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MULHERES E A ECONOMIA DE MERCADO

por Thynus, em 22.09.15
 

 
As mulheres têm um relacionamento dual com a economia de mercado. Elas são ao mesmo tempo consumidoras e consumidas. Como donas de casa, elas são consumidoras de bens domésticos comprados com dinheiro que não pertence a elas, porque não foi “ganho” por elas. Isso deve dar a elas uma certa quantidade de poder de consumo, mas muito pouco poder sobre qualquer aspecto de suas vidas. Como jovens e heterossexuais solteiras, as mulheres consomem bens feitos para dar um alto preço no mercado do casamento. Como qualquer outra coisa como lésbica, ou como solteira em idade avançada, ou como mulher autossuficiente com “carreira”, o relacionamento das mulheres com o mercado enquanto consumidoras não é tão bem definido. Se espera que elas comprem (e quanto melhor sua situação, mais se espera que elas comprem), mas para algumas categorias de mulheres, comprar não é definido primordialmente como o papel que uma mulher deve desempenhar.
Então o que mais é novidade? Não é a ideia da mulher como consumidora passiva, manipulada pela mídia e que se envolve com homens viscosos um clichê exagerado do movimento? Bem, sim e não. Uma análise situacionista amarra o consumo de bens econômicos ao consumo de bens ideológicos, e então, nos diz para criarmos situações (ações de guerrilha em diversos níveis) que quebrem esse padrão de aceitação social do mundo como ele é. Sem acusações; não vou criticar mulheres que “compraram” a perspectiva de consumidora. Para aquelas que realmente compraram: isso foi vendido a elas como um meio de sobrevivência desde os primeiros momentos de suas vidas. Compre isso: Tornará você bonita e adorável. Compre isso: Vai deixar sua família mais saudável. Está deprimida? Se trate com um dia no salão de beleza ou com um novo vestido!
A culpa leva à inação. Somente a ação, para reinventar a vida cotidiana e torná-la outra coisa, mudará as relações sociais.
O Presente
Pensando que ela era o presente
Eles começaram a empacotá-la antes do tempo.
Eles poliram seu sorriso
Eles abaixaram os seus olhos
Eles plugaram suas orelhas no telefone
eles fizeram cachinhos em seu cabelo
eles endireitaram os dentes
eles a ensinaram a enterrar seus desejos
eles derramaram mel pela sua goela abaixo
eles a fizeram dizer sim, sim e sim
eles a deixaram imobilizada
Aquela caixa tem meu nome, disse o homem. É para mim.
E eles não estavam surpresos.
Enquanto eles sopravam beijinhos e me piscavam ele levou pra casa.
Colocou na mesa onde seus amigos podiam averiguar dizendo dance,
dizendo mais rápido.
Ele a afundou para longe da saída e queimou o nome dele mais fundo.
Depois ele a colocou em uma plataforma debaixo dos holofotes dizendo vai,
dizendo mais forte
dizendo assim que eu queria 
você me deu um filho.
Carole Oles [Carole Oles, “The Gift”, na 13° Lua, II: 1, 1974, p. 39.]

As mulheres não são apenas consumidoras na economia de mercado; elas são consumidas como mercadoria. É disso que fala o poema de Oles, e isso é o que Tax chamou de “esquizofrenia feminina”. Tax constrói um monólogo interior para a dona-de-casa-mercadoria: “Não sou nada quando estou sozinha comigo mesma. Em mim mesma, não sou nada. Só sei que existo se sou desejada por alguém que é real, meu marido, e pelos meus filhos”. [Meredith Tax, “Woman and Her Mind: The Story of Everyday Life”, Boston: Bread and Roses Publication, 1970.]
Quando as feministas descrevem a socialização nos papéis sexuais de mulher, quando elas apontam as características que garotas são ensinadas a ter (dependência emocional, infantilidade, timidez, preocupação em ser bonita, docilidade, passividade e assim vai), elas estão falando da fabricação cuidadosa de um produto apesar de não se chamar assim normalmente. Quando elas descrevem a opressão da objetificação sexual, ou de viver em família nuclear, ou de ser uma Supermãe, ou de ser trabalhadora precarizada, subempregos com baixo salário que são ocupados majoritariamente por mulheres, elas também estão descrevendo a mulher enquanto mercadoria. As mulheres são consumidas por homens que as tratam como objetos sexuais; são consumidas por seus filhos (que elas mesmas produziram!) quando eles compram o papel da Supermãe; são consumidas por maridos autoritários que esperam que elas sejam servas submissas; e elas são consumidas por patrões que as mantém instáveis na força de trabalho ativa e que extraem o máximo trabalho pelo menor salário. Elas são consumidas por pesquisadores médicos que experimentam nelas novos e inseguros contraceptivos. São consumidas por homens que compram seus corpos nas ruas. São consumidas pelo Estado e pela Igreja, que esperam que proliferem a próxima geração pela glória de deus e do país; são consumidas por organizações políticas e sociais que esperam que elas “voluntariem” seu tempo e energia. Elas tem pouca noção de si mesmas porque sua pessoa enquanto identidade foi vendida para os outros.

 (Carol Ehrlich, Socialismo, Anarquismo e Feminismo)
 

 

Serão as mulheres melhores líderes?

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publicado às 17:46


IMPULSOS DE VIDA E DE MORTE

por Thynus, em 14.09.15
Freud falou que todos nós carregamos instintos, ou impulsos, opostos: um de vida (que ele chamou de Eros) e um de morte (que ele não chamou de Tanatos). Este último é dos mais mal compreendidos em psicanálise, geralmente ligado a um monstro que aqui e ali surgiria no ser humano fazendo ele se tornar genocida, causador de guerras, assassino serial, político predador e coisas do gênero.
Enquanto o instinto de vida é bem acolhido como parte da nossa “boa natureza estragada pela cultura” (vide o bom selvagem de Rousseau), o de morte é olhado como um inimigo oculto dentro de nós, esperando sua oportunidade para cravar suas garras.

Desse mal-entendido vêm crendices como a de que pessoas são capazes de “fazer” um câncer, já que são tão amargas. O que é uma crueldade adicional para os cancerosos, pois além da doença eles carregam a culpa de tê-la. Sem mencionar otimistas incuráveis que também desenvolvem câncer.
Você pode perguntar o que um conceito psicanalítico está fazendo numa coluna que cuida de natureza humana. É que o velho professor teve percepções brilhantes sobre o funcionamento universal de nossa mente, a acima descrita entre elas.
Um dia desses, eu dedico um artigo a comentar a lista de comportamentos universais da espécie (ou seja, presentes em todas as culturas do mundo, através dos tempos) que Donald E. Brown fez e que está publicada no livro Tábula rasa de Steven Pinker. É fascinante. Entre eles, Brown colocou o complexo de Édipo, outro conceito de Freud.
Mas afinal, como entender o funcionamento da dupla vida/morte no nosso dia a dia? Entenda como se fosse uma conversa interminável entre a destruição e a construção.
“Eros” ficou como símbolo de construção porque o sexo (a procriação) é nosso principal motor para construir e para destruir. Explico: tive uma linda filha e criei-a com desvelo, custo e eventuais noites insones, de tal forma que ela é hoje inteligente, um amor, hábil e autônoma. Eros operando, certo? Pois logo virá um ser monstruoso para destruir nossa bela família, casando-se com ela, levando-a daqui para construir a família deles. Eros operando novamente... Não posso me queixar: fiz o mesmo com a família da mãe dela!
Destruo a vida de uma vaca (eu, não, que os bifes vêm do supermercado), corto-a em pedacinhos, queimo-a parcialmente e ainda a trituro com gosto entre os dentes. Seus tijolinhos de aminoácidos vão se juntar na construção de meus músculos. Você não imagina quantas palavras eu destruí (“deletei”, do latim delendere, que significa “destruir”) para escrever este texto. Você se encanta ao ver uma catedral em mármore. Vá dar uma olhada na pedreira de onde ela saiu. Na Austrália é necessário matar uma série de animais que, por seu surto de “construção”, destruíram plantações e outras espécies, ameaçando a humana. Um estímulo à reflexão dos que pensam que ecologia é ter peninha de bichos e plantas.
Portanto vida e morte, construção e destruição fazem parte de nossa natureza e são necessárias à nossa existência.

(Daudt, Francisco - A natureza humana existe: e como manda na gente)

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publicado às 17:52


EREÇÃO E SEUS PERCALÇOS

por Thynus, em 14.09.15
Diferentemente das mulheres, um homem não pode ser forçado ao congresso carnal com uma jovem que lhe encoste um revólver nas têmporas. Seu genital, ao invés de se animar, encolherá. Um verdadeiro banho de água fria. Assim a seleção natural nos preparou para a luta ou para a fuga (prefiro a última) diante de uma ameaça.
Mas então, o que anima nossas partes? “Esse obscuro objeto do desejo”, como o chamou Buñuel. Não estou falando de um adolescente em quem o simples balanço de um ônibus é capaz de produzir embaraços. Mas quando a idade avança, é o desejo quem manda. Qualquer homem que tentou comandar sua ereção, fê-lo debalde, pois o membro teima em desobedecer-lhe, animando-se quando não devia, desanimando-se quando ele mais precisava.
O desejo. Não confundir com a vontade. Ele é obscuro porque se trata de um iceberg imenso, com 10% visíveis (a vontade) e 90% imersos no oceano do inconsciente. São estes que comandam, com sua extrema complexidade, o resultado final.
Considere o exibicionista da capa de chuva. Ele goza com sua nudez mostrada? Não. O objeto de seu desejo é o horror pudico demonstrado pela vítima. Atualmente correria o risco de ser alvo de chacota, “Tudo isso para mostrar essa coisinha?”, e sua ereção desabaria. Não à toa ele saiu de moda.
Mas há nele um denominador comum com o desejo masculino: se a manobra der certo, ele estará no comando, portanto não se sentindo ameaçado. “As deusas são sempre malcomidas, porque nos ameaçam”, é uma crença masculina generalizada.
Quando jovens, nossa musa romântica nunca era parte de devaneios masturbatórios, mas sim as degradadas, que não ameaçavam e podiam ser tão sacanas quanto nós. As outras, coitadas, ficavam prisioneiras de sua santidade. Por isso o bom cafajeste é aquele que permite à mulher ser sexuada, não considera nenhuma como santa, eis o segredo de seu sucesso. A ameaça que impede a ereção se parece com a inibição de urinar, que muitos homens sofrem quando no banheiro do cinema, aquela fila impaciente atrás a lhes cobrar que se despachem. Imagine a profissional dizendo: “Como é, meu filho, vamos logo...”
O fetiche (que vem de “feitiço”) é o truque de despersonalizar a mulher, para tirar a possível ameaça de ter que levá-la em conta. “Se veste de enfermeira para mim?”, equivale a “Deixe de ser você, para eu não ter medo”. “Quando ela espirrou, eu brochei” (a pessoa apareceu, quebrou-se o feitiço).
Falhou na hora H? Veja respostas par 10 dúvidas comuns
 
Afora o Ziraldo, que proclama nunca ter sofrido essa desdita, todos nós outros brochamos, em algum momento. O sucesso do Viagra vem da ilusão de mandar na ereção. “Mas então não há homens que transam com mulheres sem precisar de truques?” Claro que os há, tanto que os segundos e terceiros encontros, quando o casal ganha mais intimidade, são muito melhores do que os primeiros. Mesmo assim, os orgasmos são comumente frutos de passeios mentais (serve para ambos os gêneros), que só em alguns momentos envolvem a pessoa com quem se está. O passeio na complexidade de nosso desejo.
Enfim, cobrar sexo de um homem é um tiro no pé.

(Daudt, Francisco - A natureza humana existe: e como manda na gente)

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publicado às 17:28


O Padre

por Thynus, em 13.09.15
Um diabo jovem vem correndo até seu chefe. Está tremendo e diz ao diabo velho:
– Algo tem que ser feito imediatamente, porque na Terra um homem encontrou a verdade! E depois que o povo souber a verdade, o que vai acontecer com a nossa profissão?
O diabo velho riu e então disse:
– Sente-se, descanse e não se preocupe. Está tudo providenciado. Nosso pessoal já chegou lá.
– Mas – disse ele – eu vim de lá. E não vi um único diabo lá.
O velho argumentou:
– Os padres fazem parte do meu povo! Já cercaram o homem que encontrou a verdade. Agora eles vão se tornar mediadores entre o homem da verdade e as massas. Vão levantar templos, vão escrever escrituras, vão interpretar e distorcer tudo. Vão pedir às pessoas para adorar e orar. E em todo esse burburinho a verdade vai ser perdida! Este é o meu método antigo, e que sempre fez sucesso.
Os padres que representam a religião não são amigos desta. São os maiores inimigos da religião, porque a religião não precisa de mediadores, uma vez que entre o homem e a existência há uma relação imediata. Tudo o que se deve aprender é como compreender a linguagem da existência. As linguagens do homem são conhecidas, mas não são as linguagens da existência. A existência conhece apenas uma linguagem, que é a do silêncio. Aquele que também puder ficar em silêncio será capaz de compreender a verdade, o sentido da vida, o significado de tudo o que existe. E não há ninguém que possa interpretar isso para as pessoas. Todos têm que encontrar a verdade por si mesmos, ninguém pode fazer o serviço por eles. No entanto, é isso que os padres vêm fazendo há séculos.
Mantêm-se de pé, como a Muralha da China, entre o homem e a existência. Há apenas alguns dias o Vaticano, na pessoa do papa, informou a todos os católicos: “Tenho sido informado, repetidas vezes, que muitos católicos estão se confessando a Deus diretamente. Não estão se dirigindo ao confessionário, ao padre. Declaro a confissão diretamente a Deus como um pecado. Vocês têm que se confessar com o padre, não podem se relacionar com Deus diretamente.”
Não deu qualquer razão para tal, porque não há razão alguma, exceto o fato de o padre ter que manter sua profissão e de ele próprio ser um sumo sacerdote. Se as pessoas começam a se aproximar da realidade sem que ninguém as lidere, sem que ninguém lhes diga o que é bom e mau, sem que ninguém lhes dê um mapa que tenham que seguir, milhões de pessoas serão capazes de compreender a existência, pois o batimento cardíaco do ser humano também é o batimento cardíaco do universo, a vida do ser humano faz parte da vida do universo. O homem não é um estranho nem vem de algum outro lugar, o homem cresce dentro da existência. Ele é parte da existência, parte essencial da existência. Precisa apenas permanecer em silêncio, o suficiente para que possa ouvir aquilo que não pode ser dito em palavras: a canção da existência, a imensa alegria da existência, a constante celebração da existência.
Depois que isso começa a penetrar em seu coração, vem a transformação. Essa é a única maneira de alguém se tornar religioso, não é frequentando igrejas, que são feitas pelo homem, não é pela leitura das escrituras, que também são feitas pelo homem.
Porém, os padres fingem que suas escrituras sagradas são escritas por Deus. A própria ideia é simplesmente idiota! Basta examinar essas escrituras: não se encontra nenhuma assinatura de Deus. Encontra-se coisas que não haveria razão para Deus escrever. Os hindus creem nos Vedas e acreditam que foram escritas pelo próprio Deus. Os Vedas são os livros mais antigos da existência, mas nenhum hindu se dá o trabalho de analisá- los. Se Deus os escreveu, há de ser algo extremamente valioso, mas 98% dos Vedas são apenas lixo, e é tão lixo que prova que não são escritos por Deus. Por exemplo, uma oração realizada por um padre... por que Deus haveria de escrevê-la? E a oração consiste em suas vacas que não estão dando leite suficiente: “Tenha piedade de mim, aumente o leite das minhas vacas.” E não é só isso, aqui continua: “Reduza o leite das vacas de todos os outros!” Deus vai escrever isso? “Mate meus inimigos e ajude meus amigos.” E até mesmo essas coisas estúpidas como: “As chuvas estão chegando, cuide para que toda a água alcance os meus campos e evite o campo da vizinhança, porque pertence ao meu inimigo. Apenas regue sua água no meu campo.” Por que Deus deveria escrever essas coisas? Todas as escrituras dão evidências intrínsecas de que são escritas pelos homens, e homens muito estúpidos, homens primitivos.
As chamadas escrituras sagradas não são nem mesmo consideradas como boa literatura, uma vez que são infantis, brutas, feias, porém, em função de estarem escritas em línguas mortas... E algumas estão em línguas que nunca estiveram em uso por pessoas comuns, como, por exemplo, os Vedas. Essa língua nunca foi usada pelas pessoas comuns, era a língua dos brâmanes, a língua dos sacerdotes. E estes foram muito relutantes à tradução, porque sabiam que, depois que fossem traduzidos, os Vedas perderiam toda a santidade. As pessoas vão ver que esse absurdo não é sequer profano, que dirá sagrado!
Tanta obscenidade, tanta pornografia é o que se encontra nas escrituras sagradas de todas as religiões. Entretanto, estão escritas em sânscrito, que não é usado por pessoas comuns; em árabe, que não é usado por pessoas comuns; em hebraico, que não é usado por pessoas comuns; em pali, em prakrit… Essas línguas estão mortas! E todas as religiões relutam em ter suas escrituras sagradas editadas em línguas modernas, que as pessoas entendam. No entanto, apesar da relutância, as escrituras sagradas têm sido traduzidas. Primeiro, eram contra a impressão das escrituras, depois, ficaram contra sua tradução. A única razão era que sabiam que, depois que fossem impressas, as escrituras seriam vendidas no mundo inteiro, qualquer pessoa poderia comprá-las. E se forem traduzidas para línguas vivas, então, quanto tempo é possível esconder a verdade? E como vai se provar que foram escritas por Deus? As escrituras são feitas pelo homem, as estátuas de Deus são feitas pelo homem, os templos e as igrejas são feitos pelo homem, mas milhares de anos de condicionamento deram a esses feitos um certo caráter sagrado, uma certa santidade. E não há nada de sagrado neles, nada de santo neles.
Os padres, mais do que ninguém, têm enganado o homem. Esta é a pior profissão do mundo, pior até do que a profissão das prostitutas. Pelo menos a prostituta dá às pessoas algo em troca, enquanto que o padre lhes dá apenas ar quente, o padre não tem nada para oferecer. E isso não é tudo: sempre que alguém percebeu a verdade, esses padres ficaram contra ele. É óbvio que têm que ficar contra, afinal, se a verdade for reconhecida pelas pessoas, milhões de padres no mundo vão ficar desempregados. E seu emprego é completamente improdutivo. Eles são parasitas, se mantêm sugando o sangue do homem. A partir do momento em que a criança nasce, até que entre no túmulo, o padre está sempre encontrando maneiras de explorá-la.
A menos que a religião seja libertada das mãos dos padres, o mundo permanecerá apenas com uma pseudorreligião, que não vai nunca se tornar uma religião. E um mundo religioso não pode ser assim tão sofrido, o mundo religioso deve ser uma constante celebração.
Um homem religioso não é nada além de puro êxtase. Seu coração é cheio de canções. Seu ser, por inteiro, está pronto para dançar a qualquer momento. Mas o padre levou embora a busca pela verdade, dizendo que não há necessidade de busca, que a verdade já foi encontrada, e que o homem tem apenas que ter fé. O padre faz as pessoas sofrerem, porque condena todos os prazeres do mundo. Condena os prazeres do mundo para que ele possa louvar os prazeres do outro mundo. O outro mundo é a sua obra de ficção. E quer que a humanidade sacrifique sua realidade em prol de uma ideia fictícia, e as pessoas a sacrificam.

(Osho - O livro dos homens)

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publicado às 22:59


SENTIMENTO DE CULPA

por Thynus, em 13.09.15
“Se Deus não quisesse que nós nos masturbássemos, teria feito os nossos braços mais curtos.”
(Robin Williams)
 

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Que nós nascemos com a capacidade de sentir culpa, é certo. Até cães vêm com esse programa. É velha a expressão “cara de cachorro que quebrou a panela”. De fato, depois de um óbvio “malfeito”, lá vem ele com a cabeça baixa e as orelhas murchas a tentar nos lamber, a nos pedir perdão.
O sentimento de culpa mistura vergonha com arrependimento e supõe certa integridade moral de quem o tem. É sabido que os psicopatas passam-lhe ao largo, apesar de a ele não serem indiferentes. Ao contrário, desafiam-no.
Mas é principalmente uma crença cultivada por culturas controladoras, que vai sendo absorvida pelo programa superego (aquele crítico que carregamos no cérebro) até se tornar parte de nossa identidade. É um caso de “identificação por imposição”.
Lembro-me bem que as regras da Igreja católica para categorizar algo como pecado incluíam pleno conhecimento da transgressão, livre-arbítrio para fazê-la e um momento de “dane-se, vou fazer”.
Se nós fôssemos bem atentos ao catecismo (e soubéssemos nossa taxa de livre-arbítrio), não seríamos tão assíduos ao confessionário. Mas à instituição, não interessava nem um pouco a discussão dos meios, pois ela lucrava e prosperava com a culpa: o bobalhão acreditava no seu livre-arbítrio, desconsiderava sua explosão hormonal da adolescência e considerava-se criminoso por ter se masturbado ou mesmo por pensamentos contra a castidade. Confessava seu crime. O padre, pelo ato da absolvição e pela penitência imposta, endossava que havia crime de fato, e lá ia o jovem, livre para pecar outra vez.
Ouvi dizer que a Igreja não considera mais a masturbação como pecado mortal. Numa festa do colégio Santo Inácio em que me formei, apresentei esta questão ao nosso antigo padre prefeito: “E aqueles que morreram em pecado antes da mudança da lei? Queimam no inferno assim mesmo?” Ele, que não tinha cacife intelectual para uma resposta teológica, e pressionado pela gargalhada dos colegas, disse-me que eu já havia bebido vinho o bastante.
Fato é que, como instrumento de dominação, a nossa espécie não inventou arma melhor. A Igreja usa e abusa dela, e se mantém por dois mil anos. Você pode fazer com que uma pessoa se ajoelhe, submissa, sob a mira de um revólver. Mas, se ela tiver oportunidade, revidará. Uma vez sentindo-se culpada, a pessoa implora para se ajoelhar diante de você. Imbatível!
A coisa ficou séria quando a esquerda descobriu que podia fazer os trabalhadores prósperos se sentirem culpados por sua riqueza. Em nome desse grave pecado (a prosperidade, que vem de “explorar humildes”), jogam sobre quem ganha seu dinheiro honestamente impostos escorchantes, camuflados ou não (os camuflados tiram dos humildes, que ironia). São penitências atuais.
É secundário se os impostos forem para perpetuar seu esquema de poder, em vez de reverterem para segurança, saúde e educação. O importante é dominar. O mesmo vale para as compensações exigidas pelas minorias massacradas por nossos ancestrais, sejam elas quilombolas ou índios.
Você viu, a grande defesa do mensalão foi que ele não era em proveito próprio, mas na busca de uma sociedade mais igualitária, para ressarcir os coitadinhos. E o pior: há multidões que acreditam nessa culpa, pois, coitadas, têm “certa integridade a defender”.
Mesmo que o sentimento de culpa seja uma capacidade da natureza humana, se ele for cultivado pela sua família, ou por sociedades (civis, políticas ou religiosas), fique sabendo que estão usando dele para te controlar.

(Daudt, Francisco - A natureza humana existe: e como manda na gente)
A culpa aprisiona o indivíduo, que se mantém voltado para o passado e a um papel de vitima dosoutros e das circunstâncias

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publicado às 20:00

 
Hoje temos ampla liberdade de organização partidária e de expressão. Mas 
a rádio e a TV pertencem a grupos empresariais que as abrem pouco ao contraditório,
ao diálogo. Nossa discussão política é fraca. A manipulação do eleitorado,
pelo poder de Estado e do capital, é frequente. Os poderes constitucionais
e o quarto poder, a imprensa, entendem melhor os direitos proprietários do 
que os outros. Daí que a prioridade de nossa democratização 
esteja nos direitos políticos e nos sociais, em que mais somos deficitários.
(Renato Janine Ribeiro - A Democracia)
 
Se o ouro é a primeira potência desse mundo, a segunda é a
imprensa. Convém que os nossos presidam a direção de
todos os jornais, em todos os países. U ma vez donos
absolutos da imprensa, poderemos mudar a opinião pública
sobre a honra, a virtude e a retidão, e desfechar o primeiro
assalto à instituição familiar. S imulemos o zelo pelas
questões sociais que estão na ordem do dia. Convém
controlar o proletariado, inserir nossos agitadores nos
movimentos sociais para poder sublevá-los quando
desejarmos, impelir o operário às barricadas e às revoluções,
e cada uma dessas catástrofes nos aproximará do nosso
único fim: o de reinar sobre a Terra, como foi prometido ao
nosso primeiro pai, Abraão. E ntão, nossa potência crescerá
como uma árvore gigantesca, cujos ramos trarão os frutos
que se chamam riqueza, gozo, felicidade e poder, a fim de
compensar a condição odiosa que, por longos séculos, foi a
única sorte do povo de Israel.
Assim terminava, se bem me lembro, o relatório sobre o
cemitério de Praga.
(Umberto Eco - O Cemitério de Praga)
 
 
Montesquieu e o quarto poder
... Há muito mais a se dizer em favor da força física do público do que em favor da opinião do público. Aquela pode ser excelente. Esta última deve ser forçosamente tola. É costume dizer que força não é argumento. Isto, no entanto, depende tão só do que se queira provar. Muitos dos mais importantes problemas dos últimos séculos, como o da continuidade do absolutismo na Inglaterra, ou do feudalismo na França, foram solucionados quase que exclusivamente por meio da força física. A própria violência de uma revolução pode tornar o público sublime e esplêndido por um momento. Foi um dia fatal aquele em que o público descobriu que a pena é mais poderosa que as pedras da rua, e que seu uso pode tornar-se tão agressivo quanto o apedrejamento. Procurou imediatamente pelo jornalista, o encontrou e aperfeiçoou, e fez dele seu servo diligente e bem pago. É de lamentar por ambos. Atrás das barricadas, muito pode haver de nobre e heroico. Mas o que há por trás de um artigo de fundo senão preconceito, estupidez, hipocrisia e disparates? E esses quatro elementos, quando reunidos, adquirem uma força assustadora e constituem a nova autoridade.
Antigamente, os homens tinham a roda de torturas. Hoje têm a Imprensa. Isto certamente é um progresso. Mas ainda é má, injusta e desmoralizante. Alguém – teria sido Burke? – chamou o jornalismo de o quarto poder. Isto na época sem dúvida era verdade. Mas hoje ele é realmente o único poder. Devorou os outros três. Os Lordes temporais nada dizem, os Lordes espirituais [Membros da Câmara dos Lordes, ou dos Pares, divisão superior do Parlamento inglês. Os lordes temporais são os que ocupam o direito e a cadeira por princípios de hereditariedade; os espirituais (bispos e arcebispos) são nomeados vitaliciamente.] nada têm a dizer, e a Câmara dos Comuns nada tem a dizer e o diz. Estamos dominados pelo Jornalismo. Nos Estados Unidos, o Presidente reina por quatro anos e o Jornalismo governa para todo o sempre. Felizmente, nesse país, o Jornalismo levou sua autoridade ao extremo mais flagrante e brutal e, como decorrência lógica, começou a gerar um espírito de revolta: ou diverte ou aborrece as pessoas, conforme seu temperamento.
Mas deixou de ser a força real que era. Não é levado a sério. Na Inglaterra, o Jornalismo, com exceção de alguns poucos exemplos bem conhecidos, não tendo atingido esses excessos de brutalidade, permanece ainda um fator de grande significado, um poder realmente notável. Pareceme descomunal a tirania que ele se propõe exercer sobre nossas vidas privadas. O fato é que o público tem uma curiosidade insaciável de conhecer tudo, exceto o que é digno de se conhecer.
O Jornalismo, ciente disso, e com vezos de comerciante, satisfaz suas exigências. Em séculos passados, o público expunha as orelhas dos jornalistas no pelourinho. O que era horrível. Neste século, os jornalistas ficam de orelha em pé atrás das portas. O que é ainda pior. O mal é que os jornalistas mais culpados não estão entre aqueles que escrevem para o que se chama de coluna social. O dano é causado pelos jornalistas sisudos, graves e circunspectos que trarão, solenemente, como hoje trazem, para diante dos olhos do público, algum incidente na vida privada de um grande estadista, de um homem que é assim um líder do pensamento político como criador de força política. Convidarão o público a discutir o incidente, a exercer autoridade no assunto, a externar seus pontos de vista, e não somente a externá-los, mas a colocá-los em ação, a impô-los àquele homem sobre todos os outros argumentos, a impor ao partido e à nação dele; convidarão, enfim, o público a se tornar ridículo, agressivo e perigoso. A vida particular dos homens ou das mulheres não deveria ser revelada ao público. Este não tem nada absolutamente a ver com ela. Na França há um controle maior nesses assuntos. Lá não se permite que pormenores dos julgamentos que se realizam nos tribunais de divórcio sejam divulgados para entretenimento ou crítica do público. Tudo que se lhe permite saber é que houve o divórcio e que foi concedido a pedido de uma ou outra parte envolvida, ou de ambas. Na França, com efeito, limitam o jornalista, e concedem ao artista quase que completa liberdade. Aqui, concedemos liberdade absoluta ao jornalista e limitamos inteiramente o artista. A opinião pública inglesa, por assim dizer, procura tolher, cercear e submeter o homem que cria o Belo efetivamente, e compele o jornalista a recontar o factualmente feio, desagradável ou repulsivo; de modo que temos os mais sisudos jornalistas do mundo e os jornais mais indecentes.
Não há exagero em se falar em compulsão. Há positivamente jornalistas que têm verdadeiro prazer em publicar coisas horríveis, ou que, por serem pobres, veem nos escândalos uma fonte permanente de renda. Mas não tenho dúvidas de que há outros jornalistas, homens de boa formação e cultura, a quem realmente desagrada publicar esse tipo de assunto, homens que sabem ser errado agir assim e, se assim agem, é apenas porque as condições doentias em que exercem sua profissão os obriga a atender o público no que o público quer, e a concorrer com outros jornalistas para que esse atendimento satisfaça o mais plenamente possível o grosseiro apetite popular. É uma posição muito degradante para ser ocupada por qualquer desses homens, e não há dúvida de que a maioria deles percebe isso sensivelmente.

(Oscar Wilde - A Alma do homem sob o Socialismo)

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publicado às 01:47

Viver é tornar acreditável o amor; é vingar o homem, amando
(Abbé Pierre)
 
O propósito mais duradouro da humanidade sempre foi o de produzir mais humanidade. A certa altura, isso significou ter tantos filhos quanto possível, mas a quantidade de cuidados dispensados aos filhos veio a importar mais que o número deles. Hoje em dia a humanidade é, acima de tudo, um ideal de ternura e bondade, estendendo-se a qualquer idade e a qualquer ser vivo. Os primeiros rumores dessa mudança histórica ecoaram há muitos séculos, e agora grandes partes do mundo são sacudidas por eles.
Imaginar a forma que um renascimento viria a ter sobre tais bases foi difícil, porque as pessoas nunca foram capazes de uma visão nova do futuro sem primeiro rever sua ideia do passado.
 
(...) Vejo a humanidade como uma família que raramente tentou se encontrar. Vejo o encontro de pessoas, corpos, pensamentos, emoções ou ações como o princípio de mudanças maiores. Cada vínculo criado por um encontro assemelha-se a um filamento que, se fosse inteiramente visível, faria o mundo parecer recoberto de fios de teia de aranha. Todo indivíduo está ligado a outros, de maneira mais frouxa ou mais tensa, por uma singular mistura de filamentos, que se distendem através das fronteiras do espaço e do tempo. Todo indivíduo reúne lealdades passadas, apresenta necessidades e visões do futuro numa teia de contornos diferentes, com ajuda de elementos heterogêneos tomados de empréstimo a outros indivíduos; e esse constante intercâmbio constitui o principal estímulo da energia da humanidade. Quando as pessoas se vêem como fatores de influência entre si, já não são meras vítimas: qualquer uma, por mais modesta que seja, se toma então capaz de estabelecer uma diferença, por mais ínfima e fugaz, para modelar a realidade. Atitudes novas não são promulgadas por lei, mas se espalham, quase como uma infecção, de uma pessoa para outra.
O debate sobre como se conquistar uma vida melhor, se mediante o esforço individual ou pela ação coletiva, perdeu o sentido, porque não passa de dois lados da mesma moeda. É difícil fazer tudo sem ajuda ou inspiração de fora. As lutas individuais foram, simultaneamente, lutas coletivas. Todos os grandes movimentos de protesto contra o menosprezo, a segregação e a exclusão envolveram um número infinito de atos pessoais dos indivíduos, provocando no todo uma pequena mudança pela qual aprendem um do outro, e pela qual tratam os demais. Sentir-se isolado é não ter consciência dos filamentos que ligam uma pessoa ao passado e a partes do mundo onde jamais esteve.
A era da descoberta mal se iniciou. Até aqui, os indivíduos gastaram mais tempo tentando compreender a si mesmos do que descobrindo os outros. Mas agora a curiosidade se expande como nunca. Até aqueles que jamais puseram os pés fora da terra em que nasceram são, nas suas imaginações, imigrantes perpétuos. Conhecer alguém em todos os países do mundo, e alguém em cada volta da vida, poderá tomar-se, em breve, uma exigência mínima de pessoas que desejam experimentar plenamente o que significa estar vivo. O mundo entrelaçado por íntimos filamentos está separado em variados graus do mundo territorial em que as pessoas são identificadas pelo lugar onde moram e trabalham, por aquelas a quem têm de obedecer, pelos passaportes ou saldos bancários. A ascensão do cristianismo e outros movimentos religiosos do Império Romano é um exemplo de uma nova teia se espalhando por sobre uma civilização apodrecida; ainda que, na aparência, imperadores e exércitos continuassem a dar ordens como se nada houvesse mudado, os indivíduos, sentindo que as instituições oficiais tinham perdido a relevância em face de suas necessidades, buscaram consolo entre si. Hoje, uma reviravolta idêntica de atenção está ocorrendo: a terra está nos primeiros estágios de ser recoberta por fios invisíveis unindo os indivíduos que diferem entre si, segundo todos os critérios convencionais, mas que descobrem aspirações em comum. Quando as nações se formaram, todos os fios estavam destinados a se encontrar num ponto central; agora já não existe centro; as pessoas são livres para se encontrar onde bem quiserem.
Mesmo que todo mundo encontre as pessoas com que sonha, isso não significa o desaparecimento súbito dos descontentes. Almas gêmeas, muitas vezes, tiveram histórias trágicas. Encontrar Deus não evitou pessoas piedosas de se tornarem cruéis em Seu nome. Amizades se deterioram frequentemente em rotinas estéreis. A maior parte das vidas se paralisa no começo da vida adulta, após o que novos encontros não trazem novidade alguma. Os que mais sofreram desse tipo de desenvolvimento travado se dedicaram ao crime, que é a bancarrota final da imaginação.
A imaginação, todavia, não está condenada à fossilização. A descoberta mútua leva pessoas a cuidarem uma da outra tanto quanto de si mesmas. Ser útil ao próximo tem sido reconhecido, ocasionalmente, como um prazer mais profundo e satisfatório do que o exercício permanente do egoísmo, embora tal prazer se torne a cada dia mais delicado, estorvado por sensibilidades cada vez mais complicadas. Algumas relações estabelecidas ultrapassam a crença de que os seres humanos sejam basicamente animais, ou máquinas, ou inválidos crônicos que necessitam de permanente atenção médica. Mas a arte do encontro está apenas na infância.
Uma nova era envolve sempre uma nova categoria de herói. No passado, os seres humanos admiraram heróis porque tinham uma opinião fraca de si mesmos, poucos se julgando pessoalmente capazes de agir com heroísmo; mas também vieram a desmascarar seus heróis, um após outro, como simulacros, e a maior soma de esforços para inventar novos tipos de heróis acabou em decepção. O herói de Maquiavel era por demais insensível. O de Gracian pecava pela pretensão exagerada. O ídolo romântico tinha encanto pessoal, mas levou a sensibilidade ao ponto da auto tortura. O Super operário Herói da União Soviética não tardou a se sentir enganado. Heróis foram outrora conquistadores, mas subjugar já não é admirável, e os que comandam valem agora menos que os encorajadores. O êxito numa carreira já não basta para fazer de alguém um herói, porque a vida privada passou a valer tanto quanto a vida pública. A religião ainda pode inspirar alguns entusiastas a serem mártires, mas pouquíssimos preferem ser santos. O orador carismático e o líder revolucionário são vistos, a cada dia, com maior suspeita, pois o mundo está farto de promessas nãocumpridas e prefere alguém que ouça.
“Feliz o país que dispensa heróis”, disse Brecht. Não, sua falta será sentida se desaparecerem. Mas um número exagerado deles se fez passar por deuses: houve uma escassez de heróis modestos. Por isso, os anti-heróis foram inventados; eles jamais poderiam decepcionar. Ser herói hoje não significa criar um padrão para outros seguirem, porque o relacionamento ideal requer que cada parceiro seja mantido vivo pelo outro: heróis devem ser capazes tanto de receber quanto de dar, já que a influência em mão única pode se tomar desanimadora ou corruptora. Para tirar benefício de um herói, deve-se ter um pouco dele; deve-se ter coragem; a relação heróica é uma troca de coragem. Os heróis precisam ser intermediários que abrem o mundo para outros. Ser um intermediário que não engana está ao alcance de qualquer pessoa. Não basta contar somente com as minúsculas junções dos encontros pessoais.
Tornou-se possível, como nunca antes, prestar atenção ao que está acontecendo em cada canto do globo. Todos os seres humanos têm um horizonte pessoal, além do qual normalmente não ousam olhar. Mas, ocasionalmente, se aventuram mais longe, e então sua forma habitual de pensar fica inadequada. Hoje em dia eles se conscientizam, cada vez mais, da existência de outras civilizações. Em tais circunstâncias, velhos problemas assumem aparência nova, porque são revelados como partes de problemas mais complexos. A mudança de foco, das disputas nacionais para o humanitarismo amplo e as preocupações ambientais, são sinal da urgente necessidade de escapar de antigas obsessões, de manter à vista todas as dimensões diferentes da realidade e de enfocar simultaneamente o pessoal, o local e o universal.
A justiça - o mais velho sonho da humanidade - continua ilusória porque a arte de fazer justiça começa aos poucos a ser aprendida. Nos tempos antigos, a justiça era cega, incapaz de reconhecer a humanidade que está em todo mundo. Nos tempos modernos, tornou-se caolha, centrada estreitamente no princípio da impessoalidade, impondo as mesmas regras sobre todos, a fim de evitar o nepotismo e o favoritismo, mas incapaz de observar o que as pessoas sentem quando tratadas de maneira impessoal e fria, ainda que com justiça ou eficiência. Impessoais compensações monetárias do estado de bem-estar social não foram capazes de cicatrizar as feridas da injustiça, porque nada pode compensar de forma adequada uma vida desperdiçada, sobretudo quando, como acontece mesmo nos EUA, que estudaram a eficiência até os últimos limites, ela toma 7 dólares de impostos para pôr 1 dólar adicional de renda em mãos de uma pessoa pobre. Somente com os dois olhos abertos é possível ver que os seres humanos sempre necessitaram não apenas de comida e abrigo, saúde e educação, mas também do trabalho que não destrói a alma e de relacionamentos que fazem mais que expulsar a solidão; os seres humanos precisam ser reconhecidos como pessoas. Este livro é uma história de pessoas.
A humanidade só pode dar uma impressão satisfatória de rumo certo quando calcular suas realizações com a ajuda de uma economia que se refira às pessoas como estas de fato são, que incorpore comportamentos irracionais e altruístas em seus cálculos, que não parta do pressuposto de que as pessoas são sempre e fundamentalmente egoístas e que compreenda, por fim, que o êxito, mesmo no mundo material, não é obtido pelo empenho exclusivo no interesse egoísta. Esta economia de dois olhos está em vias de nascer, como também a política de dois olhos, preocupando-se não apenas em conceder vitória à maioria, mas em oferecer aos perdedores vitórias alternativas mutuamente aceitáveis, estimulando, sem ciúme, o cultivo de lealdades múltiplas.
A religião sempre utilizou dois olhos, essencialmente universais, abrangendo tanto o material quanto o espiritual, equilibrando salvação pessoal e interesse pelos outros, embora muitos crentes tenham preferido ter um olho só e nada mais ver além de sua verdade. No século XII, Maimônides disse que os seres humanos podiam contar com o céu, quaisquer que fossem suas crenças teológicas, desde que se comportassem com decência, aceitando as “Sete Leis de Noé”, que foi o pai de todos quando “a Terra inteira tinha apenas uma língua e uma fala”. Essas leis nada mais exigiam além do respeito ao próximo; os judeus concordavam que um muçulmano ou um cristão poderia ser “uma pessoa direita”. A essência universal da religião é redescoberta sempre que se lembra que a doutrina divide enquanto a ação une; ou que ying e yang não são opostos, mas sim interagentes; ou que a devoção hindu (bhakti) envolve o aprendizado da arte de ouvir e ser amigo; ou, como o rabino de Varsóvia declarou antes de sua comunidade ser aniquilada, que ninguém está sozinho - yahid (solitário) e yahad (juntos) estão separados apenas por uma letra. Descobrir compatibilidades através das fronteiras do dogma é o próximo item na agenda dos crentes e descrentes que não desejam ser confundidos pelas diferentes metáforas que cada sistema de crenças adota. Os fantasmas do passado podem ser postos no trabalho útil sem precisar causar estragos.
Enquanto cada segmento da humanidade, esquecendo que a busca do respeito é uma preocupação universal, exigi- lo somente para si, os resultados serão medíocres, como foram no passado. Os métodos tradicionais de agitação, legislação e infiltração vagarosa nas posições do poder nunca foram suficientes para mudar mentalidades. As mulheres abrindo caminho em profissões antes fechadas, geralmente se obrigam a aceitar as regras dos que estão no poder, os quais fazem concessões na suposição de que os recém-chegados irão jogar, mais ou menos, da maneira como se jogou sempre. Ademais, a independência econômica, o direito de trabalhar e de receber salário igual, não constituem fins em si mesmos, mas um meio voltado para uma vida mais completa, que a maior parte dos empregos não está destinada a estimular. Além da luta pelo poder, jaz a possibilidade de conquistar-se o respeito próprio ajudando os outros a se respeitarem mutuamente.
Tentei fornecer uma base onde salientar não uma retirada dos assuntos públicos para uma auto-obsessão particular, mas uma consciência do que é mais legitimamente público, o que os seres humanos compartilham. O que é único acerca da época atual é que a humanidade nunca esteve tão consciente da supremacia de suas preocupações íntimas, nem as exprimiu de forma tão franca, em quase todas as partes do mundo.
A busca do que temos em comum, apesar das nossas diferenças, nos enseja um novo ponto de partida.
“MINHA VIDA É UM FRACASSO.” Foram estas as palavras com que iniciei este livro, e agora o encerro com a história de um assassino que repetiu esta frase muitas vezes, até que um dia …
Meio minuto basta para transformar uma pessoa aparentemente comum num objeto de ódio, um inimigo da humanidade. Ele cometeu um homicídio e foi condenado à prisão perpétua. Depois, na sua cela desolada, meio minuto foi o suficiente para transformá-lo outra vez, agora em herói. Salvou a vida de um homem e foi perdoado. Mas ao chegar em casa encontrou a mulher vivendo com outro, além do que a filha nada sabia a seu respeito. Não o queriam, de modo que ele decidiu morrer.
Sua tentativa de suicídio também fracassou. Um padre chamado à beira do seu leito disse-lhe: “Sua história é terrível, eu nada posso fazer para ajudá-lo. Tenho família rica, mas renunciei à herança e fiquei apenas com dívidas. Gastei tudo que tinha em abrigos para os desamparados. Nada lhe posso dar. Você quer morrer e nada pode detê-lo. Mas, antes de se matar, me dê uma ajuda. Depois, faça como quiser.” Aquelas palavras mudaram o mundo do assassino. Alguém precisava dele: afinal não era uma pessoa supérflua e dispensável. Concordou em ajudar. E o mundo nunca voltou a ser o mesmo para o monge, que se sentia até então esmagado pelo acúmulo de sofrimento ao seu redor, e cujos esforços para minorá-lo quase não faziam diferença. O encontro casual com o criminoso deu-lhe a ideia que iria modelar todo o futuro: diante de uma pessoa na maior depressão, nada lhe pudera dar, mas, ao contrário, lhe pedira auxílio. Mais tarde o criminoso disse ao monge: “Se você tivesse oferecido-me dinheiro, ou um quarto para morar, ou um emprego, eu teria reiniciado minha vida de crimes e matado outra pessoa. Mas você precisou de mim.” Eis como nasceu o movimento de Emaús, do Abade Pierre, em benefício dos miseráveis: de um encontro entre duas pessoas totalmente diferentes, que acenderam uma luz no coração uma da outra. Esses dois homens não eram almas gêmeas no sentido comum, na significação romântica das palavras e, no entanto, cada um deles deve ao outro o sentido de direção que lhes guia a vida até hoje.

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Todos têm o poder, com um pouco de coragem, de estender a mão a um estranho, de ouvir e de tentar aumentar, ainda que em pequeníssima proporção, a soma de bondade e de humanidade no mundo. Mas não adianta agir assim sem lembrar que esforços anteriores falharam e que nunca foi possível prever com certeza como se comportará um ser humano. A história, com sua infindável procissão de passantes, que em sua maioria perderam a oportunidade de encontros esclarecedores, caracterizou-se, até aqui, como uma crônica do pendor para o desperdício. Mas, na próxima vez em que duas pessoas se encontrarem, o resultado talvez seja diferente. Esta é a origem da ansiedade, mas também da esperança, e a esperança é a origem da humanidade.


 (Theodore Zeldin - Uma história íntima da humanidade)

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A vida é um intervalo finito de duração indefinida. A combinação desses dois elementos — a certeza da finitude e a indeterminação do caminho até ela — acarreta um mundo de implicações e possibilidades. O futuro nos interroga. A vida é breve, os dias se devoram e nossas capacidades são limitadas. A cada passo da jornada, com maior ou menor ciência e grau de deliberação, escolhas têm de ser feitas. Que peso atribuir ao futuro próximo e remoto diante dos apelos, acenos e premências do momento? O que valeria a pena escolher — pôr “mais vida em nossos anos” ou (quiçá) “mais anos em nossas vidas”? Como projetar os valores e desígnios de nossa existência para além de nossa finitude? O que nos aguarda, se é que algo humanamente inteligível, do lado de lá, isto é, do outro lado dessa misteriosa trama para a qual fomos chamados sem consulta prévia e da qual seremos, em hora incerta, compelidos a sair?
A origem da finitude biológica, tal como a conhecemos, tem endereço certo na história natural dos seres vivos: a reprodução sexuada.1 No princípio era a imortalidade. O que não vive, é certo, não morre — as rochas não caducam e os gases não temem o amanhã. O que o processo evolutivo revela, entretanto, é que nem tudo o que vive está condenado a envelhecer, murchar e se extinguir. Ao contrário do que se poderia supor à primeira vista, a vida em si mesma não implica necessariamente a morte. Uma não é o avesso — automático e obrigatório — da outra. A vida é concebível sem a inexorabilidade da morte, e, de fato, assim parece ter sido durante o primeiro bilhão de anos em que a vida surgiu e se propagou sobre a Terra.
As primeiras formas de vida que existiram no planeta — uma linhagem de micro-organismos unicelulares que vai das bactérias (grego baktérion: “bastonete”) às amebas, fungos e levedos — eram seres dotados de uma estrutura simples e rudimentar, além de extraordinariamente robusta. (Estima-se que as bactérias, espalhadas desde as geleiras polares até as profundezas sulfúricas dos oceanos, perfazem hoje cerca de metade da biomassa planetária.) Mas a maior peculiaridade dos organismos que povoaram originalmente a Terra — e dos quais todos os seres vivos são, em última instância, descendentes em linha direta — não é sua enorme capacidade de suportar variações ambientais. É o modo específico como realizam a função biológica vital da reprodução: a replicação do seu código genético e a transmissão dessa cópia de si mesmos às gerações seguintes.
O ponto é que esses seres primitivos se reproduzem não por meio de fusão, mas por fissão celular, ou seja: um dado organismo replica autonomamente o seu dna e então se divide em dois clones, cada um recebendo uma cópia exata da mesma informação genética e, depois, repassando-a à geração seguinte e assim sucessivamente ad infinitum. Ao invés de dois seres distintos se juntando para gerar um, o que temos aqui é um mesmo organismo se dividindo em dois por meio de fissão ou cissiparidade.
A reprodução nesse caso não envolve sexo, isto é, a permuta ou combinação de informação genética efetuada por dois membros de uma dada espécie. O progenitor, ao dividir-se, é verdade, sai de cena; mas não há cadáver ou qualquer tipo de débris orgânico para alimentar os vermes e abutres. O vigor e a fecundidade originais se mantêm intactos ao longo das eras e, em casos excepcionais, como o da hidra de água doce, o organismo goza da faculdade de se regenerar e se reconstituir em novos seres integrais ao ser partido em pedaços. Assim, eles nunca morrem como os animais sujeitos à ação do “tempo [que] faz da vida uma carniça”. Ao contrário do conhecido dito freudiano — “A morte é o alvo de tudo que vive”2 —, a imortalidade foi a condição natural da existência em sua primeira e mais elementar manifestação.
Uma ressalva, porém, precisa ser feita (e um potencial mal-entendido, desfeito). Dizer que a imortalidade era a condição da vida em sua origem não significa dizer que os seres vivos estavam, portanto, sempre a salvo de percalços e acidentes de percurso, inclusive da morte acidental. Longe disso. As bactérias são imortais, mas isso desde que as condições ambientais sancionem a sua livre e desembaraçada reprodução. Na prática, é evidente, o mundo impõe severos limites.
Uma conjectura contrafactual simples ilustra bem isso. Uma bactéria comum pesa cerca de um trilionésimo de grama e consegue se dividir em duas a cada quinze minutos (96 duplicações/dia). Isso significa que, em pouco mais de um dia e meio de reprodução irrestrita, uma única bactéria seria capaz de gerar uma prole com um peso total equivalente ao do planeta Terra!3 Felizmente, o furor reprodutivo das bactérias (uma máquina de multiplicar capaz de levar qualquer agiota ao delírio) encontra um obstáculo à altura: o paredão malthusiano dos limites impostos pela escassez de espaço, alimento e outros recursos vitais. Tratase, porém, não de “morte programada”, ou seja, a morte natural causada por fatores inerentes ao organismo e que o alcança mesmo que ele viva num ambiente idílico de abundância e proteção, mas de “morte provocada” — a morte violenta causada, por assim dizer, de fora para dentro e que não teria lugar num mundo menos avaro e hostil que o nosso.
Se a finitude biológica, tal como a conhecemos, não é contemporânea da vida, então como nasceu a morte? A natureza é uma experimentadora inveterada. As mãos de ferro da necessidade jogam os dados do acaso por um tempo indefinidamente longo, e uma sucessão assombrosa de lances vão sendo premiados (ou não) no laboratório da vida. Alguns desses lances vingam e florescem, outros desaparecem sem deixar vestígio. Nem toda espécie chamada consegue se fazer escolher e nenhuma forma de vida goza de um direito inalienável de continuar a existir. Com o aparecimento, após longo e gradual processo evolutivo, de organismos mais complexos, o enredo da vida ganhou colorido e dramaticidade. A multicelularidade e a especialização celular prepararam o terreno para a reprodução sexuada: algo de novo sob o Sol.
Não é demais dizer: cada célula viva do nosso corpo traz consigo os efeitos e a memória entranhada de bilhões de anos de experimentação por parte de suas ancestrais.4 O lance decisivo nessa trajetória foi a separação das células dos organismos vivos em duas categorias fundamentais definidas por sua função biológica: as células normais do corpo ou somáticas (grego soma: “corpo”) e as células germinativas ou germens (latim germen: “semente”), encarregadas da função única e específica de transmitir a informação genética ou dna do organismo para as gerações seguintes.
A partir dessa divisão — e intimamente ligada a ela —, a reprodução sexuada se torna uma condição sine qua non da propagação das espécies. Em contraste com o que ocorria na reprodução por simples fissão, a geração de um novo ser passa a depender agora de um processo mais complexo de enlace e fusão celular. Duas células germinativas de seres distintos, ou seja, dois corpos de sexos opostos da mesma espécie precisam encontrar um ao outro, acertar os ponteiros e termos da transação, fazer sexo e, então, reproduzir. “Nunca é sereno o curso do verdadeiro amor.” Se para os organismos que se propagam por fissão celular a imortalidade, salvo acidentes de percurso, está dada de antemão, para todos os demais ela passa a depender da prática de sexo. Soma e gérmen deixam de ser, como na condição primeva da vida, uma única e mesma substância. E a cada um deles, em cada um de nós, a natureza reserva um futuro inteiramente distinto.
A reprodução sexuada vingou. Seu grande mérito, do ponto de vista biológico, foi promover a variação genética por meio da incessante mistura aleatória e recombinação dos genes das sucessivas gerações. Isso trouxe maior diversidade e capacidade adaptativa às condições mutáveis do ambiente, além de favorecer a reparação e eliminação de erros de cópia e defeitos genéticos que por acaso aflorem a cada novo rodopiar da roleta. A promiscuidade, não há dúvida, provou seu extraordinário valor no laboratório da vida. Mas a fatura veio junto. O experimento vitorioso da especialização celular e do sexo como meio de reprodução trouxe consigo uma sequela perturbadora do ponto de vista de seres, como nós, que se apegam à vida e concebem o amanhã: a morte como corolário da existência. O fato é que as células somáticas, cada uma delas indistintamente, têm um prazo de validade restrito, ou seja, estão fadadas a perecer num intervalo de tempo finito (ainda que variável), e isso independentemente de qualquer circunstância ambiental que possa acelerar ou retardar o processo. A criopreservação celular, para dar um exemplo extremo, uma técnica que promove o congelamento do organismo por nitrogênio líquido a 196°C negativos, pode sustar a batida do relógio rumo à hora fatal que se aproxima, mas ele volta a clicar — e do ponto exato em que havia parado — assim que o efeito é suspenso. A seta pode ser imobilizada, mas jamais revertida.5
A morte celular programada está inscrita no desenho básico de fabricação do soma, ou seja, de todas as nossas células extragerminativas, e funciona como uma espécie de pena capital que cada célula do corpo se autoimpõe. O momento preciso da execução da pena é indeterminado, mas a sentença é irrecorrível e não admite nenhuma forma de indulto. Mesmo em condições ambientais impecáveis, as células somáticas têm um tempo de vida restrito. Sua capacidade de manutenção e autorreparo declina com o tempo, e o número de divisões celulares que perfazem é estritamente limitado. Do ponto de vista biológico, que não é seguramente o da nossa sensibilidade e senso comum, o soma participa do enredo da vida como um elenco coadjuvante que goza dos seus quinze minutos de glória e holofotes, mas que logo será afastado para um canto mais sombrio do palco e, por fim, compelido a retirar-se em definitivo de cena, graciosa ou convulsivamente, queira ou não queira. (O artifício da clonagem humana, é curioso notar, equivale a uma espécie de ardil ou embrião de complô, por parte do soma, visando permanecer em cena e roubar de vez o espetáculo.)
Ao contrário do soma, as células germinativas guardam propriedades que remontam às formas primárias da vida. Elas não estão sujeitas ao envelhecimento e são capazes de se reproduzir indefinidamente, desde que o ambiente ajude. Prova incidental disso é o fato de que os recém-nascidos gerados por progenitores de mais idade vêm ao mundo com o relógio biológico zerado, ou seja, em nada diferem, ao nascer, dos bebês gerados por pais muito jovens. O envelhecimento do soma é acompanhado por um declínio da aptidão reprodutiva: abrupto nas mulheres (menopausa) e gradual nos homens (apesar do Viagra). As células germinativas, no entanto, escapam da ação deletéria do tempo e conservam a sua condição de nascença. Nenhum bebê herda a idade dos pais. O fato espantoso é que, embora um ser humano adulto possua algo em torno de 1014 ou 100 trilhões de células em seu organismo, apenas um número diminuto delas (se é que alguma) dará sequência à linhagem da vida nas gerações seguintes.
O soma some do mundo com seu dono; os germens pulam fora e seguem viagem. Quem usa quem? A biologia inverte os termos da experiência comum. Não são o galo e a galinha que se servem do ovo para gerar o pinto; é o ovo que se ser- ve temporariamente deles para fazer cópias de si mesmo. Terminado o serviço, o soma pode ser dispensado e abandonado à sua sorte. É fósforo riscado, excesso de bagagem, cápsula descartada de projétil. No roteiro da vida cabe aos germens — guardiães do dna replicante — o papel principal. Discretos, sem barulho ou alarde, são eles que transmitem ao futuro o legado de sua herança.
Com o sexo nasce a morte. A partir de um dado ponto na história natural da vida, a forma de perpetuar a espécie passou a implicar a perecibilidade do indivíduo. O declínio e a morte do organismo — a extinção autoprogramada do soma — são fenômenos que surgiram e se espalharam pari passu com o advento e o predomínio da reprodução sexuada na linhagem evolutiva. A finitude biológica é o preço de uma aposta premiada. Ela é o custo natural da contribuição milionária do sexo — este assíduo, incessante e febril reembaralhar do carteado genético — para o laboratório da vida. Eros, quem diria, é o pai biológico de Tânatos.

(Eduardo Gianotti - O Valor do Amanhã)
NOTAS:
1. Exceto quando indicado, o argumento sobre a relação entre reprodução sexuada e mortalidade apresentado neste capítulo segue a análise desenvolvida pelo biólogo molecular William Clark em Sex and the origins of death. As expressões “mais vida em nossos anos” e “mais anos em nossas vidas”, usadas no parágrafo anterior, são devidas a Tom Kirkwood (Time of our lives, p. 240).
2. Freud, Além do princípio de prazer, p. 56. A noção freudiana de “instinto de morte” (thanatos), em oposição ao “instinto de vida” (eros), foi inspirada nas ideias do naturalista alemão August Weismann, que, em 1881, apresentou aquela que é considerada a primeira teoria detalhada do processo de envelhecimento e morte do soma. A outra fonte referida por Freud é o filósofo Schopenhauer:
“Para ele, a morte é o ‘verdadeiro resultado e, até esse ponto, o propósito da vida’, ao passo que o instinto sexual é a corporificação da vontade de viver” (p. 69). Sobre a evolução da teoria da libido de Freud e sua tentativa de dar a ela fundamentação biológica consistente, ver: Brown, Life against death, cap. 8, e Kirkwood, Time of our lives, pp. 15-6. A ideia da morte como destino inescapável aparece com clareza num fragmento atribuído ao sofista grego Crítias de Atenas, membro do círculo de Sócrates no século v a. C.: “Nada é certo, exceto morrer depois de ter nascido e a impossibilidade de, enquanto se vive, escapar do destino” (Greek sophists, p. 264). Na Ciência da lógica, Hegel sugere (erroneamente) a existência de uma relação inextricável entre a condição mortal e a individualidade dos seres vivos: “A existência das coisas finitas, enquanto tal, consiste em possuir a semente do perecimento como seu modo de ser essencial: a hora do seu nascimento é a hora da sua morte” (p. 115). O verso citado (“Le Temps mange la vie,/ Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le coeur/Du sang que nous perdons croît et se fortifie!”) é do poema “O inimigo”, de Baudelaire (Poesia e prosa, p. 113).
3. O exemplo da reprodução exponencial das bactérias em meio não restritivo foi dado por Sagan, Bilhões e bilhões, pp. 21-2. Exemplo semelhante é oferecido em Clark, Sex and the origins of death, p. 62.
4. Cada célula viva existente no mundo, afirma o biólogo Max Delbrück (Nobel de Medicina e Fisiologia em 1969), “consiste mais num fato histórico do que físico, [pois] carrega consigo as experiências de bilhões de anos de experimentação por parte de suas ancestrais” (citado por Georgescu-Roegen, Entropy law and economic process, p. 125). Na mesma linha, Kirkwood argumenta: “Cada célula no meu corpo (e também no seu) é o produto de uma cadeia ininterrupta de divisões celulares que remonta no tempo aos primórdios da vida na Terra. Os ingredientes celulares, que foram sendo renovados e substituídos inúmeras vezes, não podem ter progressivamente acumulado os danos e estragos de um processo natural de desgaste, pois isso os condenaria a ter perecido há muito tempo. Isso prova, para além de qualquer dúvida, que a Segunda Lei da Termodinâmica [Lei da Entropia] não condena automaticamente os seres vivos à morte pelo desgaste natural” (Time of our lives, pp. 54-5). O verso citado no parágrafo seguinte (“The course of true love never did run smooth”) aparece em Shakespeare, Midsummer night’s dream (primeiro ato, cena 1, linha 134).
5. Sobre a criopreservação (grego krýos: “gelo”) celular, ver: Kirkwood, Time of our lives, p. 88, e Clark, Sex and the origins of death, p. 86. A demonstração empírica de que as células mitóticas, ou seja, capazes de divisão por mitose, têm um número limitado de divisões (“limite de Hayflick”), mesmo em condições ideais de reprodução, foi feita por Leonard Hayflick e Philip Moorhead num artigo publicado em 1961 no Experimental Cell Research, depois de ter sido recusado pelo prestigioso Journal of Experimental Medicine. Ao contrário das células bacterianas, que se dividem indefinidamente desde que o meio seja não restritivo, o soma mitótico apresenta um número de divisões celulares finito, predeterminado, que declina de acordo com a idade do indivíduo

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