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Tudo flutua no nada

por Thynus, em 30.01.15
 
(Onde exploramos as ideias gregas sobre o atomismo)

Os átomos são entidades perfeitas. São o todo, criadores de tudo. Somos feitos deles, matéria e semelhança. E voltaremos a eles no futuro. Do pó ao pó, do átomo ao átomo...
 

Além de átomos e células, somos feitos de palavras.
Porém, além das palavras, o Reino do inexprimível.
As palavras nada são além de grafia e som em obscura semântica.
Os idiomas são feudos.
Além da palavra, o abismo silencioso do Nada.
A sabedoria é ágrafa.
Entre as palavras e os fatos, o vácuo da incompreensão.
Palavra Sabedoria
 
Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, 
mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias.
Eduardo Galeano
 
 
Do que são feitas as coisas do mundo, com suas formas, texturas e cores variadas? Por que sua pele é tão diferente das páginas de um livro ou de um punhado de areia, do fogo ou de uma rajada de vento? Por que algumas substâncias transformam-se a temperaturas diferentes e com tamanha variação de substância para substância? Até que ponto podemos modificar a matéria, reengenhá-la para servir aos nossos propósitos? Será que o vazio absoluto — compreendido como a ausência total de matéria — existe?
Tais perguntas não são novas. Na Parte I, encontramos alguns dos filósofos pré-socráticos, os primeiros a buscar explicações racionais sobre o comportamento da Natureza. Vimos como Tales e seus sucessores da escola iônica sugeriram, na infância da filosofia ocidental em torno de 600 a.C., uma teoria unificada da Natureza em que tudo o que existe é manifestação de um único princípio material e das suas transformações, representando uma realidade sempre em fluxo.(Estou apenas considerando noções de unificação da cultura ocidental. Existem vários princípios de unificação na tradição religiosa e mística do Oriente, do budismo ao hinduísmo e ao taoísmo, e estes podem ter influenciado a cultura grega; em particular, o pensamento de alguns pensadores pré-socráticos.) Para os iônicos, o tempo era a essência da realidade. Por outro lado, Parmênides e seus discípulos sugeriram que a essência da Natureza deve ser encontrada no que é permanente e não no que é transiente; que o que é não pode mudar, pois, caso mude, torna-se no que não é. A verdade, concluíram, não pode ser efêmera. O “Ser” é atemporal, impérvio à passagem do tempo. Em menos de cem anos, filosofias do ser e do devir foram propostas com o mesmo objetivo: encontrar o caminho que desvendará os segredos da Natureza. Como escolher entre os dois?
A solução do impasse foi encontrada dois séculos mais tarde, nas ideias brilhantes de Leucipo e de seu prolífico discípulo, Demócrito. Em vez de considerar ser e devir como dois aspectos irreconciliáveis da Natureza, o par propôs que fossem, na verdade, dois lados da mesma moeda. Para tal, Leucipo e Demócrito conjecturaram que tudo é feito de pequenas entidades indivisíveis de matéria, os famosos átomos (em grego, “átomo” significa “o que não pode ser cortado”).(A ideia dos átomos não é exclusiva do Ocidente. Na Índia, filósofos budistas, jainistas e hinduístas escreveram sobre o atomismo. Os jainistas, em particular, e ainda antes dos gregos, consideraram uma versão do atomismo estritamente materialista, em que cada átomo tinha um sabor, um cheiro, uma cor e dois estados — sutil (capaz de se infiltrar nos menores espaços) e denso (maior). Os átomos tinham até uma propriedade semelhante a cargas elétricas opostas, que criava uma atração que levava a ligações entre átomos diferentes. Não sabemos se essas ideias influenciaram os filósofos da Grécia. Porém, Diógenes Laércio, um historiador que viveu no século III d.C., relata que Demócrito esteve na Índia e que se encontrou com os “gimnosofistas” (ascetas radicais que desprezam a comida e a roupa como interferências ao pensamento puro). Os átomos são imutáveis, “o que é” — representam, portanto, o ser. Movem-se no Vazio, “o que não é”, um meio completamente destituído de matéria. Para os atomistas, tanto átomos quanto o vazio são igualmente fundamentais na descrição da Natureza. Parmênides, por outro lado, argumentaria que o vazio não pode existir, já que, na sua filosofia, “o-que-não-é” não pode ser: assim que alguém proclama que “o vazio existe”, está declarando a existência do vazio; se o vazio existe, não pode não ser.
Os atomistas pouco ligavam para esse excesso de idealismo, declarando que tudo faz sentido se supusermos a realidade dos átomos e do vazio. Como em um jogo de Lego, através das suas várias combinações e rearranjos, os átomos podem assumir formas de vários tipos, explicando, assim, a diversidade material que vemos na Natureza. Com isso, as transformações do mundo são devidas ao rearranjo dos átomos: o ser e o devir são unificados, no que podemos considerar mais uma teoria unificada da Natureza.
Ao mesmo tempo que as coisas podem mudar, elas mantêm sua identidade, oculta em uma essência imutável. Assim, a água que flui nos rios transforma-se em nuvens e retorna ao solo como chuva; as sementes que viram árvores reaparecem nelas e, após um tempo, transformam-se em árvores mais uma vez. Mundos decaem e, dos seus restos, novos mundos emergem. A dança dos átomos anima a coreografia da Natureza. Demócrito foi além, propondo que os cinco sentidos fossem resultado da colisão de átomos (de luz, sabor...) com os órgãos sensoriais: “[...] por convenção cor, por convenção doce, por convenção amargo; na realidade, apenas átomos e o vazio.”(Demócrito, Fragmento 32c, mencionado em Graham, Texts of Early Greek Philosophy, p. 597) Através de sua vasta obra, Demócrito criou uma ontologia extremamente fértil, baseada exclusivamente em uma descrição material da realidade. Mesmo assim, foi sábio o suficiente para caucionar contra a ilusão de um conhecimento total: “Na realidade, nada sabemos; pois a verdade esconde-se nas profundezas.”(Demócrito, Fragmento 40, mencionado em Graham, Texts of Early Greek Philosophy, p. 597)
Por volta de 300 a.C., Epicuro retomou as ideias atomistas com força renovada, refinando os ensinamentos de seus antecessores. Sugeriu que átomos fossem absolutamente indivisíveis e que uma enorme variedade de formas fossem derivadas de suas combinações (semelhantes às moléculas modernas, também formadas de átomos): “Ademais, as partículas sólidas e indivisíveis de matéria, que compõem corpos variados e às quais esses corpos revertem, existem em número inconcebível para nossas mentes.”(Epicuro, Letter to Herodotus l, pp. 85-7, )
Mais surpreendente ainda é sua noção de múltiplos universos, ou kosmoi, aglomerados de matéria separados espacialmente: “[...] o número de mundos, alguns semelhantes ao nosso e outros distintos, é também infinito.” É possível argumentar que os mundos (kosmoi) de Epicuro são apenas outros planetas; uma leitura mais cuidadosa, entretanto, mostra que ele considera um universo fechado — ou ao menos o que hoje chamaríamos de galáxia, separado do resto por um vazio espacial: “Um mundo (kosmos) é uma porção circunscrita do universo que contém estrelas, terra e todas as outras coisas visíveis, separado do infinito e terminando em uma porção exterior que pode tanto girar quanto estar em repouso, podendo ser redonda, triangular ou ter qualquer outra forma.”(Epicurus Letter to Pythocles l, pp. 32-4, ) A noção de universos-ilha, e possivelmente até do multiverso, é bem mais antiga do que se supõe.
Mesmo que os átomos dos gregos sejam muito diferentes dos seus herdeiros de hoje, a descrição da matéria como constituída de blocos indivisíveis (o que chamamos de partículas elementares) continua sendo o conceito-chave da física do muito pequeno. Apesar de seu triunfo atual, a ideia atomista passou por muitos altos e baixos no decorrer da história do conhecimento, quase que desaparecendo durante a Idade Média. A situação começou a mudar de fato apenas durante a Renascença, quando alguns dos textos essenciais dos atomistas — em particular, o poema Da natureza das coisas, do poeta romano Lucrécio — foram resgatados das estantes empoeiradas de monastérios e de coleções privadas nos confins da Europa. Como reconta Steven Greenblatt em seu excelente A virada, devemos a ressurgência do atomismo e do materialismo ao intrépido caçador de manuscritos do século XV Poggio Bracciolini, que encontrou uma cópia do manuscrito de Lucrécio em meio a pilhas de papiros esquecidos em um monastério na Alemanha.
Apesar da amnésia generalizada, alguns mantiveram vivas as ideias dos atomistas, mesmo discretamente. Não tanto como seguidores da tradição dialética dos gregos, mas como praticantes, que tentaram revelar os segredos da matéria através de incontáveis destilações, filtragens e misturas. Nenhum relato das várias tentativas de desvendar os mistérios da Natureza no decorrer da história seria completo sem uma discussão da alquimia, de seu papel crucial no desenvolvimento da ciência e da sua influência marcante em alguns dos seus patriarcas mais celebrados, como Robert Boyle e Isaac Newton.
A alquimia representa uma ponte entre o velho e o novo, uma implementação de crenças filosóficas e espirituais na prática científica. Seus conceitos centrais — de que a purificação da matéria e do espírito eram inseparáveis e que as mesmas regras e leis funcionavam no céu e na Terra — inspiraram algumas das mentes mais criativas da história (e, inevitavelmente, uma longa lista de charlatões) a estudar a natureza e a composição da matéria e das suas transformações. Ao tentarem expandir o conhecimento das propriedades fundamentais da matéria e da nossa relação com o cosmos, os físicos modernos continuam uma trilha aberta pelos alquimistas de séculos atrás.

(Gleiser, Marcelo - A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido)
Os sons calam-se e resta apenas o vazio que o preenche. O nada que é tudo.

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publicado às 21:43


A ambivalência da palavra

por Thynus, em 28.01.15
Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: 
a flecha lançada, a palavra pronunciada 
e a oportunidade perdida.
 
A palavra foi dada ao homem para explicar os seus pensamentos, 
e assim como os pensamentos são os retratos das coisas, 
da mesma forma as nossas palavras são retratos dos nossos pensamentos.
Molière
 
A maioria de nós prefere olhar para fora 
do que para dentro de si mesmo.
Albert Einstein 
 
O fruto de cada palavra retorna a quem a pronunciou.
Abu Shakur 
 
A química da gramática é feita de beleza e lodo, que misturada à prática, faz da porção um todo
 
A frase que abre o Evangelho segundo São João, "No princípio era o Verbo" (João 1:1), é completamente verdadeira no que diz respeito ao começo do mundo estritamente humano. Não há dúvida de que a forma de vida estritamente humana surgiu quando foi possível ao homem falar. A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização.
O comportamento humano difere do animal exatamente porque seres humanos podem falar, e animais não. Mesmo os animais inteligentes, por não poderem falar, não podem fazer coisas que nos parecem absolutamente rudimentares, que crianças bem pequenas poderiam fazer assim que aprendessem a falar.
Houve uma interessante experiência realizada pelo grande psicólogo gestaltista alemão Wolfgang Kõhler, que trabalhou por muitos anos com chimpanzés. Kõhler constatou que seus chimpanzés podiam usar pauzinhos como instrumentos para puxar bananas penduradas fora do seu alcance. Eram inteligentes o bastante para ver que esse instrumento — o pauzinho — podia ser usado para encompridar seu braço e alcançar a banana. Mas Kõhler constatou que os animais só usavam o pauzinho para apanhar a banana se os dois, banana e pauzinho, estivessem à vista ao mesmo tempo. Se a banana estivesse • diante deles e o pauzinho atrás, não conseguiam usar o pauzinho; não conseguiam manter a banana em mente o tempo suficiente para olhar em torno e apanhar o pauzinho, e então usá-lo.
O motivo é bastante claro. Temos palavras para banana e pauzinho, que nos permitem pensar sobre esses objetos quando não estão à vista. Até uma criança pequena, conhecendo as palavras "banana" e "pauzinho", tem uma noção conceituai de sua relação, e conseqüentemente pode pensar em "pauzinho" em conjunção com "banana", mesmo quando o pauzinho estiver atrás dela; e poderá lembrar-se disso até apanhar o pauzinho e pegar as «bananas.
O fato de os animais não poderem reter seu conhecimento das coisas por um período longo, e conseqüentemente perderem interesse nelas, explica seu comportamento (para nós) absurdo em muitas situações. Eles interrompem constantemente uma linha de ação para fazer alguma outra coisa, e podem voltar à primeira atividade ou esquecer a coisa toda. Em contrapartida, graças à linguagem, os seres humanos são capazes de perseguir um objetivo, ou de reagir em relação a um princípio ou um ideal por longos períodos de tempo. Em certo sentido, podemos dizer que a linguagem é um recurso que permite aos seres humanos continuarem a fazer a sangue frio o bem e o mal que os animais só conseguem fazer a sangue quente, sob influência de alguma paixão.
Essa continuidade é ilustrada não apenas na vida de seres humanos individuais; é ilustrada também de maneira muito convincente na vida das sociedades inteiras, onde a linguagem pode ser descrita como um recurso para conectar o presente com o passado e o futuro. Se a concepção lamarquiana da herança das características adquiridas é totalmente inaceitável, e biologicamente irreal, é verdadeira no nível social, psicológico e lingüístico: a linguagem fornece-nos meios para tirarmos vantagens dos frutos da experiência passada. Existe uma coisa chamada herança social. As aquisições de nossos ancestrais são-nos transmitidas pela linguagem escrita e falada, e por isso podemos herdar características adquiridas não pelo plasma do embrião mas pela tradição.
Infelizmente, a tradição pode transmitir tanto as coisas boas quanto as más. Pode transmitir preconceitos e superstições, assim como ciência e códigos éticos decentes. Mais uma vez vemos a estranha ambivalência desse dom extraordinário. É como os contos de fadas, em que há uma fada boa e outra má, mas nesse caso o dom da fada boa, que é esse surpreendente dom da linguagem, também é o dom da fada má. É uma das ironias do nosso destino que a coisa maravilhosa que Helen Keller descreve tão eloqüentemente como doadora de vida e criadora do pensamento também seja uma das coisas mais perigosas e destrutivas que temos.
No começo da vida humana, como uma aventura estritamente humana, havia o Verbo. Mas o que acontece quando não há linguagem? O que acontece em crianças bem pequenas e animais?
Qual a vida do que pode ser chamada experiência imediata? Vale a pena fazer aqui uma pequena digressão para analisar algumas das idéias da filosofia hindu. Os filósofos hindus sempre afirmaram que a coisa que cria nosso mundo especificamente humano é o que chamam nama-rupa (nome e forma). Nome pode ser definido como forma subjetivizada, e forma é a projeção do nome no mundo exterior; e as duas coisas criam para os seres humanos esse mundo de objetos separados que existem no tempo. Contudo, o indivíduo iluminado vai além da gramática. Ele tem o que podemos chamar "uma gramática que transcende a experiência" que lhe permite viver na consciência da continuidade divina do mundo, e ver um continuamente manifesto em muitos. A pessoa iluminada existe, por assim dizer, depois do surgimento da linguagem; vive na linguagem e depois passa para além dela. Mas que espécie de mundo existe antes que a linguagem seja introduzida? Que tipo de mundo é o mundo da experiência imediata não-verbalizada?
William James falou no mundo da experiência imediata, numa frase muito característica, como "uma confusão cheia de cores e zumbidos"' dando idéia de que o animal e a criancinha vivem num caos de sensações. Mas investigações recentes na etologia dos animais e nas percepções de crianças pequenas revelaram que a experiência imediata realmente não é tanto zumbido e cor quanto James supunha. O que emerge mais surpreendentemente das experiências científicas recentes é que a percepção não é uma recepção passiva de material do mundo exterior; é um processo ativo de seleção e imposição de padrões. O sistema nervoso dos animais e dos seres humanos é projetado de tal maneira que automaticamente peneira, daquela confusão de cores e zumbidos, aqueles elementos biologicamente úteis. Quanto aos animais, ele seleciona dessa confusão precisamente os elementos que os ajudam a sobreviver; o animal vê somente duas classes de objetos — os comestíveis e os perigosos.
Uma das coisas que têm sido reveladas no estudo do universo animal é o quanto muitos deles são limitados e estranhos. O grande biólogo alemão barão J. J. con Uexküll escreveu muito sobre o que chamava o Umwelt dos animais, os diferentes universos em que vivem criaturas de diferentes classes e espécies. O assunto é fascinante. Faz com que percebamos como é arbitrária nossa idéia da realidade, embora nossa idéia da realidade seja incomparavelmente maior do que a do mais alto dos animais inferiores. Deus sabe que tipo de mundo habitaria uma criatura com sentidos mais eficientes e mente melhor do que a nossa!
Como exemplo do quanto são estranhos alguns desses universos animais, quero citar o caso da rã, que me foi comunicado recentemente por Patrick D. Wall, do Instituto de Tecnologia de Massachussets. Aparentemente,  as novas pesquisas com rãs indicam que, embora elas tenham olhos mecanicamente muito bons, sua visão é extremamente limitada. Obviamente a confusão colorida e cheia de zumbidos chega aos seus olhos, mas o que seu sistema nervoso seleciona, das inumeráveis sensações que chegam, é limitado àquilo que se move. Podemos imaginar uma rã sentada sobre uma folha de lírio aquático, olhando a água. Há um peixinho nadando, e enquanto ele nada a rã o enxerga; o peixinho se imobiliza por um momento, e imediatamente some do universo da rã; quando recomeça a nadar, voltar a entrar no mundo da rã, e assim prossegue. O universo da rã deve, pois, ser absolutamente estranho, uma contínua emergência e desaparecimento de objetos.
Qual seria a filosofia de uma rã — a metafísica dos aparecimentos e desaparecimentos?
Talvez haja um Platão das rãs, que invente os mais extraordinários sistemas para explicar essa fantástica realidade.
Universos muito mais limitados são os de animais de níveis de organização ainda mais baixos que a rã. Mesmo animais como cães e macacos têm universos bem diferentes do nosso.
Simplesmente não percebem certas coisas que para nós são muito importantes. O cão não percebe o pôr-do-sol ou as flores numa árvore, que nos parecem muito belos. Apenas cheira o tronco da árvore, e encontra nela algo muito satisfatório.
Quando chegamos aos seres humanos, vemos que o sistema nervoso faz uma seleção dessa confusão de zumbidos e cores, da mesma maneira que o sistema nervoso animal, mas não escolhe tão rigorosamente. Pela consciência humana passa muito mais do que jamais passará pela do animal,
mesmo os animais superiores. Na mente humana penetra uma quantidade tão imensa de realidade, há tamanha profusão de material, que nisso James tem razão: apesar da seleção neurológica e da abstração, a profusão é uma confusão. E é aqui que entra a linguagem.
Processamos um nível mais alto de abstração por meio da linguagem, e selecionamos dessa maneira consciente, semiconsciente ou pré-consciente aqueles materiais que nos são biologicamente úteis; e, como não estamos inteiramente à mercê de nossas necessidades biológicas, também escolhemos aqueles materiais que são importantes socialmente, ou do ponto de vista estético, ou seja o que for.
Os materiais que obtemos pela abstração são imediatamente traduzidos por símbolos que podemos compreender. Evidentemente, temos essa tendência inata de transformar todas as nossas experiências em símbolos mais ou menos equivalentes, bem como uma necessidade inata de ordem e significação.
Os símbolos podem ser do tipo nãoverbal, mas a linguagem é, de longe, o sistema simbólico mais organizado. E é pela linguagem que impomos uma ordem simbólica e um significado simbólico à profusão que, como foi apreendida diretamente, nos parece terrivelmente confusa.
Esse processo de abstração e seleção nos é extremamente útil do ponto de vista biológico.
Na verdade está bastante claro que não poderíamos viver sem ele. É-nos útil, como cientistas e tecnólogos, no nosso esforço de controlarmos o ambiente. Também nos é útil como seres sociais.
Mas aqui chegamos mais uma vez à ambivalência do processo lingüístico e simbólico. Se impomos ordem e significado à nossa experiência imediata, é-nos igualmente fácil impor uma ordem e um significado mau ou bom. Saboreamos o processo de simbolização; é como se fosse uma espécie de prazer, a arte pela arte. Mas muitas vezes, no nosso entusiasmo de impor ordem e significado à experiência imediata, através de símbolos, fazemos uma enorme confusão de experiências e criamos um padrão simbólico que nos mete numa série interminável de problemas.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)

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publicado às 19:05


POLÍTICAS DO RESSENTIMENTO

por Thynus, em 28.01.15
De todas as formas de negação da falta que nos define, talvez a mais ridícula sejam as políticas do ressentimento. Estas se caracterizam por afirmar que tudo que nos molesta tem causa política e negam nosso direito “político” à plenitude. Para esses picaretas da terapia política, a verdadeira clínica é a política, e não a do consultório. E o objetivo dela é a realização da plenitude social.
São políticas do ressentimento toda forma de política que afirma termos direito à felicidade (e não à sua procura, como diz sabiamente a constituição dos Estados Unidos). Se não sou feliz, se não sou capaz de reduzir minha pobreza e sofrimento, a culpa é seguramente de alguém que não sou eu. Claro que nada é fácil, mas as políticas do ressentimento servem para negar nossa responsabilidade em nossa miséria. Todo mundo sabe que a única forma de alguém experimentar um pouco de dignidade é quando somos responsáveis por nossa sobrevivência. Qualquer pai e mãe de filhos mimados e respondões sabe quando está diante de uma afirmação vazia: basta que paguemos tudo para eles para que não tenham a mínima noção do que é responsabilidade.
Mas países como os europeus ocidentais, talvez a civilização mais fútil que já andou sobre a Terra, negam esse fato, mergulhando num poço de políticas do ressentimento, levando sua população a crer que podem abolir a necessidade de trabalho sem garantias, como um dia abolimos a escravidão.
Se Nietzsche havia, um dia, identificado o ressentimento por trás das religiões, seguramente, hoje, ele o identificaria por trás da política como forma de redenção da vida. Se o sol é indiferente ao nosso sofrimento, deve sê-lo por algum preconceito contra nosso direito “político” a sermos o centro do universo.
Nada cresce onde há ressentimento transformado em direito.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé -  A Era do Ressentimento)

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publicado às 19:04


AS VAIDADES

por Thynus, em 28.01.15
“UMA DE NOSSAS TRAGÉDIAS ESTÁ
NO FATO DE QUE QUASE SEMPRE É O
FRACASSO QUE TORNA A VIDA REAL.”
(L.F. Pondé)

Há muito que leio a Bíblia, apesar de ter nascido sem o órgão da fé. Uma ideia que, para mim, é insuperável, e muito estranha ao mundo contemporâneo, é a de que nada existe de novo embaixo do sol. Nosso mundo, tomado pela moda como ontologia (a essência do mundo contemporâneo é seu caráter lifestyle como modo de ser), tem dificuldade em apreender o que seriam grandes rotinas que se repetem desde muitos milênios e que se impõem a nós.
Claro que mudanças acontecem. As tecnologias avançam, a Medicina avança, as ideias políticas circulam. Mas a questão sobre um nível perene da realidade se coloca noutro plano, aquele de processos que se repetem e nos fazem perguntar se há algo de novo sob o sol, como nos fala o sábio bíblico do texto Eclesiastes. Nascer, crescer, plantar, colher, reproduzir e morrer são algumas marcas desses processos ou instantes. Diante de uma sociedade afeita a modas, pergunto-me se a experiência cotidiana não está contida numa incapacidade humana de mudar nossa condição na Terra: por que estamos aqui? Para onde vamos? Qual é o sentido de tanta labuta? Normalmente, diante de um ataque cardíaco ou da morte de um ente amado, a sensação de que a tagarelice contemporânea e sua excessiva crença em si mesma mais atrapalham do que ajudam é gritante.
Outro exemplo pontual é a tentativa de reinventar as relações entre os seres humanos, definindo-as como políticas ou construções sociais. Ridículos chegam a afirmar que podemos nos definir até no sexo. Caminhamos como se a vida fosse livre como a escolha de um desodorante, apesar de que, no silêncio do dia a dia, nos afogamos na incapacidade de dar nomes aos nossos impulsos e sentimentos. Entre a crença nos instintos como símbolo de algum equilíbrio natural (a natureza é o lugar do desequilíbrio, e não do equilíbrio!) e a utopia de um homem inventado por ideias, fracassamos diante da necessidade de comer, dormir, nascer e morrer, apesar do grito geral a favor de um mundo de luxos e direitos.
A pergunta no livro Eclesiastes acerca da vaidade como fundo de tudo sob o sol está ancorada no significado mais profundo da palavra latina (vanitas) que traduz neste livro bíblico a expressão do hebraico antigo “nuvem de nada, vento que passa”. Vanitas, antes de ser uma luta contra o envelhecimento e a falta de beleza, significa o vazio que nos ronda e que se materializa em nossos limites tão indesejados. No mundo contemporâneo, pensamos que podemos votar contra o medo, o fracasso, a inveja, a mentira e a hipocrisia. Essa negação do fato de que não existe almoço de graça prepara a negação maior de que, no limite, não somos o que a Psicanálise chama de “ser da falta”. Como crianças malcriadas que atingiram os 40 anos, gritamos contra a “injustiça” do universo contra nós e declaramos esse vazio uma falta de respeito. A maquiagem como “mentira da beleza” é menos enganosa do que uma cultura que gosta de se reafirmar como livre da gravidade e do trabalho de sol a sol. O suor é, assim, declarado uma forma de preconceito contra nosso direito à eternidade.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé -  A Era do Ressentimento)

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publicado às 19:02

 
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais
 na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Fernando Pessoa
 
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, 
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
William Shakespeare
 

Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?
Confúcio
 
A morte não é nada para nós, pois, 
quando existimos, não existe a morte, 
e quando existe a morte, não existimos mais.
Epicuro
 

Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte.
Arthur Schopenhauer
 
Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte.
George Bernard Shaw
 
Aprende a viver bem, e bem saberás morrer.
Confúcio 
 
 
Schopenhauer enfrentou a morte como tudo na vida: com extrema lucidez. Sem esquivar-se, sem entregar-se a fáceis crenças espirituais, continuou racional até o fim. E pela razão, disse ele, que descobrimos a morte: vemos os outros morrerem e, por analogia, concluímos que também morreremos. E é pela razão que chegamos à conclusão óbvia de que a morte é o fim da consciência e a destruição irreversível do eu.
Disse também que há duas formas de encarar a morte: pela razão ou pela ilusão e a religião, com sua esperança de que existe consciência e vida após a morte. Assim, a existência da morte e o medo dela são o pai do pensamento e a mãe da filosofia e da religião.
Por toda a vida, Schopenhauer lidou com a onipresença da morte. Em seu primeiro livro, escrito aos vinte e poucos anos, afirmou: "A vida é apenas a morte sendo evitada e adiada. (...) Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça e assim lutamos com ela a cada segundo".
Como ele descreveu a morte? Sua obra traz muitas metáforas sobre o tema: somos ovelhas pastando e a morte é o açougueiro que escolhe com cuidado uma ovelha e depois outra; ou somos como crianças num teatro ansiosas para a peça começar e, felizmente, sem saber o que vai nos acontecer; ou, ainda, somos marinheiros evitando os rochedos e remoinhos do mar, seguindo para o grande e catastrófico naufrágio final.
As descrições que faz do ciclo da vida mostram sempre uma viagem inexorável e desesperada.
Como o nosso começo é diferente do fim! No começo, temos o delírio do desejo e o êxtase do prazer sensual; no fim, a destruição de todos os órgãos e o cheiro do cadáver em decomposição. O caminho, do nascimento à morte, é sempre um declive no bem-estar e na alegria. Infância sonhadora, juventude alegre, vida adulta difícil, velhice frágil e em geral lastimável, a tortura da última doença e, finalmente, a agonia da morte. Não parece que a vida é um tropeço cujas consequências aos poucos ficam mais óbvias?
Será que Schopenhauer temia a morte? Em seus últimos anos, demonstrou muita calma em relação a ela. De onde vinha essa calma? Se o medo da morte é onipresente, se a morte nos ameaça a vida inteira, se é tão temida que muitas religiões surgiram para diminuir esse medo, então como o isolado e leigo filósofo conteve tal medo? Seus métodos se baseavam em analisar as origens da angústia da morte. Tememos a morte porque ela é estranha e desconhecida? Então, diz ele, estamos enganados, pois a morte é muito mais conhecida do que pensamos. Não só sentimos o que ela é todos os dias, no sono ou em estados de inconsciência, mas todos nós passamos por um estado de não-ser antes de sermos concebidos. Tememos a morte porque ela é má? (Pense nos horríveis desenhos e ilustrações que costumam representar a morte.) Nesse ponto, também, ele insiste que estamos enganados: "É absurdo considerar a não existência como ruim: cada mal, como cada bem pressupõe existência e consciência. (...) e claro que não é ruim perder o que não se pode ter". O filósofo pede para lembrarmos que a vida é sofrimento, um mal em si. Então, será ruim perder uma coisa ruim? A morte, diz ele, deveria ser considerada uma benção, um alívio da inexorável angústia da existência bípede. "Deveríamos saudar a morte como um fato feliz e desejado, em vez de, como costuma ser, com medo e tremor. Deveríamos insultar a vida por interromper nossa agradável não existência",
e ele faz sua polêmica afirmação: "Se batermos nas lápides e perguntarmos aos mortos se querem voltar à vida, balançarão a cabeça dizendo que não". E cita frases parecidas de Platão, Sócrates e Voltaire.
Além de seus argumentos racionais, Schopenhauer tem mais um, que beira o misticismo. Ele namora (mas não se casa) com a ideia de uma espécie de imortalidade. Acredita que nossa natureza interior é indestrutível porque somos apenas uma manifestação da força da vida, a vontade, a coisa em si que continua existindo eternamente. Assim, a morte não é o fim, pois, quando nossa insignificante vida acaba, nós nos reintegramos com a força vital primária e atemporal.
A ideia de reintegrar-se a essa força vital após a morte dava um alívio a Schopenhauer e a muitos leitores dele (como, por exemplo, Thomas Mann e seu protagonista Thomas Buddenbrooks), mas, como não implica um eu contínuo, muitos acham que é apenas um pequeno consolo. (O consolo que Thomas Buddenbrooks sente também é passageiro e acaba poucas páginas depois.) Schopenhauer criou um diálogo entre dois filósofos gregos em que a ideia da imortalidade não é muito confortadora. Na conversa, Filaleto tenta convencer Trasímaco (um grande céptico) que a morte não assusta, pois a essência humana é indestrutível. Os argumentos de ambos são tão lúcidos e firmes que o leitor fica sem saber o que pensa o autor. O céptico Trasímaco não se convence e dá a palavra final.
FILALETO: — Quando você diz eu, eu, eu quero existir, não é só você quem diz. Tudo diz, tudo o que tiver o menor traço de consciência. É o grito não do indivíduo, mas da própria existência. (...) ele apenas admite o que você e sua vida são realmente, ou seja, a vontade universal de viver. A questão vai lhe parecer pueril e muito ridícula.
TRASÍMACO: — Você é pueril e ridículo como todos os filósofos, e se um homem da minha idade perde quinze minutos de conversa com um tolo desses, é apenas porque me diverte e passa o tempo. Tenho mais o que fazer, adeus.
Schopenhauer tinha outro método para afastar a angústia da morte: quanto mais realização pessoal houver, menor será a angústia da morte. Se alguns acham que sua ideia de unidade universal é fraca, esse outro argumento é, sem dúvida, forte. Médicos que tratam de pacientes terminais já notaram que a angústia é maior nos que acham que tiveram uma vida mal realizada. A sensação de completude, de ter "consumado a vida", como diz Nietzsche, reduz a angústia da morte.
E o que diz Schopenhauer? Será que ele viveu bem e bastante? Cumpriu sua missão? Ele tinha certeza que sim. Veja o final de suas notas autobiográficas. 
Sempre quis morrer rápido, pois quem viveu só a vida inteira saberá avaliar melhor esse tema solitário. Em vez de sumir em meio às tolices e bufonerias preparadas para os lastimáveis bípedes humanos, vou terminar feliz, consciente de estar voltando para onde vim (...) e de ter cumprido minha missão.
O mesmo sentimento (orgulho de ter percorrido seu talentoso caminho) aparece em versos curtos que fecham seu último livro.
Estou cansado, no final da estrada, 
A fronte exausta mal consegue suportar os louros.
Mesmo assim, vejo com alegria o que fiz, 
Sem me intimidar com a opinião dos outros.
Quando foi lançado seu último livro, Parerga e Paralipomena, ele constatou: — Estou muito satisfeito de ver o nascimento de meu último filho. É como se tirassem de meus ombros um peso que carrego desde os vinte e quatro anos. Ninguém imagina o que seja.
Na manhã do dia vinte e um de setembro de 1860, a criada preparou o café da manhã de Schopenhauer, limpou a cozinha, abriu as janelas da casa e saiu. O filósofo já havia tomado seu banho frio e estava lendo no sofá na sala, que era um cômodo grande e arejado, mobiliado com simplicidade. Ao lado do sofá, no tapete preto de pele de urso estava deitado Atman, seu querido poodle. Na parede do sofá havia um grande retrato a óleo de Goethe, vários desenhos mostrando cães, Shakespeare e o imperador romano Cláudio. Em outras partes da sala havia daguerreótipos de Schopenhauer; na escrivaninha, um busto de Kant e, num canto da mesa, um busto de Christoph Wieland, filósofo que incentivou o jovem Schopenhauer a estudar filosofia. Num canto, ficava a estimada estátua dourada de Buda.
Pouco depois de a criada sair, o médico que lhe fazia visitas periódicas entrou na sala e encontrou seu cliente caído no canto do sofá. Um "ataque do pulmão" (embolia pulmonar) o levara desse mundo, sem dor. Seu rosto não estava alterado nem mostrava a agonia da morte.
O funeral num dia chuvoso foi mais desagradável do que o normal, devido ao cheiro de carne putrefata no pequeno e fechado necrotério. Dez anos antes, Schopenhauer tinha dado instruções claras para ser enterrado pelo menos cinco dias após a morte, até a decomposição começar. Talvez esse tenha sido um último gesto de misantropia, ou talvez de medo de sofrer uma catalepsia, interrupção temporária das funções vitais e ser enterrado vivo. O necrotério ficou tão cheio e o cheiro tão forte, que várias pessoas tiveram de sair durante o longo e empolado obituário feito por seu testamenteiro Wilhelm Gwinner, que começou dizendo:
Este homem que viveu entre nós, mas se manteve um estranho, era possuidor de raros sentimentos. Ninguém aqui presente está ligado a ele por laços de sangue. Morreu isolado como viveu.
Sobre o túmulo de Schopenhauer foi colocada uma pesada lápide de granito belga. O testamento pedia que dela constasse apenas seu nome, mais nada — nem data, nem ano ou palavra.
O homem enterrado naquele modesto túmulo queria que sua obra falasse por ele. (1)

(Irvin D. Yalom - A Cura de Schopenhauer)

(1) "Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal." ((Luc Ferry - "A sabedoria dos mitos gregos") Somos convocados, portanto, para a vida e a vive-la com ENTUSIASMO: "O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo" (Honoré de Balzac).

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publicado às 15:21

Todos temos um bruxo ou bruxa dentro de nós. Queremos poder transformar momentos ruins em bons. Gostaríamos de ter a varinha mágica que mudaria nossa vida.
Paola Rhoden
 
Contos de fadas são a pura verdade; Não porque nos contam que dragões e bruxas existem, mas porque nos mostram que eles podem ser vencidos.
G.K. Chesterton
 
E por falar em bruxas...
Elas andam soltas ….
Elas habitam minha cabeça,
minha alma e meu coração….
Elas existem sim!!!
Elas povoam a minha imaginação….
Elas encantam minha vida e alegram meu dia…
Elas são pura magia!!!!!
Vi Dick  
 
 
Os mouros que viviam na região portuguesa de Évora mora vam em boas casas, tinham fartura, pois seu rei, Praxadopel, era benévolo e sábio. Os cristãos, que habitavam as casas brancas, com cruzes de madeira, eram também felizes.
Esse monarca mouro — Praxadopel — era dono de riquezas fabulosas. Em Montemur, região de flores douradas, possuía um castelo que era morada de anjos, talvez, tal a sorte de bonança que de lá se adivinhava.
Desse castelo hoje só ha ruinas, pedras sobre pedras, uivos de lobos e chacais. Chama-se hoje em dia o "Castelo de Giraldo". Dá arrepios o velho castelo em ruinas. Mas, por que esse monte de pedras é importante para nosso relato sobre a Bruxa de Évora? E que nele, no fundo, enterrada no meio das pedras, está a sepultura de Montemur. Nela foram encontrados os restos mortais de sete pessoas e os pergaminhos escritos por Lagarrona, a feiticeira de Évora.
Frei Antão de Sis, estudioso dos fenômenos mágicos e de feitiçaria, através desses pergaminhos encontrou a casa da feiticeira, ainda em pé, apesar dos séculos.
E essa casa é diabólica. . . No meio dela havia uma cova da altura de um homem. Pela banda de dentro era pintada, em toda a volta, de lagartos, cobras e lagartixas. Do lado de fora, viam-se quatro sapos, e várias figuras de meninos, pequenos e louros, com sorriso sádico, tendo nas mãos molhos de varinhas de ervas com os quais eles ameaçavam os sapos. Num dos cantos dessa casa mal-assombrada, a figura de um ser muito estranho — meio monstro meio homem, como um cavalo-homem feito em pedra. O que representaria? Um centauro?
Uma estátua de mulher-serpente repousava noutro canto. Sereia negra? Mágica figura para bruxarias?
Pelas paredes da casa podiam ser vistas muitas pinturas de caracóis, bichos peçonhentos, rãs; escaravelhos sagrados, símbolos do Egito mágico, vespas, carochas, tudo isso desenhado naquele antro de feitiçaria.
O chão era todo ladrilhado de negro e um frio envolvia todo o ambiente. Um letreiro pintado ao chão continha a inscrição fa tídica: “O primeiro a abrir esta cova verá coisas jamais vistas”.
— Cava por diante para que resistas
Ao grande temor que teu peito prova.
Verás os sortilégios mágicos que prendem os homens,
O filtro do amor que amarra as mulheres.
Não temas, não temas, não mostres temor:
Acharás sucessos, magia e amor.
E por certo em tudo será vencedor."
Lagarrona, a grande bruxa, tinha, ao escrever esta inscrição, alguma coisa em mente: deixar seus segredos para quem soubesse interpretá-los.
E Frei Sis sabia analisá-los, pois desde que entrara para o convento estudava tudo sobre bruxaria e magia. Assim, as interpretações deste pergaminho, hoje, pela primeira vez reveladas, colocarão vocês, amigos leitores, de posse de um conhecimento esotérico antigo, tão fabuloso como os hieróglifos das pirâmides.
Lagarrona nestes escritos deixou a interpretação das cartas, o método de deitá-las para adivinhar o futuro, feitiços para o amor, bruxarias para ganhar dinheiro, ter sorte no jogo, adivinhações por meio de bacias d'água, de espelhos mágicos, por meio de cebolas, de perfumes.
Durante séculos estes segredos, gravados no pergaminho, ficaram na torre do Castelo de Malta, pois o sacerdote que os encontrou, após traduzi-los para o português, ocultou-os em uma arca, a sete chaves.
Um certo Fausto, tido como homem infeliz, que desejava muito ser amado pelas mulheres e não conseguia seu intento, limpando a velha torre, cheia de teias de aranha e morcegos, achou os escritos antigos. Desde esse dia sua vida mudou. Tornou-se rico e famoso. Foi o primeiro privilegiado da sorte da Bruxa de Évora. E muitos o seguiram.
Tão rico como Praxadopel esse homem ficou. Mas, ao tentar escavar as paredes da casa da Bruxa de Évora, para adquirir maiores riquezas, morreu mordido por uma cobra venenosa. Diz a lenda que essa cobra-encantada nada mais era do que a própria bruxa, encarnada em cobra, como o Boitatá de nossos índios, que nada mais é do que uma feia mulher que se modifica em cobra para comer os bichos pequenos e os seres humanos. . .
Lendas?
Superstição? Sabemos apenas como Shakespeare, "não creio em bruxas, mas que elas existem, lá isto existem..."

(SÃO CIPRIANO, O LEGÍTIMO CAPA PRETA)
A feiticeira ou bruxa de Évora é uma das personagens mais populares e misteriosas do folclore e das lendas da magia

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publicado às 18:45

Estamos na idade mídia, com cabeças de idade média. Somos uma geração midieval.
 
Entender a IDADE MÉDIA não quer dizer que esta é inferior a IDADE MODERNA. Mas é perceber que a classificação dada foi feita pelos modernos, que tinham por objetivo inferioriza-la, contudo muitos ainda vivem com rotulações e classificações absurdas.
Idade Média - Idade moderna - rotulos
 
Foram os árabes os primeiros a compreender que Aristóteles era um dos
grandes filósofos. Enquanto o mundo ocidental mergulhava na Idade das Trevas, o
mundo islâmico continuou a se desenvolver intelectualmente.
(Paul Strathern - ARISTÓTELES em 90 minutos)

Quando a Bíblia uniu-se ao poder, o que conseguimos foi
uma era de progresso, de esclarecimento, de felicidade e
de plenitude? Teria sido ótimo, mas não — e não foi por acaso
que a Idade Média recebeu o apelido de Idade das Trevas. Foi
criada a Inquisição, o progresso praticamente ficou paralisado,
reinava a intolerância, e quem ousava utilizar o cérebro
livremente acabava torturado equeimado em fogueiras — ad
majorem Dei gloriam, é claro.

(ANDRÉ CANCIAN - ATEÍSMO & LIBERDADE )
 

 
Já demonstramos que elas são capazes de remover o orgão masculino, não de fato arrancando-o do corpo humano, mas ocultando-o através de algum encanto, do modo como já descrevemos. Contaremos aqui alguns exemplos desses casos.
Na cidade de Ratisbon, vivia um jovem que, depois de uma briga com uma certa menina, desejando abandoná-la, ficou sem o membro. Foi-lhe, digamos, lançado algum encanto de forma que em seu corpo ele nada via ou tocava - era perfeitamente liso. Preocupado com o que lhe ocorrera, foi a uma taberna beber vinho. Depois de lá sentado por alguns momentos, entahulou conversa com uma das mulheres da taberna e acabou contando-lhe toda a sua tristeza, explicando-lhe tudo, e mostrando a ela como seu corpo ficara. A mulher, astuta, perguntou se ele não suspeitava de ninguém que o tivesse encantado. Ele então falou-lhe da tal menina, revelando à mulher toda a história, ao que ela o aconselhou.
- Se não bastar a persuasão, é melhor que uses de alguma violência para fazê-la restaurar a tua saúde.
E assim, naquela mesma noite, o jovem ficou a postos no caminho por onde a bruxa costumava passar. Quando ela se aproximou, interpôs-se-lhe no caminho e suplicou-lhe que restituisse a saúde de seu corpo. A moça sustentou que era inocente e que nada sabia a respeito.
Ele então jogou-se em cima dela e, enlaçando-a pelo pescoço com uma toalha, avisou:
- A menos que me devolvas a minha saúde, hás de morrer nas minhas mãos.
A bruxa, impossibilitada de gritar, e com o rosto já inchado e lívido, balbuciou:
- Deixa-me ir que vou te curar.
O jovem afrouxou a toalha e a bruxa imediatamente tocou-o com a mão entre as coxas, dizendo:
- Agora tens de volta o que desejas.
O jovem contou depois, que, mesmo antes de olhar ou palpar, sentiu que o membro lhe fora restituído pelo mero toque da bruxa.

Experiência semelhante é narrada por certo Padre venerável da Casa Dominicana de Spires, muito conhecido na Ordem pela honestidade de sua vida e pela sua instrução.
- Certo dia - disse ele - estava eu no confessionário e aproximou-se um jovem que, em meio à sua confissão, pesarosamente, contou que perdera o membro. Atônito, e não querendo dar-lhe crédito
com facilidade, pois que é prova de imprudência, segundo os sábios, acreditarmos em tudo o que ouvimos, pedi-lhe uma prova do que me dizia. O jovem então tirou as roupas e pude ver que nada havia em seu corpo. Perguntei-lhe portanto se suspeitava de alguém que o tivesse enfeitiçado; ao que ele respondeu:
"- Sim." Mas por uma moça que estava ausente e que vivia em Worms.
"- Aconselho-o então", disse-lhe eu, "a procurá-la o mais depressa possível e tentar convencê-la, mesmo com palavras amáveis e com promessas, a desfazer esse encanto.
"E assim ele fez. Depois de alguns dias retornou e me agradeceu. Estava completamente recuperado. Embora acreditasse em suas palavras, tive a prova, mais uma vez, pelos meus próprios olhos."
Ora, para maior clareza do que já relatamos a respeito desse assunto, é preciso reparar em alguns pontos. Primeiro, não se há de acreditar que o membro é de fato arrancado do corpo. Ele é apenas ocultado por alguma arte prestidigitatória do diabo de sorte a não ser visto e nem sentido. O fenômeno é provado pelas autoridades e por argumentos; disso tratamos antes. Convém relembrar que Alexandre de Hales afirma que Fascinação, em seu verdadeiro sentido, é uma ilusão diabólica nunca causada por qualquer alteração material: só existe na percepção do iludido, seja em seus sentidos interiores, seja em seus sentidos exteriores.
Com referência a essas palavras, é preciso ressaltar que, no caso em consideração, dois dos sentidos exteriores - o da visão e o do tato - foram iludidos. A ilusão não se deu nos sentidos interiores - no senso comum, na fantasia, na imaginação, no pensamento e na memória. (Lembre o leitor que S. Tomás diz serem estes só quatro, ao considerar como um só a fantasia e a imaginação. E não sem razão: pois pouca diferença há entre imaginar e fantasiar. (Consultar S. Tomás, 1, 79.) Os sentidos interiores são iludidos quando se quer não ocultar algo de um homem, mas fazer com que ele veja algum espectro, esteja ele dormindo ou acordado.
Quando um homem acordado vê coisas que sob outros aspectos não são o que parecem - como ver alguém devorar um cavalo e o cavaleiro, um homem transformado em fera, ou então se julgar transformado numa fera e sentir necessidade de juntar-se a elas - os sentidos exteriores são empregados pelos sentidos interiores. Pois pelos poderes dos demônios, com a permissão de Deus, as imagens há muito retidas nesse repositório de lembranças que é a memória são de lá retiradas e apresentadas à faculdade da imaginação. Cumpre aditar que tais imagens não são retiradas do entendimento intelectual mas sim da memória, que se situa atrás, na cabeça. São assim de tal forma revividas na imaginação que o homem recebe o impulso inevitável de imaginar, por exemplo, uma fera ou um cavalo, quando estas são as imagens de lá retiradas pelos demônios. E se vê forçado a pensar que de fato está a enxergar aquela fera ou aquele cavalo. E isso parece ocorrer por causa da força impulsiva do diabo que opera por meio de imagens.
Não é de admirar que os demônios sejam capazes de tais prodígios, quando certos fenômenos naturais anormais apontam para o mesmo resultado, como no caso dos loucos desvairados, e dos maníacos e de alguns bêbados, incapazes de discernir entre o sonho e a realidade. Os loucos julgam ver coisas maravilhosas, tais como bestas e outras feras tenebrosas, quando na realidade nada estão a ver. Consultar a questão Se as Bruxas são Capazes de Virar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio, onde muito se falou a respeito.
E por fim, a razão é evidente por si mesma. Como o diabo exerce o seu poder sobre as coisas inferiores, à exceção da alma, é capaz de nelas causar certas alterações, quando Deus o permite, de sorte a que pareçam o que não são. E tal efeito é por ele conseguido ao confundir ou ao iludir o órgão da visão, fazendo com que um objeto claro fique turvo - como depois do choro, quando a luminosidade, em virtude dos humores recolhidos, parece diversa de antes. Ou então ao agir sobre a faculdade da imaginação através da transmutação das imagens mentaiS, conforme já se explicou. Ou ainda ao ativar vários humores de sorte a fazer com que elementos telúricos e secos pareçam ígneos
e aquosos - como alguém que despe a todos dentro de casa sob a impressão de estarem a nadar, dentro d'água.
Cabe ainda indagar, com referência a tais métodos demoníacos, se essa espécie de ilusão pode indiferentemente acontecer aos bons e aos maus, já que certas enfermidades do corpo, conforme se há de mostrar mais adiante, são causadas pelas bruxas mesmo nos que se encontram em estado de graça. Cumpre declarar que não, acompanhando as palavras de Cassiano na segunda Collatione do Abade Sereno. Aonde é necessário concluir que todos assim iludidos cometem, presumivelmente, um pecado mortal. Pois que esse autor diz, conforme se depreende das palavras de S. Antônio: "O diabo não penetra de forma alguma no intelecto ou no corpo de qualquer homem, nem tem o poder de entrar nos pensamentos de qualquer um, salvo se esse homem já se achava despojado de todos os pensamentos santos, já completamente despido de toda e qualquer contemplação espiritual."
Tal opinião concorda com a de Boécio ao dizer, no De Consolatione Philosophiae: "Demos a vós armas tais que, se não as tivésseis jogado fora, estaríeis preservados da enfermidade."
Conta-nos também Cassiano, na mesma obra, de duas feiticeiras pagãs, que, cada uma à sua maneira, enviaram à cela de S. Antônio uma sucessão de demônios, pelo ódio que cultivavam contra ele por
ser muito procurado por várias pessoas todo dia. E tais demônios o assaltaram com o esporão das mais agudas tentações. Mesmo assim o santo homem resistiu-lhes, fazendo o Sinal-da-Cruz na testa e no peito e prostrando-se na mais fervorosa das orações.
Podemos dizer, portanto, que todos os que são iludidos por demônios, para não falar do padecimento de enfermidades físicas, carecem do dom da graça divina. Porque está escrito (Tobias, VI): "O demônio tem poder sobre os que se submetem à luxúria."
Tal também é consubstanciado pelo que dissemos na Primeira Parte, na questão Se as Bruxas são Capazes de Transformar os Homens em Bestas. Contamos da menina que fora transformada em égua e de que modo ela e todos os demais foram persuadidos do fenômeno, exceto s. Macário Pois o diabo é incapaz de iludir os sentidos dos homens santos: quando a menina foi trazida até ele, o santo viu-a como mulher e não em forma de égua, enquanto todos diziam que era com uma égua que ela se parecia. E o santo, através de orações, libertou-a e aos outros daquela ilusão, dizendo que aquilo lhe acontecera porque ela não dera a devida atenção ao sagrado, e nem usara como deveria da Santa Confissão e da Eucaristia. Na verdade, fora enfeitiçada por uma judia, também feiticeira, a pedido de um jovem que lhe fizera uma proposta obscena que recusara. A bruxa, pelos poderes do diabo, transformou-a então numa égua.
Agora podemos fazer uma súmula de nossas conclusões. Os demônios são capazes, para o próprio proveito e provação, de prejudicar o homem bom nos bens materiais, vale dizer, na fortuna, na fama e na saúde do corpo. Límpida é essa verdade no caso de Jó, afligido por males diabólicos. Os homens bons, embora não possam ser levados ao pecado, podem ser tentados na carne, interior e exteriormente.
Os demônios, assim, não são capazes de afligir os homens bons, nem ativa, nem passivamente.
Não ativamente, como ao iludirem os que não se acham em estado de graça. E não passivamente, como ao removerem os órgãos genitais masculinos por algum encanto. Pois que nesses dois sentidos jamais teriam prejudicado a Jó, mormente por algum encanto passivo sobre o ato venéreo. Porquanto Já era de uma tal continência que chegou a declarar: "Jurei nunca pensar numa virgem e muito menos na mulher de outro homem." No entanto, o diabo sabe que tem grande poder sobre os pecadores (ver Lucas, XI: "Quando um homem forte guarda armado a sua casa, estão em segurança os bens que possui.").
Cabe, porém, indagar, quanto aos encantos sobre o órgão genital masculino, se o demônio não poderia causá-los de forma ativa. Alega-se que o homem em estado de graça se acha iludido porque em vez de enxergar o membro no seu devido lugar não o vê junto com os demais circunstantes; no entanto, ao admitirmos tal enunciado, parece estarmos contradizendo o que foi dito antes. Pode-se dizer que não há tanta força na perda ativa quanto na passiva; entenda-se por perda ativa não a de quem a sofre, mas a de quem a vê de fora, como é evidente por si só. Portanto, embora o homem em estado de graça possa ver a perda sofrida por outro, sendo, nessa medida, iludido pelo demônio, não é capaz de sofrer passivamente tal perda em seu próprio corpo, pois que, não está sujeito à luxúria. De forma análoga, o inverso é verdadeiro, conforme disse o Anjo a Tobias: "Sobre os que se submetem à luxúria o demônio tem poder."
E o que se há de pensar das bruxas que, vez por outra, reúnem membros masculinos em grande número, num total de vinte ou trinta, e os colocam em ninhos de pássaros ou em caixas, onde se movem como se estivessem vivos e comem grãos de aveia e de trigo? Cumpre entender que tudo isso é feito por obra e ilusão do diabo: o sentido dos que vêem tais coisas se acham iludidos na direção que indicamos. Pois um certo homem contou-nos que, quando perdeu o seu membro, aproximou-se de uma conhecida bruxa e pediu-lhe que o restituísse.
A mulher disse-lhe então para que subisse numa determinada árvore e que, no ninho que lá se encontrava, escolhesse o membro que mais lhe agradasse dentre os muitos que havia. E, quando ele tentou pegar um bem grande, a bruxa disse:
- Não deves pegar esse aí, porque era de um pároco.
Todas essas coisas são causadas pelos demônios através de ilusões ou de encantos, que assim confundem o órgão da visão, transmutando imagens mentais na faculdade imaginativa. E é mister que se diga que tais membros são na verdade demônios naquela forma, da mesma maneira em que aparecem a bruxas e a homens em substância aeriforme e com eles conversam. Fazem tais prodígios também de uma forma mais simples: retirando certas imagens do repositório da memória e imprimindo-a na imaginação.
E se alguém disser que poderiam operar de forma análoga à que conversam com bruxas e com outros homens em corpos criaturais, ou seja, que poderiam causar tais aparições por alteração das imagens mentais na faculdade imaginativa, de sorte a fazer as pessoas imaginarem que estão a conversar com demônios em forma humana, embora estivessem na realidade sob efeito apenas de uma ilusão causada por alguma alteração das imagens mentais nas percepções interiores.
É preciso que se diga: se o demônio não tivesse qualquer outro propósito que não o de mostrar-se aos homens, não haveria de adquirir feição corporiforme: poderia realizar o seu propósito pela ilusão acima mencionada. Mas ele tem um outro propósito a saber, o de falar e o de comer com as bruxas e com elas praticar outras abominações. Portanto é necessário que esteja de fato presente, colocando-se a vista, em forma de corpo humano. Pois que, como diz S. Tomás: "Onde se encontra a força de um Anjo, lá ele opera."
Poder-se-ia perguntar se o demônio por si só, sem o auxílio de qualquer bruxa, consegue remover o membro viril de algum homem, ou se haveria alguma diferença entre um tipo de privação e o outro.
Primeiro, o demônio o remove de fato e o restaura quando é para ser restaurado. Segundo, como o membro não pode ser removido sem lesão, não o há de ser sem dor. Terceiro, o demônio nunca age dessa forma sem ser obrigado por algum Anjo bom, pois este, ao assim proceder, retira do demônio grande fonte de satisfação diabólica: porque sabe ser o demônio capaz de realizar mais bruxarias sobre o ato venéreo que sobre qualquer outro ato. Deus assim o permite. Mas nenhum desses pontos se aplica ao caso da sua ação por intermédio das bruxas, com a permissão de Deus.
E ao se indagar se o demônio não seria capaz de causar maiores males aos homens e às criaturas por si mesmo do que pela intermediação das bruxas, cabe responder que não há termo de comparação entre os dois casos. Pois que ele é muito mais capaz de causar males por meio das bruxas. Primeiro, porque assim mais ofende a Deus, ao usurpar-Lhe criaturas que a Deus eram dedicadas. Segundo, porque quanto mais a Deus ofende, mais poder Lhe é concedido para prejudicar as criaturas. E terceiro, para o seu próprio proveito, ou seja, para a perdição das almas.

(HEINRICH KRAMER e JAMES SPRENGER - O Martelo das Feiticeiras)

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publicado às 19:29


Umberto Eco e os padres

por Thynus, em 22.01.15
Nossa situação é realmente precária! Ter pouco tempo para viver, com muito
trabalho, necessidade, medo e dor, sem nem mesmo saber de onde vimos, para onde
vamos e por que vivemos, e ainda ter de suportar padres de todas as cores, com suas
respectivas revelações a propósito, além de ameaças contra os infiéis.
(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

 

 

Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca.

Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles.

Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo, capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.

Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto e no dia seguinte no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo.

Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.

Repetem que seu reino não é desse mundo, e metem as mãos em tudo o que podem roubar. A civilização não alcançará a perfeição enquanto a última pedra da última igreja não houver caído sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja.

Os comunistas difundiram a ideia de que a religião é o ópio dos povos. É verdade, porque serve para frear as tentações dos súditos, e se não existisse a religião haveria o dobro de pessoas sobre as barricadas, ao passo que nos dias da Comuna não eram suficientes e foi possível dispersá-las sem muito trabalho. Mas, depois que escutei aquele médico austríaco falar das vantagens da droga colombiana, eu diria que a religião é também a cocaína dos povos, porque a religião impeliu e impele às guerras, aos massacres dos infiéis, e isso vale para cristãos, muçulmanos e outros idólatras, e, se os negros da África se limitavam a se massacrar entre si, os missionários os converteram e os fizeram tornar-se tropa colonial, adequadíssima a morrer na primeira linha e a estuprar as mulheres brancas quando entram em uma cidade. Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa.

Os piores de todos são certamente os jesuítas. Tenho como que a sensação de lhes haver pregado algumas peças, ou talvez tenham sido eles que me fizeram mal, ainda não recordo bem. Ou talvez tenham sido seus irmãos carnais, os maçons. Como os jesuítas, apenas um pouco mais confusos. Aqueles ao menos têm lá uma teologia e sabem como manobrá-la, esses a têm em demasia e nisso perdem a cabeça. Dos maçons, falava-me meu avô. Com os judeus, eles cortaram a cabeça do rei. E geraram os carbonários, maçons um pouco mais estúpidos porque se deixavam fuzilar, antes, e depois se deixaram cortar a cabeça por terem errado ao fabricar uma bomba ou se tornaram socialistas, comunistas e communards; isto é, partidários da Comuna. Todos no paredão. Bom trabalho, Thiers.

Maçons e jesuítas. Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.

 

(Umberto Eco - O Cemitério de Praga)

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publicado às 17:38


POLÍTICAS DA DIFAMAÇÃO

por Thynus, em 20.01.15
"Não há nome que me designe, nem marca, nem sinal. As designações são escolhidas por homens inseguros, que precisam de uma palavra para cristalizar as suas vagas emoções, de uma luz fraca para guiar-lhes os passos incertos.
(...) Roma já não é a Cidade da Fé, uma cidadela do misticismo. É uma organização política, e os seus padres são estadistas e políticos, ansiosos pelas glórias do poderio material e da subjugação de reis e governos, ambiciosos de poder para si mesmos. O Santo Império Romano, através da corrupção, da intriga e da avareza, transformou-se no Negro Império Romano, que procura escravizar todos os homens para ficar cada vez mais rico. Que é feito da fé que antes lhe dava verdade e radiância? Tornou-se uma espada implacável nas suas mãos.
(...) Enquanto a espada da ambição não for quebrada, nenhum homem, em nenhuma parte do mundo, estará a salvo, nenhum governo estará firme, e o sonho dos justos, um sonho de liberdade e esclarecimento, terá que ser sonhado nas celas das prisões e na solidão mais escura.
(...) A Igreja de Deus transformou-se na Igreja de patifes e saltimbancos, de atores e malfeitores, de mentirosos e inimigos, de intriguistas perigosos. A sombra da mitra está ofuscando o sol de Cristo."

(Taylor Caldwell - A LUZ E AS TREVAS)
 
 
A era das redes sociais e da tagarelice total é também a era que consolidou a destruição do debate político tal como os filósofos idealistas do Iluminismo sonharam quando conceberam a democracia republicana. Hoje, o debate político é, antes de tudo, uma política da difamação. Tal fato não se restringe apenas ao óbvio da miséria das redes sociais, mas também ao universo dos agentes culturais (não há gente menos confiável do que a maioria das pessoas que trabalha com os produtos do intelecto e da estética). O mundo da cultura é um mundo no qual a difamação é a principal arma no duelo de ideias. Só uma criança pode confiar nos agentes produtores de cultura. Toda a idealização da cultura caiu por terra. Esperamos que um ceticismo sistemático venha nos salvar da fé cega no conhecimento institucionalizado nas universidades e nos centros culturais. Os inimigos do pensamento dominaram o comércio das ideias. E quando não se pode confiar mais na atividade comercial, seja ela qual for, perde-se o essencial da vida civilizada. O comércio é marca última da condição humana moral. Quando o comércio de ideias se contamina com a má-fé, é como se você não pudesse mais confiar em quem lhe vende um produto porque sabe que ele não vai entregá-lo. Quando se perde a fé no comércio, tudo está perdido – ele é o limite de nossa esperança histórica na civilização.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé -- A Era do Ressentimento)

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publicado às 09:44


Confissão e inquisição

por Thynus, em 18.01.15
Para garantir o completo extermínio dos cátaros e de todos aqueles que com eles simpatizassem, o Papa criou um órgão especializado na tortura, o mais terrível instrumento de crueldade que o mundo já conheceu. Na cidade de Toulouse, capital do Languedoc, terra dos cátaros, foi criado o Tribunal do Santo Ofício, que passou a ser chamado de Inquisição, pois sua especialidade era inquirir até que a vítima não suportasse mais os sofrimentos e assinasse uma confissão ditada pelos inquiridores.
(A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA)
 
Ouviu batidas na porta e o monge estava lá, com uma nova bacia de água quente. Ele lavou o rosto, as mãos e se vestiu. Pouco depois, o menino chegou e pediu a bênção, beijou a sua mão e disse em voz baixa:
— É preciso que o senhor confesse e comungue.
Não acreditava mais naquelas cerimônias, mas fora instruído para agir como um católico fervoroso para não comprometer a vida do garoto e os membros da comunidade.
Foi uma missa simples, e o celebrante fez a pregação, contando a história do Advento, do nascimento do Cristo Rei, o Cristo Redentor, aquele que veio para salvar o mundo e foi reverenciado pelos Reis Magos.
Sentiu tristeza porque a cerimônia religiosa lhe tocava o coração e era aquela religião que sua mãe também lhe ensinara. Mas a missa não combinava com a matança que a Igreja praticava. Havia agora a Santa Inquisição, criada pela Ordem dos Dominicanos, que também queimava cristãos, não importando se eram mulheres grávidas, velhos, doentes ou crianças.
Aqueles que tinham idéias diferentes daquilo que os padres diziam eram condenados à fogueira. Assistira a muitos espetáculos de cremação de pessoas
vivas, e naqueles momentos percebia o regozijo dos que acreditavam estar livrando o reino de Deus de hereges que não mereciam estar nele.
(A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA)
 
- Inquisição! O Santo Ofício! Os autos-de-fé! A fogueira! O confisco de bens! O uso de mulheres que tinham de se sujeitar ao clero para não serem queimadas vivas! Quantos crimes! Quantos crimes!
(A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA)
 
O Vaticano continua com as suas cruzadas e com a Inquisição condenando inocentes. A nossa especialidade foi semear a dúvida para depois colher a discórdia. O Vaticano é hoje tão criticado como o governo americano. Só os católicos praticantes apoiam o Vaticano e só os americanos não odeiam os Estados Unidos.
(A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA)
Um dia, O Deus do Mal se vestiu com as roupas do Deus do Bem e veio de mansinho ao Languedoc, imitando os perfeitos.
Ele tomou o nome de Domingos de Gusmão e desceu para a cidade de Longeais vestido como um bom cristão. Andava descalço e, como os perfeitos, ia de vilarejo em vilarejo, pregando o catolicismo. Mas era um falso e, diante do fracasso de suas tentativas, criou uma organização criminosa para torturar e perseguir os bons cristãos.
No ano de 1216, ele fundou na cidade de Toulouse a Ordem dos Dominicanos, que passou a ser chamada de Ordem dos Cães do Senhor (Domini Cannes, em latim). Sua crueldade foi tanta, que inspirou a criação do Tribunal do Santo Ofício, também chamado de Inquisição, cuja missão era acabar com a heresia dos cátaros.
Temidos e odiados, os dominicanos transformaram o arrasado Languedoc numa região de terror, traição e denúncias. Só escapava da fogueira quem denunciasse o vizinho, o pai ou um amigo. Onde chegavam, mandavam desenterrar os mortos e os empilhavam na praça central sobre feixes de madeiras embebidas em betume e ateavam fogo. Gritavam para o povo:
— Isso é o que acontecerá a vocês se não confessarem suas heresias ou não denunciarem aqueles que não aceitam os sacramentos da Igreja Católica.Para facilitar as denúncias, o Papa Inocêncio III, no Concilio de Latrão de 1215, obrigou a confissão uma vez por ano diante de um padre. Aqueles que não se confessassem eram considerados hereges ou judeus, e a Inquisição os torturava e depois os matava. Essa obrigatoriedade tinha por finalidade descobrir quem não era católico. Aos que se confessavam, eram prometidos o reino dos céus e os bens pertencentes ao herege que tivesse denunciado.

(A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA)

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