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Conhecer alguns conceitos e definições científicos sobre o assunto é fundamental para se ter o alicerce adequado e uma melhor compreensão do problema. Veremos a seguir como são definidas as drogas que causam dependência (os chamados psicotrópicos), em que consiste a dependência psicológica e a física, e qual o significado do conceito de tolerância, fenômeno que leva os usuários de drogas a necessitarem de doses cada vez maiores.

a - Psicotrópico (tóxico)
Psicotrópico é o nome científico dado às drogas que causam dependência psicológica e, às vezes, física. Essas substâncias entram na corrente sangüínea - por via oral, endovenosa (injeção na veia) ou por inalação - e vão até o sistema nervoso central (o cérebro), onde agem, interferindo de forma ainda não totalmente esclarecida no campo de energia emocional e intelectual de um indivíduo.

b - Farmacodependência (toxicomania)
Farmacodependência é "o estado psíquico, e às vezes físico, causado pela ação de um farmaco (droga) em um organismo vivo, o que modifica o comportamento e gera um desejo irreprimível de tomar a droga de forma contínua ou periódica, com o objetivo de experimentar seus efeitos psicológicos, ou para evitar o mal-estar que a ausência da droga produz no organismo".
Se a palavra "tóxico" não deve ser empregada para designar as drogas que causam dependência, também a palavra "toxicomania" (mania de usar tóxicos) não deve ser relacionada com seus usuários. Aliás, é um erro grave taxar as pessoas dependentes de drogas de toxicômanos, viciados ou mesmo farmacodependentes, pois, ao taxá-las assim, desprezamos as "partes" saudáveis de suas personalidades e supervalorizamos as "partes" negativas. Valorizar aspectos positivos da personalidade de uma pessoa dependente de drogas é o primeiro passo para ajudá-la.

c - Dependência psíquica
Dependência psíquica, como vimos, é a relação estreita e dependente que um usuário tem com uma droga psicotrópica em virtude da representação inconsciente e superdimensionada que a droga tem em sua memória.
Nem todas as drogas causam dependência física, mas todas são capazes de provocar, em diversos graus, a dependência psíquica.
Por pelo menos três tipos de motivação ou de reforços psicológicos, as pessoas cedem às drogas. De extrema complexidade, procuraremos, no entanto, simplificar. A dependência é caracterizada por uma representação psicológica inconsciente da droga, que canaliza as energias psíquicas para um desejo forte e, às vezes, incontrolável de usá-la. Tentarei explicar simplificadamente os mecanismos que produzem a dependência psicológica.
  1. Reforço psicológico positivo: busca-se experimentar drogas com o objetivo de obter prazer. Essa motivação geralmente é apoiada pela curiosidade pessoal dos jovens, pela influência de amigos ou mesmo de algum traficante, pela pressão do grupo etc. O reforço psicológico positivo é a porta de entrada colorida para a dependência psicológica.
  2. Reforço psicossocial: trata-se do apelo aos efeitos psicológicos da droga para suportar problemas, tensões e dificuldades sociais e pessoais, ou como forma de fugir deles. Muitos usam o álcool etílico como facilitador das relações sociais. Esse tipo de motivação é sustentado pelos conflitos no relacionamento familiar, pelos transtornos psíquicos, pela rejeição social, pelas dificuldades financeiras, etc. Todos nós passamos por problemas e dificuldades na vida, que muitas vezes são difíceis de suportar, mas nada justifica a utilização de drogas como tentativa de amenizar essas tensões. O uso de drogas nesses casos torna-se uma "muleta química", incompatível com o equilíbrio e a maturidade de vida.
  3. Reforço psicológico negativo: nesse estágio, chegamos à dependência psicológica propriamente dita. Aqui, a pessoa que usa drogas não o fará apenas para buscar algum tipo de prazer ou para suportar seus problemas, mas para aliviar os efeitos psicológicos indesejáveis, decorrentes da abstenção. O indivíduo que, durante semanas ou meses, habituou-se a drogas estimulantes, como a cocaína, o crack, a merla (subproduto da cocaína); aos moderadores de apetite: Hipofagin, Inibex; a fórmulas de moderadores de apetite que contêm substâncias como femproporex, anfrepramona etc.; a calmantes como Lorax, Tensil e outros; ou mesmo à nicotina dos cigarros; à maconha e outras mais, ao parar de usá-las, sentirá insónia, angústia, depressão, ansiedade e irritabilidade. O grau dos sintomas variará de acordo com a intensidade da dependência, do tipo de droga usada, da freqüência do uso e também do tipo de personalidade do dependente. De qualquer maneira, são esses efeitos psicológicos indesejáveis, detonados a partir do fenômeno do gatilho da memória, que caracterizam a dependência psicológica e levam o indivíduo a buscar, às vezes com grande desespero, novas doses para aliviar tais sofrimentos.
A cocaína não provoca dependência física, como muitos pensam, mas somente a dependência psíquica, o que a torna uma droga mais sutil, pois seus usuários dificilmente reconhecem que estão dependentes, a não ser numa fase tardia. Quando o gatilho do desejo compulsivo é detonado, surge um estado de ansiedade, angústia e inquietação que os conduz a procurar uma nova dose da droga para tentar se aliviar.
Se compreendermos o que é essa dependência, também entenderemos por que tantos jovens aplicam drogas nas veias com seringas contaminadas, indiferentes ao perigo de contrair infecção fatal, e por que muitos deles são capazes de atitudes extremadas para obter uma nova dose da droga.
O crack (cocaína misturada com bicarbonato de sódio) e a merla (pasta base da cocaína) são fumadas. Dessa forma, a cocaína atinge o cerébro mais rapidamente, gerando uma grave dependência psíquica, bem como sérios riscos de produzir uma parada cardiorespiratória por overdose.

d - Dependência física
Dependência física é a capacidade que uma droga tem de passar a fazer parte do metabolismo, da "vida" do organismo, a tal ponto que, na sua falta, o organismo produz reações intensas, reações de sofrimento - a chamada síndrome de retirada ou de abstinência. Essa síndrome pode produzir desde sinais e sintomas leves até morte.
A maioria das drogas causa pouca dependência física, mas o álcool etílico, os barbitúricos (Gardenal, Nembutal, etc.) e os derivados do ópio (heroína, morfina, codeína, etc.) produzem alta dependência. Em alcoólatras crônicos, por exemplo, a falta de álcool provoca tremores nas mãos, ansiedades, alterações cardiovasculares; nos estágios mais avançados, alucinações, ilusões auditivas, visuais ou táteis, febre e colapso cardiovasculatório, por vezes, irreversível.
Os sintomas da privação de barbitúricos são semelhantes aos do álcool, com a agravante de provocar sucessivas crises convulsivas, levando o indivíduo a um grave esgotamento físico que pode ser até fatal. E sem morfina, heroína e outros derivados do ópio, seus cativos são atormentados por sudorese (excesso de suor), insônia, ansiedade, vômitos, diarréia, dores generalizadas, febre e alterações cardiovasculares.
Lembro-me de uma jovem chamada N. J. que esteve sob meus cuidados num hospital em Paris. Ela era dependente de heroína. Em alguns períodos do dia, ela costumava dar-me algumas aulas de francês; em outros, eu tentava ajudá-la a compreender os bastidores de sua mente.
N. era uma jovem inteligente, bonita e dócil, mas sofria intensamente com sua dependência física e psíquica. O que mais me chamava a atenção eram os sintomas da dependência dessa droga, eram as dores generalizadas que ela e outros sentiam após o primeiro dia de interrupção do uso. Eles choravam, angustiavam-se, vomitavam e tinham crises de dores intensas. Essas dores funcionavam como um estímulo desesperador para que usassem uma nova dose da droga para se sentirem aliviados.
N. me dizia com ar angustiante que, se não parasse de usar a droga, ela poria um fim à sua vida, tamanha era a angústia que sentia para conseguir todos os dias uma nova dose para não reproduzir os sintomas de abstinência. Eu procurava abrir as janelas de sua mente e mostrar que ela podia realmente se libertar do cárcere da dependência.
Por causa da síndrome de abstinência, muitos usuários roubavam ou vendiam o próprio corpo na capital francesa para conseguir cerca de cem dólares por dia para comprar heroína. São seres humanos como qualquer um de nós, mas travam diariamente uma luta infernal, inumana, para sobreviver, uma luta com a qual jamais sonharam que um dia viveriam.
Se os iniciantes pudessem ver o futuro, não haveria necessidade de policiamento nem de contenção do tráfico.
O usuário de cocaína tem tendência a ser mais auto-suficiente e mais difícil de ser ajudado do que o usuário de heroína, embora a heroína gere uma dependência mais grave, tanto física como psíquica. O grande problema, como salientei, é que o usuário de cocaína dificilmente reconhece sua dependência nos primeiros meses e anos de uso, pois tem sempre a falsa impressão de que irá parar de usar a droga quando quiser. Mal sabe que possui um "monstro virtual" nas entranhas do seu inconsciente, que costuma acordar nos fins-de-semana ou após um ou mais dias de uso.
Quem usa heroína, por possuir graves sintomas físicos com a abstenção da droga, reconhece com humildade que está doente logo nos primeiros meses e, por isso, procura ajuda com mais facilidade, muitas vezes sem qualquer pressão social ou familiar.

e - Tolerância à droga
E a necessidade de o indivíduo usar doses cada vez maiores da droga para obter os mesmos efeitos que sentia no início. Existem três tipos de tolerância: a comportamental, a farmacodinâmica e a farmacocinética.
A tolerância comportamental é uma adaptação aos efeitos psicológicos da droga; a farmacodinâmica é uma adaptação no lugar específico do cérebro onde as drogas atuam, de forma que a resposta se torna reduzida; e a farmacocinética consiste na destruição mais rápida da droga no sangue, principalmente por causa da ativação de enzimas no fígado.
Os três tipos de tolerância cooperam juntos para que as drogas diminuam seus efeitos, e por isso mesmo os usuários recorrem a doses cada vez mais elevadas, às vezes até letais, como é o caso da cocaína, que, em doses altas, mata por parada respiratória. Todas as drogas, em maior ou menor grau, sofrem certa tolerância no organismo humano.

(Cury, Augusto Jorge - A pior prisão do mundo)

publicado às 15:53


Intriga na Diocese do Porto

por Thynus, em 08.12.14

Não há nome que me designe, nem marca, nem sinal. As designações são escolhidas
por homens inseguros, que precisam de uma palavra para cristalizar as suas vagas
emoções, de uma luz fraca para guiar-lhes os passos incertos.

(...) Roma já não é a Cidade da Fé, uma cidadela do misticismo. É uma organização política, e os seus padres são estadistas e políticos, ansiosos pelas glórias do poderio material e da subjugação de reis e governos, ambiciosos de poder para si mesmos. O Santo Império Romano, através da corrupção, da intriga e da avareza, transformou-se no Negro Império Romano,  que procura escravizar todos os homens para ficar cada vez mais rico. Que é feito da fé que antes lhe dava verdade e radiância? Tornou-se  uma espada implacável nas suas mãos.

(...) Enquanto a espada da ambição não for quebrada, nenhum homem, em nenhuma parte do mundo, estará a salvo, nenhum governo estará firme, e o sonho dos justos, um sonho de liberdade e esclarecimento, terá que ser sonhado nas celas das prisões e na solidão mais escura.

(...) A Igreja de Deus transformou-se na Igreja de patifes e saltimbancos, de atores e malfeitores, de mentirosos e inimigos, de intriguistas perigosos. A sombra da mitra está ofuscando o sol de Cristo.

(Taylor Caldwell - A LUZ E AS TREVAS)

 

"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca.
Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles.
Se fossem, digamos, um em mil alm
as, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo, capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.
Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto e no dia seguinte no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo.
Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.
Repetem que seu reino não é desse mundo, e metem as mãos em tudo o que podem roubar. A civilização não alcançará a perfeição enquanto a última pedra da última igreja não houver caído sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja."

(Umberto Eco - O Cemitério de Praga)


Garçons aprendem a ser garçons construindo sua impressão de um garçom. Garçons andam de um certo jeito, assumem uma certa atitude, estabelecem algum ponto na escala entre intimidade e distância etc. Tudo bem com isso, contanto que o garçom tenha consciência de que é apenas um papel. Mas todos nós sabemos que garçons acreditam que realmente são garçons, que isso é o que são essencialmente. Três mauvaise foi! 

"Vejamos esse garçom. Tem gestos vivos e marcados, um tanto precisos demais, um pouco rápido demais, e se inclina com presteza algo excessiva. Sua voz e seus olhos exprimem interesse talvez demasiado solícito pelo pedido do freguês. Afinal volta-se, tentando imitar o rigor inflexível de sabe-se lá que autômato."(Sartre - O Ser e o Nada)
 
Não há memória de um desassossego assim. Dezenas de cartas anónimas, com identidades e moradas falsas, circulam por várias paróquias e instituições particulares de solidariedade social, questionando atos de gestão financeira, ordenados altos, favores políticos ou amizades com a maçonaria. Cónegos, padres e vigários gerais andam inquietos e intrigados com a dimensão do fenómeno, embora sigam o lema de que "cartas anónimas vão para o lixo". Mas uma outra carta, devidamente assinada pelo padre Roberto Carlos, então colocado na paróquia de Canelas, em Vila Nova de Gaia, e dirigida ao bispo do Porto, António Francisco dos Santos, foi "entregue às autoridades civis e eclesiásticas", por conter uma ameaça de divulgação pública de um caso de pedofilia na Igreja. Os alarmes soaram mais fortemente quando parte do conteúdo desta missiva chegou ao Correio da Manhã.
 
Sigamos o rasto da polémica e vamos dar à freguesia de Canelas. O padre Roberto Carlos andava de candeias às avessas com o anterior bispo, D. Clemente, por causa dos gastos numa estátua de homenagem a um outro padre da paróquia. Em abril, toma posse ?D. Francisco. No verão, o novo bispo procede à transferência de 41 padres. Entre estes, figura Roberto Carlos, que não aceita a transferência, provocando grande agitação no seu "rebanho". É por esta altura, que começam a circular as tais cartas anónimas. E, desde então, Canelas é palco de sucessivas manifestações de revolta. Em setembro, Roberto Carlos escreveu ao bispo, em jeito de chantagem: ou ficava onde estava ou tornava público um caso de pedofilia, ocorrido em 2003, na Comunidade Dehoniana de Duas Igrejas, alegadamente protagonizado por um padre neste momento colocado numa paróquia do Norte. O bispo não cedeu à chantagem e exigiu que saísse no final de outubro. Até que, na semana passada, o Correio da Manhã recebeu um mail com a denúncia do caso de pedofilia, enviado do gabinete de comunicação da diocese, cujo responsável, Américo Aguiar - e um dos alvos de algumas das cartas anónimas - diz nunca ter enviado. O caso saltou para as páginas dos jornais, o padre acusado de pedofilia suspendeu a atividade e prometeu processar Roberto Carlos. De sacristia em sacristia, uma intriga sem fim.
 
* Novo padre de Canelas vive inferno na paróquia

*Padre de Canelas denuncia assédio sexual

* Bispo denuncia padre pedófilo

* PJ investiga computadores da diocese do Porto

 *  Casos de abusos sexuais em Portugal 

* A guerra santa que divide Canelas

* Padre Abel Maia foi afastado da Madeira aquando do escândalo do padre Frederico

* Vítimas da pedadofilia: UMA METÁFORA DO CATÓLICO PERFEITO

Memorando sobre o diálogo do bispo do Porto com o padre Roberto Carlos Nunes de Sousa

O diálogo entre o Bispo e os Sacerdotes estruturam uma das mais necessárias e mais frequentes formas de comunhão e de missão que a um e outros se pede em Igreja. Revestem-se, por isso mesmo, da confidencialidade que a um e outros se exige. Sempre assim procedi. Assim decidi proceder desde o início dos diálogos havidos com o Padre Roberto sobre o conteúdo dos mesmos, assim como da correspondência dele recebida. Neste momento, sinto que é meu dever informar, ainda que sumariamente, os diocesanos do Porto dos passos mais significativos e dos diálogos havidos entre nós.

1. Falei com o Padre Roberto em Junho passado, a exemplo do que fiz com muitos sacerdotes, e manifestei-lhe o meu desejo de que pudesse assumir uma nova missão na Vigararia de Lousada ou na Vigararia do Marco de Canaveses.
O Padre Roberto disse-me, nesse momento e em diálogo, que ao deixar Canelas não queria assumir trabalho paroquial. Preferia ser Capelão Militar ou Capelão Hospitalar.
Eu aceitei essa proposta e acolhi bem esse seu desejo e disponibilizei-me fazer, de imediato, diligências junto do Ordinariato Castrense, que me pedira um sacerdote para ser Capelão, ou no serviço de Assistência Hospitalar na nossa Diocese, onde temos lugares que aguardam provimento.
Passados alguns dias, o Padre Roberto comunicou-me que, ao deixar a paróquia de Canelas, não aceitaria outra missão pastoral na Diocese e que continuaria sacerdote no exercício.
Perante esta decisão assim abrupta comuniquei-lhe, via e-mail, que estaria disponível a partir do dia seguinte para falarmos de novo e refletir sobre essa sua decisão.
Recebi-o no dia 11 de julho e comuniquei-lhe que ao dialogar com os sacerdotes, propondo-lhes mudanças de trabalho pastoral, tenho sempre presentes três objetivos: o bem do sacerdote, o bem da comunidade, a futura missão do sacerdote.
Atendendo a isso e verificando que nem o Padre Roberto tinha acolhido a minha proposta como um bem, nem tão pouco estava disponível para aceitar outro múnus, nem a comunidade estava serena para acolher a decisão, eu estava disposto a adiar a mudança, separando-a das nomeações a fazer em Julho, para data posterior quando estas três condições se conjugassem. Do teor e do ambiente sereno do nosso diálogo fiquei com a convicção de que estavam criadas condições para encontrarmos, em devido tempo, uma solução digna para o bem do sacerdote e da comunidade e para a comunhão do sacerdote com o bispo diocesano e com o presbitério, a começar pela Vigararia onde trabalhasse.
Manifestei-me nesse diálogo sempre disponível para receber o Padre Roberto, quando e sempre que ele desejasse. Passados alguns dias, recebi uma carta sua a comunicar-me a decisão de cessar o múnus de Pároco em Canelas, no dia 8 de setembro p.p. Só permaneceria Pároco, caso eu pedisse pública desculpa à comunidade de Canelas pelos danos causados, demitisse o Senhor Vigário Geral, Padre António Coelho de Oliveira, e desautorizasse expressamente o Senhor Bispo Auxiliar, D. Pio Alves de Sousa.
Não respondi a esta carta porque me tinha disponibilizado para receber pessoalmente o Padre Roberto sempre que ele desejasse falar comigo e não podia aceitar de forma nenhuma as condições propostas.
Fiquei assim a aguardar que o Padre Roberto pudesse vir falar comigo, ou, então, que assumisse a decisão que tomou de cessar o seu múnus de Pároco no dia 8 de setembro.
Com data de 12 de setembro, registada pelos CTT a 25 do mesmo mês e a mim entregue a 28, recebi uma carta sua a comunicar-me “que tinha decidido permanecer em Canelas”.
O Padre Roberto insere nesta carta uma ameaça de revelação de um caso grave de comportamento de um sacerdote, acontecido em 2003. Não conheço o sacerdote que o Padre Roberto refere. Não é sacerdote da Diocese do Porto. Mesmo assim, dada a gravidade do caso denunciado, dei a conhecer a sua carta, de imediato, às autoridades competentes.
Aguardei pacientemente estes meses para que pudéssemos continuar o diálogo em ordem “ao seu bem”, à “paz e serenidade da paróquia” e ao “seu futuro trabalho pastoral na nossa Diocese”.
Mesmo assim, depois desta carta, pedi de novo ao Padre Roberto para falarmos. Ele acedeu e recebi-o no dia 27 de outubro, p. p.. Manifestei-me disponível para, a partir de 3 de novembro, o mesmo dia em que cessava o múnus de Pároco de Canelas, lhe poder confiar uma Capelania Hospitalar na Cidade do Porto a tempo inteiro.
Quero que o Padre Roberto sinta que procuro o seu bem, que atendo à sua proposta, feita no primeiro encontro que teve comigo, e que acredito que irá fazer do seu melhor no novo trabalho que me disse gostar. Manifestei-me disponível para a partir de 30 de outubro, p.p. fazer o Decreto de Nomeação e lhe conferir posse do novo múnus.
Dado que o Padre Roberto fez sempre público o teor e o conteúdo dos anteriores diálogos, pedi que fosse exarado em ata o conteúdo do diálogo do passado dia 27 de outubro, em que lhe recordei todos os passos aqui reproduzidos. O texto desta ata foi assinado por mim, pelo Padre Roberto e pelo Chanceler da Cúria Diocesana, Padre António Paulo Monteiro Pais.


Porto e Casa Episcopal, 14 de novembro de 2014
António, Bispo do Porto
 

publicado às 22:29

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Antes de tudo, que o seu espírito esteja persuadido de que todas as mulheres podem ser presas: você as prenderá; estenda apenas as redes. Os pássaros se calarão na primavera, no verão as cigarras, o cão do Menale fugirá diante da lebre, antes que a mulher resista perante as solicitações carinhosas de um homem. Ela mesma, que você poderá acreditar não querer, quererá. O amor culpado é agradável ao homem; e também à mulher: [mas] o homem dissimula mal, a mulher esconde melhor seus desejos. Se o sexo forte julgar melhor não fazer avanços, a mulher, vencida, tomará para si o papel de fazê-los. Nos suaves prados, é a fêmea que chama o touro com seus mugidos; é sempre a fêmea que, com seus relinchos, chama o garanhão de cascos duros. Mais reservada e menos furiosa é, entre nós [homens], a paixão: a chama do homem respeita as leis.
Falarei de Bíblis, que ardeu de amor culpado por seu irmão, que, correspondendo, puniu-se corajosamente por seu crime?
Mirra amou seu pai, mas com uma afeição que não era filial; agora está oculta, coberta por uma casca. Suas lágrimas, vertidas por uma árvore odorífera, espalham o perfume que deu seu nome à essência.
Aconteceu que, no fundo dos vales sombreados do Ida coberto de florestas, vivia um touro branco, orgulho da manada. Sua fronte era marcada com um pequeno ponto negro entre os chifres; ele só tinha esta mancha; todo o resto do corpo tinha a brancura do leite. As novilhas de Gnosso e da Cidônia cobiçavam senti-lo sobre suas costas. Pasífae ardia para ser sua amante; ciumenta, ela odiava as belas novilhas. O fato que eu canto é verídico; não, por mais mentirosa que seja, a terra com cem cidades, Creta não pode negá-lo. Pasífae, digamos, com mão inábil, cortava ela mesma as folhagens novas e as ervas bem tenras para o touro. Ela acompanha o rebanho, e, para acompanhá-lo, ela não pensa mais em seu marido: acima de Minos, um touro a conquistou. Por que, Pasífae, vestir essas roupas magníficas? Aquele a quem você ama é insensível à sua riqueza. Por que este espelho, quando você vai encontrar o rebanho nas montanhas? Por que tantas vezes arrumar seus cabelos? Que loucura! Creia em seu espelho, mesmo quando ele lhe diz que você não é uma novilha. Como você queria ver crescer cornos em sua fronte! Se você ama Minos, não procure nenhum amante, ou, se você quer enganar seu esposo, engane-o com um homem. Através dos bosques e das pastagens, a rainha, abandonando seu leito, vai, semelhante à Bacante impelida pelo deus Aônio. Ah! Quantas vezes ela atirou sobre uma vaca olhares ciumentos e disse: “Porque essa aí agrada àquele que possui meu coração? Olhe como ela pula diante dele sobre a erva tenra! E a tola crê sem dúvida que isto lhe pertence”. Disse e, na mesma hora, ordenou que ela fosse retirada da imensa manada, e que a inocente fosse arrastada sob a canga curva; então a fez tombar diante dos altares num sacrifício impiedoso, e, cheia de alegria, segurou nas mãos as entranhas de sua rival. Todas as vezes em que ela se congraçou com a divindade, imolando suas rivais, ela disse, segurando suas entranhas: “Vá agora agradar meu bem-amado”, e pediu com insistência para ser transformada ou em Europa, ou em Io; numa porque era novilha (Io foi transformada em novilha pelo ciúme de Juno; Júpiter tomou a forma de um touro para raptar Europa.), noutra porque um touro a levou sobre as costas. Entretanto, o chefe do rebanho, enganado pela imagem de uma vaca de madeira, a engravidou, e o fruto que ela deu à luz [o Minotauro] revelou o pai.
Se a cretense não estivesse impossibilitada de amar Tiestes (pois é difícil para uma mulher arder sempre pelo mesmo homem!), não teríamos visto Febo se deter no meio do seu caminho, retornar sua carruagem e reconduzir seus cavalos na direção de Aurora.
Cila, filha de Niso,apaixonando-se pelo seu inimigo Minos.
 A filha de Niso, por ter cortado furtivamente os cabelos brilhantes de seu pai (Trata-se de Cila. Nos cabelos de Niso residia o destino da cidade) , traz em torno da virilha e do flanco um cinto de cães devoradores.
Após ter escapado de Marte na terra, de Netuno sobre as ondas, o filho de Atreu foi a funesta vítima de sua mulher.
Quem não verteu lágrimas sobre a chama que consumiu a Efireia (Os quatro personagens nomeados aqui foram vítimas dos ciúmes; o primeiro, de Medeia, o segundo e o terceiro, de seus pais, o último, de sua segunda mulher) e sobre a mãe, que, soluçando, massacrou seus filhos?
O filho de Amintor, Fênix, chorou a perda de seus olhos.
Corcéis de Hipólito, vocês o esquartejaram com seu pânico.
Por que, Fineu, furar os olhos de seus filhos inocentes? Esse suplício recairá sobre sua cabeça.
Eis aí, nas mulheres, todos os transportes inspirados pela paixão: ela é mais ardente do que a nossa e mais louca. Portanto, vá; não hesite em esperar triunfar com todas as mulheres; em mil, haverá apenas uma que resistirá. Que elas cedam ou que elas resistam, elas gostam sempre que lhes façamos a corte; mesmo se você for repelido, a derrota não é perigosa para você. Mas por que você seria repelido, quando sempre encontramos prazer numa volúpia nova, e somos mais seduzidos pelo que não temos do que pelo que temos? A colheita é sempre mais rica no campo do outro, e o gado do vizinho tem úberes mais intumescidos.

(Ovidio - A Arte de Amar)

publicado às 19:26

 

 
A postura dos ombros deixa entrever algo da postura em relação à vida. As clavículas e as omoplatas mantêm a área superior do corpo unida. Na parte anterior do corpo os ombros, passando pelas clavículas, chegam até o esterno, enquanto atrás suas omoplatas cobrem a parte superior das costas. Os ombros ligam a expressividade dos braços e das mãos ao peito, local do meio e da integração. Juntamente com a coluna vertebral, eles são a área do corpo onde se pode ler qual carga uma pessoa carrega, e como a leva. Más posturas internas crônicas podem manifestar-se nos ombros sob a forma de músculos endurecidos e tensos ou até mesmo como más formações do esqueleto ósseo.
Os mais nítidos são os ombros erguidos, entre os quais parece querer esconder-se uma cabeça medrosa. Como em um caracol ou uma tartaruga, ela se mete para dentro ao confrontar os perigos do mundo lá fora. Quando algo nos assusta, nós automaticamente encolhemos a cabeça. Então, quando o susto passa, os ombros retornam á postura não assustada e a cabeça se atreve novamente para diante. Conseqüentemente, ombros cronicamente erguidos mostram que seu proprietário permanece constantemente nesse estado abaixado e chocado e não consegue mais livrar-se do medo. Talvez, também, ele já tenha levado tanto na cabeça que inconscientemente prefere abaixar-se e passar de maneira furtiva pela vida com a cabeça metida entre os ombros. O medo crônico congelado na área dos ombros mostra-se também na estreiteza da postura. Não é raro que a esses ombros faltem a largura e a energia para suportar o fardo da vida e a responsabilidade correspondente. O ombro esquerdo erguido unilateralmente serve tanto para proteger o coração como para bloqueá-lo.
O pólo oposto anatômico é constituído por pessoas com os ombros caídos, que expressam resignação. Eles lembram pássaros com as asas caídas e, de fato, as omoplatas têm certa semelhança com asas recolhidas. Ombros caídos necessariamente suportam mais carga (responsabilidade) do que são capazes, seus possuidores estão sobrecarregados. Os ombros tentam deixar escorregar aquilo que é demasiado para eles, e tentam subtrair-se. Há algo nisso que desperta compaixão, sobretudo quando os ombros são além do mais estreitos. Os afetados dão a impressão de que tomam para si todo o peso do mundo. Dá vontade de abraçá-los sob os braços (igualmente caídos) e aliviá-los um pouco.
Ombros acentuadamente estreitos evidenciam uma capacidade reduzida de assumir a carga da responsabilidade pela própria vida. Seus possuidores se recolhem para poder ater-se com a vida. Eles dão a impressão de que teriam de fazer um esforço imenso para suportar os encargos que têm pela frente. Como base para o âmbito em questão, tais ombros são um pressuposto bastante fraco, o controle da vida somente pode ser assumido com grandes fadigas. É natural que os possuidores de ombros que servem mais para ornamento que outra coisa tenham uma grande necessidade de apoio, preferindo ombros especialmente largos onde possam apoiar a cabeça e, juntamente com ela, a responsabilidade.
Entre os ombros erguidos e os ombros caídos localizam-se os ombros em ângulo reto, que denotam um estado normal. Entretanto, mesmo neste caso há sinais de exagero que não deixam de ser significativos. Os ombros tipicamente masculinos, com os másculos estirados, sinalizam para todo o mundo que aqui alguém está disposto a assumir a responsabilidade por si mesmo e mais. Acentuando especialmente essa expressão, talvez através de massa muscular obtida à custa de treinamento ou dos enchimentos correspondentes, alguém mostra o quanto pensa no efeito que exerce sobre os outros. Neste ponto, ele levanta também a suspeita de simular coisas que gostaria de ter. Os soldados, que não somente usam galões em suas jaquetas mas também tiras em todas as camisas, se traem como coletividade em relação a isso. A voz popular fala de ombros inchados. Indica-se para o exterior quanto poder e quanta responsabilidade se está disposto a assumir, sendo que na verdade a maioria teve a espinha quebrada para exercer, sob ordens, a falta de responsabilidade. Ombros superdimensionados indicam egos similares, enquanto ombros estreitos indicam o contrário. Quando, além disso, eles são caídos, isso indica que neste caso alguém desistiu de se afirmar e de mostrá-lo ao mundo.
Os ombros, portanto, dizem algo sobre o tipo de conflito que se tem com o mundo, sendo que os ombros em ângulo reto estão realmente na altura certa. Quando caídos, mostram o desânimo de seu proprietário; erguidos, que querem eludir a responsabilidade para cima. Pois ombros erguidos também se tornam estreitos, dando proteção adicional á cabeça em sua tentativa de eclipsar-se.
Além disso, a altura relativa dos ombros mostra, com o lado mais baixo, qual metade da polaridade é acentuada na vida. Assim, nos homens é geralmente o ombro direito que está mais baixo, indicando com isso que estão mais distendidos nesse âmbito e tendendo a ir de encontro ao mundo de maneira masculinamente controlada e agressiva. O ombro esquerdo mais baixo, que ocorre em mulheres na maioria das vezes, indica que se encara seu ambiente de maneira femininamente passiva. Com o ombro mais baixo mostra-se ao mundo o lado do qual se está mais seguro.
A função própria dos ombros é dar liberdade de ação aos braços. Mas de maneira similar a como eles, com o tempo, podem mover-se para cima e proporcionar um esconderijo para a cabeça, eles podem mover-se também para a frente para abrigar entre si o peito e o coração. Esta é uma típica postura de auto-proteção, com a qual os afetados mostram como se sentem vulneráveis e carentes de proteção. Muitas vezes, nas mulheres, há por trás disso a sensação de ter de proteger ou ainda ocultar seu peito do mundo. Essas más posturas remetem-se freqüentemente à puberdade. Quando a menina na verdade deveria ter sido um menino, os seios que começam a crescer não são saudados com alegria e sim escondidos com vergonha. Seios grandes, em uma situação de insegurança de si mesmo, podem levar a que se prefira ocultar uma feminilidade tão demonstrativa. Sentimentos de inferioridade e inseguranças em relação ao próprio papel feminino que não são confrontados conscientemente encarnam-se e, nas regiões correspondentes, tornam-se visíveis e palpáveis como couraças. Quando a postura protetora tem por objetivo o coração e seus sentimentos, é especialmente o ombro esquerdo que está especialmente curvado para a frente.
Com essa postura os afetados se fazem estreitos, é como se eles se escondessem em si mesmos. Dessa maneira, seu interior torna-se estreito e seus pulmões já não podem expandir-se da maneira correspondente. A respiração curta que dai resulta explícita a pobre disposição para a comunicação. A imagem de isolar-se e de fechar-se para fora combina com a tendência de conservar as emoções para si mesmo e de praticamente não se defender de golpes eventuais. Em vez disso, as vitimas dessa postura tendem a retirar-se ainda mais para seu espaço protegido, que consiste de ombros adiantados, e braços e costas curvadas. Mas, juntamente com a proteção desejada, todo bunker eficaz traz também consigo estreiteza, rigidez e opressão que podem levar até a falta de ar.

(Rüdger Dahlke -  A Doença como Linguagem da Alma)
 

publicado às 00:28

O medo e o desejo são criados no cérebro instintivo, mediados pelo cérebro emocional e negociados pelo cérebro intelectual. Essas estruturas satisfazem a exigência da mente de processar a luxúria, a paixão cega, a raiva, a avidez, o ciúme, o ódio e o nojo. Todos esses sentimentos estão fadados a sobreviver no curso da evolução. A reação de luta ou fuga nos répteis implica um cérebro de circuitos fixos. Os humanos não evoluíram para libertar-se dos mesmos circuitos, ou mesmo para anulá-los (da mesma forma como, por exemplo, a cauda dos primitivos mamíferos encolheu e se transformou num osso na ponta da coluna vertebral).
 
Ao contrário, o cérebro humano vai colocando camadas novas sobre as velhas. (No caso do córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro, as camadas são como a cortiça numa árvore. Cortex significa “cortiça” ou “casca” em latim.) Nessa disposição, as camadas se mantêm integradas com as anteriores em vez de serem descartadas. Assim como lembranças de dor e desconforto geram medo, lembranças de prazer e alegria geram desejo. A evolução empurra e puxa ao mesmo tempo. É impossível dizer onde começa o desejo de prazer ou a fuga da dor. Shakespeare podia ter vergonha de sua luxúria, mas não pediu que ela lhe fosse tirada. As emoções que se baseiam no medo e no desejo funcionam lado a lado. Por exemplo, o medo de ser rejeitado pelo grupo social se encaixa no desejo de poder e sexo, sustentando o indivíduo e a espécie ao mesmo tempo.
As emoções nos parecem tão urgentes quanto os instintos, mas um novo desenvolvimento está ocorrendo. Freud chamou os impulsos instintivos de id porque eram primitivos demais para serem nomeados. As emoções têm nome, como inveja, ciúme e orgulho. Quando um poeta declara que o amor é como uma rosa vermelha, está expressando nosso fascínio por dar nome às emoções e construir um mundo ao redor delas. Portanto, as emoções são um passo na direção da consciência.
O conflito entre instintos e emoções nos ensina que os humanos evoluíram – com muito sofrimento e confusão – para aprender. Precisamos estar atentos a nossos medos e desejos. Eles não têm um controle inerente, nem o cérebro reptiliano. O complexo sistema límbico é nosso centro das emoções, mas também de coisas obscuramente relacionadas, como a memória de curto prazo e o olfato. Um perfume ou o cheiro de chocolate são suficientes para despertar lembranças (no caso do escritor Marcel Proust, foi o ato de mergulhar uma madeleine no chá), porque o sistema límbico une olfato, memória e emoção. Ele se desenvolveu depois do cérebro reptiliano, mas ainda assim bem cedo. Todos os animais de quatro patas, inclusive os primitivos anfíbios, parecem ter um sistema límbico desenvolvido. As emoções, ao contrário do olfato, podem ser um desenvolvimento recente. Ou talvez elas não tenham podido existir até que a linguagem lhes desse nomes.
Nossa tendência de ver o cérebro reptiliano como primitivo é um erro. Podemos “cheirar” um problema com uma certeza de fazer inveja ao cérebro racional. O cérebro reptiliano não tem dúvidas ou arrependimentos. Ninguém fala da sabedoria do impulso sexual, mas nossas emoções instintivas são definitivamente sábias. Elas representam o tipo de consciência que nos leva à felicidade. Antes que o termo nerd fosse inventado, as universidades começaram a atrair jovens brilhantes e obsessivos por computadores. Eles passavam dias e noites criando códigos. A era digital foi construída em muitas madrugadas de estudo. Mas então houve uma rápida reviravolta nesses jovens, e, quando perguntaram ao reitor de uma importante universidade por quê, ele suspirou: “Não conseguimos impedir que eles atravessassem o pátio. Assim que esbarravam numa garota, desapareciam”.
A perda dos códigos binários foi um ganho para a humanidade. Com a emergência do cérebro emocional, a consciência começou a libertar-se da sobrevivência física. As várias áreas do sistema límbico, como o hipocampo e a amídala, foram precisamente mapeadas e podem ser relacionadas a todas as funções através de um exame de ressonância magnética. Se essa precisão tenta os neurocientistas a afirmar que o sistema límbico nos usa para seus propósitos, assim como faz o instinto, essa alegação deve ser contestada. Como evoluiu a partir da sobrevivência, o cérebro instintivo precisa nos usar. Quem gostaria de ter que pensar em digerir a comida após cada refeição? Quem gostaria de ver o carro da frente perder o controle e ter que pensar um instante antes de reagir? Grandes áreas da vida devem estar no piloto automático, e estão.
Mas as emoções, mesmo quando brotam espontaneamente, significam algo, e o significado é um departamento que todos nós queremos controlar. “Não posso evitar. Toda vez que vejo o final de Casablanca, eu choro”, alguém pode dizer. Sim, mas escolhemos ir ao cinema, e uma das razões para isso é poder sentir fortes emoções sem se arriscar. Tudo bem um homem chorar com o fim de Casablanca ou quando o cão de Meu melhor companheiro leva um tiro, embora se acredite que homens não choram. Os filmes são o paraíso do sistema límbico – não porque o cérebro precise chorar, mas porque, em determinadas circunstâncias, nós precisamos chorar. O cérebro emocional não tem emoções. Nós temos emoções quando o usamos.
Ligado à fase emocional do cérebro, porém, há um novo conflito, ao qual já nos referimos: a memória. A memória é a maneira mais poderosa de fazer uma emoção se fixar e, uma vez arraigada, é difícil removê-la. Já discutimos a permanência de uma emoção, a ansiedade. O carma, ou samskara, em sânscrito, é a impressão deixada por experiências passadas. É uma palavra estrangeira, mas toda a tradição espiritual do Oriente tem raízes em um dilema universal: a luta para romper velhos condicionamentos, que criam sofrimento no presente pela lembrança da dor passada. O processo de impressões cármicas é um aspecto inextricável do cérebro emocional.
Acreditar ou não em carma não faz diferença. Estamos depositando impressões em nosso sistema nervoso o tempo todo. Cada gosto ou desgosto (“Odeio brócolis”, “Adoro aspargos”, “Eu o odeio”, “Eu a amo”) se deve a impressões passadas. Isso é mais do que processamento de dados. Qualquer um que compare o cérebro humano a um computador deveria saber responder se os computadores gostam de brócolis ou odeiam o fascismo. As emoções orientam as preferências, e os computadores não têm emoções. Como esse acúmulo de impressões se faz sem esforço, poderíamos supor que seria fácil removê-las. Às vezes é. Se você diz algo errado, pode se corrigir dizendo “Esqueça o que eu disse”, e seu ouvinte esquecerá. Mas impressões duradouras não podem ser removidas nem com muito esforço. O trauma permanece. Como ainda entendemos pouco a memória, seus sinais não podem ser detectados no sistema límbico. E, no entanto, lembranças vívidas se fixam por natureza.
Precisamos ter uma vida emocional aberta e valorizar nossos sentimentos. Mas, quando a emoção tem supremacia, precisamos evoluir mais. Em particular, acreditamos que devemos ser testemunhas de nossas emoções. Isso não significa que se deva dar um passo atrás e observar enquanto enlouquecemos ou entramos em pânico. As emoções seguem seu curso; como os instintos, elas querem o que querem. Mas não se deve alimentá-las em excesso. A raiva, por exemplo, já é por si só forte e inflamável. Não precisa que se jogue querosene em cima dela. Observando a raiva, criamos uma certa distância entre nós e nossa emoção. Se você faz uma observação como “Esse sou eu ficando com raiva”, o “eu” e a “raiva” ficam separados. Nesse pequeno ato de distanciamento, a emoção perde força. Sempre temos a opção de usar qualquer parte do cérebro como parceira. As condições da parceria somos cada um de nós quem estabelece.
Como acontece com qualquer fase do cérebro, as emoções podem se desequilibrar. Quem for muito emocional, perderá a perspectiva. Seus sentimentos o convencem de que são a única coisa que importa. Emoções excessivas são exaustivas e enfraquecem todo o sistema mente-corpo. Se a pessoa der vazão a suas emoções por muito tempo, pode se tornar sua prisioneira.
Mas se controlar demais suas emoções, perderá contato com sua vida emocional. Isso cria a ilusão de que só o intelecto basta. Ignorando o poder de uma emoção reprimida, corre-se o risco de ter comportamentos inconscientes. Reprimindo as emoções, o indivíduo pode ficar sujeito a doenças.

(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - SUPERCÉREBRO)
RECUSA NA EXTERIORIZAÇÃO DOS SENTIMENTOS

publicado às 23:43

As células não ficam aflitas com seu mundo interior. Não são neuróticas ou ansiosas em relação ao futuro. Elas não sentem remorso (embora certamente carreguem as marcas do passado – pergunte ao fígado de um alcoólatra ou ao estômago de um ansioso crônico). Por não reclamarem, é fácil aceitar que as células não têm vida interior, mas elas têm. O que divide o interior e o exterior é a membrana celular. De várias maneiras, ela é o minicérebro da célula, porque a célula recebe todas as suas mensagens nos receptores que se amontoam aos milhares na membrana celular. Esses receptores deixam algumas mensagens entrar, outras não. Como plantas aquáticas flutuantes, elas se abrem para o mundo, mas têm raízes sob a superfície.
Por dentro, essas raízes permitem que diversas mensagens se dirijam aonde forem necessárias. Se você passar por processos de negação ou repressão, ou a censura de certos sentimentos e a erupção de outros, ou se sentir o tranco do vício e a inflexibilidade de hábitos, tudo isso poderá ser observado na membrana celular. Os receptores estão sempre mudando, satisfazendo a necessidade de manter os mundos interior e exterior em equilíbrio. Esta é mais uma face do dom da adaptabilidade. Deepak gosta de dizer que nós não apenas temos as experiências; nós as metabolizamos. Toda experiência se transforma em um sinal químico codificado que irá alterar a vida das células, seja de maneira significativa ou não, seja por alguns minutos ou por muitos anos. O problema é quando uma pessoa tranca seu mundo interior e não consegue combiná-lo com o mundo exterior. Há dois extremos aqui. Em um estão os psicóticos, cuja única realidade é seu pensamento distorcido e suas alucinações. No outro, os sociopatas, que não têm consciência e mal possuem um mundo interior; seu foco é explorar as pessoas “lá fora”. Entre esses dois polos, há uma gama de comportamentos. Os mundos interno e externo se desequilibram por meio de todo tipo de mecanismo de defesa. Ou seja, colocamos uma tela de proteção que separa o mundo exterior da maneira como reagimos a ele. Entre os tipos de telas mais comumente utilizadas estão:
• Negação – a recusa em enfrentar como você realmente se sente quando algo dá errado.
• Repressão – a insensibilidade a sentimentos, de modo a não ser atingido por eventos “de fora”.
• Inibição – o controle das emoções, segundo a lógica de que sentimentos contidos são mais seguros e mais aceitos pela sociedade.
• Mania – a liberação total dos sentimentos, sem se preocupar com as repercussões na sociedade; o oposto de inibição.
• Vitimização – a negação em se dar prazer, porque outros não vão proporcioná-lo a você, ou aceitar a dor por achar que a merece.
• Controle – tentar erguer um muro entre os mundos externo e interno, para que nenhum limite seja ultrapassado.
• Dominação – usar a força para manter os outros em posição inferior, enquanto você se perde em sua própria fantasia de poder.
Como seria para você viver sem essas telas? Em poucas palavras, você teria resiliência emocional. Estudos com pessoas que viveram com saúde até os 100 anos revelam que seu maior segredo é a capacidade de se manter resiliente. Centenários sofrem os mesmos contratempos e decepções que todo mundo, mas eles parecem se recompor mais facilmente e deixar o passado pesar menos sobre eles. A resiliência emocional sugere que os mecanismos de defesa não estão muito presentes, porque, quando estão, a pessoa se apega a velhas feridas, nutre ressentimentos secretos e incorpora o estresse em vez de se livrar dele. O corpo paga o preço por cada defesa que se constrói.
As células não agem de qualquer uma dessas formas distorcidas. Ao contrário, há um fluxo de entrada e saída, o ritmo natural da vida. A resposta interna da célula equivale aos eventos externos. Restaurar esse ritmo dentro de si exige consciência. Todo mundo tem uma carga psicológica, e nossa tendência é ou proteger nosso self de mais sofrimento ou ignorar nossa vida interior porque é muito difícil de encarar. O caminho que leva a um equilíbrio entre o “aqui dentro” e o “lá fora” deve ser mais ou menos assim:
A sensação não é boa. Não quero lidar com isso.
Não é seguro mostrar como me sinto.
O mundo é um lugar assustador. Todos têm o direito de se proteger.
Vou lidar com meus problemas amanhã.
As coisas não parecem estar melhorando por conta própria.

Talvez eu tenha que encarar minhas atitudes obscuras e sentimentos reprimidos.
Olhei para dentro de mim e vi que há muito o que fazer. Mas não é tão assustador quanto imaginei.
É um alívio me libertar de problemas antigos.
Estou começando a me sentir mais à vontade no mundo e muito mais seguro.


(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - Super Cérebro)

publicado às 20:41

O amor é uma energia, a energia mais
pura e mais elevada. Nas suas vibrações mais
altas, o amor possui sabedoria e consciência.
É a energia que une todos os seres. O amor é
absoluto e não tem fim
.
(Brian L. Weiss)
 
 Uma sucessão de insights
• Sou parte de tudo. ‒ Derruba a crença de que você está sozinho e isolado.
• Sou estimado. ‒ Derruba a crença de que o universo é vazio e impessoal.
• Sou realizado. ‒ Derruba a crença de que a vida é uma batalha.
• Minha vida é importante para Deus. ‒ Derruba a crença de que Deus é indiferente (ou não existe).
• Sou ilimitado, um filho do universo. ‒ Derruba a crença de que o ser humano é uma partícula insignificante na vastidão do universo.
 

 
Essas percepções não vêm todas de uma vez. Elas fazem parte de um processo. Como o processo é natural e fácil, todos têm momentos de despertar. Não é difícil mudar a percepção. Nos filmes (e às vezes na vida real), uma mulher pode dizer a um homem: “Ei! Não somos apenas amigos. Você está apaixonado por mim! Como não percebi?”. Esse momento de despertar, seja no cinema ou na realidade, pode mudar o rumo da vida de uma pessoa. Mas, mesmo que não mude, ela vivencia uma transformação interior. A mente – acompanhada pelo cérebro – para de computar um mundo baseado no “somos apenas amigos” em prol de uma realidade em que a conclusão “você me ama” de repente surgiu. A iluminação segue o mesmo rumo. A realidade A (o mundo secular) é alterada por um momento de insight, mudando as regras de sua vida, aquelas que se aplicam à realidade B (em que Deus é real).
Em seu anseio por mais significado e realização, as pessoas moldam a realidade B. Se alguém tivesse 100 por cento de garantia da existência de Deus, desistir da realidade A seria um prazer e um alívio. Não haveria mais sofrimento, dúvida ou medo da morte, nenhuma preocupação quanto a pecado, inferno e danação. As religiões prosperam alimentando nosso desejo de escapar das armadilhas do mundo secular, não importa o quanto a realidade A seja confortável.
A única garantia de que Deus existe vem da vivência direta. Você tem que sentir uma presença divina ou sentir Deus trabalhando, o que quer que essas frases signifiquem para você. Surpreendentemente, Deus tem uma influência relativamente pequena no processo de iluminação. A parte maior vem da mudança na percepção: acordar, ver a luz e encarar a realidade. É um erro acreditar que uma pessoa iluminada seja um tipo de Houdini espiritual, que misteriosamente se liberta da ilusão da vida mundana. O verdadeiro propósito da iluminação é tornar o mundo mais real. A fantasia vem do pensamento de que você está isolado, sozinho. Quando se percebe estar conectado a tudo na matriz da vida, o que poderia ser mais real?
Existem graus de iluminação, e você nunca sabe qual será o próximo insight. Há uma possível revelação em todos os acontecimentos se você aprender uma nova maneira de percebê-los. Aqui vai um exemplo pessoal. Em uma conferência, Deepak encontrou uma famosa neurocientista que disse se sentir mais à vontade no mundo dos pássaros do que no das pessoas. Qual seria o significado de tal afirmação? Não parecia ser um delírio. Essa mulher conhecia neurociência muito bem; era inteligente e articulada.
A essência de sua experiência foi parecida com a do encantador de cavalos: sintonizar-se com o sistema nervoso de outros seres. Há uma década tal afirmação teria soado esquisita. Como alguém pode pensar que nem um cão, como faz o treinador Cesar Millan, ou que nem um cavalo, como faz Monty Roberts, o encantador de cavalos original? A resposta é sensibilidade e empatia. Sendo autoconscientes, já conseguimos estender nossa consciência à maneira como outras pessoas se sentem. Não há mistério em sentir a alegria ou a dor de alguém.
Aparentemente podemos fazer o mesmo com animais, e a prova é que pode-se treinar cavalos e cachorros quase sem esforço, sussurrando em sua linguagem, sem recorrer a chicote, focinheira ou maus-tratos. Quando se sabe como o sistema nervoso de um animal vê o mundo, não é necessário usar a força para alterar seu comportamento. Fazemos isso mais facilmente seguindo a conduta natural de seu cérebro.
No caso da neurocientista, a prova de sua sintonia é que diversas espécies de pássaros silvestres ficam à vontade sobre seus ombros ou comendo em sua mão. Será que isso a torna a sucessora de São Francisco de Assis, que é retratado exatamente dessa forma? Sim, de certo modo. A capacidade de um santo enxergar toda a criação como parte de Deus gera uma empatia com tudo o que é vivo. Uma mudança ocorre no sistema nervoso do santo, que expressa o que a mente passa a aceitar: “Estou em paz com o mundo e com todos os seres vivos. Não estou aqui para prejudicá-los”.
É assim tão admirável que outras criaturas saibam quando estamos em paz? Nossos bichinhos sabem para quem rosnar e de quem se aproximar para ganhar um carinho. O sistema nervoso humano tem semelhanças com o de outros animais. Parece um pouco rude dizer isso de modo tão analítico, mas a verdade é bastante bela quando vemos um pássaro pousar em nossa mão.
Deepak relata seu encontro com essa mulher, mas ainda não foi uma experiência reveladora. Rudy a desencadeou quando Deepak lhe fez uma pergunta fantástica: “Se o DNA do ser humano é 65 por cento igual ao da banana, conseguimos nos identificar com bananas, ou nos comunicar com elas?” (Deepak havia lembrado de alguns experimentos famosos de Cleve Backster, que conectou plantas caseiras a sensores elétricos como um tipo de polígrafo ou um detector de mentiras, e descobriu que elas manifestavam mudanças em seu campo elétrico quando seus donos brigavam ou ficavam muito estressados. A descoberta mais surpreendente foi que as plantas revelaram maior excitação elétrica quando seus donos pensaram em arrancá-las.)
Rudy respondeu que, quando provamos a doçura da banana, os receptores em nossa língua são conectados ao açúcar da fruta. Então, até certo ponto, participamos dessa realidade no âmbito químico. A banana também fornece proteínas que se ligam a receptores semelhantes aos nossos. Desse jeito experimentamos uma espécie de comunicação “molecular”. Da mesma forma, quando se digere uma banana, a energia dela passa a ser nossa, o que é uma ligação ainda mais íntima do que a comunicação. Ao analisar todo o DNA em uma pessoa, 90 por cento vêm de bactérias que habitam o corpo dela de modo mutuamente dependente (simbiótico). Boa parte do nosso próprio DNA humano é similar ao DNA das bactérias. E as importantes organelas que nos dão energia, chamadas “mitocôndrias”, são na verdade células bacterianas que foram integradas por nossas células para essa finalidade. Portanto, somos geneticamente entrelaçados na rede da vida. Isso forma uma matriz de energia, genes e informações químicas codificadas. Nada é isolado. Essa é a grande revelação. Cada vez mais pessoas estão descobrindo isso, como pode ser observado pela espansão do movimento ecológico atual. O homem está abandonando a ilusão de que a Terra é dele e portanto pode ser manipulada e destruída a torto e a direito sem consequências terríveis. Porém, mesmo sem dados sobre a redução do ozônio e o aumento da temperatura dos oceanos, sábios antigos e profetas da Índia, como parte de sua jornada à iluminação, tiveram o mesmo insight quando declararam: “O mundo está em você”. A ecologia interliga todas as atividades que sustentam a vida, sejam as que ocorrem nas células ou em uma banana.

(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - Super Cérebro)

Teoria de que vida surgiu fora da Terra não é impossível

publicado às 01:41

O ressentimento e a autocomiseração são duas das drogas mais tóxicas.
(Allan Percy)

Já alguma vez viu uma flor infeliz ou algum carvalho com stresse? Conhece algum golfinho deprimido, alguma rã com problemas de auto-estima, algum gato que não relaxe, ou algum pássaro que sinta ódio e ressentimento? Os únicos animais que ocasionalmente poderão sentir algo parecido com negatividade ou mostrar sinais de comportamento neurótico são os que vivem em contacto íntimo com os seres humanos e se ligam desse modo à mente humana e à sua insensatez.
(Eckhart Tolle)

ASSIM COMO O SORRISO traz benefícios óbvios para a saúde, o ressentimento não apenas incide negativamente no estado de ânimo, como também pode desencadear doenças e distúrbios.
(Allan Percy

Ame-se a si próprio. Não se preocupe com as opiniões dos outros. Quando lhe fizerem uma proposta, ou quando se vir confrontado com a um compromisso que não lhe convenha aceitar, ou que não queira aceitar, diga não. Se não proceder desse modo, você estará a criar uma abertura para a entrada da raiva. Sentir-se-á ressentido com o facto de ter aceite o compromisso e esse ressentimento estender-se-á à pessoa que o obrigou a aceitar.
(Brian L. Weiss)
 
 
Nietzsche foi o primeiro filósofo a perceber de forma clara o ressentimento como marca humana essencial. Nesse sentido, foi mais profundo do que todo o blábláblá da luta de classes, tema na moda por décadas. Mas essa moda se deve justamente ao fato de a luta de classes ser um conceito que deita raízes justamente no ressentimento que a vida social gera porque somos o tempo todo lançados a conviver com gente melhor do que nós.
O ressentimento tem uma raiz profunda (o pânico diante da indiferença no universo vazio), mas um dos seus efeitos mais marcantes é exatamente a tendência de nos tornar superficiais, porque assim nos protege da consciência do próprio ressentimento. Desse modo, uma vida para o consumo cai bem, porque o ressentimento vive bem com a vida desperdiçada no consumo. A alegria breve do consumo alivia o peso da chaga do vazio que segue sendo nossa sombra. Não existe cura para a causa do ressentimento, existem modos distintos para nos relacionarmos com ele. Não há cura para uma verdade, apenas modos de enfrentá-la ou de evitá-la. A covardia contemporânea é nosso modo específico de evitar essa verdade íntima.
Nietzsche conta que, num recanto distante do universo, uma estrela tinha um planeta a sua volta. Neste, uma raça de insetos viveu por 1 milhão de anos e criou uma coisa chamada conhecimento, que os insetos tinham em alta conta. Com a morte da estrela, tudo se apagou. E o universo continuou no seu silêncio e na sua indiferença. Nasce aí nosso ressentimento. É da indiferença do universo que nasce nossa mágoa.
Para Nietzsche, as religiões, a metafísica, a moral são criações do ressentimento. Esta crítica é largamente conhecida. Não me interessa aqui refazê-la. Prefiro falar da espiritualidade ressentida contemporânea. Morto Deus, poderíamos pensar que o ressentimento morreria junto. Ledo engano: a praga sobreviveu à morte de Deus, prova de que sua raiz é mais profunda do que a crença em Deus. De lá para cá, os sintomas do ressentimento assumiram formas infinitas. Estética, política, ética, sexual.
Nietzsche anuncia a morte de Deus. Ele condena e lamenta que o cristianismo tenha prevalecido sobre o mundo antigo, e com ele o NÃO à vida
 
NÃO SOU
Deus já tinha nos dito na Bíblia que nossa missão é dar nome às coisas. Costumo dizer que não devemos falar mal da Bíblia como fazem grandes inteligentinhos como Saramago. A Bíblia é um reservatório de sabedoria, como todo livro de grandes tradições religiosas. Dar nome às coisas é essencial, devemos chamar o ressentimento por seu nome e seus atributos: inveja de quem é melhor, sentimento sufocante de que eu tenho o “direito” de ser melhor do que ele é, conclusão aterrizadora de que não sou. Toda vez que encontramos Deus, deuses ou gente melhor do que nós, afundamos no ressentimento.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

publicado às 14:23


QUANDO O AQUI É LÁ

por Thynus, em 05.12.14
"O tempo não é de maneira alguma o que parece ser. Ele não flui em um único sentido, e o futuro existe simultaneamente com o passado."
— Albert Einstein (1879-1955), físico
 
"O tempo é o que impede que todas as coisas aconteçam ao mesmo tempo."
—John Wheeler (1911- ), físico
 
 
Se nosso universo e tudo o que ele contém estão realmente dentro da Matriz Divina, como indica o experimento, é provável que bem cedo estejamos redefinindo nossas ideias de espaço e tempo. Poderíamos até mesmo descobrir que as distâncias que parecem nos separar uns dos outros e de nossos entes queridos apenas separam nossos corpos. Como vimos na história de Joey e do pai, algo dentro de nós não é limitado nem pela distância, nem pelas leis tradicionais da física.
Ainda que essas possibilidades pareçam ter vindo da ficção científica, elas têm sido também objeto de séria investigação científica -— tão séria, de fato, que durante os últimos anos da guerra fria os Estados Unidos e a antiga União Soviética dedicaram uma imensa quantidade de recursos e de pesquisas para compreender precisamente até que ponto essa Matriz, capaz de interconectar tudo, realmente existia. Especificamente, as superpotências desejavam determinar se era possível viajar a grandes distâncias por meio da Matriz, usando a visão interior da mente e explorando as capacidades físicas de determinados tipos de telepatia conhecidos como visão remota. Os resultados podem parecer surpreendentemente semelhantes aos de alguns filmes de grande popularidade dos últimos anos, e é muito possível que esses filmes tenham se valido deles para montar seus enredos. Os experimentos tornam também mais imprecisa ainda a já pouca definida linha delimitadora entre o que é fato e o que é ficção.
Em 1970, o governo dos EUA começou oficialmente a investigar a possibilidade de se fazer uso de métodos psíquicos para "surfar" pela Matriz e ver terras distantes e alvos inimigos. Foi então que a CIA começou a fazer as primeiras experiências usando pessoas psiquicamente sensíveis (capazes de sentir as experiências de outras pessoas sem necessidade de sinalização verbal ou visual), para focalizar sua mente em locais secretos (Jim Schnabel, Remote Viewers: The Secret History of America's Psychic Spies (Nova York: Bantam Doubleday Dell, 1997): pp. 12-13). Depois de fazerem isso, eles eram treinados para descrever o que descobriam com detalhes cada vez mais precisos. Esse programa ficou conhecido pelo acrônimo SCANATE, ou "escaneamento por coordenadas" e foi um dos precursores que levaram aos agora famosos estudos do Stanford Research Institute (SRI) sobre visão a distância.
Ainda que alguns aspectos da visão a distância possam parecer um pouco "fora do mundo", na realidade ela se baseia em sólidos princípios quânticos, alguns dos quais já foram explorados neste livro. Até mesmo os peritos reconhecem que ninguém sabe precisamente como a visão remota funciona. Em geral, o sucesso da visão a distância é atribuído à ideia da física quântica de que, embora as coisas possam parecer sólidas e separadas para nós, elas existem e estão conectadas a todo o restante como se formassem um campo universal de energia. Por exemplo, mesmo quando seguramos uma bela concha do mar na mão, do ponto de vista quântico, uma parte energética da concha está em toda parte. Como nossa concha existe além do local onde a seguramos, diz-se que ela é "não-local".
Um crescente número de cientistas tem aceitado a evidência experimental de que o universo, o planeta e até mesmo nosso corpo são não-locais. Nós já estamos em todos os lugares desde sempre. Como Russell Targ afirmou no Capítulo 4, ainda que estejamos fisicamente separados uns dos outros, ainda podemos estar em comunicação instantânea, e é disso que a visão a distância trata.
Com efeito, os observadores do programa SCANATE eram instruídos sobre como deveriam agir para ter um sonho "lúcido". No estado alterado em que ficavam, eles davam à própria consciência liberdade para focalizar determinados locais. Esses locais poderiam estar em outra sala do mesmo edifício ou do outro lado do mundo. Esclarecendo a conectividade de nosso universo no mundo quântico, Targ afirma: "Não é mais difícil descrever o que acontece nos distantes rincões da União Soviética do que é dizer o que se passa do outro lado da rua"(Russell Targ, from Suspect Zero DVD). Os treinandos do programa recebiam até três anos de instrução antes de serem incumbidos de missões secretas. Os detalhes dos projetos de visão a distância dos militares norte-americanos, que só há pouco tempo ficaram disponíveis para o público, descrevem pelo menos dois tipos de sessões. A primeira, chamada de visão remota coordenada, refere-se às descrições do que os observadores encontravam em coordenadas específicas identificadas pela latitude e longitude. A segunda, chamada visão remota ampliada, baseia-se em uma série de técnicas de relaxamento e meditação.
Ainda que os detalhes possam variar conforme o método empregado, os procedimentos da visão remota geralmente começam com os observadores entrando em um estado de suave relaxamento, uma vez que nesse estado eles ficam mais abertos ao recebimento de impressões sensoriais de locais distantes. Durante as sessões, outra pessoa geralmente é designada como guia e desempenha o papel de ajudar o outro observador chamando sua atenção para a observação de detalhes específicos. Por meio de uma série de protocolos que possibilitam ao observador perceber quais impressões são importantes para uma determinada "missão", a pessoa é capaz de descrever o que ela vê, cada vez com maior precisão. A indução do guia parece separar essa forma controlada de visão remota do sonho lúcido, que aparece muitas vezes de maneira espontânea durante o sono.
A implicação para as operações de caráter sigiloso era imensa e abria a porta para uma nova era de coleta de informações para serviços de inteligência, com menores riscos para as pessoas em campo — menores riscos querendo dizer, até que os programas de visão a distância foram desativados em meados da década de 1990. Com nomes em código intrigantes, tais como projeto Stargate, o último dos programas de visão a distância foi "oficialmente" concluído em 1995. Ainda que o processo tenha sido considerado por alguns como sendo de ciência "fronteiriça", tendo sido até mesmo desprezado pelos céticos da área militar, várias sessões de visão a distância foram homologadas por sucessos que não poderiam ser atribuídos a meras coincidências. Algumas dessas sessões podem até mesmo ter salvo vidas.
Durante a primeira Guerra do Golfo de 1991, pediram aos observadores remotos para pesquisar locações de mísseis escondidos nos desertos do Iraque ocidental (Jim Schnabel, Remote Viewers: The Secret History of America's Psychic Spies (Nova York: Bantam Doubleday Dell, 1997): pp. 12-13). O projeto foi bem-sucedido em apontar acertadamente os locais e de eliminar outros que estavam sendo considerados como localizações possíveis. As vantagens da busca psíquica são óbvias. Diminuindo a quantidade de localizações potenciais de armas escondidas, economiza-se tudo, não só tempo como combustíveis e recursos financeiros. O maior de todos os benefícios, entretanto, foi poupar a vida, propriamente dita, dos soldados. A busca remota por mísseis mortais reduziu o risco para os soldados, que tradicionalmente eram obrigados a executar essas missões no campo.
A razão pela qual menciono esses projetos e técnicas aqui é o fato de que eles demonstraram com sucesso duas coisas essenciais para a compreensão da Matriz Divina. Primeiramente, eles são mais uma indicação de que a Matriz existe. Para uma parte nossa viajar para recantos distantes e ver detalhes de coisas bem reais sem que tenhamos de sair da cadeira na qual estamos sentados é necessário que haja um meio pelo qual nossa consciência possa se deslocar. Meu ponto de vista nesse particular é que o observador tem acesso ao seu destino, independentemente de onde ele esteja. Em segundo lugar, a mesma natureza da energia que torna possível a visão a distância mostra-nos que a conectividade holográfica, aparentemente, é parte de nossa identidade. As antigas ideias sobre quem nós somos e como funcionamos no espaço-tempo começam a se esvair, perante a prova de que a Matriz Divina existe.

(GREGG BRADEN - A MATRIZ DIVINA)

publicado às 01:13


Beleza e inteligência

por Thynus, em 04.12.14
 
Na vida adulta, assim como na infância, a beleza e a inteligência estariam conectadas? Parece razoável supor que sim, pois a beleza está ligada às habilidades sociais, o que implica certa inteligência mental e, talvez, um domínio maior da inteligência emocional. Se existe uma ligação, e homens e mulheres atraentes tendem a ser inteligentes, então eles se beneficiam de uma impressionante dupla vantagem. Por outro lado, a sabedoria popular frequentemente rotula mulheres bonitas (e, às vezes, homens também) como burras — o estereótipo da “loura burra” é praticamente universal no mundo ocidental, como personificado por Marilyn Monroe em alguns de seus filmes. Assim, qual dos estereótipos é baseado na realidade?
Praticamente todos os estudos determinam que pessoas atraentes são vistas como mais competentes e inteligentes que as menos atraentes, em todas as idades. No passado, o estereótipo era mais forte para percepções de homens do que de mulheres, mas as diferenças sexuais parecem ter desaparecido no século XXI.(JACKSON et al, 1995. Relata a correlação de coeficientes entre a atratividade e a inteligência percebida de 0,33 para mulheres adultas e 0,42 para homens adultos. A meta-análise mais recente realizada por LANGLOIS et al, 2000, não percebeu diferenças sexuais dos efeitos da atratividade sobre a inteligência percebida. Mais recentemente, ZEBROWITZ et al, 2002, determinou correlações através da vida de 0,51 a 0,64 entre atratividade e inteligência percebida, e de 0,11 a 0,26 entre pontos de Q.I. e atratividade. Então, existe uma conexão, ainda que a ligação percebida seja mais intensa. Ver também KANAZAWA, 2011). O estereótipo tem mais força quando as pessoas estão lidando com estranhos ou em casos em que não há outra informação relevante disponível sobre a inteligência e a competência de alguém.(JACKSON et al, 1995, relata coeficientes de correlação de 0,28 em situações nas quais informações relevantes estão disponíveis e de 0,34 quando nenhuma informação é oferecida). Não faz diferença se um homem ou uma mulher que está avaliando. No geral, três quartos dos adultos atraentes são julgados competentes, comparados a um quarto dos não atraentes.(LANGLOIS et al, 2000, p. 400)
As percepções estimulam um tratamento diferenciado para adultos atraentes, mesmo quando as pessoas não têm consciência de que estão agindo assim. Adultos atraentes recebem mais atenção e elogios, são tratados de forma mais favorável e obtêm mais cooperação e ajuda.(LANGLOIS et al, 2000, p. 401) Contudo, eles são considerados apenas um pouco mais inteligentes do que os não atraentes, ainda que sejam muito mais habilidosos em interação social. (LANGLOIS et al, 2000, p. 402; JACKSON et al, 1995, p. 115; ZEBROWITZ et al, 2002; KANAZAWA, 2011.) Aparentemente, não há diferença entre homens e mulheres nesse ponto.
Parece que a vantagem intelectual inicial da atratividade na infância se desvanece na vida adulta, conforme todos os outros chegam ao mesmo ponto. Então, ela pode já não ter importância. Adultos atraentes já se tornaram socialmente competentes, confiantes, confortáveis e tranquilos ao lidar com as pessoas, com elevada autoestima e boa saúde mental. Mesmo deixando de lado a maior popularidade com o sexo oposto (que deve promover alegria), eles ainda têm vantagens substanciais erigidas em sua personalidade positiva e seu estilo social. Além disso, os outros presumem que pessoas atraentes possuem maiores talentos e competência, e as tratam de acordo com esse pensamento. O preconceito contra a “loura burra” do século XX parece estar ultrapassado no mundo ocidental, e homens e mulheres bonitas beneficiam-se igualmente de expectativas positivas.
Uma lição a ser aprendida é que, atualmente, é inútil — e até mesmo contraproducente — uma mulher atraente enfear-se para entrevistas de emprego e outras reuniões importantes (a não ser que esteja se candidatando a empregos de gestão, como demonstro no Capítulo 7). O preconceito contra mulheres bonitas demais para serem levadas a sério parece ter enfraquecido — sem dúvida com a ajuda de exemplos como Natalie Portman, a linda atriz de Hollywood que também é formada em psicologia em Harvard e fala quatro línguas fluentemente, inclusive o japonês. Se elas possuem habilidades comprovadas, experiência e qualificações, a atratividade se torna uma vantagem extra, um atributo a mais, e não um obstáculo. As mulheres não precisam escolher entre os rótulos da beleza e da inteligência, já que as pessoas normalmente percebem a boa aparência como mais um indicador
de competência intelectual.

(Catherine Hakim - Capital erótico)
E no princípio era Deus,Adão,Eva...

publicado às 15:23



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