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Filósofo alemão que é a figura central no pensamento moderno; sua filosofia crítica sintetizou fé religiosa e autonomia humana, e influenciou todas as áreas da investigação filosófica, da matemática à estética. 
 

O filósofo inglês Alfred North Whitehead
(1861-1947) comentou certa vez
que a filosofia ocidental consiste em uma
série de notas de rodapé referentes à obra
de Platão (428/7-348/7 a.C.). Se isso é verdade,
então a filosofia moderna poderia ser
descrita mais precisamente como uma
série de notas de rodapé referentes à obra
de Immanuel Kant (1724-1804). Platão levantou
as grandes questões da filosofia – e
Aristóteles (384-322 a.C.) criou o primeiro
sistema filosófico –, mas Kant é o primeiro
grande criador de um sistema do período
moderno, levando em consideração o
impacto da Revolução Científica e do
Iluminismo.

(Trombley, Stephen)

 

A divisa do iluminismo – “Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu
próprio entendimento.” –, longe de incitar a um exercício mais ou menos
solipsista do pensar, exige o “uso público” da razão, entendendo-se por tal “o
que se faz [“por escrito”, dirá Kant adiante] enquanto sábio perante o conjunto
do público que lê”. Como observa Hannah Arendt, a aparente restrição do
sentido do “uso público” da razão que aqui é feita por Kant resulta do facto
de que, e ao contrário do que acontece com o homem enquanto cidadão, que

no cumprimento dos seus diversos papéis e obrigações deve limitar-se ao “uso
privado” da razão, o homem enquanto “sábio” é um cidadão do mundo, um
membro do que Kant chama uma “sociedade civil universal”.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra

- Filosofias da Comunicação)


A “lei moral em mim” – que é uma “coisa” tão insofismável como “o céu
estrelado sobre mim” –, longe de me encerrar no solipsismo que Kant critica
em autores como Berkeley, abre-me ao outro, à intersubjectividade. Como o
mostram as duas primeiras fórmulas do imperativo categórico, a lei moral
apresenta, como dimensões essenciais, a universalidade e a consideração da
pessoa (sua e do outro) como fim. Ora, em cada uma destas dimensões a lei
moral revela a presença – virtual, latente – do Outro
.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra

- Filosofias da Comunicação)

 

O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da
reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim
é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o
imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de
imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético
afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou
daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente
do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira.
Há muitos imperativos hipotéticos porque há muitos fins diferentes
que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo

categórico, que é o seguinte: «Age apenas de acordo com uma máxima
que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal».

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

 

A hipocrisia rígida e virtuosa com que o velho Kant nos leva por
todas as veredas de sua dialética para nos induzir a aceitar seu
imperativo categórico, é um espetáculo que nos faz sentir o
imenso prazer de descobrir as pequenas e maliciosas sutilezas
dos velhos moralistas e dos pregadores.

(FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE - ALÉM DO BEM E DO MAL)

 

Tem-se dirigido várias objecções à doutrina kantiana do imperativo categórico. Entre ela

há que separar as que se referem às suposições a partir das quais se formula

o imperativo categórico. Tem-se indicado, com efeito, que uma ética como a

kantiana é uma ética rigorista, que nega a espontaneidade da vida

e adscreve valor apenas ao facto contra os próprios impulsos.

O imperativo categórico seria, de acordo com estas objecções a
consequência da universalização de tal rigorismo ético.

Tal objecção é formulada por sua vez a partir de diferentes pontos de vista:

sociológicos (o imperativo categórico é a chave de uma
ética do homem burguês), teológicos (o imperativo categórico é o ponto

culminante de uma ética puramente autónoma, que atribui ao homem

a possibilidade de fazer o bem sem uma graça divina),

psicológico-filosóficos (o imperativo categórico faz depender a ética exclusivamente

da vontade, sem atender a outras possibilidades de compreender os valores
éticos), ou filosóficos (o imperativo categórico é um imperativo da razão, que pode ser
contrário aos imperativos da vida)

(JOSÉ FERRATER MORA - DICIONÁRIO DE FILOSOFIA).

 

Não é o erro como erro que
me assusta à visão disto, não a milenar falta de “boa vontade”, de disciplina, de
decência, de valentia nas coisas do espírito, que se revela em sua vitória — é a
falta de natureza, é o fato terrível inteiramente de que a própria antinatureza
recebeu as supremas honras como moral, e como lei, como imperativo categórico,
permaneceu suspensa sobre a humanidade!... Equivocar-se em tal medida, não
como indivíduo, não como povo, mas como humanidade!... Que se tenha ensinado
o desprezo pelos primeiríssimos instintos da vida; que se tenha inventado uma
“alma”, um “espírito”, para arruinar o corpo; que se ensine a ver algo impuro no
pressuposto da vida, a sexualidade; que se busque o princípio ruim no mais básico
e necessário ao florescer, o estrito amor de si (— a própria palavra é
pejorativa!—); que ao invés se veja nos típicos signos do declínio e da
contradição de instinto, no que é “desinteressado”, na perda do centro de
gravidade, na “despersonalização” e no “amor ao próximo” (— vício do próximo!)
o valor mais elevado, que digo? — o valor em si!... Como?! Estaria a humanidade
mesma em décadence? Sempre esteve? — Certo é que lhe ensinaram sempre os
valores de décadence como os valores supremos. A moral da renúncia de si é a
moral de declínio par excellence, o fato “eu pereço” traduzido no imperativo: “todos
devem perecer” — e não só no imperativo!... Essa única moral que até aqui foi
ensinada, a moral da renúncia de si, trai uma vontade de fim, nega em seus
fundamentos a vida.

(FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE - Ecce Homo, como alguém se torna o que é)

 

Se Deus criou tantos jeitos de ter prazer, é porque ele nos destina ao prazer. Confesso que fico horrorizado com o fato de nunca, mas nunca mesmo, ter visto qualquer padre ou pastor pregar sobre o imperativo divino de ter prazer na vida. Ao contrário, estão sempre advertindo, graves e solenes, sobre os perigos do prazer, como se ele fosse coisa do Diabo. Me contaram (recusei-me a acreditar, pelo absurdo da coisa, mas me garantiram ser verdade), que num curso para casais, aconselhava-se que os noivos, sempre que tivessem de ter uma relação sexual (depois de casados, é claro), que se dessem as mãos e rezassem um Padre Nosso. Ai, se eu fosse Deus fulminava um religioso desses com um raio! Pois é mais ou menos como se eu desse uma boneca para a minha neta e lhe dissesse: Olha, Mariana, todas as vezes que você quiser brincar com a sua boneca, chama o vovô ao telefone para pedir permissão, tá?
(RUBEM ALVES - TEOLOGIA DO COTIDIANO)

 

 
Durante o ano de 1927-8, em que atuou como professor, o matemático e filósofo inglês Alfred North Whithead (1861-1947) deu a prestigiosa palestra Process and Reality [Processo e Realidade], durante as Gifford Lectures, na Universidade de Edimburgo. Nessa palestra, ele fez uma declaração que se tornou famosa: “A caracterização mais geral da tradição filosófica europeia é que ela consiste em uma série de notas de rodapé referentes à obra de Platão”. Uma caracterização mais precisa da filosofia europeia moderna poderia ser que ela consiste em uma série de notas de rodapé referentes à obra de Kant. Não há sequer uma área da filosofia moderna – de lógica matemática à fenomenologia – que Kant não explore. Todos os que seguem seus passos precisam, em algum ponto de suas carreiras, definir-se como favoráveis ou contrários a posições kantianas. O pensamento moderno começa com Kant. Se Platão introduziu os temas eternos do questionamento filosófico e Aristóteles (384-322 a.C.) concebeu o primeiro sistema filosófico, Kant construiu o mais abrangente e detalhado sistema de filosofia desde a revolução científica. Seu trabalho coloca perguntas que continuam fixas na imaginação dos filósofos de hoje. Sua influência é sentida em todas as áreas da filosofia e transborda para outras disciplinas tão diversas quanto o direito e a astronomia.
 
O amadurecimento do homem
Em 1784, Kant abordou a questão de Deus e o pós-Iluminismo em seu ensaio “Resposta à pergunta: o que é o Iluminismo?” Nele, Kant questionou: qual é o papel atual da autoridade da Igreja e do Estado em relação à liberdade individual? Que papel as autoridades religiosas e seculares deveriam exercer nas vidas dos cidadãos? Em sua resposta, Kant traçou um resumo sucinto de sua filosofia altamente complexa e sistemática, preocupada acima de tudo com a questão da liberdade humana: “O Iluminismo é a emergência do homem de sua imaturidade autoimposta. Imaturidade é a incapacidade do indivíduo de usar a compreensão sem orientação alheia. Esta imaturidade é autoimposta quando sua causa reside não na ausência de compreensão, mas na falta de determinação e coragem para usá-la sem a orientação de um outro.” Ele seguiu resumindo toda a sua filosofia do conhecimento e da liberdade: “A preguiça e a covardia são as razões pelas quais uma proporção tão extensa dos homens, mesmo quando a natureza já os emancipou há muito de orientação externa, permanece alegremente imatura durante toda a vida. Pelos mesmos motivos, é sempre muito fácil para outros colocaremse como seus guardiões.”
 

Conhecimento e liberdade
Na concepção de Kant, os problemas do conhecimento e da liberdade andam de mãos dadas. Além disso, ambos levantaram as questões filosóficas mais profundas para ele: se, por meio do conhecimento, descobrirmos regras ou leis que regem o mundo natural, como o homem pode ser livre? As ações do homem não são governadas pelas regras de causa e efeito? Elas podem até mesmo ser predeterminadas? Trabalhando com essas questões, Kant publicou seus três principais tratados: Crítica da razão pura (1781; fez revisões importantes para a segunda edição de 1787), Crítica da razão prática (1788) e Crítica da faculdade de julgar (1790). Em sua Crítica da razão pura, Kant tenta fornecer uma base para as leis da ciência, ao mesmo tempo em que estabelece o sujeito humano como um agente racional caracterizado pelo livre-arbítrio. Na Crítica da razão prática, ele argumenta que o livre-arbítrio do homem, embora possa ser teoricamente comprovado, somente resulta, de fato, da nossa consciência desse livre-arbítrio emanando de dentro de nós. É a nossa consciência que nos liga à lei moral, e nosso conhecimento da lei moral não é imposto a partir do exterior por Deus ou qualquer outro agente.
Na crítica da faculdade de julgar, Kant está preocupado com juízos estéticos e questões teleológicas, como: “Qual o propósito de sistemas ou organismos naturais?” Com isso, ele deixa a porta aberta para o questionamento ético e teológico. Por exemplo, que papel Deus exerce no mundo?
 Qualquer um desses três tratados seria considerado a conquista de toda uma vida para um filósofo, mas Kant publicou muitos outros livros, desde os primeiros tratados sobre ciências naturais (sobretudo astronomia) até trabalhos sobre filosofia da história e estética.

A “virada copernicana” de Kant
Kant nasceu em circunstâncias modestas em Königsberg, na Prússia Oriental, mas teve uma educação muito boa antes de entrar na universidade, aos 16 anos. A essa altura, Kant havia absorvido os principais textos da filosofia grega, assim como, por diversão, da história do latim e da poesia. Sua educação foi rigorosamente pietista,(Movimento reformista dentro da Igreja luterana, o pietismo enfatizava a devoção religiosa individual. Em seu livro sobre Kant, o filósofo inglês Roger Scruton,1944, argumentou que “a visão do pietismo da soberania da consciência exerceu influência duradoura no pensamento moral de Kant”) e, embora o elemento principal de seu legado filosófico tenha sido colocar o homem no centro do nosso mundo, ele mantinha um lugar para Deus no mundo do homem. A contribuição de Kant para o pensamento ocidental foi o equivalente filosófico da demonstração feita por Nicolau Copérnico de que o Sol, e não a Terra, é o centro do nosso sistema solar. A afirmação kantiana de que o homem foi o criador de seu mundo era tão chocante para seus contemporâneos quanto a teoria heliocêntrica havia sido para os de Copérnico, e é muitas vezes chamada de sua “virada copernicana”. Na Crítica da razão pura, Kant alegou que espaço, tempo e relações causais não têm existência se apartados das nossas mentes, que os percebem.
A insistência de Kant no papel exercido pelo homem na construção do seu próprio mundo e na autonomia em vez das consolações da religião pode ser uma resposta às mortes precoces de sua mãe (quando ele tinha 13 anos) e de seu pai (quando tinha 22). A mãe de Kant, Regina, havia encorajado sua curiosidade, explorando o mundo em longas caminhadas ao seu lado e explicando as coisas tão bem quanto podia. Kant contou ao seu aluno e amigo Reinhold Bernhard Jachmann (1767-1843): “Nunca me esquecerei da minha mãe, pois foi ela quem implantou e nutriu em mim o primeiro embrião da bondade; ela abriu meu coração para as impressões da natureza; despertou e expandiu minhas ideias, e suas doutrinas tiveram uma influência contínua e benéfica na minha vida.” Talvez a crença de Kant no homem como criador do seu mundo e seu sentido de autonomia tenham estimulado nele a qualidade de persistência. Ele modificou e atualizou seu pensamento constantemente, de modo que cada uma das três Críticas é um desenvolvimento mais à frente do seu pensamento.
Depois de se formar na Universidade de Königsberg, onde estudou filosofia e física, Kant trabalhou como tutor particular. Ele só obteve um posto de professor na universidade aos 31 anos de idade e então ministrou uma gama e um número surpreendentes de cursos, incluindo mineralogia, antropologia, filosofia moral, direito natural, geografia, teologia natural, lógica, pedagogia, matemática, física e metafísica. Ele só fez isso porque estava em circunstâncias desconfortáveis e precisava do dinheiro: segundo o sistema que vigorava então, os professores universitários eram pagos de acordo com o número de alunos que se inscreviam em suas aulas. Ele só foi nomeado para um cargo de professor (em lógica e matemática) em 1770, quando tinha 41 anos de idade.

Guerra e pobreza
No início dos anos 1760, durante a Guerra dos Sete Anos, Königsberg estava ocupada pela Rússia. Economicamente, a vida era difícil, e, para conseguir pagar as contas, Kant assumiu um segundo emprego: tornou-se sub-bibliotecário da coleção de história natural na Biblioteca Real. Ele também passou a ter inquilinos e foi forçado a vender livros de sua biblioteca. Mas, à medida que o mundo se transformava à sua volta, Kant permanecia um homem de hábitos e confiança. Sua rotina de caminhadas diárias, segundo o poeta Heinrich Heine (1797-1856), era tão confiável que os moradores de Königsberg acertavam seus relógios por ela.
 

O ego transcendental
Mesmo que Kant tenha incluído na segunda edição de Crítica da razão pura (1787) um capítulo intitulado “A refutação do idealismo”, a ideia central da sua filosofia continua sendo a doutrina do idealismo transcendental. Por isso, Kant não se refere ao idealismo no sentido dado por George Berkeley (1685-1753), que não acreditava na existência da matéria – a teoria de Berkeley recebeu uma crítica famosa de Samuel Johnson (1709-84), que chutou uma pedra e exclamou: “Refuto-a, portanto!” Kant tampouco segue o conceito de idealismo problemático de René Descartes (1596-1650), que alega que a única existência que podemos provar por experiência imediata é a nossa própria.
Kant argumenta que o ego transcendental (sua ideia de eu humano) impõe categorias sobre as impressões do sentido e, assim, constrói conhecimento acerca deles. Ele resumiu essa concepção em seu último trabalho, Opus postumum (1804), ao dizer que o próprio homem “cria os elementos de conhecimento do mundo, a priori, a partir dos quais – na condição, ao mesmo tempo, de habitante do mundo – ele constrói uma visão de mundo na ideia”. O que isso significa, em essência, é que os elementos do conhecimento, as categorias pelas quais entendemos o mundo, existem a priori, ou seja, sem referência à experiência. O conhecimento a priori está em nós, como um dado. Então, Kant afirma na Crítica da razão pura: “É perfeitamente justificável dizermos que somente aquilo que está em nós pode ser imediata e diretamente percebido e que somente minha própria existência pode ser objeto de uma mera percepção”.
Como consequência disso, “a existência de um objeto real fora de mim nunca pode ser dada direta e imediatamente à percepção, mas pode apenas ser acrescentada em pensamento à percepção, o que constitui uma alteração do sentido interno, inferido, portanto, como sua causa externa”. Kant afirma que jamais percebemos realmente coisas externas, mas apenas inferimos sua existência, embora objetos externos sejam a causa aproximada da inferência de sua existência. Portanto, o idealismo transcendental de Kant difere daquele formulado por Berkeley ou por Descartes.
Também não é um absurdo, Kant adverte seus críticos, uma visão de mundo contestadora. “Não se deve supor”, escreve ele na Crítica da razão pura, “que um idealista é alguém que nega a existência externa de objetos dos sentidos; tudo que ele faz é negar que eles são conhecidos por percepção imediata e direta”.
 

Imperativo categórico
A preocupação de Kant com questões de conhecimento e liberdade o levou naturalmente à ética e à pergunta final: “O que é a coisa certa a fazer?” Kant rejeitava a ética utilitarista de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, que sustenta que as boas ações são aquelas que levam à maior quantidade de felicidade (o “cálculo hedonista” de Bentham) para o maior número de pessoas. Em A metafísica dos costumes (1785), Kant contestou o utilitarismo ao propor que, se permitirmos que nosso comportamento seja regido por motivos utilitaristas, poderemos valorizar outras pessoas sob a luz do “bem” para o qual elas podem ser usadas – tratando-as, portanto, como meios para um fim, e não como fins em si. Ele também refutou a doutrina do absolutismo moral, que sustenta a existência de normas absolutas de conduta que resultam em comportamentos “certos” e “errados”, qualquer que seja o contexto. A resposta de Kant ao utilitarismo e ao absolutismo moral foi o desenvolvimento do imperativo categórico, uma regra segundo a qual o homem deveria agir eticamente: “Aja somente conforme aquela máxima que, ao mesmo tempo, você possa desejar que se torne uma lei universal”. O imperativo categórico é bem ilustrado pela famosa distinção ética “é /deveria ser”. Para Kant, nosso comportamento ético (“deveria ser”) não necessariamente deveria resultar de um estado particular de coisas (“é”). Nosso sentido de dever ético jamais deveria incluir o que nos é impossível fazer; neste sentido, “deveria ser” implica “pode ser”. A ética deontológica de Kant é um caso de “poder fazer”: se eu deveria fazer isso e aquilo, então me é logicamente possível fazê-lo; e, deste modo, eu posso fazê-lo.
 
Kant como cientista
Se Kant nunca houvesse escrito seus três grandes tratados nem nenhum de seus outros trabalhos importantes, como os Prolegômenos a toda metafísica futura (1783), os Primeiros princípios metafísicos da ciência natural (1786) ou A metafísica dos costumes (1797), ele teria encontrado um lugar na história da ciência pelo desenvolvimento da teoria Kant-Laplace, que descreve a formação do universo. Somente se menciona isso para mostrar que a influência de Kant é sentida em todos os campos do pensamento moderno. Em Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (1784), ele teorizou que nosso sistema solar foi formado como resultado de uma nebulosa rotativa, cuja força gravitacional a comprimiu em um disco giratório, lançando para fora o Sol e os planetas. A teoria de Kant foi amplamente ignorada ao longo de sua vida. Até que em 1796 o astrônomo e matemático francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827) desenvolveu uma teoria similar, de forma independente do trabalho de Kant. Mais tarde, cientistas notaram o precedente de Kant e chamaram a teoria de “hipótese Kant-Laplace”. É a base para a hipótese de nebulosa geralmente aceita pelos cientistas como explicação para a formação do sistema solar. Na Crítica da Razão Prática, Kant disse: “Duas coisas preenchem a mente com admiração e espanto sempre novos, quanto mais frequente e firmemente refletimos sobre elas: os céus estrelados sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Estas palavras estão esculpidas em sua lápide.
 

O legado de Kant
Kant representa o ponto culminante, a perfeição do Iluminismo. Em Kant, todos os traços do pensamento medieval religioso são postos de lado, e o homem é trazido para a dianteira de sua própria situação. Sua liberdade se estende como a partir de sua percepção de si mesmo como um agente autônomo; e desta compreensão flui seu papel como ator político e ser ético. Com sua teoria do idealismo transcendental, Kant demonstrou como o homem cria seu mundo; como conhecimento e experiência não existem separados dele, mas sim por causa e por meio dele. Sua importância e influência não têm como ser superestimadas.
A experiência é sem dúvida o primeiro produto que nosso entendimento traz adiante... No entanto, está longe de ser o único campo ao qual nosso entendimento pode ser restringido. Ela nos diz, para ter certeza, o que é, mas nunca que é preciso ser assim, e não de outra maneira. Justamente por esta razão, ela não nos dá qualquer universalidade verdadeira, e a razão – que é tão desejosa desse tipo de cognições – é mais estimulada do que satisfeita por ela. Agora, tais cognições universais, que ao mesmo tempo têm o caráter de necessidade interna, precisam estar claras e seguras por conta própria, independentemente da experiência, motivo pelo qual são chamadas de cognições a priori: considerando que aquilo que é meramente tomado de empréstimo da experiência é, como colocado, processado pela cognição somente a posteriori, ou empiricamente. (Immanuel Kant, Crítica da razão pura (1781/ 1787)
A filosofia antiga adotou um ponto de vista totalmente inadequado do ser humano no mundo, pois transformou-o em uma máquina, que – como tal – era completamente dependente do mundo ou de coisas e circunstâncias externas; ela fez do homem, assim, nada mais que uma parte meramente passiva do mundo. Agora a crítica da razão apareceu e determinou para o homem um lugar totalmente ativo no mundo. O próprio ser humano é o criador original de todos os seus conceitos e representações, e deve ser o autor único de todas as suas ações. (Immanuel Kant, O conflito das faculdades (1798)

(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno) 

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publicado às 12:26

Pensador nascido na Áustria que transformou a filosofia da ciência em uma disciplina estabelecida e traçou as origens do totalitarismo em Platão, Hegel e Marx. 
 
 
“Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, se não corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”
(K. Popper) 
 
O mais eloquente adversário do
historicismo hegeliano no século XX foi
Karl Popper, que, em A sociedade aberta e
os seus inimigos (1945), apontou Hegel
como um dos três antepassados do totalitarismo,
ao lado de Platão e Marx, porque –
diz Popper – Hegel tomou uma visão determinista
da história. Pode-se argumentar
igualmente que Hegel tinha uma visão
otimista da história e acreditava que o progresso
real era possível.
(Trombley, Stephen)

Aprendi com Popper aquilo que para mim é a essência da investigação
científica - como ser especulativo e imaginativo na criação de
hipóteses, e então desafiá-las com o máximo rigor, utilizando todo o
conhecimento já disponível e também realizando as mais minuciosas
investidas experimentais. Na verdade, aprendi com ele até mesmo a
me regozijar com refutação de uma hipótese pela qual se tem grande
estima, porque também sua refutação é uma conquista científica, e
porque muitas coisas foram descobertas por meio da refutação

(Eccles)

Só há conhecimento científico a partir do momento
em que podemos repetir determinado fenômeno
ou prever com certeza o aparecimento
desse fenômeno, sob determinadas condições.
Insatisfeito com o critério da
verificabilidade, defendido pelos empiristas
lógicos — segundo o qual uma teoria só é
científica quando suscetível de uma verificação
experimental real ou possível —, Karl
Popper propõe um critério demarcatório
entre o científico e o não científico. Trata-se
do critério da refutabilidade, da testabilidade
ou da falsificabilidade, o que significa
dizer que uma teoria só é científica quando
pode ser refutada pela experiência.

(HILTON JAPIASSÚ, DANILO MARCONDES,
DICIONÁRIO BÁSICO DE FILOSOFIA)

Jamais esqueci o ensinamento de KarI Popper segundo o qual o que distingue essencialmente um governo democrático de um não-democrático é que apenas no primeiro os cidadãos podem livrar-se de seus governantes sem derramamento de sangue.
(MARIA LÚCIA DE ARRUDA ARANHA, MARIA HELENA PIRES MARTINS
- TEMAS DE FILOSOFIA)
 

 
Como diversos filósofos austríacos notáveis, Karl Popper foi um judeu que fugiu dos nazistas – primeiro, para a Nova Zelândia e depois, para o Reino Unido, onde estabeleceu sua reputação como o mais significativo filósofo da ciência de sua geração. De modo pouco comum, fez grandes contribuições para a filosofia em dois campos separados (embora ele defendesse que eles estavam relacionados).
Primeiramente, preocupou-se em explicar como teorias científicas passam a existir e por que motivos algumas delas têm sucesso e conseguem prosperar. Ele aborda essas questões em seu primeiro livro, A lógica da pesquisa científica (1934), e em uma série de palestras publicadas como Conjecturas e refutações (1963). Em segundo lugar, atacou o historicismo, identificando-o como um ingrediente essencial do pensamento totalitário. Seu trabalho inicial sobre esse tema é A pobreza do historicismo (1936), seguido por seu estudo em dois volumes, A sociedade aberta e seus inimigos (1945). Popper era 549/850 um defensor apaixonado da democracia liberal.
Nasceu em uma família de judeus vienenses que se converteram ao luteranismo. Seu pai era um advogado importante, sua mãe era música e a casa estava repleta de livros, que ele era estimulado a ler. O ano de 1919 – quando Popper tinha dezessete anos de idade – se provaria decisivo para ele por três razões. Primeiro, iniciou um flerte apaixonado com o marxismo. Entrou para a Associação de Estudantes Socialistas, mas não levou muito tempo para rejeitar suas atitudes doutrinárias. Em segundo lugar, desenvolveu interesse pela psicanálise. Foi apresentado à teoria freudiana por Alfred Adler, que rapidamente conseguiu para Popper um emprego como assistente social com crianças desfavorecidas. A terceira e mais importante experiência que Popper teve em 1919 foi ouvir a palestra de Albert Einstein a respeito de sua teoria da relatividade, em Viena. Este evento mostrou-se crucial no desenvolvimento intelectual de Popper. Fez com que aderisse com intensidade ao campo científico. Popper reconheceu de imediato que a teoria de Einstein era um modelo de pensamento científico: suas hipóteses eram testáveis e verificáveis. Ele viria a acreditar que as ideias de Marx, Darwin e Freud, por outro lado, não o eram. E assim, no espaço de apenas um ano, Popper se familiarizou com (e fez escolhas filosóficas permanentemente definidoras sobre) as quatro grandes tendências do pensamento ocidental do século XX.
Popper diplomou-se como professor de escola primária em 1925, obteve um PhD em filosofia em 1928 e se qualificou para ensinar matemática e física na escola secundária, o que fez de 1930 a 1936. Publicou A lógica da pesquisa Científica em 1934, enquanto ainda era professor escolar. Neste livro, ele apresentou sua teoria de que falseabilidade potencial é o critério a ser usado para distinguir ciência de não ciência. Em 1937, vendo a ameaça nazista pelo que era, Popper emigrou para a Nova Zelândia, onde trabalhou como professor de filosofia na Universidade de Canterbury, em Christchurch.
 
A filosofia da ciência de Popper
Popper rejeitou o positivismo lógico do Círculo de Viena, liderado por Moritz Schlick (1882-1936), particularmente seu foco na verificabilidade de declarações como teste de seu significado. Em vez disso, defendia que a falseabilidade deveria ser o critério para o trabalho científico. Ele dizia que hipóteses deveriam, na verdade, ser elaboradas de modo a atraírem tentativas de falsificação de si mesmas. Teorias científicas autênticas estão em busca de um contra-argumento capaz de invalidar a teoria. Popper chamava sua abordagem de racionalismo crítico, apresentando a si mesmo como herdeiro de David Hume e Immanuel Kant.
Para Popper a questão crucial na filosofia da ciência é o problema da demarcação – o trabalho de identificar as diferenças entre o que é ciência e o que não é. Essencialmente, ele toma uma posição radicalmente oposta à dos positivistas lógicos, que alegam que seu trabalho é “científico”. A abordagem empírica destes pesquisadores à filosofia leva-os a inferir conclusões a partir de premissas empíricas que implicam algo além do seu conteúdo como provável. Para Popper – e para aquele outro crítico do positivismo vienense, W. V. Quine –, observação empírica “simples” nunca é simples; ela é sempre seletiva, no sentido de que ocorre a partir de uma perspectiva; e essa perspectiva é sempre colorida pela vertente teórica que conduz à pesquisa. Popper traz um problema incômodo aos empíricos ao argumentar que a ciência não pode ser reduzida a uma metodologia específica como a dedução. Ele vê a ciência como um esforço de resolução de problemas, de um tipo singularmente humano.
A filosofia política de Popper desenvolve-se diretamente do seu pensamento sobre ciência. Partindo das suas regras de verificação, ele analisa as teorias mais populares do final do século XIX e início do século XX – as de Marx, Freud e Darwin – para julgar cientificamente a legitimidade das suas alegações. Marx e Freud não passam no teste, conclui Popper, e apenas Darwin pode ser chamado de cientista. Os critérios de Popper, aqui, têm a ver com o modo pelo qual a ciência procede. A teoria da evolução de Darwin é científica porque partes dela são falseáveis; outras não são, e correções são feitas por futuras gerações de cientistas, de modo que a explicação darwinista das origens da vida, cujos detalhes exigem constantes ajustes, é vista como bastante precisa. Marx e Freud, por outro lado, são “totalizadores” não científicos; em vez de usarem objeções para invalidar suas teorias, eles fazem-nas desaparecer ao incorporá-las em sua teoria.

A filosofia política de Popper
Popper passou a considerar que o historicismo de Marx – ou qualquer historicismo, na realidade – trazia consequências desastrosas para a raça humana. O primeiro volume de A sociedade aberta e seus inimigos se concentra em Platão – seu subtítulo é O sortilégio de Platão – como o primeiro de uma longa lista de historicistas que passa por Hegel e Marx, que são tratados no segundo volume (cujo subtítulo é A preamar da profecia). Por quase 2.500 anos, Platão desfrutou a reputação de um pai benigno da filosofia moderna, aluno fiel de Sócrates e sábio em quase tudo. Em contraste com essa visão, a leitura de Popper do livro A república, de Platão, destaca a natureza totalitária do Estado platônico. Ele identifica quatro ingredientes do totalitarismo platônico: (1) “rígida divisão de classes... pastores e sentinelas devem ser estritamente separados do gado humano”; (2) o destino do Estado deve se identificar com a classe dominante, com “regras rígidas de reprodução” – um programa de eugenia precoce; (3) a classe dominante é militar, mas excluída das atividades econômicas; (4) censura de todas as atividades da classe dominante.
No segundo volume, Popper trata de Marx. O problema do marxismo, argumenta ele, é que ele utiliza a ciência erroneamente. Marx e todos os historicistas (incluindo Hegel) acreditam de maneira equivocada que a história humana pode ser prevista de acordo com princípios “científicos”; isto é impossível, segundo Popper, uma vez que o conhecimento adquirido pelas sociedades no curso de seu desenvolvimento afeta essa história de maneiras que não podem ser previstas. Em sua raiz, liberdade significa imprevisibilidade.

Popper, Polanyi e Kuhn: a história da ciência como disciplina
Popper trouxe a filosofia da ciência para a vanguarda da disciplina de filosofia e criou um ambiente no qual ela podia prosperar. Suas pesquisas tinham necessariamente um elemento histórico, e, a partir dos anos 1960, a história da ciência começou a se desenvolver por conta própria como disciplina, fomentando e sendo fomentada pela filosofia da ciência. As figuras centrais de exploração de ambas as áreas são o filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi (1891-1976) e o físico americano T. S. Kuhn (1922-96). O livro de Polanyi Personal Knowledge: Towards a Post-Critical Philosophy [Conhecimento pessoal: em direção a uma filosofia pós-crítica] (1958) tratou de temas levantados pela subjetividade do observador científico. Kuhn foi um físico praticante que se voltou para a história da ciência, tendo sido influenciado pelo trabalho de Polanyi.
O livro de Kuhn A estrutura das revoluções científicas (1962) teve enorme efeito sobre o modo como o progresso científico é visto. Anteriormente, pensava- 558/850 se que o conhecimento científico era acumulado de maneira linear e ordenada, com um descobrimento conduzindo a outro, e assim por diante, numa espécie de progresso evolutivo estável. Kuhn derrubou essa ideia com a tese de que cada era científica é governada por um paradigma – uma visão de mundo, uma maneira de enxergar o mundo e de executar ações dentro dele – que é eliminado em uma violenta ruptura epistêmica, o que leva à substituição por um novo paradigma. Esta é a estrutura da revolução científica.
A maior parte dos trabalhos científicos trata-se do que Kuhn denomina ciência “normal” – trabalho de laboratório e experimentações executadas para apoiar o novo paradigma dominante. Não é função da ciência “normal” desafiar o novo paradigma. A teoria da relatividade de Einstein, por exemplo, necessitou de uma mudança de paradigma. Einstein desafiou a ordem do universo segundo estabelecida na física de Isaac Newton (1643-1727); em consequência disso, o trabalho de cientistas pós-Einstein é solucionar as diversas questões levantadas pela mecânica quântica e o novo modo de conceber o universo que derrubou o paradigma de Newton.
Eu esperava chamar atenção... para a teoria conspiratória da ignorância, que interpreta a ignorância não como uma mera falta de conhecimento, mas como o trabalho de algum poder sinistro, a fonte de influências más e impuras que pervertem e envenenam nossas mentes e instilam em nós o hábito da resistência ao conhecimento. Karl Popper, Conjecturas e refutações (1963)
O elemento profético no credo de Marx foi dominante nas mentes de seus seguidores. Ele marginalizou todo o resto, banindo o poder do juízo frio e crítico e destruindo a crença de que, por meio da razão, podemos mudar o mundo. Tudo que restou do ensinamento de Marx foi a filosofia oracular de Hegel, que, em sua pompa marxista, ameaça paralisar a luta por uma sociedade aberta. Karl Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, vol. 2 (1962)

(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

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publicado às 13:49


O papa e o estrume do diabo

por Thynus, em 04.03.15

 

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O Papa Francisco está sendo amplamente atacado na internet, por ter dito, em cerimônia, em Roma, que “o dinheiro é o estrume do diabo” e que quando se torna um ídolo “ele comanda as escolhas do homem”. Acima e abaixo da cintura, houve de tudo.

De adjetivos como comunista, “argentino”, hipócrita, demagogo e outros aqui impublicáveis, a sugestões de que ele se mude para uma favela, e – a campeã de todas – que distribua para os pobres o dinheiro do Vaticano.

É cedo, historicamente, para que se conheça bem este novo papa, mas, pelo que se tem visto até agora, não se pode duvidar de que daria o dinheiro do Vaticano aos pobres, tivesse poder para isso, não fosse a Igreja que herdou dominada por nababos conservadores colocados lá pelos dois pontífices anteriores, e ele estivesse certo de que essa decisão fosse resolver, definitivamente, a questão da desigualdade e da pobreza em nosso mundo.

Inteligente, o Papa sabe que a raiz da miséria e da injustiça não está na falta de dinheiro mas na falta de vergonha, de certa minoria que possui muito, muitíssimo, em um planeta em que centenas de milhões de pessoas ainda vivem com menos de dois dólares por dia.

E que essa situação se deve, em grande parte, justamente à idolatria cada vez maior pelo dinheiro, o “estrume” do Bezerro de Ouro que estende a sombra de seus cornos sobre a planície nua, os precipícios e falésias do destino humano.

Em nossa época, deixamos de honrar pai e mãe, de praticar a solidariedade com os mais pobres, com os doentes, com os discriminados e os excluídos, para nos entregar ao hedonismo.

Os pais transmitem aos filhos, como primeira lição e maior objetivo na existência, a necessidade não de sentir, ou de compreender o mundo e a trajetória mágica da vida – presente maior que recebemos de Deus quando nascemos – mas, sim, a de ganhar e acumular dinheiro a qualquer preço.

Escolhe-se a escola do filho, não pela abordagem filosófica, humanística, às vezes nem mesmo técnica ou científica, do tipo de ensino, mas pelo objetivo de entrar em uma universidade para fazer um curso que dê grana, com o objetivo de fazer um concurso que dê grana, estabelecendo, no processo, uma “rede” de amigos que têm, ou provavelmente terão grana.

Favorecendo, realimentando, uma cultura voltada para o aprendizado e o compartilhamento de símbolos de status fugazes e vazios, que vão do último tipo de smartphone ao nome do modelo do carro do papai e da roupa e do tênis que se está usando.

O que determina a profissão, o que se quer fazer na vida, é o dinheiro

.Escolhe-se a carreira pública, ou a política, majoritariamente, pelo poder e pelas benesses, mas, principalmente, pelo dinheiro.

Até mesmo na periferia, assalta-se, mata-se, se morre ou se vive – como rezam as letras dosfunks de batalha ou de ostentação – pelo dinheiro.

Para os mais radicais, não basta colocar-se ao lado do capital, apenas como um praticante obtuso e entusiástico dessa insensata e permanente “vida loca”.

É necessário reverenciar aberta e sarcasticamente o egoísmo, antes da solidariedade, a cobiça, antes da construção do espírito, o prazer, antes da sabedoria.

É preciso defender o dindin – surgido para facilitar a simples troca de mercadorias – como símbolo e bandeira de uma ideologia clara, que se baseia na apologia da competição individual desenfreada e grosseira, e de um “vale tudo” desprovido pudor e de caráter, como forma de se alcançar riqueza e glória, disfarçado de eufemismos que possam ir além do capitalismo, como é o caso, do que está mais na moda agora, o da “meritocracia”.

Segundo a crença nascida da deturpação do termo, que atrai, como um imã, cada vez mais brasileiros, alguns merecem, por sua “competência”, viver, se divertir, ganhar dinheiro. Enquanto outros não deveriam sequer ter nascido – já que estão aqui apenas para atrapalhar o andamento da vida e do trânsito. Melhor, claro, se não existissem – ou que o fizessem apenas enquanto ainda se precise – ao custo odioso de quase 30 dólares por dia – de uma faxineira ou de um ajudante de pedreiro.

O capitalismo está se transformando em ideologia. Só falta que alguém coloque o cifrão no lugar da suástica e comece a usá-lo em estandartes, colarinhos e braçadeiras, e que em nome dele se exterminem os mais pobres, ou ao menos os mais desnecessários e incômodos, queimando-os, como polutos cordeiros, em fornos de novos campos de extermínio.

Disputa-se e proclama-se o direito de ter mais, muito mais que o outro, de receber de herança mais que o outro, de legar mais que o outro, de viver mais que o outro, de gastar mais que o outro, e, sobretudo, de ostentar, descaradamente, mais que o outro. Mesmo que, para isso, se tenha de aprender dos pais e ensinar aos filhos, a se acostumar a pisar no outro, da forma mais impiedosa e covarde. Principalmente, quando o outro for mais “fraco”, “diverso” ou pensar de forma diferente de uma matilha malévola e ignara, ressentida antes e depois do sucesso e da fortuna, que se dedica à prática de uma espécie de bullying que durará a vida inteira, até que a sombra do fim se aproxime, para a definitiva pesagem do coração de cada um, como nos lembram os antigos papiros, à sombra de Maat e de Osíris.

A reação conservadora à ascensão de Francisco, depois do aparelhamento, durante os dois papados anteriores, da Igreja Apostólica e Romana por clérigos fascistas, e da renúncia de um papa envolvido indiretamente com vários escândalos, que comandou com crueldade e mão de ferro a “caça às bruxas” ocorrida dentro da Igreja nesse período, se dá também nos púlpitos brasileiros.

Não podendo atacar frontalmente um pontífice que diz que o mundo não é feito, exclusivamente, para os ricos, religiosos que progrediram na carreira nos últimos 20 anos, e que se esqueceram de Jesus no Templo e do Cristo dos mendigos, dos leprosos, dos aleijados, dos injustiçados, proferem seu ódio fazendo política nas missas – o que sempre condenaram nos padres adeptos da Teologia da Libertação – ressuscitando o velho e baboso discurso de triste memória, que ajudou a sustentar o golpismo em 1964.

O ideal dos novos sacerdotes e fiéis do Bezerro de Ouro é o de um futuro sem pobres, não para que diminua a desigualdade e aumente a dignidade humana, mas, sim, a contestação aos seus privilégios.

Em 1996, em um livro profético – “L´Horreur Economique”, “O Horror Econômico” – a jornalista, escritora e ensaísta francesa, Viviane Forrester, morta em 2013, já alertava, na apresentação da obra, para o surgimento desse mundo, dizendo que estamos no limiar de uma nova forma de civilização, na qual apenas uma pequena parte da população terrestre encontrará função e emprego.

“A extinção do trabalho parece um simples eclipse – afirmou então Forrester – quando, na verdade, pela primeira vez na História, o conjunto formado por todos os seres humanos é cada vez menos necessário para o pequeno número de pessoas que manipula a economia e detêm o poder político…

dando a entender que diante do fato de não ser mais “explorável”, a “massa” e quem a compõe só pode temer, e perguntando-se se depois da exploração, virá a exclusão, e, se, depois da exclusão, só restará a eliminação dos mais pobres, no futuro.

O culto ao Bezerro de Ouro, ao dinheiro e ao hedonismo está nos conduzindo para um mundo em que a tecnologia tornará o mais fraco teoricamente desnecessário.

A defesa dessa tese, assim como de outras que são importantes para a implementação paulatina desse processo, será alcançada por meio da implantação de uma espécie de pensamento único, estabelecido pelo consumo de um mesmo conteúdo, produzido e distribuído, majoritariamente, pela mesma matriz capitalista e ocidental, como já ocorre hoje com os filmes, séries e programas e os mesmos canais norte-americanos de tv a cabo, em que apenas o idioma varia, que podem ser vistos com um simples apertar de botão do controle remoto, nos mesmos quartos de hotel – independente do país em que se estiver no momento – em qualquer cidade do mundo.

As notícias virão também das mesmas matrizes, em canais como a CNN, a Fox e a Bloomberg, e das mesmas agências de notícias, e serão distribuídas pelos mesmos grandes grupos de mídia, controlados por um reduzido grupo de famílias, em todo o mundo, forjando o tipo de unanimidade estúpida que já está se tornando endêmica em países nos quais – a exemplo do nosso – impera o analfabetismo político.

E o controle da origem da informação, da sua transmissão, e, sobretudo dos cidadãos, continuará a ser feito, cada vez mais, pelo mesmo MINIVER, o Ministério da Verdade, de que nos falou George Orwell, em seu livro “1984”, estabelecido primariamente pelos Estados Unidos, por meio da internet, a gigantesca rede que já alcança quase a metade das residências do planeta, e de seus mecanismos de monitoração permanente, como a NSA e outras agências de espionagem, seus backbones, satélites, e as grandes empresas norte-americanas da área, e a computação em nuvem, identificando rapidamente qualquer um que possa ameaçar a sobrevivência do Sistema.

O mundo do Bezerro de Ouro será, então – como sonham ardentemente alguns – um mundo perfeito, onde os pobres, os contestadores, os utópicos – sempre que surgirem – serão caçados a pauladas e tratados a chicotadas, e, finalmente, perecerão, contemplando o céu, nos lugares mais altos, para que todos vejam, e sirva de exemplo, como aconteceu com um certo nazareno chamado Jesus Cristo, há vinte séculos.

(Mauro Santayana)

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publicado às 13:29

Pensadora búlgaro-francesa que sintetizou o marxismo, a fenomenologia, o estruturalismo e a psicanálise para criar um conjunto de ferramentas interpretativas.
 
 
"Depois de duas guerras mundiais e algumas guerras frias, perante o especto lancinante de confrontos
inter-religiosos, o início do terceiro milênio parece tentado por um dirigismo suave que se crê capaz de sanar os conflitos e divergências"
(Julia Kristeva - Réhabiliter la culture dans une nouvelle philosophie politique

"Quem representa Deus no Feminismo de Hoje?"
(Julia Kristeva)
 
 
 Julia Kristeva é a principal herdeira das tradições estruturalista e pós-estruturalista. Seu estilo de raciocínio singular utiliza conclusões retiradas da fenomenologia, do marxismo, da psicanálise e da semiótica. Ela introduziu dois termos importantes no discurso intelectual popular: intertextualidade e abjeção. Intertextualidade, um elemento fundamental da teoria pós-estruturalista, se refere ao modo pelo qual o significado de um texto é informado por outros textos e nossa própria leitura acumulada desses textos. Abjeção, ou o abjeto, descreve a condição de pessoas marginalizadas: mulheres, negros, doentes mentais, criminosos. A obra de Kristeva inclui escritos filosóficos, biográficos e ficcionais. Uma aluna (e crítica) precoce de Jacques Lacan, ela é psicanalista. A partir de suas leituras de psicanálise e do linguista suíço Ferdinand de Saussure, ela desenvolveu o conceito original da semiótica, que descreve um aspecto da linguagem que é pré-simbólico, anterior à gramática.

 Bulgária e o grupo Tel Quel
Como muitos importantes pensadores franceses do século XX – Albert Camus, Jacques Derrida, Louis Althusser, Hélène Cixous (1937-) e Luce Irigaray (1932-) –, Kristeva é uma cidadã francesa naturalizada, o que pode explicar em parte seu interesse pelos marginalizados, pelo abjeto. Ela nasceu e foi criada na Bulgária sob o regime comunista, assim como seu colega Tzvetan Todorov (1939-), filósofo e crítico literário búlgaro-francês. Em 1960, Kristeva se juntou ao grupo de filósofos Tel Quel, que se juntou em torno do jornal de mesmo nome e durou até 1982. Fundado pelo marido de Kristeva, o romancista Philippe Sollers (1936-), o movimento Tel Quel tinha como foco o criticismo social e literário radical; entre seus membros, estiveram Foucault, Derrida e Barthes.

Abjeção
Em Powers of Horror: An Essay on Abjection [Poderes do horror: um ensaio sobre abjeção] (1980), Kristeva usa o termo abjeção para descrever a situação complexa do sujeito que não é simplesmente alienado, mas que é “radicalmente excluído” e atraído “para o local onde o significado deixa de existir”. Em abjeção, “um certo ‘ego’ que se fundiu com seu mestre, um superego, marginalizou o abjeto. Ele fica na periferia e não parece concordar com as regras do jogo decididas pelo superego.” O abjeto inclui qualquer um que seja alienado da sociedade: imigrantes, negros, mas também homossexuais e transexuais, mães solteiras, criminosos e doentes mentais. Kristeva usa a imagem do cadáver – uma pessoa que uma vez foi, mas já não é – para descrever o status do abjeto. Não totalmente reconhecido como um sujeito (uma pessoa) e considerado mais como objeto, o abjeto habita um mundo obscuro de 756/850 existência parcial. A interpretação psicanalítica de Kristeva do abjeto leva-a a concluir que todos nós experimentamos a abjeção em nossa rejeição do maternal. Ela argumenta que nós precisamos rejeitar a mãe com quem temos uma identidade compartilhada desde o momento em que somos concebidos, de modo a criarmos uma identidade nova e separada para nós mesmos.
 
Intertextualidade
Intertextualidade oferece uma nova compreensão da nossa própria subjetividade e sua relação com os textos. Saussure descobriu a estrutura da linguagem para mostrar a natureza arbitrária do significante e do significado. Barthes declarou a morte do autor, dando primazia ao texto. Em um sentido, esses desenvolvimentos são um desafio para a linha de pensamento descendente da tradição idealista que se inicia em Kant e culmina na tradição fenomenológica de Husserl, segundo a qual nós, o sujeito, somos os responsáveis por atribuir significado ao mundo. Em pensadores tão distintos como Hegel e Karl Jaspers, encontramos uma elaboração dos mecanismos pelos quais os sujeitos não estão presos em um mundo solipsista de sua própria autoria, mas sim reconhecem as subjetividades uns dos outros e, por acordo mútuo, chegam à intersubjetividade – um mundo de significado compartilhado. Kristeva retira a noção de intertextualidade da sua leitura do filósofo e crítico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Em Desire in Language [O desejo na linguagem] (1977), ela apresentou esta descoberta fundamental de Bakhtin: “Qualquer texto é construído como um mosaico de citações; qualquer texto é a absorção e a transformação de outro”. A noção de intertextualidade substitui a de intersubjetividade, e a linguagem poética é lida no mínimo como dupla. Autores tomam emprestado – conscientemente ou não – de outros textos.
Leitores trazem para a leitura de cada novo texto toda uma história pessoal de leitura, que incorpora os textos lidos e – conscientemente ou não – toda a tapeçaria da qual aqueles textos já lidos são parte inevitável.
Em A revolução da linguagem poética (1974), Kristeva diz, com peculiar obscuridade, que o mecanismo de intertextualidade é a “transposição de um (ou vários) sistema(s) de signos para outro”.

Semiótica
O uso feito por Kristeva do termo semiótica não deve ser confundido com aqueles feitos por Saussure ou C. S. Peirce. Ela combina conclusões retiradas da prática da psicanálise à sua própria leitura de filosofia, de modo a identificar dois componentes essenciais da linguagem: o simbólico e o semiótico. O simbólico é regido por regras gramaticais e sociais. Parte da experiência de abjeção deve ser excluída desse mundo simbólico. É a esse mundo que pertence a teoria da linguagem de Saussure, segundo a qual palavras (o significante) e coisas (o significado) existem em uma relação de significação arbitrária.
Mais importante para Kristeva é a semiótica, que enriquece nosso entendimento da linguagem ao focar sua expressão vocal. Esta contém elementos pré-verbais, cuja fonte são os ritmos corporais – não somente aqueles do sujeito como uma pessoa separada, mas também nossas experiências pré-linguísticas no interior do útero. Kristeva toma emprestado de Platão o termo chora para descrever esse fenômeno. Ela afirma que, mesmo depois que a criança adquire a linguagem, com seu sistema de sinais paternalmente dominado, um Eu maternal e pré-linguístico continua existindo após o nascimento. Esse Eu prélinguístico existia para além de regras (gramaticais ou sociais) e tem um aspecto que é selvagem e indomável. Ele encontra sua expressão última na linguagem poética, que frequentemente desafia as regras linguísticas.
O interesse de Kristeva pela linguagem e sua afirmação de que a intertextualidade é a nova intersubjetividade não significam a morte do sujeito. Significam apenas que o sujeito é expresso na linguagem e é profundamente influenciado por ela. O sujeito é essencial (textos não leem a si mesmos!), e Kristeva tenta realocar a subjetividade em meio aos detritos do mundo pósempírico, pós-analítico, pós-estruturalista.
Aqui, Kristeva conclui que a subjetividade vem em uma variedade de pluralidades: masculina, feminina, estrangeira, psicótica, e uma multiplicidade de sexualidades. O que esses diversos sujeitos têm em comum é que sua subjetividade está fundamentada no corpo. É por isso que Kristeva presta tanta atenção à semiótica; às articulações primordiais e físicas da linguagem.
De acordo com Kristeva, todos nós (independentemente do gênero) aprendemos o ritmo da vida, a música do ser, no interior do útero. A separação do útero e o nascimento em um mundo dominado pelas instituições do paternalismo alienam o sujeito feminino. Como resultado, as experiências, ações e enunciados desse sujeito são diferentes daqueles do homem. Então, embora Kristeva reconheça e descreva a alienação feminina, ela é famosa (ou infame) por não se alinhar ao cenário feminista dominante. Feministas podem se opor ao trabalho de Kristeva por conta da grande ênfase que ela dá ao maternal e à experiência do sujeito tanto no interior do útero quanto fora dele – a rejeição da mãe na busca por uma identidade separada.
Isto está em desacordo com o pensamento de Simone de Beauvoir,(*) que denunciou a maternidade em O segundo sexo (1949), a bíblia da segunda onda do feminismo.  

Uma crente nas palavras
Entrevistada pelo jornal britânico The Guardian em 2006, Kristeva afirmou: “Eu não sou uma crente, eu acredito nas palavras. Há somente uma ressurreição – é a ressurreição nas palavras.” O contexto dessas observações foi a publicação de This Incredible Need to Believe [Essa incrível necessidade de crer] (2009). Em sua introdução, ela escreve: “Diferentemente de Freud, eu não afirmo que a religião é somente uma ilusão e uma fonte de neuroses. Chegou o tempo de reconhecermos, sem medo de ‘assustar’ pessoas de fé ou agnósticos, que a história do cristianismo preparou o mundo para o humanismo.” O trabalho de Kristeva nunca é “meramente” estético ou meramente técnico: ele sempre implica uma descoberta ética e sempre nota o contexto político no qual se desenvolve.
Em seu estudo Hanna Arendt (1999), Kristeva considera o trabalho de outra refugiada do totalitarismo e outra estudiosa da tradição cristã. Arendt foi aluna de Heidegger, e Kristeva coloca Heidegger no centro de suas pesquisas. Ao descrever Arendt, Kristeva poderia estar falando de si mesma: “Hoje consideramos difícil aceitar que a vida, um valor sagrado tanto nas democracias cristãs como nas pós-cristãs, é o produto recente de uma evolução histórica... É precisamente o questionamento desse valor fundamental – sua formação na escatologia cristã, bem como os perigos que enfrenta no mundo moderno – que unifica silenciosamente todo o trabalho de Arendt.” O mesmo poderia ser dito sobre a obra de Kristeva; em toda a sua variedade, complexidade e investigações em diversas disciplinas, ela faz a filosofia e o pensamento relevantes para a vida como um valor sagrado.
A criança-rainha torna-se irremediavelmente triste antes de proferir suas primeiras palavras; isto acontece porque ela foi separada da mãe, sem retorno e desesperadamente, uma perda que lhe faz tentar encontrá-la novamente, assim como tenta encontrar outros objetos de amor, primeiro, na imaginação e depois, em palavras. (Julia Kristeva, Sol negro: depressão e melancolia, 1987)
(*) Ironicamente, Kristeva é cofundadora do Prêmio Simone de Beauvoir para trabalhos sobre igualdade de gênero.
(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

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publicado às 02:16

 

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Um aluno um dia me perguntou o que eu achava do homem: naturalmente bom mas pervertido pela sociedade, na linha do “bom selvagem” de Rousseau, ou esta desgraça mesmo que vemos por aí, em estado natural? Na realidade, não acho nem uma coisa nem outra. Acho que temos todos imensos potenciais para o bem e para o mal, para o divino e a barbárie. Cabe a nós, que trabalhamos com o estudo da sociedade e em particular das instituições, pensar o que faz a balança pender mais para um lado ou para outro. Pois deixando de lado alguns traumas e deformações individuais, domínio dos psiquiatras, aqui nos interessa a misteriosa bestialidade coletiva de grandes grupos sociais.

Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Tenho minhas dúvidas, pois sou de família polonesa, e vi refletido nas angústias dos meus pais o que tinham vivido frente ao nazismo. Ninguém irá pensar que os alemães eram um povo de baixo nível educacional ou cultural. E no entanto, com que entusiasmo vestiram as botas e as camisas negras ou marrons, com que elevado sentimento de dever cumprido matavam pessoas por serem diferentes, por um critério real ou imaginário. Cerca de 50% dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. Isto é que é realmente preocupante. Estupidez é uma doença que pega.

Poder dar vazão ao que há de mais podre dentro de nós, de mais escuro em termos de ódio contido, de mais baixo em termos humanos, em nome de elevadas aspirações éticas, parece ser muito satisfatório. Os nazistas agiam em nome da pureza da raça. E erguiam bem alto a bandeira do “Gott mit uns”, Deus está conosco. Tornar-se de certa maneira o braço executivo da cólera divina parece ser profundamente agradável. Há gente disposta a morrer por esta satisfação.

Quem não leu O Martelo da Feiticeira, manual de interrogatório dos inquisidores católicos perdeu uma importante fonte de conhecimento sobre os nossos lados escuros. O manual recomenda, por exemplo, que os religiosos encarregados de torturar as possíveis feiticeiras as torturassem nuas, pois se tornam mais frágeis, e de costas para os torturadores, pois a era tal a perversidade destas mulheres que de frente para os torturadores poderiam comovê-los com suas súplicas e expressões de desespero. Eram religiosos, e o faziam em nome de Cristo.

Somos hoje mais civilizados? Sinto-me profundamente abalado, chocado, pelo bárbaro assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, por profissionais da morte que matam em nome de Deus, e que claramente mostraram nos seus gritos que se sentiam como justiceiros que haviam cumprido o seu dever. São monstros? Se fossem, seria muito mais simples compreender e prevenir. Mas são seres humanos em torno dos quais se construiu uma muralha de valores que os protege de qualquer crítica. Se sentem pertencentes a uma comunidade que os apoia e recompensa, ou seja, praticam a barbárie em nome do bem. Podemos matar os terroristas, mas transformar a dinâmica que os forma é bem mais complexo.

Podemos tratar um psicopata, e proteger a sociedade dos riscos individuais. E uma sociedade doente? Quem não viu Os fantasmas de Abu-Ghraib, veja, é profundamente instrutivo. O documentário é montado a partir de selfies e de filmagens por celular de práticas de tortura no Iraque por jovens americanos, contra supostos inimigos. Tortura praticada no Iraque em nome da defesa dos direitos humanos, por um exército invasor, e por funcionários de empresas privadas de segurança terceirizadas para esta tarefa. Estes jovens são monstros? As imagens das torturas e dos risonhos rapazes circulam em todo o mundo islâmico. Com que impacto e efeito multiplicador?

Hoje temos tortura sistemática aplicada pelo sistema repressivo (Mossad, Shin Bet e outros) em Israel. Em Guantánamo quando os prisioneiros tentam morrer para escapar ao sofrimento se lhes introduz à força alimento pelo nariz ou pelo anus, tudo em nome do bem, como em nome de Deus os fanáticos do ISIS decapitam prisioneiros ou os do Boko Haram raptam crianças.

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e organizam a sua expressão em nome da justiça, de Deus, da pátria, da pureza racial ou o que seja.

 

(Ladislau Dowbor)

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