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A felicidade do absurdo

por Thynus, em 29.06.15
Homeostasia
 
 Uma das muitas descobertas perturbadoras do século XX foi a revelação de que a vida é essencialmente absurda. Kafka foi o primeiro a desenvolver essa ideia. Em suas histórias de busca, o herói se frustra constantemente, sempre incapaz de conseguir entrar no Castelo ou ter a ajuda da Lei, mas igualmente incapaz de abandonar a busca. Em outras palavras, a busca por significado jamais o encontra, mas apesar disso deve continuar.
E, enquanto Kafka desenvolvia esse tema na literatura, os físicos chegavam à conclusão de que, no nível subatômico, nada existe a menos que seja observado. Assim, a busca pela natureza da realidade revelou que na verdade não existe realidade. Werner Heisenberg, descobridor do princípio da incerteza, declarou, desesperado, que a própria natureza era absurda.
Na filosofia, Camus comparou a condição humana ao destino de Sísifo, condenado a empurrar uma rocha montanha acima pela eternidade. Apesar de um destino absurdo, Camus acreditava que Sísifo podia ser feliz.
Depois Beckett acrescentou uma nova tendência: uma saga de busca sem busca. Em Esperando Godot, seus dois vagabundos modernos são muito indolentes e muito pouco curiosos para partir numa jornada em busca de significado. Ao contrário, apenas esperam que o significado venha até eles. “Godot está prestes a se revelar”, eles repetem infinitamente, mesmo sabendo que ele jamais chegaria. Para Beckett, esse absurdo era hilariante.
E o riso sarcástico parece ser a única reação possível. Não há como voltar à certeza, à simplicidade e à inocência. O único caminho é o da confusão, da incerteza e da astúcia. O suspiro de assombro torna-se o grito sardônico de descrença. O absurdo é o novo sublime. A boa notícia é que, enquanto outros recursos definham, o absurdo se multiplica, floresce e se espalha pelo mundo. Há sempre maneiras mais bizarras de passar o tempo enquanto se espera por Godot. Um funcionário de estacionamento, Bob Prior, realiza sua busca no conforto de sua casa, dedicando todo o seu tempo livre a construir cenários e personagens de Jornada nas estrelas com caixas do cereal Rice Krispies.1 É o detalhe das caixas de cereal que torna a história sublime. Desprezando os simples modelos em escala, um cover de Elvis, James Cawley, gastou dez anos e 150 mil dólares para construir uma réplica em tamanho natural da ponte de comando da nave Enterprise na garagem.2
Para os tipos esportivos que gostam de dar espetáculo, há os concursos de glutões, um esporte que, apesar de novo, já tem seu organismo oficial, a Federação Internacional de Comilança Competitiva, que registra recordes mundiais e organiza um ranking e competições internacionais, desclassificando qualquer competidor que tenha um “incidente” em consequência de “urgências contrárias à deglutição”. Assim como o Brasil domina o futebol, o Japão domina os concursos de glutões e tem seu campeão mundial, Takeru “Tsunami” Kobayashi, que devorou 53 hot dogs em doze minutos (e 8 quilos de miolos de boi em quinze minutos). Outros atletas gastronômicos são Carl “Crazy Legs” Conti, que engoliu 168 ostras em dez minutos, Oleg Zhornitskiy, que conseguiu acabar com quatro vidros de 900 gramas de maionese em oito minutos, e Don “Moses” Lerman, que consumiu sete barras de manteiga de 115 gramas em cinco minutos. Só de pensar neste último feito uma pessoa comum já teria um “incidente”. A comilança tem seu paradoxo: todos os maiores glutões são magros. Kobayashi pesa apenas 60 quilos.
Aos de temperamento artístico, a arte contemporânea oferece esplêndidas oportunidades de vivenciar o absurdo. Importante instituição que goza de financiamento público pagou um artista para exibir os absorventes usados de sua namorada; outra contratou corredores e organizou corridas por uma galeria de arte a cada trinta segundos; e uma terceira contratou um artista para se filmar descendo pela parede de um estúdio nu e com um pino de segurança de escalada no gelo enfiado no reto. A Tate Britain investiu mais de 30.000 libras do dinheiro dos contribuintes na Monochrome Till Receipt (White), que é uma nota fiscal de supermercado de artigos como arroz pré-cozido, ovos em conserva, absorventes e uma lixeira de tampa móvel. É claro que a lixeira pode ser um material usado pelos artistas. Uma das enigmáticas obras, provavelmente um autorretrato, era uma lata de lixo preta cheia de ar.
Para quem tem preocupações políticas, existe a possibilidade de se tornar líder do mundo ocidental dizendo coisas como “As pessoas dizem que sou indeciso, mas não sei nada disso”, “Alguém tem mão forte quando há mais pessoas jogando com as mesmas cartas” e “Sei que os humanos podem coexistir pacificamente com os peixes”.3 Quem não se sentiria feliz de viver em um século em que tais coisas são possíveis? Senhor, como são tolos esses mortais! Mas o mundo dos negócios, pelo menos, é muito pragmático para ser absurdo, não é? Nem um pouco. Grandes empresas pagam grandes somas a um guru administrativo que se define como “a maior autoridade mundial em pensamento criativo” e alega que, “sem querer se vangloriar”, seu mais novo sistema é “a primeira nova maneira de pensamento a ser desenvolvida em 2.400 anos, desde os tempos de Platão, Sócrates e Aristóteles”. Conhecido como os “Seis Chapéus do Pensamento”, seu sistema requer que os executivos usem um chapéu vermelho para propor um projeto, um amarelo para listar suas vantagens, um preto para suas desvantagens e assim por diante. Mas, além dos chapéus coloridos, os que investem no sistema recebem aforismos do grande pensador desde Sócrates: “Não se pode cavar um buraco num lugar diferente cavando mais fundo no mesmo buraco”, “Quando há um problema, procura-se uma solução” e “Um pássaro é diferente de um avião, embora ambos voem pelo céu”.4
Inspirado em sua sabedoria, o empresário pode descobrir muitas maneiras absurdas de ganhar dinheiro, como, por exemplo, vender sujeira. Não a sujeira figurada da pornografia, mas sujeira de verdade. Alan Jenkins, imigrante irlandês nos Estados Unidos, ficou multimilionário vendendo sacolas plásticas cheias de terra oficial irlandesa. Sendo um astuto homem de negócios, ofereceu a um advogado de Manhattan natural da cidade irlandesa de Galway terra irlandesa suficiente para seu repouso final pelo preço razoável de 100.000 dólares – e, por apenas 148 mil dólares, despachou para um natural de Cork várias toneladas de terra irlandesa para ser usada como fundação segura para sua nova casa na América. Parece que o século XXI assiste a uma nova fase da experiência de imigração: depois de se estabelecer e enviar dinheiro para a família, o imigrante paga pela sujeira natal. Jenkins já tem um correspondente judeu na pessoa de Steven Friedman, fundador da Terra da Terra Santa, que importa terra de Israel com o selo oficial de aprovação do rabino Velvel Brevda, diretor do conselho de Geula, em Jerusalém. Há uma óbvia oportunidade de importar terra islâmica de Meca, mas um verdadeiro visionário vai enxergar possibilidades e fundar a empresa Solo Sagrado Internacional para despachar terra de qualquer lugar do mundo.
E a ciência pragmática é tão absurda quanto o pragmático mundo dos negócios. A busca pela natureza da realidade penetra ainda mais fundo na experiência do absurdo. É difícil saber qual é mais absurdo: o micro ou o macro, a física do átomo ou a física espacial. No início o átomo era só um núcleo cercado de elétrons, e só o elétron era misterioso. Como um moderno bissexual, ele podia ser uma partícula num momento e uma onda no momento seguinte, dependendo de quem estivesse flertando com ele. Como uma moderna celebridade, ele não existia se ninguém estivesse olhando. Isso era perturbador, mas pelo menos o núcleo era sólido e confiável. Mas então descobriu-se que o núcleo supostamente sólido podia gerar partículas misteriosas. Era um criadouro de partículas. Não, na verdade eram todas a mesma partícula: o quark. Portanto, só há duas partículas elementares, o elétron e o quark. Exceto que existem dois elétrons mais pesados, o múon e o tau, seis tipos de quarks e também superquarks conhecidos como squarks.
E, aparentemente, os átomos, que deveriam ser a base de tudo, só respondem por 4 por cento do universo. Os outros 96 por cento estão faltando – mas são formados provavelmente por 25 por cento de matéria escura e 75 por cento de energia escura. Os cientistas explicam, com preocupação, que não há gravidade suficiente. Até o vácuo, o último mosteiro, não é mais casto. Parece que o vácuo não está vazio. O firmamento é uma incessante agitação de matéria transformando-se em antimatéria e de novo em matéria. Até a própria matéria é incorrigivelmente instável e inquieta, e tenta infinitamente tornar-se o seu oposto, mas também não se contenta com isso.
E o misterioso micro se mistura misteriosamente com o misterioso macro devido a um misterioso fenômeno conhecido como entrelaçamento quântico, o que significa que um evento quântico na Terra pode mudar instantaneamente as coisas em alguma galáxia distante.
Mas as galáxias não parecem estar dispostas ao entrelaçamento. Aparentemente, as estrelas estão fugindo de nós com rapidez cada vez maior. E quem poderia culpá-las depois do primeiro contato com humanos no espaço? A busca mais espetacular e mais absurda da história humana foi o pouso do homem na Lua. Nem mesmo Kafka ou Beckett juntos teriam imaginado uma fábula tão sublime. Esse fato deu início a muitas das principais características da época: a primazia da imagem sobre o conteúdo (o pouso não ofereceu nenhum outro benefício a não ser fotos, mas as fotos foram mais valorizadas do que a rocha lunar), de valores diferenciais sobre valores absolutos (o verdadeiro objetivo dos Estados Unidos era pousar na Lua antes da União Soviética) e dos meios sobre os fins (o homem foi à Lua para mostrar que era possível ir à Lua).
Esse foi também o primeiro evento de mídia global e a apoteose da moderna tecnologia. Quase 600 milhões de pessoas assistiram ao pouso pela tevê, mas nenhuma delas tinha consciência da fragilidade da tecnologia ou da possibilidade de fracasso. O módulo lunar não acertou o local do pouso, e o computador de navegação, que tinha menos potência que um telefone celular contemporâneo, produziu sob tensão uma mensagem de erro “1202”, que ninguém tinha visto até então. Imagine o que é sobrevoar a superfície lunar com o medidor de combustível quase a zero e receber como solução uma mensagem 1201. Homens de tendência filosófica teriam interpretado essa mensagem como uma prova conclusiva de que Deus tem um grande senso de humor. Mas os astronautas não tinham inclinação nem tempo para tais pensamentos. Neil Armstrong teve que assumir o controle e ver o terreno rochoso passar correndo por ele à medida que o combustível se esgotava. Apenas dez segundos antes que o combustível se esgotasse, ele encontrou uma área suficientemente plana para pousar.
Os 600 milhões assistiam e esperavam. E esperaram. Estaria Neil supervisionando o terreno, checando o equipamento ou sofrendo para proferir suas primeiras palavras? Talvez estivesse aterrorizado com sua insignificância diante do cosmo. Nada disso, Neil estava lavando os pratos. Homem organizado, ele passara o fim de semana anterior ao voo desmontando e remontando a lavadora de pratos de sua casa.
Finalmente surge Neil, seguido por Buzz Aldrin, e os dois hesitam pelo que parece uma eternidade na escada do módulo. Seria Buzz mais sensível que seu companheiro ao terror e assombro cósmico? Não, ele tinha parado apenas para fazer xixi. E esse poderia ter sido um ato de rebeldia, como fazer xixi numa piscina, porque Buzz deveria ter sido o primeiro a sair e ainda estava infeliz de ter sido rebaixado. Então, quando desceu na Lua e recebeu ordem de fotografar Neil, ele se recusou, com a desculpa de estar “muito ocupado”,5 e a única foto de Neil na Lua foi batida por ele mesmo e mostra seu reflexo no visor do companheiro. Esse é outro exemplo do poder dos diferenciais e da tendência negativa. Como disse um de seus colegas astronautas, Buzz se ressentiu mais de não ter sido o primeiro do que apreciou ter sido o segundo. Na verdade, ele alcançou uma distinção única – foi o primeiro e provavelmente o único homem a bufar de raiva ao pisar na Lua (e, melhor ainda, a defecar no mar da Tranquilidade).
Buzz tinha muitos motivos para reclamar, entre eles a roupa de baixo fornecida pela NASA. Quando voltou à Terra depois de estar perto da morte na Lua, suas primeiras palavras para a esposa foram: “Joan, será que você poderia me trazer uma das minhas cuecas Jockey amanhã de manhã?”6 E, em consequência dos três dias de interrogatório da NASA, os astronautas perderam o tumulto da mídia, que Buzz profeticamente imaginava ser o evento real. A excitação da mídia não tinha precedentes. Um certo reverendo Terence Mangan publicou um projeto detalhado para a construção de uma igreja na Lua, e o grupo de hotéis Hilton pensou em construir um resort subterrâneo (prevendo que a Lua seria o destino mais popular para a lua de mel)7, enquanto o Nepal se ofendeu com a violação do lugar de descanso das almas dos mortos e a União dos Contadores de Histórias da Pérsia passou a acreditar que as histórias nunca mais seriam as mesmas.
E as fotografias da Apollo revelaram pela primeira vez a insignificância da Terra – um minúsculo corpo perdido numa infinidade de escuridão. Na Lua, Armstrong descobriu que podia causar um eclipse da Terra apenas erguendo o polegar. “Isso o fez sentir-se realmente grande?”, perguntaram-lhe. “Não, isso me fez sentir-me realmente pequeno.”8
Armstrong manteve a estabilidade depois de ter ido à Lua, mas Buzz Aldrin afundou no alcoolismo e na depressão. A depressão é muitas vezes o destino da personalidade moderna – ambiciosa, faminta por atenção e ressentida, sempre convencida de merecer mais, sempre perseguida pela possibilidade de estar perdendo algo melhor, sempre sofrendo pela falta de reconhecimento e sempre insatisfeita. É preciso reencontrar a coragem e a humildade de Sísifo, que não exige recompensa, mas sabe transformar qualquer atividade em sua própria recompensa. Sísifo é feliz com o absurdo e a insignificância de seu ato de empurrar constantemente uma rocha montanha acima.
Naturalmente, ele resmunga de vez em quando. A rocha podia ser menos áspera, e a montanha, menos íngreme. Por outro lado, tanto a rocha quanto a montanha podiam ser mais cruéis. E há muito o que agradecer. Nada em sua condenação o obriga a usar um determinado caminho, e existe uma infinidade de caminhos onde cumprir a tarefa eterna. Portanto, mesmo enquanto procura o caminho perfeito, ele espera secretamente nunca encontrá-lo. Nem tampouco lhe está proibido um movimento lateral. E, se a coisa ficar difícil demais, ele pode afrouxar o passo e deixar a pedra rolar de volta. Mais tarde, o céu vai escurecer e estalar com o desgosto divino – mas Sísifo só pode dar de ombros e mostrar suas palmas vazias e ásperas. Muitas vezes ele finge estar encurralado e volta as costas para a rocha, aparentemente para empurrá-la com mais força – mas na verdade a rocha e o homem estão se apoiando. Nesses momentos, ele sonha, quase sempre se lembrando da mulher e tendo uma terna ereção. Muitas vezes, também, ele ataca a rocha com súbita força, empurrando-a até o topo numa única corrida frenética. Os deuses odeiam essa insolência, mas o que podem fazer? E, naturalmente, existe um momento de libertação no topo, sempre antecipado e, se nunca tão emocionante quanto prometia, ainda assim é um momento para ser saboreado. Terá ele algum motivo para descer tão precipitadamente quanto a rocha? Nenhum. Ele desce caminhando com provocadora indiferença, variando os caminhos. Que fúria impotente a dos deuses! A tarefa, que deveria ser imutável, na verdade tem infinitas variantes.
Mesmo que todas as variações fossem proibidas, ainda haveria esse relacionamento cada vez mais profundo com a rocha. À medida que suas mãos passam a conhecer cada depressão e cada protuberância, a rocha parece tornar-se mais receptiva, mais cooperativa. E quem teria acreditado que frágeis mãos humanas poderiam suavizar tal aspereza? Naturalmente, há maus momentos, quando a rocha teima em não se mover e Sísifo a amaldiçoa e até a golpeia. Mas, em outros momentos, a rocha parece alegre, brincalhona até, rolando facilmente como se o provocasse. Nesses momentos o toque de Sísifo é uma carícia leve.
Todos os deuses o observam com uma desaprovação cada vez maior. Eles também podem ser espertos e sutis. Um dia eles dizem: “Sísifo, temos observado com admiração sua engenhosidade para variar seu trabalho. E decidimos aliviar seu fardo. Existe uma rocha muito melhor”. Estupefato, Sísifo olha para baixo e vê uma rocha consideravelmente menor e portanto mais lisa e esférica. Ele até pode sentir as curvas encaixando-se em suas mãos quando ela rola sem esforço montanha acima. Ele nem consegue falar. Os deuses aguardam, com maligna segurança, e então acrescentam, não sem satisfação: “Você acreditou que o trabalho duro e eterno o libertaria? Nenhum homem escapa à agonia da sua escolha”. Sísifo não responde. Agora sua rocha parece um peso morto, repentinamente mais pesada graças à sua imperfeição e ao seu volume. Então, de uma hora para outra, a glória da criatura humana – a oposição – inunda sua alma com um vinagre intoxicante. Ele pode desobedecer. Pode se recusar. Pode dizer não. Ou, com arrogância e humildade, revolta e aceitação, absurdo e felicidade, com um tapinha amoroso, pode dizer: “Esta é a minha rocha”.

(Daudt, Francisco - A natureza humana existe : e como manda na gente)
 

NOTAS:
1. Sarah Hills, “It’s time for snap, crackle and Spock”, Metro, fevereiro de 2008.
2. Alex Godfrey, “Enterprise reprised”, Guardian, 2 de maio de 2009.
3. Jacob Weisberg, The Deluxe Election-Edition Bushisms, Simon & Schuster, 2004.
4. Citado em Wheen, op. cit.
5. Citado em Smith, op. cit.
6. Ibid.
7. Ibid.
8. Ibid.

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publicado às 17:40


CURA GAY

por Thynus, em 28.06.15
“Se a homossexualidade não é um defeito, uma perversão ou uma escolha, não há motivo para perseguir os homossexuais”
(Jacques Balthazart - Biologia da homossexualidade: gay nasce, não escolhe ser)
 
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Um taxonomista é sempre um obsessivo. Sua profissão consiste em classificar por grupos (geralmente seres vivos), separando-os por minúsculos detalhes. Alfred Kinsey era um taxonomista que classificava vespas na Universidade de Indiana, Estados Unidos.
Aplicou mais tarde sua perícia e meticulosidade na pesquisa e no estudo da sexualidade humana, tornando-se o criador da sexologia. Seu primeiro livro, fruto de uma quantidade inacreditável de entrevistas, foi sobre a sexualidade masculina, de 1948, onde está a “Escala Kinsey” de orientações sexuais masculinas, com sete tipos assim definidos:
0. heterossexual exclusivo;
1. hétero ocasionalmente homossexual;
2. hétero mais do que ocasionalmente homo;
3. igualmente hétero e homo (“bissexual”);
4. homo mais que ocasionalmente hétero;
5. homo ocasionalmente hétero;
6. exclusivamente homossexual.
Ele ainda incluiu um grupo de homens sexualmente indiferentes, mas nunca conheci um nesses 43 anos de clínica. Também não conheci um bissexual perfeito, que a preferência erótica masculina se pesquisa através da direção dos olhos, do tesão visual: o gênero que mais atrair o olhar de um homem determinará sua orientação sexual. Nunca vi um que tivesse seus olhos e emoções puxados igualmente para outros homens e mulheres. Os homens têm seu tesão despertado pelos olhos, eis por que eles são os compradores de pornografia. Só 10% das mulheres têm tesão visual. Os 90% acham um homem visualmente “interessante”. Se ele a olhar com tesão, o desejo da mulher então se desperta.
Esses esclarecimentos servem para pensarmos o título “Cura gay”. Cura? Começa que o verbo curar se aplica a doenças, o que não é o caso. Nascer com algo de gay (dos tipos de 1 a 6), e tudo indica que venha de berço, hereditário ou da gestação, ainda não ficou claro, apesar de a hipótese genética ser a mais cotada entre os cientistas, definitivamente não é nascer com alguma doença.
Por outro lado, assisti a um programa de TV supostamente sobre sexualidade, com uma seção sobre gays. A apresentadora, eufórica, abria o tema em tom publicitário: “A diferença é linda, é saúde, é amor, é ótima (“agora em sabor limão?”)”.
Ora, tenha a santa paciência, se há uma boa razão para a homossexualidade não ser uma escolha, uma opção, e sim um destino, é o fato de que a presença de atração gay na mente é perturbadora para a maioria dos homens. Pode ser muito sofrida e, mesmo não sendo doença em si, pode ser causadora de doença psíquica, desde a neurose obsessiva até a depressão e a paranoia. Como o foi, outrora, o fato de se nascer canhoto (não faz muito tempo, eles tinham a mão esquerda amarrada para “se curarem”).
Ninguém, em sã consciência, entraria no supermercado de orientações sexuais e, animadíssimo, poria em seu carrinho de compras o destino de ser gay, com a gôndola de ser hétero ao lado. É muito mais fácil ser hétero. A escala Kinsey possibilita algumas afirmações ESTATÍSTICAS, e vai assim em caixa alta porque tem sempre alguém para dizer, “ah, mas eu conheço um que...”:
a) Nenhum tipo zero será perseguidor de gay, pois para esses, a homossexualidade nem é um assunto. Os homofóbicos estão trazendo para fora uma luta de dentro de suas cabeças, um conflito com algo que perceberam em si e que agora os faz se esforçar para dizer: “Gays são os outros.”
b) Apenas os tipos 6 saem do armário sem maiores problemas, pois não concebem outro tipo de vida. Os que nascem com cabeça de mulher e brincam de boneca desde a primeira infância, bem, já nasceram fora do armário. Os outros sofrem mais na medida em que percebem que a vida de hétero lhes seria uma possibilidade.
c) Os americanos são extremados, sua militância não reconhece meiotermo, um rapaz de tipo 1 a 3 pode ser pressionado a “viver sua verdade”, a se rotular gay, como se as mulheres lhe fossem indiferentes e ele não pudesse ser feliz casando com uma e tendo filhos.
“Cura gay” seria uma tentativa de erradicar o desejo homo em quem não é tipo zero nem 6. Completa ilusão, pior, erro grave. Eles até se casam com mulher, gostando, mas, na melhor das hipóteses, o desejo homo estará engatilhado numa prateleira, como algo causador de potenciais problemas. Parecido com o tesão na cunhada. Na hipótese pior, será reprimido, causando doença psíquica.
E não pense que só religiosos namoram a ideia da cura gay. Até os anos 1990, muitos psicanalistas e psicoterapeutas em geral eram convencidos de que o desejo homo era uma derivação do narcisismo, uma “incapacidade de aceitar a diferença”, um terror de enfrentar a “angústia de castração produzida por um ser sem um pênis”, idiotices como essas, desvios da normalidade a serem curados. Ou seja, eles simplesmente não aceitavam que a coisa pudesse ser da natureza da pessoa, sem nada a fazer. Todos os casos de “cura” psicanalítica do desejo gay que conheci, e não foram poucos, “recaíram” tempos depois.
E as mulheres? Afora os tipos zero e 6, nem Kinsey conseguiu classificá-las. Começa que elas são muito mais patrulhadas por parecerem putas que por lésbicas. Entre elas, o trânsito de um tipo para o outro é muito grande, às vezes por modismo, como nos dias de hoje em que as meninas “ficam” com outras para experimentar, às vezes por estarem cansadas dos homens por um tempo. Enfim, o miolo passeia...

(Daudt, Francisco - A natureza humana existe : e como manda na gente)

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publicado às 17:27

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Quero agradecer, a todos que carinhosamente gastaram um tempinho do seu dia pra me desejar feliz aniversário. Deu certo, pois foi um dia muito feliz mesmo... Aos que me ligaram pelo telefone, aos que postaram mensagens de carinho aqui no facebook ou através do messenger...
“Com que então caiu na asneira / De fazer desta maneira / Mais um ano de idade! tolice! / Ainda se os desfizesse... / Mas fazê-los não parece / De quem tem muito miolo!... “ Os versos são do poeta João de Deus. Confesso que às vezes penso nisso e fico meio deprimido pensando que é menos um ano de vida... Mas eis que chega o dia de aniversário e tudo muda com os paparicos carinhosos dos familiares e amigos. Esses singelos gestos de carinho vêm lembrar-nos que é o amor quem gera e sustenta a vida. O sucesso da vida não se mede, pois, pela conta bancária nem pelos anos de vida, mas sim pelo amor investido: "Ter um amigo é um tesouro sem preço, um gostar sem distância, de alguém presente em nosso caminho, nas horas de dúvida, de alegria, demais para ser perdido, importante para ser esquecido..." (Antoine de Saint-Exupéry). Já os antigos filósofos gregos lembravam que mortos eram aqueles que eram votados ao esquecimento nas águas do rio Letes (o inferno para os gregos antigos). Quem vive no amor e pelo amor não morre nunca no esquecimento! É pelo fio da saudade que passa o amor que conecta os corações que se amam. Porque amamos sentimos saudades, um nobre sentimento que define a raça lusófona. Por outro lado, também dizemos, e bem, que só o perú morre de véspera. Não permitamos nunca que o veneno do medo ou do futuro desconhecido nos roube a alegria de viver o nosso tempo presente e como presente de Deus..
Deus dê em dobro tudo o que me desejaram! Sou uma pessoa feliz, feliz mesmo... Pois tenho pessoas maravilhosas que me cercam... Uns bem de perto... Uns de longe... Outros de bem longe... Não importa a distância e sim o amor e carinho...
Isso é o maior presente de Deus na minha vida...

MUITO OBRIGADO A TODOS!

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publicado às 03:35


O ad e o id

por Thynus, em 11.06.15
 

Existe uma terra encantada, nunca assolada pelo vento ou fustigada pela chuva, sem relógios ou portas fechadas, sem mendigos, grafites, lixo, bandidos ou ruelas escuras, onde a temperatura é agradavelmente constante e a luz sempre brilhante, onde o som das flautas compete docemente com o cascatear melodioso das fontes estrategicamente situadas no cruzamento de amplas esplanadas. De todo lado, lojas resplandecentes exibem roupas, sapatos, lingerie, cremes, loções, fragrâncias, chocolates, brinquedos, telefones celulares, jogos, televisores, flores, aparelhos de som, joias, artigos esportivos e telas digitais cujo conteúdo muda incansavelmente. Na WH Smith (Famosa rede de lojas britânica que vende jornais, livros, revistas e artigos de papelaria em estações de trem, aeroportos e hospitais.), em prateleiras paralelas que se estendem a perder de vista, revistas gordas e cintilantes chamam a atenção, ao lado de óculos de sol, CDs, DVDs e amostras de perfumes. Na Cards Galore, há cartões divertidos para todas as ocasiões, do nascimento à aposentadoria. Na Disney Store, uma multidão de criaturas, de vários tamanhos, cores e materiais, exibe os mesmos olhos esbugalhados e o mesmo sorriso inocente. A Build-A-Bear Workshop convida você a “fazer seu próprio amiguinho de pelúcia”. A Le Munch Bunch (Munch Bunch é o título de uma coleção de livros infantis do autor inglês Denis Bond. Os personagens são frutas e legumes desenhados por uma adolescente, Angela Mitson, que saíram dos livros para uma série de tevê e ganharam corpo na forma de bonecos) Sandwicherie anuncia um desconto especial em qualquer bolo ou bebida gelada. Como sobremesa, Joe Delucci propõe um “Sundae Ração de Gado”, feito com sorvete de chocolate e crème brûlée, macios marshmallows e massudos caramelos. Diante de uma tela de SingStar®, um jovem com capacete de aviador da Segunda Guerra na cabeça, vestido com várias camadas de lã e um jeans muito maior que o seu tamanho, o que fica evidente no cavalo na altura dos joelhos, segura três sacolas de compras na mão esquerda e um microfone na direita, e ainda assim consegue dançar e cantar animadamente junto com o vídeo de Get this party started. (Canção do repertório da cantora pop Pink, cujo título significa “Vamos começar a festa”.) Atrás dele, uma fila de jovens vestidos de moletom com capuz se agita diante da visão, à porta da Essensuals, de uma jovem de quase 2 metros de altura, de sutiã, calcinha, ligas, meias pretas e saltos altos, que faz biquinho com uma expressão maliciosa no rosto. Uma manicure (da California Nails), com os cabelos dourados pela coloração orgânica (no salão Hairport) e pele igualmente dourada graças ao bronzeamento artificial (na Stand By Your Tan), passa cavalgando diante da vitrine da Sunglass Hut e de um imenso cavalo de madeira cercado por um enxame de crianças acima do peso, mas sem inimigos escondidos dentro ele. Aproxime-se, dê uma batidinha e ouça a ressonância. Madeira maciça.
Tudo num shopping center é criado para estimular o sentimento de que não desejar seria uma cruel grosseria. Antes de mais nada, um shopping elimina as distrações, como o clima deprimente ou relógios acusadores. Depois, se é um edifício de vários andares, um imenso átrio central causa imediatamente uma profunda impressão. Da construção das catedrais góticas aos conjuntos empresariais contemporâneos, os arquitetos perceberam que a chave para inspirar respeitoso temor é o espaço desnecessário, principalmente acima da cabeça. Qualquer estrutura com firmamento próprio só pode ter sido criada por Deus. Para acentuar a atmosfera religiosa, uma música de fundo suave como acordes de órgão. E com certeza haverá a presença tranquilizadora de outros fiéis. O argumento mais persuasivo para qualquer atividade é que todo mundo faz o mesmo – e aqui todo mundo está comprando. A companhia dos fiéis é imensamente reconfortante, mas, como numa igreja, ninguém precisa se relacionar. A verdadeira relação é a que se estabelece com os ícones nas vitrines, que prometem conferir distinção, elevar o status e aumentar o poder de sedução. Esses bens materiais aumentam até o sentimento religioso. Tomografias do cérebro revelaram que marcas sofisticadas e imagens religiosas provocam a mesma resposta neural. Por mais chocante que possa ser, um iPod causa o mesmo efeito que Madre Teresa de Calcutá.1 Além disso, as vitrines onde estão expostos esse ícones do consumo se estendem do chão ao teto, exibindo totalmente seu conteúdo cintilante, e as entradas são amplas e sem portas, de modo que o medo instintivo de entrar num espaço fechado e desconhecido seja superado. No interior das lojas, vendedores jovens e bonitos se aproximam, buscando contato visual com um sorriso simpático no rosto, criando no comprador a ilusão de juventude e beleza. A música alta sugere um bar ou boate onde a atração mútua pode rolar, mas, ao contrário dos bares e boates, onde o ambiente é brutalmente competitivo, aqui não há possibilidade de rejeição. Gastar dinheiro é a maneira mais fácil de ter orgasmo. Basta abrir a carteira e sacar o cartão de crédito cintilante.
Assim, o ad seduz o id da maneira tradicional: impressionando, bajulando e estimulando.
AD: Veja este imenso espaço que se eleva para o céu.
 ID: NOSSA!
AD: Agora veja quantos prêmios maravilhosos.
ID: EU QUERO! AD: Tudo isto é para você.
ID: PARA MIM!?
AD: Porque você é um ser único e maravilhoso.
ID: Luzes! Câmeras! Coloquem-me no horário nobre!
AD: E você não precisa se preocupar com os outros. Seja criança até morrer.
ID: (de cara feia) Será que você não devia dizer: para sempre?
AD: Foi o que eu disse: seja criança eternamente.
ID: OBA!!!
AD: Que seus desejos nunca diminuam e seus apetites jamais arrefeçam!
ID:QUERO MAIS!
A propaganda sorri, satisfeita. Nunca os anúncios foram tão numerosos. O americano médio está hoje sujeito a mais de 3.000 anúncios por dia.2E nunca foram tão abrangentes. Tendo aprendido a lição dos jesuítas – conquiste-os cedo e você os terá para sempre –, a propaganda já colonizou a infância e logo estará procurando técnicas para estabelecer fidelidade desde o ventre materno. E nunca os anúncios foram tão astuciosos. Isto é um documentário? Não, um comercial. Um novo filme? Não, uma propaganda. Um famoso estádio londrino? Não, uma peça publicitária de um país do Oriente Médio produtor de petróleo disposto a desenvolver sua marca. Este é um banheiro de cinema? Sim, mas, quando você joga a cabeça para trás num gesto de alívio, surge no teto a imagem de um urinol de plástico vermelho com a legenda: “Homem-Aranha 3... Breve neste cinema”. Tudo bem, os tetos não são mais seguros – mas pelo menos o céu ainda está livre. Ah, um aviãozinho! Alguém deve ter fugido para o infinito. Não, é apenas um reboque puxando uma faixa de propaganda. Ainda bem que existe a natureza. Não, uma cadeia holandesa de hotéis já coloca anúncios em ovelhas vivas.
Nunca a propaganda foi tão sub-repticiamente agressiva. Há o público-alvo, o marketing de guerrilha, o marketing viral. A propaganda não tem escrúpulos de utilizar a guerra biológica. Mas o mais sorrateiro de todos os expedientes é o neuromarketing, que usa a neurociência para infiltrar-se no cérebro, estudar suas defesas e encontrar meios de contorná-las.
Nunca a propaganda esteve tão próxima do entretenimento. Uma das mais rancorosas discussões que tive com minha filha foi por causa do meu costume de tirar o som da tevê durante os comerciais. Quando ela reclamou, eu lhe expliquei que a propaganda nos faz desejar coisas de que não precisamos. Irritada, ela retrucou que estava cansada de saber disso e que era totalmente impenetrável a essa persuasão, mas tinha que ver os anúncios porque eles eram discutidos por seus amigos como entretenimento, da mesma forma que os programas. Só um imbecil ia querer privá-la disso.
E, não mais satisfeita de se equiparar ao entretenimento, a propaganda começou a se infiltrar em filmes e programas de tevê através do merchandising. Cada vez mais, o produto determina a história. Pesquisas mostraram que fazer o produto parecer um elemento integrante da história é mais eficiente do que qualquer propaganda direta, porque ele se esquiva astuciosamente à resistência do cérebro.3O marketing de conteúdo leva essa abordagem à sua conclusão lógica, criando entretenimento apenas com o propósito de fazer propaganda.
E a propaganda não se contenta mais em ser observada passivamente. Nós não decodificamos mais o anúncio. É ele que nos decodifica.
Os mais recentes outdoors digitais têm câmeras ocultas e um software que reconhece quem está olhando e lança o anúncio apropriado – assim, um jovem verá um anúncio de cerveja e uma mulher de meia-idade terá todas as informações sobre os tratamentos de um spa. Mais tarde, essas telas serão capazes de reconhecer cada indivíduo e personalizar a oferta – seduzindo-me com ofertas de dois livros de poesia chinesa ou dois discos de jazz pelo preço de um. Então, talvez seja necessário sair disfarçado, talvez até com roupas de outro sexo, para enganar o comercial.
Esse disfarce é um exemplo de “sabotagem cultural”, novo movimento de resistência dedicado a sabotar a cultura do consumismo. Essa resistência é coordenada por sites como o do BADvertising Institute e da revista canadense Adbusters, que publica artigos contra o consumismo, lança anúncios (como o de uma vodca a que deu o nome de Absolut Nonsense (Em português, “Absoluto Absurdo”. Quando este anúncio foi lançado, os produtores da vodca Absolut ameaçaram processar a revista. O anúncio dizia: “Qualquer sugestão de que nossa campanha de propaganda contribui para o alcoolismo, o espancamento de mulheres e crianças ou estimula os motoristas a dirigir bêbados é um absoluto absurdo. Ninguém presta atenção à propaganda”.) e patrocina iniciativas como “Um Dia sem Compras” ou “Uma Semana sem Tevê”. No Reino Unido, uma organização conhecida como Modern Toss promove eventos subversivos e fabrica camisetas, sacolas, cartazes e canecas com frases como “COMPRE MAIS MERDA” ou “ESTAMOS TODOS FODIDOS”.
Essas iniciativas podem ser um bom divertimento, mas são provavelmente incapazes de deflagrar uma revolução. Em vez de tentar derrotar o ad, seria mais sábio tentar controlar o id. Houve um tempo em que o id era desprezado e temido. Para Platão, ele era o cavalo mau da parelha: “companheiro de soberba e de lascívia, tem as orelhas cobertas de pelos – surdo como um poste – e só obedece ao chicote e à espora”.4Para Marco Aurélio, ele era “a força secreta escondida no fundo de nós, que manipula nossas cordas”. 5 Para os budistas, ele se manifesta como Mara; para os cristãos, como Satã. Para os sufis ele era o “al-nafs al-amara”, a alma inferior “que só sabe comer, dormir e se satisfazer”.6 Na Europa medieval, era o gigante avarento e violento de João e o pé de feijão e outros contos. Para Arthur Schopenhauer, era a vontade de viver, e para Nietzsche, o self. Kafka o personificou na figura sombria que aparece de repente e arrebata o elmo de seu legítimo guardião. E em nossa época há uma explicação materialista: ele é o velho cérebro abjeto escondido na base do novo cérebro. Os nomes do id variam, mas todos concordam sobre sua natureza. Ele é ávido, impulsivo, raivoso, astucioso e insaciável. Nenhuma satisfação lhe basta, por maior que seja. Dois milênios e meio antes de Freud, Buda percebeu que o problema crucial do ser é o desejo inconsciente. Um mito conta o confronto entre Buda e Mara, personificação do id, que surge montado num elefante, brandindo uma arma em cada um de seus mil braços e, quando isso não consegue mais intimidar, convoca nove terríveis tempestades, que fazem até os deuses fugir, apavorados. Buda fica só, mas mantém-se sentado na “posição invencível”, de modo que Mara é obrigado a dialogar: “Levante-se desse lugar que não lhe pertence, mas a mim”.7 Buda continua imóvel, faz uma análise do caráter repugnante de Mara e conclui que tem mais direito a ocupar aquele lugar.
Essa é uma espécie de dramatização da ideia de Freud: “Onde estava o id deve estar o ego”.8 O ego expulsa o id e toma o seu lugar. O domínio do inconsciente é a maior vitória.
Segundo Buda, a raiz do problema está na ignorância, que estimula apegos que levam a desejos e paixões, que por sua vez geram insatisfação e descontentamento. E, se a ignorância é o problema, a solução deve ser o conhecimento. Portanto, percepção é redenção. Compreensão é salvação.
O primeiro requisito é o difícil trabalho do autoconhecimento. Muito antes de Cristo, Buda percebeu que enxergamos os defeitos dos outros com a maior facilidade, mas somos convenientemente cegos aos nossos. E a versão budista da percepção é melhor porque reconhece a infinita engenhosidade da autojustificação. “A pessoa aponta os defeitos dos outros como palha peneirada ao vento, mas esconde os próprios defeitos como um jogador desonesto esconde seu dado”.9
O problema da ignorância pode ser analisado racionalmente, mas a solução de Buda requer uma compreensão mais profunda e total, que só se alcança através da meditação – que não é o transe sonolento sugerido nas imagens de Buda, mas uma intensa atividade mental descrita como “atenção plena”, “consciência”, “vigilância”. O Dhammapada, coleção de aforismos atribuídos a Buda, tem vários capítulos dedicados exclusivamente a esses conceitos: “Os que estão vigilantes nunca morrem; os que não se mantêm vigilantes já são como mortos”. Portanto, o objetivo da meditação não é a quietude e a indiferença, mas a consciência, a prontidão, a clareza de propósito. A metáfora de Buda para a mente liberada era uma espada desembainhada.
A partir da prática da meditação, Buda desenvolveu uma teoria de consciência semelhante à da neurociência contemporânea. A consciência não tem substância ou direção, mas é uma centelha que relampeja infinitamente, uma sombra flutuante de percepções, fantasias, ilusões, associações e lembranças. “A mente é agitada e inquieta, instável e distraída” – tem o capricho de um macaco que “pula de galho em galho”. Assim sendo, a ideia de um ser unificado é uma ilusão. “Não existe um self invariável. Esta consciência da mudança constante foi outra descoberta fundamental, Tudo é fluido. Tudo é transitório – “Todas as coisas estão em chamas”.10
Por isso não existe um ser permanente a ser atacado ou reprimido. A ambição, o desejo e a cobiça são fugazes como tudo o mais, e vão definhar à luz de uma intensa e prolongada análise.
Reconhecendo-os como eles realmente são, é mais difícil ceder a eles. Buda não condena o vício; apenas despreza-o como um comportamento “inepto”. O budismo não tem nada da autodepreciação tão comum no cristianismo, a execração e o medo do corpo, e a frenética mortificação da carne. Daí surge uma extensão radical de uma ideia por si só radical: o conhecimento não é apenas o começo de uma solução, mas a total solução. Conhecimento é transformação. Mas a transformação não é imediata nem fácil – nem mesmo perceptível: “Assim como o oceano cresce gradualmente, sem nenhuma mudança brusca, este método de treinamento, disciplina e prática faz efeito muito lentamente, sem que haja uma repentina percepção da verdade definitiva”.11
O segredo é persistir no método até que um comportamento “racional, acurado, claro e benéfico” se torne habitual. Ser é tornar-se – assim, quem busca a iluminação deve ser “ativo, resoluto e perseverante”. As últimas palavras de Buda foram: “Toda conquista é transitória. Esforçai-vos com persistência”.12
Outra palavra-chave é “método”. O budismo não é uma crença, mas um método, um conjunto de procedimentos para enfrentar a cadeia de consequências que nascem da ignorância. Mas Buda recusouse a especular sobre as causas da ignorância, de modo que não existe uma teoria da queda do homem, nem pecado original. Na verdade, ele se recusou a responder a qualquer questão metafísica, não porque não especulasse, mas porque julgava essa especulação inútil: “É como se um homem tivesse sido ferido por uma flecha envenenada, e seus amigos procurassem um médico, e o homem dissesse: ‘Ninguém vai me tirar esta flecha enquanto eu não souber o nome do homem que me feriu’”.13
Essa recusa de construir uma “grande teoria unificada de todas as coisas” foi profundamente sábia. Porque, se não existe dogma, não podem existir disputas doutrinárias, nem heresias, nem cismas – e portanto não haverá inquisição, tortura, morte na fogueira. As duas principais linhas budistas, teravada e maaiana, sempre coexistiram em harmonia – compare com a história do catolicismo e do protestantismo. E no budismo não existem intervenções sobrenaturais, nem deuses ou milagres, nem revelação divina, divina graça ou divina encarnação. Portanto, não há necessidade de fé. Na verdade, Buda rejeitou expressamente a ideia de fé por considerá-la uma renúncia à responsabilidade pessoal – ninguém deve crer em algo só porque alguém o diz. Cada indivíduo deve encontrar uma solução pessoal.
É uma ironia que o cristianismo, a religião do Ocidente racional, seja na verdade totalmente irracional, incoerente e até mesmo absurdo, enquanto o budismo, a religião do místico Oriente, seja completamente racional, coerente e até mesmo prático – não uma crença que exija um salto de fé no absurdo, mas um método com benefícios comprovados. E é ainda mais irônico que as características atraentes do budismo o tornem sem atrativos na era moderna. Enquanto outras religiões estão ganhando fiéis, o budismo está perdendo terreno.14 A doutrina cristã atribui a queda do homem ao pecado original, que só pode ser redimido pela ação misteriosa da graça divina. Durante mais de mil anos isso excluiu qualquer investigação do ser ou da crença na satisfação terrestre. Só com o Iluminismo os pensadores passaram a admitir a esperança e o propósito individual.
As ideias de Baruch Spinoza, filósofo holandês do século XVII, são impressionantemente semelhantes às de Buda. Os pensadores do Iluminismo adoravam a razão, mas Spinoza percebeu que a razão monta um tigre em desenfreada corrida, que a natureza humana é impulsionada em grande medida por “apetites” inconscientes que penetram na consciência como “desejos”. A maneira como ele expressa essa constatação pode ter nascido do Dhammapada ou dos escritos de Freud: “O desejo é a própria essência do homem”.15 E sua visão sobre a consciência poderia ser a de um neurobiólogo contemporâneo: “A mente humana é a própria ideia ou conhecimento do corpo humano”.16 Entretanto, como Buda, ele acreditava que os impulsos podiam ser controlados se fossem compreendidos: “Uma emoção deixa de ser paixão assim que temos uma clara ideia dela”.17 E, como Buda, Spinoza tem sido muitas vezes desprezado como um mero buscador da tranquilidade – mas o que ele mais valorizava era a alegria, que definia como uma sensação de poder criada pela compreensão da mente. Mas, também como nos ensinamentos de Buda, a compreensão não é passiva, um estado final, mas um processo que requer esforço incessante. Num outro vislumbre que prefigura a neurobiologia, no qual define os organismos vivos como sistemas para a otimização das condições de vida, Spinoza sugeriu que lutar faz parte da nossa natureza. Sua palavra latina para definir “natureza humana”, “conatus”, significa “empenho”, “esforço”: “O esforço com que cada coisa singular tenta perseverar em seu ser nada mais e do que a verdadeira essência da coisa”.18 E, para ser válido, o esforço tem que ser grande: “Se a salvação estivesse facilmente disponível e pudesse ser alcançada sem grande esforço, como poderia ser negligenciada por quase todo mundo? Tudo o que é excelente é raro e difícil de alcançar”.19
Mas a Europa do século XVII não estava preparada para isso. Enquanto Buda era reverenciado como mestre, Spinoza era condenado por heresia. Sua comunidade judaica na Holanda primeiro tentou comprá-lo (com uma anuidade de 1.000 florins) para que ele se calasse, depois tentou matá-lo (a punhalada foi frustrada pelo volume de sua capa) e finalmente o excomungou no estilo do Velho Testamento:
Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos nós anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch Spinoza [...] pronunciando contra ele o anátema com que Josué condenou Jericó, a maldição que Elias lançou sobre os filhos e todas as maldições escritas na Lei. Maldito seja ele de dia e de noite; maldito seja quando se deita e quando se levanta, e maldito seja ele quando sai e quando volta[...]
E assim vai trovejando, até ordenar que “ninguém dele se aproxime a uma distância menor do que quatro cúbitos, ou leia qualquer documento ditado por ele ou escrito por sua mão”. A resposta de Spinoza foi uma só: “Isso não me obriga a nada que eu já não teria feito”.20
Depois da morte de Spinoza, seus escritos e ideias foram brutalmente suprimidos, e só no século XIX um conjunto semelhante de pensamentos foi expresso por Schopenhauer. A palavra que ele usava para o id era “vontade”, que definia como “um impulso cego” que leva o homem a ser controlado por “desejos desconhecidos e dos quais ele quase não tem consciência”.21 E Schopenhauer expressou com eloquência incomparável a insaciabilidade dos apetites: “Os desejos da vontade não têm limites, suas exigências são inesgotáveis, e cada desejo satisfeito gera um novo. Nenhuma satisfação neste mundo pode vencer seu anseios, pôr um limite a seus desejos infinitos e preencher o abismo insondável de seu coração”.22
E à frente desses apetites está o desejo sexual: “O homem se engana se pensa que pode negar o instinto sexual. Ele pensa que pode, mas na verdade o intelecto é corrompido pelos desejos sexuais, e é nesse sentido que a vontade é “o antagonista secreto do intelecto”. O sexo é “o objetivo final de todo esforço humano” – e a repressão sexual pode causar neurose. Schopenhauer foi um psicólogo notável, mas não acreditava em progresso social ou satisfação pessoal: “Em um mundo onde nenhuma estabilidade [...] é possível, onde tudo está em constante mudança e confusão, e que só se mantém na corda bamba se continuar andando incessantemente para a frente – em tal mundo, a felicidade não é algo em que se possa pensar”.23
Nietzsche também lançou ideias semelhantes, que ele acreditava novas, mas que na verdade já tinham milhares de anos. Ele também reconhecia a existência de uma força impulsora, que chamou de self: “Seu self ri de seu ego e de seus esforços. ‘O que significa essa ginástica mental para mim?’, ele se pergunta. ‘Apenas uma maneira de me desviar de meu objetivo. Sou o primeiro violino do ego; sou eu que desperto todas as suas ideias.’”24
E esse self emboscado é o adversário mais persistente e perigoso: “Mas você mesmo sempre será seu inimigo mais perigoso; você mesmo está à espreita em florestas e cavernas”.25 Nietzsche também intuiu que o impulso de obter o melhor possível é a essência de todas as coisas vivas: “Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder”.26 O esforço incessante do organismo humano ele definiu como “superação de si”: “Eis o segredo que a vida me confiou: ‘Vê’, disse-me ela, ‘eu sou aquela que deve sempre superar a si mesma.’”27 E o atrito do ser superando o ser vai gerar calor e luz suficientes para tornar a vida satisfatória. Nietzsche saudava a dificuldade com sua típica grandiloquência: “Aquilo que não me mata me fortalece”.28
No século XX Freud propôs um modelo semelhante de self, que ele alegava ser não apenas novo, mas rigorosamente científico. E para estabelecer o domínio do id pelo ego existe o método “científico” da terapia psicanalítica, que busca vencer a astúcia do id apanhando-o desprotegido, exposto em neuroses, em livres associações ou em sonhos (depois de um dia de intensa manipulação do ego, o id gosta de se soltar a noite toda). Mas o terapeuta precisa ser uma pessoa especial: “O analista precisa estar de alguma forma numa posição superior, para que possa servir de modelo para o paciente em certas situações analíticas, e em outras atuar como professor”. 29 Em outras palavras, o analista precisa inspirar como um mestre budista. Mas existe uma contínua e aguda carência universal de mestres. Poucos analistas estão dispostos ou são capazes de ser modelos ou professores, e muitos decidiram ser bem pagos para ouvir neuróticos endinheirados por uma hora por semana ou, pior ainda, tornar-se cirurgiões plásticos psicológicos. Lembro que fiquei horrorizado quando o crítico teatral Kenneth Tynan revelou numa entrevista, sem nenhum constrangimento ou ironia, que tinha pagado um analista para livrar-se da culpa de estar abandonando a mulher.
Recentes pesquisas da neurociência confirmam o modelo de self proposto por pensadores – exceto pelo fato de que a separação entre razão e emoção, entre ego e id, não é tão clara quanto Freud e seus seguidores pensavam. Segundo neurocientistas como Joseph LeDoux, a reação emocional do cérebro é ativada em grande parte pela amígdala (parte do sistema límbico), enquanto a resposta racional é ativada pelo córtex pré-frontal (bem atrás dos olhos).30
Então, colocada a questão de uma forma muito rudimentar, o ego é o córtex pré-frontal e o id é a amígdala. Mas o cérebro emocional é capaz de pensar, e o cérebro racional, que tem um caminho direto para a amígdala, é imensamente influenciado pela emoção. Muitas das reações impulsivas do cérebro emocional (a intuição, por exemplo) são boas, enquanto muitas das respostas do cérebro racional (o autoengano, por exemplo) são más. Portanto, não é rigorosamente verdade que o ego seja o herói, e o id, o vilão. Mas em geral o cérebro racional toma decisões mais sensatas que o cérebro emocional. Tomemos como exemplo o caso de Mary Jackson, uma estudante de 19 anos inteligente e muito motivada, que planejava formar-se em medicina, casar-se com o namorado e estabelecer uma clínica pediátrica em seu bairro carente. De repente, parou de frequentar as aulas e começou a beber, a usar crack, a dormir por aí e a ter violentos ataques de raiva quando censurada. Quando mais tarde foi encaminhada ao neurologista Kenneth Heilman, uma tomografia do cérebro revelou que um imenso tumor tinha danificado o córtex préfrontal, tornando-a incapaz de resistir a impulsos ou manter objetivos de longo prazo.31 Em meados do século XX, muitos cirurgiões chegaram a causar efeitos semelhantes realizando a lobotomia préfrontal, um procedimento que se supunha capaz de curar muitas doenças, da epilepsia à esquizofrenia. Esse método brutal, usado em milhares de pessoas em prisões e hospícios, envolvia inserir um bisturi sob a pálpebra e, com um martelada, fazê-lo atravessar o osso para cortar as conexões entre o córtex pré-frontal e o resto do cérebro. (Qualquer pessoa que admire o Prêmio Nobel deve ter em mente que o prêmio de medicina de 1949 foi concedido aos dois cirurgiões que criaram esse procedimento para realizar a lobotomia.) O neurocientista Jonathan Cohen constatou o conflito entre os cérebros emocional e racional submetendo os pacientes a uma tomografia e lhes dando a opção de receber um vale-brinde imediatamente ou um valor maior dentro de algumas semanas. A possibilidade de receber um presente imediatamente ativava o cérebro emocional, enquanto a hipótese de uma quantia maior no futuro ativava o cérebro racional, o córtex pré-frontal – e a região que fosse ativada mais fortemente fazia a escolha. Assim, Cohen pode ter sido a primeira pessoa a testemunhar a luta mais antiga da história humana: a queda de braço entre o ego e o id. E devo dizer que causa sofrimento ao meu córtex pré-frontal revelar que o id quase sempre venceu.32

(Michael Foley - A era da loucura)
 
NOTAS:
1. Inge Kjaergaard, “Propaganda para o cérebro”, Focus, Dinamarca, 2008.
2. Citado em Barry Schwartz, The Paradox of Choice: Why More is Less [O paradoxo da escolha: por que mais é menos], Haper-Collins, 2005.
3. Martin Lindstrom, Buyology: How Everything We Believe about Why We Buy is Wrong, Random House Business Books, 2009.
4. Platão, Phaedrus [Fedro], em John M. Cooper e D. S. Hutchinson (orgs.), Plato: Complete Works, Hackett, 1997.
5. Marco Aurélio, Meditations, Penguin, 1964.
6. Citado em Robert Bly, The Sibling Society, Hamish Hamilton, 1996.
7. Citado em Karen Armstrong, Buddha, Weidenfeld & Nicolson, 2000.
8. Sigmund Freud, Collected Papers, Hogarth Press, 1970.
9. Juan Mascaro (trad.), The Dhammapada, Penguin, 1973.
10. Citado em Karl Jaspers, Socrates, Buddha, Confucius, Jesus: The Paradigmatic Individuals, Harvest, 1960.
11. Citado em Armstrong (2000), op. cit.
12. Citado em Jaspers, op. cit.
13. Ibid.
14. As estatísticas estão em John Mickçethwait & Adrian Wooldridge, God is Back: How the Global Rise of Faith is Changing the World, Allen Lane, 2009.
15. Spinoza, Ethics [Ética], Hafner Publishing, 1966.
16. Ibid.
17. Ibid.
18. Ibid.
19. Spinoza, Ethics [Ética], Everyman, 1993.
20. Citado em Antonio R. Damasio, Looking for Spinoza [Em busca de Spinoza], Vintage, 2004.
21. Citado em Henri F. Ellenberger, The Discovery of the Unconscious, Penguin, 1970.
22. Arthur Schopenhauer, The World as Will and Idea [O mundo como vontade e representação], Dent, 2004.
23. Arthur Schopenhauer, Essays and Aphorisms, Penguin, 1970.
24. Nietzsche (1885), op. cit.
25. Ibid.
26. Ibid.
27. Ibid.
28. Ibid.
29. Ibid.
30. Joseph LeDoux, The Emotional Brain [O cérebro emocional], Simon & Schuster, 1996.
31. Kenneth M. Heilman, Matter of Mind: a Neurologist’s View of Brain-Behavior Relationships, Oxford University Press, 2002.
32. J. Cohen et al.,”Separate neural systems value immediate and delayed monetary rewards”, Science, 306, 2004.

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DÚVIDAS SOBRE A MORTE

por Thynus, em 10.06.15
 

O que é a morte? Talvez eu já me tenha feito essa mesma pergunta centenas e centenas de vezes, por milhares e milhares de anos, tal como qualquer outra pessoa que já tenha passado por este mundo. Será morrer apenas deixar de existir? Será sentir meus olhos serem fechados por um beijo úmido e sensual? Como será ter a certeza de que a visão de um rosto amigo é a última desta vida antes que sobrevenha a escuridão trazida pela morte? Poderá ela ser um corcel veloz e nervoso, um raro pássaro, uma fênix ou até mesmo uma dádiva? Talvez... quem sabe! Mas é muito provável que ela seja apenas, em meio à escuridão de meus olhos fechados, para os quais não mais reúno forças para abrir, a carícia de sentir minha alma ser confortada pelas asas de um beija-flor que vem beber das minhas últimas lágrimas...
Ninguém poderia saber, na verdade, o que é ser imortal e, pior ainda, ser o primeiro deles. Tirando-se o romantismo, fica a dor. Pois eu amei muitas pessoas e as vi irem-se embora, deixando no solo do meu coração e nas miragens de meu cérebro apenas saudades, lembranças que teimam, com o passar do tempo, em confundir-se com nuvens. Eu estive à beira de seus leitos, chorei de amargura por não mais poder tê-las junto a mim, sobre este mundo, sob estas estrelas, andando comigo num verde campo sob a esplêndida e magnífica luz do sol, da lua e das estrelas. E eram pessoas tão queridas... tão importantes, que acalentavam sonhos e visões que nunca mais serão conhecidos.
Seus sorrisos, suas lágrimas, os pensamentos lindamente construídos e articulados, de uma forma única em toda a história deste nosso planeta, mas que se mostram irremediavelmente... perdidos. O conforto mínimo era o de apenas saber que suas almas estavam livres e que seus corpos iriam novamente integrar-se à terra de onde vieram. Assim era naqueles tempos... como até hoje ainda é a bem da verdade.
Felizmente, a dor não é para mim uma senhora avassaladora e cruel porque eu ainda sou daqueles que acreditam nas boas coisas da vida e, por que não, da própria morte. Para mim, que já vivi tanto, que tenho minha alma tão envelhecida, a morte não é um fim, apesar de nunca tê-la experimentado, ao que me lembre. Será que perdi muito? Como dizia meu avô de alma, há centenas e centenas de anos no passado, é bem provável que sim! Como ele, também acredito que ela nos dê a chance, através de um benfazejo esquecimento, de ter como amigos os inimigos que tive ou fiz, de uma forma ou de outra, criando-os como ator ou... espectador.
Então, o que é a morte? Bem certo uma nova forma de ver o que nunca desaparecerá, de ver minhas marcas, a dor no meu corpo. É como ver a sombra lenta do falcão sobre a relva, acalentada pela brisa e pelo sol de inverno. Apesar de todas as dúvidas que me atormentam, e que sei em nada alterarão o curso do cansado rio frente ao tempo inclemente, tenho a certeza de que não é tão fútil, tanto quanto sei que a vida também não o é.
Talvez, pensando assim, o velho conto que ouvi há muito tempo na querida Terra, que comparava a eternidade a uma bolha de sabão, e de que ainda me lembro, seja muito próprio. Se assim não o for, que fique então apenas como um registro esquecido de um tempo não mais lembrado pela maioria: Leve e preguiçoso, espaçoso... Escoar como globo no ar parado. Não haverá vendaval, é sabido! Apenas benfazejas correntes de sopro vagarão. Como ter a certeza de que não se passará por tormentas algum dia? Em paz no fim da tarde vermelha de inverno, langoroso no ar como um gato boiando nos telhados fuliginosos ao lado das chaminés adormecidas, escôo. Como é tediante ser eterno a levitar no ar! Não haverá a benfazeja morte? Dizem sobre o estouro, mas sinto que são apenas lendas... antigas lendas de tempos que nunca vivi.
Como são distantes da realidade! Nunca morrer, essa é a lei! E o ar se tornará escuro e o brilho e as cores irão, transparentes sob a lua amarela destacada do negro fundo, se transmudando! Mas, deixar de estar assim, em um nunca morrer e...
 — Pô! — xingou o menininho jogando no chão o canudinho de mamona com o qual fizera lindas bolhas etéreas de sabão que lançara ao ar revolto. — Que pena!!! Essas bolinhas são tão bonitas, mas duram tão pouco! Não quero mais brincar com elas, são muito bobas. Estouram muito depressa! — desabafou enquanto corria ao encontro de sua mãe, que, cantando suave para a vida, estendia lençóis no varal, brancos como neve e cheirosos como flores da manhã.
"Contribuição de Sorran a este romance, no ano de 2891, sabidamente o homem mais velho da humanidade, que também ficou conhecido como Enoc Vidallonga, Joshua Ruster Conel, Maltus Sandlers..."

 (MIKAEL LENYER - A Raça Divina, Vol. 1,Da Selva à Civilização Mundial)
Eurípídes

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publicado às 10:32


O VINHO E OS SANTOS

por Thynus, em 08.06.15
Os santos são os herdeiros dos deuses, e 
os santos vinhateiros são os sucessores dos deuses do vinho



Estranho ofício, esse de viver da vinha... Com apenas uma geada na primavera, um pouco mais de chuva ou um excesso de seca, uma passagem de pássaros, uma tempestade ou uma neve precoce, o trabalho de todo um ano pode ser destruído ou gerar um produto de qualidade medíocre. O viticultor, mais que outros agricultores, é um homem que não sabe “a que santo rezar” para escapar das calamidades naturais. Mas é também aquele que, mais do que outros, conhece o grande ciclo natural e percebe a dimensão trágica da vida. Apesar de os santos serem onipresentes na viticultura, a visão do viticultor está muito afastada da visão dos homens da Igreja, a ponto de termos de nos perguntar se por trás do pagão Baco e do cristão São Vicente não permanecem vivos antigos ritos agrários.

São Martinho e a poda das videiras
 

I. Uma bebida santificada
Os santos são os herdeiros dos deuses, e os santos vinhateiros são os sucessores dos deuses do vinho. Uma especialização surge a partir do século XII, com o nascimento das corporações e das confrarias de ofício. Na maior parte das vezes, um único santo tutelar patroneava uma profissão. Para os vinhedos franceses, mais de trinta santos patronos foram enumerados.(LECOTTÉ, R. Saints protecteurs de la vigne et du vin en france. Tours: Musée des Vins de Touraine, 1975. p. 423)
Todos têm boas razões para reivindicar essa honra. Seja porque seus nomes influenciaram suas vocações, como foi o caso de São Vito (vitis significa “vinha” em latim) ou São Davin (da vinum quer dizer “aquele que dá o vinho”); seja porque os santos vinhateiros tenham sido martirizados e tenham derramado seu sangue por causa de sua fé, renovando o sacrifício de Jesus Cristo, que os crentes perpetuam graças ao vinho. O vinho dos mártires era considerado de certa forma como uma semente cristã. Algumas vezes, as anedotas sobre a vida dos santos padroeiros permitiam que eles adquirissem credibilidade junto ao povo: São Vernier era viticultor e filho de viticultor; Santo Urbano protegera o vinho de saqueadores e salvara a vinha com suas orações; o burro de São Martinho teria inventado a poda ao pastar uma vinha; São Vicente era diácono e tinha a função de servir o vinho no cálice durante a missa etc. Na verdade, é provável que toda essa hagiografia mascare outras realidades mais antigas, conforme revelado pelo estudo do calendário.

II. Os santos vinhateiros(GAUTIER, J.-F. “Les saints vignerons de Paris”. Les Petites Affiches. Paris, nº 112, 17/09/1993. p. 20)
As dezenas de santos vinhateiros identificados na França têm funções corporativas(DU BROC DE SEGANGE, L. Les saints patrons des corporations, 1887, citado por Roger Lecotté, op. cit., p. 423.), regionais e temporais.
Isso pode ser observado entre os santos protetores dos vinhedos: Santo Antonin, abade, é festejado em 14 de fevereiro; São Friard é festejado em 1º de agosto; São Gautier é festejado em 9 de abril; Santa Genoveva é festejada em 3 de janeiro; São João Porta Latina é festejado em 6 de maio; Santa Madalena é festejada em 22 de julho; São Morand é festejado em 4 de junho; Santo Urbano, papa, é festejado em 25 de maio; Santo Urbano, bispo, é festejado em 2 de abril; São Vicente é festejado em 22 de janeiro; São Werner é festejado em 19 de abril.
O mesmo acontece com os santos protetores dos tanoeiros: São Nicolau é festejado em 6 de dezembro. E também com os santos protetores dos viticultores: Santo Amand é festejado em 6 de fevereiro; São Vicente é festejado em 22 de janeiro.
E com os santos protetores dos carregadores e transportadores de vinho: Santo Eustáquio é festejado em 20 de setembro; São Nicolau é festejado em 6 de dezembro; São Lubin é festejado em 14 de março. E com o santo patrono dos descarregadores de vinho: São João Batista é festejado em 24 de junho. E com os santos protetores dos mercadores de vinho: Santo Amand é festejado em 6 de fevereiro; Santa Madalena é festejada em 22 de julho; São Martinho é festejado em 11 de novembro; São Nicolau é festejado em 6 de dezembro; São Vicente é festejado em 22 de janeiro.
Surpreendentemente, os inspetores de vinho têm um santo tutelar na pessoa de São Vicente, que esses fiscais, como todos os profissionais do vinho que se prezem, celebram no 22 de janeiro de cada ano.
Quanto aos santos protetores da vinha, eles são divididos de maneira funcional e sazonal. O primeiro trimestre vitícola, durante o qual são feitas a poda e as primeiras lavras, é também o de louvores aos santos encarregados de ajudar na subida da seiva, como São Vicente (22 de janeiro), São Paulo (25 de janeiro), São Blaise (3 de fevereiro) ou Santo Aubin (1º de março).
No segundo trimestre, reza-se a São Gautier (9 de abril), São Vernier (19 de abril), São Jorge (23 de abril), São Marcos (25 de abril), São Thiébault (16 de maio), São Marcelino (2 de junho), São Morand (3 de junho), São João Batista (24 de junho) etc., para que estes protejam as vinhas das geadas e ajudem na floração. No terceiro trimestre, o amadurecimento é o que importa, e as primeiras uvas colhidas são oferecidas a São Pedro em Liens (1º de agosto), São Lourenço (10 de agosto), São Roque (16 de agosto) ou à própria Nossa Senhora (15 de agosto), às vezes chamada de Nossa Senhora das Vinhas.
Por fim, o último trimestre do ano vitícola é o da colheita e da fermentação. São Remígio (1º de outubro), São Sérgio (7 de outubro), São Grat (16 de outubro), São Caprais (20 de outubro), São Martinho (11 de novembro), Santo Elói (1º de dezembro), São Nicolau (6 de dezembro), Santa Otília (13 de dezembro) ou Santo Urbano (19 de dezembro) são então invocados pelos viticultores.
 Os mais importantes dos santos protetores da vinha e do vinho na França são: São Vincente, São Martinho e... São Baco, cuja festa patronal ocorre no domingo que se segue ao 7 de outubro (dia de São Sérgio), ou seja, durante os bacanais de outono.
Os mais importantes dos santos protetores da vinha e do vinho na França são: São Vincente, São Martinho e... São Baco, cuja festa patronal ocorre no domingo que se segue ao 7 de outubro (dia de São Sérgio), ou seja, durante os bacanais de outono.  

III. São Baco(GAUTIER, J.-F. Le vin à travers les âges. Bordeaux:LCF, 1989. p. 80)
São Baco, segundo a história, veio do além-mar, é coisa certa.
Como conta essa trova do século XIV, intitulada “O martírio de São Baco”, foi de fato de além-Mediterrâneo que nasceu a lenda do “santo pagão”. Na época do imperador Diocleciano, no século IV, a Schola Gentilium, uma tropa de elite composta por bárbaros, era comandada por dois jovens oficiais do exército romano da Síria chamados Baco e Sérgio. Denunciados como cristãos por seu chefe Antióquio, foram martirizados em 304 e depois canonizados.(BAUDOT; CHAUSSIN. La vie des saints et des bienheureux. Paris: Librairie Letouzey & Ané, 1948. p. 191) O culto desses santos se enraíza primeiro no Oriente, especialmente em Rosafa, na Mesopotâmia, onde Sérgio fora decapitado e enterrado (a cidade se torna um grande local de peregrinação e muda de nome para Sergiópolis), e em Barbalissos, onde estaria a tumba de Baco, depois em Roma e dali para a Gália, a partir do século VI.
Em Jouques, pequena aldeia da Provence, existe uma lenda que coloca em cena um certo São Baqui (ou Bacchi). Este também seria um oficial romano convertido ao cristianismo, mas que depois de evangelizar a região teria se tornado eremita. No local de sua morte, uma capela teria sido construída no século IX. Depois de apropriada como bem nacional durante a Revolução e desativada em 1919, a capela de São Baqui foi por fim vendida como bem comunal em 1920.
Hoje propriedade privada, a construção está quase em ruínas. Os afrescos murais da capela São Baqui retratam as cenas da vida do lendário legionário, enquanto estranhos anjinhos negros ornam a abóbada. Estranho também é constatar que São Baqui é onipresente em Jouques (estátuas, quadros, afrescos etc.), enquanto que aparentemente nenhuma função simbólica específica justifica sua existência.
Uma segunda versão conta que a capela em questão foi edificada no século IX no local de um templo a Baco. A superposição, ou a osmose, de um deus pagão com um santo cristão parece esclarecer o fenômeno.
Acima de tudo necessidade vital, o sincretismo cristão permitiu a popularização da nova religião. De Santa Apolínea a Santa Zoé, ou de Santa Olímpia a Santa Walburge, os santos pagãos serviram de suporte à imagética cristã. As referências e as persistências da liturgia cristã aos ritos báquicos se tornam evidentes no culto dos dois santos vinhateiros mais venerados na França: São Martinho e sobretudo São Vicente, pois, como diz uma canção da Borgonha:
Cavaleiro, discípulo, companheiro,
Baco tem sua devoção,
Mas para todo vinhateiro
São Vicente é o patrão.

São Vicente, padroeiro dos vinicultores
 

IV. São Vicente
São Martinho foi o primeiro santo vinhateiro do Ocidente. Protetor dos francos, São Martinho nasce no ano de 317, em Sabaria (Szombathely), ao norte do lago Balaton, na província romana da Panônia (atual Hungria). Filho de um oficial pagão da guarnição, Martinus (o pequeno Marte) estava destinado a servir no exército imperial. Depois de passar uma parte de sua infância na cidade italiana de Pávia, Martinho entra aos quinze anos no exército romano e, três anos depois, é enviado para a guarnição de Amiens. É nessa cidade da Picardia que aconteceria, em 334, o famoso episódio da partilha do manto: Martinho, num dia de grande frio, teria cortado seu manto em dois para vestir um mendigo. A santa cena inspirará o italiano Giotto, o espanhol de origem grega chamado El Greco e o mestre vidraceiro da catedral de Mans. Na noite seguinte a seu gesto fraterno, Cristo teria aparecido a Martinho vestido na metade oferecida ao pobre diabo. Depois disso, o generoso doador se teria feito batizar no dia de Páscoa do ano 334.
Em 361, ele funda uma comunidade religiosa em Ligugé, na região de Poitiers, que foi o primeiro monastério da Gália Central. Ordenado sacerdote pelo bispo de Poitiers, o futuro Santo Hilário, ele será nomeado bispo de Tours em 371. Martinho morre aos 81 anos na pequena aldeia de Candes, perto de Chinon (hoje Candes-Saint- Martin), não muito longe de onde nasceria François Rabelais. Conservado em Tours, o manto de São Martinho se tornará a relíquia mais venerada da França. A “capa” serviria de patrono místico à dinastia capetíngia, e a palavra “capela” (do latim vulgar capella) designava originalmente o lugar onde era guardada a capa de São Martinho.
Assim que Martinho morreu, a lenda foi se desenvolvendo: alguns contam que o santo homem transformara em vinho puro a água da fonte do monastério de Marmoutier, num ano em que as vinhas estavam estéreis; a crença popular também conta que, durante a passagem fúnebre de seu corpo, em pleno mês de novembro, os campos teriam começado a verdejar, as árvores a florescer e os pássaros a cantar. Desse prodígio nasce a expressão été de la Saint-Martin.(Literalmente, verão [(da) festa de] São Martinho, período de dias quentes e ensolarados durante o mês de inverno, próximo à festa de São Martinho (11 de novembro).Equivalente ao nosso “veranico de maio”) Nas fábulas populares, o nome de Martinho foi várias vezes atribuído ao asno e ao macaco, depois a certas espécies de pássaros (daí o nome “martinete” e “martim-pescador”). Nas províncias, a festa de São Martinho marcava, nos tempos antigos, o dia de vencimento dos contratos de trabalho para os criados ou aprendizes. Era também em 11 de novembro que os viticultores ofereciam os primeiros frutos de suas colheitas. Nesse dia também se provava o vinho novo. A degustação ainda é chamada de martinée, e a abertura de um vinho novo de martinage. Quando uma pessoa abusa demais do vinho se diz que ela tem o mal de São Martinho ou que ela está com uma martinée. O bispo de Noyon, “o bom Santo Elói”, condenaria, no século VII, o mal de São Martinho, que só seria considerado uma doença, chamada alcoolismo, em 1849, numa obra escrita por um professor de medicina sueco chamado Magnus Huss, após observações no hospital Serafim, de Estocolmo. A palavra “alcoolismo” seria introduzida na França em 1853 pelo doutor Renaudin.
Se o Vale do Loire foi considerado um verdadeiro vale dos reis, São Martinho foi considerado o padroeiro da França. Sua festa patronal encobre inúmeras festividades pagãs de outono. As cerimônias que marcaram o fim da Primeira Guerra mundial, em 11 de novembro de 1918, hoje ocupam o lugar dos antigos costumes. No entanto, é São Vicente o celebrado pelo viticultores franceses como o santo protetor da vinha e do vinho.
Sob o reino do imperador romano Diocleciano, no século IV, um novo procônsul de nome Daciano é enviado para a Espanha. Durante uma viagem por Saragoça, ele manda prender o bispo Valério e seu diácono Vicente e ordena que sejam conduzidos a pé até Valência. Devido à sua idade avançada, Valério é poupado e banido, mas Vicente sofre terríveis torturas, soltando seu último suspiro na prisão, em 22 de janeiro de 304. O culto a São Vicente se espalha então para fora da Espanha, principalmente pela França. Em 531, os reis francos Childeberto I e Clotário I, filho de Clóvis e Clotilde, cercam Saragoça e levam para a França, em 542, a túnica de São Vicente, bem como uma cruz de ouro que teria pertencido ao rei Salomão de Israel, construtor do templo de Jerusalém. As relíquias do diácono mártir são depositadas na basílica de Saint-Vincent-et-de-la-Sainte-Croix (São Vicente e da Santa Cruz), que se torna, em 754, Saint- Vincent-Sainte-Croix. Depois, as santas relíquias foram dispersas para Le Mans, Vitry-le-François, Besançon e Viviers.
A abadia de Saint-Vincent-Sainte-Croix, cujo domínio se estendia mais ou menos pelo território atual dos 6º e 7º arrondissements, de Paris, possuía muitos vinhedos na Île-de-France. Os monges encarregados de sua exploração naturalmente se colocaram sob a proteção do santo patrono da abadia. Para alguns, essa é a razão da escolha de São Vicente como “protetor dos viticultores da região parisiense [pois] os primeiros colonos plantadores de vinhas haviam trabalhado sob a dependência da abadia de São Vicente antes de ela se tornar a abadia Saint-Germaindes-Prés” (LECOTTÉ, R. Saints protecteurs de la vigne et du vin en France. Tours: Musée des Vins de Tourraine, 1975. p. 418), assim chamada para não ser confundida com a igreja Saint-Germain-le-Vieux, na Île de la Cité. Outros dizem que quando os francos venceram os burgúndios, em 534, a influência patronal de São Vicente se estendeu da Borgonha a toda a Gália vitícola. Outros ainda se apoiam na anedota segundo a qual o asno de São Vicente, brotando a extremidade dos ramos de uma videira, teria ensinado a todos os viticultores como podar a vinha.(Uma lenda da Touraine, do século VII, também credita ao asno de São Martinho a descoberta da poda e a liga à origem da expressão Tous les ânes s’appellent Martin (Todos os asnos se chamam Martinho). A lenda diz que essa revelação se deu para os monges de Borgueil) Como agradecimento, eles teriam escolhido São Vicente como santo padroeiro. A não ser que se fale em acaso, é difícil negar a coincidência entre a data da festa de São Vicente e as datas importantes para o crescimento da vinha, da poda e das lavouras de inverno.
A notoriedade de Vicente na Igreja se deve essencialmente aos sermões que Santo Agostinho fez em honra ao diácono de Saragoça, enquanto trocadilhos garantem sua popularidade. Vicente estava encarregado, durante o ofício, de levar o vinho ao ofertório, e seu nome se tornou objeto de gozação. Ora seu nome era decomposto em combinações evocando o sagrado (vin sang), ora seu patrônimo era tido como sinônimo de abundância (vin cent).(Em francês, Saint Vincent (São Vicente) soa da mesma forma que vin sang (vinho sangue) e vin cent (vinho cem)) As variações possíveis em torno da palavra vin (vinho) explicam em parte o crédito de São Vicente junto à comunidade viticultora. Mas essa talvez não seja a verdadeira razão para isso.
A data em que se festeja São Vicente, 22 de janeiro, ocorre num período crucial do ciclo anual, que corresponde mais ou menos ao solstício de inverno e à passagem do estado de latência da vegetação à sua ressurreição. (ROYER, C. Les vignerons, usages et mentalités des pays de vignobles. Paris: Berger-Levrault, 1980. p. 170)
Constataremos, por outro lado, que, a partir do século XVIII, São Vicente se torna ao mesmo tempo patrono dos viticultores e dos vinagreiros, o que garantiria pelo menos a alegria de uma das corporações.
Apesar da Saint-Vincent Tournante ser na origem apenas uma festa celebrada na intimidade de cada aldeia, a Confraria dos Cavaleiros de Tastevin lhe deu novos ares em 1938, organizando no primeiro sábado seguinte ao 22 de janeiro uma grande manifestação tradicional, inspirando-se nos usos da Ordem da Boisson, criada em 1703 em Villeneuve-lès-Avignon. Todo ano, a Saint-Vincent Tournante acontece em uma das 32 comunas das altas encostas da Borgonha, onde são realizadas uma missa e uma procissão durante a qual a estátua do santo é carregada de modo solene pelas ruas da aldeia pelos Cavaleiros de Tastevin vestidos com as roupas da confraria. Há quase cinquenta anos, cerca de cem mil pessoas se espremem na aldeia borgonhesa escolhida para participar dessa festa ao mesmo tempo profana e religiosa e para comungar no culto de São Vicente.
Antigamente, a Saint-Vincent Tournante era ocasião para se ajudar a família dos viticultores falecidos, e o momento em que se ofereciam ramos aos mortos do ano. Essa espécie de culto aos mortos, unido à degustação do vinho novo e às diversas libações tradicionais, algumas vezes incitou a comparação da Saint-Vincent às Antestérias, que aconteciam na Grécia, todo mês de fevereiro, em homenagem a Dionísio.
É claro que a Saint-Vincent se inicia em fervor religioso, mas depois da missa chega a vez do vinho e dos homens. Come-se e bebe-se em abundância, e a celebração da festa evoca os velhos ritos agrários, pois o grande ciclo natural se impõe, e os santos que aparecem no local correspondente do calendário souberam tirar proveito dele.

(Jean-François Gautier - Vinho)

São Vicente, o vinho e o gelo

 

 
 

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O VINHO E SUA CIVILIZAÇÃO

por Thynus, em 05.06.15
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Símbolo de uma civilização
Tão antigos quanto a história das civilizações, a vinha e o vinho sempre existiram, indissociáveis de nossas mitologias. (A mitologia pode ser definida como uma “filosofia em imagens” (BOTTÉRO J. “Le plus vieux récit du Déluge”, L’Histoire, n. 31, Paris, fev. 1981, p. 118)) A vinha é primeiro cultivada às margens do Cáucaso (vitis caucasica) e depois na Mesopotâmia (na região do atual Iraque). Depois é plantada no Egito, a partir do III milênio a.C., para a fabricação de vinhos funerários. Os gregos, pioneiros do vinho na Europa, transplantam a vinha para a Sicília e para a Itália meridional; mais tarde, apresentam a viticultura aos romanos que, por sua vez, transmitem suas habilidades vitícolas aos gauleses.

I. Uma bebida mítica
“Um mito é um conto de caráter especial, uma narração em que as divindades assumem um ou mais papéis principais”. (KRAPPE, A.H.. Mythologie universelle. Paris: Payot, 1930. p. 11) Ninguém duvida de que o vinho esteja totalmente de acordo com essa definição.
Na mitologia egípcia, é Rá, o deus solar criador do mundo, quem introduz o vinho e a embriaguez na Terra. Para preservar a espécie humana da ira da deusa Hathor, que os gregos identificaram com Afrodite, Rá prepara um licor inebriante cor de sangue. Em alusão ao estratagema divino, os egípcios colocavam o vinho, e todas as festas a ele ligadas, sob a égide da deusa de cabeça de vaca. Na mitologia grega, a vinha é dada por Dionísio, deus helênico do vinho e da embriaguez, ao rei Eneias como recompensa por ter-lhe emprestado sua mulher. A tradição grega também conta outra história, segundo a qual o pastor do rei Eneias, Stafilos (o cacho de uva, em grego), percebera que uma de suas cabras ficara alegre depois de comer uvas. Stafilos tomou então o cuidado de esmagar o fruto da vinha e recolher seu suco, inventando assim o vinho. Na mitologia romana, a introdução do vinho é atribuída a Saturno, deus das Sementes e da Vinha. Os romanos representavam Saturno com a foice do ceifeiro e a tesoura de podar do viticultor.
Quanto à mitologia gaulesa, esta coloca o tonel com aros de carvalho, invenção celta, sob os auspícios de Sucellus. Divindade céltica da floresta assimilada pelos romanos como o deus Silvano, representado com uma coroa de hera, uma tesoura de podar na mão e um martelo de tanoeiro nos ombros, Sucellus protegia, por assim dizer, a bebida líquida.
Nesses exemplos, a cultura da vinha aparece, mitologicamente falando, como o testemunho de uma era fabulosa em que os deuses viviam sobre a terra e o próprio vinho era considerado um mito vivo.

II. Na origem das civilizações
Os mitologistas e os filólogos estão de acordo quando dizem que o vinho está na origem das civilizações. Além da raiz sânscrita vena (amado), presente na etimologia da palavra “vinho” das diferentes línguas de origem indoeuropeia, as sociedades antigas consideravam o fruto da vinha uma bebida civilizatória. A exemplo das religiões pagãs à sua volta, a tradição bíblica sacraliza o vinho e faz dele um dom de Deus (Gênesis 27, 28).
A Escritura nos diz (Gênesis 8, 4) que o uso do vinho só é conhecido depois do Dilúvio. A Arca de Noé (o Noah hebreu) encalhara no monte Ararat, Buyut Agri em turco, o ponto culminante (5.165 m) das muralhas do Cáucaso, situadas entre a Turquia e a Armênia. Noé, “que era agricultor”, diz o Livro, foi o primeiro a plantar a vinha. (Uma canção popular do século XIX resume graciosamente o episódio bíblico: Noé, nosso Patriarca / Seria célebre pela Arca? / Não, seu título é mais belo, / É por ter plantado a vinha. / Convenha que foi digno, / De não morrer sob a água.) E o primeiro viticultor provou sua produção (Gênesis 9, 21):
Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costas, cobriram a nudez de seu pai; seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que fizera seu filho mais jovem. E disse: “Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos!” (Em A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1989.)
A terra de Canaã, situada para além do deserto de Sinai, na costa oriental do Mediterrâneo, será portanto designada ao povo hebreu pelo profeta Moisés como a terra prometida por Deus. Os rituais da Páscoa judaica sempre evocam a saída do Egito e a passagem (Pessach, Páscoa, que quer dizer “passagem” em hebraico) dos filhos de Israel da escravidão à liberdade. A refeição da Páscoa judaica, ou Seder, é o fundamento da Ceia cristã (do latim cena, refeição da noite) e, portanto, do sacramento da Eucaristia. A comunhão cristã tem como origem direta os sacrifícios simbólicos que os helenos faziam durante uma refeição em grupo (o grego eukharistia – ação de graças – designa esse tipo de cerimônia pagã). A identificação da vinha com a Terra Prometida permanecerá, até se tornar o sinal tangível de uma aliança renovada entre Deus e os homens.
Mais tarde, a vinha mítica pouco a pouco sairá da Terra Prometida para por último representar a eleição de Israel. A transplantação simbólica da vinha das terras dos faraós à Terra Prometida era de fato percebida pelos hebreus como a prefiguração do Reino de Deus que, segundo o Evangelho de São Mateus (20, 1), é “semelhante a uma vinha”.
No início da era cristã, a esperança messiânica do judaísmo é expressa através de uma vinha mítica. Símbolo (Etimologicamente e originalmente, o símbolo é “um sinal de reconhecimento feito das duas metades complementares de um mesmo objeto. Por extensão de sentido, ele qualifica uma entidade, um conceito, um objeto, uma pessoa ou um relato representando outra entidade através de uma analogia essencial ou de uma convenção arbitrária.” [L. Benoist, Signes, symboles et mythes, Paris, 1975, p. 124. (Coleção “Que sais-je?”, n. 1605).]) do Reino de Deus, a vinha é também a personificação do Messias: “Eu”, dirá Jesus Cristo nas palavras de São João (15, 1), “sou a verdadeira videira, e meu pai é o agricultor”.
Tema recorrente da profecia bíblica (Na Bíblia, se fala 441 vezes da videira e do vinho, e, das 24 parábolas de Cristo, quatro evocam esse tema), o vinho é acima de tudo a origem da civilização de Israel.

III. A civilização do vinho
A partir de suas raízes caucasianas, a vinha estende seus dons da bacia mediterrânica às costas do Pacífico. Foram os egípcios, sobretudo consumidores de cerveja, que nos legaram os relatos mais minuciosos da vida social da vinha e do vinho.
Baixos-relevos nas mastabas (As mastabas são construções funerárias do Antigo Império no Egito, túmulos de formato retangular que precedem às pirâmides), que remontam a 2.500 a.C., mostram como os egípcios cultivavam a vinha e depois transportavam as uvas para serem espremidas, bem como mil e uma maneiras de beber o vinho. Sob o reinado de Tutankhamon, quase vinte séculos antes da era cristã, já existiam jarros sobre os quais eram especificados a variedade da vinha, a designação do solo, o “ano de colheita” do vinho, o nome do proprietário e do mestre da cave – que correspondiam a uma denominação de origem controlada.
A rotulação também permitia ao soberano e à elite governante a composição precisa de uma carta de bons vinhos do Egito: do delta do Nilo, claro, mas também da região de Mênfis (os vinhos de Letopólis e de Peluse, por exemplo), muito apreciados por Pepi II, faraó da VI dinastia (por volta do III milênio antes da era cristã). Os egípcios, como os gregos fariam com Dionísio, ofereciam vinho a Osíris, que primeiro simboliza o ciclo da vegetação para depois personificar os mistérios da vida depois da vida.
Para os gregos, falar em civilização do vinho seria um pleonasmo. Uma sociedade civilizada, digna desse nome, teria o dever de louvar a vinha e glorificar o vinho. Rei de Ítaca (uma ilha perto de Corfu) e pai de Ulisses, Laerte sentia um orgulho pessoal, por exemplo, de suas cinquenta fileiras de vinhas de espécies diferentes. O esperto Ulisses zomba, inclusive, do vinho rústico do ciclope Polifemo, indigno do mundo grego que representa. Os romanos são os primeiros a usarem o nome “grego” (graeci) para falar dos helenos.
A Hélade (Hellas) era para esse povo uma abstração semelhante à “cristandade” na época medieval ou à “nação árabe” de hoje. A Hélade representava acima de tudo uma comunidade cultural que se expressava em sua plenitude na arte da vinha e se manifestava no mito de Dionísio, pai fundador da civilização do vinho.
Filho de Zeus, o deus dos deuses gregos, e de Sêmele, uma princesa tebana, Dionísio nasce em condições extraordinárias: passa seis meses no ventre de sua mãe e os três últimos meses na coxa de seu pai. Essa maneira pouco comum de vir ao mundo seria suficiente para consolidar o mito desse semideus por nascimento. Ao chegar à idade adulta, uma incrível errância o faz percorrer o Oriente Médio e a Ásia Menor, onde é iniciado nas religiões secretas. Depois de uma viagem para o Cáucaso, seguida de uma estranha estada na Índia, Dionísio introduz em todos os países banhados pelo Mediterrâneo a cultura da vinha e seu culto-civilização.
Após inúmeras peregrinações, o deus do vinho chega em solo grego. Dionísio personifica a persistência da vegetação com o passar das estações, simbolizada sobretudo pelo tirso, espécie de bastão rematado com pinhas e enfeitado com folhas de videira ou de hera, planta que permanece verde enquanto toda a natureza parece morrer. A representação do ciclo natural evolui para a celebração da vida feliz e para a consagração do “eterno retorno” do deus.
No entanto, por ter nascido duas vezes, ele é muitas vezes chamado de “Dithyrambos” (o nascido duas vezes), o que significa que, desde o início, Dionísio estava associado, de maneira implícita, à morte e à ressurreição. Sob influência dos cultos orientais secretos, em particular o da deusa egípcia Ísis, irmã e esposa de Osíris, por sua vez o arquétipo do deus morto e ressuscitado, Dionísio cada vez mais será confundido com a divindade dos defuntos, cuja sobrevivência assegura.
De resto, esse filho de Zeus não figurava entre os deuses do Olimpo. Talvez por isso Dionísio não apareça nos cantos homéricos. Mas talvez isso também ocorra porque o povo grego o adorava. Ele era de fato popular ao extremo, e os gregos, sentindo-se muito próximos desse deus, o louvavam e celebravam com unanimidade.
O simpósio, ou reunião de pessoas que bebem (Simpósio corresponde mais ou menos à palavra “banquete” em português. Esse termo vem do italiano banchetto, ou “pequeno banco”, que designava no início do século XV os bancos dispostos ao redor de uma mesa, sendo a cadeira de uso pouco comum), era uma típica instituição dionisíaca através da qual os cidadãos gregos manifestavam sua solidariedade:
Bebe comigo, joga comigo, ama comigo, usa comigo uma coroa: comigo, quando sou louco, sejas louco, e sábio comigo quando o sou.
Esse fragmento de canção de beber poderia ilustrar à perfeição o simpósio que Jean-François Revel define, em Un festin en paroles, como uma “cerimônia regulamentada”.
Na Grécia, o jantar quase sempre acontecia ao cair da noite e podia ser dividido em duas partes: a refeição propriamente dita, momento de comer, e o simpósio, momento de beber taças de vinho. A “reunião de bebedores” era o pretexto para todas as conversas, das mais jocosas às mais metafísicas, chistes e espetáculos de variedades.
Distrair seus comensais, saciar sua sede, alimentar a discussão, essa era a missão do dono da casa.
Na Eneida, o poeta romano Virgílio conta que foi o príncipe troiano Eneias quem primeiro se instalou na província do Lácio, onde fica a cidade de Roma. No início, Roma ainda não fazia parte da civilização do vinho. Plínio, o Velho, indica que Rômulo fazia as libações com leite e não com vinho. O naturalista latino acrescenta que “por muito tempo os romanos fizeram apenas um uso moderado do vinho”. A lei Postumia, atribuída ao legendário rei Numa, dizia: “Não borrife vinho na lenha”, que era destinada aos defuntos.
Em Roma, nos primeiros tempos, não era permitido aos jovens com menos de trinta anos beber vinho. Também era proibido às mulheres (Catão aconselhava: “Se surpreenderes tua mulher bebendo vinho, mata-a!”). Além disso, o simples fato de tocar nas chaves da despensa já era motivo para punição. A discriminação se explica primeiro pela origem mítica, depois pelo papel místico do vinho.
A vinha reinava na Itália bem antes do surgimento de Roma. Depois da fundação da cidade, em 753 a.C. (criação da cidade-fortaleza Roma quadrata, por Rômulo), as libações com vinho tiveram um papel de culto muito importante.
Numa Pompílio (c. 715-672 a.C.), sucessor de Rômulo como rei de Roma, exigiu que o vinho das libações fosse proveniente de vinhas podadas de maneira específica. Como as mulheres não eram admitidas em cerimônias religiosas, o vinho lhes era ipso facto proibido. O pater familias podia inclusive beijar na boca (jus osculi) as mulheres da casa para verificar se cheiravam ou não a vinho.
Mais tarde, essa interdição será justificada pela crença (que os cristãos dogmatizarão) segundo a qual o vinho estava vivo e era comparável ao sangue (quase sempre de natureza divina). A mulher, considerada na época essencialmente uma mater genitrix, de certa forma se tornava adúltera ao beber um corpo vivo, superpondo um “sangue de natureza divina” ao feto que por ventura carregasse. Dessa função reprodutora deriva a proibição baseada no sangue menstrual. O vinho, comparado ao bom sangue divino (que o cristianismo às vezes chamará de Santo Sangue), se opõe ao sangue ruim, sujo e impuro, da menstruação.
Por isso, durante as ágapes (Ágape é a palavra grega e latina utilizada para falar do amor ou da caridade, sendo também utilizada para denominar as refeições fraternas entre os primeiros cristãos. Aos poucos, essas reuniões foram degenerando em festins e banquetes, e acabaram proibidas pela cristandade), apenas as tocadoras de flauta, as dançarinas e as cortesãs consumiam vinho. Essas “reuniões de bebedores”, chamadas com o passar dos séculos de banquetes “à romana”, se assemelham muito mais a um festim do que a um ritual grego. É provável que a associação entre a “mulher leviana”, a prostituta e o vinho date dessa época, alcançando o futuro desenvolvimento literário e artístico que conhecemos.
A sociedade antiga também censurava a ação de beber vinho puro, “à maneira dos citas” (povo de origem iraniana que vivia nas estepes ao norte do Mar Negro), como disse o historiador grego Heródoto. Esse costume deplorável só podia ser coisa de “bárbaros indignos de Baco”, acrescenta o latino Virgílio nas Geórgicas.
Horácio, cujos escritos são quase todos dedicados a Baco, a suas pompas e obras, celebrou os vinhos gregos (em especial o de Metimna e o de Quíos, com seu famoso “néctar”) mas também os vinhedos romanos. O poeta báquico cantou o “fogoso” vinho Falerno, o Massique, “que faz esquecer”, e o Cécube, considerado o melhor vinhedo da Itália, acabando por designar todo vinho velho e generoso. Os vinhos romanos não eram bebidos durante as refeições propriamente ditas, mas durante a comissatio, isto é, depois do jantar ou durante a noite. Os convivas bebiam “à grega” (more graeco) segundo um ritual consagrado: um magister, presidente eleito ou designado pelos dados, determinava as proporções segundo as quais o vinho deveria ser diluído e o volume que poderia ser bebido. O vinho era então transferido das ânforas para as crateras (craterae), onde era misturado com água. Dali, os romanos passavam à diluição segundo o gosto de cada um e nas proporções fixadas pelo magister. A mistura com água podia ser acrescida de gelo, como imaginara o voluptuoso Nero, batido com água recém-fervida.
O uso de água quente (calida) para a diluição era considerado mais higiênico e recomendado para os velhos e doentes. No entanto, no banquete organizado pelo rico e emancipado Trimalquião, descrito por Petrônio no Satíricon, um indivíduo de aparência sadia, apesar de bêbado, irrompe no festim gargantuesco exigindo imediatamente “vinho e água quente!”
Apenas os ricos romanos tinham direito de guardar vinho na adega de suas casas (cella vinaria, quase sempre localizada numa peça – fumarium – situada no alto da construção). O resto da população precisava recorrer aos vendedores de vinho (negotiatores vinarii) ou aos numerosos comerciantes da cidade e, sobretudo, aos cabarés especializados, chamados tavernae vinariae ou apenas vinariae ou, de maneira mais comum, thermopolia. Palavra de origem grega, as thermopolia designavam em Atenas os locais públicos onde o vinho era consumido em companhia agradável. Assim, as thermopolias eram pouco frequentadas pelos cidadãos gregos de qualidade.
Em Roma, a clientela das thermopolias formava um submundo suspeito onde reinava a prostituição e o jogo.
O mais popular jogo de azar era o cótabo.
Esse jogo originário da Magna Grécia, mais precisamente da Sicília, “o país de eleição de Dionísio” segundo Sófocles, era praticado desde o século V a.C. sob o nome grego de kottabos. O jogador deveria despejar o resíduo de sua taça de vinho pronunciando o nome da bem-amada. Se o jato atingisse o alvo designado, o presságio era favorável. Outra variante do jogo fazia o participante beber tantas taças de vinho quanto as letras do nome da mulher amada. Para poder beber até a embriaguez, o jogador, é claro, preferiria que sua bela se chamasse Sulpiciana a Pia. Pouco a pouco, ao perder seus ares de espelunca, as thermopolias se tornam cada vez mais procuradas por um público familiar que queria apenas descansar tomando um vinho fresco ou quente. De resto, os vinhos da península italiana, que Virgílio, nas Geórgicas, dizia serem tão numerosos “quanto os grãos de areia que o vento levanta nos desertos da Líbia”, invadem progressivamente o mercado de todo o Império Romano, inclusive a Grécia e a própria Índia.
Segundo Plínio, somente por volta do ano 600 a.C. os romanos começaram a apreciar o vinho e, por isso, se dedicaram à cultura da vinha. Essa data é a mesma da fundação de Massalia (Marselha) pelos fócios, que, vindos da Fócida, uma antiga colônia grega da Ásia Menor, plantaram as primeiras vinhas cultivadas da Gália céltica. Para os gauleses, o vinho era parte integrante da alimentação. Nas regiões onde a vinha era cultivada, as sementes eram muito associadas aos grãos alimentares. Durante os banquetes da Gália céltica, escravos ou crianças serviam taças de vinho de importadas da Itália (não havia copos individuais) ou os famosos chifres de auroques, descritos por Júlio César no livro VI de seus Comentários (De Bello Gallico).
Na Gália romana, apesar de ainda se beber muita cerveja, em particular a cervoise (produzida a partir do trigo vermelho), o uso do vinho é cada vez mais difundido, desenvolvendo-se com isso todo um conjunto de recipientes: cântaros, jarros, frascos, vasilhas especiais para a diluição, copos (pocula) mais ou menos trabalhados e decorados, conchas e coadores. Durante as refeições galo-romanas, as especiarias (anis, cominho, tomilho) serviam para realçar o sabor das bebidas e dos alimentos, ou para mascarar seus sabores fortes, e também podiam ser usadas para ajudar na digestão, que Plínio chamava de “os horrores do estômago”. Os próprios pratos eram muitas vezes acompanhados por uma espécie de licor (chamado garum) resultante da decomposição de peixes salgados, muito próximo do nuoc-mam vietnamita.
Aliás, o uso combinado do salgado e do doce faz com que muitas vezes os pratos galo-romanos sejam comparados à cozinha do Extremo Oriente.
A partir de 125 a.C., os romanos anexam a seus territórios o corredor do Ródano e o Languedoc (a Provincia, Provença). Criam novos centros comerciais, dentre os quais se destacam, na região de Béziers (Julia Biterrae), Portus Veneris (Port-Vendres) e Narbo Martius (Narbona), na época portos de intensa atividade por onde a Via Domitia passava ligando o Império Romano à Espanha. Narbonne se torna a “capital” da região, que por isso passa a ser chamada de Gália Narbonense. A metrópole regional comercializava com a Aquitânia e, através do corredor do Ródano, proporcionava à província um novo mercado em direção à Europa Central.
O poeta latino Sidônio Apolinário escreverá sobre a Narbonne: “Única legítima, cultuas ao mesmo tempo Baco, Ceres e Minerva, possuindo tanto cepas de videira, espigas de trigo, pastagens e moinhos de óleo”. Prosperidade que Plínio, o Velho, formulará nos seguintes termos: “Não é uma província, mas a própria Itália!”.
A Narbonense matou a sede de toda a Gália, e logo começou a ameaçar os vinhos romanos. Sua expansão provocou a derrocada das exportações de vinhos italianos. Apenas os grands crus (A expressão grand cru designa o vinho de qualidade superior produzido por uma região específica. A expressão varia de significado segundo as regiões – na Borgonha, por exemplo, grand cru é a mais alta denominação de origem controlada), em especial o Cécube e o Falerne, resistiram à invasão dos vinhos gauleses. Mas cada vez mais os vinhedos sufocavam o trigo, e o pão logo se tornaria escasso. Segue-se uma grave crise econômica que sacode o Império Romano a partir dos anos 90 d.C.
Em A vida dos doze césares, o historiador Suetônio escreve que, em 92, o imperador Tito Domiciano (51-96), “vendo que uma grande abundância de vinho coincidia com uma escassez de trigo, concluiu que as vinhas eram cuidadas em detrimento dos campos. Proibiu então que se plantassem novos vinhedos na Itália e ordenou que fossem arrancadas as vinhas que ficavam nas províncias” (em especial as da Narbonense). Segundo Suetônio, “esse édito não entraria em vigor”.
Será o “sábio e valente” Probo, como o chamou Chaptal (Jean-Anoine Chaptal (1756-1832): químico e estadista francês que escreveu tratados sobre o vinho e a vinificação e que descobriu e deu nome à “chaptalização”, processo de aumento do teor alcoólico dos vinhos através do uso do açúcar), que, em 270 d.C., anulará formalmente o édito de 92. O imperador Marco Probo (232-282), depois de inúmeras guerras, estabelece no Império uma paz duradoura e emprega seu exército em diversos trabalhos de interesse coletivo. A exemplo do general cartaginês Aníbal, que outrora utilizara seus soldados para plantar oliveiras na África por medo de que eles se rebelassem, Probo encorajava suas tropas a semear as colinas da Gália.
Passando a Narbonense, “em direção ao Atlântico e aos mares setentrionais, César conquistou um país que desconhecia a viticultura”, afirma Roger Dion (DION, R. Le Paysage et la Vigne, Essais de géographie historique. Paris: Payot, 1990, p. 193), citando um erudito do século XVIII, crítico dos Comentários. Pouco depois do estabelecimento da Pax Romana (A Pax Romana refere-se ao longo período de relativo equilíbrio e tranquilidade vivido pelo Império Romano nos dois primeiros séculos da era cristã, mantido por governantes fortes e força militar disciplinada, jamais permitindo que as regiões dominadas recuperassem sua liberdade), a viticultura gaulesa disporá de duas cepas resistentes ao frio: a allobrogica, na Borgonha e no vale do Rhône, “cuja uva amadurece com a geada”, escreve Plínio, e que seria a ancestral da atual cepa pinot; e, na Aquitânia, a biturica, segundo o nome de uma tribo celta, os bituriges vivisques (os “reis do mundo”), que, depois de fundarem Bourges, se instalam, no século V a.C., nos arredores do estuário da Gironda, bem como nas margens da Dordonha e da Garona, para por fim se fixarem em Burdigala (Bordeaux) duzentos anos depois. A biturica seria a mãe da cepa cabernet e teria originado “bitúrige”, bêbado, “visitar bitúrico”, fazer a turnê dos bares, e estaria na origem da expressão popular “tomar uma boa bitúria”, isto é, embriagar-se. (Em francês: biturige, visiter la Biturie e prendre une bonne biture)
A queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476, marca por certo tempo o fim do desenvolvimento da viticultura gaulesa. A unidade criada pelo Império será substituída pelo universalismo do cristianismo: “Onde estiver a Igreja, ali estará Roma” (ubi ecclesia, ibi Roma).
A Idade Média cristã materializará sua fé sobre os vestígios vinícolas da Antiguidade. Pagão ou cristão, o vinho é o alfa e o ômega das civilizações.

IV. Do Olimpo a Napa Valley
No ano 313, o imperador romano Constantino proclama o livre exercício da religião cristã através do Édito de Milão. Em 392, Teodósio I, o Grande, concede ao cristianismo o estatuto de religião única do Império Romano. A civilização cristã, pouco a pouco, graças à Eucaristia, se confunde com a civilização do vinho. Quando da conquista do México no século XVI, por exemplo, os missionários espanhóis utilizarão a cultura da vinha para implantar a religião cristã, e portanto a civilização do vinho, no que se tornará o Novo Mundo vinícola.
A América, do nome do navegador italiano Américo Vespúcio, dado ao continente pelo monge cartógrafo alemão Martin Waldseemüller em 1507, teria sido descoberta no ano 1000 pelos primeiros europeus (milênios depois de tribos asiáticas, os “ameríndios”, terem cruzado a pé o estreito de Bering). Da mesma forma que os gregos viram “uma terra coberta de videiras selvagens” quando abordaram a península italiana, uma crônica nórdica do século XIII intitulada Saga da Groenlândia (ou terra verde, em escandinavo) conta que o navegador viking Leif Erikson, filho do famoso Erik, o Vermelho, descobrira “um país fértil em vinhas” (Vinland hit goda). Um dos homens do barco viking, um alemão de nome Tyrkir, relata da seguinte forma o que diz ter visto no interior dessa terra até então desconhecida: “Fiz uma grande descoberta: encontrei videiras e uvas em grande quantidade!” Leif, chamado de Sortudo, batiza de Vinland ou terra do vinho essa terra nova (é provável que se tratasse do Canadá) que um mapa de 1440 localizará a oeste da Groenland (terra verde, em dinamarquês), chamando-a de Vinlanda Insula (Ilha de Vinland). A autenticidade desse “mapa viking”, que provaria que a América fora descoberta seis séculos antes do navegador genovês Cristóvão Colombo, é bastante contestada. Para alguns pesquisadores, em particular a partir de 2002, com a publicação dos trabalhos do professor de química Robin Clark, do University College de Londres, e de sua assistente Katherine Brown, o “mapa de Vinland” seria falso porque conteria um tipo de tinta inexistente antes de 1923.
Depois da descoberta oficial da América pelo espanhol Cristóvão Colombo, em 12 de outubro de 1492, seu compatriota Hernan Cortez parte para a conquista do México, em 1518, logo sendo seguido pelos missionários franciscanos e jesuítas, que se instalam nesse país a fim de converter ao cristianismo a população indígena e, também, para produzir o vinho necessário a seu sacerdócio. Expulsos do México em 1767, os missionários espanhóis emigram primeiro para a Baja California. Em 1769, o padre franciscano Junipero Serra funda sua primeira missão em San Diego de Alcalá. Sob o nome de “uvas da Missão” (mission grapes), as cepas de origem espanhola foram utilizadas até o final do século XIX pela indústria vinícola californiana. Até o dia em que a filoxera (identificada em 1868 pelo botânico francês Jules Planchon sob o nome de Phylloxera vastatrix (A filoxera é um gênero de inseto que apresenta duas formas: uma vive sobre folhagens (formação de galha) e a outra sobre as raízes (formação de nodosidades ou tuberosidades). A potência da vinha diminui rapidamente, e a morte, em ambiente filoxérico, acontece dentro de três a dez anos)), que já destruíra os vinhedos europeus e da costa leste dos Estados Unidos, chega à Califórnia pelos vagões da estrada de ferro transamericana. O inseto devastará os vinhedos californianos, na época plantados com cepas europeias. Para os mesmos males, os mesmos remédios da França: a solução virá do sulfeto de carbono e do enxerto das variedades atingidas em cepas indígenas resistentes ao pulgão.
À interdição dogmática do Islã, que considera o vinho “uma abominação e uma obra do Demônio” (Corão V, 90), fará eco a Lei Seca americana. A primeira “sociedade de temperança” é fundada em 1789 por duzentos fazendeiros do estado de Connecticut. Meio século depois, as associações desse tipo ultrapassavam o número de oito mil. John D. Rockefeller, o homem mais rico do mundo na época, criava, em 1895 a The anti-saloon league, que se tornaria um grupo de pressão muito influente junto à administração federal e ao Congresso americano.
Em 18 de dezembro de 1917, em plena guerra mundial, o Congresso americano submete aos Estados da União, para confirmação, a 18ª emenda à Constituição: 43 estados contra três (Nova Jersey, Rhode Island e Connecticut) a ratificam em 1918 e 1919. O Volstead Act (segundo o nome de seu promotor, Andrew Volstead), por sua vez, será votado em 16 de janeiro de 1920 sob influência das ligas de virtude e das sociedades bíblicas, pressão alimentada por toda uma literatura edificante (como o famoso John Barleycorn, de Jack London (Publicado inicialmente como folhetim no Saturday Evening Post, em 1913, John Barleycorn (João Grão de Cevada) é um romance autobiográfico (traduzido para o português como Memórias alcoólicas) no qual Jack London conta seu calvário de alcoólatra. Esse relato influenciará grandemente a opinião pública e seus representantes)). O Volstead Act interpretava a 18ª emenda declarando que a Lei Seca deveria ser estendida ao vinho, à cerveja e a todas bebidas com mais de 0,5% de álcool por volume. Poupados os vinhedos monásticos necessários à celebração da Eucaristia e o vinho comprado em virtude de uma prescrição médica (à razão de meio litro a cada dez dias), a viticultura americana será interrompida em plena ascensão, e o mercado dos Estados Unidos se fechará aos vinhos do mundo inteiro... mas se abrirá aos bandos de gângsteres de todos os tipos que abasteceram o país: foi a época dos bootleggers (Bootlegger viria de bootleg, palavra que designa a parte superior das grandes botas nas quais os traficantes americanos do século XVII escondiam garrafas de álcool para vendê-las clandestinamente aos índios) (traficantes de álcool), dos speakeasies (bares clandestinos) e do Rum Row (o famoso “bulevar do Rum”).
Em 6 de dezembro de 1933, Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos Estados Unidos (1882-1945), decide pela suspensão da proibição do álcool e anula o Volstead Act. A Lei Seca traz graves consequências, tanto quantitativas quanto qualitativas, para a economia vitivinícola. Essa situação dramática levou os profissionais do ramo, sob a direção dos viticultores californianos de Napa Valley, inspirados talvez pela criação um ano antes, na França, das denominações de origem controlada (DOC) (Em francês, appellations d’origine contrôlée (DOC)), a adotar, em 1936, normas de qualidade para os vinhos americanos.
Depois disso, a produção dos Estados Unidos (em especial de Sonoma (Sonomo significaria, em língua indígena, “vale das sete luas” pois, segundo conta uma lenda local, a lua apareceria e desapareceria sete vezes seguidas atrás das sete colunas do vale) e de Napa Valley, ou dos vinhedos da costa leste) não cessará de se aperfeiçoar, atingindo, em nossos dias, os píncaros enológicos até então exclusivamente reservados aos grands crus europeus.

(Jean-François Gautier - Vinho)

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publicado às 21:15


O “VINHO” ANTES DO VINHO

por Thynus, em 05.06.15
Há mais filosofia e sabedoria numa garrafa de vinho, que em todos os livros.
 (Louis Pasteur)

 
No princípio era o verbo. E o nome do vinho precedeu a cultura da vinha. A pré-história do vinho remonta a vários milênios antes do início da era cristã, com o Soma, bebida sacrificial fermentada da Índia védica, que além de uma mistura mágica era um deus poderoso. Essa “poção da imortalidade” não era um vinho de uvas mas o suco de uma planta sacrificial (ao que tudo indica, a Asclepias acida) que provavelmente tinha propriedades psicotrópicas ou psicodélicas. E o licor do Soma tinha o nome de Vena.
Do Vena (amado, em sânscrito) se originaram os nomes que designam o vinho em quase todas as línguas e povos da Europa: é o caso do russo (vino), do grego (woinos, depois oinos), do latim (vinum), do italiano e do espanhol (vino), do português (vinho), do alemão (wein), do inglês (wine) e do francês (vin).
De origem mítica (Capítulo I), de essência mística (Capítulo II), de natureza santificada (Capítulo III), de consumo francês (Capítulo IV), europeu (Capítulo V) e mundial (Capítulo VI), o vinho sempre foi uma bebida civilizatória. O vinho é muito mais do que “vinho”: é um patrimônio da humanidade.

(Jean-Framçois Gautier - Vinho)
 

O homem moderno trocou o campo pela cidade. Atenuou a força das estações, o calor e o frio. Iluminou a noite, domesticou o espaço. No entanto, nostálgico dos ritmos naturais, continua em busca de suas raízes.
À procura do Graal, que não consegue alcançar, o cavaleiro da Távola Redonda é a imagem do homem atual, que gira o mundo sem conseguir se aquietar. Sempre mais rápido! Sempre mais longe!
A vinha e o vinho, ricos em simbologias, são sem dúvida mais do que nunca os laços, a cada ano revivificados pela nova colheita, que nos unem a nosso passado, mas que nos projetam em direção ao futuro, na esperança do amadurecimento da próxima vindima.
Colette (Sidonie Gabrielle Colette (1873-1954): romancista francesa, particularmente conhecida por suas observações sensíveis sobre as mulheres e a natureza) dizia que apenas o vinho torna acessível o sabor da terra. Mais do que isso, o vinho nos une a nossas origens numa perpétua comunhão com os homens: ao Deus de Noé, aos gregos, aos romanos, a Dionísio, ou Baco. Antes deles, ao licor do Soma: Vena. Hoje, ao sangue de Cristo que, a cada dia na missa, antes de ser consagrado, é oferecido: “O vinho fruto da videira e do trabalho do homem”.
Assim são eternamente combinadas a obra da natureza e a obra do homem.
O mais humilde ser humano, ao experimentar ou oferecer um vinho, perpetua tradições milenares e realiza um ato ritual.
A história do vinho de Jean-François Gautier fala de toda essa riqueza cultural que retira de nossa memória subconsciente um dos ingredientes que compõem nossa personalidade profunda.
Se o vinho, ao longo de sua longa marcha de leste a oeste, seguindo por milênios o curso cotidiano do sol, conquista terras novas é porque aqueles que lhe conquistam esses novos territórios o levam no fundo de si mesmos.
O simpósio de Platão e de Xenofonte – ainda vivo hoje em dia, na Geórgia, com a tradição do “Tamada” (O Tamada é o equivalente ao mestre-de-cerimônias no banquete geórgico, encarregado de presidir a mesa e propor os brindes durante a refeição; é escolhido por habilidades de retórica, autoridade e senso de humor, entre outras.), o mestre da mesa –, o culto a Dionísio, ou Baco, o vin d’honneur, a festa Saint- Vincent Tournante na Borgonha, o beaujolais nouveau, as festas das colheitas ou o carnaval vinícola, o simples “copo” entre amigos, são todos momentos vividos por aqueles que amam cantar a vida. Mas o vinho também é a bebida maléfica que o Corão condena e, no entanto, promete àqueles que entrarem nos jardins celestes. É o fruto proibido, como a uva, mais do que a maçã é o fruto do conhecimento consumido por Adão e Eva sem permissão. O paraíso e o inferno.
O livro de Jean-François Gautier nos permite descobrir a complexidade da natureza do vinho: bebida misteriosa resultante da atividade de organismos microscópicos, mas vivos, de cuja existência nossos avós não suspeitavam, e que o grande Pasteur explicou sem desmitificá-la.
A erudição, a vontade de entender e de explicar, mas também o prazer de falar, e de falar bem, o humor e a cordialidade fazem deste livro sintético um buquê de poesia, uma safra maravilhosa na qual são encontrados tanto o espírito cartesiano do jurista quanto a mente aberta do humanista.
Que este livro desperte no leitor a vontade de constituir uma ampla biblioteca sobre o vinho e depois, é claro, também uma vasta enoteca.
[Robert Tinlot, Diretor-geral honorário da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV)]

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publicado às 14:31


A noção de sujeito

por Thynus, em 03.06.15
“Agir, viver, conservar o ser, essas três palavras significam a mesma coisa.” ESPINOSA
 
“A substância viva é o ser que é sujeito em verdade.” HEGEL

 
Alteridade e unidade
ESSA É UMA NOÇÃO ao mesmo tempo evidente e misteriosa. É uma evidência perfeitamente banal, uma vez que qualquer um diz “Eu”. Quase todas as línguas têm essa primeira pessoa do singular; se não têm o pronome, têm pelo menos o verbo na primeira pessoa do singular, como em latim. E há uma segunda evidência reflexiva, revelada por Descartes: Não posso duvidar que duvido; logo, eu penso. Se penso, logo, eu sou, isto é, eu existo na primeira pessoa como sujeito. Então surge o mistério: o que é este “eu” e este “sou”, que não é simplesmente “é”?
Será uma aparência secundária ou uma realidade fundamental? É uma realidade fundamental para qualquer tradição filosófica. É o que parece, também, quando Moisés pergunta ao Ser que lhe surge sob a forma de uma sarça ardente: “Mas quem és tu?” A resposta – pelo menos tal como é traduzida em francês – é: “Eu sou aquele que é.” Significa que o Deus de Moisés é a subjetividade absoluta.
 Mas, por outro lado, quando se procura considerar a sociedade e o sujeito de forma determinista, então o sujeito desaparece.
De fato, nossa mente está dividida em dois, conforme olhemos o mundo de modo reflexivo ou compreensivo, ou de modo científico e determinista. O sujeito aparece na reflexão sobre si mesmo e conforme um modo de conhecimento intersubjetivo, de sujeito a sujeito, que podemos chamar de compreensão. Contrariamente, ele desaparece no conhecimento determinista, objetivista, reducionista sobre o homem e a sociedade. De alguma forma, a ciência expulsou o sujeito das ciências humanas, na medida em que propagou entre elas o princípio determinista e redutor. O sujeito foi expulso da Psicologia, expulso da História, expulso da Sociologia; e, pode-se dizer, o ponto comum às concepções de Althusser, Lacan, Lévi-Strauss foi o desejo de liquidar o sujeito humano.
Entretanto, entre os pensadores do ser estruturalista, houve uma volta tardia ao sujeito, como em Foucault, em Banhes; mas foi uma volta existencial, que acompanhou a volta do eros, a volta da literatura, e não uma volta do sujeito ao âmago da teoria.
O que eu gostaria de propor é uma definição do sujeito, partindo não da afetividade, não do sentimento, mas de uma base biológica.
Para esta definição, é preciso admitir um certo número de idéias que hoje começam a ser introduzidas no campo científico. Primeiramente, a idéia de autonomia inseparável da idéia de auto-organização.
A autonomia de que falo não é mais uma liberdade absoluta, emancipada de qualquer dependência, mas uma autonomia que depende de seu meio ambiente, seja ele biológico, cultural ou social. Assim, um ser vivo, para salvaguardar sua autonomia, trabalha, despende energia, e deve, obviamente, abastecer-se de energia em seu meio, do qual depende. Quanto a nós, seres culturais e sociais, só podemos ser autônomos a partir de uma dependência original em relação à cultura, em relação a uma língua, em relação a um saber. A autonomia não é possível em termos absolutos, mas em termos relacionais e relativos.
Em segundo lugar, precisamos do conceito de indivíduo como pré-requisito ao conceito de sujeito. Ora, a noção de indivíduo não é absolutamente fixa e estável. Como sabem, houve duas tendências contrárias na história do pensamento biológico: para uma delas a única realidade é o indivíduo, porque, fisicamente, vemos apenas indivíduos, nunca a espécie; para a outra, a única realidade é a espécie, já que os indivíduos não passam de amostras efêmeras. Conforme um certo olhar, o indivíduo desaparece; conforme um outro olhar, é a espécie que desaparece. Essas duas visões negam-se reciprocamente. Mas acredito que devemos tratar as duas da mesma maneira que Niels Bohr tratava a onda e o corpúsculo: são duas noções aparentemente antagônicas, que são, no entanto, complementares para dar conta de uma mesma realidade.
Eis, portanto, uma perspectiva que nos leva a procurar um elo complexo entre indivíduo e espécie; e podemos aplicar o mesmo raciocínio à relação indivíduo/sociedade.
Do ponto de vista biológico, o indivíduo é o produto de um ciclo de reprodução; mas este produto é, ele próprio, reprodutor em seu ciclo, já que é o indivíduo que, ao se acasalar com indivíduo de outro sexo, produz esse ciclo. Somos, portanto, produtos e produtores, ao mesmo tempo. Assim também, quando se considera o fenômeno social, são as interações entre indivíduos que produzem a sociedade; mas a sociedade, com sua cultura, suas normas, retroage sobre os indivíduos humanos e os produz enquanto indivíduos sociais dotados de uma cultura.
Assim, temos agora uma noção bastante complexa da autonomia e do indivíduo; falta-nos a noção de sujeito. Para chegar à noção de sujeito, é preciso pensar que toda organização biológica necessita de uma dimensão cognitiva. Os genes constituem um patrimônio hereditário de natureza cognitiva/informacional da célula. Da mesma maneira, o ser vivo, seja ele dotado ou não de um sistema neuro-cerebral, retira informações de seu meio ambiente e exerce uma atividade cognitiva inseparável de sua prática de ser vivo. Ou seja, a dimensão cognitiva é indispensável à vida.
Essa dimensão cognitiva pode ser chamada de computacional. A computação é o tratamento de estímulos, de dados, de signos, de símbolos, de mensagens, que nos permite agir dentro do universo exterior, assim como de nosso universo interior, e conhecê-los.
E isto é fundamental: a natureza da noção do sujeito tem a ver com a natureza singular de sua computação, desconhecida por qualquer computador artificial que possamos fabricar. Essa computação do ser individual é a computação que cada um faz de si mesmo, por si mesmo e para si mesmo. É um cômputo. O cômputo é o ato pelo qual o sujeito se constitui posicionando-se no centro de seu mundo para lidar com ele, considerá-lo, realizar nele todos os atos de preservação, proteção, defesa etc
Eu diria, portanto, que a primeira definição do sujeito seria o egocentrismo, no sentido literal do termo: posicionar-se no centro de seu mundo. De resto, o “Eu”, como já observamos várias vezes, é o pronome que qualquer um pode dizer, mas ninguém pode dizê-lo em meu lugar. O “Eu” é o ato de ocupação de um espaço que se torna centro do mundo. E, quanto a isso, diria que há um princípio “logístico” de identidade, que pode ser resumido na fórmula: “Eu [je] sou eu [moi]” (No original, Je suis moi. A escola francesa de Psicanálise costuma utilizar o je no sentido de instância psicanalítica encarregada de funções; o moi refere-se precisamente a uma representação da imagem que o sujeito tem de “si mesmo” (ou de seu sentimento de identidade), o ego. Aqui utilizamos “Eu” e “eu” para traduzir, respectivamente, je e moi). “Eu” [je] é o ato de ocupação do espaço egocêntrico; “eu” [moi] é a objetivação do ser que ocupa esse espaço. “Eu [jé] sou eu [moi] é o princípio que permite estabelecer, a um só tempo, a diferença entre o “Eu” (subjetivo) e o “eu” (sujeito objetivado), e sua indissolúvel identidade. Ou seja, a identidade do sujeito comporta um princípio de distinção, de diferenciação e de reunificação. Esse princípio bastante complexo é absolutamente indispensável, pois permite qualquer tratamento objetivo de si mesmo. Quando uma bactéria trata de suas moléculas, ela as trata como objetos, mas trata como objetos que lhe pertencem. E trata de si mesma, para si mesma.
Eis, portanto, um princípio que, por esta separação/unificação do “Eu” subjetivo e do “eu” objetivo, permite efetivamente todas as operações. Este princípio comporta a capacidade de se referir ao mesmo tempo a “si” (auto-referência) e ao mundo exterior (exo-referência) – de distinguir, portanto, o que é exterior a si. “Auto-exo-referência” quer dizer que eu posso distinguir entre o “eu” e o “não-eu”, o “Eu” e o “não-Eu”, bem como entre o “eu” e os outros “eu”, o “Eu” e os outros “Eu”. Aliás, nós, humanos, temos dois níveis de subjetividade: temos nossa subjetividade cerebral, mental, da qual vou falar; e temos a subjetividade de nosso organismo, protegida por nosso sistema imunológico. O sistema imunológico opera a distinção entre o “si” e o “não-si”; quer dizer, entre as entidades moleculares que não têm a carteira de identidade singular do indivíduo e são rejeitadas, perseguidas, vencidas, enquanto as que possuem a carteira de identidade são aceitas, reconhecidas e protegidas. Portanto, a distinção radical imediata do “si”, do “não-si”, do “eu” e dos “outros” distribui valores concomitantemente: tudo o que vem do “eu”, do “si”, do “Eu” é valorizado e deve ser protegido, defendido; o resto é indiferente ou combatido. Eis o primeiro princípio de identidade do sujeito que permite a unidade subjetiva/objetiva do “Eu sou eu” e a distinção entre o exterior e o interior.
Há um segundo princípio de identidade, inseparável, que é: “Eu” continua o mesmo a despeito das modificações internas do “eu” (mudança de caráter, de humor), do “si mesmo” (modificações físicas devidas à idade). De fato, o indivíduo modifica-se somaticamente do nascimento à morte. Todas as suas moléculas são substituídas inúmeras vezes, assim como a maioria de suas células. Há modificações extremas no interior do “eu”, e chegarei a elas. A despeito disso tudo, o sujeito continua o mesmo. Ele diz simplesmente: “Eu era criança”, “Eu estava irado”, mas é sempre o mesmo “Eu”, ao passo que os caracteres exteriores ou físicos do indivíduo se modificam. Aí está o segundo princípio de identidade, esta permanência da auto-referência, apesar das transformações e através das transformações.
A esse respeito, chegaremos a um terceiro e a um quarto princípios: um princípio de exclusão e um princípio de inclusão, que estão ligados de forma inseparável. O princípio de exclusão pode ser assim enunciado: se pouco importa quem possa dizer “Eu”, ninguém pode dizê-lo em meu lugar. Portanto o “Eu” é único para cada um. Vemos isso no caso dos gêmeos homozigotos: não há qualquer singularidade somática que os diferencie, são exatamente idênticos geneticamente, mas são não só dois indivíduos, mas também dois sujeitos distintos. É confortável ter uma cumplicidade, um código comum, intuições recíprocas, mas nenhum dos gêmeos diz “Eu” no lugar do outro. Este é o princípio de exclusão.
O encontro com a diferença
 
Já o princípio de inclusão é, ao mesmo tempo, complementar e antagônico. Posso inscrever um “nós” em meu “Eu”, como eu posso incluir meu “Eu” em um “nós”: assim, posso introduzir, em minha subjetividade e minhas finalidades, os meus, meus parentes, meus filhos, minha família, minha pátria. Posso incluir em minha subjetividade aquela (aquele) que amo e dedicar meu “Eu” ao amor, seja à pessoa amada, seja à pátria comum. Evidentemente, existe antagonismo entre inclusão e exclusão. Como exemplo, temos as mães que se sacrificam por sua prole e dão suas vidas para salvá-la e as mães que abandonam ou comem seus filhos para salvar a si próprias. Temos o patriota que vai sacrificar-se por sua pátria e temos o desertor que vai salvar sua própria pele. Ou seja, temos todos, em nós, este duplo princípio que pode ser diferentemente modulado, distribuído; ou seja, o sujeito oscila entre o egocentrismo absoluto e a devoção absoluta.
O princípio de inclusão é tão fundamental quanto os outros princípios. Supõe, para os humanos, a possibilidade de comunicação entre os sujeitos de uma mesma espécie, de uma mesma cultura, de uma mesma sociedade.
Além disso, há a tomada de posse do sujeito por um “superego”. Aqui, uso como imagem esta tese de Julian Jaynes, em La Naissance de la conscience dans l’effondrement de l’esprit bicameral1 (O nascimento da consciência no desmoronamento da mente bicameral). Segundo sua teoria, os indivíduos dos impérios da Antigüidade possuíam duas câmaras em suas mentes. Uma câmara era a da subjetividade pessoal, das ocupações, da família, dos filhos, de tudo o que lhes concernia enquanto indivíduos privados. A outra câmara era ocupada pelo poder teocrático-político, pelo rei, pelo império, e, quando o poder falava, o indivíduo-sujeito era possuído e obedecia às injunções desta segunda câmara. E, segundo Jaynes, a consciência nasce no momento em que se abre uma brecha entre as duas câmaras, que, assim, podem se comunicar. Então, o indivíduo sujeito pode dizer a si mesmo: “Mas o que é a cidade, o que é a política?” E, eventualmente, tornar-se cidadão.
É preciso destacar, aqui, algo de muito importante: no “Eu sou eu” já existe uma dualidade implícita – em seu ego, o sujeito é potencialmente outro, sendo, ao mesmo tempo, ele mesmo. É porque o sujeito traz em si mesmo a alteridade que ele pode comunicar-se com outrem. É por ser o produto unitário de uma dualidade (reprodução por cisão, nos unicelulares; por encontro de dois seres de sexos diferentes, na maioria dos seres vivos) que ele traz em si a atração por um outro ego. A compreensão permite considerar a outro não apenas como ego alter, um outro indivíduo sujeito, mas também como alter ego, um outro eu mesmo, com quem me comunico, simpatizo, comungo. O princípio de comunicação está, pois, incluído no princípio de identidade e manifesta-se no princípio de inclusão.
Como conseqüência do princípio de exclusão, há sempre uma incomunicabilidade do que existe de mais subjetivo em nós; mas, graças à linguagem, podemos comunicar, pelo menos, nossa incomunicabilidade.
Podemos, pois, enunciar que a qualidade própria a todo indivíduo sujeito não poderia ser reduzida ao egoísmo; ao contrário, ela permite a comunicação e o altruísmo.
Claro, o sujeito possui também um caráter existencial, porque é inseparável do indivíduo, que vive de maneira incerta, aleatória, e acha-se, do nascimento à morte, em um meio ambiente incerto, muitas vezes ameaçador e hostil.
Agora, posso me referir a esta idéia de MacLean sobre o cérebro do ser humano. É um cérebro triúnico; tal como na Santíssima Trindade há três seres que são distintos, sendo, simultaneamente, o mesmo; tal como possuímos um cérebro réptil ou paleocéfalo, que é a sede de nossos impulsos mais elementares: a agressividade, o cio; possuímos um cérebro mamífero, com o sistema límbico, que permite o desenvolvimento da afetividade; enfim, temos o córtex e, sobretudo, o neocórtex, que desenvolveu incrivelmente o cérebro do Homo sapiens e é a sede das operações da racionalidade. Temos, portanto, essas três instâncias. O interessante é que não há hierarquia estável entre as três: não é a razão que comanda os sentimentos e controla os impulsos. Podemos ter uma permuta de hierarquias e talvez nossa agressividade utilize nossas capacidades racionais para atingir seus fins. Há uma extraordinária instabilidade, uma hierarquia permutativa entre as três instâncias, mas o notável é que o “Eu” ora é ocupado pelo doutor Jekyll, ora por Mister Hyde. Nos casos de duplicação de personalidade, temos duas pessoas inteiramente diferentes, que têm escritas diferentes, caracteres diferentes, às vezes até doenças diferentes, e a pessoa que domina é a que diz “Eu”, isto é, a que ocupa o lugar do sujeito. E digo mais: o que chamamos de nossas mudanças de humor são modificações de personalidade. Não apenas desempenhamos papéis diferentes, mas também somos tomados por personalidades diferentes durante todo o percurso de nossa vida. Cada um de nós é uma sociedade de várias personalidades. Mas há este “Eu” subjetivo, esta espécie de ponto fixo, que é ocupado ora por uma, ora por outra. Quando se observa a concepção clássica do “eu” [moi] (ego) segundo Freud, esse “eu” nasceu da dialética entre o “isso” instintivo, que vem das entranhas biológicas, e o “superego”, que, para Freud, é a autoridade paterna, mas que pode transformar-se em um “superego” mais amplo, o da pátria, da sociedade. Esse “eu” está em incessante dialética com o “isso” e o “superego”. Aí também há um problema de ocupação. Quando somos possuídos pelo “superego”, continuamos a dizer “Eu”, da mesma maneira que dizemos “Eu” quando perseguimos fins meramente egoístas. Vocês dizem “Eu” quando estão mergulhados nas mais austeras operações intelectuais e dizem igualmente “Eu” quando se entregam às mais desbragadas brincadeiras eróticas.
O “Eu”, enquanto “Eu”, emerge tardiamente na experiência da humanidade. Como sabem, as crianças falam primeiro na terceira pessoa. Podemos dar um valor, pelo menos simbólico, ao que Lacan chamara de o “estádio do espelho”, momento muito importante para a constituição da identidade do sujeito: ele objetiva um “eu” [moi] que não é outro senão o “Eu” que olha, e, nesse estádio, opera-se a ligação entre a imagem objetiva e o ser subjetivo. Em meu livro O homem e a morte, insisti na forte presença do “duplo” na humanidade arcaica: o duplo, espectro objetivo e imaterial de seu próprio ser, acompanha-o incessantemente e é reconhecido na sombra, no reflexo. É o duplo que perambula nos sonhos enquanto o corpo fica imóvel. Esse duplo é, pois, uma experiência da vida quotidiana antes de ser o ghost (fantasma), que vai se libertar com a morte, enquanto o corpo vai se decompor. O duplo é um modo cristalizado da experiência do “Eu sou eu”, em que o “eu” assume, a princípio, justamente a forma desse gêmeo real, mas imaterial. Esse duplo vai interiorizar-se; nas sociedades históricas, dará nascimento à alma, sendo a alma, aliás, muito freqüentemente relacionada ao sopro, como entre os gregos e os hebreus. A “alma”, o “espírito” são maneiras de nomear, de representar a interioridade subjetiva em termos que designam uma realidade objetiva específica. Podemos dizer de qualquer um: “Ele não tem alma”, e compreende-se o que isso quer dizer. Portanto, temos diferentes modos de nomear essa realidade subjetiva, que, para nós, não está estritamente limitada ao “Eu” e ao “eu”, mas, justamente nesta dialética entre o “Eu” e o “eu”, assume a forma de alma e de espírito, e ressurge com o que chamamos de a “consciência”.
E é aí que a definição de sujeito, que lhes proponho, é inteiramente diversa da que define o sujeito pela consciência. A consciência, em minha concepção, é a emergência última da qualidade do sujeito. É uma emergência reflexiva, que permite o retorno da mente a si mesma, em circuito. A consciência é a qualidade humana última e, sem dúvida, a mais preciosa, pois o que é último é, ao mesmo tempo, o que há de melhor e de mais frágil. E, de fato, a consciência é extremamente frágil e, em sua fragilidade, pode enganar-se muitas vezes.
Claro, a afetividade para nós está estreitamente ligada à subjetividade. A afetividade se desenvolve nos mamíferos dos quais herdamos a extrema instabilidade: os macacos, por exemplo, têm temperamentos muito violentos, passam da cólera à mansidão etc. Somos herdeiros da afetividade dos mamíferos e a desenvolvemos. A afetividade, portanto, está humanamente ligada à idéia de sujeito, mas esta não é a qualidade originária. Contudo, acredita-se – na falta de uma teoria bio-lógica do sujeito – que a subjetividade seja um componente afetivo que deva ser abolido para se chegar a um conhecimento correto. Mas a subjetividade humana não é redutível à afetividade que ela comporta, tanto quanto não é redutível à consciência.
Agora, é preciso examinar o elo entre a idéia de sujeito e a idéia de liberdade. A liberdade supõe, ao mesmo tempo, a capacidade cerebral ou intelectual de conceber e fazer escolhas, e a possibilidade de operar essas escolhas dentro do meio exterior. Sem dúvida há casos em que se pode perder toda a liberdade exterior, estar numa prisão, mas conservar a liberdade intelectual.
O sujeito pode, eventualmente, dispor de liberdade e exercer liberdades. Mas existe toda uma parte do sujeito que não é apenas dependente, mas submissa. E, de resto, não sabemos realmente quando somos livres.
Então, há um primeiro princípio de incerteza, que seria o seguinte: eu falo, mas, quando falo, quem fala? Sou “Eu” só quem fala? Será que, por intermédio do meu “eu”, é um “nós” que fala (a coletividade calorosa, o grupo, a pátria, o partido a que pertenço)?
Será um “pronome indefinido” que fala (a coletividade fria, a organização social, a organização cultural que dita meu pensamento, sem que eu saiba, por meio de seus paradigmas, seus princípios de controle do discurso que aceito inconscientemente)? Ou é um “isso”, uma máquina anônima infrapessoal, que fala e me dá a ilusão de que fala de mim mesmo? Nunca se sabe até que ponto “Eu” falo, até que ponto “Eu” faço um discurso pessoal e autônomo, ou até que ponto, sob a aparência que acredito ser pessoal e autônoma, não faço mais que repetir idéias impressas em mim.
Contrariamente aos dois dogmas em oposição – para um, o sujeito é nada; para o outro, o sujeito é tudo –, o sujeito oscila entre o tudo e o nada. Eu sou tudo para mim, não serei nada no Universo. O princípio do egocentrismo é o princípio pelo qual eu sou tudo; mas já que todo o meu mundo se desintegrará com a minha morte, justamente por essa mortalidade, eu sou nada. O “Eu” é um privilégio inaudito e, ao mesmo tempo, a coisa mais banal, porquanto todo mundo pode dizer “Eu”. Da mesma forma, o sujeito oscila entre o egoísmo e o altruísmo. No egoísmo, eu sou tudo, e os outros são nada; mas, no altruísmo, eu me dou, me devoto, sou inteiramente secundário para aqueles aos quais me dou. O indivíduo sujeito recusa a morte que o devora; e, no entanto, é capaz de oferecer sua vida por suas idéias, pela pátria ou pela humanidade. Aí está a complexidade própria da noção de sujeito.
Uma grande parte, a parte mais importante, a mais rica, a mais ardorosa da vida social, vem das relações intersubjetivas. Cabe até dizer que o caráter intersubjetivo das interações no meio da sociedade, o qual tece a própria vida dessa sociedade, é fundamental. Para conhecer o que é humano, individual, interindividual e social, é preciso unir explicação e compreensão. O próprio sociólogo não é uma mente apenas objetiva; ele faz parte do tecido intersubjetivo. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que, potencialmente, todo sujeito é não apenas ator, mas autor, capaz de cognição/escolha/decisão. A sociedade não está entregue somente, sequer principalmente, a determinismos materiais; ela é um mecanismo de confronto/cooperação entre indivíduos sujeitos, entre os “nós” e os “Eu”.
Para concluir, o sujeito não é uma essência, não é uma substância, mas não é uma ilusão. Acredito que o reconhecimento do sujeito exige uma reorganização conceptual que rompa com o princípio determinista clássico, tal como ainda é utilizado nas ciências humanas, notadamente, sociológicas. No quadro de uma psicologia behaviorista, é impossível, claro, conceber um sujeito. Portanto, precisa-se de uma reconstrução, precisa-se das noções de autonomia/dependência; da noção de individualidade, da noção de autoprodução, da concepção de um elo recorrente, onde estejam, ao mesmo tempo, o produto e o produtor. É preciso também associar noções antagônicas, como o princípio de inclusão e exclusão. É preciso conceber o sujeito como aquele que dá unidade e invariância a uma pluralidade de personagens, de caracteres, de potencialidades. Isso, porque, se estamos sob a dominação do paradigma cognitivo, que prevalece no mundo científico, o sujeito é invisível, e sua existência é negada. No mundo filosófico, ao contrário, o sujeito torna-se transcendental, escapa à experiência, vem do puro intelecto e não pode ser concebido em suas dependências, em suas fraquezas, em suas incertezas. Em ambos os casos, suas ambivalências, suas contradições não podem ser pensadas nem sua centralidade e sua insuficiência, seu sentido e sua insignificância, seu caráter de tudo e nada a um só tempo. Precisamos, portanto, de uma concepção complexa do sujeito.

(EDGAR MORIN - A CABEÇA BEM-FEITA)

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publicado às 16:20


EROS

por Thynus, em 02.06.15
Os primeiros deuses segundo a Teogonia,
incriados, são quatro: Caos, Eros, Gaia e
Tártaro, que formam dois pares de opostos, a
saber, Vazio e Amor; Superfície e Abismo.
 
Caos e Eros representam a desordem
e a ordem ou a dissolução e a união;
Gaia e Tártaro são a superfície e o abismo;
do Caos veio a Noite e a Treva; de Gaia veio o
Céu luminoso; do Caos, o mundo informe e
etéreo; de Gaia, o mundo com forma e matéria.
 
Para Hesíodo, Eros surgiu incriado, ex
nihilo (saído do nada), enquanto Aristófanes
afirma que Eros nasceu de um ovo que a
Noite (Nix) depositou na Treva (Erebo).
 
De todos eles (deuses), Eros é o que mais se
diferencia. Ele não é um elemento, não é um
espaço como terra ou céu. Eros é uma espécie
de força fundamental da natureza.
 
 

É o mais belo dos deuses. Uma força fundamental do universo, que mantém o cosmo unido e garante a perpetuação das espécies. Uma força de atração que sempre necessita buscar algo.
Nas criaturas representa a libido, o desejo de viver e conquistar. É o par oposto do Caos. Enquanto este é a desordem e a origem das coisas por meio da separação, Eros é a ordem que surge da união.
Caos e Eros lembram um lema da antiga alquimia: “solve et coagula”, dissolver e coagular, ou destruir e construir, separar e unir.
Se no Caos tudo está diluído, Eros é a força que produz a união e a composição dos corpos. É como a força da gravidade e as forças atômicas sem as quais nada se agruparia.
Nasceu do Caos junto com Gaia e Tártaro, segundo a Teogonia. Em outra versão, Caos e Nix (a Noite) coexistiam e de um ovo de Nix nasceu Eros, formando-se Gaia e Urano da casca do ovo.
Os três deuses que nasceram do Caos não são exatamente deuses “criados”. O Caos é o Vazio, de modo que os deuses que dele surgiram podem, ainda assim, ser considerados espontâneos e surgidos “do nada”.
A mitologia do orfismo (uma antiga seita grega de mistério que teria sido fundada por Orfeu) identificava Eros com Phanes, o deus primevo da procriação e primeiro rei do universo, e também com Thesis, a Criação, parceira feminina de Phanes. Por fim, o orfismo também o identifica com Physis (em latim, Natura), a deusa da ordem física do mundo.
A origem cósmica e primeva de Eros é a mais profunda e digna, mas outras origens foram sugeridas na mitologia: 1) filho de Hermes e Ártemis; 2) filho de Hermes e Afrodite; 3) filho de Zeus e Dione; 4) filho de Zeus e Perséfone. Os poetas e escultores preferiram esta versão mais humana, na figura de uma criança alada, pelos romanos chamada de Cupido.
Podemos dizer que estas versões mais poéticas são um simulacro, uma versão microcósmica e antropomórfica do Eros primordial, uma pequena parte do todo.
Platão (em O Banquete) sugeriu ainda outra origem: num banquete em que os deuses celebravam o nascimento de Afrodite, Poros (Expediente) e Penia (Pobreza) se relacionaram e daí nasceu Eros que, por ter nascido na festa natalícia de Afrodite e ser igualmente belo, ficou ligado a ela. Herdou, portanto, a sensação de necessidade e busca de seus pais. Além de associado a Afrodite, teria ligação com Psiquê (a Alma) e Hedonê (o Prazer).
Nota-se que Platão preferiu um Eros menos macrocósmico e universal e mais microcósmico e humano. Este Eros platônico deixa de ser uma força do mundo para ser uma força psicológica.
O Eros que reside dentro do ser humano é a sua Vontade mais profunda, a vontade de viver, vontade de satisfazer-se, incluindo aí a vontade sexual.
Mas então este Eros não é o tesão ou libido propriamente dito. A libido é apenas uma das tantas manifestações da Vontade. Foi, porém, este o sentido mais comum que Eros ganhou com o tempo. Ele foi sendo reduzido de um poder cósmico para um poder interior da psique, e depois limitandose ao campo do desejo sexual, “erótico”.
Para os romanos, Eros se torna Cupido e ganha a forma de um deus brincalhão que dispara flechas nos humanos, provocando a paixão.
Destarte, há três tipos de Eros: o Eros da antiga cosmogonia (mito da origem do cosmo), cujo maior representante é Hesíodo; o Eros dos filósofos, como o descrito por Platão (algo mais psicológico) e o Eros dos poetas, a criança caprichosa com um arco e flecha na mão.

(Sadat Oliveira - INTRODUÇÃO À MITOLOGIA GREGA, VOLUME I Os Deuses Pré-Olímpicos)
Cultura - O maior legado Grego

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publicado às 13:44

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