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Informação e probabilidade

por Thynus, em 15.01.15
 
De acordo com Locke, é não só possível como necessário distinguir-se entre demonstração e probabilidade, conhecimento e fé. Existe demonstração quando conseguimos “mostrar o acordo ou desacordo de duas ideias, pela intervenção de uma ou mais provas, que têm uma constante, imutável e visível ligação de uma com a outra”; a probabilidade é, ao invés, “a aparência de tal acordo ou desacordo, pela intervenção de provas, cuja conexão não é constante nem imutável, ou, pelo menos, não se percebe que o seja, mas é, ou parece de um modo geral ser assim, e basta para induzir a mente a julgar a proposição verdadeira ou falsa, mais do que o contrário” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 1, Volume II, p. 909). Para ilustrar uma tal distinção, Locke dá o exemplo seguinte: existe demonstração se eu provo e percebo que, num triângulo, os três ângulos internos são iguais a dois rectos; mas, se eu me limitar a aceitar de um outro – “um matemático, um homem digno de crédito”, diz Locke – tal demonstração, estou já no domínio da probabilidade, assente na prova que é a veracidade habitual desse outro.(Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 1, Volume II, pp. 919-910).
Ora, a impossibilidade – em termos de “tempo livre, paciência e meios” – de cada homem para fundar todas as suas opiniões em provas certas e irrefutáveis, ou, como diz Locke, em obter um “conhecimento certo e demonstrativo”, combinada com a urgência da acção em que a vida o coloca de forma permanente, leva-o a agir com base em opiniões que não ultrapassam a mera probabilidade (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 3, Volume II, p. 917). Essas opiniões prováveis podem ser formadas a partir da nossa observação e experiência anteriores ou, o que será a maior parte dos casos, a partir de experiências que nos foram transmitidas por outrem, podendo ser mais ou mesmo prováveis de acordo com uma série de factores a tomar em consideração:
Os campos da probabilidade são, em resumo, os dois seguintes: Primeiro: a conformidade de qualquer coisa com o nosso próprio conhecimento, observação e experiência. Segundo: o testemunho dos outros, garantidos pela sua observação e experiência. No testemunho dos outros tem que se considerar: 1 – O número. 2 – A integridade. 3 – A proficiência das testemunhas. 4 – A intenção do autor, quando se trata de um testemunho deduzido de um livro citado. 5 – A congruência das partes e circunstâncias do relato. 6 – Os testemunhos contrários (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 4, Volume II, p. 911).
Assim, e para recorremos a um outro exemplo de Locke, o facto de um homem caminhar sobre o gelo é conhecimento se eu próprio vir o homem a caminhar sobre o gelo; se, ao invés, tal facto me for transmitido por outrem, tal entra já no domínio da probabilidade, sendo mais ou menos provável de
acordo com os dois “campos da probabilidade” referidos e, dentro do segundo desses “campos”, os vários critérios enumerados (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 5, Volume II, p. 912). O problema que aqui está em jogo – e a que, sem forçarmos demasiado o pensamento de Locke, poderíamos chamar o problema da “credibilidade da informação” – é de grande actualidade, sendo colocado por Lippmann em termos muito semelhantes aos do filósofo inglês quando afirma, ao referir-se aos media, que “[e]xcepto em relação a alguns poucos assuntos, acerca dos quais o nosso conhecimento é grande, somos incapazes de escolher entre relatos falsos e verdadeiros. Assim, escolhemos entre repórteres credíveis e não credíveis” (Walter Lippmann, Public Opinion, New Brunswick, New Jersey, Transaction, 1998 (New York, Macmillan, 1922), p. 223).
Fundar a nossa opinião no testemunho de outrem não deve confundir-se, no entanto, e como acontece frequentemente, com consideramos como fundamento da probabilidade das nossas opiniões a mera opinião dos outros – na medida em que não existe “uma coisa mais perigosa em que se possa confiar nem nada que se preste mais a induzir alguém em erro, visto que há muito mais falsidade e erro entre os homens do que verdade e conhecimento” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XIV, § 6, Volume II, p. 913). Esta mesma ideia é reforçada e desenvolvida, adiante, quando Locke considera “o nosso assentimento às opiniões comuns recebidas, ou dos nossos amigos ou do nosso partido, vizinhança ou país” como “a quarta e última falsa medida da probabilidade, (. . .) e que mantém na ignorância e no erro mais pessoas que todas as outras juntas” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XX, § 17, Volume II, pp. 996).
Da diversidade e insegurança das opiniões – do facto de que “é indubitável, para a maior parte dos homens, se não para todos, ter várias opiniões, sem provas certas e indubitáveis da sua verdade” (Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, p. 917). – extrai Locke uma consequência fundamental: a tolerância em relação a todas as opiniões, erigindo como único “guia” dessas opiniões não a autoridade imposta por outrem mas a sua própria razão (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, pp. 917-8); a nossa “ignorância mútua” deve ser removida através de “meios suaves e equitativos de informação” e nunca através da imposição de opiniões de uns aos outros (Cf. Locke, Ensaio, Livro IV, Capítulo XV, § 4, Volume II, pp. 918-9). Aliás, a “instrução” – a informação – acaba por ter um efeito (só) aparentemente paradoxal: quanto mais instruídos são os homens, mais conscientes são da sua ignorância e, portanto, menos dogmáticos e mais tolerantes são com os outros (Cf. Locke, ibidem, p. 919).

(José Manuel Santos e outros - Filosofias da Comunicação)
Quanto mais instruídos são os homens, mais conscientes são da sua ignorância e, portanto, menos dogmáticos e mais tolerantes são com os outros

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publicado às 18:14


ENFOQUES SOBRE A TOLERÂNCIA

por Thynus, em 12.01.15
Todas as autoridades têm sua bastilha: quanto mais poderosa é uma instituição, 
menos humana. A energia de uma época mede-se pelos seres que nela sofrem, 
e é pelas vítimas que suscita que uma crença religiosa ou política se afirma, 
pois a bestialidade é a característica primordial de todo êxito no tempo. 
Sempre rolam cabeças onde prevalece uma ideia; 
pois só pode prevalecer à custa de outras ideias 
e das cabeças que as conceberam ou defenderam.
((EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)

Permanecendo inevitavelmente
presa ao saber como amiga ou inimiga, a fé
perpetua a separação na luta para superá-la:
seu fanatismo é a marca de sua inverdade, a
confissão objetiva de que quem apenas crê
por isso mesmo não mais crê. A má consciência
é sua segunda natureza.

(THEODOR W. ADORNO - DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO)
 

 

Sinais de vida: a crueldade, o fanatismo, a intolerância; sinais de decadência: a amenidade, a compreensão, a indulgência... Enquanto uma instituição se apoia sobre instintos fortes, não admite inimigos nem heréticos: os degola, os queima ou os encarcera. Fogueiras, cadafalsos, prisões!, não foi a maldade que as inventou, foi a convicção, qualquer convicção total.
Instaura-se uma crença? Mais cedo ou mais tarde a polícia garantirá sua “verdade”. Jesus – desde o momento em que quis triunfar entre os homens – devia prever Torquemada – consequência inelutável do cristianismo traduzido na história. E se o Cordeiro não previu o carrasco da Cruz, seu futuro defensor, merece então sua alcunha. Por meio da Inquisição, a Igreja provou que dispunha ainda de uma grande vitalidade; da mesma forma os reis com sua real vontade. Todas as autoridades têm sua bastilha: quanto mais poderosa é uma instituição, menos humana. A energia de uma época mede-se pelos seres que nela sofrem, e é pelas vítimas que suscita que uma crença religiosa ou política se afirma, pois a bestialidade é a característica primordial de todo êxito no tempo. Sempre rolam cabeças onde prevalece uma ideia; pois só pode prevalecer à custa de outras ideias e das cabeças que as conceberam ou defenderam.
A História confirma o ceticismo; no entanto, ela só existe e vive pisoteando-o; nenhum acontecimento surge da dúvida, mas todas as considerações sobre os acontecimentos conduzem a ela e a justificam. É o mesmo que dizer que a tolerância – bem supremo da terra – é também, ao mesmo tempo, o mal. Admitir todos os pontos de vista, as crenças mais díspares, as opiniões mais contraditórias, pressupõe um estado geral de cansaço e esterilidade. Chega-se a este milagre: os adversários coexistem – mas precisamente porque já não podem sê-lo: as doutrinas opostas reconhecem méritos umas às outras, porque nenhuma tem o vigor suficiente para afirmar-se. Uma religião se extingue quando tolera verdades que a excluem: e bem morto está o deus em nome do qual já não se mata. Um absoluto se desvanece: um vago vislumbre de paraíso terrestre se delineia..., vislumbre fugaz, pois a intolerância constitui a lei das coisas humanas. As coletividades só se consolidam sob as tiranias, e desagregam-se em um regime de clemência; então, em um sobressalto de energia, começam a estrangular suas liberdades, e a adorar seus carcereiros plebeus ou coroados.
As épocas de pavor predominam sobre as de calma; o homem se irrita mais pela ausência do que pela profusão de acontecimentos; assim, a História é o sangrento produto de sua repulsa ao tédio.

(EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)

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publicado às 16:16


OS DOGMAS INCONSCIENTES

por Thynus, em 12.01.15
Nada existe de mais perigoso do que o fanatismo.
(Voltaire)
 
Podemos até descobrir o erro de um ser, desvelar a inanidade de seus desígnios e de suas empresas; mas, como arrancá-lo de seu encarniçado apego ao tempo, quando esconde um fanatismo tão inveterado quanto seus instintos, tão antigo quanto seus preconceitos? Trazemos conosco, como um tesouro irrecusável, um monte de crenças e de certezas indignas. Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las, permanece – no deserto de sua lucidez – ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os seus pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, pois cada existência está ancorada em infalibilidades que fazem empalidecer as elucubrações da demência ou da fé. O cético mesmo, apaixonado por suas dúvidas, mostra-se fanático pelo ceticismo. O homem é o ser dogmático por excelência; e seus dogmas são tanto mais profundos quando não os formula, quando os ignora e os segue.
Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão.
Como escapar ao absoluto de si mesmo? Seria preciso imaginar um ser desprovido de instintos, que não portasse nenhum nome e a quem fosse desconhecida sua própria imagem. Mas tudo no mundo nos devolve nossos traços; e a própria noite nunca é bastante espessa para impedir que nos miremos.
Demasiado presentes a nós mesmos, nossa inexistência antes do nascimento e depois da morte só influi sobre nós como ideia e apenas alguns instantes; sentimos a febre de nossa duração como uma eternidade falsificada, mas que, entretanto, permanece inesgotável em seu princípio.
Está ainda por nascer quem não se adore a si mesmo. Tudo o que vive se aprecia; de outro modo, de onde viria o pavor que faz estragos nas profundidades e nas superfícies da vida? Cada um é para si o único ponto fixo no universo. E se alguém morre por uma ideia, é porque é sua ideia, e sua ideia é sua vida.
Nenhuma crítica de nenhuma razão despertará o homem de seu “sono dogmático”. Poderá abalar as certezas irrefletidas que abundam na filosofia e substituir as afirmações rígidas por outras mais flexíveis, mas como, por um método racional, conseguirá sacudir a criatura, adormecida sobre seus próprios dogmas, sem fazê-la perecer?

(EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)

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publicado às 16:13


O ANTIPROFETA

por Thynus, em 12.01.15
Embora continuando a ser um iluminista convicto, Kant supera a
si mesmo no momento em que afirma que os limites da razão só podem
ser estabelecidos pela própria razão, tanto que não reconhece a
ninguém, nem mesmo à fé, o direito de intrometer-se. Pertencer ao
mundo da razão, para Kant, quer dizer ser contrário a qualquer dogmatismo,
fideísmo ou fanatismo. E uma vez que isso obviamente se aplica
a qualquer forma de fundamentalismo, quisera o céu que hoje em
dia houvesse, no Oriente Médio, alguns kantianos a mais e alguns
talibãs a menos: não demoraria nada para o terrorismo desaparecer.
(Luciano De Crescenzo - De Descartes a Kant)

O raciocínio é um meio de poderosa defesa contra o fanatismo, 
contra o convencionalismo mundano, 
contra a paixão sentimental ou partidária, 
contra a crença mística, 
contra a cegueira da fé 
e contra a dependência do espírito.
(Laurindo Torretta - Deus, as Religiões e o Universo_
 
Em todo homem dorme um profeta e, quando ele acorda, há um pouco mais de mal no mundo...
A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro não ser surdos nem mudos...
Dos esfarrapados aos esnobes, todos gastam sua generosidade criminosa, todos distribuem receitas de felicidade, todos querem dirigir os passos de todos: a vida em comum torna-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda: quando não se intervém nos assuntos dos outros, se está tão inquieto com os próprios que se converte o “eu” em religião ou, apóstolo às avessas, se o nega: somos vítimas do jogo universal...
A abundância de soluções para os aspectos da existência só é igualada por sua futilidade. A História: manufatura de ideais..., mitologia lunática, frenesi de hordas e de solitários..., recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções...
A fonte de nossos atos reside em uma propensão inconsciente a nos considerar o centro, a razão e o resultado do tempo. Nossos reflexos e nosso orgulho transformam em planeta a parcela de carne e de consciência que somos. Se tivéssemos o justo sentido de nossa posição no mundo, se comparar fosse inseparável de viver, a revelação de nossa ínfima presença nos esmagaria. Mas viver é estar cego em relação às suas próprias dimensões...
Se todos os nossos atos – desde a respiração até a fundação de impérios ou de sistemas metafísicos – derivam de uma ilusão sobre nossa importância, com maior razão ainda o instinto profético. Quem, com a visão exata de sua nulidade, tentaria ser eficaz e erigir-se em salvador?
Nostalgia de um mundo sem “ideal”, de uma agonia sem doutrina, de uma eternidade sem vida... O Paraíso... Mas não poderíamos existir um instante sem enganar-nos: o profeta em cada um de nós é o grão de loucura que nos faz prosperar em nosso vazio.
O homem idealmente lúcido, logo idealmente normal, não deveria ter nenhum recurso além do nada que está nele... Parece que o ouço: “Livre do fim, de todos os fins, de meus desejos e de minhas amarguras só conservo as fórmulas. Tendo resistido à tentação de concluir, venci o espírito, como venci a vida pelo horror, a buscar-lhe uma solução. O espetáculo do homem – que vomitivo! O amor – um encontro de duas salivas... Todos os sentimentos extraem seu absoluto da miséria das glândulas. Não há nobreza senão na negação da existência, em um sorriso que domina paisagens aniquiladas.”
(Outrora tive um “eu”; agora sou apenas um objeto... Empanturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens?)

(EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)
 

Um bom fanático está sempre pronto para uma discussão... Para ele os outros são inimigos

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publicado às 16:11


Conheça e controle os seus medos

por Thynus, em 12.01.15
O medo é o pior dos conselheiros.
Alexandre Herculano
 
A vida é maravilhosa se não se tem medo dela.
Charles Chaplin
 
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, 
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
William Shakespeare
 
 
Segundo o dicionário, medo é “sentimento de viva inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário, de ameaça”. A ocorrência do medo ante a noção de perigo real pode funcionar como um alerta salvador, como acontece, de modo natural, às pessoas e aos animais. Entretanto, a paralisia que acomete a maioria das pessoas por medos de ameaças irreais limita seu progresso, acovarda, leva ao acomodamento, destrói a autoconfiança. É um dos maiores inimigos da tomada de decisões, uma vez que, juntamente com a dúvida, ele vai incutindo na mente da pessoa aspectos ou pontos pelos quais o seu plano não daria certo, levando o indivíduo a ficar inseguro, podendo até perder o rumo que havia planejado. É um dos maiores inimigos da realização pessoal e do triunfo.
De fato, a confiança em si mesmo é decisiva em qualquer empreitada e na rotina da vida, porém é uma das carências mais comuns nas pessoas, em diferentes graus. O desenvolvimento da autoconfiança começa com a eliminação dos medos que todos carregam. O medo vive sussurrando no ouvido das pessoas que elas “não podem fazer isso”, “podem fracassar”, etc.
Todo ser humano uma vez ou outra acaba enfrentando dificuldades que o distanciam de seus objetivos e que perante essas circunstâncias acaba tomando algumas decisões ou deixando de fazê-lo, em ambos os casos movido por algum medo. É importante ressaltar que todos nós temos medos, uns com maior intensidade outros com menor, mas todos temos.
Os medos, no seu conjunto, instalaram-se na mente das pessoas através de um longo processo e por meio de dois caminhos: a hereditariedade física e a hereditariedade social.
A hereditariedade física: a natureza tem sua lógica inexorável, segundo a qual, se por um lado vigora a lei da perpetuação das espécies, por outro existe a figura do predador que promove o equilíbrio populacional necessário à convivência das espécies. Assim, os mais fortes se alimentam dos mais fracos. A evolução dos seres vivos se deu, assim, por meio da adaptação ao ambiente e, sobretudo, na luta de sobrevivência do mais fraco ante o mais forte. Essa luta de milhões de anos deixou marcas na nossa carga genética. A luta e o correspondente pavor da ameaça fizeram com que o instinto do medo estivesse presente em todo animal.
A hereditariedade social: ao longo dos anos, as crenças e superstições foram transmitidas de uma geração à outra. O que somos hoje, isto é, o que pensamos e o modo como agimos, é o resultado da acumulação e transformação históricas desses traços culturais. Tais traços trazem junto os medos dos nossos antepassados. Todo nosso aprendizado foi influenciado pelas crenças e temores dos que nos ensinaram.

Entendendo os seus medos básicos
São muitos os medos que acometem as pessoas e todas sofrem de algum ou de alguns tipos de medo. Segundo Napoleon Hill, toda pessoa herda a influência de seis medos básicos e sob esses medos principais podem ser agrupados os medos menores ou deles derivarem. São eles: medo da pobreza, da morte, da doença, de perder o amor de alguém, da velhice e da crítica.
A busca da realização e do triunfo implica, necessariamente, em dominá-los. O primeiro passo nessa luta consiste em conhecer a origem dos medos.
Examinemos, pois, cada um dos seis medos básicos.
 
Medo da pobreza: origina-se do hábito adquirido pelo homem de dominar seus semelhantes através do poder econômico. Os animais de uma mesma espécie lutam fisicamente entre si na busca do alimento e do domínio para fins de procriação. O homem descobriu uma maneira mais sofisticada de exercer seu domínio: o poder econômico. Através desse poder, ele ameaça os outros com a miséria.
A sociedade está fortemente associada ao dinheiro. O homem deseja ardentemente a riqueza e procura obtê-la de qualquer maneira, por meios legais, se possível, e por outros métodos, se não a puder adquirir legalmente. Ainda no pensar de Napoleon Hill, “nenhum homem teria o medo da pobreza se tivesse base para confiar nos outros homens, pois existe alimento, abrigo e vestuário suficiente para as necessidades de cada pessoa e todos desfrutariam dessas dádivas, se não fosse o hábito que o homem tem de querer para si mais que o necessário”.
Vivemos num mundo onde as pessoas tentam se sobrepor umas às outras. Como a lei da força física não tem muito valor nesses tempos (a não ser para os lutadores profissionais), o que determina o poder é o dinheiro, ou seja, uma lei informal que diz que uma pessoa é superior às outras pelo simples fato de possuir mais dinheiro. Ninguém gosta de se sentir inferiorizado por outras pessoas e isto explica uma parte importante do que chamamos “medo da pobreza”. Isto leva a pessoa a fazer “de tudo” em seu meio social, emprego, bairro, clube, etc., para não ser inferior.
Quem já passou por situações de pobreza sabe quanto ela é aflitiva pelas privações a que submete as pessoas. Sabe, porém, que isso não é tudo. Há ainda o preconceito, a discriminação da sociedade. A sociedade, desde séculos, se acostumou a avaliar as pessoas por suas posses e a considerar os pobres como pessoas de segunda categoria, cujos sentimentos não contam. Para constatar essa afirmação, basta observar que quando morre alguém rico e/ou famoso, há uma consternação geral, inclusive por parte das pessoas mais pobres. A morte de uma pessoa pobre não desperta nenhum pesar, a não ser nos mais próximos.
O medo da pobreza é muito forte inclusive entre as pessoas que já têm dinheiro, pois temem perdê-lo. Levar uma vida de privações é desagradável para qualquer pessoa, porém é muito mais desconfortável para quem já usufruiu de riqueza, pois quem se acostumou a levar uma vida de luxo e conforto fica apavorado diante da nova realidade.
Como já vimos, o hábito da economia é algo muito importante, mas as pessoas algumas vezes subvertem o seu sentido e acabam se tornando miseráveis com o medo de ficarem pobres. São as pessoas que, mesmo tendo posses, se tornam sovinas e se portam como eternos necessitados. É um erro, pois todo esse pensamento de medo de pobreza levará a pessoa a uma vida não confortável e, muitas vezes, de tanto a pessoa pensar em não empobrecer acaba de fato ficando pobre. O dinheiro foi feito para circular; quanto mais você circular seu dinheiro, mais ele voltará a você. Ford instituiu um salário mínimo dentro de suas empresas muito acima do que se praticava na época, seguindo o raciocínio de que quanto mais o povo ganhasse, mais poder aquisitivo teria e mais automóveis poderia comprar. Se você tem uma idéia da prosperidade que Ford conseguiu, vai concordar com ele. Viva com tranqüilidade, não seja esbanjador, habitue-se a guardar alguma coisa para comprar o que você deseja e fazer frente a necessidades futuras e não, simplesmente, guardar tudo com medo de um dia ficar sem nada.
 
Medo da velhice: resulta da noção da perda dos meios pessoais de obter sustento (pobreza), de obter o prazer, de exercer o controle sobre sua vida (dependência, perda do impulso natural para a preservação da espécie) e da privação gradual dos meios que nos permitem conviver em condições de igualdade com as outras pessoas. Está também muito associado ao medo da morte. É um medo muito estimulado pelos costumes sociais em culturas que discriminam os idosos.
Nós vivemos num mundo de jovens, onde a maioria esbanja vitalidade, e quando temos contato com nossos avós, pais, etc., ou seja, com pessoas que já passaram por muitas experiências, mas não têm a mesma vitalidade de antigamente, percebemos a discriminação que sofrem por parte da sociedade.
Quando prestamos atenção à forma física um pouco debilitada, à saúde não tão eficiente como antes e a outras limitações mais, então sentimos medo do futuro.
Esse medo está, de certa forma, relacionado com o medo da pobreza, pois o mercado de trabalho praticamente não aproveita pessoas mais experientes “por não estarem mais aptas ao serviço”. Assim, as pessoas que estão chegando a uma certa idade, principalmente os assalariados, começam a ficar com medo do futuro e, às vezes, criam até perspectivas muito negativas dos anos seguintes, pois há o receio de que as limitações da velhice nos levem a perder o que acumulamos.
Também é muito relacionado com o medo da doença e da morte, porque a crença é a de que “se pode morrer a qualquer hora, de um ataque ou coisa assim”, entre os de idade avançada. Programando-se a tempo, pode-se descobrir que em qualquer idade há uma missão a cumprir e na velhice talvez ela seja muito mais importante, já que a experiência acumulada ao longo da vida é muito mais poderosa do que a força física de outrora, pois pode evitar que muitos incorram em erros desnecessários.
 
Medo da doença: do ponto de vista da herança física, resulta da luta travada dentro de cada corpo, entre o grupo de células construtoras e o grupo de células destruidoras. O medo, neste caso, nasce da lei natural do domínio do mais forte sobre o mais fraco. No plano social, o medo da doença nasce das históricas discriminações que os doentes sempre sofreram.
É também o medo gerado por uma insegurança que algumas pessoas têm com sua própria saúde. Tais pessoas não se sentem dignas e merecedoras de uma boa saúde, pois acham que há alguma coisa errada com elas. E realmente há, não propriamente com sua saúde física, mas com sua saúde mental, que vai transformar tudo o que acham que têm em realidade. São os chamados hipocondríacos. Assim, a programação errada é também a causa desse medo, uma vez que a realidade vivida vem da realidade imaginada. Então, se a pessoa tossiu uma ou duas vezes e já lhe vem à mente que está com pneumonia, a probabilidade de chegar a tal estágio é muito alta. O melhor remédio contra qualquer doença é a auto-sugestão positiva de saúde perfeita, pois não adianta nada tomar antibióticos fortíssimos se continuamos a dar importância à enfermidade e ao seu agravamento.
 
Medo de perder o amor de alguém: origina-se do instinto humano de querer manter sob seu domínio a pessoa que ama. Nos tempos pré-históricos, o homem raptava as mulheres e as mantinha no cativeiro. Este medo pode estar ligado geneticamente à lei da perpetuação das espécies.
Quando uma pessoa ama outra, pode existir aquela insegurança de que talvez a pessoa amada o deixe e parta com outra. Sofrer com esse sentimento de insegurança é um erro, pois se você realmente ama essa pessoa e demonstra isso com todo o seu interior, o que vai acontecer é que você vai se beneficiar,
pois esse amor vai fazer mais bem para você do que para a outra pessoa. Se acontecer de, algum dia, ela o deixar, talvez você fique deprimido, mas isso passa, e existem neste mundo muitas outras pessoas dignas do seu amor. Não desperdice seus melhores momentos pensando nessa hipótese, não viva com insegurança, se entregue, relaxe e viva o momento. O benefício maior vai ser o seu.
 
Medo da crítica: o caráter gregário do homem, isto é, sua necessidade de viver em grupos, implica a necessidade de aceitação, aprovação. Esse fato, associado às suas capacidades de pensar e falar, gerou o temor das expressões reprovadoras que colocam em risco sua aceitação no grupo. Nasceu, desse modo, o medo da crítica. Os costumes sociais se encarregaram de exacerbar e incrementar esse medo, através das muitas convenções sociais, como a moda na vestimenta.
Esse medo se apresenta de muitas formas, das quais a maioria é de natureza insignificante, trivial, chegando até mesmo a parecer infantilidade.
A crítica faz parte de nosso cotidiano, mas também vem de uma cultura ou educação onde nossos pais e avós vivem repreendendo as crianças com a preocupação sobre “o que os outros vão pensar”. Daí, com essa cultura bem calcada em nosso cérebro, nós simplesmente tomamos decisões baseados naquilo que os outros vão pensar se fizermos ou deixarmos de fazer isso ou aquilo. Quantas coisas fazemos ou deixamos de fazer, até inconscientemente, por simples medo da crítica!
Esse medo constitui um controle imposto de fora para dentro e que, muitas vezes, só existe mesmo na mente da própria pessoa. Ainda que a crítica exista de fato, só a aceitamos se queremos. A ninguém é dado o direito de julgar alguém, mesmo porque quem critica geralmente não tem a solução para o problema. Uma firmeza total de propósito e a certeza de que as atitudes não implicam em problemas para ninguém, formam o “antídoto” para esse mal.
Portanto, se você tem vontade de fazer alguma coisa, está convencido de que é o melhor e não vai prejudicar ninguém, faça; e não se preocupe se alguém o está criticando, porque os “críticos” são aqueles que gostariam de fazer aquilo que você está fazendo, mas não têm coragem para tanto.
O medo da crítica geralmente abala a autoconfiança e, muitas vezes, a iniciativa. É o maior inimigo da tomada de decisão e decorre de uma programação equivocada, gerada por uma demasiada importância dada à opinião de quem não resolve nossas questões e que critica simplesmente por criticar, não estando apoiado por fatos, apenas por opiniões ou impressões. Existem no mundo dois tipos de pessoas: as que realizam e as que criticam quem realiza. Se tem medo de errar, lembre-se: só não erra quem nada faz.
 
Medo da morte: é um dos medos principais e segue o raciocínio do medo da doença, mas se baseia em incertezas como “de onde viemos?”, “para onde vamos?”. Essas dúvidas são um dos principais inimigos das pessoas, que por muitas vezes não vivem uma vida adequada, simplesmente por ficarem pensando na morte.
A luta pela sobrevivência, herança da evolução das espécies, explica em parte esse medo que todos temos da morte. Por outro lado, o apego à vida material e o desconhecimento generalizado sobre o que sobrevem à morte, justificam a intensidade com que somos afetados por esse medo. Os terríveis tormentos do medo da morte podem ser atribuídos diretamente ao fanatismo religioso, fonte que é mais responsável por esse medo do que todas as outras fontes reunidas.
A morte é algo inevitável; pode ser que venha hoje, amanhã ou daqui a 80 anos. O fato é que nós não temos certeza absoluta de que amanhã estaremos vivos. Então, por que nos preocuparmos? Vivamos o dia de hoje com mais intensidade, procurando realizar o máximo de nossos objetivos e não nos preocupemos. Essa preocupação não merece nosso valioso tempo.
Se considerarmos e crermos que estamos aqui hoje para cumprir uma etapa na evolução pessoal e da humanidade, e que depois daqui continuaremos a evoluir, apenas desapegados dos aspectos materiais, em outras dimensões, veremos que ter medo da morte perde todo o sentido. Tal convicção serve não apenas para quem tem medo da própria morte, mas também para quem teme perder alguém que lhe é caro, já que a revolta pela perda só serve para causar mais sofrimento, tanto para quem está passando quanto para quem compartilha da mesma situação.

Libertando-se dos medos para crescer
A pessoa que domina o medo pode triunfar em qualquer empreendimento, e já se conhece bastante sobre a mente humana para se saber que toda pessoa pode libertar-se dos efeitos dos medos acumulados durante todas as gerações, com o auxílio do princípio da auto-sugestão.
Muitas pessoas são supostas vítimas de determinados medos. Dizemos “supostas” porque, na sua grande maioria, são mesmo vítimas do “medo do sucesso”, ou seja, quando estão conseguindo destaque na área onde atuam, ou encontram um meio que pode lhes dar tudo o que sempre sonharam, começam a ter dúvidas do tipo “será que vai mesmo dar certo?”, ou “estarei mesmo no caminho correto?”. Tais dúvidas, resultado de uma programação errônea ao longo do tempo, vão imprimindo no subconsciente um clima de insegurança tal, que cria um bloqueio aos planos tão sonhados. Nesse caso, como no caso de qualquer outro medo, a solução é agir, direcionando seus pensamentos para onde se quer chegar e não se preocupando com a condição de onde se quer sair.
Mais informado sobre as origens e os efeitos paralisantes dos medos, você pode e deve combatê-los. Não se deixe abater por eles, enfrente-os, conscientize-se dos porquês dos medos, não permita que eles atrapalhem os seus sonhos. Encha-se de energia e aja! Só a ação espanta e cura o medo. Agir é o melhor remédio para combater qualquer temor, pois a perseverança leva à superação de obstáculos, criando autoconfiança. Além disso, um indivíduo com a cabeça ativa e ocupada com as coisas que realmente podem levá-lo até os seus objetivos, não deixa espaço para que se alojem os medos, sejam lá de que espécie forem. Se o seu medo o está impedindo de agir, de alcançar os seus objetivos, é porque são maiores do que o seu sonho. Lembre-se do caso de Papillon, dos alpinistas que chegaram ao topo das montanhas mais perigosas: certamente tiveram medo, mas o sonho deles era muito maior e nada os deteve.
 
(Adriano Augusto Ventura e outros - A Vida Inteligente)
Procure descobrir o que o medo simboliza para você, o que ele representa, pois, quanto mais o negamos, mais poderoso ele se torna.

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publicado às 13:10


JESUS E OSÍRIS

por Thynus, em 10.01.15
A medida que avanzamos por las narraciones de la Creación 
y la época patriarcal, comprobamos cómo la mitología egipcia 
influenció de forma significativa la interpretación 
y las creencias hebreas sobre su historia primitiva. Estas influencias 
nos conducen a la cuestión del origen del monoteísmo hebreo.
 ¿Cómo, cuándo y dónde se originó?
(GARY GREENBERG - 101 MITOS DE LA BIBLIA)

 
Osíris era o Deus Supremo, mas a mitologia egípcia considerava que teria havido um tempo em que esse Deus teria sido um homem na Terra, homem este que morreu, ressuscitou e passou a viver eternamente em espírito, reinando como o Deus do Universo e dos homens. Desse modo, as figuras de Hórus e Osíris são bastante parecidas entre si e, por conseguinte, muito parecidas (melhor dizer idênticas) com o Jesus dos Evangelhos, que, por sua vez, também faz um intercâmbio entre o humano e divino, ou se encontra numa relação muito estreita com essas duas realidades, o que se pode verificar em passagens como João 10:30: “Eu e o Pai somos um”.

Enumerando algumas semelhanças entre Jesus e Osíris:
1
Está na Bíblia: “E tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-lhes, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim./ Semelhantemente tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado por vós” (Lucas 22:19-20).
Estava na mitologia egípcia: Osíris era também chamado de Deus do trigo e seu corpo era considerado pão. Por isso, Osíris dava o seu corpo aos egípcios para que estes se alimentassem dele. O seu sangue também era dado a beber. Tratava-se de um ritual para que Osíris fosse eternamente lembrado depois de sua morte.
2
Está na Bíblia: Jesus respondeu: “É chegada a hora em que o Filho do homem será glorificado./ Agora o meu coração está angustiado (...) Andai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem. Quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (João 12: 23, 27 e 35).
Estava na mitologia egípcia: “Osíris sabe que chegou a sua hora e que viveu o seu tempo de vida... Osíris tem medo. Osíris tem horror a andar nas trevas... Aqueles que se querem desfazer de mim fazem-me mal e são os filhos das trevas...” (Texto da pirâmide D’Unas e do Papyrus de Hunefer, Cap. XVII. In: CHAMBRUNRUSPOLI, Marthe de. L’divin Épervier. Éditions du Mont-Blanc, Genève, Suisse, 1969)
3
Está na Bíblia: Jesus pregou o amor e só fazia o bem, mas foi condenado e morreu na cruz por nossos pecados.
Estava na mitologia egípcia: Osíris foi um ser bondoso, mas sofreu uma morte cruel, e pela sua morte assegurou a felicidade e a vida eterna a todos os seus seguidores.
4
Está na Bíblia: Jesus morreu logo após ser traído por Judas Iscariotes, que era um de seus discípulos.
Estava na mitologia egípcia: Osíris morreu logo após ser traído por Set, que era seu irmão.
5
Está na Bíblia: Jesus foi crucificado.
Estava na mitologia egípcia: Osíris foi crucificado numa cruz feita de um tronco de sicômoro. Sua cruz chamava-se TAT. “Saúdo-te, ó Sicômoro, grande cruz, Companheiro de Deus. O teu peito toca o ombro de Osíris.” (Texto da pirâmide de Pépi II. Ibidem)
6
Está na Bíblia: Colocaram uma coroa de espinhos na cabeça de Jesus.
Estava na mitologia egípcia: Osíris tinha sobre a sua cabeça uma coroa que lhe provocava dor. “Cheguei e tirei aquela coisa ofensiva (a coroa de URERET) que estava sobre Osíris. (...) Aliviei a dor de Osíris...” (Papyrus de Any cap. CXLVII-3. Ibidem)
7
Está na Bíblia: Jesus ressuscitou.
Estava na mitologia egípcia: Osíris ressuscitou.

UMA CHOCANTE CONSTATAÇÃO
Você, leitor cristão, acostumado a suas antigas crenças de que seu Jesus bíblico seria o único a possuir as características descritas acima, deve estar muito chocado com tudo isso que você acabou de ler. Você pode até mesmo, quem sabe por um instante, imaginar que Osíris e Hórus imitaram Jesus Cristo. Mas, é necessário não esquecer que Osíris e Hórus estão situados há 3000 anos antes de Jesus Cristo e, nesse caso, é a história do Jesus bíblico quem, necessariamente, os está plagiando ou imitando.

JESUS NÃO FOI O ÚNICO HOMEM A RESSUSCITAR
Praticamente todos os crentes na Bíblia pensam, equivocadamente, que só o Jesus bíblico praticou a extraordinária façanha de ressuscitar. E isso lhes dá uma firme (porém ilusória) fé na Bíblia e na história de Jesus contada nos Evangelhos. Alienada ao absolutismo bíblico, sem quase nunca estudar outras culturas e crenças, a grande maioria dos crentes na Bíblia não tem conhecimento sobre o que dizem as tradições sagradas de outros povos e de outros livros sagrados. Esses crentes bíblicos não conhecem, especialmente, as tradições e livros sagrados que são mais antigos do que o cristianismo.
Na história das religiões, houve outros casos de ressurreição em outras religiões além do cristianismo. Milhões e milhões de cristãos não sabem disso, e por isso mesmo vivem iludidos.
Outros casos de ressurreição são, por exemplo: Adônis, nas mitologias fenícia e grega; Osíris, na mitologia egípcia; Mitra, na mitologia persa, entre outros.

(PETER SPARKS - A VERDADE Sobre a Verdade)

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publicado às 22:12

Vitimados por uma educação desestimulante, submetidos ao
julgamento crítico da opinião pública, massificados pela mídia, vivemos nossas vidas
adiando ou perdendo nossos sonhos e isso nos torna infelizes.
(Antônio Suárez Abreu)
 
A opinião pública é uma peste. A sociedade
moderna a contraiu como uma
doença. Tocqueville, o analista da alma do
homem democrático, já sabia disso no século
XIX: na democracia repete-se o que a maioria diz
.
(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera)
 
O que você chama, de “opinião pública”, Zé Ninguém 
é o conjunto das opiniões de todos os Zés Ninguéns,
homens e mulheres. Cada homem e cada mulher Zé Ninguém tem no seu íntimo
uma opinião própria correta e um tipo especial de opinião incorreta.
Suas opiniões incorretas derivam do medo das opiniões incorretas
de todos os outros Zés Ninguéns e mulheres-ninguéns.
É por isso que as opiniões corretas não vêm à luz.
Por exemplo, você não vai mais acreditar que você
“não tem nenhuma importância”.
Você irá saber e proclamar que é o esteio e o alicerce desta sociedade
humana. Não fuja! Não tenha medo! Não é tão mau assim
ser um esteio responsável da sociedade humana.
(Wilhelm Reich - Escuta Zé Ninguém)
 
 
Tudo aquilo que pensamos e fazemos é fruto dos discursos que nos constroem, enquanto seres psicossociais. Na sociedade em que vivemos, somos moldados por uma infinidade de discursos: discurso científico, discurso jurídico, discurso político, discurso religioso, discurso do senso comum etc. Paramos o automóvel diante de um sinal vermelho, porque essa atitude foi estabelecida pelo discurso jurídico das leis de trânsito. Votamos em tal candidato de tal partido, porque esse tipo de voto foi conquistado pelo discurso político desse candidato.
Entre todos os discursos que nos governam, o mais significativo deles é o discurso do senso comum. Trata-se de um discurso que permeia todas as classes sociais, formando a chamada opinião pública. Tanto uma pessoa humilde e iletrada quanto um executivo de alto nível, com curso universitário completo, costumam dizer que os políticos são, em geral, corruptos ou que o brasileiro é relaxado e preguiçoso. Na verdade, o discurso do senso comum não é um discurso articulado; é formado por fragmentos de discursos articulados. Uma fonte desse discurso são osditos populares, como "Devagar se vai ao longe," "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura" etc. Esse discurso tem um poder enorme de dar sentido à vida cotidiana e manter o status quo vigente, mas tende a ser, ao mesmo tempo, retrógrado e maniqueísta. Podemos até mesmo dizer que os momentos das grandes descobertas, das grandes invenções, foram também momentos em que as pessoas foram capazes de opor-se ao discurso do senso comum. Geralmente, essas pessoas, em um primeiro instante, se tornam alvo da incompreensão da massa que defende o senso comum. Foi o que aconteceu com a chamada Revolta da Vacina, uma rebelião popular ocorrida no Rio de Janeiro, de 12 a 15 de novembro de 1904, quando Oswaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Pública do governo Rodrigues Alves, quis vacinar a população da cidade contra a febre amarela. A opinião geral era de que se tratava de inocular a doença nas pessoas. Dizem que até mesmo Rui Barbosa posicionou-se contra a medida, alegando o constrangimento das senhoras em expor o braço nu para tomar a vacina. Os cariocas, inflamados, levantaram barricadas, quebraram lampiões de iluminação pública e incendiaram alguns bondes da cidade.
Voltando a Atenas e aos professores de retórica, uma das técnicas mais utilizadas por eles, para arejar a cabeça dos atenienses contra o discurso do senso comum, era a de criar paradoxos - opiniões contrárias ao senso comum - levando, dessa maneira, seus ouvintes ou leitores a experimentarem aquilo que chamavam maravilhamento, capacidade de voltar a se surpreender com aquilo que o hábito vai tornando comum. Essa palavra foi substituída no expressionismo alemão, no surrealismo francês e, sobretudo no formalismo russo, pela palavra estranhamento, definida como a capacidade de tornar novo aquilo que já se tornou habitual em nossas vidas. Nesse sentido, o Elogio a Helena de Górgias foi paradoxal, pois contrariava o senso comum da época.
Uma das técnicas do paradoxo era criar discursos a partir de um antimodelo, ou seja, escolhia-se algum tema sobre o qual já houvesse uma opinião formada pelo senso comum e escrevia-se um texto contrariando essa opinião. Era o antimodelo. Houve momentos em que floresceram em Atenas discursos iniciados sempre pela palavra contra: Contra os Físicos, Contra Érebo (Filho de Caos e da Noite. Foi transformado em rio e precipitado nos Infernos, por ter ajudado os Titãs) etc.
A retórica clássica se baseava, portanto, na diversidade de pontos de vista, no verossímil, e não em verdades absolutas. Isso fez com que a dialética e a filosofia da época se aliassem contra ela. Platão, por exemplo, em sua obra chamada Górgias, procura mostrar que a retórica visava apenas aos resultados, enquanto que a filosofia visava sempre ao verdadeiro. Isso fez com que a retórica decaísse perante a opinião pública (discurso do senso comum) durante séculos. A própria palavra sofista passou a designar pessoa de má-fé que procura enganar, utilizando argumentos falsos. O interessante é que o próprio Platão, na sua República, utiliza amplamente os recursos retóricos que ele próprio condenava. Nietzsche comentou, ao seu estilo, que o primeiro motivo que levou Platão a atacar Górgias foi que Górgias, além de seu sucesso político, era rico e amado pelos atenienses. Dizem, também, que um dos motivos do declínio da retórica foi que a experiência democrática dos gregos foi muito curta. Acabou em404 a.C., quando Atenas foi subjugada por Esparta, ficando assim eliminado o espaço para a livre crítica de idéias e o debate de opiniões.
Nos dias de hoje, a partir dos estudos da Nova Retórica e do chamado Grupo de Liège, na Bélgica, a retórica foi amplamente reabilitada, tendo sido, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, beneficiada pelos estudos de outras ciências que se configuraram nesse século, como a Lingüística, a Semiótica, a Pragmática e a Análise do Discurso.
Os métodos retóricos da exploração da verossimilhança e dos diferentes pontos de vista sobre um objeto ou situação têm sido o motor que vem impulsionando o grande avanço moderno da ciência e da tecnologia. Um bom exemplo disso são os trabalhos do médico americano Judah Folkman, no campo da cancerologia. O fundamento de sua pesquisa é um ponto de vista totalmente diferente do de seus pares. Segundo ele, é possível combater um tumor cancerígeno, cortando seu suprimento de sangue, por meio da eliminação da vascularização do tumor.
A habilidade de ver e sentir um objeto ou uma situação sob diferentes pontos de vista é importante em qualquer área, pois está ligada ao exercício da criatividade. Diz-nos a esse respeito Fernando Pessoa:
A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires-te de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós a sentimos há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? - e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, vol. l, p. 94.).
 Uma carta de amor, por exemplo, pode ser entendida apenas como uma forma de uma pessoa transmitir a outra seus sentimentos. Mas pode também ser entendida de muitas outras maneiras, como no seguinte trecho de Rubem Alves:
Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: ”Escrevo para que você fique sozinha . . .” E este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.
Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: ”Como será ela agora? Existirá ainda?” Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi ... Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio (Rubem Alves, ”Cartas de Amor”, O Retorno e Terno, pp. 4445).
A função da empatia nos dá a capacidade de compreender o meio externo e gerar sentimentos recíprocos como solidariedade e desejo de compartilhar experiências
 
Condições da Argumentação
A primeira condição da argumentação é ter definida uma tese e saber para que tipo de problema essa tese é resposta. Se queremos vender um produto, nossa tese é o próprio produto. Mas isso não basta. É preciso saber qual a necessidade que o produto vai satisfazer. Um bom vendedor é alguém capaz de identificar necessidades e satisfazê-las. Um bom vendedor de carros saberá vender um automóvel de passeio a um cliente que se locomove apenas no asfalto e um utilitário àquele que tem de enfrentar estradas de terra.
No plano das idéias, as teses são as próprias idéias, mas é preciso saber quais as perguntas que estão em sua origem. Se eu quero vender a idéia de que é preciso sempre poupar um pouco de dinheiro, eu tenho de saber que a pergunta básica é: — O que eu faço com o dinheiro que recebo? Muitas pessoas se queixam de que, nas reuniões da empresa, suas boas idéias nunca são levadas em consideração. O que essas pessoas não percebem é que essas idéias são respostas a perguntas que elas fizeram a si mesmas, dentro de suas cabeças. Ora, de nada adianta lançar uma idéia para um grupo que não conhece a pergunta. É preciso primeiro fazer a pergunta ao grupo. Quando todos estiverem procurando uma solução, aí sim, é o momento de lançar a idéia, como se lança uma semente em um campo previamente adubado.
Uma segunda condição da argumentação é ter uma ”linguagem comum” com o auditório. Somos nós que temos de nos adaptar às condições intelectuais e sociais daqueles que nos ouvem, e não o contrário. Temos de ter um especial cuidado para não usar termos de informática para quem não é da área de informática, ou de engenharia, para quem não é da área de engenharia e assim por diante.
Durante a campanha para a prefeitura de São Paulo, em 1985, Jânio Quadros contou com o apoio do deputado e ex-ministro Delfim Neto. Durante um comício para moradores de um bairro de periferia, Delfim terminou sua fala dizendo: ”- A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário. Logo depois, Jânio chamou Delfim de lado e disse: ”- Delfim, olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu do seu discurso ? Ele não sabe o que é processo. Não sabe o que é inflacionário. Não sabe o que é déficit. E não tem a menor idéia do que é orçamentário. Da próxima vez, diga assim: - A causa da carestia é a roubalheira do governo.”
Em um processo argumentativo, nós somos os únicos responsáveis pela clareza de tudo aquilo que dissermos. Se houver alguma falha de comunicação, a culpa é exclusivamente nossa!
A terceira condição da argumentação é ter um contato positivo com o auditório, com o outro. Estamos falando outra vez de gerenciamento de relação. Nunca diga, por exemplo, que vai usar cinco minutos de alguém, se vai precisar de vinte minutos. É preferível, nesse caso, dizer que vai usar meia hora. Muitas vezes, há necessidade de respeitar hierarquias e agendas. Faça isso com sinceridade e bom humor.
Outra fonte de contato positivo com o outro é saber ouvi-lo. Noventa e nove por cento das pessoas não sabem ouvir. A maior parte de nós tem a tendência de falar o tempo todo. É preciso desenvolver a capacidade da audiência empática. Pathos, em grego, além de enfermidade, significa sentimento. Em, preposição, significa dentro DE. Ouvir com empatia quer dizer, pois, ouvir dentro do sentimento do outro.
As palavras são escolhidas inconscientemente. É preciso prestar atenção a elas. É preciso prestar atenção também ao som da voz do outro! É por meio da voz que expressamos alegria, desespero, tristeza, medo ou raiva. As vezes, a maneira como uma pessoa usa sua voz nos dá muito mais informações sobre ela do que o sentido lógico daquilo que diz. Devemos também aprender a ”ouvir” com nossos olhos! A postura corporal do outro, suas expressões faciais, a maneira como anda, como gesticula e até mesmo a maneira como se veste nos dão informações preciosas. O poeta e semioticista Décio Pignatari costuma dizer que o homem precisa aprender a ”ouviver”, verbo que ele inventou a partir de ouvir, ver e viver.

Finalmente, a quarta condição e a mais importante delas: agir de forma ética. Isso quer dizer que devemos argumentar com o outro, de forma honesta e transparente. Caso contrário, argumentação fica sendo sinônimo de manipulação. O fato de agirmos com honestidade nos confere uma característica importante em um processo argumentativo: a credibilidade. Para ter credibilidade é preciso apenas comportar-se de modo verdadeiro, sem medo de revelar propósitos e emoções. Assim como as pessoas possuem ”detectores inconscientes” de interesse sexual em relação ao sexo oposto, capazes de decodificar posturas corporais, expressões faciais e tom de voz, elas também possuem ”detectores de credibilidade” em relação ao outro. Para ter credibilidade, basta procurar a criança que
existe dentro de nós. As crianças não dizem aquilo em que não acreditam e não fingem o que não sentem. Se estão tristes, seus rostos refletem nitidamente a tristeza. Se estão alegres, refletem essa alegria. Ao longo da vida, nós, adultos, é que desaprendemos a espontaneidade, depois que outros adultos nos ensinaram a separar nossa inteligência de nossas emoções.

(Antônio Suárez Abreu - A ARTE DE ARGUMENTAR, Gerenciando Razão e Emoção)

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publicado às 12:09

Vitimados por uma educação desestimulante, submetidos ao
julgamento crítico da opinião pública, massificados pela mídia, vivemos nossas vidas
adiando ou perdendo nossos sonhos e isso nos torna infelizes.
(Antônio Suárez Abreu)
 
A opinião pública é uma peste. A sociedade
moderna a contraiu como uma
doença. Tocqueville, o analista da alma do
homem democrático, já sabia disso no século
XIX: na democracia repete-se o que a maioria diz
.
(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera)
 
O que você chama, de “opinião pública”, Zé Ninguém  é o conjunto das opiniões de todos os
Zés Ninguéns, homens e mulheres. Cada homem e cada mulher Zé Ninguém tem no seu íntimo
uma opinião própria correta e um tipo especial de opinião incorreta. Suas opiniões incorretas
derivam do medo das opiniões incorretas de todos os outros Zés Ninguéns e mulheres-ninguéns.
É por isso que as opiniões corretas não vêm à luz. Por exemplo, você não vai mais acreditar que você “não tem nenhuma importância”. Você irá saber e proclamar que é o esteio e o alicerce desta sociedade
humana. Não fuja! Não tenha medo! Não é tão mau assim ser um esteio responsável da sociedade
humana.
(Wilhelm Reich - Escuta Zé Ninguém)
 
 
Tudo aquilo que pensamos e fazemos é fruto dos discursos que nos constroem, enquanto seres psicossociais. Na sociedade em que vivemos, somos moldados por uma infinidade de discursos: discurso científico, discurso jurídico, discurso político, discurso religioso, discurso do senso comum etc. Paramos o automóvel diante de um sinal vermelho, porque essa atitude foi estabelecida pelo discurso jurídico das leis de trânsito. Votamos em tal candidato de tal partido, porque esse tipo de voto foi conquistado pelo discurso político desse candidato.
Entre todos os discursos que nos governam, o mais significativo deles é o discurso do senso comum. Trata-se de um discurso que permeia todas as classes sociais, formando a chamada opinião pública. Tanto uma pessoa humilde e iletrada quanto um executivo de alto nível, com curso universitário completo, costumam dizer que os políticos são, em geral, corruptos ou que o brasileiro é relaxado e preguiçoso. Na verdade, o discurso do senso comum não é um discurso articulado; é formado por fragmentos de discursos articulados. Uma fonte desse discurso são osditos populares, como "Devagar se vai ao longe," "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura" etc. Esse discurso tem um poder enorme de dar sentido à vida cotidiana e manter o status quo vigente, mas tende a ser, ao mesmo tempo, retrógrado e maniqueísta. Podemos até mesmo dizer que os momentos das grandes descobertas, das grandes invenções, foram também momentos em que as pessoas foram capazes de opor-se ao discurso do senso comum. Geralmente, essas pessoas, em um primeiro instante, se tornam alvo da incompreensão da massa que defende o senso comum. Foi o que aconteceu com a chamada Revolta da Vacina, uma rebelião popular ocorrida no Rio de Janeiro, de 12 a 15 de novembro de 1904, quando Oswaldo Cruz, diretor-geral da Saúde Pública do governo Rodrigues Alves, quis vacinar a população da cidade contra a febre amarela. A opinião geral era de que se tratava de inocular a doença nas pessoas. Dizem que até mesmo Rui Barbosa posicionou-se contra a medida, alegando o constrangimento das senhoras em expor o braço nu para tomar a vacina. Os cariocas, inflamados, levantaram barricadas, quebraram lampiões de iluminação pública e incendiaram alguns bondes da cidade.
Voltando a Atenas e aos professores de retórica, uma das técnicas mais utilizadas por eles, para arejar a cabeça dos atenienses contra o discurso do senso comum, era a de criar paradoxos - opiniões contrárias ao senso comum - levando, dessa maneira, seus ouvintes ou leitores a experimentarem aquilo que chamavam maravilhamento, capacidade de voltar a se surpreender com aquilo que o hábito vai tornando comum. Essa palavra foi substituída no expressionismo alemão, no surrealismo francês e, sobretudo no formalismo russo, pela palavra estranhamento, definida como a capacidade de tornar novo aquilo que já se tornou habitual em nossas vidas. Nesse sentido, o Elogio a Helena de Górgias foi paradoxal, pois contrariava o senso comum da época.
Uma das técnicas do paradoxo era criar discursos a partir de um antimodelo, ou seja, escolhia-se algum tema sobre o qual já houvesse uma opinião formada pelo senso comum e escrevia-se um texto contrariando essa opinião. Era o antimodelo. Houve momentos em que floresceram em Atenas discursos iniciados sempre pela palavra contra: Contra os Físicos, Contra Érebo (Filho de Caos e da Noite. Foi transformado em rio e precipitado nos Infernos, por ter ajudado os Titãs) etc.
A retórica clássica se baseava, portanto, na diversidade de pontos de vista, no verossímil, e não em verdades absolutas. Isso fez com que a dialética e a filosofia da época se aliassem contra ela. Platão, por exemplo, em sua obra chamada Górgias, procura mostrar que a retórica visava apenas aos resultados, enquanto que a filosofia visava sempre ao verdadeiro. Isso fez com que a retórica decaísse perante a opinião pública (discurso do senso comum) durante séculos. A própria palavra sofista passou a designar pessoa de má-fé que procura enganar, utilizando argumentos falsos. O interessante é que o próprio Platão, na sua República, utiliza amplamente os recursos retóricos que ele próprio condenava. Nietzsche comentou, ao seu estilo, que o primeiro motivo que levou Platão a atacar Górgias foi que Górgias, além de seu sucesso político, era rico e amado pelos atenienses. Dizem, também, que um dos motivos do declínio da retórica foi que a experiência democrática dos gregos foi muito curta. Acabou em404 a.C., quando Atenas foi subjugada por Esparta, ficando assim eliminado o espaço para a livre crítica de idéias e o debate de opiniões.
Nos dias de hoje, a partir dos estudos da Nova Retórica e do chamado Grupo de Liège, na Bélgica, a retórica foi amplamente reabilitada, tendo sido, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, beneficiada pelos estudos de outras ciências que se configuraram nesse século, como a Lingüística, a Semiótica, a Pragmática e a Análise do Discurso.
Os métodos retóricos da exploração da verossimilhança e dos diferentes pontos de vista sobre um objeto ou situação têm sido o motor que vem impulsionando o grande avanço moderno da ciência e da tecnologia. Um bom exemplo disso são os trabalhos do médico americano Judah Folkman, no campo da cancerologia. O fundamento de sua pesquisa é um ponto de vista totalmente diferente do de seus pares. Segundo ele, é possível combater um tumor cancerígeno, cortando seu suprimento de sangue, por meio da eliminação da vascularização do tumor.
A habilidade de ver e sentir um objeto ou uma situação sob diferentes pontos de vista é importante em qualquer área, pois está ligada ao exercício da criatividade. Diz-nos a esse respeito Fernando Pessoa:
A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires-te de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós a sentimos há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? - e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, vol. l, p. 94.).
 Uma carta de amor, por exemplo, pode ser entendida apenas como uma forma de uma pessoa transmitir a outra seus sentimentos. Mas pode também ser entendida de muitas outras maneiras, como no seguinte trecho de Rubem Alves:
Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: ”Escrevo para que você fique sozinha . . .” E este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.
Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: ”Como será ela agora? Existirá ainda?” Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi ... Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio (Rubem Alves, ”Cartas de Amor”, O Retorno e Terno, pp. 4445).
A função da empatia nos dá a capacidade de compreender o meio externo e gerar sentimentos recíprocos como solidariedade e desejo de compartilhar experiências
 
Condições da Argumentação
A primeira condição da argumentação é ter definida uma tese e saber para que tipo de problema essa tese é resposta. Se queremos vender um produto, nossa tese é o próprio produto. Mas isso não basta. É preciso saber qual a necessidade que o produto vai satisfazer. Um bom vendedor é alguém capaz de identificar necessidades e satisfazê-las. Um bom vendedor de carros saberá vender um automóvel de passeio a um cliente que se locomove apenas no asfalto e um utilitário àquele que tem de enfrentar estradas de terra.
No plano das idéias, as teses são as próprias idéias, mas é preciso saber quais as perguntas que estão em sua origem. Se eu quero vender a idéia de que é preciso sempre poupar um pouco de dinheiro, eu tenho de saber que a pergunta básica é: — O que eu faço com o dinheiro que recebo? Muitas pessoas se queixam de que, nas reuniões da empresa, suas boas idéias nunca são levadas em consideração. O que essas pessoas não percebem é que essas idéias são respostas a perguntas que elas fizeram a si mesmas, dentro de suas cabeças. Ora, de nada adianta lançar uma idéia para um grupo que não conhece a pergunta. É preciso primeiro fazer a pergunta ao grupo. Quando todos estiverem procurando uma solução, aí sim, é o momento de lançar a idéia, como se lança uma semente em um campo previamente adubado.
Uma segunda condição da argumentação é ter uma ”linguagem comum” com o auditório. Somos nós que temos de nos adaptar às condições intelectuais e sociais daqueles que nos ouvem, e não o contrário. Temos de ter um especial cuidado para não usar termos de informática para quem não é da área de informática, ou de engenharia, para quem não é da área de engenharia e assim por diante.
Durante a campanha para a prefeitura de São Paulo, em 1985, Jânio Quadros contou com o apoio do deputado e ex-ministro Delfim Neto. Durante um comício para moradores de um bairro de periferia, Delfim terminou sua fala dizendo: ”- A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário. Logo depois, Jânio chamou Delfim de lado e disse: ”- Delfim, olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu do seu discurso ? Ele não sabe o que é processo. Não sabe o que é inflacionário. Não sabe o que é déficit. E não tem a menor idéia do que é orçamentário. Da próxima vez, diga assim: - A causa da carestia é a roubalheira do governo.”
Em um processo argumentativo, nós somos os únicos responsáveis pela clareza de tudo aquilo que dissermos. Se houver alguma falha de comunicação, a culpa é exclusivamente nossa!
A terceira condição da argumentação é ter um contato positivo com o auditório, com o outro. Estamos falando outra vez de gerenciamento de relação. Nunca diga, por exemplo, que vai usar cinco minutos de alguém, se vai precisar de vinte minutos. É preferível, nesse caso, dizer que vai usar meia hora. Muitas vezes, há necessidade de respeitar hierarquias e agendas. Faça isso com sinceridade e bom humor.
Outra fonte de contato positivo com o outro é saber ouvi-lo. Noventa e nove por cento das pessoas não sabem ouvir. A maior parte de nós tem a tendência de falar o tempo todo. É preciso desenvolver a capacidade da audiência empática. Pathos, em grego, além de enfermidade, significa sentimento. Em, preposição, significa dentro DE. Ouvir com empatia quer dizer, pois, ouvir dentro do sentimento do outro.
As palavras são escolhidas inconscientemente. É preciso prestar atenção a elas. É preciso prestar atenção também ao som da voz do outro! É por meio da voz que expressamos alegria, desespero, tristeza, medo ou raiva. As vezes, a maneira como uma pessoa usa sua voz nos dá muito mais informações sobre ela do que o sentido lógico daquilo que diz. Devemos também aprender a ”ouvir” com nossos olhos! A postura corporal do outro, suas expressões faciais, a maneira como anda, como gesticula e até mesmo a maneira como se veste nos dão informações preciosas. O poeta e semioticista Décio Pignatari costuma dizer que o homem precisa aprender a ”ouviver”, verbo que ele inventou a partir de ouvir, ver e viver.

Finalmente, a quarta condição e a mais importante delas: agir de forma ética. Isso quer dizer que devemos argumentar com o outro, de forma honesta e transparente. Caso contrário, argumentação fica sendo sinônimo de manipulação. O fato de agirmos com honestidade nos confere uma característica importante em um processo argumentativo: a credibilidade. Para ter credibilidade é preciso apenas comportar-se de modo verdadeiro, sem medo de revelar propósitos e emoções. Assim como as pessoas possuem ”detectores inconscientes” de interesse sexual em relação ao sexo oposto, capazes de decodificar posturas corporais, expressões faciais e tom de voz, elas também possuem ”detectores de credibilidade” em relação ao outro. Para ter credibilidade, basta procurar a criança que
existe dentro de nós. As crianças não dizem aquilo em que não acreditam e não fingem o que não sentem. Se estão tristes, seus rostos refletem nitidamente a tristeza. Se estão alegres, refletem essa alegria. Ao longo da vida, nós, adultos, é que desaprendemos a espontaneidade, depois que outros adultos nos ensinaram a separar nossa inteligência de nossas emoções.

(Antônio Suárez Abreu - A ARTE DE ARGUMENTAR, Gerenciando Razão e Emoção)

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publicado às 09:57

Se você agir sempre com dignidade, 
pode não melhorar o mundo, 
mas uma coisa é certa: 
haverá na Terra um canalha a menos.
 
UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA decente deveria ser baseada no princípio do consentimento dos governados. Essa idéia ganhou aceitação geral, mas pode ser contestada tanto por ser muito forte quanto por ser muito fraca. Muito forte, porque sugere que as pessoas devem ser governadas e controladas. Muito fraca, porque mesmo os governadores mais brutais precisam, em certa medida, do consentimento dos governados,  e geralmente o obtêm não apenas à força.
(Noam Chomsky)
 

A arte cínica de fazer o povo de bobo

Para uma coisa que “não existe” (Cf. Pierre Bourdieu, “L’opinion publique n’éxiste pas ”, in Questions de Sociologie, Paris, Minuit, 1980, pp. 222-235) mas que é, de qualquer forma, “dada como garantida” enquanto fundamento da democracia moderna, (Cf. Lippmann, Public Opinion, p. 253) o mínimo que se pode dizer é que a “opinião pública” tem uma já longa, complexa e sinuosa história.
Como sublinha Luhmann, foi na parte final do século XVIII que “surgiu o conceito moderno de opinião pública como o soberano “secreto” e a autoridade invisível da sociedade política. A opinião púbica foi estilizada como um paradoxo, como o poder invisível do visível. E, nesta forma semântica, tornou-se a ideia culminante do sistema político.” (Niklas Luhamnn, “Complexidade societal e opinião pública”, in A Improbabilidade da Comunicação, Lisboa, Vega, 1993, p. 66). O conceito de opinião pública aparece, desde o princípio, associado ao “conceito idealizado” de indivíduo: ela é a opinião que os indivíduos expressam, de forma livre e igualitária, no “espaço público”.
Se é verdade que a constatação que Lippmann fazia, já em 1922 – “Dado que se supõe que a Opinião Pública é o motor primeiro das democracias, poder-se-ia razoavelmente esperar encontrar sobre ela uma vasta literatura sobre ela. Não se encontra.” – (Lippmann, op. Cit., p. 253) já não terá hoje razão de ser, podemos dizer que, e por razões exactamente inversas às aduzidas pelo autor americano, continua a não ser fácil delimitar, de forma objectiva, o conceito de “opinião pública”. De qualquer modo, parece ser possível reconduzir as múltiplas concepções da opinião pública a duas fundamentais, que Elisabeth Noëlle-Neuman resume da seguinte forma:  
i) A concepção da opinião pública como “processo racional”, que “se fixa especialmente na participação democrática e no intercâmbio de pontos de vista diferentes sobre os assuntos públicos, assim como na exigência de que o governo tenha em conta estas ideias e a preocupação de que o processo de formação da opinião possa ser manipulado pelo poder do estado e do capital, pelos meios de comunicação e a técnica moderna”  – uma concepção que se encontra patente em Habermas e se filia em autores como Hume e Kant;
ii) A concepção da opinião pública como “controlo social”, que “busca garantir um nível suficiente de consenso social sobre os valores e os objectivos comuns. Segundo este conceito, o poder da opinião pública é tão grande que não pode ignorá-lo nem o governo nem os membros individuais da sociedade. Este poder procede da ameaça de isolamento que a sociedade dirige contra os indivíduos e os governos desviados, e do medo do isolamento devido à natureza social do homem” – uma concepção que se encontra patente na própria Noëlle-Neuman e na sua tematização da “espiral do silêncio ou, ainda, emWalter Lippmann e na sua tese do “estereótipo como veículo de difusão da opinião pública”, e se filia em autores como Locke e Tocqueville. (Cf Elisabeth Noëlle-Neuman, La Espiral del Silencio. Opinión pública: nuestra piel social, Barcelona, Paidós, 1995, p. 289; sobre Lippmann, cf. pp. 189-198. Uma versão mais sintética da posição de Noëlle-Neuman encontra-se em “La espiral del silencio. Una teoría de la opinión pública”, in Jean-Marc Ferry, Dominique Wolton y Otros, El Nuevo Espacio Público, Barcelona, Gedisa, 1998, pp. 200-9).
É certo que, como reconhece Noëlle-Neuman relativamente a Locke, a expressão “opinião pública” (public opinion) não aparece no Ensaio; no entanto, o conceito estará aí presente, de forma indirecta, em dois aspectos fundamentais: “na sua ideia de acordo, que só pode interpretar-se como unidade social e, portanto, pública”; “na sua insistência no ‘lugar’, com a sua conotação de espaço público por excelência”. (Noëlle-Neuman, ibidem, p. 100; especificamente sobre Locke, ver “A lei da opinião pública: John Locke”, pp. 97-101). Vejamos, de forma mais detalhada, a forma como Locke tematiza a questão da opinião e, mais especificamente, a “lei da opinião ou reputação”.
Em matéria de opiniões, Locke parte da constatação – uma constatação que hoje, provavelmente, qualificaríamos de “relativista cultural” – de que em todas as sociedades, e divergindo de sociedade para sociedade, existe um conjunto de opiniões que, por mais irrazoáveis, absurdas e contraditórias que sejam, são “aceites e respeitadas como se fossem inamovíveis primeiros princípios”. (Cf. Locke, Ensaio, Livro I, Capítulo II, § 21, Volume I, pp. 73-4). Ora, como se afirma logo a seguir, essas opiniões ou convicções “não tiveram por origem nada de mais importante do q e a superstição de uma ama, ou a autoridade de uma anciã, mas passaram, ainda assim, com o tempo e a aceitação progressiva, a atingir a dignidade de princípios de religião ou de moral” (Locke, ibidem, § 22, p. 74). Dotada desta sacralidade da tradição, não admira que a opinião se torne numa “lei” pelo menos tão coerciva (Recordemos que a coerção é, precisamente, uma das características fundamentais que Durkheim atribui aos “factos sociais”; ora, uma parte substancial destes corresponde, precisamente, àquilo a que Locke chama aqui a “lei da opinião”) como a lei divina ou a lei civil:
As leis pelas quais os homens regulam geralmente as suas acções e julgam da rectidão ou prevaricação das mesmas, parecem-me ser estas três: – 1 A lei divina. 2. A lei civil. 3. A lei da opinião ou reputação, se assim a posso chamar. Pela relação que estabelecem com a primeira, os homens julgam se as suas acções são pecados ou deveres; pela segunda, se são crimes ou não; pela terceira, se são virtudes ou vícios (Locke, Ensaio, Livro II, Capítulo XXVIII, § 7, Volume I, p. 467).
É a “lei da opinião ou da reputação” que, como se vê, determina o que em cada sociedade se considera como virtude – o que está de acordo com essa “lei” – e o que se considera como vício – o que vai contra ela –, o que merece recompensa e o que merece castigo, o que é respeitável e o que é condenável (Locke, ibidem, § 10, p. 468). Apesar das diferenças que existem de país para país, de lugar para lugar, de sociedade para sociedade acerca do que se considera como virtude e como vício, “[a] virtude e o louvor estão de tal forma unidos que frequentemente são designados somente por um nome” (Locke, ibidem, § 11, p. 469).
 A “lei da opinião ou reputação”, que se estabelece nas diversas sociedades e grupos humanos por “um consenso secreto e tácito” acaba por ter um âmbito ainda mais alargado do que a própria lei civil, na medida em que incide sobre todos os comportamentos – ou, pelo menos, todos os comportamentos observáveis –, e não sobre um conjunto mais ou menos restrito de acções, isto é, as que atentam contra a liberdade, a segurança ou a propriedade dos outros (Como diz Locke, “embora os homens se unam em sociedades políticas, delegam no público a força de todo o seu poder, de modo a que não a podem aplicar contra qualquer concidadão para além do que a lei do se país permite; todavia, mantêm, ainda, o poder de julgar bem ou mal, de aprovar ou desaprovar as acções daqueles com quem vivem e com quem conversam, e a partir desta aprovação e desaprovação estabelecem entre eles o que irão designar como virtude e vício.” (Locke, ibidem)). E àqueles que possam pôr em dúvida a justeza da designação de “lei” – da opinião ou reputação – aplicada àquilo que não será mais do que “o consenso de alguns homens”, Locke argumenta com o que nos mostra a história da humanidade, que “a maior parte se governa principalmente, se não somente, por esta lei de costumes (law of fashion) e, assim, faz aquilo que a mantenha de bem com os seus semelhantes e dá pouca atenção às leis de Deus ou aos magistrados” (Locke, ibidem, § 12, pp. 471).  Mais: enquanto que muitos, mesmo a maioria, não reflectem seriamente sobre a desobediência às leis divinas, remetendo a sua obediência para um futuro mais ou menos longínquo, ou iludem-se com a impunidade em relação ao incumprimento das leis civis, “nenhum homem escapa ao castigo da censura e do descrédito quando vai contra os costumes e opiniões daqueles com que convive e aos quais se subjuga”, o que faz com que não exista “um homem em dez mil que seja suficientemente duro e insensível para suportar o descrédito e a condenação constantes do próprio grupo” (Locke, ibidem). Conclui-se, assim, que a “lei da opinião” tem não só um âmbito mais vasto do que a lei civil mas também um poder de imposição e coerção maior do que o dessa lei civil e até mesmo do que o a da própria lei divina; o que permitira, também, compreender o sentido profundo do dito segundo o qual “a voz do povo é a voz de Deus”.
A "lei dos costumes, ou da censura privada” (the law of fashion, or private censure), como também chama Locke à “lei da opinião” (Locke, ibidem, § 13, p. 471), tem duas implicações óbvias, intimamente relacionadas: a primeira, a conformidade de cada um dos homens à opinião maioritária da sociedade a que pertence, determinada pelo receio do isolamento e da rejeição; a segunda, a dificuldade de criação e difusão de novas opiniões em qualquer sociedade humana. Uma outra implicação, menos óbvia, e que é posta em destaque por Noëlle-Neuman, é a de que os líderes de opinião, os que conseguem fazer e influenciar a opinião pública têm de ser, precisamente, homens capazes de arrostar com “o descrédito e a condenação constantes do próprio grupo” de que fala Locke; ou sê-lo, pelo menos, em momentos muito precisos e decisivos (Cf. Noëlle-Neuman, “La espiral del silencio. Una teoría de la opinión pública”, op. Cit., p. 201).
Uma questão que pode ser vista em conexão com a da “lei da opinião” – embora não se confunda com ela – é a do consentimento. A sociedade política ou civil forma-se, segundo Locke, mediante a renúncia, por parte de cada indivíduo, do “seu poder executivo das leis da natureza” e a transferência desse poder para o “público” (Cf. John Locke, Traité du Gouvernement Civil (1690), Traduction française de David Mazel en 1795 à partir de la 5e édition de Londres publiée en 1728, Les Classiques des Sciences Sociales, http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_ sciences_sociales/index.html, Capítulo VII, § 89). Em tal sociedade, as leis devem ser feitas de acordo com as exigências do “ bem público”, que exprimem e que determina, assim, o limite do poder da sociedade ou da autoridade legislativa sobre os indivíduos; um tal “bem público” traduz-se, em última análise, na garantia da liberdade, da propriedade e da segurança de todos e cada um dos indivíduos (Cf Locke, ibidem, Capítulo IX, § 131). Ora, sendo os homens “todos naturalmente livres, iguais e independentes”, a sua submissão a um “poder político” exige o consentimento de cada um, ou, pelo menos, o do maior número – já que a exigência do consentimento da totalidade poderia, no limite, impossibilitar a acção do próprio “corpo político”; essa acção deve, assim, ser determinada “pela maior força, que é o consentimento do maior número” (Cf. Locke, ibidem, Capítulo VIII, §§ 95-6; Capítulo XIX, § 211).
Este consentimento pode ser ou expresso ou tácito. Se quanto ao primeiro a sua definição não levanta dificuldade – um indivíduo declara, explicitamente, a sua vontade de se incorporar num determinado estado –, o mesmo não acontece com o segundo, que é o que caracteriza a maior parte dos homens das diversas sociedades. Ele é definido, por Locke, como o consentimento que resulta do próprio facto de um homem possuir determinadas posses – terras, casas, bens, etc. – que estão sob a alçada de um determinado governo de uma determinada sociedade; pelo que a quebra desse consentimento tácito, pela parte de um determinado homem, só poderia verificar-se com a sua saída do corpo político a que pertence (Locke, ibidem, Capítulo VIII, § 119).
Ambas as teses de Locke de que a sociedade política se institui mediante um “contrato original” e de que o poder assenta no “consentimento” explícito ou tácito são, como se sabe, rejeitadas liminarmente por David Hume (Cf. Hume, “Do contrato original”, in Ensaios Morais, Políticos e Literários, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2003, pp. 399-416) – que, ao discutir a questão do “consentimento”, afirma a dado passo que “[a] obediência ou sujeição torna-se coisa tão habitual que os homens, na sua maioria, jamais procuram investigar as suas origens ou causas, tal como em relação à lei da gravidade, à resistência ou às leis mais universais da natureza” (David Hume, “Do contrato original”, ibidem, p. 402). Tal não obsta a que, noutro dos seus ensaios, o mesmo Hume afirme que, “como a força está sempre do lado dos governados, os governantes apoiam-se unicamente na opinião. O governo assenta portanto apenas na opinião; e esta máxima aplica-se tanto aos governos mais despóticos e militares como aos mais livres e populares” (Hume, “Dos primeiros princípios do governo”, ibidem, p. 39). Deste modo, a discordância de Hume com Locke acerca da génese do governo não exclui a sua concordância com ele acerca do poder da opinião. Compreende-se, assim, que Noëlle-Neuman veja na posição de Hume sobre a opinião uma espécie de prolongamento da de Locke – no sentido em que Hume estende, ao governo, o poder da “lei da opinião” que Locke via exercer-se sobre o homem comum (Cf. Noëlle-Neuman, La Espiral del Silencio. Opinión pública: nuestra piel social, p. 104).

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - Filosofias da Comunicação)
UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA decente deveria ser baseada no princípio do consentimento dos governados

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publicado às 23:47

«Democracia» é, em grego, a palavra que significa 
o governo do povo; e a democracia ateniense
era um exemplo muito fiel de um tal regime. Atenas não era
como uma democracia moderna, na qual os cidadãos elegem representantes
que formam um governo. Em vez disso, cada cidadão tinha
o direito de participar em pessoa no governo, comparecendo numa
assembleia geral onde podia ouvir os discursos dos líderes políticos e
depois dar o seu voto.

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

O que vai matar o mundo contemporâneo
são seus sucessos, e não seus
fracassos. Sucesso na democracia tornando
a vida irrespirável de tantos direitos. Sucesso
na Medicina nos fazendo viver muito
sem ter ninguém com quem viver. Sucesso
na solidão feita de liberdades.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé
- A Era do Ressentimento)

A era das redes sociais e da tagarelice total
é também a era que consolidou a destruição
do debate político tal como os filósofos
idealistas do Iluminismo sonharam quando
conceberam a democracia republicana. Hoje,
o debate político é, antes de tudo, uma
política da difamação.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé
- A Era do Ressentimento)

Há um embrutecimento do homem na democracia
porque ele se descobre parte dos idiotas
ou vítima deles. Quando você é maioria,
nunca precisa se preocupar com nada que faz
uso dessa “quantidade”. A democracia é a
força feroz do bando erguida à categoria de
elegância política.

(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera)

Não existe esquerda democrática,
isso é uma mentira retórica, a não
ser que democracia seja apenas a violência
da maioria sobre todos os outros. Democracia
de linchamentos.

(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera)

“Povo”, “democracia”, “liberdade”, “ética” são palavras
cunhadas por homens e que depois ganharam
a circulação pública e histórica que
conhecemos. Minha aposta é que, quando alguém
as usa, não está querendo comunicar

nada em termos de conteúdo (semântico,
como se diz; isto é, o significado da palavra),
mas gerar um efeito retórico e fazer com que
as pessoas pensem uma determinada coisa
sobre quem as fala: que ele é legal, bem-intencionado,
que acredita em deixar os outros
viverem como quer, enfim, que é do “bem”.
Mas, na realidade, ele pode vir a fazer o que
bem entender uma vez que tiver hipnotizado as pessoas. 

(Luiz Felipe Pondé - A Filosofia da Adúltera)
 
No lugar do conhecimento, 
a democracia criou a opinião pública.
L. Felipe Pondé)

 
A democracia é um regime que vive entre dois valores essenciais: liberdade e igualdade, segundo Tocqueville. E esse convívio não é fácil. Entre os dois, habita o que eu chamo de sensibilidade democrática, um conjunto de características que vão além do mero debate acerca das instituições democráticas, como poderes públicos, partidos, eleições, plebiscitos etc.
Não se trata de falar mal da democracia, ela é o regime político “menos ruim”. Até onde os especialistas podem falar, precisamos viver em grupos para sobreviver, mas para isso fazemos concessões ao grupo em troca de alguma segurança. Nesse sentido sou hobbesiano: o homem é o lobo do homem, e o estado de natureza (grosso modo, a maneira prépolítico de vida, uma espécie de vida em bando do Neolítico) devia ser bem péssimo. Por isso precisamos de organização e poder. Dentro desse quadro de ausência de opção de vida sem “Estado político”, a democracia é o menos pior porque procura institucionalizar as tensões da vida em grupo, distribuindo “os poderes” de modo menos concentrado. A tentativa de definir a democracia como “regime de direitos” é ridícula porque não existem direitos sem deveres, por isso a ideia de que piolhos ou frangos tenham direitos começa a aparecer quando separamos direitos de sua contrapartida anterior, os deveres. A praga PC costuma fazer essa separação por motivos de marketing político e ignorância filosófica.
Mas, independentemente de a democracia ser nossa melhor opção, há problemas nela, claro. Como dizia Tocqueville, a democracia tem impactos específicos nos humores, temperamentos, hábitos e costumes. O que chamo de sensibilidade democrática é parte desses impactos.
Uma coisa que salta aos olhos é a tentativa de chamar qualquer um que critique a democracia de antidemocrático. A sensibilidade democrática é “dolorida”, qualquer coisa ela grita. Mas não me engano com ela: esse “grito” nada mais é do que a tentativa de impedir críticas que reduzam a vocação também tirânica que a democracia tem como regime “do povo”. O “povo” é sempre opressor, Rousseau e Marx são dois mentirosos. Mesmo na Bíblia, quando os profetas de Israel criticavam os poderosos, também criticavam o “povo”, que nunca foi herói de nada. Aliás, o risco da tirania do “povo” já tinha sido apontado pelo próprio Tocqueville. As duas formas mais evidentes de tirania são a da maioria e a do dinheiro (criador de uma “aristocracia do dinheiro” em lugar da de sangue). Para evitar esse risco tirânico, precisamos cuidar dos mecanismos de “pesos e contrapesos” da democracia (suas instituições em conflito, mídia, instâncias de razão pública, como escolas, universidades, a própria mídia, tribunais etc.) e combater a tendência de reduzir a democracia a um regime da “vontade popular” ou um regime “do povo”. O povo é sempre opressor. Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com o “povo”.
Mas, voltando a liberdade × igualdade, principal tensão na democracia: segundo Tocqueville, não há como evitar essa tensão porque ambas são valores de raiz da democracia. Quando você dá mais espaço para a liberdade, a tendência é de que a democracia acentue as diferenças entre as pessoas e os grupos que nela vivem. Mas a liberdade é a chave da capacidade criativa e empreendedora do homem. Quando você acentua a igualdade, a democracia ganha em nivelamento e perde em criatividade e geração de abundância para as pessoas. O politicamente correto é um caso clássico de censura à liberdade de pensamento, por isso, sob ele, o pensamento público fica pobre e repetitivo, por isso medíocre e covarde. Quando se acentua a igualdade na democracia, amplia-se a mediocridade, porque os covardes temem a liberdade. Por exemplo, os regimes marxistas, assim como os fascistas de direita (os marxistas são os fascistas de esquerda), reduziram o pensamento e a vida das pessoas ao nível de um formigueiro. Mas a sensibilidade democrática sofre quando se aponta a relação entre culto da igualdade e mediocridade. Essa questão toca fundo na natureza humana, que tende facilmente à inércia, a fim de garantir o cotidiano. Algo na natureza humana ama a mediocridade.
Outra característica problemática da democracia é sua vocação tagarela, como dizia o conde de Tocqueville. Nela, as pessoas são estimuladas a ter opinião sobre tudo, e a afirmação de que todos os homens são iguais (quando a igualdade deve ser apenas perante um tribunal) leva as pessoas mais idiotas a assumir que são capazes de opinar sobre tudo. E, como dizia nosso conde, Descartes (filósofo francês do século 17) nunca imaginou que alguém levasse tão a serio sua ideia de que o bom senso foi dado a todos os homens em “quantidades” iguais – o que evidentemente é uma mentira empírica. O resultado é que, se você põe em dúvida a capacidade igual entre os homens de ter opiniões, a sensibilidade democrática grita de agonia. Mesmo homens com diploma universitário de engenharia, por exemplo, se julgam capazes de pensamentos profundos sobre o mundo, revelando como a universidade, ao se tornar um fenômeno de massa (como dizia o filósofo espanhol Ortega y Gasset no século 20), criou a ilusão de “opiniões banais” com ares cultos. Uma coisa que nosso conde percebeu é que o homem da democracia, quando quer saber algo, pergunta para a pessoa do seu lado, e o que a maioria disser, ele assume como verdade. Daí que, no lugar do conhecimento, a democracia criou a opinião pública.
Mas talvez a pior coisa da democracia seja o fato de que ela deu aos idiotas a consciência de seu poder numérico, como dizia o sábio Nelson Rodrigues. Em suas colunas de jornais, o Nelson costumava dizer que os idiotas, maioria absoluta da humanidade, antes do advento da Revolução Francesa, viviam suas vidas comendo, reproduzindo e babando na gravata. Com a Revolução Francesa e a democracia (que a primeira não criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritário), os idiotas perceberam que são em maior número, e de lá para cá todo mundo passou a ter de agradá-los, a fim de ter a possibilidade de existir (principalmente intelectualmente). O nome disso é marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da força democrática (numérica) dos idiotas. O politicamente correto é uma das faces iradas desses idiotas.
O filósofo inglês Michael Oakeshott escreveu vários textos criticando as utopias políticas criadas a partir do século 15. Um deles, em especial, “O nascimento do homem-massa na democracia representativa”, dialoga com a intuição rodriguiana. Para ambos, a democracia sempre dá a vitória aos idiotas porque são a massa.
Oakeshott descreve o nascimento, ainda no Renascimento, de uma “moda” intelectual segundo a qual todos os homens seriam capazes de ser indivíduos. O nascimento da noção de indivíduo no Renascimento italiano já tinha sido apontado pelo historiador suíço do Renascimento Jacob Burckhardt no século 19. O autor suíço chegou mesmo a descrever em sua obra o fato de muitos burgueses pagarem a escritores em condições financeiras ruins para escrever sobre suas vidas, enaltecendo seus “feitos”. Nas palavras de Burckhardt, a intenção era criar a noção do que hoje chamamos de “ter uma personalidade própria e especial”. Claro que há uma relação importante entre o nascimento da noção de indivíduo e o surgimento da burguesia, a classe que define seu próprio destino pela competência de cada um, e não pela mera herança de sangue. Com a ruína da sociedade rural feudal, quase imóvel, os burgueses criam o valor da individualidade competente e responsável por si mesma, uma espécie de caso histórico do homem “criador de seus próprios valores”, como na utopia nietzschiana do super-homem. Entretanto, quase todos fracassam na empreitada, porque o mundo é sempre hostil à individualidade, que é fonte de valor para si mesma.
O argumento de Oakeshott é que quase ninguém é indivíduo de fato (isto é, quase ninguém tem uma personalidade autônoma e ativa, e dói ter uma personalidade assim), por isso a regra é repetir o que a maioria faz, mentindo-se sobre o fracasso da individualidade verdadeira. Ao contrário de Kant, no século 18, que sonhava com uma sociedade de homens cada vez mais maduros (a maioridade kantiana é igual à capacidade de tomar decisões por si só, ou seja, autonomia), Oakeshott suspeitava que tomar decisões por si mesmo era a maldição de poucos. O politicamente correto adora dizer que a democracia é feita de cidadãos conscientes e que todos são capazes de tomar decisões autônomas, numa espécie de kantismo barato. Para Oakeshott, ser um indivíduo implica solidão e inseguranças que a maioria das pessoas simplesmente não suporta e, por isso, desiste. Mas, como a democracia faz a propaganda da autonomia do indivíduo como lastro dela mesma, acaba sendo hábito mentirmos sobre o fracasso da autonomia em escala “política”. Mas, se parasse por aí, menos mal. Oakeshott dirá que todos os indivíduos fracassados odiarão os verdadeiros indivíduos, caçando-os pelo mundo porque eles resistem à massificação necessária para a operação da democracia moderna. Ao contrário do que se diz, a democracia não opera pela autonomia, mas sim pela massificação crescente das opiniões, como já dissera Tocqueville. Aquele indivíduo fracassado (indivíduo manqué) rapidamente se transformará em anti-indivíduo e “homem-massa”, comprando modelos de personalidade que a mídia vende e seguindo líderes autoritários ou populistas que afirmarão a autonomia para todos – como se a autonomia fosse uma espécie de bolsa-família para toda a população. O indivíduo verdadeiro sofre a perseguição mais descarada, porque ele sim vive a dureza de ter uma personalidade ativa e por isso mesmo acaba sendo um cético com relação às promessas de autonomia para as massas. No fundo, o indivíduo fracassado e o homem-massa invejam a liberdade do indivíduo verdadeiro porque ela lhes parece um luxo. Na realidade são primitivos demais para entender a maldição que é ser indivíduo e a dor que é ser livre sem pertença a bandos. O encontro de Tocqueville, Nelson Rodrigues e Oakeshott é evidente: o idiota raivoso fala sempre com força de bando e, na democracia de massa em que vivemos, ele sim tem o poder absoluto de destruir todos os que não se submetem a sua regra de estupidez bem adaptada.

(Pondé, Luiz Felipe - Guia politicamente incorreto da filosofia)

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