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comportamentalismo

por Thynus, em 14.11.14
Conhecida mundialmente pelo seu nome mundial, behaviourism, essa tem sido a escola de pensamento predominante na PSICOLOGIA acadêmica desde a publicação da obras clássica de J.B. Watson, Behaviourism, em 1924. Poucos psicólogos, desde essa época, têm-se mostrado dispostos a aceitar sua teoria sem reservas. A maioria, no entanto, sempre concordou com os aspectos gerais da sua posição. Ele afirma que:
1. os eventos mentais não podem constituir os dados de uma ciência respeitável, sendo o objeto adequado do estudo psicológico o comportamento, e não o pensamento ou o sentimento;
2. todo comportamento é o efeito de um reforço ou consolidação, isto é, a reação a um estímulo é a conseqüência da repetida coincidência da reação com uma recompensa (ou castigo);
3. as técnicas experimentais em psicologia permitem-nos manipular o comportamento no sentido de fins socialmente aprovados. Uma vez que todo comportamento é de qualquer forma condicionado, a objeção ao condicionamento, em oposição à persuasão racional, não procede.
A escola comportamentalista surgiu em primeiro lugar como protesto contra a situação insatisfatória da psicologia na virada do século. Wilhelm Wundt, Edward Tiechener e William James supunham que a psicologia estudava os eventos mentais por meio da introspecção. Esse processo era notoriamente destituído de fidedignidade, faltando-lhe os meios de replicar as descobertas relatadas. Era anátema para uma geração orientada por uma concepção da ciência extraída de Ernst Mach e que sentia inveja de cientistas mundialmente aclamados por seus sucessos na previsão de eventos no mundo físico. Os movimentos corporais, em contraste, pareciam satisfazer a exigência científica de dados confiáveis. A pressuposição de que o comportamento é sempre uma reação a estímulos reforçados forneceu as condições para experiências controladas. Até agora, portanto, o comportamentalismo é o ponto de vista da própria psicologia experimental.
Watson, no entanto, foi mais longe. Em Chicago, estudara com Jacques Loeb, famoso por sua afirmação de ter criado vida num tubo de ensaio e que pensava a ciência como um meio de controlar e mudar a natureza. Watson participava desse ponto de vista e, com seu aluno B.F. Skinner (1938; 1959; 1971), tornou popular uma imagem do comportamentalismo como receita para resolver as ansiedades individuais e o males do mundo. Onde psicólogos como Clark L. Hull e E.C. Tolman encaravam o estímulo-reação (E-R) como técnica para refinar nossa concepção do aparato mental ou fisiológico que, eles supunham, devia mediar entre um estímulo e uma reação, Skinner encara o reforço como recurso utilizado pelo experimentador para induzir comportamento.
Esse ponto de vista poderia ser chamado de comportamentalismo ideológico, de vez que acarreta uma concepção de comportamento formada a partir de fins escolhidos para a ação. Tal concepção exige a linguagem do desempenho bem ou malsucedido, e não apenas a descrição neutra de movimentos corporais, normalmente encarada como o fundamento científico da teoria psicológica. Definir o comportamento para atender à exigência de dados é um problema para o comportamentalismo em geral. A experiência clássica do labirinto constrói-se sobre a pressuposição de que um sujeito há de se  sentir gratificado por chegar à recompensa e resolverá o labirinto com maior rapidez em novas tentativas. O comportamento do sujeito não será descrito de forma mais exata se for analisado em suas unidades. A estratégia experimental sempre presume que o sujeito está buscando a recompensa. Mas, nesse ponto, não fica evidente por que não podemos dizer diretamente que o sujeito quer a recompensa e sabe como encontrá-la.
Grande parte da energia dedicada a experiências de labirinto teve o objetivo menos ambicioso de chegar a um registro de números. Por exemplo, a taxa de aprendizado. Se esses resultados têm implicações importantes para nossa compreensão do comportamento e da estrutura dos organismos é algo que pode, em si, ser questionado.
As experiências de taxa de aprendizado nem implicam nem excluem eventos íntimos. Nem exigem descrição em termos de movimentos corporais. Aprender é uma realização; é dado experimental. Comportamento, nesse contexto, é o que organismos fazem, e não meramente como se movem. As fortes alegações de Skinner sobre a eficiência na mudança de comportamento com o emprego de métodos expurgados de conteúdo mental parecem entrar em confronto com sua igualmente forte alegação de que, dado um controle suficiente sobre um organismo, podemos levá-lo a fazer praticamente tudo que quisermos. Cães caminhando sobre as patas traseiras, golfinhos pulando através de anéis de fogo, soldados marchando para a batalha atestam a possibilidade do controle. Mas uma descrição dos métodos de condicionamento parece acarretar certa referência aos fins, intenções e motivos, pelo menos do experimentador. Se assim for, elas acarretam também uma descrição dos organismos como executando, e não meramente exibindo, movimentos físicos.
Muitos dos críticos de Skinner têm-se oposto a seus pontos de vista por motivos morais e políticos. Ele reduz a motivação humana, segundo dizem, à forma mais simplista de hedonismo. Defende o reforço positivo (recompensas, em vez de castigos), não porque seja melhor ser bom, mas porque, de acordo com seu ponto de vista, esse é um método de manipulação mais eficaz. Suas alegações de eficiência são, além do mais, exageradas. As reações vão sumindo com o decorrer do tempo (extinção) e assim requerem freqüentes sessões de recondicionamento. É claro que hábitos que se extinguem podem ser explicados teoricamente, mas, como método de política social, o condicionamento iria onerar a sociedade com custos tremendos. Críticas desses tipos são importantes, apesar de se concentrarem, talvez de modo demasiado exclusivo, na obra polêmica de Skinner. Não obstante, elas revelam que grande parte da psicologia experimental é voltada para os fins, o que invalida a alegação de haver descrito o comportamento sem recorrer à linguagem do motivo, do propósito e da ação.
Expurgar a linguagem psicológica da linguagem intencional e mentalista foi, conforme vimos, uma reação às afirmações inverificáveis dos introspeccionistas. Essa reação assumiu duas formas. Comportamentalistas radicais, como Watson e Skinner, negavam a existência, ou pelo menos a significação, de eventos descobertos através da introspecção. Assumindo que qualquer uso de conversa intencional ou mental envolvia o que falava no processo desacreditado da introspecção, foram levados a negar que alguma coisa intervenha entre o estímulo e a reação. Qualquer referência a impulsos, motivos ou percepção consciente é redutível à linguagem E-R. Skinner, assim, é levado a excluir a explicação fisiológica, a qual, desde os tempos de Pavlov (1927), forneceu um ímpeto importante ao desenvolvimento de métodos comportamentalistas. A obra de Hebb (1949) é um exemplo instrutivo. Os fisiólogos requerem meios refinados para descrever o movimento corporal a fim de extrair inferências a respeito da estrutura e função do sistema nervoso.
Outros psicólogos, como Hull (1943) e Tolman (1958), supunham que a identificação precisa de estímulo e reação era necessária para chegar aos processos interiores que os introspeccionistas observaram de modo imperfeito. Seus pontos de vista receberam estímulo da visão predominante de que em ciência se postulam “construtos hipotéticos” ou “variáveis intervenientes”, a partir dos quais a prova experimental se segue logicamente e por meios dos quais novos eventos podem ser previstos. Para alguns, os modelos não se referem a eventos ou estruturas reais, mas são apenas recursos heurísticos para fazer previsões. Para outros, a descrição exata do processo de aprendizado era justificada com o argumento de que nos pode dar mapas mais precisos da mente (por exemplo, Tolman). O conceito de impulso desempenha um papel central em todas as teorias desse tipo. A força impulsionadora, segundo se diz, facilita a previsão (Skinner, é claro, argumentaria que não existe diferença entre o impulso e a súmula de respostas). Ele também apóia as afirmações a respeito de processos interiores, cuja natureza, porém, permanece problemática.
Já não é mais tão claro quanto pode ter parecido por volta de 1950 que o comportamentalismo psicológico contribuiu muito para a nossa compreensão do comportamento dos organismos. Alguns dos motivos de ceticismo se destacaram. A crítica de alcance mais profundo baseia-se na obra de Wittgenstein (1953) e Ryle (1949), que foram eles próprios descritos como comportamentalistas, uma vez que concordam em que a introspecção não é o meio apropriado de acesso à mente. Wittgenstein afirma que não podemos ter certeza de estarmos aplicando corretamente um termo a experiências particulares. Assim, nossa conversa sobre pensamentos e sentimentos não pode, logicamente, representar uma suposição de dados particulares. Ryle ataca a concepção da mente como um lugar onde os eventos mentais ocorrem. Nós não observamos nossos pensamentos e os relatamos; nossos pensamentos são o nosso discurso. Não descrevemos nossos sentimentos, na mesma medida em que os expressamos. A atividade mental, ou grande parte dela, é aquilo que fazemos.
Em Wittgenstein e Ryle, porém, a externalização da mente não é motivada pela tentativa de definir comportamento em termos científicos. Essa pesquisa leva, em vez disso, de volta à vida comum e à linguagem do dia-a-dia que usamos para facilitá-la. Nesse cenário, é inadequado falar dos movimentos dos organismos como a base para inferência sobre pensamentos, intenções, sentimentos e objetivos. Nossas descrições básicas do comportamento consistem em conversas sobre ações bem ou malsucedidas, e não sobre movimentos.
As implicações do “comportamentalismo” filosófico para a psicologia empírica são importantes. Se seus argumentos são sólidos, o inflado universo mental do introspeccionista é expurgado sem deixar um vácuo a ser preenchido pela pesquisa científica. Já vimos até que nível o projeto experimental em psicologia está implicado no ponto de vista da vida diária. O labirinto é construído visando descobrir com que rapidez o sujeito o resolve. A bolinha de comida é chamada de recompensa e horas de privação de alimentos são chamadas de estímulo ou excitação do impulso, linguagem que é difícil distinguir conceitualmente de observações a respeito da fome do sujeito, de suas preferências, estratégias e descobertas. Essa é uma linguagem na qual está implícita uma compreensão do comportamento. “Em psicologia”, diz Wittgenstein, “há método experimental e confusão conceitual” (Investigações filosóficas, II, p. XIV). A redução que o comportamentalista faz da ação para movimento tem sucesso caso concentre sua atenção em problemas psicológicos. Em caso contrário ela busca sua justificativa, não nos enigmas a respeito do que fazemos, mas em receitas positivistas para se fazer ciência.
Tem havido, nos últimos anos, uma retração marcante, na teoria comportamentalista, embora isso tenha sido acompanhado de novas defesas do modelo E-R por parte de epistemólogos e filósofos da LINGUAGEM. Word and Object (1960), de Quine, é um bom exemplo. Mas na psicologia, concebida como disciplina científica autônoma, pouco tem sido feito desde as tentativas de Spence (1956) de levar avante o trabalho de Hull. Durante os últimos 15 anos a idéia de que o estudo experimental das reações de organismos sob condições controladas poderia levar a uma ciência do comportamento passou a sofrer um ataque cada vez mais constante por parte dos que acreditam não ser possível nenhuma explicação legítima do comportamento, exceto no contexto de uma compreensão biológica e evolucionista dos organismos. Os comportamentalistas clássicos observam o que fazem os organismos estritamente dentro da perspectiva fornecida por recompensas explícitas ou estímulos de aversão. São, assim, incapazes de reconhecer o significado do comportamento altruísta. Essa é uma reação, dizem os sociobiólogos, explicável apenas com o pressuposto de que o altruísmo maximiza a possibilidade de o material genético ser passado adiante para a próxima geração. O desenvolvimento da SOCIOBIOLOGIA tem semelhanças marcantes com o comportamentalismo psicológico e tem sido criticado mais ou menos da mesma forma. É de interesse aqui por chamar a atenção para o que é fundamental na estratégia comportamentalista e para suas deficiências. O comportamentalismo será melhor encarado como tentativa de separar a psicologia, como ciência, de outras disciplinas.

(William Outhwaite, Tom Bottomore - DICIONÁRIO DO PENSAMENTO SOCIAL DO SÉCULO XX)

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publicado às 13:21


Sorria, você está sendo filmado!

por Thynus, em 13.11.14
Sorria e o mundo sorrirá com você.
Chore e chorará sozinho.
Oldboy
 

“Vocês sabiam que para franzir a testa usamos 32 músculos e, para sorrir, apenas 28? “Sorria, sorria, nem que seja por economia”.
O sorriso é muito importante para melhorar sua auto-estima. Quando você sorri, mesmo que não esteja sentindo nada, o seu c
érebro recebe uma mensagem de que está tudo bem. Existe uma conexão direta entre o sorriso e o sistema nervoso central.
Quando você sorri, libera no cérebro um hormônio chamado beta-endorfina, que leva à sua mente uma mensagem positiva. Você sabia que as mulheres sorriem muito mais do que os homens? Há vários estudos que mostram isso. E como você provavelmente sabe, as mulheres vivem em média oito anos a mais que os homens. O sorriso tem a ver com isso? Claro que tem!
Num estudo realizado em hospital psiquiátrico, dois grupos de pacientes deprimidos foram submetidos à mesma terapia medicamentosa: num deles foi colocado um esparadrapo na boca, o que fazia parecer que estavam sorrindo. Este grupo apresentou uma melhoria bem mais rápida porque, ao sorrirem mesmo involuntariamente, os pacientes davam ao cérebro uma mensagem de felicidade.” (Dr. Lair Ribeiro)

Vocês sabem porque, nas nos anúncios publicitários, os relógios sempre marcam a hora 10h10?
“Apaixonado pelas relações do homem com o tempo, o engenheiro eletrônico norte-americano Gordon Uber lançou essa discussão em meio a curadores de museus de relógios e colecionadores e obteve algumas explicações para a tão frequente marcação de 10h10. Para ele, o costume foi adotado por causa da agradável simetria gerada pelos ponteiros. “Observando os catálogos da empresa Seth Thomas, percebi que houve uma caminhada rumo à simetria, de 1878 a 1940”, comenta. Além da simetria e da aparência agradável, surgiu em sua discussão o fato de os ponteiros em 10h10 formarem um sorriso no relógio – ao passo que a marcação também simétrica de 8h20 mostraria uma boca triste. Finalmente, são muitas as marcas que trazem o logotipo logo acima do ponto central do relógio – neste caso, os ponteiros em 10h10 emolduram a marca, gerando um movimento natural dos olhos das pessoas para ela.” (Marcelo Duarte, O Guia dos Curiosos).

Você sabia que um bébé só nasce para o mundo após o primeiro sorriso? “Todos os recém-nascidos se parecem. Como gatinhos. São adoráveis, é claro, mas é com a idade de um mês, com o surgimento do primeiro sorriso, que o filhote do homem começa a se tornar humanamente amável. Pois é nesse momento que ele entra numa história propriamente humana, a da relação com outrem” (Luc Ferry, Aprender a Viver). É esse “instante eterno” que fica registado na mente dos seus pais, familiares e amigos.

Você sabia que até os animais ficam contagiados com a linguagem do sorriso?
“Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo.” Roberto e Erasmo estão certos. Até os cães riem e latem de alegria quando gostam do comportamento de alguém.
Na esfera humana é igual. Sorria para a primeira pessoa que encontrar hoje e observe o resultado. Sorria, então, dali para a frente o mais que puder.
Que poder tem um sorriso!

Dá-me um sorriso a brincar,
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e te ouvir.
(Fernando Pessoa)

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publicado às 13:33


O perigo da desvalorização do corpo

por Thynus, em 11.11.14
 "Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza..."
(Nietzche)
 
Após séculos de glórias e conquistas territoriais, o Império Romano começou a apresentar, já no século III, sinais de crise. A queda ocorreu em 476 d.C. A parte oriental do império, depois denominada Império Bizantino, continuou a existir por quase mil anos mais, até 1453, quando houve a queda de Constantinopla. Vários motivos são apontados como responsáveis pela queda de Roma: a desintegração familiar, o declínio da população, as invasões bárbaras — para os romanos, “bárbaro” era todo aquele que vivia além das fronteiras do Império Romano e, portanto, não possuía a cultura romana —, a crise econômica.
Os cristãos, na época, aceitavam uma única explicação: o pecado sexual era diretamente responsável pelo desmoronamento do império, cujas aflições se interpretavam como sendo punição imposta à humanidade por um Deus enfurecido. Enquanto Roma ruía vagarosamente, um novo conceito de casamento e família estava surgindo. Os deuses saíam de cena, mas o cristianismo crescia cada vez mais.
Reay Tannahill analisa o colapso vivido pelo mundo clássico. A seguir, faço uma síntese de suas ideias (Tannahill, Reay, O sexo na história, Francisco Alves, 1983, p. 111). Entre a queda do Império Romano e o ano 1000, as populações migraram e toda a face da Europa continuou a se alterar. A Igreja cristã, no entanto, expandiu-se como uma só força coesiva, em um mundo instável. Em quase todos os sentidos — até mesmo militarmente, com as Cruzadas — a Igreja cristã se revelou a verdadeira sucessora da Roma imperial.
Em outras circunstâncias políticas, a moralidade cristã talvez jamais tivesse conseguido conquistar todo o pensamento ocidental de forma tão paralisante, que somente agora começa a relaxar. Entretanto, houve dois fatores na situação europeia durante os séculos que se seguiram ao colapso de Roma que tornaram o resultado quase inevitável: a ausência geral de lei e ordem impostas pelo Estado e o desaparecimento da instrução, na vida pública e privada.
A lei moral que a Igreja pregava era respaldada por ameaças com o fogo do inferno (um meio de intimidação mais eficaz do que poderia idealizar qualquer agência de imposição da lei), sendo válida tanto na aldeia como na cidade. Desta forma — e durante muitos séculos — a moralidade cristã não foi apenas disseminada, mas investida de autoridade religiosa e também social.
A instrução e o aprendizado, no entanto, foram duas das mais importantes vítimas no colapso do mundo clássico. Durante o período conhecido como a Era do Obscurantismo, ler e escrever se tornaram um privilégio dos mosteiros — e o que era lido e escrito ficou a critério apenas da Igreja.
Escribas monásticos ocupavam-se integralmente em copiar o que era ortodoxo. O que não era ortodoxo simplesmente não existia. A censura estava bastante próxima de ser total.
Com isso, as palavras e conclusões dos padres da Igreja permaneceram inatacadas e, com o tempo, se tornaram inatacáveis. Suas deliberações — com frequência produtos de um ponto de vista altamente pessoal e preconceituoso sobre a vida e a sociedade — conquistaram uma aura de verdade revelada, e sua moralidade, quase inteiramente relativa em suas origens, alcançou um status absoluto.
Muito do que o mundo atual ainda considera “pecado” não tem origem nos ensinamentos de Jesus de Nazaré ou nas Tábuas entregues no Sinai, mas nas antigas vicissitudes sexuais de homens que viveram nos últimos tempos da Roma imperial, como São Jerônimo e Santo Agostinho.
Nos séculos seguintes à Antiguidade Tardia, o cristianismo desenvolveu uma fixação fanática a respeito da glória da virgindade, da maldade da mulher, da imundície do ato sexual. As ideias cristãs sobre a sexualidade e o prazer persistem até hoje. O sexo continua sendo vivido como algo muito perigoso. Dois mil anos se passaram, mas a maioria das pessoas ainda sofre por conta de seus desejos, suas frustrações, seus temores, suas vergonhas e sua culpa sexuais. Não é de admirar que tanta gente renuncie à sexualidade e que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura gere tantos conflitos. A forma como a mentalidade do Ocidente continuou a ser moldada pelo cristianismo veremos no próximo capítulo, sobre a Idade Média. O que vimos até agora foi apenas o começo.
A repressão dos impulsos sexuais caracteriza o homem novo, pagão e depois cristão. O cristianismo trouxe como principal novidade a ligação entre o sexo e o pecado, criando um sentimento esmagador de culpa a respeito do prazer sexual, que era visto como transgressão contra Deus. O horror da danação eterna, com todos os tormentos do inferno, tornou-se uma constante na pregação dos padres. Eles afirmavam que o ato sexual é repulsivo, degradante, indecoroso. Como não poderia deixar de ser, o sexo passou a ser visto como algo sujo; o prazer deveria ser evitado a qualquer custo. Conscientemente ou não, homens e mulheres possuidores de desejos sexuais normais tornaram-se obcecados pela culpa. O sexo podia ser seu único pecado, mas aos olhos da Igreja era o maior.
Embora a maioria já não acredite que o sexo em si seja algo tão mau, de forma inconsciente ele continua sendo vivido como algo perigoso. Há até quem acredite ser o sexo uma coisa pouco humana. Não é de admirar que tanta gente renuncie à sexualidade e que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura gere tantos conflitos.
Sandra, uma advogada de 34 anos, conheceu Júlio numa festa. Conversaram bastante, e no final trocaram longos beijos. Saindo dali, foram para o apartamento dele, onde transaram. No dia seguinte, Sandra chega ao meu consultório e desabafa: “Não estou me sentindo bem, pelo contrário, quando acordei e me dei conta do que aconteceu ontem fiquei mal. O sexo foi ótimo, mas tenho medo de que o Júlio me considere uma mulher fácil, uma vagabunda mesmo. Acho que tudo aconteceu porque eu estava com muito tesão. Mas minha cabeça não está preparada para aceitar esse tipo de situação. Esse sentimento de que cometi um erro grave está me torturando”.
A doutrina de que há no sexo algo pecaminoso é totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam ao longo da vida. Embora a repressão tenha atingido ambos os sexos, na prática houve mais condescendência com o homem. Hoje, todos sabem que homens e mulheres têm a mesma necessidade de sexo, e que a mulher pode ter tanto prazer quanto seu parceiro. Contudo, curiosamente, a maioria das pessoas finge não saber disso. Se uma mulher foge ao padrão de comportamento tradicional, ou seja, não esconde que gosta de sexo, é inacreditável, mas ainda corre o risco de ser chamada de galinha ou de piranha. As próprias mulheres participam desse coro, ajudando a recriminar aquelas que conseguiram romper a barreira da repressão e exercem livremente sua sexualidade. Não é nenhuma novidade, mais uma vez os próprios oprimidos lutando para manter a opressão.
Afinal, em que encontro a mulher pode fazer sexo com um homem? No segundo, terceiro, sexto? Qual? O grau de intimidade que se sente na relação com uma pessoa não depende do tempo que você a conhece. Além disso, o prazer sexual também independe do amor ou do conhecimento profundo de alguém. Para o sexo ser ótimo basta haver desejo de obter e proporcionar prazer. E uma camisinha no bolso, claro.
Wilhelm Reich, profundo estudioso da sexualidade humana na primeira metade do século XX, considera que as enfermidades psíquicas são a consequência do caos sexual da sociedade, já que a saúde mental depende da potência orgástica, isto é, do ponto até o qual o indivíduo pode se entregar e experimentar o clímax de excitação no ato sexual. É lamentável, mas muitos ignoram a importância do sexo e o fato de que, quando vivido sem medo ou culpa, pode levar a uma comunicação profunda entre as pessoas e acrescentar muito às suas vidas.

SANTOS PADRES
A repressão sexual que a Igreja Católica exerce sobre os fiéis traz graves consequências para adultos e crianças. Não só para sua vida psíquica, mas também para sua integridade física. O número de abusos sexuais cometidos por padres católicos em todo o mundo é impressionante. Uma linha direta criada, em 2010, pela Igreja Católica na Alemanha para aconselhar as vítimas de abusos sexuais ficou saturada por ligações. No primeiro dia de funcionamento integral do serviço, 4.259 pessoas telefonaram — um número muito maior do que os terapeutas contratados para atender aos telefonemas seriam capazes de processar.
Foi uma ideia muito criticada. Diante da onda crescente de alegações de abusos sexuais envolvendo clérigos na Alemanha, muitos duvidavam que as vítimas telefonariam para a organização que fora responsável pelos seus sofrimentos. Mas eles estavam enganados. Andreas Zimmer, diretor do projeto no Bispado de Trier, admite que não estava preparado “para uma participação desse tamanho”. Depois que as primeiras denúncias de abusos sexuais em escolas católicas emergiram na Alemanha, centenas de vítimas se manifestaram em vários países da Europa, incluindo Áustria, Suíça, Holanda e Dinamarca.
Casos semelhantes abalaram as autoridades eclesiásticas americanas. A Igreja Católica dos Estados Unidos — principalmente a Arquidiocese de Boston — esteve envolvida em uma série de escândalos de abuso sexual infantil. Em 2002, um dos maiores escândalos veio à tona e sacudiu a opinião pública. Naquele ano o homem que ficou em evidência foi Bernard Law, cardeal de Boston. Quando o padre John Geoghan foi levado a julgamento acusado de estuprar mais de 130 crianças, tornou-se público que o cardeal o transferia de uma paróquia para outra sempre que ele se envolvia em um novo caso de pedofilia. Ou seja, Law era o homem que jogava toda a sujeira de Geoghan para debaixo do tapete — e fez o mesmo com outros padres abusadores.
O padre Lawrence Murphy, que morreu em 1998, é suspeito de ter abusado de até duzentos meninos em uma escola para surdos entre 1950 e 1974. Uma das supostas vítimas disse à BBC que o papa sabia das acusações há anos, mas não tomou nenhuma atitude.

DESVALORIZAÇÃO DO CORPO
O cristianismo realizou uma grande reviravolta do corpo contra si mesmo. O judaísmo nunca considerou o pecado original de Adão e Eva um erro carnal e sim um pecado de conhecimento e competição com Deus. Para o cristianismo, Eva tenta Adão e, então, caímos na condição humana com todo seu sofrimento. O corpo propicia o pecado e é punido com a morte, a necessidade do trabalho e a vergonha da nudez. O ascetismo cristão é um ataque feroz ao corpo. Para combater o desejo sexual era recomendado evitar banhos, não ver nem tocar o corpo, comer pouco, e só alimentos que deixassem o corpo frio e seco. A sujeira tornou-se uma virtude. Temendo a danação eterna, não bastava enfraquecer o corpo: era preciso flagelá-lo, torturá-lo, mortificá-lo. Hoje, a maioria das pessoas ainda acredita que imagens do corpo humano nu, particularmente experimentando o prazer sexual, são obscenas. Não é fácil se libertar disso.

CONTATO FÍSICO: UMA NECESSIDADE
Um estudo americano nos anos 1950, acompanhou 34 bebês órfãos. As enfermeiras atendiam às suas necessidades físicas, mas não lhes davam carinho algum. Não os acariciavam nem brincavam com eles. Aos três meses, os bebês tinham dificuldade de conciliar o sono, estavam perdendo peso e gemiam. Dois meses depois pareciam imbecilizados. E, ao fim de um ano, 27 deles tinham morrido. A conclusão então é a de que necessitamos de contato físico, de carinho. Mas nem sempre isso acontece.
“Não me lembro de um carinho do meu pai, um beijo sequer”; “Meu marido sempre rejeitou chamegos; nunca foi de fazer carinho”; “Desde pequena assisto com curiosidade à relação de alguns amigos com seus familiares: beijos e abraços. Lá em casa nunca houve isso”; “Tenho certeza de que minha namorada me ama, só que ela detesta que eu a abrace e faça carinho”. Em toda a minha vida profissional, ouvi muitos comentários como esses.
Será que as pessoas se tocam o suficiente? Sem dúvida, não. Entre nós existe uma carência profunda daquilo que mais desejamos: tocar, abraçar, acariciar. A pele, o maior órgão do corpo, até há pouco foi negligenciada. Ashley Montagu, um especialista americano em fisiologia e anatomia humana, se dedicou, por várias décadas, ao estudo de como a experiência tátil, ou sua ausência, afeta o desenvolvimento do comportamento humano. A linguagem dos sentidos, na qual podemos ser todos socializados, é capaz de ampliar nossa valorização do outro e do mundo em que vivemos, e de aprofundar nossa compreensão em relação a eles. Tocar, que é o título de seu excelente livro, é a principal dessas linguagens. Afinal, como ele diz, nosso corpo é o maior playground do universo, com mais de 600 mil pontos sensíveis na pele.
Como sistema sensorial, a pele é, em grande medida, o sistema de órgãos mais importante do corpo. O ser humano pode passar a vida todo cego, surdo e completamente desprovido dos sentidos do olfato e do paladar, mas não poderá sobreviver de modo algum sem as funções desempenhadas pela pele. A prova disso é a famosa experiência vivida por Helen Keller, que ficou surda e cega na infância e cuja mente foi literalmente criada por meio da estimulação da pele. Quando os outros sentidos estão prejudicados, a pele pode compensar suas deficiências num grau extraordinário.
Montagu acredita que a capacidade de um ocidental se relacionar com seus semelhantes está muito atrasada em comparação com sua aptidão para se relacionar com bens de consumo e com as pseudonecessidades que o mantêm em escravidão. A dimensão humana encontra-se constrangida e refreada. Tornamo-nos prisioneiros de um mundo de palavras impessoais, sem toque, sem sabor. A tendência é as palavras ocuparem o lugar da experiência. Elas passam a ser declarações em vez de demonstrações de envolvimento; a pessoa consegue proferir com palavras aquilo que não realiza num relacionamento sensorial com outra pessoa. Mas estamos começando a descobrir nossos negligenciados sentidos.
O sexo tem sido considerado a mais completa forma de toque. Em seu mais profundo sentido, o tato é a verdadeira linguagem do sexo. É principalmente por meio da estimulação da pele que tanto o homem quanto a mulher chegam ao orgasmo, que será tanto melhor quanto mais amplo for o contexto pessoal e tátil. Um ditado francês diz que uma relação sexual é a harmonia de duas almas e o contato de duas epidermes. E por sermos criação neurologicamente contínua e podermos combinar nossa capacidade de movimento e contato com a nossa sensibilidade de pele, é possível ficar muito tempo acariciando alguém sem repetir nunca a mesma sensação.Mas até que ponto existe relação entre as primeiras experiências táteis de uma pessoa e o desenvolvimento de sua sexualidade? O autor acredita que, da mesma forma como ela aprende a se identificar com seu papel sexual, também aprende a se comportar de acordo com o que foi condicionado originalmente por meio da pele. Assim, o sexo pode ter uma variedade enorme de significados: uma troca de amor, um meio de magoar ou explorar os outros, uma modalidade de defesa, um trunfo para barganha, afirmação ou rejeição da masculinidade ou feminilidade e assim por diante, para não mencionar as manifestações patológicas que o sexo pode ter, em maior ou menor intensidade, influenciadas pelas primeiras experiências táteis. Montagu acredita que a estimulação tátil é uma necessidade primária e universal. Ela deve ser satisfeita para que se desenvolva um ser humano saudável, capaz de amar, trabalhar, brincar e pensar de modo crítico e livre de preconceitos.

A COMUNICAÇÃO DO CORPO
A experiência do contato dos corpos é ainda mais profunda e necessária do que a alimentação. O tocar e o acariciar representam modos primários e essenciais de conhecer e de amar. “Com a carícia eu ‘formo’ o corpo, sigo e descubro os seus limites, restituindo-o à sua carne; regenero-o e me deixo regenerar. Naturalmente, há a tentativa de descobrir o ser amado revelando, por intermédio do contato, o seu segredo. O aspecto mais significativo de uma relação está justamente nessa inesgotável possibilidade de ser, que dificilmente deixa transparecer a sua dimensão mais profunda.” (Carotenuto, Aldo, - Eros e Pathos, Paulus, São Paulo, 1994. p. 82).
 A proximidade corpórea permite se experimentar uma intensa comunicação não verbal. E isso vem desde muito cedo. Nos momentos de perigo, medo ou ternura é comum a mãe apertar o filho contra o peito. Estudos mostram que entre as causas menos conhecidas para o choro em bebês está a necessidade de serem acariciados. Muitas mães rejeitam um contato mais prolongado com seus filhos com base na falsa suposição de que dessa forma eles se tornarão profundamente dependentes delas. Não são poucos os pais que evitam beijar e abraçar os filhos homens, porque temem que assim se tornem homossexuais. Mesmo dois grandes amigos se limitam a expressar afeto dando tapinhas nas costas um do outro, enquanto as amigas trocam beijinhos impessoais quando se encontram.

VIDA SEM SEXO
Como vimos, para os padres da Igreja o sexo era abominável. Eles argumentavam que a mulher (como um todo) e o homem (da cintura para baixo) eram criações do demônio. Diziam que se no Jardim do Éden existiu sexo, certamente foi frio e espaçado, sem erotismo e nenhum êxtase. Seu objetivo seria apenas cumprir as exigências do processo reprodutivo. O sexo era uma experiência da serpente e o casamento um sistema de vida repugnante e poluído. São Paulo, no século I, estabeleceu os fundamentos de que o celibato era superior ao casamento. Dizia que era uma condição mais cristã, uma vez que não acarretava obrigações mundanas passíveis de interferir com a devoção ao Senhor. Reconheceu que isso requeria uma dose de controle que nem todos podiam alcançar. Assim, o casamento era um paliativo: “É melhor casar do que arder (em desejo)”.
Mas alguns recusaram esse paliativo e foram mais radicais. Enquanto o cristianismo lutava contra os prazeres do corpo, o casamento continente, sem nenhuma relação sexual, se transformou no ideal de casamento cristão e passou a ser louvado como sendo a mais elevada forma de união entre homem e mulher. Isso perdurou por vários séculos. Mas essa mentalidade não desapareceu totalmente. Alguns ainda acreditam na afirmação de São Paulo: viver em castidade os torna superiores às outras pessoas.
Em setembro de 2008, a cantora Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, afirmou que fazia abstinência há nove anos, desde que se converteu à Igreja Celular Internacional. Após, segundo ela, ter conversado com Deus, não sentiu mais falta de sexo, mas levou dois anos para se organizar e ter uma vida “correta”. Afirma que se purificou porque é uma missionária, e como suas mãos precisam ser puras, jamais se masturba.
“Toda vez que pensa naquilo, Bia, 20 anos, sente um friozinho na barriga. E não do tipo bom. ‘Na minha cabeça, sexo é algo meio sujo. Sinto repulsa.’ Ela é virgem e quer continuar assim para sempre. O primeiro beijo só foi dar este ano, de curiosa. Não curtiu. No terceiro ano do ensino médio, a mineira Bia costumava se achar ‘um ET’, mas essa fase já passou. Hoje aceita bem o que é: assexual. A moça não está só. Uma pesquisa do Datafolha de setembro de 2009 revelou que 5% dos jovens de 18 a 24 anos não veem graça no sexo.” Este é um trecho da matéria sobre os assexuais, “Jovens com repulsa a sexo usam web para encontrar semelhantes”, publicada na Folha de S. Paulo, no caderno Folhateen, em 20 de junho de 2011.
Na mesma matéria, a presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Maria Luiza de Araújo, declara que a falta de apetite sexual só deve ser tratada se virar um incômodo: “Temos que tomar cuidado com a tendência de medicar tudo. Se o jovem se sentir bem assim, pode levar uma vida perfeitamente normal sem pôr a sexualidade como ponto principal”. Mas aí estamos diante de uma questão séria. A maioria das escolhas não é livre. O condicionamento cultural é tão forte que muitos chegam à idade adulta sem saber o que realmente desejam e o que aprenderam a desejar. Assim, perceber os incômodos talvez não seja fácil.
Entretanto, não são somente os assexuais que não fazem sexo. Em muitos casamentos a escassez de sexo progride até a ausência total.

CASAMENTO: ONDE MENOS SE FAZ SEXO
Miriam, 29 anos, chegou angustiada ao meu consultório: “Sou casada há três anos, amo muito meu marido; não consigo imaginar a vida sem ele. É meu melhor amigo e companheiro. Gosto quando ficamos juntos, abraçados ternamente, ele fazendo cafuné na minha cabeça. Mas, ao primeiro sinal de um carinho mais sexual, uso algum pretexto para me afastar. Não desejo fazer sexo com ele de jeito nenhum. Durante nosso namoro e no início do casamento eu gostava muito, mas agora só a ideia já me desagrada. Não conto isso para ninguém. A família e os amigos nos veem como exemplo de um casamento perfeito”.
Paulo, 38 anos, casado há sete, está desanimado: “Amo demais a minha mulher. Nossa vida é ótima; pensamos de forma parecida e nunca brigamos. Mas vivo um problema sério: Laís nunca quer fazer sexo. Sempre arranja uma desculpa para escapar. Namoramos durante cinco anos, e você acredita que o sexo era o ponto alto da relação? Não entendo por que mudou tanto. Já faz mais de dois meses que transamos a última vez. Se eu não insistir, acho que ela nunca vai se lembrar que sexo existe. Não gostaria de procurar outra mulher nem de me separar, mas estou cansado de só ter prazer me masturbando”.
Os exemplos acima representam o que ocorre em grande parte dos casamentos. É muito maior do que se imagina o número de mulheres que fazem sexo com seus maridos sem nenhuma vontade. Dor de cabeça, cansaço, preocupação com trabalho ou família são as desculpas mais usadas. Elas tentam tudo para postergar a obrigação que se impõem para manter o casamento. Quando o marido se mostra impaciente, o carinho que sente por ele, ou o medo de perdê-lo, faz com que a mulher se submeta ao sacrifício. Há algumas décadas, o filósofo inglês Bertrand Russell afirmou: “O casamento é para as mulheres a forma mais comum de se manterem, e a quantidade de relações sexuais indesejadas que elas têm que suportar é provavelmente maior no casamento do que na prostituição”.
O sexo no casamento tem uma longa história. No início do cristianismo, os pais da Igreja não viam nenhum aspecto positivo no vínculo conjugal, nem consideravam o afeto entre marido e mulher algo desejável. Ter filhos era um dever do casal. Da mesma forma que antes deveria ficar em segredo o ardor entre o casal, se houvesse, agora se tenta ocultar a diminuição ou o término do desejo sexual entre marido e mulher. Essa questão só passou a ser problema — o maior enfrentado pelos casais — quando, recentemente, o amor e o prazer sexual se tornaram primordiais na vida a dois e se criaram expectativas em relação a isso. Jornais, revistas e programas de tevê fazem matérias, tentando encontrar uma saída para a falta de desejo sexual no casamento. Como resolver a situação de casais que, após alguns anos de vida em comum, constatam decepcionados terem se tornado irmãos?
 Alguns dizem que é necessário quebrar a rotina e ser criativo. As sugestões são variadas: ir a um motel, viajar no fim de semana, visitar uma sex shop. Mas isso de nada adianta. O desejo sexual intenso é que leva à criatividade, e não o contrário. Quando não há desejo, a pessoa só quer mesmo dormir. Quem se angustia com essa questão sabe que desejo sexual não se força, existe ou não. A falta dele no casamento nada tem a ver com falta de amor. Muitas mulheres, como Miriam, amam seus maridos, só não sentem mais desejo algum por eles. O sofrimento da mulher é maior quando ela reconhece no parceiro um homem inteligente, generoso, afetivo, e o mais doloroso de tudo: um homem que a ama e a deseja. Nesses casos é comum ouvirmos lamentos do tipo: “Nunca vou encontrar ninguém parecido”. E com medo do novo, de ficar sozinha, ela pode acabar optando por uma relação assexuada, até convencendo o marido de que sexo não é tão importante.
O número de homens que perdem o desejo sexual no casamento é bem menor do que o de mulheres. Para cada homem que não tem vontade de fazer sexo há pelo menos quatro mulheres nessa situação. Alguns fatores podem contribuir para essa situação. Em primeiro lugar, o homem, na nossa cultura, é estimulado a iniciar a vida sexual cedo e se relacionar com qualquer mulher. Outra razão seria a necessidade de expelir o sêmen e, por último, a sua ereção seria mais rápida do que a da mulher, na medida em que necessita de menos quantidade de sangue irrigando os órgãos genitais.
Não é necessário dizer que existem exceções, e que em alguns casais o desejo sexual continua existindo após vários anos de convívio. Mas não podemos tomar a minoria como padrão. Por que o desejo acaba no casamento? Mesmo que os dois se gostem, a rotina, a excessiva intimidade e a falta de mistério acabam com qualquer emoção. Busca-se muito mais segurança que prazer. Para se sentirem seguras, as pessoas exigem fidelidade, o que sem dúvida é limitador e também responsável pela falta de desejo. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. Familiaridade com o parceiro, associada ao hábito, pode provocar a perda do desejo sexual, independentemente do crescimento do amor e de sentimentos como admiração, companheirismo e carinho.
E o que fazer quando o desejo acaba? Essa é uma questão séria, principalmente para os que acreditam ser importante manter o casamento. É fundamental todos saberem que na grande maioria dos casos não se trata de problema pessoal ou daquela relação específica, e sim de fato inerente a qualquer relação prolongada, quando a exclusividade sexual é exigida. Essa informação pode evitar acusações mútuas, em que se busca um culpado pelo fim do desejo. O preço é a decepção de ver se dissipar a idealização do par amoroso. No entanto, a partir daí fica mais fácil cada um decidir o que fazer da vida.
As soluções são variadas, mas até as pessoas decidirem se separar há muito sofrimento. Alguns fazem sexo sem vontade, só para manter a relação. Outros optam por continuar juntos, vivendo como irmãos, como se sexo não existisse. E ainda existem aqueles que passam anos se torturando por não aceitarem se separar nem viver sem sexo.
Falta uma reflexão a respeito do modelo de casamento vivido na nossa cultura. Nega-se o óbvio: o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulsão sexual. Quando essa mentalidade mudar, as torturas psicológicas e os crimes passionais certamente diminuirão, assim como inúmeros outros fatores que geram angústia.

OS RISCOS DA AUSÊNCIA DE SEXO
Norma chegou ao meu consultório bastante agitada. “Tenho 48 anos, sou separada há 15, e já me esqueci de quando foi a última vez que fiz sexo. Acho ótimo sair com as minhas amigas; vamos ao cinema, teatro, viajamos, fazemos almoços... Mas isso não basta. O que eu faço com o meu tesão? As mulheres que conheço reclamam da mesma coisa. Uma chamou um garoto de programa para ir à casa dela. Mas eu tenho medo. Sei lá se é um ladrão ou mesmo um assassino. Outro dia eu estava pensando... se existisse um bordel para as mulheres fazerem sexo em segurança, seria tão bom...” O sexo sempre teve destaque na história da humanidade. Dependendo da época e do lugar, foi glorificado como símbolo de fertilidade e riqueza, ou condenado como pecado. A condenação do sexo emergiu com o surgimento do patriarcado, há 5 mil anos. No início, restringia-se às mulheres, para dar ao homem a certeza da paternidade, mas com o cristianismo a repressão sexual generalizou-se.
A partir das décadas de 1960/1970 a moral sexual sofreu grandes transformações, mas o sexo continua sendo um problema complicado e difícil. Muitas pessoas dedicam um tempo enorme de suas vidas às suas fantasias, desejos, temores, vergonha e culpa sexuais. Entretanto, estudos científicos comprovam cada vez mais a importância do sexo para a saúde física e mental.
Carmita Abdo, médica e coordenadora do Prosex (Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo), afirma que as pessoas que têm relações sexuais com regularidade conseguem equilibrar seus hormônios e estimular suas potencialidades, além de aumentar a autoestima e o ânimo para trabalhar e para enfrentar os problemas do dia a dia.
Um estudo americano afirma que ter relações sexuais duas vezes por semana ajuda a diminuir a incidência de diabetes e a reduzir a tensão arterial. O American Journal of Cardiology garante que o sexo ajuda a proteger o coração. Pesquisas realizadas pela Universidade de Nova York mostram que o sexo pode melhorar o sistema imunológico, suprimir a dor e reduzir a enxaqueca. Segundo outro estudo americano recente, pessoas que praticam sexo com frequência vivem mais e correm menos risco de desenvolver câncer.
Resultados semelhantes aos dos Estados Unidos foram encontrados em uma série de estudos realizados na Inglaterra, Suécia, França e Alemanha. Até a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) dá destaque ao tema, colocando a atividade sexual como um dos índices que medem o nível de qualidade de vida.
Diante de todos esses dados, observamos um paradoxo. Um número grande de pessoas — solteiras ou casadas — não faz sexo. Elas desejam muito, mas não têm com quem fazê-lo. Se levarmos a sério todos os estudos científicos, e acredito que devemos fazer isso, só podemos concluir que estamos diante de um caso de saúde pública. Penso que o Ministério da Saúde deveria se pronunciar.

(Regina Navarro Lins - O LIVRO DO AMOR, vol. 1)
http://samuelcostablog.blogspot.com.br/2014/08/a-igreja-crista-e-o-prazer-sexual.html

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publicado às 11:57

 
Se eu tiver Sucesso dentro do meu cérebro, o Sucesso virá. Se meu cérebro armazenar desgraças, é isto que eu vou enxergar no mundo. Se eu tiver amor, é o que receberei. O ódio irá para quem tem ódio. No momento em que você muda suas crenças e seus sistemas de valores, o mundo muda com você, como num estalar de dedos.
Se você estiver certo consigo mesmo, você vai manifestar isso no universo. É como na história de um executivo que chega em casa com uma maleta cheia de trabalho. Seu filho de seis anos o procura para brincar e ele, muito ocupado, tem uma idéia: abre o jornal e vê a fotografia do mundo; pega uma tesoura e a corta em pedaços. Volta-se para o filho e diz: coloque o mundo junto e, quando você terminar, eu brinco com você: Imaginou que o trabalho fosse demorar várias horas, mas em poucos minutos o menino voltou com o trabalho pronto. Pasmo, perguntou ao filho como havia conseguido recompor a figura em tão pouco tempo. “Foi muito simples, pai”, respondeu o menino. “Do outro lado do jornal, havia a fotografia de um homem; eu juntei o homem e o mapa do mundo ficou certo”. Moral da história: quando o Homem está certo, o Mundo está certo. Não tem nada de errado com o mundo em si. O caso não é mudar o Brasil nem a sociedade. Você é quem tem que mudar. Se você mudar, o mundo muda com você.
William James foi um dos grandes filósofos e psicólogos americanos. Era professor da Universidade de Harvard, quando lhe foi perguntado, certa vez, qual a descoberta mais importante no campo do desenvolvimento humano nos últimos 100 anos. Sua resposta foi a seguinte: “Até agora, pensava-se que, para agir, era preciso sentir. Sabe-se, hoje, que se começarmos a agir, o sentimento aparece. Essa foi, para mim, a descoberta mais importante do século, para o desenvolvimento humano”.
James resume essa descoberta com o seguinte ditado: “O passarinho não canta porque está feliz, ele está feliz porque canta”.
Mesmo que você esteja deprimido, se começar a agir de um jeito feliz, você passará a se sentir feliz e, então, a ser feliz. “O comportamento muda o sentimento, o sentimento muda o pensamento”. A maioria das pessoas diz: o dia me que me sentir assim, eu vou fazer. Não é este o caminho; comece logo a fazer que o sentimento aparece, as coisas mudam fora e dentro de você. Intenção sem ação é ilusão. Ouse fazer e o poder lhe será dado.

(Lair Ribeiro - O sucesso não acontece por acaso)

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publicado às 08:00


O vampiro como sujeito contemporâneo

por Thynus, em 09.11.14
 
Com exceção de Drácula, que era um velho quando a história de Stoker inicia, é tradição dos vampiros serem jovens e belos. Mas até os cabelos esbranquiçados do conde haviam escurecido e ele parecia ter remoçado quando chegou a Londres. Uma das interpretações mais óbvias para a popularidade dos vampiros é a manutenção do corpo como eternamente jovem. Ora, se nosso ideal contemporâneo é um corpo jovem, trabalhado com exercícios, lapidado com dietas, vitaminado com substâncias naturais ou químicas, sem falhas, por que não permanecer no ápice para sempre, não é isso que fazemos adiando o envelhecimento a qualquer custo? Temos aqui a fantasia de manutenção de um corpo que nunca se corrompe, que os anos não alteram. A conversão em vampiro congela a juventude, ganha-se não só a imortalidade, como essa permanência na melhor fase, afinal, quem iria querer ser eternamente velho?
A religião mudou; mesmo que sigamos religiosos, ela foi obrigada a ceder parte de seu espaço para a ciência. A religiosidade clássica está em declínio, especialmente em sua visão de mundo, um sistema que tudo explicava. Vivemos em um mundo mais laico e é provável que isso não seja sem consequências sobre como encaramos as velhas promessas da religião. Uma das suas crenças fundamentais é a vida após a morte, quase todas as religiões consideram que estamos de passagem por esse mundo, em uma espécie de provação, e depois vamos para outro.
O vampiro se contrapõe a essa crença sob a forma de uma imortalidade mundana. Como vampiros, viveríamos eternamente neste mesmo planeta, além disso, pertencendo a uma elite, pois os vampiros sempre são ricos e poderosos. Isso talvez não seja tão mau negócio, até porque, quem nos garante que haja outro mundo? A vampiromania revela uma fragilidade da crença nessa grande promessa da religião. Isso explicaria a força e a popularidade de seus personagens, seriam como anjos do mal, uma aristocracia do mundo inferior, mas com as vantagens da do mundo superior.
Decididamente ser um vampiro é fazer parte de uma aristocracia, ao tornar-se vampiro entra-se em um clube muito exclusivo. Ganha-se uma distância do homem comum, que não é nada mais do que o pasto, o rebanho do qual agora ele se alimenta. Mesmo que exista um preço, pois ele estaria restrito à vida noturna, ela é considerada muito melhor que a diurna. O dia foi feito para o trabalho, a noite para o descanso e lazer, portanto, isso quer dizer que a vida de vampiro é mais divertida, aberta ao gozo e aos prazeres. Vale a pena abrir mão do sol se soubermos que não precisamos mais acordar cedo para trabalhar. O vampiro não tem um ofício, não gera riquezas, isso é coisa para os humanos e sua dura labuta diurna. Na dicotomia entre trabalho e desprazer versus ócio e prazer, o vampiro fica com a segunda opção.
Entre as mais variadas formas, o vampiro é sempre rico, ou não dá a mínima importância para essa questão, mas nunca lhe faltam meios materiais. Geralmente, além da vida de suas vítimas, ele pode se apossar também de seus bens, o que lhe dá uma boa fortuna. Isso não pode ser considerado trabalho, afinal ele só pega, colhe, o que já está no seu caminho.
Várias interpretações colocam o vampiro como o burguês explorador, ou, antes disso, como o senhor feudal, já que eles roubam de fato a vida e o “sangue” dos outros e disso tiram sua força. A interpretação é correta, mas é parcial, o vampiro é muito mais do que isso. O vampiro é o aristocrata entre os aristocratas, pois ele tem o que o dinheiro não pode comprar: a juventude eterna e a imortalidade.
Joseph Campbell tem uma boa teoria sobre essa questão da hierarquia e do vampiro: para esse antropólogo uma das nossas contradições, da qual não conseguimos uma síntese, é que as criaturas vivas sempre se alimentam de outro ser vivo. O mundo biológico é um eterno entredevorar-se. Nas suas palavras: “Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda a vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas” (CAMPBELL, Joseph. O poder do Mito. São Paulo, Palas Athena, 1988, p 44). Nesse sentido, seríamos todos vampiros, afinal, todos nós sacrificamos outras vidas pela nossa. A vantagem em ser vampiro é ser aquele que está no alto da cadeia alimentar, aquele que só come e não é comido.
 
Sangue e drogas
Os dilemas do sexo não afligem os vampiros, sendo homens ou mulheres eles não vão em busca de uma satisfação com o corpo do outro. Este corpo encontrado ao acaso só serve como doador de sangue, pouco importa a idade ou o sexo, ele é uma comida apenas, um objeto descartável facilmente substituível. Se existe uma satisfação ela é oral. A modalidade de “sexo” que ele possui, se é que podemos falar assim, seria regressiva, oral. Afinal, é sugando que um corpo se alimenta de outro e o “possui”, em outras palavras, que um corpo “come” o outro.
Como o vampiro está fora do sistema produtivo e fora das preocupações com o sexo, sua única preocupação é se alimentar, ele vive para sua boca. Nesse sentido, o vampiro tem uma vida simplificada, afinal, ele só tem o alimento como objeto de interesse. Existe um paralelo entre ele e um quadro clínico que também simplifica a vida: os toxicômanos, estes também sempre sabem o que lhes falta, em qualquer momento, para todas as ocasiões, a droga lhes supre e de nada mais fazem questão. Os dois compartilham uma economia filosófica interessante, não precisam se esforçar muito para dar uma razão para sua vida, basta providenciar o que falta, e eles sempre sabem o que é.
Por viver em função do consumo de um objeto, o toxicômano é considerado um subproduto indireto da economia capitalista, mas ele foge a toda significação, inclusive essa. Ele de fato é um obcecado pelo seu objeto de consumo, a droga, como o vampiro o seria por sangue. O toxicômano ignora toda a circulação de mercadorias, da qual nossa economia de futilidades e supérfluos depende para continuar existindo. Ele só tem olhos para sua razão de viver, que são os momentos em que está sob efeito da substância que o satisfaz.
Nossa forma de vida baseia-se em uma crença em que os objetos são imprescindíveis, assim como é fundamental possuí-los em grande número. Mais do que mostrar posses, importa-nos provar nossa capacidade de adquiri-las. Nesse sentido nos assemelharíamos aos drogados, sempre em busca de mais. Mas é nessa semelhança que encontramos a diferença mais radical: o consumidor é um inquieto, um eterno insatisfeito que nunca sabe o que quer. Por isso tem que ter a seu serviço agências de publicidade, meios de comunicação e inúmeras formas de seduzi-lo para que eleja, nem que seja por um tempo exíguo, um determinado bem de consumo. O toxicômano, ao contrário, é um sujeito estável, como nenhum outro. Ele está sempre à beira da insatisfação, sempre quer mais porque o gozo da droga se esgota, mas ele nunca duvida, nem jamais almeja outra coisa do que mais droga. A dificuldade em tratar toxicômanos está justamente nessa “estabilidade”, o que temos a oferecer para ele? Retornar à deriva da busca do objeto de satisfação?
A economia capitalista nutre-se da nossa insatisfação, do desejo que temos de sempre mais, sempre diferente. Nosso querer é mutante e, principalmente, inventivo, como um anzol que se joga na água cada vez mais distante, em busca de peixes novos, nunca antes pescados. Já no gozo do drogado, basta pescar no mesmo charco, pois não há dúvida do que gerará satisfação. Nesse sentido, a subjetividade dos homens vivendo em regimes capitalistas encontrou nos toxicômanos sua contradição e seu pior pesadelo, ele concentra toda sua satisfação em um único objeto que nem ao menos paga impostos.
Onde essa questão da toxicomania fica mais transparente é em Blade, um vampiro do cinema que caça outros vampiros, uma espécie de justiceiro que tenta livrar o mundo desses parasitas (Blade nasceu nos quadrinhos, como personagem da Marvel Comics, criado por Marv Wolfman e desenhado por Gene Colan para The tomb of Drácula - 1973. No cinema estreou em 1998, dirigido por Stephem Norrington, estrelado por Wesley Snipes, o filme recebeu o nome do personagem: Blade, que posteriormente ganhou continuações). Aliás, Blade é um ser inclassificável, pois estava no ventre da mãe quando foi contaminado e por isso nasceu híbrido. É forte como um vampiro, mas sem as fraquezas desse, ele é “aquele que caminha de dia”, pois não sofre com o sol. Sua juventude foi de vampiro, pois tem a “sede” deles, a necessidade de sangue. Adotado por um mortal especialista em caçar vampiros, ele é transformado no mais temível adversário de sua própria espécie. Porém, para distanciar-se dos vampiros ele precisa de uma droga que aplaca sua sede de sangue, e ele vive graças a ela, sua força reside em conseguir novas doses que estão sempre no limite da eficácia. Para sair do vampirismo ele se tornou um dependente químico. Como vemos, nessa personagem do filme a convergência simbólica entre toxicomania e vampirismo fica bem explícita.
Que um grande matador de vampiros seja um vampiro, como Blade, não nos deve espantar; no folclore eslavo e cigano, na região dos Bálcãs, temos algo similar. Dizia-se que às vezes os vampiros tinham relações sexuais e se dessas nascesse uma criança ela teria poderes especiais em relação aos vampiros, particularmente a capacidade de ver o vampiro mesmo que ele estivesse invisível. Ora, esse filho de vampiro com um mortal era naturalmente apto para ser caçador de vampiros e muitos seguiam essa profissão. Eram conhecidos pelo nome de “dhampir”.
O vampiro, como um drogado qualquer, buscará obsessivamente renovadas vítimas para obter sua substância, além disso, ambos têm a sua vida erótica esvaziada, mas aqui terminam as comparações. Drácula e todos os que o sucederam têm ambições maiores. Eles sempre querem algum tipo de prestígio, ou mesmo reverberar em uma sociedade ou época distinta. Vampiros são ambiciosos, por isso, apesar de não trabalharem, de serem sanguessugas sociais, eles ainda mantêm em si uma parte importante do espírito protestante que fundou o capitalismo. Mesmo sendo aristocratas, ricos e poderosos, os vampiros sempre são movidos por uma pretensão maior, nesse sentido, eles “trabalham” por seus objetivos. O conde Drácula, por exemplo, não mediu esforços para efetivar a complicada operação logística de sua mudança para Londres. Na época desse vampiro, a cidade escolhida por ele era o centro do mundo, capital do império britânico. Se fosse hoje, sua meta seria Nova York. Não é que lhe faltasse sangue na Transilvânia, ele parecia muito cômodo em seu castelo, com um grande rebanho de humanos submissos e apavorados à sua mercê. Mas ele quis ganhar o mundo, fazer outros como ele entre pessoas que lhe interessassem. Vampiros também têm sede de influência.

(Diana Lichtenstein Corso, Mário Corso - a Psicanálise na Terra do Nunca)

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publicado às 09:41


A questão do significado da vida

por Thynus, em 07.11.14
O estado nascente é uma morte-renascimento, deixando-nos,
assim, terrivelmente próximos da morte. O fato de a literatura
amorosa falar com tanta frequência de morte não é uma
brincadeira macabra ou um sinal de neurose, mas o sintoma de
que no enamoramento o significado da vida é posto em
discussão. Nós nos fazemos verdadeiramente a pergunta
metafísica: quem somos? por que estamos aqui? que valor tem
a nossa vida? Nossa existência não nos aparece mais como algo
natural, que é assim porque assim é o mundo. Mas como uma
aventura em que fomos envolvidos e que podemos escolher ou
recusar. O nosso passado volta-nos à mente e de tudo fazemos
um julgamento. O estado nascente é também o dia do juízo e
de sua condenação; na maioria das vezes, é inapelável
.
(Francesco Alberoni - O erotismo)
 
Somos seres assustados. O mundo nunca
viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos,
apodrecemos. A maturidade está
fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os
mais jovens, em pânico, fingindo que não,
sofrem diante de pais e mães ridículos em
seus modos e rostos falsamente juvenis.
Com a morte do amadurecimento, morre o
narrador, como diria o filósofo alemão
Walter Benjamin. Ninguém mais assume a
responsabilidade de falar do significado da
vida. Todos querem fingir que tudo pode
ser uma balada. “Eu me invento”, eis o
mandamento máximo do ressentido.
Denegação absoluta.
(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)
 
Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco. Uma das nossas maiores tarefas é inventar um significado consistente o bastante para sustentar a vida e executar a difícil manobra de negar nossa autoria pessoal desse significado. Assim sendo, concluímos, pelo contrário, que essa coisa está "aí fora" esperando por nós. Nossa procura incessante por sistemas substanciais de significados freqüentemente nos lança em crises de significado.
Mais indivíduos buscam terapia por causa de preocupações com o significado da vida do que os terapeutas muitas vezes percebem. Jung relatou que um terço de seus pacientes o consultavam por esse motivo. As queixas podem assumir diferentes formas. Por exemplo: "Minha vida não tem nenhuma coerência", "Não tenho paixão por nada", "Por que estou vivendo? Para quê?" "Com certeza a vida deve ter algum significado mais profundo." "Sinto-me tão vazio — assistir tevê toda noite me faz sentir sem sentido, tão inútil" "Mesmo agora, aos 50 anos de idade, ainda não sei o que quero fazer quando crescer."
Certa vez tive um sonho (descrito em Momma and the Meaning of Lifé) no qual, enquanto pairava próximo da morte num quarto de hospital, subitamente me vi em um passeio no parque de diversões (A Casa dos Horrores). Quando o carro estava prestes a entrar nas sombrias entranhas da morte, repentinamente avistei minha mãe morta no meio da multidão que assistia e gritei para ela: "Mamãe, mamãe, o que faço?"
O sonho, e especialmente meu grito — "Mamãe, mamãe, o que faço?" —, me assombrou durante muito tempo, não por causa do imaginário da morte no sonho, mas por causa de suas implicações sombrias sobre o significado da vida. Seria possível, especulei, que eu vinha conduzindo minha vida inteira com o objetivo primário de obter a aprovação da minha mãe? Por ter tido um relacionamento problemático com minha mãe e não ter dado valor à sua aprovação quando ela estava viva, o sonho foi tanto mais mordaz.
A crise de significado descrita no sonho me incitou a explorar minha vida de maneira diferente. Num conto que escrevi imediatamente depois do sonho, travei uma conversa com o fantasma da minha mãe para curar a brecha entre nós e para entender como nossos significados de vida se entrelaçavam, e, ao mesmo tempo, conflitavam um com o outro.
Alguns workshops experienciais empregam truques para estimular o discurso sobre o significado da vida. Talvez o mais comum seja perguntar aos participantes o que eles poderiam desejar como epitáfio em suas lápides. A maioria dessas indagações sobre o significado da vida leva a uma discussão de metas como altruísmo, hedonismo, dedicação a uma causa, generatividade, criatividade, auto-realização. Muitos sentem que projetos com um sentido assumem um significado mais profundo e mais poderoso se forem autotranscendentes — isto é, dirigidos para algo ou alguém fora deles mesmos, tais como o amor por uma causa, uma pessoa, uma essência divina.
O recente sucesso precoce de jovens milionários do setor de alta tecnologia freqüentemente gera uma crise existencial que pode ser instrutiva sobre os sistemas de significado de vida não autotranscendentes. Muitos desses indivíduos iniciam suas carreiras com uma visão bem clara — realizar-se, ganhar muito dinheiro, viver a boa vida, receber o respeito dos colegas, aposentar-se cedo. E um número sem precedentes de jovens na casa dos trinta fizeram exatamente isso. Mas, então, surgiu a pergunta: "E agora? E quanto ao restante da minha vida — os próximos quarenta anos?"
A maioria dos jovens milionários do setor de alta tecnologia que tenho visto continua a fazer muito do mesmo: iniciam novas empresas, tenta repetir seus sucessos. Por quê? Eles dizem a si mesmos que precisam provar que não foi um golpe de sorte, que conseguem vencer sozinhos, sem um determinado sócio ou mentor. Eles aumentam o nível de exigência. Para sentir que eles e sua família estão seguros, que não precisam de mais um ou dois milhões no banco — precisam de cinco, dez, até cinqüenta milhões para se sentirem seguros. Percebem a falta de sentido e a irracionalidade de ganhar mais dinheiro quando já têm mais do que conseguiriam gastar, mas isso não os detém. Percebem que estão tirando o tempo de suas famílias, das coisas mais próximas ao coração, mas simplesmente não conseguem desistir de jogar o jogo. "O dinheiro está lá fora à espera" eles me dizem. "Tudo que preciso fazer é apanhá-lo." Eles precisam fazer negócios. Um empreendedor imobiliário me disse que sentia que desapareceria se parasse. Muitos têm medo do tédio — mesmo o menor indício de tédio faz com que voltem correndo para o jogo. Schopenhauer disse que o próprio desejo nunca é satisfeito — assim que um desejo é satisfeito, aparece um outro. Embora possa existir alguma pausa bem breve, algum período fugaz de saciedade, ele é imediatamente transformado em tédio. "Cada vida humana", ele disse, "é lançada para trás e para frente, entre dor e tédio."
Diferentemente da minha abordagem das outras preocupações existenciais supremas (morte, isolamento, liberdade), penso que o significado da vida é mais bem abordado obliquamente. O que devemos fazer é mergulhar num dos muitos significados possíveis, particularmente um com uma base autotranscendente. É o compromisso que conta, e nós, terapeutas, fazemos mais bem quando identificamos e ajudamos a remover os obstáculos ao compromisso. Como ensinou Buda, a questão do significado da vida não é edificante. Devemos mergulhar no rio da vida e deixar que a questão seja carregada pela corrente.

(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)

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publicado às 13:05

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A pior prisão do mundo é aquela que aprisiona a emoção humana e nos impede de ser livres e felizes. Ninguém pode contemplar o belo e irrigar sua vida com sentido se for prisioneiro dentro de si mesmo.
Quem está aprisionado exteriormente, por barras de ferro, ainda pode ser livre para pensar e sentir. Quem é prisioneiro interiormente, no âmago da sua alma, além de perder a liberdade de pensar e sentir, perde também o encanto pela vida, esmaga o mais belo elo da existência (Cury, Augusto J., O Cárcere da Emoção, editora Academia de Inteligência, São Paulo).
É contraditório, mas nunca antes vivemos num mundo tão livre, sem escravidão e com consideráveis níveis de respeito pela expressão do pensamento, e também nunca tivemos uma quantidade tão grande de homens prisioneiros de tantas doenças psíquicas, vítimas de tantas misérias emocionais. Os escravos do passado eram mais livres do que aqueles que hoje estão sob o jugo do cárcere da emoção. Os negros do passado, embora tenham sofrido uma das mais terríveis violações dos direitos humanos, tinham mais liberdade do que aqueles que vivem no cárcere das crises depressivas e, principalmente, da dependência das drogas.
Não podemos desconsiderar os números. Milhões de jovens e adultos de todas as raças, culturas e condições sociais têm se submetido ao uso contínuo de substâncias psicoativas, ou seja, drogas que têm efeitos na psique. Ninguém que se interessa pelos grandes acontecimentos da humanidade pode se furtar de tentar entender esse grave problema social e descobrir quais são os motivos que impedem que a guerra do uso de drogas chegue ao fim. Por que as grandes e dispendiosas campanhas de repressão, envolvendo batalhões de soldados e aparelhos de rastreamentos, não exterminam com o tráfico de drogas? O que faz com que os projetos de prevenção tenham resultados tão inferiores, muito aquém dos esperados?
E preciso compreender o problema sob outra perspectiva. E preciso entender alguns mecanismos fundamentais do funcionamento da mente. Podemos não ser aprisionados pela droga química, mas certamente o somos pelos transtornos depressivos, pelas fobias, pelas reações impulsivas, pela incapacidade de pensar antes de reagir, pelos pensamentos negativos, pela solidão, pela crise do diálogo, pela ansiedade ou pelo estresse. Portanto, embora direcione mais minha atenção para a farmacodependência, este livro poderá ajudar a todos os que se interessam em descobrir algumas avenidas de sua inteligência.
Os farmacodependentes não são prisioneiros da dependência psicológica das drogas 24 horas por dia. O grau de dependência dependerá do tipo de personalidade do usuário, do tipo de droga usada, da freqüência do uso e do tipo de organismo. Contudo, mesmo nas dependências mais leves, quando o gatilho da memória é detonado, tais pessoas começam a ter um desejo compulsivo que trava suas inteligências. Esse desejo aumenta muito o nível de ansiedade, podendo gerar até sintomas psicossomáticos. Por isso, os usuários possuem, em determinados momentos, uma atração pelas drogas, e procuram uma nova dose para tentar se aliviar.
Uma pessoa portadora de fobia, tal como a de elevador (claustrofobia), tem reações semelhantes às de um dependente, só que opostas. Diante de um elevador ou de um lugar fechado, detona-se o gatilho da memória, gerando reações angustiantes que travam sua capacidade de pensar. A única coisa que interessa é sair do ambiente estressante. Quanto mais tempo ficar nele, mais intensificará a sua ansiedade, que será canalizada para produzir diversos sintomas psicossomáticos, como: taquicardia, suor excessivo, aumento da freqüência respiratória. Esses sintomas funcionam como um alarme avisando a pessoa para fugir do ambiente. E somente fugindo ela ficará aliviada.
Os portadores de fobia possuem uma aversão compulsiva pelo objeto fóbico e os portadores de dependência, ao contrário, possuem uma atração compulsiva pelas drogas.
Os usuários contínuos de cocaína, crack, heroína e outras drogas têm poucos momentos de alegria e liberdade. São prisioneiros e infelizes, pois com a instalação sorrateira da dependência, eles precisarão cada vez mais dos efeitos das drogas para estimularem a emoção.
Nada é mais dramático do que depender de uma substância ínfima para obter algum prazer emocional. Porém, o drama ainda não está completo. A medida que se agrava a dependência, o território da emoção dos usuários mergulha em estado de angústia, ansiedade e irritabilidade. Portanto, nesta nova fase, eles procurarão os efeitos das drogas, não para obter prazer, mas para tentar aliviar a dor decorrente do aprisionamento da alma. No início, drogavam-se porque as drogas produziam um oásis, porém, agora, drogam-se porque o oásis também se tornou seco e sem vida como o deserto.
As sociedades estão se democratizando cada vez mais e propiciando a liberdade exterior, todavia, paradoxalmente, em virtude da pulverização das doenças psíquicas, estamos cada vez menos livres por dentro. A farmacodependência, bem como outros transtornos psíquicos, são sinais de que o homem moderno, independentemente dos grandes saltos que deu neste último século, não é livre, saudável e alegre. Só não consegue ler estes sinais quem é incapaz de enxergar com os olhos do coração. Temos de olhar para dentro de nós mesmos e fazer uma revisão de vida.

(Auguato Cury - A pior prisão do mundo)

00001.jpgNão há dois senhores: ou você domina, ainda que parcialmente, a energia emocional ou ela o dominará

 

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publicado às 03:55

 
Herodes Antipas, soberano da Galileia, tinha apenas 16 anos quando assumiu o poder, após a morte do pai. Foi esse o Herodes que mandou executar João Batista e diante de quem Jesus apareceu na manhã de sua crucificação. Assim como o pai, sempre desejou ser o Rei dos Judeus. Enquanto ainda em Roma, apelara para que o Imperador Augusto o fizesse o herdeiro principal, acima de seus irmãos, e lhe desse o título de "Rei". Era o mais ambicioso dos três, e receber a Galileia, em vez da Judeia, com sua capital Jerusalém, foi uma decepção.
Herodes, o Grande, havia negligenciado a Galileia, concentrando seus vastos projetos de construção em Jerusalém, no litoral de Cesareia, e na Samaria. A Galileia era constituída principalmente por uma rede de centenas de cidades pequenas e aldeias no alto das colinas, tais como Nazaré, Caná e Nain, todas mencionadas nos nossos evangelhos do Novo Testamento. A base da economia era a agricultura, com uma próspera indústria de pesca no Mar da Galileia. Os galileus eram considerados atrasados pelos padrões romanos e eram conhecidos por seu feroz espírito de independência. Herodes Antipas crescera em Roma, como o proverbiarprincipe mimado", e possivelmente nunca tinha visitado a Galileia antes de assumir o poder.
O primeiro interesse de Herodes Antipas foi a construção de sua magnífica capital, em Séforis. Seu sonho era a construção de um centro romano urbanomoderno, com fórum, mercados, teatro, edifícios públicos, arsenal e, naturalmente, seu próprio palácio, no centro da Galileia rural, que jamais vira tal esplendor. Funcionaria como o centro governamental, comercial e militar de seu reino. Ele estava de olho em duas coisas — comércio e impostos. Segundo Josefo, pôde extrair o valor equivalente a duzentos talentos de ouro (nove toneladas) anualmente de seus súditos.' E isso no começo de seu longo reinado de 42 anos. Os historiadores calculam que Herodes extraiu cerca de um terço do produto de seu território. Não admira que os evangelhos do Novo Testamento mencionem com tanta freqüência e tanta crítica a coleta e os coletores de impostos.
Em 14 d.C. o imperador romano Augusto morreu e foi sucedido pelo filho adotivo Tibério. Jesus teria na época vinte anos. Herodes viu a oportunidade de consolidar e aumentar seu poder. Começou a cunhar suas próprias moedas, com uma folha de palmeira de um lado e uma coroa de louros romana do outro. Por volta de 19 d.C., ele iniciou a construção de uma nova capital, em estilo romano, no litoral oeste do Mar da Galileia, declarando o ano de sua fundação como o começo de uma nova era. Apropriadamente, chamou a cidade de Tiberíades, em honra ao novo imperador. Seguia os passos do pai. Ao localizar a capital no meio do comércio intenso, em torno do Mar da Galileia, e ao forjar elos mais próximos com o território oriental de Pereia, esperava aumentar seu prestígio e influência.
Tiberíades é hoje uma cidade judaica próspera, em Israel, mas partes da antiga capital só foram escavadas recentemente. O que está surgindo é verdadeiramente assombroso. Um portão monumental foi descoberto na extremidade sul da cidade. Os restos de um teatro, tão impressionante quanto os de Cesareia e Séforis, também foram encontrados. Vestígios de ruas e mercados estão sendo revelados. Sabemos que havia um grande palácio assentado em uma colina a oeste, com vista para o lindo Mar da Galileia. A cidade dominava de tal maneira a área, que era comum referir-se ao Mar da Galileia como "Mar de Tiberíades" (Consulte João 6:1; 21:1). Na verdade, Herodes Antipas queria que sua capital perto do mar fosse uma "mini" Cesareia. O que filiava tanto a Séforis quanto à nova Tiberíades, devido à susceptibilidade judaica que Antipas respeitava, eram templos ou santuários para os deuses romanos ou para o imperador. Afinal de contas, Herodes Antipas tinha aspirações messiânicas - queria ser o Rei dos Judeus.
Alguns eruditos creem que José e Jesus tivessem colaborado na reconstrução de Séforis
 
A antiga Tiberíades no templo de Jesus
Como seu pai, Herodes Antipas desejava casar-se com uma princesa da linhagem dos macabeus, em tentativa de granjear favor entre o povo por ter algum tipo deconexão "real". Sua mãe, Maltace, era samaritana. Com a Judeia agora sob o regime militar romano e seu meio-irmão Felipe claramente mais fraco quanto a território e aspirações, ele resolveu agir. Herodíades, esposa de Felipe, era da linhagem real asmoniana. Herodes, audaciosamente, propôs-lhe casamento no palácio em Cesareia, ao iniciar uma viagem a Roma para visitar o Imperador Tibério. Herodíades aceitou imediatamente, vendo uma oportunidade de se livrar do filho mais fraco de Herodes e aliar-se com Antipas. No seu retorno de Roma, casaram-se. Não sabemos em que ano exatamente isso ocorreu, mas esse relacionamento adúltero deve ter dado o que falar em toda a Galileia. O casamento estava destinado a desempenhar um papel crítico nas carreiras tanto de João Batista como de seu parente, Jesus.
O impacto econômico da mudança de Herodes para Tiberíades deve ter sido considerável. O Mar da Galileia já era um próspero centro comercial. A cidade litorânea de Mágdala, logo ao norte, lar de Maria Madalena ("Maria de Magdala"), exportava seu famoso "peixe salgado" para todo o mundo romano. Mais ao norte, ficava a cidade de Cafarnaum, que mais tarde se tornou o centro de operações de Jesus.
Jesus viu Séforis atingir seu esplendor quando era adolescente e presenciou a fundação da grande cidade de Tiberíades quando estava na casa dos vinte. Cresceu à sombra de uma cidade e estabeleceu seu centro de operações algumas milhas ao norte da outra. Nenhuma das duas cidades é mencionada nos nossos evangelhos do Novo Testamento — nem uma palavra sequer sobre o que Jesus fez lá. Em relação aos registros do Novo Testamento, é como se essas cidades não tivessem existido. Como interpretar esse silêncio?
Como veremos, Jesus sentia desprezo absoluto por Herodes Antipas e tudo que ele representava. Falava com sarcasmo daqueles que vestem belos mantos macios e vivem no luxo em palácios reais. Uma vez referiu-se diretamente a Herodes como "aquela raposa", e quando Herodes interrogou-o, na manhã mesma em que Jesus foi condenado à crucificação, recusou-se até a abrir a boca para responder. Foi Herodes quem assassinara brutalmente seu parente e mestre João Batista, e Jesus tinha observado como o desejo de Herodes por poder e riqueza oprimiu injustamente as vidas de seus conterrâneos.
Não creio que haja muita dúvida de que Jesus freqüentemente percorreu as ruas e mercados tanto de Séforis quanto de Tiberíades. Foi completamente exposto à cultura urbana romana que Herodes importou para a Galileia. Ele certamente viu tudo. Ao chegar aos trinta anos, começara a formular um plano que acreditava levar à destruição completa de tudo que Roma e seus simpatizantes e partidários judeus representavam, incluindo o estabelecimento religioso corrupto que dirigia o Templo em Jerusalém. O que visionava, encontrou escrito nos textos sagrados dos profetas hebreus. O tempo era chegado — os reinos do mundo estavam para se tornar o Reino de Deus e de seus Messias.

(James Tabor - A dinastia de Jesus)
Flávio Josefo chamou a Séforis “o adorno da Galileia.” Herodes Antipas escolheu este lugar no ano 4 a.C. como a capital de seu governo.
 

 
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publicado às 14:13


Pureza

por Thynus, em 06.11.14
 

 
MUITAS VEZES ME PERGUNTAM por que desconfio tanto do discurso da saúde total em que vivemos. A preocupação com a alimentação, a pureza do ar, a higiene dos afetos, as artérias, enfim, não me engana. Eu sei que, no fundo, você, ser orgânico, é um egoísta e narcisista que conseguiu finalmente ter um discurso “filosófico e científico” a seu favor. Seu egoísmo grotesco virou ciência. Quando vou a festas (cada vez menos porque, confesso, as suporto cada vez menos; sonho com o dia em que não irei a mais nenhuma, salvo raras exceções que me emocionam por razões muito específicas) e vejo jarros de água orgânica e sobremesas com frutas orgânicas da estação e prato principal com rúculas orgânicas e servidas à francesa, sei que estou entre hipócritas. Em seu maravilhoso livro Frankenstein, Mary Shelley não imaginou, quando sonhou com sua horrorosa criatura (representando o futuro de um mundo produzido pela técnica e pela ciência), que ela fosse ser maníaca por saúde e alimentação. Mas poucos anos depois (Frankenstein é de 1818), em 1831, Alexis de Tocqueville, aristocrata e intelectual francês, ao visitar a nascente democracia americana (viagem essa imortalizada em seu livro Democracia na América), percebeu a vocação irresistível da democracia (um regime pautado pelo gosto medíocre do homem comum) para o controle de todo hábito inútil. Por isso ele profetizou que a democracia, na sua paixão mesquinha pelo sucesso dos homens comuns, proibiria o tabaco e o álcool. Proibiremos tudo que algum idiota científico considerar inútil para o sucesso físico. Algo se perde nessa dança miserável. O que se perde é o fato de que a vida é desperdício de si mesma. Sua grandeza está em perdê-la, como já dizia a sabedoria do Evangelho, e isso não mudou. A tentativa de contê-la nos limites da “ciência da nutrição” (se é que existe, porque, na realidade, trata-se apenas de mais uma moda) não passa de um modo hipócrita de negar o princípio da vida – que é se multiplicar, se esvaindo, se perdendo, como que sangrando para gerar. O que alimenta a busca da saúde total é a velha e feia ganância como qualidade de caráter. Quando me encontro em jantares inteligentes em que tudo é orgânico e equilibrado, me sinto entre vampiros que sugam o mundo, em vez de se oferecer a ele como alimento permanente da vida.

(Luiz Felipe Pondé - Contra um mundo melhor)

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publicado às 07:50


Ressentimento ou Paz de Espírito

por Thynus, em 05.11.14
“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.” (William Shakespeare)
 
O rancor, ou ressentimento, é uma das emoções mais tóxicas que o ser humano pode experienciar. Rouba-nos quase toda a energia e intoxica o nosso dia-a-dia impedindo-nos de avançar em direcção aos nossos sonhos.
O rancor surge quando sentimos que alguém errou para connosco, alguém nos magoou ou cometeu um acto violento contra a nossa pessoa (físico ou verbal). Ao agarrarmo-nos ao rancor ficamos cegos ao ponto de não conseguirmos ver a nossa parte na equação, a nossa co-criação do evento que nos causa mágoa. Por outro lado, o rancor faz nascer sentimentos de raiva e ódio dentro de nós. Mais emoções altamente tóxicas.
Em realidade, quando sentimos ressentimento é como se estivéssemos presos à pessoa que nos magoou com uma corda de aço. Damos toda a nossa atenção a essa pessoa e, desta forma, toda a nossa energia. Ficamos esgotados. E não somos capazes de ver a lição que o evento tem para nos oferecer. Regra geral, em cada evento que nos causou dor há uma lição de coragem, de auto-estima ou de sacrifício para nós. A palavra sacrifício tem a sua origem no latim que significa “fazer sagrado”. Num sacrifício nós abrimo-nos perante o sagrado e aceitamo-lo nas nossas vidas.
O mais curioso é que, se ainda não se apercebeu, a pessoa que odeia ou por quem sente raiva, muitas vezes nem sequer está consciente do que fez, nem gasta um grama de energia a pensar em si. É muito provável que nem sequer pensa em si! Ou seja, quando sentimos ressentimento é a nós que estamos a magoar. E se a pessoa que nos magoou já morreu isto é ainda pior. Porque enterramos a nossa energia junto com a pessoa que já partiu.
Cada evento doloroso da nossa vida é criado por nós com um único objectivo (que pode ou não estar consciente): apontar o dedo à primeira pessoa que nos causou danos na nossa vida. Regra geral esta pessoa é o pai ou a mãe. Verifique qual é o género das pessoas que mais danos lhe causou ao longo da sua vida. Se forem mais homens é muito provável que ainda esteja a apontar o dedo ao seu pai, porque ele o magoou. Se forem mais mulheres, é à sua mãe que está a apontar o dedo e a dizer, em silêncio, “Comigo erraste!”
E passamos uma vida inteira a criar situações que nos causam dor e nunca ultrapassamos estas situações, porque no fundo acreditamos que a pessoa que primeiro errou connosco deve pagar pelo acto indefinidamente. E só nós é que sofremos. Só nós é que saímos lesados. Não há excepções.
Há alguns anos atrás, vivia em Londres, fui convidado para fazer uma pós-graduação em Nova Iorque durante seis meses. Na altura fiquei cheio de entusiasmo e fui sem pensar duas vezes. Deixei uma amiga, que considerava de absoluta confiança, responsável por cuidar do meu apartamento (regar plantas, pagar a renda, etc.). Deixei-lhe dinheiro na conta bancária suficiente para pagar a renda durante oito meses (na altura vivia num apartamento que estava legalmente alugado a outra pessoa). Quando regressei de Nova Iorque fiquei a saber que o meu apartamento estava vazio (ela tinha vendido literalmente tudo o que tinha) e a renda não tinha nunca sido paga. Vivi 3 dias na rua, enquanto tentava normalizar a minha vida. Durante anos senti um ódio tremendo por esta pessoa.
Culpava-me por ter sido estúpido ao ponto de confiar nela. Amaldiçoava o dia em que a tinha conhecido. Desejava-lhe nada menos que a morte. E durante mais de dez anos carreguei ás costas esta mulher que tantos danos me tinha causado. Até conhecer a Debbie Ford.
A primeira coisa que descobri foi que todos os problemas que me causavam mágoa e ressentimento eram sempre, sem excepção, causados por mulheres. Dizer que foi duro para mim descobrir que após estes anos todos ainda culpava a minha mãe pelo que me tinha feito na infância é colocar o sentimento de uma maneira muito suave. Foi brutal. Saber que andei mais de trinta anos a criar situações em que era lesado apenas para poder dizer à minha mãe, vezes sem conta, “tu comigo erraste!”
Depois fiz o processo de descobrir o presente no evento. Aprendi que nunca temos nada, nunca somos donos de nada. Na hora menos esperada a vida encarrega-se de no-lo provar. Aprendi que tudo o que preciso para viver está em mim e não fora de mim. Aprendi que apenas eu sou responsável pela minha vida e que ficar à espera de um salvador, que alguém me venha salvar, é uma ilusão.
E depois o perdão. Porque enquanto não formos capazes de perdoar à pessoa que causou a dor nunca estaremos livres da toxicidade nos nossos corpos. O ressentimento, a raiva e o ódio são as toxinas que criam os cancros. São as toxinas que nos gritam “aprende a lição ou morre”. Sinto muito por colocar as coisas desta forma se a pessoa que estiver a ler isto tem um cancro. Mas é o que eu vejo constantemente. Isto não se aplica ás crianças, por vários motivos que não vou discutir aqui.
Como podemos perdoar as pessoas que nos magoaram? Só o conseguimos fazer depois de ver os presentes, as lições, que cada evento doloroso tem para nos oferecer. É impossível perdoar em piloto automático. Temos que fazer o trabalho todo, passar pelas emoções presentes no evento. É a única forma que conheço de o fazer. E depois estaremos livres do evento e da pessoa. Perdoar significa confrontar a pessoa, se ainda for viva, e fazer-lhe saber que está perdoada. E pedir perdão a essa pessoa, mais que não seja porque a mantivemos presa a nós durante muito tempo. Uma coisa que poucas pessoas reparam é que em cada evento doloroso da nossa vida há pelo menos duas pessoas presentes. Uma delas somos nós. E somos nós que estamos sempre presentes em cada evento doloroso da nossa vida. O que queremos aprender com cada um destes eventos? Porque atraímos cada um deles?

(Emídio Carvalho - A Sombra Humana)

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publicado às 02:33



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