minha alma voluntariamente aceita sua involuntária infelicidade e, viva, demonstra ao morto (Polinice) seus fraternais sentimentos. Seus restos não serão repasto de lobos de barriga vazia; que ninguém imagine isso, pois eu posso, mulher que sou, dar-lhe um túmulo e enterrá-lo.
Belo paradoxo, que resume perfeitamente o trágico da história: Antígona age livremente, por sua vontade. Toma por si mesmo sua decisão, com plena consciência do perigo a que se expõe, mas o que faz se situa dentro de um contexto em que tudo também lhe foge; na verdade, ela sente não poder agir de outra forma. Pertence à sua família, muito mais do que a família lhe pertence. Com isso, está ligada à maldição que desde as origens pesa sobre ela, e nada pode lhe fazer mudar o rumo.
Do mesmo modo que a psicanálise, em suas interpretações do mito, realçou o inconsciente, os feministas — e também os antifeministas, pois o texto de Ésquilo pode ser lido nos dois sentidos — muito especularam sobre o fato de Antígona ser mulher, encarnando com isso, por assim dizer “naturalmente”, a lei do coração, da esfera privada contra aquela, seca e racional dos homens e da cidade, dos machos e do coletivo etc. Uma vez mais, não é impossível que essas conotações de hoje estejam de certa maneira presentes no mito. É inclusive provável. Os gregos não eram mais bobos do que nós e tinham suas ideias próprias sobre homens e mulheres, sobre o inconsciente, sobre a vida das paixões e outros temas caros à psicologia contemporânea. Mas certamente não é onde se encontra a chave do mito, e tais preocupações nada têm de essencial senão para os nossos olhos modernos, “deformados” por uma visão até mesmo, quem sabe, legítima, mas com certeza diferente da que tinham os gregos.
Não há por que não acreditar em Ésquilo. Não se trata nessa tragédia de psicologia, e sim de cosmologia e de destino cego — muito diferente do inconsciente pessoal — que restabelece a ordem quando o sistema é, por um ou por outro motivo, revirado. E desde que os homens existem, desde que Pandora e Epimeteu os engendraram, as desordens abundam. São inevitáveis, pois constituem, como agora já sabemos, o estímulo mesmo da vida, da história como tal. Se não existissem as gerações, o cosmos estaria eternamente paralisado num completo tédio. Mas a existência das gerações representa também o constante risco de trágicas derrapagens. Por isso, na verdade, seria preciso percorrer toda a história de Tebas, desde sua fundação por Cadmos, para compreender em suas raízes a maldição que se abate sobre Édipo. Até aqui me fixei em Laio e no crime por ele cometido contra o filho de Pélops. Mas o fruto estava bichado desde as origens.
De início, Cadmos se casou com Harmonia, que, apesar do nome, vinha a ser fruto de uma certa desordem, sendo filha de Ares e Afrodite, de uma união capenga e proibida — Afrodite é oficialmente casada com Hefesto — entre a guerra e o amor. Mas há mais, muito mais. Você se lembra de que, para fundar sua cidade, Cadmos teve que recorrer aos préstimos dos “semeados”, aqueles famosos spartoi nascidos dos dentes do dragão que vigiava a fonte de Ares e que Cadmos matou, para ter a água necessária ao sacrifício da vaca que lhe indicara o lugar onde fundar sua cidade. Esses famosos “semeados”, no entanto, os cinco que restaram, são homens de guerra, forças arcaicas, próximas do Caos original, da terra, dos Titãs, de Tífon. Temos aí um tema cosmológico maior, sem o qual é impossível compreender qualquer coisa em lendas como a de Édipo e todas mais que cercam a cidade de Tebas. Aliás, um dos “semeados” que participam da fundação da linhagem de Édipo se chama Equíon, nome que infalivelmente lembra o monstro Equidna, a famosa companheira semimulher, semivíbora de Tífon. O destino dos descendentes de Cadmos será frequentemente terrível, sempre agitado, à imagem do de Penteu, o neto que o sucede no trono de Tebas e que vai terminar dilacerado pelas Bacantes de Dioniso.
Sem entrar nos detalhes dessa longa história, é claro que o destino a pesar sobre Édipo e Antígona vem de muito longe, e eles nada rigorosamente podem fazer contra; nenhum dos dois pode, e nem podem os jovens devorados pela Esfinge ou as populações dizimadas pela peste. Assim são as coisas. As calamidades foram afastadas do Olimpo pelos deuses, pelo menos desde a vitória sobre os Titãs, desde que Zeus efetuou a partilha original, dividindo o mundo segundo a justiça, para enfim torná-lo um cosmos harmonioso e bom. Foram afastadas lá em cima, no Olimpo, mas não embaixo! Em nossa terra é preciso que haja alguma desordem, pois existem o tempo e a vida; isso é inevitável. E uma prova disso é que se quisermos a qualquer preço impedir que haja na terra um pouco de caos e consequentemente de injustiça, o único meio seria suprimir a história e as gerações, ou seja, os mortais humanos. Por esse motivo, desde a repartição original, todas as infelicidades nos foram reservadas. E não pode ser de outra forma. Na verdade, alguns dizem inclusive querer ainda mais dificuldades, por conta própria. E, como se diz familiarmente, é bem feito para eles! É o caso de todos que pecam por hybris. Mas há outros, sendo de longe o caso da maioria, que não têm responsabilidade alguma nisso tudo. Há males que se transmitem às vezes de geração em geração como uma doença, um fardo genético — exceto que, no caso, é um fardo ligado a uma desordem cósmica que, eventualmente, foi causada por algum ancestral, mas que sempre relembra a ameaça representada pelo caos inicial e que nunca vai desaparecer completamente. Ela é consubstancial à vida e à história dos homens. Às vezes pode acontecer, mesmo parecendo injusto e cruel, que os deuses precisem fazer uma reparação no sistema, repor a ordem começando pela aniquilação de toda a linhagem dos herdeiros daquela ruptura inicial do equilíbrio. Isso certamente explicava, pelo menos para os espectadores da tragédia, como e por que os males mais atrozes se abatem como chuva sobre a humanidade. Eu disse, no início deste capítulo, que assim como as gotas não escolhem a quem molhar, caindo indiferentemente sobre bons e maus, nem todos os infortúnios humanos são merecidos — longe disso. É simplesmente como as coisas se passam e nada podemos fazer, pois em sua essência tais aflições pertencem à nossa condição: a de mortais imersos na vida e na história que comportam incessantemente a possibilidade do mal. E nós devemos aprender a conviver com isso.
É uma sinistra lição de vida, talvez você ache, e entendo que essa espécie de capitulação diante do presente, do mundo tal como ele se apresenta, possa parecer desesperadora. Mas na realidade deve-se ver que, se aprofundarmos um pouco as coisas sem nos limitarmos à nossa visão de Modernos, o ponto de vista da tragédia tal como explicitado em seu estado quimicamente puro pelo mito de Édipo, de maneira quase caricatural, está repleto de verdade e de sabedoria. Vou tentar dizer por que em poucas palavras, tentar também explicar por quais razões temos, a meu ver, todo interesse de ainda hoje meditar sobre essa lição.
Para começar, por ela simplesmente ser baseada em fatos. Sim, a existência humana é às vezes, para não dizer sempre, trágica, no sentido de o infortúnio acontecer sem que possamos lhe dar um sentido. É um erro querer a todo custo esquecer disso. Hoje em dia, assim que o mal injustamente se abate sobre nós, de imediato cedemos à mania moderna que consiste em procurar “os responsáveis”. Um rio transborda e afoga pessoas que acampavam? É claro, a culpa é do prefeito, do governador, do ministro, que são no mínimo incompetentes, para não dizer criminosos! Um avião cai? Vamos rápido abrir um processo para identificar os culpados e levá-los ao pelourinho. Seja um telhado de escola que afunda, uma tempestade que arranca árvores, um túnel que se incendeia, queremos a todo custo uma explicação humana, um erro moral para urgentemente estigmatizá-la. Vamos falar com toda franqueza: nessa atitude é que melhor se enxerga a loucura dos Modernos. Você pode se perguntar por que estou falando de “Modernos” com letra maiúscula, como se, por assim dizer, se tratasse de uma categoria à parte, de uma outra espécie de humanidade, diferente da dos “Antigos”. É um exagero, claro, mas é para que você compreenda um traço característico do tempo presente que, nesse ponto preciso, se opõe totalmente ao mundo antigo: o humanismo de que eu gosto e que defendo em outras situações se tornou tão onipresente e estamos, nós seres humanos, tão convencidos de sermos os senhores absolutos do mundo, os donos de todos os poderes, que insensivelmente, sem sequer pensar, achamos que temos controle sobre tudo, inclusive as forças naturais, as catástrofes e os acidentes! Isso, no entanto, é puro delírio, no sentido próprio do termo: uma denegação da realidade. Pois a verdade é bem diferente. Apesar de todos os poderes, de fato gigantescos, que a ciência nos dá, mesmo assim o destino nos escapa e sempre há de nos escapar, por todos os lados! Não somente o acaso faz parte da vida, não somente a contingência é inerente à história, mas, além disso, estamos ligados a contextos tão variados, tão complexos e ramificados, que pretender tudo controlar do que pode acontecer com os homens é pura e simplesmente grotesco!
Para pegar um exemplo extremo mas evidente, a última guerra mundial causou 53 milhões de mortes. Pode-se, de maneira séria, achar que, entre toda essa gente, havia apenas “culpados”; responsáveis; pessoas do bem ou do mal? A verdade, claro, é que a adversidade chega, como no mito de Édipo, sem que nada se tenha feito e bate tremendamente forte, inclusive no campo social e político — o que se poderia imaginar mais sob controle do que o da natureza. Dependendo do lugar em que nascemos, as chances não são as mesmas e as diferenças são às vezes abissais — algo que ninguém pode negar. Como não ficar então tentado a encontrar uma explicação, como fizeram os gregos com esse mito? A ideia de que um mundo desregrado produz desgraças injustas é simplesmente verdadeira e, em pelo menos boa parte, não vejo por que contestá-la. Porém existe no fundo uma sabedoria — é verdade que não cristã e por isso inicialmente mais estranha a nossos olhos pré-formados por séculos de cristianismo, mesmo que isso não seja do nosso conhecimento ou consentimento — que merece reflexão. Um cristão, acreditando que tudo se faz por vontade de Deus, ou pelo menos sob sua vigilância, tem uma propensão quase inevitável a procurar um sentido na loucura dos homens, uma explicação que de certa forma os torne responsáveis. Sendo Deus todo-poderoso e bom, a miséria do mundo não se explica de outra maneira. Deve-se supor que ela vem da maldade dos homens, da liberdade mal-utilizada, de modo que eles são coletivamente responsáveis pelas catástrofes que os abalam. Beiramos com isso os limites da superstição e, para não cair nessa armadilha, os cristãos precisam lançar mão de astúcias dialéticas — e elas são sabidamente inúmeras. E não vou querer, eu, culpá-los disso.
Os gregos pensam de outra forma. Trata-se para eles de aceitar o absurdo do mundo do jeito que ele é e tentar amá-lo assim. Uma sabedoria no presente, de certa maneira, e que nos encoraja a lidar com isso. Não uma resignação, mas uma incitação a desenvolver nossa capacidade de acolhida, de abertura para o mundo, aproveitando a vida como tal, enquanto vai bem, e que pressupõe uma certa relação com o tempo que perdemos em grande medida. Uma vez mais: sou um Moderno, um “humanista”, como se diz, inclusive passei a vida elaborando o que chamo um “humanismo pósmetafísico” ou pós-nietzschiano. Mesmo assim, não podemos nos manter insensíveis à grandeza do mundo antigo nem, menos ainda, ao fato de os seus pontos fortes coincidirem muitas vezes com os nossos pontos fracos. Ali onde acreditamos, erradamente, poder tudo controlar, os Antigos nos oferecem um outro olhar, no qual devemos nos inspirar.
Do que se trata, exatamente? De algo que já expus a respeito do estoicismo, no primeiro volume de Aprender a Viver , e que é preciso retomar por um instante nesse contexto mitológico. Sem dúvida, a principal convicção que a mitologia vai legar à filosofia antiga, e sobretudo ao estoicismo, é a de que os dois males que pesam sobre a existência humana, os dois freios que a bloqueiam e impedem o acesso ao pleno desabrochar resultante da vitória sobre o medo, são a nostalgia e a esperança, ou seja, a vinculação ao passado e a preocupação com o futuro. O passado permanentemente nos puxa para trás, graças ao terrível poder que têm sobre nós o que Espinosa inspiradamente chamou “paixões tristes”: nostalgia, quando o passado foi feliz, mas culpa, remorso e arrependimento, quando foi doloroso. Tomamos refúgio então em miragens do futuro, como as que Sêneca tão bem descreveu em Cartas a Lucíolo. Imaginamos que trocando uma coisa ou outra, casa, carro, sapatos, corte de cabelo, férias, MP3, aparelho de televisão, trabalho ou o que quer que se possa imaginar, as coisas vão melhorar. Verdade, porém, é que os atrativos do passado e as miragens do futuro, na maior parte do tempo, não passam de engodos. O tempo todo nos desviam do instante presente, nos impedem de viver plenamente. Além disso, são focos permanentes de angústia e de medo, com a primeira surgindo quase sempre do passado e o segundo, do futuro. E não há obstáculo maior para a vida boa do que o temor. É esta a convicção simples e profunda que se exprime na sabedoria grega e que principalmente o estoicismo vai tornar popular(Ver em Luc Ferry - Aprender a Viver I o capítulo sobre o estoicismo). Para nos salvarmos, para termosacesso à sabedoria que reside na vitória sobre o medo, precisamos aprender a viver sem nostalgia do passado nem receio supérfluo com relação ao futuro, o que significa que devemos parar de habitar permanentemente essas dimensões do tempo que, aliás, não têm existência alguma (o passado não existe mais e ainda não há futuro) e nos limitarmos, tanto quanto possível, ao presente. Como diz Sêneca em Cartas a Lucíolo:
Devem ser eliminadas essas duas coisas: o receio com relação ao futuro e a lembrança de antigos males. Estes últimos não me concernem mais e o futuro não me concerne ainda.
E ele acrescenta ainda que, de tanto se preocupar com essas dimensões fictícias do tempo, a gente simplesmente acaba “deixando de viver”.
Uma vez mais, talvez você ache que essa sabedoria do presente não se sustenta tanto e, de qualquer forma, nem se tem tanto a impressão de que esteja bem clara no espírito de Édipo — nem, aliás, no de Antígona —, que, manifestamente, acha que o destino a ambos reservado é imundo, insuportável, para não dizer revoltante. No mais, pode-se imaginar que o espectador da tragédia pensasse mais ou menos o mesmo. Certamente se dizia que toda essa história é horrível e que o mundo real, mesmo sendo da maneira que queriam e guiavam os deuses, continuava pouco tranquilizador e nada cordial. Em outras palavras, como fazer concordar a sabedoria grega do amor pelo real, da reconciliação com o presente, com o sentimento trágico que segue inversamente e nos deixa achar que, mesmo assim desejado pelos deuses e certamente, no final das contas, harmonioso, o mundo não é aceitável para muitos de nós?
Com essa questão bem simples, tocamos, creio, o cerne das maiores dificuldades inerentes à visão cosmológica e divina do universo. Parece-me que três respostas diferentes podem ser dadas.
A primeira, que sem dúvida é a que melhor concilia a sabedoria do amor pelo mundo e a realidade do trágico, consiste em mais ou menos dizer o seguinte: saibam, pobres humanos, que assim como se viu com Édipo, o destino não lhes pertence e pode sempre transcorrer mal, tomando de volta o que deu. Durante vinte anos, sendo rei de Tebas, feliz com Jocasta e seus filhos, Édipo viveu em plena glória e felicidade. Tudo isso lhe foi retirado. Pior ainda, a base da construção da sua felicidade, isto é, o fato de ele ter matado o pai e casado com a mãe, se tornou o princípio fundamental da absoluta catástrofe. Moral da história: deve-se aproveitar a vida enquanto ela é boa, enquanto se está bem, e sem estragá-la com tormentos inúteis. Sabendo que ela termina mal de qualquer maneira, deve-se aproveitar o presente, os vinte anos resplandecentes em Tebas, seguindo o famoso princípio do Carpe diem de Horácio. Devemos aceitar e amar cada dia como ele vem, sem colocar questões inúteis. Sábio é quem vive no presente, não por falta de inteligência ou por ignorar o que pode acontecer, mas, pelo contrário, por muito bem saber que, mais cedo ou mais tarde, tudo vai piorar e deve-se aproveitar desde já tudo que nos é dado. De certa forma, é a versão minimalista da sabedoria estoica.
A versão maximalista, como é de se esperar, vai muito mais longe: também nos convida a amar o real, mas sob facetas bem diversas e mesmo que seja trágico e dilacerante. Nessas condições, o sábio não se limita a amar apenas o que é amável. Disso todo mundo é capaz. Ele é aquele que, em qualquer circunstância, consegue “esperar um pouco menos, lamentar um pouco menos e amar um pouco mais”, como me disse um dia o filósofo André Comte-Sponville para resumir o espírito dessa sabedoria grega em uma frase. De fato, o enunciado traduz de maneira perfeita a serenidade e a força de personalidade que se deve ter para enfrentar as catástrofes que cegamente ocorrem aos humanos. É uma ideia que atravessa os séculos. Podia ser vista já atuante entre os epicuristas tanto quanto com os estoicos, mas se encontra também em Espinosa e até em Nietzsche, que igualmente nos convida de maneira explícita a amar o mundo tal como ele é, não só quando é amável — seria muito fácil —, mas também quando é atroz, como é o caso na tragédia de Édipo:
Minha expressão para o que é grandioso no homem é amor fati: nada querer além do que é, nem diante nem atrás de si, nem nos séculos dos séculos. Não se contentar em suportar o inelutável e menos ainda ocultá-lo — todo idealismo é uma maneira de mentir a si mesmo diante do inelutável —, mas amá-lo.(Ecce homo, “Por que sou tão sábio”)
Em outros termos, que poderiam ser os da sabedoria antiga, naquilo que por comodidade chamo sua versão “maximalista”, nunca se deve permanecer nas dimensões não reais do tempo, no passado e no futuro, mas, pelo contrário, tentar habitar, tanto quanto possível, no presente, dizendo-lhe “sim” com amor, mesmo que seja terrível — com uma “afirmação dionisíaca”, como diz Nietzsche, se referindo ao deus do vinho, da festa e da alegria.
Eu bem que apoiaria essa ideia, mas, para dizer a verdade, nunca nem por um segundo acreditei que fosse minimamente praticável, e que seja possível dizer “sim” com alegria diante da morte de uma criança, diante de uma catástrofe natural ou diante da guerra. À sua maneira, o triste fim de Édipo prova bastante bem que o trágico grego não tem muito a ver com essa visão das coisas, que sem dúvida é grandiosa no papel, mas absurda na vida cotidiana. Pessoalmente, nunca pude compreender como é possível, à maneira de Nietzsche, de Espinosa ou dos estoicos, dizer “sim” a tudo que acontece. Nem mesmo tenho certeza de que isso seja desejável. O que significaria dizer “sim” a Auschwitz? Vão me dizer que o argumento é vulgar. Sejamos então assumidamente vulgares: na verdade, nunca tive o menor embrião de resposta minimamente plausível para essa interrogação, de fato trivial, por parte dos meus amigos estoicos, espinosistas ou nietzschianos, e é o que me impede, ainda hoje, de aceitar tal pensamento. Além disso, repito, o próprio Édipo não consegue, como nem você nem eu, aderir ao horror.
Resta-nos então, entre a sabedoria minimalista, que, diga-se de passagem, me parece muito bonita e já bem difícil de se praticar na medida necessária, e a maximalista, sem sentido algum na realidade humana, tentar pensar na última alternativa, que a meu ver a tragédia grega paralelamente traça, de maneira quase implícita ou oculta. Por toda evidência Édipo não diz tranquilamente “sim” à sua sina, e é preciso boa dose de máfé para supor que os espectadores se alegravam de ver o cosmos, a ordem divina, retomar seus direitos legítimos contra os pequenos seres humanos, esmagados no percurso de maneira tão brutal. Isso significa, supondo que Édipo não pensa nem age como certamente faria um perfeito estoico, espinosista ou nietzschiano, que ele não seja um sábio? Não estou certo disso. Pois me parece que nos transmite uma mensagem bem mais interessante do que a do amor fati. É claro, como grego que acredita em seu mundo e em seus deuses, ele aceita em parte o seu destino, como comprova o fato de se punir. Ele fura os olhos e deixa o trono, para terminar na maior infelicidade. Assim, com a própria vida, com o sofrimento exposto que nada tem de amor pelo presente, ele se revolta, protesta, grita que algo não está direito. E sua filha, Antígona, mais ainda, mas no mesmo sentido que ele, retoma o processo. Uma vez mais, não que eles contestem — pelo menos de maneira explícita — o universo em que estão mergulhados. Pelo contrário, Antígona diz claramente pertencer à sua família e que nada pode fazer contra isso. Mas, justamente, há um ruído. Essas pessoas são formidáveis, Édipo é sábio, inteligente, generoso e honesto; Antígona é corajosa, leal, fiel a ideais que manifestam uma nobre ética — e os dois no entanto são triturados. É difícil de aceitar, e deve ser meditado mais profundamente.
Essa triste história nos ensina, antes de tudo, a compreender melhor a condição humana, a melhor perceber de que maneira a desgraça faz parte integrante e inevitável da vida dos mortais e por que, também, ela é sempre injusta, absurda e insensata. Percebemos dessa forma os motivos a favor de uma sabedoria do amor pelo mundo porque devemos evitar, tanto quanto possível, ruminar lembranças desagradáveis e elaborar fantasias sobre futuros cintilantes. Mas, para além dessa primeira lição que se remete à sabedoria “minimalista”, se Édipo e Antígona se tornam para nós, como já eram para os gregos, heróis, personagens lendários com uma conotação positiva, é por confirmarem como nenhum outro, pelo próprio sofrimento, o quanto é singular a condição humana no coração da ordem cósmica. Há nisso uma espécie de fermento para o humanismo futuro. Assim como Prometeu, na peça de Ésquilo, se revolta contra os deuses em nome do homem, o espectador das tragédias de Sófocles não pode deixar de pensar, mesmo que fugidiamente, que se deveria poder afinal mudar o mundo, melhorá-lo, transformá-lo e não apenas interpretá-lo. Em todo caso, com certeza, há um grão de areia que arranha o bom funcionamento do sistema, e ele tem um nome: essa pedra no sapato é o homem. Antígona, mesmo falando em nome dos deuses, em defesa de uma moral do coração, é uma revolucionária, uma humanista — é, nesse caso, a mesma coisa — que talvez não saiba disso, mas nós mesmos não podemos deixar de saber. Bem mais do que ao amor fati, à capitulação com relação ao encaminhamento do mundo, ela nos incita a criticar o que está estabelecido. E isso é especificamente humano nela, que não é redutível à ordem, nem assimilável pelos deuses nem pelo cosmos. Será preciso esperar o nascimento do humanismo, com Rousseau, Kant e a Revolução Francesa para plenamente fazer justiça a essa ideia prometeica — e o termo ganha aqui todo o seu sentido, pois foi mesmo Prometeu que, antes de todos, segundo Platão, viu nos humanos seres que nada são de início, mas para os quais tudo é possível em seguida, inclusive a revolta contra a ordem do mundo. É onde reside, a meu ver, toda a grandeza da tragédia de Édipo e de Antígona: a primeira, sem dúvida, a abrir espaço, no próprio coração da cosmologia grega, para a ideia de humanidade, com um potencial subversivo virtualmente ilimitado.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos MItos Gregos)

publicado às 01:55

Hoje em dia ainda, Esculápio é quase sempre
representado com uma serpente na mão, e seu cetro, também chamado “caduceu”,
formado por um bastão em que se enrola uma outra serpente, serve de símbolo para os
que exercem essa difícil arte.
Você talvez se pergunte: por que a serpente e qual a história desse famoso caduceu,
que na França ainda é visto nos para-brisas dos automóveis de médicos e, apesar de
um pouquinho diferente (vou daqui a pouco dizer por quê), em fachadas de farmácias?
Não seria inútil acrescentar mais algumas palavras, pois esse símbolo é objeto de tanta
confusão que a informação não fará mal algum.
Na verdade, há na mitologia grega dois caduceus diferentes, tendo apenas um deles
relação com a medicina — mas às vezes eles foram confundidos, no decorrer do
tempo.
A palavra “caduceu” vem do grego kérukeion, que significa “cetro do arauto”, não
no sentido do herói que ganha batalhas e realiza façanhas, mas o arauto que anuncia
notícias, como Hermes, o mensageiro dos deuses. O primeiro caduceu merece bem o
nome que tem, pois é o emblema do deus Hermes. É constituído por duas serpentes se
enrolando num bastão que, por sua vez, tem no alto um par de asinhas. Os mitos
divergem neste ponto. Segundo alguns, Apolo teria dado seu cetro de ouro a Hermes,
em troca da flauta que este último havia inventado, depois da lira. Para outros, um dia,
Hermes, quando viu duas serpentes lutando — ou copulando? —, separou-as lançando
entre as duas um bastão (a vareta mágica de Apolo?). As serpentes se enrolaram nessa
vareta, e Hermes teria apenas acrescentado as asinhas, que são a sua marca pessoal,
pois lhe permitem atravessar o mundo em grande velocidade. Estranhamente, esse
mesmo caduceu de Hermes com frequência ainda serve de emblema para a medicina
nos Estados Unidos. Na verdade, porém, ele não tem laço algum com essa disciplina. É
bem provável que os amigos americanos tenham apenas confundido esse caduceu com
outro, o de Asclépio, provavelmente porque a medicina antiga (e muitas vezes também
a de hoje) é uma arte “hermética” que utiliza, como nas peças de teatro de Molière,
palavras eruditas, um jargão obscuro e, principalmente, porque as primeiras faculdades
de medicina se situavam nas proximidades de sociedades secretas. Um erro explicável,
então, mas um erro mesmo assim.
Pois o segundo caduceu, que realmente simboliza a medicina, não é o de Hermes, e
sim o de Asclépio. Mais uma vez, com relação a isso, os mitos são obscuros e
múltiplos. Duas linhas distintas de narrativa se disputam. Na primeira, Asclépio,
durante seus estudos com Quíron, que lhe ensinava medicina a pedido de Apolo, faz
uma estranha experiência, ao matar uma serpente que cruza o seu caminho. Surpreso,
ele constata que outra serpente vem em socorro da primeira, trazendo na boca um
raminho de erva que ela lhe dá para ingerir, despertando-a da morte. É de onde
Asclépio tira sua vocação para a ressurreição dos defuntos. Pela outra versão,
Asclépio toma como símbolo da sua arte a serpente por uma razão bem mais simples:
porque esse animal parece reiniciar uma nova vida ao mudar de pele. Basta um passeio
pelas terras pedregosas da Grécia para ver por todo lado peles de serpente
abandonadas. Daí para concluir que o animal morto renasce, basta um pequeno espaço,
que Asclépio atravessa. Como se pode ver, as duas histórias, no fundo, se juntam: nos
dois casos, efetivamente, a serpente simboliza o renascimento, a esperança de uma
segunda vida. Por isso também, ao fulminar Asclépio, Zeus o transforma na
constelação de Serpentário, aquele que carrega a serpente — o que é uma maneira de
tornar Asclépio imortal, de lhe oferecer uma apoteose (Asclépio consegue para si aquilo que ele não
pode mais dar aos outros. Recebe o que os gregos chamam “apoteose” — termo que,
literalmente, quer dizer “divinização”, uma transformação em deus (apo = em direção
de, e théos = deus). Por isso ele é considerado não só o fundador da medicina, mas
pura e simplesmente o deus dos médicos). Os médicos europeus,
diferentemente dos americanos, adotaram corretamente o caduceu de Asclépio como
símbolo da sua arte. Apenas acrescentaram um espelho, para simbolizar a prudência
necessária no exercício da profissão.
Depois disso, inventou-se um terceiro caduceu, o dos farmacêuticos. Na verdade, é
apenas uma variante do de Asclépio. É também constituído por uma serpente enrolada
num bastão, com a diferença de que, neste, a cabeça do animal está logo acima de uma
taça, em que ele cospe seu veneno. Essa taça é a de Higia, uma das filhas de Asclépio
(de onde veio a palavra higiene), irmã de Panaceia (o remédio universal), e o veneno
depositado na taça simboliza as preparações de medicamentos cujos segredos apenas
os farmacêuticos conhecem.
Último detalhe para concluir essa história: o maior médico grego, Hipócrates, se
remetia a Asclépio e se dizia seu descendente direto. Ainda hoje, todos os médicos,
antes de começarem a exercer a profissão, têm que prestar um juramento ético chamado
“juramento de Hipócrates”. Infelizmente, nem sempre são capazes de dar vida aos que
morrem e que gostaríamos de rever. Mas sabem que quando um ser humano se toma por
um deus, quando pretende para si o poder de dominar a vida e a morte, ameaçando
desse modo a ordem cósmica inteira, é preciso que um poder intervenha e o reponha
em seu lugar.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 
Todas as profissões buscaram em antigos Deuses e mitologias a simbologia para a sua prática. Na medicina não foi diferente, mas há alguma peculiaridade.

No nosso caso, constantemente encontramos dois símbolos diferentes que, devido a distintas histórias, tem seu porquê para representar a profissão médica. Afirmo de antemão que apenas um é o correto, mas antes sinto-me obrigado a contar a história do Caduceu de Hermes, do Bastão de Esculápio / Asclépio.

Antes que alguém já suba no palanque para esbravejar que apenas o Bastão de Esculápio é o verdadeiro símbolo da medicina, sinto-me no dever de explicar os detalhes que elevaram o Caduceu de Mercúrio (para os romanos e Hermes para os Gregos) a símbolo da medicina em alguns países e organizações. Primeiro comecemos pela história de Esculápio.
 

Asclépio e seu cajado

Quem foi Asclépio?
Asclépio foi provavelmente a pessoa de maior destaque que praticava medicina na Grécia, por volta de 1200 anos antes de Cristo (está descrito na "Ilíada" de Homero). Eventualmente, através do mito e das lendas ele se tornou adorado pelos gregos como o Deus da Cura.
As escolas médicas da época desenvolveram-se e normalmente eram conectadas a templos chamados de Asclépia/Asclépion. Esses lugares foram muito importantes na sociedade grega. Enfermos acreditavam que poderiam ser curados se dormissem nos Asclépion. Faziam visitas, ofereciam sacrifícios ao Deus e eram tratados por sacerdotes que curavam (chamados de Asclepidae). A adoração por Asclépio espalhou-se para Roma e continuou até o século VI depois de cristo.

Os Aclepidae eram uma ordem de sacerdotes/médicos que controlavam os segredos sagrados da cura, que eram passados de pai para filho. As inicentes Cobras de Esculápio eram mantidas nos templos/hospitais pelos gregos e posteriormente pelos romanos. Estas cobras foram achadas na posteridade não apenas nas regiões nativas, mas também em vários lugares como na Alemanha, Áustria e sul da Europa, onde alguns templos foram erguidos. Elas escaparam e reproduziram-se.

Lisa, brilhante e esbelta, a cobra tem um uniforme marrom  com uma faixa de cor mais escura atrás dos olhos. A barriga da cobra é amarelada ou esbranquiçada e tem escalas sulcadas que travam facilmente em superfícies ásperas, tornando-se especialmente adaptados para subir em árvores.

O Mito:
Asclépio é o Deus da Cura. Ele é filho de Apolo e da ninfa Coronis. Enquanto grávida de Asclépio, Coronis secretamente traiu apolo com um amante mortal. Quando Apolo descobriu, ele enviou Artemis para matá-la. Enquanto Coronis queimava na pira de seu funeral, Apolo teve pena e resgatou a criança não nascida do cadáver. Asclépio foi ensinado sobre medicina e a arte da cura pelo sábio centauro Cheiron ( Quírion ), e ficou tão bom nisso que conseguiu trazer um de seus pacientes de volta dos mortos. Zeus sentiu que a imortalidade dos Deuses estava ameaçada, e matou o curandeiro com um raio. Sob pedido de Apolo, Asclépio foi habitar a constelação de Ophiuchus, a portadora da serpente.

Meditrine, Hygeia e Panaceia
A filhas de Asclépio são Meditrina, Hygeia e Panaceia, que também são símbolos da medicina, Higiene e Cura ( litearalmente todas "saúde"), respectivamente. Dois dos filhos de Asclépio aparecem na "Iliada" de Homero como médicos do exército grego ( Machaon e Podalirius

Perceba agora que no juramento de Hipócrates é jurado "Por Apolo, o médico, Por Esculápio, Hygeia e Panacea..."

A provável origem do ícone da única serpente enrolada em uma barra de madeira:
Na antiguidade, as infecções decorrentes de vermes parasitas eram muito comuns. A filária ( Dracunculus medinendis ) percorre o corpo da vítima logo abaixo da pele. Médicos tratavam essas infecções fazendo uma pequena incisão na pele em cima do "caminho" do parasita. Quando o verme emerge pela incisão, médicos cuidadosamente enrolam-na em um palito para aos poucos retira-la totalmente. Acredita-se que devida a ordinariedade deste tipo de infecção que médicos começaram a usar isto como ícone de sua profissão.

A barra como símbolo médico:
Durante os séculos XVI e XVII o cajado de Asclépio e o Caduceu de Hermes foram amplamente impressos em diversas farmacopeias. Depois de algum tempo, o cajado com uma serpente tornou-se símbolo único da medicina.

Apesar de ser inequívoco o uso do cajado de Asclépio como representante da medicina, o Caduceu ( uma barra com duas cobras enrolados em dupla hélice e duas asas no topo) é muito popular nos Estados Unidos para representar a medicina, provavelmente devido a confusão entre as duas representações. Muitos norte-americanos usam a palavra Caduceu para referir-se ao Símbolo da Medicina.

(Fernando Carbonieri)

publicado às 23:35


A origem do Autóctone

por Thynus, em 10.11.15

  Cadmos tinha um dia decidido fundar sua cidade no lugar de uma fonte
vigiada por um dragão. Esse dragão, no entanto, pertencia a Ares, o deus da guerra.
Cadmos, aliás, você se lembra, se casara com Harmonia, uma das filhas que Ares teve
com Afrodite, mulher de Hefesto (que, diga-se de passagem, não gostou de ser traído,
mas isso já é uma outra história). Para poder liberar o acesso à água, vital para a
cidade, Cadmos foi obrigado a matar o dragão. Atena e Ares recolheram os dentes do
dragão — pois sabiam que semeados na terra fazem imediatamente nascer terríveis
guerreiros. A metade dessas sementes mágicas eles deram a Cadmos, para que pudesse
povoar sua nova cidade, e a outra metade, justamente, deram a Eetes, nosso rei da
Cólquida, para que, em caso de necessidade, usasse-as para proteger o Tosão de Ouro.
Os guerreiros que saem da terra têm o nome de “Espartanos” — spartoi em grego quer
dizer “semeados”, aqueles que foram, como grãos, postos na terra para que algo brote.
Os semeados têm uma ligação direta com a terra (são “autóctones”, termo que em grego
quer dizer “vindo da terra”). A proximidade com o solo evoca, nesse caso (nem
sempre é assim, mas nesse contexto é do que se trata), a violência dos primeiros
deuses, os filhos de Gaia, a terra, que existiam antes dos olímpicos e estavam próximos
do caos original, sendo por ele animados. Novamente encontramos essa ideia com
relação à cidade de Esparta, inteiramente dedicada à guerra, em que os homens são
soldados rudemente educados, calados ou, como também se diz, “lacônicos” —
Lacônia sendo o nome grego da região de Esparta.

Jasão então semeia os dentes do dragão e, imediatamente, guerreiros assustadores
saem da terra. Mas Medeia também havia lhe dado um truque — o mesmo que Cadmos
já utilizara na sua época:(De fato, Cadmos também semeou os dentes do dragão e viu sair da terra os terríveis spartoi. Ele então jogou uma pedra entre eles, que começaram a lutar como imbecis entre si... até sobrarem vivos apenas cinco deles. São os que vão povoar a cidade de Tebas, já que os companheiros de Cadmos tinham sido dizimados pelo dragão que vigiava a fonte de Ares.) esses homens de armas são praticamente imbatíveis, têm uma força e habilidade no combate das mais temíveis; em contrapartida, como se diz são burros como uma porta. Para ser franco, são uns perfeitos cretinos, uns brutamontes
grosseiros que não enxergam nada além da ponta do nariz. Basta jogar uma boa pedra
no meio deles, que, achando ser uma provocação do companheiro ao lado, começam a
brigar um com o outro, de tal modo que se exterminam até o último deles, sem que
Jasão precise intervir minimamente. O caminho fica quase livre. Mas o rei, mau
jogador e mau perdedor, se recusa a manter a promessa. Trama, aproveitando a noite
que acaba de cair, pôr fogo no Argo e matar todos os seus tripulantes. Jasão então toma
à força o que injustamente lhe recusam. Precisa apenas se livrar do dragão que protege
o Tosão de Ouro, pregado na árvore. Medeia o adormece com uma das poções que são
a sua especialidade e Jasão tem apenas que desprender a preciosa lã, voltar a seu
navio e ganhar o largo.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

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Autóctone (latim autochthones) vem do grego autos: si mesmo, e chthon: terra, país, ou seja: da mesma terra, do mesmo país, indígena. Autóctonos era como chamavam os gregos aos primeiros habitantes de um país, para diferenciá-los dos povos que se estabeleciam em outra parte. Uma “língua autóctone” é a primeira de um país, aquela falada por seus primeiros habitantes.

Exemplos de uso: 

A face primordial da questão ficou assim aclarada. Que resultem do "homem da Lagoa Santa" cruzado com o pré-colombiano dos sambaquis; ou se derivem, altamente modificados por ulteriores cruzamentos e pelo meio, de alguma raça invasora do Norte, de que se supõe oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento — os nossos silvícolas, com seus frisantes caracteres antropológicos, podem ser considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “A lei   pombalina da abolição da servidão dos autóctones melhorou as condições de vida destes, apesar das muitas violências que ainda se praticaram no decurso da segunda metade do século contra os desprotegidos e ingênuos habitantes das antigas aldeias do real padroado” (Visconde de Taunay: “História da Cidade de São Paulo”). / “Aceitando a aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno, segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno” (Sílvio Romero: “História da Literatura Brasileira”).

 

(Etimologista Iba Mendes)

publicado às 13:57

No passado, penso logo existo.
No presente, nem penso logo consumo.
No futuro penso, por quê?
(Anita Prado)
 
Capitalismo artista e crítica artista 
Naturalmente, não se pode explicar tal reviravolta do capitalismo sem levar em consideração todo um conjunto de novos fatores — econômicos, políticos e tecnológicos. Mas outros fatores, mais especificamente ideológicos, também puderam ser salientados, como em particular o que Luc Boltanski e Ève Chiapello chamam de “crítica artista”,(Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme. Paris: Gallimard, 1999. (Coleção NRF Essais); reed. Coleção Tel, 2011. [Ed. bras.: O novo espírito do capitalismo. Trad. de Ivone C. Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.]) na qual eles enxergam uma das duas grandes forças ideológicas principais na origem da virada do capitalismo contemporâneo.
Desde a sua formação, o capitalismo viu serem-lhe dirigidas violentas críticas baseadas em diversos motivos de indignação. Entre estes se acham, por um lado, a miséria e as desigualdades sociais, que estão na base da “crítica social”; por outro lado, a opressão dos seres, o desencanto, a inautenticidade dos objetos, das pessoas e dos sentimentos que estão na origem da “crítica artista”, que se apresenta como uma contestação radical da racionalização, da reificação e da mercantilização capitalistas. Essa forma de crítica, que surge na segunda metade do século XIX e deita raízes no dandismo e na boêmia, foi fortemente amplificada em fins dos anos 1960, com a contracultura e a contestação virulenta da sociedade de consumo, dos modos de vida burgueses, de todas as formas de alienação e de sujeição (disciplina do trabalho, familismo, moral sexual, autoridade, hierarquia). Esse momento de maré alta crítica vê crescer uma multidão de reivindicações conclamando ao prazer, à criatividade, à espontaneidade, a uma libertação que atinge todas as dimensões da vida. Foi para responder a essa crítica artista que se forjou um “novo espírito do capitalismo”, em particular na forma de uma nova gestão que, denunciando as grandes organizações hierarquizadas, rígidas e planificadas, desenvolve novos dispositivos de gestão (empresa em rede, equipes autônomas de trabalho, qualidade total, redução dos escalões hierárquicos). Essas propostas fazem eco às denúncias da crítica artista, das aspirações à autonomia, à autorrealização dos indivíduos, a um mundo “mais humano”, mais convivial, mais autêntico.
Foi também em reação à proliferação dos objetos inúteis e feios, à ditadura do quantitativo, ao reinado da inautenticidade e da padronização, que o capitalismo se empenhou num processo de “mercantilização da diferença” mediante uma produção em pequenas séries de bens e serviços mais singulares, mais diferenciados, destinados a reduzir o mal-estar ligado à massificação do mundo industrial. Donde o desenvolvimento dos produtos ditos “autênticos” (paisagem, patrimônio, lugares típicos), bem como o formidável investimento nas indústrias culturais, no turismo, na hotelaria, na gastronomia, na moda, no design, na decoração de interiores, como maneira de responder às críticas da inautenticidade da vida cotidiana. Assim, a crítica artista poderia ser a força ideológica principal no desenvolvimento do capitalismo criativo, aparecendo a estetização do mundo como a apropriação pela ordem mercantil das denúncias de seus inimigos.(Ibid., pp. 529-46 (Coleção Tel, pp. 587-606))
Se é incontestável (conforme veremos, a propósito da questão do design, com as teorias desenvolvidas por Ruskin, William Morris e com os caminhos preconizados por movimentos como Arts & Crafts) que a era industrial fez de fato surgir algo como uma crítica artista, resta saber qual foi sua influência real sobre o desdobramento transestético do capitalismo. A esse respeito, qualquer que seja a importância do papel que as utopias e as críticas sociais da inautenticidade tiveram, tudo indica que elas foram muito menos decisivas que as estratégias propriamente comerciais que “exploram” as disposições estéticas do consumidor, a sedução do belo, a atração em si da emoção e da distração. Nesse sentido, a mutação que o capitalismo artista representa deve ser atribuída muito mais à “mão visível dos gestores”,(Alfred D. Chandler, La Main visible des managers: Une analyse historique. Trad. fr. de Frédéric Langer. Paris: Economica, 1988) que abrange todo o potencial de rentabilidade que os sonhos, as ficções e as emoções humanas encerram, do que aos movimentos de indignação ou de revolta contra o inautêntico.
É o que testemunham as lojas de departamentos e os cartazes publicitários, que são duas grandes manifestações estéticas da primeira fase do capitalismo artista. Em ambos os casos, o trabalho artístico veio em resposta a objetivos estritamente comerciais, às novas necessidades do grande comércio e dos industriais, abrangendo perfeitamente todo o potencial comercial que podiam representar o “cenário”, a mise-en-scène estética, a sedução dos lugares e das imagens. Foi para maravilhar a clientela e estimular a compra que Boucicaut se empenhou em transformar o Bon Marché num palácio de sonho. Foi também para aumentar a notoriedade da marca, superar os concorrentes, aumentar o faturamento que os industriais confiaram a artistas gráficos, desenhistas, pintores a tarefa de produzir cartazes de qualidade artística que estimulassem a imaginação e seduzissem o olhar. Não se trata de apropriação da “crítica artista” moderna, mas de lógica comercial que se vale da atratividade “eterna” e imediata da beleza e da sedução.
A loja de departamentos e o anúncio não ilustram sozinhos a utilização das estratégias de sedução no início do capitalismo artista. Também o cinema se construiu logo de saída como uma indústria de sonho, criando estrelas deslumbrantes, oferecendo ao público ficções, emoções, riso, os prazeres da evasão, em outras palavras, apoiando-se em aspirações antropológicas básicas: prazeres, narrativas, imagens, emoções, beleza, sonho. Um dos grandes dispositivos do capitalismo artista nascente, o cinema, surgiu e se desenvolveu sem dever nada às críticas feitas ao capitalismo. Nenhuma resposta a críticas ou a reivindicações de autenticidade, mas invenção de um composto indústria-arte baseado na exploração das emoções.
O início do século XX também vê aparecer no mundo industrial propostas visando casar intimamente estilo e produção a fim de conquistar os mercados. Na Alemanha, o industrial Walther Rathenau confia ao arquiteto Peter Behrens a tarefa de dar uma identidade de estilo à produção da AEG, com a convicção de que a dimensão estética é conforme aos interesses da empresa. A General Electric funda a comissão de “estética do produto” no início dos anos 1920. Ainda nos Estados Unidos, Daniel H. Burnham, tomando a palavra no Chicago Commercial Club, sustenta que “a beleza sempre foi mais bem paga do que qualquer outro bem, e sempre será”. E. Calkins publica em 1927 “Beauty, The New Business Tool”, um artigo no qual a dimensão estética é postulada como instrumento para gerar vendas e lucro: segundo Calkins, o tempo da eficácia praticamente passou e deve-se abrir espaço para o que ele chama de “beleza”, que cria um clima de estimulação e de compulsão de compra benéfico aos negócios. Raymond Loewy, entre as duas guerras, conseguiu convencer vários industriais de que “a feiura vende mal”, enquanto o aspecto atraente dos produtos facilita o desenvolvimento do comércio. No mesmo momento, Roy Sheldon e Egmont Arens apresentam a mudança de estilo (“style obsolescence”) como o novo Eldorado dos negócios, fazendo que todo bem se torne assim um bem não durável, incessantemente renovável.(Sobre esses pontos, Stuart Ewen, All Consuming Images. The Politics of Style in Contemporary Culture. Nova York: Basic Books, 1988, pp. 41-7)
A incorporação do princípio de estilização na produção dos objetos industriais se difundiu quando os industriais perceberam o poder mercantil da “beleza” e a vantagem competitiva que ela podia proporcionar nos mercados concorrenciais.
E, mais tarde, a partir dos anos 1980, é menos para atender às “intensas demandas de autenticidade e de desmassificação” do que para enfrentar a queda do consumo ligada à saturação dos mercados domésticos dos bens de consumo duráveis que o capitalismo se empenhou em produções diferenciadas de séries curtas. O capitalismo artista deve seu formidável desenvolvimento muito menos às denúncias da economia liberal do que a seu movimento próprio impulsionado pelas lógicas de concorrência e de inovação permanente. Foi do interior da própria máquina econômica que nasceu e se desenvolveu o capitalismo artista: ele é filho da economia liberal, muito mais que dos detratores desta.
Capitalismo artista e mitologia da felicidade
Não só a ideia de crítica artista não explica as forças reais que acarretaram as metamorfoses transestéticas do capitalismo, como Luc Boltanski e Ève Chiapello superestimam o papel desta nas transformações do “espírito” do capitalismo.
Sabemos desde Max Weber que o capitalismo necessita de um conjunto de crenças, de um “espírito” que contribua para justificar sua ordem, motivar os homens, favorecer a interiorização das coerções e a adesão ao sistema. Em sua forma original, o espírito do capitalismo coincidiu com a criação de uma nova relação com a atividade profissional, que deveria ser exercida como uma “vocação”, um dever, uma finalidade em si da existência. O espírito primeiro do capitalismo se afirma na forma de deveres que prescrevem uma conduta racional no próprio interior do trabalho, de uma ética puritana que condena a fruição da riqueza e dos prazeres que a existência pode proporcionar. Assim, o espírito do capitalismo não nasceu do interior de si mesmo, a partir de uma lógica utilitarista: a conduta racional prescrita deita suas raízes em crenças e práticas religiosas, no espírito do ascetismo cristão.(Max Weber, L’Éthique protestante et l’esprit du capitalisme [1964]. Trad. fr. de Jean-Pierre Grossein. Paris: Gallimard, 2004. (Coleção Tel). [Ed. bras.: A ética protestante e o espírito do capitalismo. Trad. de M. Irene de Q. F. Szmrecsanyi. Brasília: Ed. UnB [1982?].])
Evidentemente, o mesmo já não acontece com o novo espírito do capitalismo, que se define por um sistema de legitimidade diametralmente oposto, centrado na valorização das fruições materiais, no hedonismo do bem-estar, do divertimento e do lazer. Neste caso, a justificação fundamental do capitalismo artista é a elevação perpétua do nível de vida, o bem-estar para todos, as satisfações incessantemente renovadas, a perspectiva de uma vida bela e excitante. Assim, um sistema de justificação moral foi substituído por uma legitimação de tipo estético, pois valoriza as sensações, as fruições do presente, o corpo de prazer, a leveza da vida consumista. Notemos que essa ordem de valores não encontra suas raízes últimas na “crítica artista” radical, e sim, muito mais profundamente, na ideologia individualista dos direitos humanos que afirma a universalidade dos direitos à igualdade e à felicidade. A ideologia do bem-estar consumista não foi construída em resposta às rejeições à modernidade desumanizante do capitalismo, mas pelo desenvolvimento de um modelo individualista, materialista e mercantil do ideal democrático da felicidade.
Ao mesmo tempo, não são mais argumentações morais que constroem no dia a dia a legitimidade do capitalismo, mas imagens, estimulações, uma ambiência, uma espécie de utopia estética fabricada pelas mídias, pelos objetos, vitrines, publicidade, cinema, turismo. É preciso se convencer de que o capitalismo artista não é apenas produtor de bens e de serviços mercantis, ele é ao mesmo tempo “o lugar principal da produção simbólica”,(Marshall Sahlins, Au coeur des sociétés: Raison utilitaire et raison culturelle. Trad. fr. de Sylvie Fainzang. Paris: Gallimard, 1980, p. 262. (Coleção Bibliothèque des Sciences Humaines)) o criador de um imaginário social, de uma ideologia, de mitologias significantes. A sociedade de consumo “é o próprio mito dela mesma”, escrevia com razão Baudrillard, um mito sem grandeza, sem exterioridade nem transcendência, mas que constitui “um discurso pleno, autoprofético, que a sociedade faz sobre si mesma, um sistema de interpretação global”,(Jean Baudrillard, La Société de consommation: Ses mythes, ses structures [1970]. Paris: Gallimard, 1986, p. 312. (Coleção Folio Essais). [Ed. port.: A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1991.]) uma constelação inédita de valores capaz de fazer as massas sonharem.
Assim, o éthos do capitalismo artista se constitui muito menos incorporando a contestação radical dos valores do capitalismo do que inventando, sob a pressão do jogo da concorrência, dos imperativos de inovação e de conquista dos mercados, uma cultura materialista, hedonista e individualista da felicidade que deita suas raízes nos valores democráticos oriundos das Luzes. O papel histórico atribuído à crítica artista é superestimado: foi principalmente o próprio funcionamento da economia moderna e de seus mecanismos concorrenciais que engendrou o conjunto de fins, de valores, de mitologias, em outras palavras, “as significações sociais imaginárias” (Castoriadis) típicas do novo espírito capitalista. Não se deve reduzir este às ideias-valores que são a base da empresa em rede e das operações de apropriação das exigências de liberdade e de autenticidade, pois ele é constituído, em seu cerne, pelos ideais hedonistas e pela “fun morality”: uma ideologia que se generalizou, desde os anos 1950, antes mesmo dos golpes da contracultura. E esse sistema de justificação “estética” decorre mais da dinâmica da ideologia individualista e da busca de novas possibilidades de lucro e de mercado do que da crítica artista que estigmatiza a ordem mercantil liberal. É preciso ver no novo espírito do capitalismo muito menos uma apropriação desta última do que uma invenção do próprio mercado, gerador de razões culturais e de significações simbólicas.
É por isso que não se pode subscrever a ideia de que “o operador principal de criação e de transformação do espírito do capitalismo é a crítica”.(Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme, op. cit., p. 585 (Coleção Tel, p. 650)) Foi o capitalismo que possibilitou difundir em todas as camadas sociais as normas hedonistas da realização pessoal. Se tomarmos certa distância em relação ao ponto de vista dos atores da época, a crítica artista dos anos 1960-70 apenas fez uma lógica estética já encetada, de sua parte, pelo próprio capitalismo de consumo dar mais um passo à frente, embora radical. Não é exato ver na crítica do inautêntico o elemento-chave que possibilitou a virada do neocapitalismo. Para além de suas antinomias evidentes, o capitalismo de consumo e as correntes da crítica artista trabalharam juntos para o mesmo descrédito do antigo sistema de legitimação da modernidade disciplinar. A análise de Boltanski e Chiapello subestima o poder que tem o capitalismo de abalar as configurações ideológicas tradicionais e inventar seu sistema de legitimidade. Se os ideais da contracultura foram capazes de transformar os costumes e os valores e de se impor no corpo social, é que o capitalismo de consumo já havia, de sua parte, dissolvido a cultura disciplinar-autoritária à moda antiga. Desse ponto de vista, a obra própria do capitalismo, sob a pressão permanente da concorrência, sem dúvida foi mais significativa do que os valores em nome dos quais ele foi radicalmente criticado e contestado.

O capitalismo artista diante do desafio da exigência ecológica
Relativizar o papel da crítica artista no desenvolvimento do capitalismo transestético não significa negar nenhum papel à crítica. Em particular, estamos no momento em que, precisamente, um tipo de consciência crítica está recompondo a ideologia do capitalismo. Simplesmente, não é nem a crítica artista nem a crítica social que se encontra no primeiro plano, mas a crítica ecológica. O processo já está em andamento: um número cada vez maior de empresas joga a carta do respeito ao meio ambiente; só se fala em economizar energia, preservar os recursos naturais, reduzir o CO2, reciclar o lixo, lutar contra o desmatamento. O design e a arquitetura ecológica estão na ordem do dia; até as marcas de moda fazem profissão de fé ecológica. Em toda parte os ecoprodutos são celebrados: o respeito ao meio ambiente se tornou um argumento de venda dos especialistas do marketing.
Sob esse aspecto, a mudança é notável. O capitalismo, que se desenvolveu sob o signo do descompromisso, do culto ao presente, do desperdício, do lúdico, é hoje obrigado, em resposta às novas exigências relativas à preservação da ecosfera, a incorporar o que lhe era alheio, a saber, o princípio de responsabilidade aplicado ao futuro, a preocupação planetária, a consideração do impacto da produção no meio ambiente. Salta aos olhos que um novo sistema de legitimidade vem sendo construído sob a pressão da crítica ecológica: esta é e será cada vez mais um agente fundamental da transformação tanto do espírito do capitalismo como de suas realizações concretas. Mas que não haja ilusões: a nova ideologia que toma forma não reata em absoluto com a ética ascética à moda antiga. Não esperemos do capitalismo artista que ele ponha num pedestal os valores da frugalidade. Ele, sem dúvida, integra agora uma nova dimensão ética — o respeito ao meio ambiente ou o desenvolvimento sustentável — mas sem renunciar com isso à dimensão estética (hedonismo, ludismo, beleza, imagem, criatividade) que o constitui como capitalismo de consumo. Assim, vemos surgir novas orientações mistas, como o consumo responsável, o luxo sustentável, o ecoturismo. Estamos no tempo da hibridização da estética e da ética, da arte e da ecologia: essa aliança é que vai constituir o cerne das justificativas do capitalismo transestético que se anuncia.

 (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy - A Estetização do Mundo, viver na era do capitalismo artista)
 

 

 

publicado às 18:48

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