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“A elevação dos direitos a benefícios tangíveis
leva as pessoas, inevitavelmente, a uma mentalidade
vil que oscila entre ingratidão, na melhor
das hipóteses – pois por que razão elas deveriam
ser gratas por receberem algo que é um direito – e,
na pior das hipóteses, ressentimento.
O ressentimento, a única emoção humana que
pode durar a vida inteira, provê infinitas
justificativas para suas más ações.”

Theodore Dalrymple
 
"Quando as pessoas não são
capazes de recusar compromissos que não
desejam, é frequente o surgimento de
doenças físicas, precisamente por se tratar
de uma maneira mais "aceitável" de dizer
não. Nessa altura não resta nenhuma alternativa
senão recusar, porque o corpo se encarrega
de dizer não por elas. Nestas circunstâncias,
ser afirmativo é muito mais
saudável. Uma vez vi uma frase estampada
numa T-shirt que resume esta questão de um
modo humorístico: Stress é quando a sua
mente diz que não, mas a sua boca se abre e
diz que sim."
Brian Weiss
 
“A coragem não lhes salvará,
mas mostrará que suas almas ainda vivem.”

Bernard Shaw
 
Tire o seu sorriso do caminhoQue eu quero passar com a minha dor
No futuro, não seremos lembrados como a era do iPad, nem da Apple, mas como a era do ressentimento. Provavelmente, considerarão os gregos e romanos mais importantes para as civilizações do futuro do que a nossa presente, pautada por pequenas intenções narcísicas.
O narcisismo não é a marca de alguém que se ama muito, mas a marca de alguém que vive lambendo suas feridas porque é um miserável afetivo. Mas por viver se lambendo, pensamos ser ele alguém que se ama muito, sendo que, no entanto, é justamente o contrário. Incapaz de ter vínculos, o narcisista vive a serviço de si mesmo. Pobre diabo que enche nossas ruas e nossas camas.
Não será a coragem, a disciplina, o medo, o desespero existencial que farão a história das mentalidades de nossa era, mas o sentimento de que merecemos mais do que temos. Uma chaga. Mas o que é o ressentimento?
Nietzsche foi o primeiro filósofo a perceber de forma clara o ressentimento como marca humana essencial. Nesse sentido, foi mais profundo do que todo o blábláblá da luta de classes, tema na moda por décadas. Mas essa moda se deve justamente ao fato de a luta de classes ser um conceito que deita raízes justamente no ressentimento que a vida social gera porque somos o tempo todo lançados a conviver com gente melhor do que nós.
O ressentimento tem uma raiz profunda (o pânico diante da indiferença no universo vazio), mas um dos seus efeitos mais marcantes é exatamente a tendência de nos tornar superficiais, porque assim nos protege da consciência do próprio ressentimento. Desse modo, uma vida para o consumo cai bem, porque o ressentimento vive bem com a vida desperdiçada no consumo. A alegria breve do consumo alivia o peso da chaga do vazio que segue sendo nossa sombra. Não existe cura para a causa do ressentimento, existem modos distintos para nos relacionarmos com ele. Não há cura para uma verdade, apenas modos de enfrentá-la ou de evitá-la. A covardia contemporânea é nosso modo específico de evitar essa verdade íntima.
 Nietzsche conta que, num recanto distante do universo, uma estrela tinha um planeta a sua volta. Neste, uma raça de insetos viveu por 1 milhão de anos e criou uma coisa chamada conhecimento, que os insetos tinham em alta conta. Com a morte da estrela, tudo se apagou. E o universo continuou no seu silêncio e na sua indiferença. Nasce aí nosso ressentimento. É da indiferença do universo que nasce nossa mágoa.
Para Nietzsche, as religiões, a metafísica, a moral são criações do ressentimento. Esta crítica é largamente conhecida. Não me interessa aqui refazê-la. Prefiro falar da espiritualidade ressentida contemporânea. Morto Deus, poderíamos pensar que o ressentimento morreria junto. Ledo engano: a praga sobreviveu à morte de Deus, prova de que sua raiz é mais profunda do que a crença em Deus. De lá para cá, os sintomas do ressentimento assumiram formas infinitas. Estética, política, ética, sexual.
Deus já tinha nos dito na Bíblia que nossa missão é dar nome às coisas. Costumo dizer que não devemos falar mal da Bíblia como fazem grandes inteligentinhos como Saramago. A Bíblia é um reservatório de sabedoria, como todo livro de grandes tradições religiosas. Dar nome às coisas é essencial, devemos chamar o ressentimento por seu nome e seus atributos: inveja de quem é melhor, sentimento sufocante de que eu tenho o “direito” de ser melhor do que ele é, conclusão aterrizadora de que não sou. Toda vez que encontramos Deus, deuses ou gente melhor do que nós, afundamos no ressentimento.
Se você já fez algum workshop xamânico, você é, provavelmente, um ressentido. Sinto muito em dizê-lo. A verdadeira espiritualidade trilha aquele caminho que os pietistas alemães (luteranos que odiavam o mundo e viam o pecado em si mesmos e no mundo o tempo todo e, por isso, faziam silêncio para acalmar a Criação do ruído do mal) chamavam de “inferno do conhecimento de si mesmo”. Espiritualidade nada tem a ver com cursos de três dias sobre sabedoria egípcia antiga ou textos védicos. Espiritualidade tem mais a ver com colocar filhos para dormir todos os dias do que com aprender línguas mortas. Mas a alma contemporânea, essa ridícula, pretende recuperar espiritualidades mortas num fim de semana. Mistura budismo com seres de outros planetas como quem mistura molhos de comida étnica. No fundo, todos os deuses que adoram estão a serviço de seus projetos pessoais. Um deus que serve ao homem não vale a pena ser adorado.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 01:29


Dionísio, ou desejo

por Thynus, em 04.11.14

"Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance."

(Fernando Pessoa)

 

O coração é no Ocidente o símbolo da emoção. Dionísio é o deus das emoções. Emoção é o que dá fogo, o que dá intensidade aos sentimentos humanos. O coração palpita pela influência do fogo. O que faz nosso coração palpitar de felicidade ou medo, nos faz sentir um aperto no coração ou um calor que alastra do coração é a emoção.

[...] os deuses em sua previdência lhe reservaram [ao coração] um socorro: o pulmão, exangue e mole, cheio de buracos como uma esponja sobre a qual o coração pode à vontade saltar e acalmar-se. (DETIENNE, 1988, p.104)

O coração está tão ligado ao mito de Dionísio que no momento em que o deus é desmembrado e fervido, o que resta de sua essência é seu coração. Este é o órgão que primeiro se move no embrião, e o último órgão a cessar na morte. (DETIENNE, 1988) O coração tem como função jorrar a vida, assim também é o phállos, símbolo de Dionísio. O phállo possui a mesma característica que o coração, é um órgão autônomo, que pulsa, que jorra.

Dionísio é o mestre da fecundidade animal e humana, ele é denominado phalenos (FORTUNA, 2005). Mas Dionísio não possui o monopólio do falo, já que este símbolo também está ligado a Afrodite, Pã e especialmente a Príapo. A procissão do phállos tem um importante lugar nas festas gregas em geral. (FORTUNA, 2005)

O falo e o coração apresentam a mesma potência de Dionísio, uma potência vital da natureza, que também é contemplada no símbolo do vinho que jorra - em Olímpia havia uma festa onde “Dioniso encontra um teatro para sua epifania. Sob dupla forma: um touro salta para o sacrifício; de repente o vinho enche as cubas intactas” (DETIENNE, 1988, p.95-96) -. O falo não está representando uma parte do corpo masculino, ele transcende o corpo, assim como o vinho ultrapassa os limites de um simples complemento de um banquete. (SISSA; DETIENNE, 1990) O coração, o falo e o vinho estão servindo de metáfora à onipotência de Dionísio, sua força vital, a efervescência da vida que jorra, salta, dança.

(MARIANA CARDOSO PUCHIVAILO - UMA FERIDA DOCE, UM MAL SUAVE: A SABEDORIA DIONISÍACA NO CUIDADO À SAÚDE MENTAL)

 

O falo é a marca da falta e, em geral, da diferença, e, em particular, da diferença sexual. Como a marca da falta, refere-se ao fato de que o sujeito não está completo em si mesmo.
(Teresa Brennan - "Para Além do Falo")

 

O Grande Hierofante dos Magos explicou a Circuncisão. O membro viril é considerado como especialmente consagrado ao Criador, seja como símbolo, seja como conduto do poder e dos desejos divinos a serem cumpridos. Antigamente, para se tornar o juramento de uma pessoa, ela devia colocar a mão sobre o Falo do ser a quem fazia o voto ou a promessa. Hoje jura-se sobre a cruz.

(Jorge Adoun - Do Sexo à Divindade

 

A partir da psicanálise sobretudo (mas não somente a partir dela), considera-se a sociedade ocidental, de origem judaico-cristã, como uma sociedade falocrata (phalo = pênis; krathós = poder) e patriarcal (sob o poder do Pai). O falo (isto é, o pênis como objeto simbólico), representado consciente e inconscientemente como origem de todas as coisas (poder criador), como autoridade (a Lei como lei do Pai) e sabedoria, é aquilo que a mulher não possui e deseja. Marcada por uma falta ou carência originária, por uma lacuna, a mulher seria um ser que sexualmente se caracterizaria pela inveja do pênis, enquanto o homem, rival do Pai, seria sexualmente marcado pelo medo da perda do pênis, isto é, pelo medo da castração. Em nossa sociedade, portanto, a repressão sexual operaria a partir daquela inveja e daquele medo. Pouco a pouco, os estudiosos acabaram generalizando essa idéia para todas as sociedades patriarcais.

(MarilenaChaui – “Repressão Sexual”)

(Esta fábula reaparece, ampliada e completada, no Livro II de De Augmentis Scientiarum)
 
 
Narram [os poetas] que Sêmele, amante de Júpiter, fê-lo proferir o juramento inviolável de satisfazer-lhe um desejo, qual quer que fosse. Pediu então que ele a possuísse sob a mesma forma com que possuía Juno. A conseqüência foi que a jovem pereceu incinerada em seu abraço. A criança que trazia no ventre foi recolhida pelo pai e costurada em sua coxa, até cumprir-se o tempo da gestação. O peso obrigava Júpiter a manquejar; e a criança, por causar-lhe dor, recebeu o nome de Dioniso. Depois de nascer, foi enviada a Prosérpina, que dela cuidou por alguns anos; mas, quando cresceu, seu rosto se parecia tanto com o de uma mulher que era difícil saber de qual sexo era. Além disso, morreu e ficou sepultado por certo tempo, para logo voltar à vida. Em sua primeira juventude, Dioniso descobriu e disseminou a cultura da vinha, bem como a composição e o uso do vinho, até então desconhecido. Já famoso e ilustre, subjugou o mundo inteiro e avançou até os limites extremos da Índia. Era conduzi do num carro puxado por tigres, tendo à volta uns demônios deformados e saltitantes chamados Cóbalos, Ácrato e outros. Também as Musas se uniram a ele. Tomou para esposa Ariadne, a quem Teseu traíra e abandonara. Tinha por árvore sagrada a hera. Creditam-lhe ainda a invenção e instituição de cerimônias e ritos sagrados, que eram, no entanto, fanáticos e corruptos, além de crudelíssimos. Detinha o poder de excitar o frenesi. Pelo menos dois varões ilustres, Penteu e Orfeu, sucumbiram às mãos de mulheres enlouquecidas em suas orgias, que os fizeram em pedaços – o primeiro por ter subido a uma árvore a fim de espiá-las, o segundo enquanto tangia a lira. Muitas das ações desse deus confundem-se com as de Júpiter.
A fábula parece tratar dos costumes, e de fato nada melhor se encontra na filosofia moral. Sob os traços de Baco descreve-se a natureza do Desejo, ou paixão e perturbação. Com efeito, a mãe de todos os desejos, ainda os mais perniciosos, outra não é que o apetite e o anseio por bens aparentes; sua concepção se dá sempre por uma promessa ilícita, feita antes de ser medida e ponderada. Mas quando a paixão se aquece, a mãe (isto é, a natureza do bem), incapaz de suportar-lhe o calor, é devorada pelas chamas. A própria paixão, de início, permanece na alma huma na (que é seu pai, representado por Júpiter), sobretudo na parte baixa, qual se fora na coxa, sendo ali nutrida e ocultada. A tal ponto punge, incomoda e deprime a alma que suas resoluções e ações como que claudicam. E mesmo depois que cresce e se transforma em atos, por indulgência e costume, fica durante algum tempo aos cuidados de Prosérpina – ou seja, busca locais secretos e mantém-se oculta como sob a terra. Mas então, rompendo todos os entraves do pudor e do medo, faz-se ousada e assume ou a máscara de alguma virtude ou, insolentemente, a própria infâmia. Com verda de se diz que toda paixão inflamada é de sexo duvidoso, pois tem ao mesmo tempo a força do homem e a fraqueza da mulher. Diz-se também com igual verdade que Baco voltou à vida depois de morrer: as paixões parecem às vezes adormecidas e extintas, mas delas não se pode fiar ainda que hajam sido sepultadas porque, fornecidos o pretexto e a ocasião, ressurgem.
Formosa parábola, a da invenção do vinho. De fato, as paixões descobrem seus próprios estimulantes com muita sagacidade e engenho. E nada do que conhecemos é tão vigoroso e eficiente quanto o vinho para excitar perturbações de todo tipo, das quais é como que o combustível comum. Com idêntica finura se representou a Paixão como subjugadora de províncias e empreendedora de conquistas sem fim. Ela jamais se contenta com o que possui, mas vai adiante com insaciável apetite, à cata de novos triunfos. Tigres são mantidos em suas cocheiras e recebem o jugo de seu carro – pois logo que a Paixão deixa de avançar a pé para deixar-se conduzir por rodas, celebrando sua vitória sobre a razão, passa a mostrar-se cruel, selvagem e impiedosa para com tudo o que lhe barra o caminho. Jocosamente foram colocados aqueles demônios ridículos a dançar à volta do carro: com efeito, toda paixão produz nos olhos, na boca e no corpo movimentos indecorosos, incontidos e disformes. Quando um homem, sob a influência da paixão – cólera, petulância, amor etc. –, parece grande e imponente a seus próprios olhos, aos olhos dos outros parece desagradável e ridículo. Convém igualmente que as Musas integrem o cortejo, pois quase não há paixão que não encontre uma doutrina para incensá-la. Assim a majestade das Musas se rebaixa graças à leviandade do engenho humano, transformando aqueles que deveriam ser os guias da vida em meros seguidores de suas paixões.
Nobre é a parte da alegoria que representa Baco consagrando o seu amor a uma mulher abandonada por outro homem. Verdadeiramente, a paixão busca e apetece aquilo que a experiência rejeitou. E saibam todos quantos, no afã da busca e da indulgência, estão prontos a pagar qualquer preço pelo gozo de seus afetos, que independentemente do objeto pretendido – honra, fortuna, amor, glória ou sabedoria –, cortejarão coisas rejeitadas, coisas que muitos homens experimentaram e, após a experiência, deitaram fora com desgosto.
Tem também seu mistério a consagração da hera a Baco. Essa planta apresenta, com efeito, duas propriedades: floresce no inverno e sobe espalhando-se pelas coisas – árvores, paredes, edifícios. Quanto à primeira, toda paixão desabrocha e ganha forças ante a proibição e a resistência (como por uma espécie de antiperístase), tal qual se dá com a hera ante o frio do inverno. Quanto à segunda, a paixão dominante espraia-se por sobre todos os atos e resoluções humanas, insinuando-se neles e com eles se mesclando. E não causa espanto que os ritos supersticiosos sejam atribuídos a Baco, já que todo afeto insano cresce nas religiões depravadas, nem que o frenesi seja por ele despertado, porquanto toda paixão é em si mesma uma loucura breve – e, quando veemente e obstinada, termina em desfaçatez. O dilaceramento de Penteu e Orfeu apresenta um evidente significado alegórico: a bisbilhotice e a advertência salutar são, ambas, odiosas e intoleráveis a uma paixão obstinada.
Finalmente, a confusão das pessoas de Baco e Júpiter pode ser entendida como uma parábola. Os feitos de rara distinção e mérito procedem às vezes da virtude, da razão clara e da magnanimidade, outras (embora possam ser celebradas e aplaudidas), de alguma paixão latente ou desejo oculto. Por isso, as proezas de Baco não se distinguem facilmente das de Júpiter.

(Francis Bacon - A sabedoria dos antigos)

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publicado às 16:11


O RAPTO DE EUROPA

por Thynus, em 03.11.14
 
Há muito tempo atrás, havia no reino de Tiro um rei, Agenor, cuja filha era muito bela. O nome dela era Europa, e Júpiter apaixonou-se perdidamente por sua beleza.
— Que linda mulher! — exclamava o deus dos deuses, cuidando, no entanto, para não ser
ouvido por Juno, sua ciumenta esposa. — Tenho de possuí-la, a qualquer preço.
Movido por essa determinação, Júpiter decidiu utilizar-se de seu estratagema principal, ou seja, o de se metamorfosear em algum ser ou coisa. Por alguma razão, Júpiter jamais aparecia diante das suas eleitas na sua forma pessoal, preferindo assumir sempre uma outra aparência qualquer. Assim, depois de muito pensar, decidiu transformar-se num grande touro, branco como a neve. Completada a transformação, Júpiter desceu à Terra envolto numa grande nuvem.
Em uma das praias do rei de Tiro e pai de Europa, um rebanho dócil de touros pastava num relvado próximo ao mar. Sem que ninguém percebesse, uma grande nuvem foi se aproximando, até que dela desceu o grande touro, indo colocar-se em meio aos demais. Os seus novos colegas de rebanho, a princípio assustados com aquela súbita aparição, abriram um espaço assim que ele pousou sobre a grama. No entanto, como o alvo touro se mostrasse manso e dócil, teve logo sua presença admitida, sem maiores contestações.
Ali esteve misturado aos demais, contrastando em relação ao pêlo escuro dos outros touros, até que de repente a bela Europa surgiu com suas amigas, rindo e cantando por entre as areias da praia. As suas companheiras eram belas, também, mas, assim como Júpiter destacava-se em seu rebanho, a filha de Agenor destacava-se em meio ao seu encantador e animado grupo.
Era uma manhã luminosa, o sol brilhava sem ferir os olhos, e o céu tinha um tom manso e azulado como os olhos do touro, que observavam, atentos, a aproximação de sua amada.
— Vejam só que belo rebanho! — exclamou Europa, ao ver os boa ajuntados. — Mas o que será aquela mancha branca em meio a eles?
A jovem, destacando-se do grupo, avançou correndo, levantando a barra da sua túnica rendada, que lhe descia até um pouco abaixo dos joelhos. Quando chegou perto de Júpiter, seus seios arfavam sob a fina gaze de suas vestes. Os grandes olhos azuis do touro branco pousaram sobre a face corada de Europa, de tal modo que a moça não pôde deixar de observar o seu intenso brilho.
— Um touro branco! — disse a moça, encantada. — E que lindos olhos ele tem! Todas as amigas ajuntaram-se em torno ao animal, que, no entanto, tinha seus grandes olhos azuis postos somente sobre a bela filha do rei. A moça, postando-se ao lado dele, começou a alisar o pêlo sedoso de seu dorso branco, enquanto admirava os seus pequenos e delicados cornos, que tinham o brilho cristalino das melhores pérolas. Embora o aspecto do animal fosse suave, a sua musculatura era rija, o que Europa pôde comprovar ao alisar o seu pescoço. Alguns espasmos musculares percorriam o pêlo do touro a cada vez que Europa o acariciava. De vez em quando o animal inclinava a cabeça, fazendo-a deslizar discretamente pelo flanco de Europa, erguendo com suavidade a fímbria de suas vestes. A filha de Agenor, contudo, permitia tais liberdades por julgá-las apenas um brinquedo inocente do magnífico animal.
Retirando-o do grupo, Europa levou-o para passear nas areias da praia, dando-lhe com as mãos algumas flores, que o touro comeu alegremente. Depois, ele pôs-se a correr ao redor da moça, enquanto as outras o perseguiam, fazendo-lhe festas e agrados.
Como o sol começasse a se tornar quente demais — pois era o auge do verão -, as moças, cansadas momentaneamente da brincadeira, despiram-se para dar um breve mergulho no mar.
Europa, entretanto, preferiu ficar na areia, a brincar com seu touro branco. Assim, enquanto suas amigas banhavam-se, Europa colhia outras flores, compondo com elas uma bela grinalda que depositou em seguida sobre os chifres do animal. Depois, montada sobre as suas costas, foi conduzida por ele num trote manso. Enquanto o animal a levava, emitia um pequeno mugido, em sinal de orgulho e satisfação.
As amigas de Europa, entretanto, ao verem a nova diversão que a filha do rei inventara, saíram todas correndo do mar, num passo rápido que fazia balançar seus pequenos seios molhados. Júpiter, porém, ao vê-las avançarem para si, temeu que fossem desalojar Europa das suas costas. Realmente, logo uma delas tocou a cabeça do touro, com a mão coberta de sal: — Vamos, Europa, deixe-nos andar um pouco! — disse a moça, impaciente.
Júpiter, porém, aproveitando a relutância que Europa manifestava em descer. lançou-se para a frente, num salto ágil, tomando o rumo do mar.
— Ei, esperem, aonde vão?... — exclamou uma das amigas de Europa, com as mãos pousadas na cintura.
Júpiter, surdo aos gritos, arremeteu em meio às mulheres que avançavam pela água, obrigando-as a se afastarem, assustadas, para todos os lados.
— Socorro! — gritava Europa, estendendo-lhes as mãos, apavorada com o ímpeto repentino do animal.
O touro, entretanto, avançava mar adentro, deixando atrás de si as mulheres pela praia, a sacudir os braços, impotentes. Imaginando que o touro enlouquecera, temeram que tanto Europa quanto o animal terminariam afogados, logo que ultrapassassem a rebentação.
Surpreendentemente, porém, o touro rompeu as ondas, lançando-se num trote ainda mais ágil do que aquele que usara nas areias fofas da praia. E assim se afastou cada vez mais da praia, enquanto Europa procurava manter-se agarrada aos chifres de seu seqüestrador.
— Pare... ! Para onde está me levando? — perguntava Europa, enquanto o touro permanecia firme no seu galope, saltando sobre as ondas com a mesma destreza de um golfinho.
Vendo, porém, que o animal parecia determinado a conduzi-la para algum lugar, Europa começou a clamar por socorro, invocando a proteção de Netuno:
— O deus dos mares, veja em que aflição me encontro! — disse a moça, recebendo em seu corpo o vento e as ondas geladas.
De repente, porém, tendo já avançado imensamente pelo oceano, o touro voltou para trás a cabeça e começou a conversar com a assustada Europa.
— Nada tema, bela Europa! — disse o animal. — Eu sou Júpiter e a levo comigo para a ilha de Creta, onde casaremos e você será honrada com uma ilustre descendência.
Europa, mais calma, manteve-se agarrada aos chifres de seu futuro marido. Dentro em pouco chegaram ambos à ilha que o deus dos deuses anunciara. Tão logo teve os pés postos sobre o chão outra vez, Europa viu o touro branco assumir a forma esplendorosa de Júpiter.
Impaciente, o deus supremo carregou-a para dentro da ilha, enquanto Europa ainda tentava ensaiar alguma reação. Das núpcias deste casal surgiriam três lindos filhos, dentre os quais Minos, futuro rei de Creta.

(A. S. Franchini / Carmen Seganfredo - AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA MITOLOGIA)

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publicado às 11:58


Os dias da interrogação

por Thynus, em 01.11.14
Os deuses são mortais, os seres humanos imortais, 
vivendo a sua morte, morrendo a sua vida.
Heráclito
 
Um dia, escrevi um livro com meu amigo André Comte-Sponville, o filósofo
materialista pelo qual tenho o maior respeito e amizade. Tudo nos opunha: tínhamos
aproximadamente a mesma idade, poderíamos ter sido competidores. André vinha,
politicamente, do comunismo; eu, da direita republicana e do gaullismo. Filosoficamente
ele se inspirava completamente em Spinoza e nas sabedorias do Oriente; eu, em Kant e
no cristianismo. Encontramo-nos e, em vez de nos odiar, como teria sido simples fazê-lo,
começamos a acreditar um no outro, quero dizer, a não supor a priori que o outro estava
de má-fé, mas a procurar, com todas as forças, compreender o que poderia seduzir e
convencer numa visão de mundo diferente da nossa própria.
Graças a André, compreendi a grandeza do estoicismo, do budismo, do spinozismo,
de todas as filosofias que nos convidam a “esperar um pouco menos e amar um pouco
mais”. Compreendi também o quanto o peso do passado e do futuro estraga o gosto do
presente e até gostei mais de Nietzsche e de sua doutrina da inocência do devir. Nem por
isso me tornei materialista, mas não posso mais dispensar o materialismo para descrever e
pensar algumas experiências humanas. Em suma, acredito ter alargado o horizonte que
era o meu até algum tempo atrás.
Toda grande filosofia resume em pensamentos uma experiência fundamental da
humanidade, como toda grande obra artística ou literária traduz os possíveis das atitudes
humanas nas formas mais sensíveis. O respeito pelo outro não exclui a escolha pessoal. Ao
contrário, a meu ver, ele é sua condição primeira.
(Luc Ferry - Aprender a viver)
Qual é a constituição da razão, que inevitavelmente põe perguntas a que depois não sabe responder? Essas perguntas, diz Kant, têm a ver com a liberdade: somos livres ou estamos inseridos na cadeia do determinismo causal?, com a imortalidade: tudo acaba com a morte ou continuamos para lá dela?, com Deus: há Deus ou Deus realmente não existe? Perguntas decisivas a que a razão científica não sabe responder. Ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe ou não existe e que haverá ou não vida futura; se alguém o souber, escreve, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".
Sobre aquilo que decisivamente nos interessa estamos praticamente na situação de sempre: nesses domínios, o saber no sentido científico estrito não avança. Mesmo sobre a morte o que é que sabemos? Ninguém sabe o que é morrer - lá está M. Heidegger: "A morte do outro revela-se como uma perda, mas sobretudo como a perda que experienciam os que ficam. A perda sofrida não lhes dá, porém, acesso à perda de ser enquanto tal que o moribundo "sofreu". Nós não experienciamos no sentido forte desta palavra o falecimento dos outros: quando muito, a única coisa que fazemos é "assistir" a ele." Por isso, ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?
Eu sei que hoje não é de bom tom falar ou escrever sobre estes temas. Mas não é a morte, facto perfeitamente natural, que se torna espaço de e da cultura? Sem a morte e a sua consciência, haveria religiões e filosofias?
O sintoma mais claro da crise deste nosso tempo - uma crise financeira, social, económica, religiosa, moral - é a morte tornada tabu, o único tabu. Para ser o que é, a nossa sociedade não teve apenas de fazer da morte tabu, ela é a primeira na história a colocar o seu fundamento sobre o tabu da morte: disso não se fala e vive-se como se ela não existisse.
O que se passou é que, como analisou Max Weber, na distinção entre Zweckrationalität (racionalidade referente a um fim condicionado, no quadro de imperativos hipotéticos) e Wertrationalität (racionalidade referente a valores morais categóricos), a primeira assumiu o primado e até o monopólio. A razão instrumental ou racionalidade técnica substituiu a razão prática enquanto racionalidade moral. Assim, como escreve o filósofo Luc Ferry, o nosso mundo é completamente dominado pela concorrência total, "o benchmarking, competição das empresas entre si, mas também dos países, das culturas, das universidades, dos laboratórios, etc. A história já não avança animada pela representação de uma finalidade, pelo projecto de construir um mundo melhor, animada por objectivos como a liberdade, a felicidade e o progresso. Já não avançamos referidos à representação de uma finalidade, mas apenas impelidos pela obrigação absoluta de fazer crescer os meios de que dispomos. Daí, a liquidação progressiva do sentido que caracteriza a vida política moderna". É preciso produzir, competir, inovar sempre, cada vez mais, mas, agora, "sem saber porquê nem para quê, em virtude de que finalidade", de tal modo que o homem moderno se tornou "o funcionário da técnica", como já tinha reflectido M. Heidegger.
Compreende-se que nesta sociedade, no quadro da objectivação total e humanamente "des-finalizada", a morte não tenha lugar. Daí, a desumanização crescente, sendo, pois, necessário voltar ao pensamento sadio, não mórbido, da morte. Esse pensamento não impede de viver. Pelo contrário, pela consciência do limite, leva a viver intensamente o milagre do existir, a cada instante, é ele também que remete para a ética, distinguindo entre bem e mal, justo e injusto, o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale, e ensina a fraternidade: somos mortais, logo, somos irmãos. E abre à Transcendência, pelo menos enquanto questão.
Neste sentido, apesar do tabu, os dias 1 e 2, hoje e amanhã, dias dos santos e dos finados, são os dias da interrogação essencial.

(Anselmo Borges)
Morte física ou desencarne corpóreo?

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publicado às 15:42

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