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Pelofobia

por Thynus, em 18.03.15
As mulheres não se permitem mais ter pêlos em lugar nenhum do corpo. Por quê? 
 

 

 

Não sei qual é a opinião de vocês, mas eu tenho a impressão de que o Brasil se tornou um país histérico com pelos. Na minha geração, que se tornou adolescente nos anos 70, as pessoas já gostavam de pernas lisas e de axilas desfrutáveis — mas hoje em dia vigora uma verdadeira pelofobia. As mulheres não se permitem mais ter pelos em lugar nenhum, em quantidade alguma. Das sobrancelhas ao períneo, tudo tem que estar liso como vidro, deserto como a superfície da Lua — sem as crateras, de preferência.
Quanto tempo se passou desde que a Vera Fischer posou nua exibindo uma versão louro-acastanhada da floresta amazônica? Quantos anos transcorreram desde que pelinhos para fora do biquíni eram a coisa mais sensual que se podia ver em Ipanema? Foi ontem que eu vi Julia Roberts aparecer numa cerimônia pública com pelos nas axilas?
As mulheres europeias — bonitas, sensuais, interessantes — não seguem o código da pele estéril. Antes de sair para passear, numa noite de verão, depilam as axilas para se exibir num vestido sem mangas. Mas essas mesmas mulheres, em outras circunstâncias, não hesitam em levar um homem para cama por causa de alguns pelos no corpo. Sobretudo aqueles pelos que os homens gostam (ou gostavam...) de descobrir.
Claro, me dizem, é cultural. As mulheres no Brasil gostam de andar sem pelos. Mas seria assim tão simples? Eu não acho. Acredito que essas estéticas “perfeccionistas” (meu termo favorito é onanistas) têm sido, na verdade, impostas às mulheres brasileiras, e de uma forma pouco sutil. Por causa das fotos de modelos e atrizes, as mulheres normais foram sendo pressionadas a cuidar do próprio corpo como se trabalhassem peladas numa boate. Acho, inclusive, que a última onda de depilação pubiana radical — que as mulheres afirmam ser dolorosa, degradante e terrivelmente trabalhosa — decorre da popularização dos vídeos pornôs.
Para mim, isso tudo parece uma deformação, um exagero, uma burca ao inverso que as garotas assumem (ou vestem) como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quem diz que um púbis sem pelos é mais bonito que um púbis com pelos? Quem diz que um tufo de pelos embaixo do braço é “nojento”? De onde veio essa ojeriza?
A lavagem cerebral fica completa quando a exigência deixa de ser imposta de fora (pelos homens, pela moda ou por quem quer que seja) e passa a ser uma demanda interior das próprias mulheres, que já não se imaginam ou se toleram de outra forma que não seja ultradepiladas. Convencidas, elas passam a policiar as outras, transmitindo a pelofobia de uma forma epidêmica. Se alguma delas estiver fora do padrão, vai ser olhada de lado pelas próprias mulheres, as fiscais mais exigentes do corpo e do comportamento umas das outras. O resultado disso é uma onda crescente de insegurança íntima: será que eu estou depilada o suficiente, ou pintada o suficiente, ou magra o suficiente, ou bronzeada o suficiente, ou durinha o suficiente para provocar o desejo dos homens e a aprovação das outras mulheres?
Parece um pesadelo, e é.
Ao falar sobre isso, uma amiga me disse que abomina essa coisa dolorosa da “depilação íntima” e que adora a estética triangular dos pelos pubianos, mas que a cada dia se sente mais sozinha na sua delicada convicção. Está virando um dinossauro — ou seria um mamute, peludo e extinto? — num mundo de depiladas histéricas. Não se trata apenas de pelos. Uma das minhas colegas de trabalho que faz parte da geração mais atingida por essa onda de perfeição (a das mulheres que ainda não fizeram 30 anos) me contou que uma ex-chefe a achava relapsa por não fazer as unhas toda semana.
Por comparação, acho que vale a pena olhar para o que acontece no mundo masculino. Há uns homens raspando o peito, fazendo a sobrancelha e depilando a barba — além de se submeter a sessões cada vez mais longas de musculação, em busca do corpo perfeito. Muitos chegam a fazer plástica. Mas essa não é a lógica dominante. Os homens, na sua absoluta maioria, continuam peludos, barrigudos, carecas e fora de forma. Somos feios, somos baixinhos, somos magrelos, somos gordos. E assim somos aceitos. E assim somos amados. E assim vivemos: sem nos submeter à tirania do gosto alheio, sem jamais ter nos depilado. Talvez haja algo a ser aprendido com essa diferença, não?

(Ivan Martins - Alguém Especial)

Nu artístico

 

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publicado às 19:25


Solidão contente

por Thynus, em 18.03.15
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas 
 
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular do que escrevo, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes falo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão desesperadas, e não é assim. Muitas estão bem. Escolhem viver sozinhas, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada por muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente — e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas. “Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas.”
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça, e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez, por essa razão, a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior — com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando — senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que, atrás de toda solidão, há desespero. Ou que, atrás de todo silêncio, há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa — desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.

(Ivan Martins - Alguém Especial)
O medo de ficar sozinha faz com que muitas mulheres permaneçam em relações abusivas e lesivas.

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publicado às 18:50


A sabedoria de Schopenhauer

por Thynus, em 18.03.15
“Devemos considerar as coisas concernentes
ao nosso conforto e desconforto
só com os olhos da razão e do juízo,
consequentemente, com ponderação fria
e seca.”
(Schopenhauer)
 
 
Em 21 de setembro de 1860, há exatos 150 anos, morria o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Seu legado é profundo, incluindo enorme influência em pensadores como Nietzsche e Freud. Contra o obscurantismo pedante de filósofos do seu tempo, que muitas vezes servia apenas para disfarçar a ausência de conteúdo, Schopenhauer transmitiu sua mensagem de forma bastante clara. Em homenagem ao aniversário de sua morte, vamos refletir sobre a atualidade de alguns de seus aforismos.
“Um homem vale por aquilo que sua conduta evidencia, não pelo que agrada a uma língua solta dizer sobre ele.” Esta constatação anda muito ignorada no país das bravatas, onde a retórica sensacionalista parece valer mais que os atos concretos. Os discursos verborrágicos impressionam mais do que o conteúdo das pessoas. Tem muita “língua solta” — e presa também — tentando levar no grito o respeito alheio. Mas palavras e gestos, com frequência, expõem gritante contradição.
“O tipo mais barato de orgulho é o orgulho nacional. Ele trai naquele que por ele é possuído a ausência de qualidades, das quais poderia se orgulhar.” Como desprezar este fato quando a liberdade individual é cada vez mais sufocada pelo coletivismo nacionalista? Em nome do “interesse nacional”, oportunistas acabam explorando os inocentes e concentrando poder e privilégios à custa de nossas liberdades básicas. O tal “orgulho nacional” não deveria estar acima dos direitos individuais.
“Quem tem de produzir o bom e o autêntico e evitar o ruim tem de desafiar o juízo das massas e de seus porta-vozes e, portanto, desprezá-los.” Recado essencial quando tantos tentam associar qualidade à popularidade: ambos não são sinônimos. A ditadura do “politicamente correto” é outro efeito desta mentalidade, como se a escolha da maioria fosse a “voz de Deus”. Trata-se, na prática, de uma tirania das massas. Nem tudo que é popular é bom: basta lembrar que Mussolini e Hitler foram idolatrados por seus povos.
“Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão de evitá-los no futuro.” O conselho do filósofo bate de frente contra a típica postura que vemos na política, onde cada um que é apanhado em novo escândalo logo se justifica com base nos erros alheios. “Se outros fazem, então também posso fazer.” Esta atitude serve apenas para alimentar a corrupção.
“Quem espera que o diabo ande pelo mundo com chifres será sempre sua presa.” Este talvez seja o alerta mais importante feito por Schopenhauer. Os verdadeiros inimigos não aparecem vestidos de lobos, mas sim de cordeiros. São os “altruístas”, que pensam apenas no “bem geral”, que pretendem viver em função dos mais pobres. Em suma, a verdadeira ameaça vem daqueles que prometem o paraíso, e costumam entregar o inferno.
“Se desconfiarmos que alguém mente, finjamos crença: ele há de tornar-se ousado, mentirá com mais vigor, sendo desmascarado.” Esta estratégia poderia ser mais utilizada contra os governantes, mestres na arte da enganação. Basta dar um pouco de corda que a situação daqueles pegos em infindáveis escândalos logo se complica. Já diz o ditado: a mentira tem perna curta. O espantoso é que a máscara de muitos já deveria ter caído faz tempo, mas o povo não quer enxergar a face verdadeira por detrás dela.
“Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direção que a mudança tomará.” O recado merece atenção especial daqueles que parecem hipnotizados com o momentâneo crescimento econômico, ignorando seus pilares insustentáveis e também o avanço do governo sobre nossas liberdades. A miopia faz com que o curto prazo ganhe um peso desproporcional na análise da situação.
Por fim, após tanto pessimismo, uma última mensagem mais esperançosa: “É preciso ser paciente, pois um homem de intelecção justa entre pessoas enganadas assemelha-se àquele cujo relógio funciona com precisão numa cidade na qual todos os relógios de torre fornecem a hora errada.” O tempo é o senhor da razão. Quem ainda não perdeu a capacidade de indignação perante tantos escândalos políticos está apenas com o relógio certo no momento errado. A torre da cidade ainda marcará a hora certa algum dia.
Quem viver, verá.

(Constantino, Rodrigo - Contra a maré vermelha) 

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publicado às 01:09


Democracia suja

por Thynus, em 18.03.15
“A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”, disse Churchill. O filósofo Popper compreendia que o grande valor da democracia não estava em sua capacidade de escolha em si, mas sim na possibilidade de eliminar erros de forma pacífica, sem o derramamento de sangue típico das revoluções. O economista austríaco Mises concordava: “A democracia é aquela forma de constituição política que torna possível a adaptação do governo aos anseios dos governados sem lutas violentas.”
Mas, se há a compreensão de que a escolha da maioria não é a “voz de Deus”, e que o grande valor da democracia está mais em sua possibilidade de rejeitar absurdos do que em garantir decisões justas e sensatas, então fica claro que limites devem ser impostos ao próprio modelo democrático. A alternativa é cair numa simples “tirania da maioria”, tantas vezes manipulada por oportunistas de plantão, demagogos que exploram as emoções momentâneas das massas para concentrar cada vez mais poder.
Os “pais fundadores” dos Estados Unidos temiam exatamente isso, e este foi o motivo para terem defendido uma República constitucional com claros limites ao poder estatal.
Um mecanismo eficiente de pesos e contrapesos deve impedir o abuso de poder, assim como sua descentralização é crucial para preservar a liberdade. A democracia não deve se transformar num simples plebiscito entre dois lobos e uma ovelha decidindo qual o jantar do dia.
Infelizmente, esta lição nunca foi bem absorvida abaixo da linha do Equador, e tem sido mais ignorada ainda durante o governo Lula. Nunca antes na história deste país se viu tanto abuso de poder político durante uma eleição.
O próprio presidente virou garoto propaganda de sua candidata, utilizando a máquina estatal para fazer campanha escancarada à luz do dia. Para agravar a situação, o presidente foi multado várias vezes pelo TSE, mas ridicularizou as punições, fazendo escárnio das leis do país que governa. O desrespeito às regras do jogo é total.
A democracia pode ser usada para sua própria destruição, como inúmeros exemplos históricos atestam. Não custa lembrar que o partido nacional-socialista foi eleito na Alemanha, na década de 1930. Na América Latina temos diversos casos de regimes autoritários nascidos de democracias frágeis. Foi o caso do governo Allende no Chile, ou do caudilho Chávez mais recentemente, na Venezuela. O país já vive sob uma quaseditadura em que opositores são presos arbitrariamente. Como sabemos, o presidente Lula acredita que há “excesso de democracia” nesse país, onde a liberdade individual é item cada vez mais escasso. Para alguns, a democracia não passa de uma farsa necessária para tomar o poder.
O escritor venezuelano Carlos Rangel fez um relato sucinto sobre alguns importantes pilares da democracia, constatando que o marxismo-leninismo sempre será incompatível com ela: “A democracia é, por sua própria natureza, um sistema no qual o poder está repartido, fragmentado, disperso. A democracia apoia-se no postulado, explícito em todas as Constituições democráticas, de que o poder não deve jamais estar concentrado; e na premissa do respeito às opiniões, aos interesses e até aos preconceitos das minorias.” Em suma, o espírito democrático está aberto a questionamentos constantes, respeitando as divergências das minorias e a investigação imparcial.
Quando pensamos nos constantes ataques à imprensa que o governo Lula já fez, com claras tentativas de controle dos meios de comunicação; quando pensamos no uso da Receita Federal para fins partidários, ignorando a Constituição para invadir a privacidade dos cidadãos; quando pensamos no “mensalão”, uma tentativa de concentrar o poder no PT comprando quase todo o Congresso; quando pensamos em várias declarações feitas pelo presidente ao lado dos piores ditadores que o mundo já viu; ou quando pensamos no abuso da máquina estatal para fazer campanha partidária, temos todo direito de questionar qual o verdadeiro apreço do PT pelo regime democrático.
A democracia jamais será perfeita. Sempre haverá conflito de interesses, necessidade de concessões e pressão de grupos organizados. Mas, se desejamos salvá-la de golpes autoritários, devemos preservar alguns princípios básicos. Quando tudo é permitido em nome do “jogo democrático”, então é porque a democracia já fracassou e está em fase de degeneração rumo à tirania. Cabe ao povo resgatá-la nas urnas, rejeitando aqueles que tentam subverter o próprio processo democrático.

(Constantino, Rodrigo - Contra a maré vermelha)

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publicado às 01:07

Filósofo alemão que desenvolveu uma ontologia do ser que situava o homem em um contexto temporal, exigindo que o significado fosse encontrado no contexto do ser-para-amorte.

 Martin Heidegger é o filósofo europeu mais controverso pós-Hegel. A maioria dos filósofos continentais vê seu trabalho como um marco de inovação na história do pensamento; a maioria dos filósofos analíticos, por outro lado, rejeitao como uma completa bobagem. Sua principal contribuição para o pensamento europeu é uma ontologia na qual ele situa o Dasein, ou o ser do homem, no fluxo do tempo, movendo-se em direção ao nada da morte. O homem define a si mesmo nesse contexto, em que confronta a oportunidade de um ser autêntico.
Em 1933, Heidegger caiu sob o feitiço de Adolf Hitler e se juntou ao partido nazista, embora depois de 1934 tenha sido marginalizado pelos nazistas como alguém pouco confiável. Após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o tribunal aliado de desnazificação baniu Heidegger do ensino até 1950; ele nunca se desculpou por suas ações.
 

A influência do catolicismo
Heidegger nasceu em uma família católica romana de poucos recursos no sudoeste da Alemanha. Seu pai era um sacristão, e desde a infância Heidegger foi educado para seguir a carreira do sacerdócio. Em paralelo à sua vocação católica, Heidegger cultivava um interesse pela filosofia que, no princípio, servia à sua compreensão do catolicismo romano, mas que, depois, acabou se chocando com ela. Heidegger deixou a Igreja (embora sempre houvesse reconhecido sua importância e tenha tido um funeral católico).
Como seu mentor Edmund Husserl, Heidegger foi influenciado pelo trabalho de Franz Brentano (1838-1917), o filósofo alemão que se tornou padre jesuíta. O jovem Heidegger foi profundamente influenciado pelo ensaio de Brentano Das múltiplas significações do ser em Aristóteles (1862). Também leu (e releu diversas vezes) as Investigações lógicas (1900-1901) de Husserl. Husserl, por sua vez, recebeu grande influência do trabalho de São Tomás de Aquino (1225-74), especialmente do conceito tomista de intencionalidade, que ele transformou no conceito central da sua própria filosofia fenomenológica. Assim, Heidegger, desde cedo, desenvolveu as três influências que iriam se combinar para alimentar sua própria filosofia: uma crença de que somente os gregos – e Aristóteles em particular – haviam capturado o sentido de admiração e espanto que é o início de qualquer investigação filosófica; uma virada mental de inclinação tomista para entender como nós constituímos o mundo; e a fenomenologia de Husserl, que fornecia um ponto inicial e um método para suas próprias pesquisas ontológicas.
Heidegger foi noviço da ordem jesuíta, mas a abandonou, mencionando como causa uma “doença no coração” recorrente; seu biógrafo, Rüdiger Safranski, sugere que talvez o coração de Heidegger já não estivesse voltado à Igreja. Depois de estudar teologia por dois anos em Freiburg, Heidegger mudou para a filosofia, obtendo o doutorado em 1913. Sua tese foi sobre “A doutrina do juízo no psicologismo” (1914). Heidegger estava de olho na cátedra de filosofia católica em Freiburg e tentou conseguir o cargo por meio de relações políticas, qualificando-se com a dissertação “A doutrina das categorias e do significado em Duns Escoto” (1916). Ele ficou amargamente decepcionado quando um candidato melhor qualificado conseguiu a vaga. Descontente, Heidegger continuou como professor em Freiburg. No entanto, sua sorte mudou em 1916, quando Edmund Husserl entrou na faculdade. O impacto da Primeira Guerra Mundial adiou o começo da relação pessoal de Heidegger com Husserl. Durante a guerra, Heidegger serviu como meteorologista – um trabalho importante para o planejamento de ataques de gás venenoso contra tropas americanas (seria um desastre para os alemães se o vento estivesse soprando na direção errada).
 

Assistente de Husserl
Após a guerra, Heidegger executou duas importantes mudanças em sua vida. A primeira foi sua rejeição formal do catolicismo romano. Ao fazer isso, ele quebrou o voto de educar seus filhos na fé católica, que era uma condição para o casamento com sua noiva protestante, Elfriede Petri. Elfriede havia sido aluna de Heidegger; era uma antissemita severa que expressava suas opiniões pública e ruidosamente.
A segunda mudança na vida de Heidegger aconteceu quando ele se tornou assistente de Edmund Husserl, sucedendo Edith Stein (1891-1942). Trabalhar para Husserl era penoso, mas fornecia a Heidegger um pequeno e muito necessário estipêndio (ele não recebia salário por seu cargo de professor em Freiburg). A situação financeira de Heidegger havia sempre sido precária. Ele havia usado doações da Igreja católica para pagar sua educação universitária, e agora o trabalho para Husserl contribuía para os cofres da família. A essa altura, Heidegger estava casado e tinha dois filhos (dos quais o primeiro havia nascido de um caso que sua esposa Elfriede tivera com o médico da família).
Husserl era um incansável escritor e revisor do seu trabalho. Ele escrevia em taquigrafia e frequentemente saltava de um tópico a outro, deixando ao assistente o trabalho de dar sentido a pilhas confusas de papel. Parte da função de Heidegger era pôr em ordem os pensamentos d’O Mestre (como lhe chamavam seus alunos). Como resultado, Heidegger desfrutava o privilégio de ter uma visão muito próxima do modo como sua grande mente funcionava. Observar em primeira mão como Husserl elaborava seu método fenomenológico seria fundamental para a formação de Heidegger como filósofo.
Heidegger sentiu-se atraído pela fenomenologia “científica” inicial de Husserl, que possuía como mantra um chamado para “as coisas mesmas”. Foi esse método fenomenológico inicial de investigação das coisas que interessou Heidegger. Nas coisas mesmas, ele experimentou uma presença resplandecente que era surpreendente; percebeu a existência das coisas de um modo tão poderoso que podia ser aterrador. Não acreditava, como Kant, ou Husserl em sua maturidade, que os seres humanos atribuíam significado às coisas. As coisas já possuíam ser. O homem podia manipular o significado das coisas, mas elas já estavam lá, sendo elas mesmas, antes e depois do homem. Em seu desejo de evitar o neokantismo, Heidegger rejeitou amplamente a tradição idealista alemã e retornou a Aristóteles para constituir seu ponto de partida.
Ser e tempo
Com o tempo, a empolgação de auxiliar Husserl diminuiu, e Heidegger passou a desejar a promoção que ele considerava cabível a um filósofo do seu calibre. Havia vagas abertas em Marburg e Göttingen. Heidegger não havia publicado nenhum trabalho enquanto trabalhava para Husserl, então, na tentativa de conseguir o emprego em Marburg, ele escreveu rapidamente o ensaio Interpretação fenomenológica de Aristóteles: Indicação da situação hermenêutica, apresentado como uma série de palestras em Freiburg de 1921 a 1922 (mas não publicado até 1985). Heidegger foi nomeado professor e assumiu a tarefa de mudar a filosofia na Alemanha. Começou a desenvolver os temas que resultariam em sua obra-prima, Ser e tempo (1927), que definiu as visões de Heidegger sobre o ser em todas as suas manifestações: o ser dos objetos e a natureza da existência humana. O homem sempre procede do seu passado e existe em um presente que é eternamente transformado em passado à medida que se dirige ao futuro. O futuro contém a morte. Diante da morte iminente, o homem encontra ansiedade ou temor. Aqui, Heidegger mostra a influência recebida do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, cujos livros Temor e tremor (1843), O conceito de angústia (1844) e Doença até a morte (1849) foram os primeiros trabalhos a explorar a situação do homem diante da morte a partir do que mais tarde seria denominado uma perspectiva existencialista. A outra importante influência recebida por Heidegger durante a composição de Ser e tempo foi Friedrich Nietzsche. Nietzsche havia proclamado a “morte de Deus”; Heidegger foi um dos primeiros a descrever a situação do homem nessa nova situação e como ele deveria proceder. Dasein, como Heidegger denomina a existência do homem, ocorre em um rio de tempo. À medida que Dasein corre para o futuro, em direção ao nada, ele alcança autenticidade por meio do reconhecimento dessa facticidade (Faktizität), ou do ser-lançado (Geworfenheit), como Heidegger o chamava, da qual procede.
Heidegger e Arendt
Em Marburg, Heidegger daria aulas para dois dos seus mais famosos alunos: Hans- Georg Gadamer e Hannah Arendt. Gadamer viria a desenvolver a hermenêutica filosófica dos últimos trabalhos de Heidegger em um ramo filosófico próprio. Arendt desenvolveria o método fenomenológico de Heidegger em diversos trabalhos importantes, incluindo A condição humana (1958) e As origens do totalitarismo (1951). O segundo destes livros tem importância tripla porque, como judia, Arendt fugiu da Alemanha para salvar a própria vida em 1933, ao mesmo tempo em que Heidegger se filiava ao partido nazista, após romper o caso secreto que mantinha com ela.
Desde o momento em que a conheceu, em 1924, Heidegger havia se encantado por Arendt, e ela havia retribuído. O caso amoroso dos dois durou vários anos, até mesmo depois de Arendt deixar Marburg para estudar com Karl Jaspers (1883-1969). Jaspers e Heidegger haviam sido amigos, mas o casamento de Jaspers com uma judia e o apoio de Heidegger aos nazistas tornaram a relação tensa. Após a guerra, Arendt perdoou Heidegger por sua ligação com o partido nazista. Ele havia implorado pelo perdão dela, assim como buscou “reabilitação” junto aos seus alunos, colegas e discípulos – Jaspers e Sartre, no entanto, recusaram.
Heidegger, Dilthey e o destino alemão
O máximo que pode ser dito para atenuar o nazismo de Heidegger é que ele não era um filósofo nazista nos moldes de Alfred Rosenberg (1893-1946), que defendia a tese de superioridade dos arianos e inferioridade dos judeus. O que Heidegger via em Hitler era uma renovação do espírito alemão, além da oportunidade pessoal de se tornar um filósofo que lideraria e definiria o pensamento alemão com a chegada de seu momento histórico (como se a filosofia alemã não houvesse sido dominante desde Kant!). Heidegger era um filósofo grande demais para se preocupar com as tendências gêmeas do socialismo e do fascismo, que dominavam a paisagem política dos anos 1930 na Europa. Sua preocupação estava voltada a um intervalo muito mais amplo da história, que, em sua visão, levava diretamente de Aristóteles até ele próprio. Além de Aristóteles, São Tomás de Aquino e Husserl, o filósofo que é central para o tratamento que Heidegger dá ao “seu” momento histórico é Wilhelm Dilthey.
Dilthey (1833-1911) foi o avô de uma hermenêutica moderna que se desenvolveria por meio de Heidegger e depois Gadamer, e ele forneceu a Heidegger o entendimento ousado de que o significado se origina no homem e em sua história. Embora evitasse o romantismo alemão pós-kantiano, Heidegger aderiu à sua versão kitsch conhecida como Volkstum, o que ficava evidente pelas batas camponesas especialmente desenhadas que ele vestia ou quando ele aparecia para dar aulas com um par de esquis sobre os ombros. Depois de se filiar ao partido nazista, ele comandou um “acampamento estudantil”, em parte voltado para a juventude hitlerista, em parte um acampamento de verão tradicional, no qual o ar da montanha, discussões filosóficas e a pureza alemã eram experimentados ao redor de uma fogueira com o acompanhamento de um violão.
Após proclamar sua visão de que Hitler seria o salvador da Alemanha, Heidegger planejou e abriu caminho – com sucesso, dessa vez – para sua nomeação como reitor da Universidade de Freiburg. Ele impediu o progresso de colegas judeus e recusou-se a aceitar alunos de graduação judeus. Ele fazia a saudação nazista com um triplo Sieg Heil. Ele mostrou desprezo por seu mestre Husserl, que, assim como sua esposa, tinha ascendência judaica, embora acreditasse no cristianismo. Heidegger não foi ao enterro de Husserl em 1938 e, quando uma nova edição de Ser e tempo foi publicada em 1941, ele cedeu à exigência do censor nazista de que ele retirasse a dedicatória ao professor, que fora colocada na primeira edição.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Heidegger foi brevemente impedido de dar aulas nas universidades alemãs. Seu antigo amigo Karl Jaspers não foi tão complacente em relação ao nazismo de Heidegger quanto Hannah Arendt havia sido. Em agosto de 1945, Jaspers afirmou ao conselho da Universidade de Freiburg, que analisava o caso de Heidegger: “O modo de pensar de Heidegger, que me parece fundamentalmente contra a liberdade, ditatorial e incomunicativo, teria efeito muito deletério em alunos no momento atual”.

Julgando Heidegger
Por um lado, o caso de Heidegger não foi o único, uma vez que quase a metade dos filósofos da Alemanha se juntou ao partido nazista depois de 1933. Mas Heidegger continua a perturbar a filosofia no século XXI, porque foi provavelmente o maior pensador de seu tempo e porque seu exemplo é execrável. Entre os que apoiam a opinião de que ele foi um grande pensador, estão George Steiner (1929-) e Hannah Arendt. Steiner somente sobreviveu ao Holocausto porque seu pai se mudou com a família da França semanas antes da ocupação alemã, em 1940; Arendt fugiu da Alemanha em 1933 e depois, da França, pouco depois da ocupação. Para Steiner, Heidegger é um filósofo cuja grandeza está em sua forma única de fazer questionamentos sobre o ser e em seu foco no papel da linguagem no pensamento. Para Arendt, Heidegger é simplesmente um dos maiores filósofos de todos os tempos.
O filósofo britânico Gilbert Ryle (1900-76) está entre aqueles que rejeitam Heidegger por conta de seu comportamento. Embora ele tenha elogiado Ser e tempo em uma crítica escrita para a Mind em 1930, sabe-se que Ryle mais tarde observou que Heidegger não pode ter sido um bom filósofo, uma vez que foi um mau homem. Outros afirmaram que a filosofia de Heidegger é “ruim”, especialmente Rudolf Carnap (1891-1970), o pai do positivismo lógico. Ele rejeitava o trabalho de Heidegger como uma completa bobagem. A. J. Ayer (1910-89) aderiu a esta visão em seu best-seller Linguagem, verdade e lógica (1936). Bertrand Russell (1872-1970) absteve-se até mesmo de mencionar Heidegger na popular História da filosofia ocidental (1945), assim como Anthony Kenny (1931-) em seu História concisa da filosofia ocidental (2006).
Talvez o dilema em torno de Heidegger esteja melhor refletido na visão de Emmanuel Levinas (1906-95), o filósofo judeu e estudioso do Talmude, francês nascido na Lituânia, que foi aluno de Husserl e Heidegger. Levinas via muito a ser apreciado em Heidegger, mas sentia que ele falhou em não tratar a questão da ética que se encontra por trás de investigações puras sobre o ser. Levinas afirmou certa vez que, embora fosse possível perdoar muitos alemães após a Segunda Guerra Mundial, era impossível perdoar Heidegger.

Temas duradouros
Heidegger foi sempre crítico em relação ao sujeito. Ele rejeitou a virada de Husserl em direção ao ego transcendental, preferindo ficar com “as coisas mesmas”; com isso, sua metafísica se desenvolveu em uma direção muito distinta da de Husserl. Heidegger, mais tarde, se distinguiu de Husserl por meio de seu interesse na linguagem. Os últimos anos de sua filosofia examinaram o papel da linguagem de um modo que ajudou a inaugurar a era do sujeito descentrado, que define o pensamento pós-estruturalista (linguagem falando através do homem, a morte do autor etc.). Michel Foucault, Jacques Derrida, Jacques Lacan, Julia Kristeva e qualquer outro que tenha trabalhado no meio pós-estruturalista entraram por uma porta aberta por Heidegger.
Heidegger criticava a tecnologia porque acreditava que ela deslocava o homem em relação ao tempo. Ele achava que a Europa estava espremida entre as pinças de um mal gêmeo: o “triste frenesi tecnológico” dos Estados Unidos e da União Soviética. Em Uma introdução à metafísica (1935), ele falou sobre como a tecnologia levava à “organização irrestrita do homem médio”. A tecnologia fornece ferramentas de exploração, transformando a terra em lucro. A tecnologia conduz a uma aceleração dos homens e das informações, fazendo o tempo ser distorcido em mera “velocidade, instantaneidade e simultaneidade”. Como resultado, “o tempo, como história, desapareceu das vidas de todas as pessoas”. Alguns veem no trabalho de Heidegger as primeiras sementes do movimento verde. No entanto, a desconfiança que Heidegger nutria pela tecnologia era acompanhada por uma crença romântica em “sangue e solo”, que se encaixava na ideologia nazista da Pátria. Em uma palestra dada em Bremen, em 1949, Heidegger conseguiu combinar seus pensamentos sobre tecnologia e a Terra com sua única menção registrada a respeito do Holocausto. Disse ele: “A agricultura é agora uma indústria alimentícia motorizada – em sua essência, está a mesma coisa que estava na produção de cadáveres nas câmaras de gás, a mesma coisa dos bloqueios e redução de países à fome, a mesma coisa da fabricação de bombas de hidrogênio”.
Afirmamos agora que o ser é o verdadeiro e único tema da filosofia. Isto não é uma invenção nossa; é apenas uma maneira de tratar o tema que surge com o início da filosofia, na antiguidade, e que assume sua forma mais grandiosa na lógica de Hegel. Atualmente, afirmamos apenas que o ser é o verdadeiro e único tema da filosofia. (Martin Heidegger, Os problemas básicos da fenomenologia, 1927)
O que caracteriza o pensamento metafísico que estabelece a base para os seres é o fato de que o pensamento metafísico, começando no que é presente, representa-o em sua presença e, assim, exibe-o como algo estabelecido por sua base. (Martin Heidegger, O fim da filosofia e a tarefa do pensamento, 1969)
Para Heidegger, o significado de Ser é Tempo: passando e acontecendo. Para ele, não existe ideal de permanência do Ser; de fato, ele sustenta que a tarefa do pensamento é tornar o homem sensível à passagem do tempo. (Rüdiger Safranski, Martin Heidegger: Entre o Bem e o Mal, 1998)
  (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)
Não morrer é condenar-se a ter sede sem nunca poder encontrar a água borbulhante.

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publicado às 21:22

Contrariamente ao materialismo, ao qual se opõe diametralmente, o humanismo pósnietzschiano que tenho em mente aqui — cuja longa tradição mergulha as raízes no pensamento de Kant e desabrocha com um de seus maiores discípulos, Husserl, que escreveu a parte fundamental de sua obra no início do século passado — reabilita a noção de transcendência. Mas lhe oferece, no plano teórico especialmente, um significado novo que gostaria que você entendesse. Porque é por essa novidade que vai ser possível escapar às críticas vindas do materialismo contemporâneo e se situar, assim, no espaço de pensamento não “pré”, mas “pós” nietzschiano.
Com efeito, podemos distinguir três grandes concepções da transcendência. Você vai reconhecê-las sem dificuldade, pois, embora não as tendo nomeado, já tivemos a oportunidade de encontrá-las pelo caminho.
 
A primeira é a que os Antigos já mobilizavam para descrever o cosmos. Fundamentalmente, o pensamento grego é um pensamento da imanência, já que a ordem perfeita não é um ideal, um modelo que se situaria em outro lugar a não ser no universo, mas ao contrário, uma característica totalmente encarnada nele. Como você se lembra, o divino dos estoicos, diferentemente do Deus dos cristãos, não é um Ser exterior ao mundo, mas, por assim dizer, sua própria ordem, visto que é perfeito. No entanto, como eu já havia assinalado de passagem, podemos dizer que a ordem harmoniosa do cosmos não deixa de ser transcendente em relação aos humanos, no sentido exato em que eles nem o criaram nem o inventaram. Eles o descobrem, ao contrário, como um dado exterior e superior a eles. A palavra “transcendente” deve ser entendida aqui em relação à humanidade. Ela designa uma realidade que ultrapassa os homens, mas se situa no universo. A transcendência não está no céu, mas na Terra.
Uma segunda concepção da transcendência, inteiramente diferente e até mesmo oposta à primeira, aplica-se ao Deus dos grandes monoteístas. Ela designa simplesmente o fato de que o Ser supremo é, ao contrário do divino dos gregos, “além” do mundo criado por ele, quer dizer, ao mesmo tempo exterior e superior ao conjunto da criação. Contrariamente ao divino dos estoicos, que se confunde com a harmonia natural e, consequentemente, não se situa fora dela, o Deus dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos é totalmente “supranatural”. Trata-se, no caso, de uma transcendência que não se situa apenas em relação à humanidade, como a dos gregos, mas também ao próprio universo concebido inteiramente como uma criação cuja existência depende de um Ser exterior a ela.
 
Mas uma terceira forma de transcendência, diferente das duas primeiras, pode ainda ser pensada. Ela já fixa raízes no pensamento de Kant, em seguida caminha até nós por intermédio da fenomenologia de Husserl. Trata-se do que Husserl, que gostava bastante do jargão filosófico, chamava de “transcendência na imanência”. A fórmula não é muito eloquente, mas encobre uma ideia de grande profundidade.
Eis como, segundo contam, o próprio Husserl gostava de explicar a seus alunos — pois, como muitos grandes filósofos, Kant, Hegel, Heidegger, que foi seu aluno, e tantos outros, ele era antes de tudo um grande professor.
Husserl tomava de um cubo — ou um paralelepípedo retangular, pouco importa —, por exemplo, uma caixa de fósforos, e o mostrava aos alunos fazendo-os observar o seguinte: não importando a maneira como se mostrasse o cubo em questão, não veríamos nunca mais que três faces ao mesmo tempo, embora ele tivesse seis.
E daí?, você me dirá. O que isso significa e o que se pode concluir no plano filosófico?
Antes de tudo, o seguinte: não há onisciência, não há saber absoluto, pois todo visível (no caso, o visível é simbolizado pelas três faces expostas do cubo) se apresenta sempre sobre um fundo de invisível (as três faces escondidas). Em outras palavras, toda presença supõe uma ausência, toda imanência, uma transcendência escondida, toda doação de objeto, alguma coisa que se tira.
É preciso compreender a ousadia desse exemplo, que é apenas metafórico. Ele significa que a transcendência não é um novo “ídolo”, uma invenção de metafísico ou de crente, a ficção, uma vez mais, de um além que serviria para depreciar o real em nome de um ideal, mas um fato, uma constatação, uma dimensão incontestável da existência humana inscrita no centro mesmo do real. É nisso que a transcendência, ou melhor, essa transcendência, não poderia ser derrubada pelos ataques das críticas clássicas feitas por materialistas ou por diferentes adeptos da desconstrução. Nesse sentido, ela é certamente não metafísica e pós-nietzschiana.
Para melhor delimitar esse novo pensamento da transcendência, antes de apresentar alguns exemplos concretos, um bom meio consiste em refletir, como sugere Husserl, sobre a noção de horizonte. De fato, quando você abre os olhos para o mundo, os objetos aparecem sempre sobre um fundo, e esse mesmo fundo, à medida que você penetra no universo que nos cerca, desloca-se continuamente, como acontece com o horizonte, para um navegador, sem nunca se fechar para constituir um fundo último e intransponível. Assim, de fundo em fundo, de horizonte em horizonte, você jamais consegue capturar nada que possa considerar como uma entidade última, um Ser supremo ou uma causa primeira que garanta a existência do real em que mergulhamos. E é nisso que existe transcendência, alguma coisa que nos escapa sempre no seio daquilo que nos é dado, que vemos e tocamos, logo, no seio mesmo da imanência.
Por isso, a noção de horizonte, em virtude de sua mobilidade infinita, encerra, de algum modo, a de mistério. Como a do cubo, do qual nunca percebo todas as faces ao mesmo tempo, a realidade do mundo nunca me é dada na transparência e no domínio perfeitos, ou, em outras palavras: se nos limitamos à ideia da finitude humana, a ideia, como disse ainda Husserl, de que “toda consciência é consciência de alguma coisa”, de que toda consciência é, pois, limitada por um mundo exterior a ela e, consequentemente, nesse sentido finita, é preciso admitir que o conhecimento humano não poderia nunca aceder à onisciência, que não pode jamais coincidir com o ponto de vista que os cristãos atribuem a Deus.
É também pela recusa ao fechamento, pela rejeição de todas as formas de “saber absoluto”, que essa transcendência de terceiro tipo se revela como uma “transcendência na imanência”, só ela passível de conferir um significado rigoroso à experiência humana que tenta descrever e considerar o humanismo liberto das ilusões da metafísica. É “em mim”, em meu pensamento ou em minha sensibilidade que a transcendência dos valores se manifesta. Embora situadas em mim (imanência), tudo acontece como se elas se impusessem (transcendência), apesar de tudo, à minha subjetividade, como se viessem de outra parte.
Com efeito, considere os quatro grandes campos nos quais sobressaem valores fundamentais da existência humana: verdade, beleza, justiça e amor. Os quatro, não importa o que diz o materialismo, continuam fundamentalmente transcendentes para o indivíduo singular, para você, para mim e para todos.
Digamos mais simplesmente ainda: não invento nem as verdades matemáticas, nem a beleza de uma obra, nem os imperativos éticos; e, como se diz tão bem, a gente “cai de amores”, e não por escolha deliberada. A transcendência dos valores é, nesse sentido, bem real. Mas é dada na mais concreta experiência, não numa ficção metafísica, não em forma de um ídolo como um “Deus”, o “paraíso”, a “república”, o “socialismo” etc. Podemos propor, a partir daí, uma “fenomenologia”, quer dizer, uma simples descrição que parte de uma necessidade, da consciência de uma impossibilidade de fazer de modo diferente: não adianta, 2 + 2 são 4, e isso não é questão de gosto ou de escolha subjetiva. É algo que se impõe a mim como se viesse de outro lugar e, no entanto, é em mim que essa transcendência está presente, quase palpável.
 
Mas, do mesmo modo, a beleza de uma paisagem ou de uma música “cai” literalmente sobre mim, me arrebata, quer queira quer não. Também não estou convencido de que eu “escolha” os valores morais, que eu decida, por exemplo, ser antirracista: a verdade, de preferência, é que não posso pensar diferentemente, e que a ideia de humanidade se impõe a mim com as noções de justiça e de injustiça que ela carrega.
Há mesmo uma transcendência dos valores, e é essa abertura que o humanismo não metafísico, contrariamente ao materialismo que pretende tudo explicar e tudo reduzir, quer assumir — sem, aliás, nunca alcançar. Não por impotência, mas por lucidez, porque a experiência é incontestável, e nenhum materialismo consegue verdadeiramente dar conta dela.
Há, pois, transcendência. Mas por que “na imanência”? Simplesmente porque, desse ponto de vista, os valores não são mais impostos a nós em nome de argumentos de autoridade, nem deduzidos de alguma ficção metafísica ou teológica. Certamente descubro, não invento a verdade de uma proposição matemática, tanto quanto não invento a beleza do oceano ou a legitimidade dos direitos do homem. Todavia, é em mim, e não em outro lugar, que elas se revelam. Não há mais céu das ideias metafísicas, não há mais Deus, ou, pelo menos, não sou obrigado a acreditar nele para aceitar a ideia de que me encontro diante de valores que ao mesmo tempo me ultrapassam e, contudo, não estão em nenhum outro lugar, visíveis apenas no interior de minha própria consciência.
 
Tomemos mais um exemplo. Quando “caio” de amores, não há dúvida de que, a menos que eu seja Narciso, estou mesmo seduzido por um ser exterior a mim, por uma pessoa que me escapa e até porque, além do mais, sou muitas vezes dependente dela. Há, pois, nesse sentido, transcendência. Mas é claro também que essa transcendência do outro é em mim que sinto. Mais ainda: ela se situa naquilo que, dentro de mim, é o mais íntimo na esfera do sentimento, ou, como se diz, do “coração”. Não se poderia encontrar metáfora mais bonita da imanência do que essa imagem do coração. Este é, por excelência, ao mesmo tempo o lugar da transcendência — do amor do outro como irredutível a mim — e da imanência do sentimento amoroso ao que minha pessoa tem de mais íntimo. Transcendência na imanência, portanto.
Onde o materialismo quer a qualquer custo reduzir o sentimento de transcendência às realidades materiais que o engendraram, um humanismo, liberto das ingenuidades ainda presentes na filosofia moderna, prefere se entregar a uma descrição bruta, uma descrição que não contém preconceitos, uma “fenomenologia” da transcendência tal como se instalou no interior de minha subjetividade.
Eis também por que a theoria humanista vai se revelar, por excelência, uma teoria do conhecimento centrado na consciência de si ou, para usar a linguagem da filosofia contemporânea, na “autorreflexão”. Ao contrário do materialismo, sobre o qual lhe disse por que ele nunca consegue pensar seu próprio pensamento, o humanismo contemporâneo vai fazer de tudo para tentar refletir sobre o significado de suas próprias afirmações, para tomar consciência delas, criticá-las, avaliá-las. O espírito crítico que caracterizava a filosofia moderna a partir de Descartes vai dar um passo além: em vez de se aplicar apenas aos outros, ele vai finalmente aplicar-se a si mesmo.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)

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publicado às 18:03

Filósofo alemão, pai da fenomenologia, que desenvolveu um método filosófico para descobrir essências por meio da redução eidética.
 
Pode-se dizer que toda a vida filosófica de Husserl, da Filosofia da Aritmética (1891) as conferências sobre a Crise das ciências europeias (1935), é dominada pelo sentimento de uma crise da cultura. É, portanto, possível afirmar com Merleau-Ponty que a fenomenologia nasceu de uma crise e sem dúvida também que essa crise é ainda a nossa. "A fenomenologia se apresentou desde o seu início como uma tentativa para resolver um problema que não é o de uma seita: ele se colocava desde 1900 a todo o mundo, ele se coloca ainda hoje. O esforço filosófico de Husserl é, com efeito, destinado em seu espirito a resolver simultaneamente uma crise da filosofia, uma crise das ciências do homem e uma crise das ciências pura e simplesmente, da qual ainda não saímos".
(ANDRÉ DARTIGUES - O QUE É A FENOMENOLOGIA?)
 
Husserl foi um pensador de alta qualidade. Ele advoga a tese de que o observador deveria se colocar diante do fenômeno de estudo de maneira pura, ingênua. Portanto, não deveria utilizar uma teoria como suporte da interpretação, pois sua utilização contaminaria o processo de interpretação, reduzindo o fenômeno a elemento da teoria, circunscrevendo-o apenas dentro das possibilidades da teoria, contraindo seu caráter original.
(Dr. Augusto Jorge Cury - Inteligência Multifocal)
 
Vivemos numa sociedade saturada de informações, mas que carece da formação de pensadores. No passado, quando a informação era escassa e sua veiculação reduzida, surgiram grandes pensadores nas ciências. Na Filosofia, houve grandes pensadores que produziram teorias complexas, originais e inteligentes, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Hume, Bacon, Bruno, Descartes, Spinoza, Kant, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Locke, Hegel, Comte, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Husserl e tantos outros. 
Atualmente, com a multiplicação do conhecimento, 
a expansão quantitativa das universidades e o acesso facilitado
às informações, deveríamos ter multiplicado a cadeia de pensadores nas ciências, mas provavelmente não é isso que tem acontecido. Há, sem dúvida, ilustres pensadores na atualidade; porém, creio que muitos deles concordam que a grande maioria dos que cursam uma universidade e fazem uma pós-graduação, se tornam espectadores passivos do conhecimento, retransmissores do conhecimento, e não pensadores capazes de criticar e expandir o conhecimento que incorporam ou produzir novas teorias.
(Dr. Augusto Jorge Cury - Inteligência Multifocal)
 
Toda consciência, diz Husserl, é sempre “consciência de ” ou consciência de alguma
coisa, isto é, toda consciência é um ato pelo qual visamos um objeto, um fato,
uma idéia. A consciência representa os objetos, os fatos, as pessoas. Cada
representação pode ser obtida por um passeio ou um percurso que nossa
consciência faz à volta de um objeto. Essas várias representações são
psicológicas e individuais, e o objeto delas, o representado, também é individual
ou singular.
Por exemplo, diz Husserl, quando quero pensar em alguém, como Napoleão,
posso representá-lo ganhando a batalha de Waterloo, prisioneiro na ilha de Elba e
na ilha de Santa Helena, montado em seu cavalo branco, usando o chapéu de três
pontas e com a mão direita enfiada na túnica.
Cada uma dessas representações é singular: por um lado, cada uma delas é um
ato psicológico singular que eu realizo (um ato de lembrar, um ato de ver a
imagem de Napoleão num quadro, um ato de ler sobre ele num livro, etc.) e, por
outro, cada uma delas possui um representante singular (Napoleão a cavalo,
Napoleão na batalha de Waterloo, Napoleão fugindo de Elba, etc.). No entanto,
embora sejam singulares e distintas umas das outras, todas possuem o mesmo
representado, o mesmo significado, a mesma significação ou a mesma essência:
Napoleão.
(Marilena Chaui - Convite à Filosofia)

O filósofo Husserl
criou uma filosofia chamada fenomenologia. Essa palavra vem diretamente da
filosofia kantiana. Com efeito, Kant usa duas palavras gregas para referir-se à
realidade: a palavra noumenon, que significa a realidade em si, racional em si,
inteligível em si; e a palavra phainomenon (fenômeno), que significa a realidade
tal como se mostra ou se manifesta para nossa razão ou para nossa consciência.
Kant afirma que só podemos conhecer o fenômeno (o que se apresenta para a
consciência, de acordo com a estrutura a priori da própria consciência) e que não
podemos conhecer o noumenon (a coisa em si). Fenomenologia significa:
conhecimento daquilo que se manifesta para nossa consciência, daquilo que está
presente para a consciência ou para a razão, daquilo que é organizado e explicado
a partir da própria estrutura da consciência. A verdade se refere aos fenômenos e
os fenômenos são o que a consciência conhece.
Ora, pergunta Husserl, o que é o fenômeno? O que é que se manifesta para a
consciência? A própria consciência. Conhecer os fenômenos e conhecer a
estrutura e o funcionamento necessário da consciência são uma só e mesma
coisa, pois é a própria consciência que constitui os fenômenos.

(Marilena Chaui - Convite à Filosofia)

 
 
Afenomenologia constituiu a tendência dominante na filosofia continental do século XX e, ainda hoje, continua influenciando os pensadores dessa linha. Por conta de seu papel em sua formulação, Edmund Husserl é o filósofo mais influente desde Immanuel Kant. Sem Husserl, não haveria Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty ou uma centena de outros pensadores, incluindo Hans-Georg Gadamer e Jacques Derrida; não haveria existencialismo, hermenêutica ou pós-estruturalismo.
Husserl tem o privilégio singular de enumerar entre seus discípulos uma santa. Edith Stein (1891-1942), uma fenomenóloga que foi assistente de Husserl, se converteu do judaísmo para o catolicismo romano, tornou-se freira e foi morta em Auschwitz. Ela foi canonizada em 1998 pelo papa João Paulo II, que, ainda com o seu nome de batismo, Karol Józef Wojtyła (1920-2005), havia estudado Husserl na universidade e publicado A pessoa de ação: uma contribuição para a antropologia fenomenológica (1969). Dois dos alunos celebrados de Husserl – Martin Heidegger e Hannah Arendt – tornaram-se o mais conhecido par de amantes secretos na história da filosofia desde Abelardo e Heloísa: Heidegger tornou-se um nazista, e Arendt, que era judia, fugiu da Alemanha para salvar sua vida.

Da matemática à fenomenologia
O momento mais significativo para a filosofia ocidental pós-Kant aconteceu quando Gottlob Frege (1848-1925) e Husserl tomaram caminhos distintos no estudo da aritmética. A busca de Frege por uma fundamentação analítica a priori da aritmética baseada na lógica conduziu ao desenvolvimento da filosofia analítica, a tendência dominante nas universidades anglófonas. Por outro lado, o livro de Husserl A filosofia da aritmética (1891) foi criticado por Frege por seu psicologismo (Frege se opunha ao uso que Husserl fazia da psicologia descritiva em conjunto com uma análise lógica, em seu esforço de entender o conceito do número). Leituras modernas, no entanto, sugerem que a divergência de opinião entre Frege e Husserl não era tão grande. Estudiosos modernos apontam para uma explícita afirmação de Husserl em A filosofia da aritmética: “Nossa atividade mental não constrói relações; elas simplesmente estão lá, e quando se dirige interesse a elas, elas são notadas exatamente como qualquer outro conteúdo. Atos autenticamente criativos capazes de produzir qualquer conteúdo novo... são absurdos do ponto de vista psicológico... o ato não pode de maneira alguma criar seu conteúdo.”
A formação de Husserl como matemático foi essencial para o desenvolvimento de sua filosofia madura e para nossa compreensão dela. Seu afastamento do estudo da matemática constituiu uma abertura da pesquisa lógica para um novo mundo de experiências, desde as emoções humanas até a total vida do mundo (Lebenswelt). Ao formular seu método fenomenológico, Husserl buscou criar uma fundamentação para a filosofia como ciência rigorosa. A tradição analítica que descende de Frege, incluindo Russell e Wittgenstein, tentou reduzir a filosofia a um punhado de preocupações lógicas que, com efeito, acabou com a filosofia aplicada ao mundo das preocupações humanas. Husserl tomou a direção oposta, utilizando sua metodologia radical para investigar o mundo em que vivemos, assim como todos os fenômenos que ele contém (incluindo nós mesmos e nossos atos mentais). O título das suas Investigações lógicas (2 vols, 1900, 1901) indica o propósito desse projeto.
A mente de Husserl teve sempre uma inclinação científica. Seus primeiros estudos em Leipzig foram em astronomia e ótica, e depois, em Berlim, ele estudou matemática com Leo Königsberger (1837-1921) e Karl Weierstrass (1815-97). Após o doutorado em matemática, estudou filosofia com Franz Brentano. Brentano e Husserl foram atraídos para o pensamento cristão em direções diferentes. Brentano tornou-se padre jesuíta, mas deixou a Igreja por conta da questão da infalibilidade papal. Husserl era um judeu que se converteu ao luteranismo. Brentano havia reintroduzido a ideia de intencionalidade, de São Tomás de Aquino (1225-74), como um conceito filosófico central, e Husserl o desenvolveria como a pedra angular do método fenomenológico. A visão de Husserl da intencionalidade descreve a relação entre consciência e seus objetos, e pode ser formulada assim: consciência é sempre consciência de alguma coisa.
Husserl é o iniciador eterno por excelência. Ele não tentou desenvolver um sistema de pensamento. Concentrou-se, em vez disso, no método. A fenomenologia fornece uma maneira de fazer perguntas e abrir o caminho para investigações filosóficas a respeito de qualquer sujeito (ou objeto) concebível. As primeiras pesquisas de Husserl estavam interessadas nos atos de percepção e na própria consciência. No outro extremo da escala, sua aluna Hannah Arendt usou o método fenomenológico em suas grandes análises históricas e políticas As origens do totalitarismo (1951) e A condição humana (1958). Entre esses dois polos de diferentes tipos de projeto fenomenológico, está Ser e tempo, de Martin Heidegger, que estuda a ontologia em seu aspecto temporal.

Redução fenomenológica
O lema de Husserl era Voltar às coisas mesmas! Por “coisas”, ele não se referia somente a objetos como mesas e cadeiras, mas também às relações, categorias, ideias, o conteúdo dos nossos pensamentos. Sua fenomenologia está preocupada em pensar sobre o pensamento por meio da redução fenomenológica. René Descartes (1596-1650) é frequentemente considerado o pai da filosofia moderna. Se assim for, então Husserl pode ser visto como o filho que sucedeu a Descartes e se tornou o pai da filosofia pós-moderna. Husserl levou o cogito ergo sum (Penso, logo existo) de Descartes vários passos adiante em sua investigação sobre pensar a respeito do pensamento (ou experiência) com sua redução fenomenológica.
O método de Descartes de dúvida radical consistia em suspender a fé em Deus e no mundo material para depois reintegrá-los ao conhecimento após estabelecer a si mesmo como alguém que raciocina. Justo no ponto em que Descartes inicia seu restabelecimento de Deus e do mundo material, Husserl faz uma pausa e introduz uma nova etapa no processo de redução. No lugar da suspensão da crença de Descartes, Husserl nos pede para “suspender” os objetos estudados. Esta suspensão é um processo que Husserl chamou de epoché, um termo utilizado pelo epicurista Metrodoro de Lâmpsaco, o Jovem (331-278 a.C.) e depois desenvolvido por Arcesilau (315-240 a.C.), que era o sexto chefe da academia de Platão (428/7-348/7 a.C.) e a força por trás do ceticismo acadêmico. Por epoché, Husserl se refere à suspensão de todos os preconceitos a respeito do objeto de estudo. Isto é chamado de redução eidética, o método pelo qual a essência das coisas pode ser estudada (o termo vem da palavra grega eidos, que significa “essência” ou “forma”). Husserl foi ainda mais longe e fez do próprio cogito um objeto de reflexão; isto, ele chamou de redução fenomenológica transcendental.

Husserl e Kant
O desenvolvimento empreendido por Husserl do conceito kantiano de ego transcendental perturbou alguns de seus primeiros seguidores, como Edith Stein, Max Scheler (1874-1928) e o filósofo e teórico literário polonês Roman Ingarden (1893-1970). O que havia levado esses alunos e muitos outros a estudar com Husserl em seus primeiros anos como professor, em Göttingen, havia sido o fato de que ele fornecia uma alternativa para o idealismo kantiano e neokantiano que havia guiado grande parte da filosofia alemã no século anterior. A fenomenologia inicial de Husserl, segundo apresentada em Investigações lógicas, focava o objeto, e não o sujeito (Volta às coisas mesmas!). Ela substituía o idealismo de Kant por um interesse renovado pela escolástica, primeiramente revivida por Brentano e depois desenvolvida por Husserl. Em 1916, Husserl se mudou para Freiburg, onde seu foco principal tornou-se o ego transcendental.
No último dos seus trabalhos publicados em vida, A crise das ciências europeias (1936), Husserl foi cuidadoso em afastar sua fenomenologia do idealismo kantiano. Ele escreveu: “Nossas reflexões críticas sobre Kant já nos tornou claro o perigo de conclusões impressionantes mas ainda obscuras ou, se se quiser, a iluminação de conclusões puras na forma de vagas antecipações... e isso também tornou compreensível o modo como ele foi forçado em direção a uma construção conceitual mítica e a uma metafísica perigosamente hostil a toda ciência autêntica.” N’A crise, Husserl ainda criticou a filosofia pelo que ele considerava sua forma cada vez mais estreita, empírica, analítica e naturalista. Husserl defendia que era uma tarefa essencial da filosofia reconhecer e estudar as realidades mentais e espirituais que existem independentemente do mundo físico. Para ele, o estudo dessas realidades por meio da fenomenologia era uma empreitada verdadeiramente científica que daria origem a “uma transformação total da tarefa do conhecimento”.

Husserl e os nazistas
Husserl se aposentou do cargo de professor de filosofia em Freiburg em 1928 e foi sucedido por seu aluno Martin Heidegger. Em 1933, Heidegger aderiu ao partido nazista e foi nomeado reitor da Universidade de Freiburg. Heidegger referendou um decreto de 1933 banindo não arianos do serviço público. Husserl foi isento disso por conta da cláusula que reconhecia o serviço militar prestado por seus dois filhos na Primeira Guerra Mundial. No entanto, após as Leis de Nuremberg de 1935, Husserl foi privado de sua cidadania alemã e banido do ensino. Seus filhos emigraram para os Estados Unidos, mas ele recusou a oferta de um cargo na Universidade da Carolina do Sul. Husserl morreu na Alemanha em 1938. Sua filosofia do espírito e seu próprio sentido de espiritualidade forneceram um foco moral raro na Alemanha nazista, mas é sensato imaginar que se Husserl tivesse vivido até 1942, ele teria sido enviado a um campo de concentração nazista.
Husserl foi um dos grandes metodologistas do pensamento ocidental. Ele forneceu os fundamentos para inúmeras e importantes pesquisas filosóficas, e toda a tradição da filosofia continental estará para sempre em dívida com ele.
Nós mesmos seremos dirigidos a uma transformação interna pela qual ficaremos frente a frente – em experiência direta com – a dimensão há muito sentida mas constantemente ocultada do “transcendental”. A base da experiência, revelada em sua infinidade, tornar-se-á então o solo fértil de uma filosofia de trabalho metódico, com a autoevidência, além disso, de que todos os concebíveis problemas filosóficos e científicos do passado estarão destinados a serem apresentados e resolvidos a partir dessa base. (Edmund Husserl, A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, 1936)
 (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

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publicado às 21:58

Naturalista britânico e pai da teoria moderna da evolução por seleção natural. 
 
Existem duas grandes linhas de
pensamento sobre a possível origem da vida
e do Universo: o Criacionismo e o
Evolucionismo.
Os adeptos do Criacionismo defendem
que o homem e os animais são produtos
de uma criação direta, realizada por um Ser
possuidor de um poder sobrenatural, que é
Deus. A argumentação dessa linha de
pensamento se apoia na interpretação literal
de textos bíblicos que tratam do tema, como,
por exemplo:
A criação do ser humano:
Gênesis 2:7: “Formou o Senhor Deus
o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas
narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se
alma vivente.”
A criação dos animais:
Gênesis 1: 21: “Assim Deus criou as
grandes criaturas do mar, e todos os seres
viventes que se arrastam, os quais povoavam
as águas, conforme as suas espécies, e todas
as aves que voam, conforme a sua espécie. E
viu Deus que isso era bom.”
A criação do Universo:
Hebreus 11:3: “Pela fé entendemos
que os mundos foram criados pela palavra de
Deus, de maneira que o visível não foi feito
do que se vê.” E, ainda, o mais clássico e incisivo
trecho do Gênesis 1:1: “No princípio
criou Deus os céus e a terra.”
Os adeptos do Evolucionismo defendem
que o homem é produto da evolução. Da
mesma forma é que se explicaria também a
existência dos demais seres vivos, que
chegaram a ser o que são hoje (incluindo especialmente
o homem) apenas depois de
mutações, recombinações e seleção natural,
ao longo de milhões e milhões de anos. O
Universo também se explicaria com o argumento
evolucionista. Herbert Spencer, considerado
o pai do darwinismo social, afirma
que a evolução é um fenômeno geral,
inerente à natureza do Universo, aplicável
tanto aos átomos como às galáxias. Para os
evolucionistas, toda a natureza está em constante
mudança, e essa mudança não cessou
até hoje, e nem há de cessar.
Porém, quando Carl Lineu, naturalista
sueco que viveu antes a Darwin, classificou o
homem e o macaco como gêneros correlatos,
criou o termo homo sapiens para colocar o
homem numa posição diferenciada, e afirmou
que embora ao dissecar um corpo humano,
nada se ache nele que não ocorra também
no corpo dos animais, devia haver uma
essência humana, ligada a algo de absoluto e
imaterial que “o Criador” teria dado exclusivamente
ao homem, isto é, a alma. É de
Lineu a seguinte frase: “É, pois, justo acreditar
que há um Deus imenso, eterno,
incriado, sem o qual nada existe e que tenha
feito e coordena esta obra universal”.
(PETER SPARKS - DILEMAS DA FÉ)
 
Os avanços da ciência demitizando algumas das informações e
dogmas religiosos, os milagres de Jesus que passaram a ser
observados do ponto de vista das doutrinas psicológicas e
parapsicológicas, reduziram a cultura ao materialismo, desde
1857 quando Charles Darwin, através do Evolucionismo, aplicou
o golpe de misericórdia no mitológico Criacionismo bíblico,
servindo de suporte para a vitalização do ateísmo...

(Divaldo Franco - ESPIRITISMO E VIDA)
 
O mecanismo de seleção natural não pressupõe qualquer inteligência
operando acima da matéria e seus elementos. Não me interessa aqui
a discussão do darwinismo com o criacionismo, portanto não vou entrar
em reflexões cosmológicas ou (a)teológicas acerca da origem do universo.
Meu interesse recai apenas sobre o que o darwinismo nos relata a
respeito da psicologia evolucionista, ou seja, o mecanismo de seleção
natural atuante no âmbito do comportamento humano.
(Pondé, Luiz Felipe - Guia politicamente incorreto da filosofia)
 
 

Com a publicação de Sobre a origem das espécies através da seleção natural (1859), Charles Darwin modificou nosso entendimento a respeito de nosso lugar no mundo natural mais que qualquer outro pensador nos últimos duzentos anos. A teoria da evolução de Darwin é baseada na sua descoberta do processo de seleção natural, segundo o qual organismos mais adaptados ao seu ambiente do que outros produzem mais descendentes, enquanto os menos adaptados não conseguem sobreviver. Os traços genéticos de uma espécie, originalmente aleatórios, mudam como resultado da seleção natural, de modo que aqueles que são benéficos à sobrevivência predominam, enquanto outros tornam-se mais escassos.
Dos três pensadores modernos cujo trabalho modificou nossa compreensão do homem em seu meio social, a obra de Charles Darwin se equipara à explicação de Karl Marx das estruturas sociais e econômicas e ao mapeamento do inconsciente feito por Sigmund Freud. É verdade que a teoria da relatividade de Albert Einstein explicou o tempo e a matéria de maneira que alterou nosso entendimento do mundo físico; mas a importância de Darwin, Marx e Freud se deve ao fato de eles terem mudado a maneira como entendemos nós mesmos. A teoria da evolução de Darwin forneceu uma explicação científica da origem das espécies que se contrapôs a “explicações” miraculosas, trazendo pela primeira vez para a ciência, deste modo, a atenção de um amplo público leigo.
Em A descendência do homem (1871), Darwin traçou as origens do ser humano por meio da seleção natural para mostrar que ele possui ancestrais comuns com o chimpanzé. As conclusões a serem tiradas daí destruíram mais de três milênios de crença de que o homem fora criado por Deus, no sentido retratado pelo Livro do Gênesis. Se o mito da criação era revelado apenas como isto, um mito, então a ideia de um movimento teleológico e natural em direção à perfeição era posta em questão; e, como consequência, muitos sentiram que os fundamentos do cristianismo – e a própria fé em Deus – haviam sido destruídos. Além disso, uma vez que o homem era revelado como um mamífero (embora superior), tudo que lhe dizia respeito agora podia ser estudado (e possivelmente explicado) cientificamente – e até mesmo zoologicamente. Áreas que antes pertenciam à religião e à metafísica – mente, consciência, sensibilidade moral – agora eram trazidas à alçada da investigação científica. A teoria de Darwin lançou no período vitoriano (assim como hoje) o desafio supremo de como avaliar conhecimento (ciência) e fé (religião). No entanto, ela também gerou problemas a pensadores que, apesar de verem a ciência e a razão com respeito, temiam que uma abordagem excessivamente redutiva do estudo do homem pudesse excluir uma apreciação de aspectos existenciais humanos – como os espirituais e psicológicos – que iludisse o estudo científico.

A viagem do HMS Beagle
Darwin nasceu em meio à riqueza. Seu pai, Robert Darwin, era um médico rico que se casou com Susannah Wedgewood, filha de Josiah Wedgewood, o homem responsável por industrializar a manufatura de cerâmica. O jovem Darwin era uma criança delicada, e ele lutou por toda a vida com sua saúde frágil. Ironicamente, iniciou seus estudos como estudante de medicina em Edimburgo, mas sua constituição não atendia aos rigores da profissão, e, no fim, seus estudos lhe entediavam. Ele foi então para Cambridge, de onde saiu com um diploma mediano, tendo devotado a maior parte de seu tempo a coletar e estudar insetos. A combinação de uma fortuna herdada e uma saúde frágil permitira a Darwin passar a maior parte da sua vida – a não ser pela longa viagem que fez a bordo do HMS Beagle – trabalhando como naturalista na reclusão silenciosa de sua casa.
Em 1831, Darwin aceitou um convite para se juntar a uma expedição que mapearia a costa da América do Sul. Os cinco anos de serviço de Darwin como naturalista durante a viagem do HMS Beagle (1831-6) permitiram-lhe coletar os dados de ossos e fósseis que, quando estudados em Cambridge e Londres após a viagem, levaram-lhe a desenvolver sua teoria da origem das espécies. Durante sua jornada no Beagle, Darwin leu Princípios da geologia (3 vols, 1830-3), de George Lyell (1797-1875). Lyell defendia a ideia do uniformitarianismo, segundo a qual a Terra foi formada durante um longo período por forças que têm estado em operação desde a sua formação e que estão presentes hoje (em oposição ao catastrofismo, a de que as características da Terra são resultados de eventos repentinos, cataclísmicos). Lyell aguçou o interesse de Darwin em geologia e, por conseguinte, em fósseis. Fósseis eram evidências importantes para Darwin porque forneciam um registro de plantas e animais distribuídos em vastas distâncias e ao longo de períodos muito extensos. O slogan do uniformitarianismo – “o presente é a chave para o passado” – ecoou profundamente em Darwin, de modo que peças do quebra-cabeça “como as espécies se formam” começaram a organizar-se em sua mente.
 
 
Somos obra do Acaso ou frutos da Criação de Deus?
 
Descendência com modificação
As evidências de fósseis coletadas durante sua jornada no Beagle forneceram a Darwin a ideia de descendência com modificação, sugerida por sua observação de variações entre espécies afins nas Ilhas Galápagos. As claras provas temporais possibilitadas pelos fósseis não apenas mostravam a progressão da vida, mas também forneciam uma evidência de sua diversificação – considerando que formas animais e vegetais apareciam em lugares e tempos específicos, e somente nesses lugares – e também da extinção, uma vez que o registro não se perpetuava. Outro elemento na interpretação feita por Darwin dos registros fósseis foi seu estudo da morfologia de plantas e animais. Ao traçar semelhanças entre grupos, Darwin foi capaz de formular a ideia de um ancestral comum.
Darwin necessitava de uma explicação dos meios pelos quais as espécies de fato evoluíam. Inicialmente, voltou-se ao trabalho do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), que oferecia a hipótese de que as espécies adquiriam traços característicos que promoviam sua sobrevivência e então os transmitiam a futuras gerações. Esta teoria, conhecida como lamarckismo, defende a hereditariedade de características herdadas. Como explicação científica, o lamarckismo era deficiente. O que era necessário era uma explicação do real mecanismo pelo qual as características passavam de uma geração para outra. A resposta estava na nova ciência da genética.

Genética
O monge autríaco Gregor Mendel (1822–84), que trabalhava em relativo isolamento, havia conduzido experimentos com hibridação de plantas usando ervilhas. Ele descobriu as leis que regulam a herança de características, lançando as bases para a ciência da genética. As descobertas de Mendel forneceram um entendimento científico de como traços particulares eram passados de uma geração a outra, assegurando que um organismo particular alcançaria maturidade sexual e se reproduziria, preservando-se, desse modo, da extinção. O trabalho de Mendel não era conhecido por Darwin, portanto o próximo passo na solução do quebra-cabeça evolucionário, incluindo um entendimento do papel exercido pela mutação genética, teria de esperar até que as conclusões de Mendel fossem redescobertas de forma independente nos anos 1890 pelo botânico holandês Hugo Marie de Vries (1848-1935) e também pelo botânico alemão Carl Erich Correns (1864-1933).
O trabalho com a genética dominaria as ciências da vida no século XX e informariam o livro de Julian Huxley (1887-1975) Evolution: The Modern Synthesis [Evolução: a síntese moderna] (1942). Dois momentos-chave na genética são a descoberta, em 1953, da estrutura em dupla hélice da molécula de DNA por James Watson (1928-) e Francis Crick (1916-2004) e a conclusão do sequenciamento de todo o genoma humano no Projeto Genoma Humano (1990-2003), iniciado por Watson e completado pelo geneticista americano Francis Collins (1950-).
Antes do genuíno trabalho científico em genética, uma versão muito simplificada da teoria de Darwin era frequentemente utilizada com propósitos políticos no final do século XIX e início do XX. Herbert Spencer (1820-1903) cunhou o termo “sobrevivência do mais apto” depois de ler Sobre a origem das espécies – uma frase muito usada por imperialistas e teóricos de direita para promover o capitalismo laissez-faire e justificar a eliminação de grupos com base em classe social e raça. No final do século XIX, o termo “darwinismo social” tornou-se popular para justificar diversas aplicações da ideia de sobrevivência do mais apto, sobretudo a perfectibilidade da raça humana por meio de luta e competição. O primo de Darwin Francis Galton (1822-1911) cunhou o termo eugenia – o “melhoramento” da “raça”, como Galton e outros geneticistas diriam, por meio da reprodução dos “mais aptos” (eugenia positiva) ou por meio da esterilização sexual dos “inaptos” (eugenia negativa). Como consequência, vários países – os Estados Unidos, em particular – esterilizaram compulsoriamente os “inaptos” na primeira metade do século XX. Na Alemanha, o primeiro ato de Hitler após se autodeclarar Führer foi a publicação de um decreto de 1933 ordenando a esterilização de judeus, homossexuais e outras pessoas “inaptas”.
As descobertas de Darwin definiram a agenda para o trabalho dos principais biólogos do final do século XX e início do XXI. E. O. Wilson (1929-) cunhou o termo sociobiologia – “a extensão da biologia populacional e da teoria da evolução à organização social” –, que descreveu em Sociobiologia: a nova síntese (1975). Wilson faz referência à “epopeia evolutiva”, o que significa que a ciência suplantou o mito em sua explicação do mundo, mas que a explicação, ainda assim, mantém uma característica dramática, épica. Em O futuro da vida (2002), ele observa que a maioria das espécies da Terra ainda está para ser descoberta.

Resistência do criacionismo
Antes de Darwin, a explicação predominante do mundo natural era o criacionismo, baseado no relato bíblico dado pelo Livro do Gênesis: Deus criou o mundo e tudo que há nele. De acordo com o criacionismo, o mundo tem aproximadamente 6 mil anos de idade (o fóssil mais antigo já encontrado tem 2,7 bilhões de anos). A oposição religiosa à teoria de Darwin foi imediata e continua existindo atualmente, sobretudo nos EUA. Em 1925, a teoria da evolução foi parar em um tribunal, no julgamento que contrapunha o estado do Tennessee ao professor Scopes e que ficou conhecido como Julgamento do Macaco de Scopes. O professor de biologia do ensino médio John Scopes foi acusado de violar uma lei federal que proibia o ensino da evolução. Foi um caso notável porque, na verdade, era a ciência que estava sendo julgada. O tiro dos criacionistas acabou saindo pela culatra: o julgamento recebeu ampla publicidade e a maioria dos americanos apoiou Scopes e a evolução. Cem anos depois, a situação foi invertida. Os defensores do criacionismo passaram a chamá-lo de “ciência da criação” ou “design inteligente”, argumentando que os currículos escolares deveriam destinar-lhe tempo igual ao da evolução.

Os discípulos de Darwin
Stephen Jay Gould (1941-2002) fez uma das principais contribuições para o nosso entendimento da evolução em Equilíbrio pontuado (1972), um artigo escrito em coautoria com o paleontólogo Niles Eldredge (1943-). Gould e Eldredge propuseram a teoria do equilíbrio pontuado, observando que a evolução ocorre de maneira intermitente, e não em taxas constantes (gradualismo), o que justifica a aparente “lacuna” nos registros fósseis. O principal trabalho de Gould é The Structure of Evolutionary Theory [A estrutura da teoria evolutiva] (2002). Ele é conhecido por ter liderado um movimento crítico contra a sociobiologia por conta de sua visão determinista do comportamento humano. Richard Dawkins afirma em O gene egoísta (1976) que a principal unidade de seleção é o gene. Em O relojoeiro cego (1986), ele descreve as tentativas dos criacionistas de exigir “tempo igual” ao da teoria evolutiva. Defende o ateísmo em Deus, um delírio (2006), argumentando que a crença no milagre é incompatível com a ciência.
Pesquisas recentes nos Estados Unidos mostram que 87% das pessoas acreditam em alguma forma de criacionismo; somente 13% “acreditam” na evolução sem “a mão orientadora de Deus” no processo. Mais que qualquer outra ideia visionária, a teoria da evolução de Darwin coloca ciência e conhecimento contra religião e fé. Ela chama atenção para o fato de que muitas pessoas no século XXI concordam com um sistema de crenças pré-científico significativamente anterior à Idade das Trevas.
Há grandeza em tal visão da vida, com seus diversos poderes, ter sido originalmente instilada em poucas formas ou em uma só; e em que, enquanto este planeta tem circulado de acordo com as leis fixas da gravidade, de um começo tão simples, as mais belas e maravilhosas formas infinitas tenham evoluído, e estejam evoluindo. (Charles Darwin, Sobre a origem das espécies através da seleção natural (1859)

O velho argumento do desenho na Natureza, como proposto por Paley, que anteriormente me parecia tão conclusivo, cai agora que a lei de seleção natural foi descoberta. Já não podemos argumentar, por exemplo, que a bela articulação de uma concha bivalve deve ter sido criada por um ser inteligente, como a dobradiça de uma porta pelo homem. Parece haver tão pouco desenho na variabilidade dos seres orgânicos e na ação da seleção natural quanto na direção em que sopra o vento. (Charles Darwin: His Life Told in an Autobiographical Chapter, and in a Selected Series of His Published Letters [Charles Darwin: sua vida contada em um capítulo autobiográfico e em uma série selecionada de suas cartas publicadas] (1892)

Ele abraçou um aterrorizante materialismo. Somente alguns meses antes, ele havia concluído em seus cadernos secretos que a mente e a moralidade humana, e até mesmo a fé em Deus, eram artefatos do cérebro... Trabalhar com as implicações deu-lhe enxaquecas, deixou-lhe se contorcendo em seu leito de doente, temendo uma perseguição. (Adrian Desmond e James Moore, Darwin: a vida de um evolucionista atormentado,1994)
 (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno) 
O Evolucionismo não é científico?!

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publicado às 17:00


A TEORIA DA LIBIDO

por Thynus, em 09.03.15
Libido é um termo popularmente associado
apenas à sexualidade, no entanto é mais
abrangente e constitui toda experiência de
prazer e a base de todas as nossas
construções. Usamos a libido para nos
relacionar com pessoas, com o trabalho e
com tudo o que está ao nosso redor.
Sendo a libido a força que nos liga mais
fortemente à vida, podemos compreender
sua importância. Quando investimos essa
energia em alguém, ele se torna
emocionalmente significativo para nós. 
(Manoelita Dias dos Santos - A LÓGICA DA EMOÇÃO)
 
 .
 
 
O termo “libido” designa uma energia postulada por Freud como substrato da pulsão sexual. Apesar de o termo ter sido empregado mais no seu registro quantitativo, Freud lhe atribui um caráter qualitativo bem marcado. A libido é essencialmente de natureza sexual, sendo irredutível a outras formas de energia mental não especificadas. Este é, inclusive, o principal ponto de discordância entre Freud e Jung, na medida em que este último via na libido uma energia psíquica indiferenciada em sua origem e que poderia ser sexualizada ou dessexualizada e que coincidia com a noção de energia mental em geral. Para Freud, essa redução era supérflua e, além de não trazer nenhum benefício teórico, obscurecia o conceito por ele produzido. A libido em Freud é essencialmente de natureza sexual, apesar de poder ser “dessexualizada” no que se refere ao objetivo, e é por ele concebida como a manifestação dinâmica na vida psíquica de pulsão sexual (Freud, ESB, vol.XVIII, p.308).
Na primeira formulação da teoria das pulsões (1910/1915), Freud elabora uma concepção dualista que opõe a pulsão sexual às pulsões do ego. Enquanto a energia da pulsão sexual é a libido e seu objetivo é a satisfação, as pulsões do ego colocariam sua energia (“interesse”) a serviço do ego, visando à autoconservação do indivíduo e opondo-se, dessa forma, às pulsões sexuais. É a partir da introdução do conceito de narcisismo que a oposição entre pulsão sexual e pulsões do ego começa a se desfazer. O que a noção de narcisismo tornou claro foi o fato de que as pulsões sexuais podiam retirar a libido investida nos objetos e fazê-la voltar sobre o próprio ego. Esse fato, que se tornou evidente a partir das investigações feitas sobre as psicoses, foi denominado “narcisismo” e a libido investida sobre o próprio ego foi chamada de “libido narcísica”.
 
“A libido é invariável e necessariamente de natureza masculina, ocorra ela em homens ou em mulheres e independentemente de ser seu objeto um homem ou uma mulher” (Freud, ESB, vol.VII, p.226). Esse trecho não pretende ser o brado machista da psicanálise, mas, antes de tudo, a confissão de uma dificuldade básica, que é a que Freud encontra ao tentar definir o que caracteriza o “masculino” e o “feminino”. De fato, o trecho acima transcrito é precedido de um outro que afirma o seguinte: “Na verdade, se pudéssemos dar uma conotação mais definida aos conceitos de ‘masculino’ e ‘feminino’, seria até mesmo possível sustentar que a libido é invariável e necessariamente (...).” Freud declara que os conceitos de “masculino” e “feminino”, que parecem às pessoas comuns como sendo de natureza absolutamente inequívoca, são na verdade extremamente difíceis de determinar quando se trata de fazer ciência. Assim, do ponto de vista biológico, poderíamos dizer que “masculino” e “feminino” são termos aplicados a indivíduos que se caracterizam por serem portadores de espermatozoides ou óvulos, respectivamente, e por funções ligadas a eles. No entanto, tal como foi empregado mais acima, os termos “masculino” e “feminino” são usados no sentido de atividade e passividade. E, nesse caso, “uma pulsão é sempre ativa, mesmo quando tenha em mira um objetivo passivo”. Portanto, afirmar que “a libido é invariável e necessariamente de natureza masculina” equivale a afirmar que a libido é invariável e necessariamente de natureza ativa. Além do mais, Freud não poderia esquivar-se à sua hipótese de o ser humano ser essencialmente bissexual, o que lança por terra uma possível acusação de machista (pelo menos no que se refere ao texto acima).
No resumo-conclusão dos Três ensaios, Freud retoma a questão dos fatores constitucionais e hereditários e sua influência sobre o desenvolvimento da sexualidade. Apesar de afirmar que os fatores constitucionais e os acidentais são complementares e não exclusivos, deixa transparecer claramente que o peso maior recai sobre os primeiros, a ponto de fazer afirmações do tipo: “Em mais da metade dos casos graves de histeria, neurose obsessiva etc. de que tratei psicoterapicamente, pude provar com certeza que o pai do paciente sofria de sífilis antes do casamento” (op.cit., p.243). Por que não dizer também que, em mais da metade dos casos graves de que tratou psicoterapicamente, ele pôde provar com certeza que o pai e a mãe do paciente eram religiosos? Ou então que eram burgueses? Esse tipo de subordinação do psíquico ao biológico é o mesmo que Freud empreende quando, ao falar da sexualidade madura, condiciona-a à função reprodutora.
A ênfase concedida ao biológico é atenuada quando Freud se refere às modificações ulteriores que podem conferir direções diversas aos fatores constitucionais. Isso não significa que essas modificações não sejam originárias de fatores também constitucionais, mas que o constitucional pode sofrer vicissitudes distintas daquelas que decorriam de uma simples manifestação de suas características iniciais. Ou seja, se o constitucional é o determinante em última instância, ele não é, porém, o determinante único ou o dominante numa certa fase do desenvolvimento. Assim, o mesmo conjunto de fatores constitucionais de características anormais pode levar a três resultados finais diferentes (op. cit., p. 244-46):
1. O primeiro é a persistência, na maturidade, de um tipo de relação entre os fatores constitucionais que se pode considerar como anormal. Nesse caso, o resultado será uma sexualidade perversa.
2. O segundo é aquele que ocorre no curso do desenvolvimento se alguns dos componentes cuja força seja excessiva forem submetidos ao processo de recalcamento. Nesse caso, as excitações continuam a ser geradas mas são psiquicamente impedidas de atingir seu objetivo, sendo desviadas para outras formas de expressão (sintomas, por exemplo). É nesse sentido que Freud diz que a neurose é o negativo da perversão: haverá uma vida sexual aproximadamente normal, mas acompanhada de manifestações neuróticas.
3. A terceira alternativa é a que é possibilitada pelo processo de sublimação. É o que ocorre quando excitações excessivamente fortes, que surgem de determinadas fontes sexuais, encontram uma saída em outros campos que não o sexual. Essa é, segundo Freud, uma das fontes da criação artística em particular e da cultura em geral.
Consciente da dificuldade de se calcular de maneira eficaz o peso relativo dos fatores constitucionais e dos acidentais, Freud lança mão do que ele chama de “série complementar” (ou série etiológica), segundo a qual a 269/605 intensidade decrescente de um fator é contrabalançada pela intensidade decrescente do outro, sem nunca chegarem a se excluir mutuamente, mas sempre constituindo uma relação de complementaridade.

 (Luiz Alfredo Garcia-Roza - FREUD e o inconsciente)
O problema da sexualidade, na teoria freudiana, está colocado inclusive nos casos de psicose

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publicado às 18:22


A DÚVIDA E O COGITO

por Thynus, em 09.03.15
Desde René Descartes (1596-1650) conhecemos o famoso princípio Cogito, Ergo
Sum (Penso, Logo Existo). Descartes procurava pensar acerca da única coisa
sobre a qual ele poderia ter certeza absoluta. Poderia ele dizer que aquela
árvore que vemos ali é real? Não, pois essa árvore poderia ser apenas uma
ilusão, uma peça pregada por um “demônio” invisível que estivesse
constantemente nos enganando. Assim, Descartes foi questionando uma a
uma todas as suas noções sobre a realidade, tentando encontrar aquilo que
não pudesse ser resultado de uma ilusão. Em suma, ele queria responder à
pergunta “Qual é a única coisa da qual podemos ter absoluta certeza?”. Daí,
concluiu: eu sei que existo, pois estou pensando agora, não há como me iludir
acerca disso. [comportamento] O Idealismo passou por diversos
estágios, mas hoje em dia é meramente assunto de discussão filosófica entre
estudantes. Mesmo assim, o Idealismo foi importante, pois suas proposições
alimentaram instigantes questões.
(Sergio Navega - Pensamento Crítico e argumentação Sólida)
 
O "eu" continua sendo algo muito semelhante ao
que era no tempo de Homero — quer dizer, o
ser consciente de si mesmo, que usa símbolos
verbais, que é capaz de usar a razão, que
vê o antes e o depois. Esse "eu" foi definido
em sua forma essencial por Descartes como
a criatura que pensa: "cogito ergo sum" —
penso, logo existo. Mais recentemente,
começando com Maine de Biran, no século
XVIII, e continuando com Schopenhauer,
Nietzsche, e depois Henri Bergson, William
James e John Dewey, o "eu" também foi
definido como a criatura que quer. Em vez
de cogito ergo sum, a frase deveria ser volo
ergo sum — quero, logo existo.
(Aldous Huxley - A SITUAÇÃO HUMANA)
 
É preciso inverter o famoso cogito ergo sum de Descartes: o ser não se funda sobre o pensamento ao qual se identificaria, é o pensamento que se funda sobre o ser.
(ANDRÉ DARTIGUES - O QUE É A FENOMENOLOGIA?)
 
Descartes provavelmente preferia nunca ter dito "Cogito ergo sum" ("Penso, logo existo"), porque é só isso que todo mundo lembra a seu respeito - isso e o fato de que ele disse isso sentado dentro de um forno de pão. Como se não bastasse, seu "cogito" é constantemente mal interpretado como se quisesse dizer que Descartes acreditava que pensar era uma característica essencial do ser humano. Bom, na verdade, ele realmente acreditava nisso, mas isso não tem absolutamente nada a ver com cogito, ergo sum. Descartes chegou ao cogito por meio de um experimento sem dúvida radical para descobrir se havia alguma coisa de que pudesse ter certeza; ou seja, alguma coisa de que ele não pudesse duvidar. Ele começou duvidando da existência do mundo exterior. Isso é fácil. Talvez ele estivesse sonhando ou delirando. Aí, tentou duvidar da própria existência. Mas, por mais que duvidasse, continuava esbarrando no fato de que era um duvidador. Tinha de ser ele mesmo! Não podia duvidar do próprio duvidar. Podia ter se poupado de muita interpretação errada  se tivesse dito apenas "Dubito ergo sum".
(THOMAS CATHCART, DANIEL KLEIN - PLATÃO E UM ORNITORRINCO ENTRAM NUM BAR ...)

 
Descartes insistia em que a primeira tarefa da filosofia é libertar-se de todos os preconceitos, lançando a dúvida sobre tudo aquilo acerca de que pode haver dúvidas. A segunda tarefa do filósofo, depois de ter levantado estas dúvidas, é evitar que elas conduzam ao cepticismo. Esta estratégia pode observar-se claramente nas Meditações de Descartes. Tal como o título sugere, a obra não se destina a ser lida como um tratado académico. Destina-se a ser lida com o estado de espírito de um retiro espiritual, como os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Trata-se de fornecer uma forma de terapia do pensamento, afastando a mente das falsas abordagens à verdade, da mesma maneira que a meditação religiosa afasta a alma do mundo e da carne. Nesta disciplina intelectual são postos em causa os dados dos sentidos, primeiro por considerações resultantes dos enganos dos sentidos e, depois, por um argumento proveniente dos sonhos.
Aquilo que até agora aceitei como verdadeiro par excellence chega até mim vindo quer dos sentidos, quer por meio dos sentidos. Ora, já houve alturas em que os sentidos me enganaram; e um homem sensato nunca confia inteiramente naqu eles que alguma vez o enganaram. Mas, embora os sentidos possam, por vezes, enganar-nos acerca de objectos diminutos ou remotos, há muitos outros factos acerca dos quais a dúvida é claramente impossível, embora provenham da mesma fonte; por exemplo, que estou aqui, sentado junto ao fogo, vestindo um casaco de Inverno, com este papel na mão, etc. Notável argumento! Como se eu não fosse um homem que habitualmente dorme de noite e tem, a dormir, as mesmas impressões (ou impressões ainda mais estranhas) que estes homens têm acordados! Com que frequência tenho, na calma da noite, a convicção familiar de que estou aqui, de que visto este casaco, de que me encontro sentado junto do fogo — quando na realidade estou despido e deitado na minha cama!
 
Mas mesmo que os sentidos sejam enganadores e que a vida em vigília seja tão ilusória como um sonho, certamente que podemos confiar na razão e que o conhecimento de ciências como a matemática é seguro!
Quer eu esteja acordado quer a dormir, dois mais três são cinco, e um quadrado tem apenas quatro lados; e parece impossível que estas verdades óbvias estejam sob a suspeição de ser falsas.
Mas foi implantada na minha mente a opinião antiga de que existe um Deus que tudo pode fazer e que me fez tal como sou. Como sei eu que ele não fez as coisas de maneira que, embora nem a Terra nem o céu nem os objectos extensos, nem formas, nem dimensões, nem lugares existam, ainda assim todas estas coisas pareçam existir, como parecem neste momento? Além disso, constato que os outros homens por vezes se enganam acerca do que julgam conhecer perfeitamente; não poderá Deus enganar-me igualmente, sempre que eu somo dois e três, ou conto os lados de um quadrado, ou faço a coisa mais simples que se possa imaginar? Mas talvez não seja vontade de Deus enganar-me; afinal, Ele é considerado sumamente bom
.Mas, mesmo que Deus não seja enganador, como posso ter a certeza de que não existe um espírito maligno, sumamente poderoso e inteligente, que faz os possíveis por me enganar? Para evitar a possibilidade de aquiescer à falsidade, tenho de considerar que todos os objectos exteriores são sonhos enganadores e que não possuo um corpo, mas apenas uma crença falsa num corpo.
O famoso argumento de Descartes a favor da sua própria existência suspende estas dúvidas. Por muito que possa enganá-lo, um génio maligno nunca poderá levá-lo a pensar que existe quando não existe. «Não há dúvida que se ele me engana, eu existo; ele pode enganar-me sobre o que quiser, mas nunca poderá fazer com que eu não seja nada quando estou a pensar que sou alguma coisa.» «Eu existo» é algo que não pode deixar de ser verdade quando é pensado; mas tem de ser pensado para poder ser objecto de dúvida. Quando se percebe isto, «eu existo» torna-se indubitável porque, sempre que tento duvidar disso, percebo automaticamente que é verdade.
O argumento de Descartes costuma ser apresentado sob a forma lapidar por ele utilizada no Discurso: Cogito, ergo sum — «Penso, logo existo». Destas poucas palavras, não só deriva Descartes uma prova da sua existência, como ainda procura descobrir a sua própria essência, demonstrar a existência de Deus e fornecer um critério que conduza a mente na sua procura da verdade. Não é de espantar que todas as palavras do Cogito tenham sido mil vezes pesadas pelos filósofos. «Penso». O que significa «pensar», neste contexto? Por aquilo que Descartes afirma noutros passos, é claro que qualquer forma de activ idade consciente interior conta como pensamento; mas é evidente que o pensamento que está aqui em questão é o pensamento auto-reflexivo que ele está a pensar. «Penso» é uma abreviação de «Eu penso». Que importância tem o termo «eu» nessa expressão? Na vida comum, a palavra «eu» deriva o seu significado da relação com o corpo que lhe dá expressão; terá uma pessoa que duvide do facto de ter um corpo o direito de utilizar o termo «eu» num solilóquio? Alguns críticos pensaram que Descartes devia ter dito apenas: «Está a ocorrer pensamento».
«Logo». Esta palavra dá ao cogito a forma de um argumento, que parte de uma premissa para chegar a uma conclusão. Noutras passagens, Descartes fala como se a sua própria existência fosse algo que ele intui imediatamente. Tem havido, por isso, uma grande discussão sobre se o cogito é uma inferência ou uma intuição . É provável que Descartes pretendesse que fosse uma inferência, mas uma inferência imediata e não uma inferência que pressupusesse um princípio mais geral como «Tudo aquilo que está a pensar existe».
«Existo». Se a premissa devia ser «está a ocorrer pensamento», não deveria a conclusão ser apenas «está a ocorrer existência»? Alguns críticos argumentaram que um Descartes dubitativo não tinha o direito de retirar a conclusão de que existe um eu estável e substancial. Talvez ele devesse ter concluído antes que existe um sujeito fugidio de um pensamento transitório; ou talvez possa haver pensamentos sem donos. Poderá Descartes presumir que o «eu» revelado pela dúvida metódica é a mesma pessoa que, não purificada pela dúvida, respondia pelo nome «René Descartes»? Uma vez cortados os laços entre o corpo e a mente, como pode alguém ter a certeza quanto à identidade do pensador das Meditações?
Estas questões tiveram uma grande importância na filosofia dos dois últimos séculos. No tempo do próprio Descartes, houve quem perguntasse de que forma «penso, logo existo» se distingue de «passeio, logo existo». A resposta de Descartes é que, como argumento, o primeiro é tão bom como o segundo; mas a premissa do primeiro é indubitável, enquanto a premissa do segundo é vulnerável à dúvida. Se eu não tiver corpo, não passeio, mesmo que pense que estou a passear; mas, por muito que duvide, pelo próprio facto de duvidar, estarei a pensar. Já «penso que estou a passear, logo existo» é uma forma perfeitamente válida do cogito .

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)
 
 
Se o "Eu penso, logo existo" é a única certeza que é possível ter, a princípio, então não é possível ter a certeza sequer de que se tem corpo. Essa idéia vai inspirar, por exemplo, teorias como a do filme Matrix.

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