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As tragédias coletivas despertam nas pessoas a empatia pelo sofrimento umas das outras de uma forma que não vemos em nosso dia-a-dia. De repente, o seu sofrimento é o meu e o meu sofrimento é o seu. De repente, me vejo impossibilitado de continuar fingindo que não sofro, você se vê impossibilitado de continuar fingindo que não sofre, e tanto eu quanto você não temos outra opção senão olhar um para o outro e reconhecer a mesma dor que é minha e sua. Quando tantas pessoas se encontram inesperadamente afetadas pela morte, a cortina do teatro da vida se levanta e a realidade se impõe sobre todas elas. E se por um lado a realidade que se impõe é dura o bastante para que elas sintam profundamente o brusco término da encenação, por outro ela traz consigo todo o calor humano que não existe na atuação.
Nosso dia-a-dia é vivido na fantasia inconsciente da imortalidade. E, mesmo assim, vivemos como se a cada segundo nossa existência estivesse ameaçada. Não se trata de uma ameaça física, pois a fantasia de imortalidade é sobre a imortalidade do corpo. A ameaça que nos ronda a cada instante vem de dentro. Trata-se de outra fantasia: A fantasia de que se deixarmos a “bola cair”, seremos definitivamente tragados para baixo, para o abismo negro da angustia que existe em nós, sem nunca mais conseguir nos reerguer. É preciso manter a bola sempre alta, o astral sempre para cima. Qualquer mácula nesse otimismo pode significar o fim do mundo. É preciso estar sempre sorrindo, sempre rindo; é preciso cultivar o pensamento positivo. A conseqüência desse otimismo inconseqüente é a negligência do próprio sofrimento. Cada um negligencia a própria dor e adia indefinidamente o seu inevitável enfrentamento. Afinal de contas, somos imortais! O dia do juízo final pode ser adiado indefinidamente! Então, a morte sobrevém de repente. A fantasia de imortalidade é derrotada pela realidade que nos obriga a enfrentar, de uma só vez, toda a dor que fingimos não existir até então.
Quem negligencia a própria dor na vida do dia-a-dia também negligencia a dor do outro. E quando, nessa vida diária, o outro não faz questão de esconder a sua, nós a recebemos ou com indiferença, ou com críticas destrutivas, ou então ainda fingimos acolhê-la com conselhos fúteis que só nos mantém distantes dela. Assim, no momento em que a morte torna o confronto com a dor inevitável, compreendemos que sofremos não tanto pela perda da pessoa que viveu ao nosso lado, mas por aquilo que nunca vivemos ao lado dela, pois estávamos ocupados demais negligenciando tanto a sua quanto a nossa dor. Preferimos viver nos entregando à bebida, ao cigarro, ao riso fácil, às ideologias, religiões e filosofias abstratas, às companhias e aos divertimentos fúteis do que olhar sem restrições para ela e deixá-la espelhar livremente nosso próprio ser. Se tivéssemos realmente vivido ao lado daquela pessoa, talvez a dor da perda fosse um pouco menor. Mas, então, a morte chega trazendo consigo esse olhar de reconhecimento mútuo, o olhar da dor que se reconhece na dor do outro; exatamente esse olhar do qual sempre fugimos por acreditar que pudesse nos tragar para baixo. E daí percebemos que esse olhar não ameaça. Entendemos que só nos sentíamos ameaçados por ele por carecermos dele, e que sua presença afasta toda e qualquer ameaça. De uma só vez, compreendemos que o teatro da vida diária não é necessário, e que no duro chão da realidade nos tornamos pessoas muito melhores do que quando estamos atuando em cima do palco. Por que não conseguimos despertar em nós, no dia-a-dia, a mesma empatia e a mesma solidariedade que vivemos juntos na morte?
Somos melhores na morte do que somos na vida. É na situação de morte que descobrimos quão bons poderíamos ser ou ter sido. Por que não conseguimos ser tão bons na vida como somos na morte? Por que temos tanto medo do duro chão da realidade a ponto de viver nos teatrinhos de ideologias, crenças e divertimentos fúteis se é no duro chão da realidade que finalmente encontramos em nós e nos outros tudo o que sempre desejamos? Será que somente a morte pode nos ensinar a viver?

(Daniel Grandinetti - Psicologia no cotidiano)

publicado às 19:33


Somos livres em nossa mente?

por Thynus, em 22.10.14
 
A tese de Sartre: condenados a ser livres
Somos livres para pensar? Pensamos o que queremos e quando queremos? Espere, não se apresse em responder. Pense o pensamento, pense no que você pensa e em como pensa. Alguém pode questionar: “Sou livre em minha mente, meus pensamentos submetem a minha vontade”. Será?
O filósofo francês Jean-Paul Sartre defendeu uma das teses mais inteligentes da filosofia: o ser humano está condenado a ser livre. Sartre estava correto ou foi ingenuamente romântico ao defender essa tese? Somos livres dentro de nós mesmos?
Se olharmos para o comportamento externo, não há dúvida de que Sartre estava correto. Um presidiário pode ter seu corpo confinado atrás das grades, mas sua mente é livre para pensar, fantasiar, sonhar, imaginar. Se o seu Eu não for treinado para refletir sobre seus erros, a punição não será em hipótese alguma pedagógica.
Pelo contrário, os fenômenos que constroem cadeias de pensamentos farão uma leitura multifocal da memória ao longo de dias, meses e anos, construindo imagens mentais sobre fuga, túneis, abreviamento da pena; enfim, tudo para escapar de um cárcere mais grave que o cárcere físico: o cárcere da angústia, do tédio, da ansiedade asfixiante. Quem construiu as prisões ao longo da história não estudou o processo de construção de pensamentos, não entendeu que a mente jamais pode ser aprisionada.
Por que os ditadores, por mais brutais que sejam, por mais que controlem seu povo com mão de ferro, caem? Porque ninguém pode controlar a movimentação do Eu e seus anseios pela liberdade.
Um bebê terá vontade de sair dos braços da mãe para explorar o ambiente. Um adolescente se arriscará a fazer novos amigos, ainda que seja tímido. Uma pessoa marcada por uma fobia desviará do objeto fóbico; enfim, irá ao encontro da sua liberdade. Por esse ângulo, Sartre estava corretíssimo: o ser humano está condenado a ser livre.
A sua tese alicerça, inclusive, os direitos e deveres civis dos cidadãos nas sociedades democráticas. Nelas, temos a liberdade de expressar nossos pensamentos, de ir e vir. Mas se, por um lado, ansiamos desesperadamente ser livres, por outro, ao observarmos atentamente o processo de construção de pensamentos e as sofisticadas armadilhas que ele encerra, veremos que a tese de Sartre é ingênua e romântica. Infelizmente, não somos livres como gostaríamos de ser no âmago do intelecto. Aliás, os piores cárceres, as piores masmorras, as mais apertadas algemas podem estar dentro de nós. Vejamos.
Onde estão as flores que plantei?/Cheias de sol e constancia,/Em que fases da lua eu as semeei.!/Em que canteiro deixei/O aroma de minha infancia?
 
O Eu é refém de uma base de dados
Nós construímos pensamentos a partir do corpo de informações arquivado em nossa memória. Todas as ideias, a criatividade e a imaginação nascem do casamento entre um estímulo e a leitura da memória, que opera em milésimos de segundo. O Eu não tem consciência dessa leitura e organização de dados em alta velocidade que ocorre nos bastidores da mente, somente do produto final encenado no palco, ou seja, dos pensamentos já elaborados.
Um quadro, os personagens do cinema ou de um livro, por mais incomuns que sejam, foram gestados com base na leitura de elementos contidos na memória do seu autor. E a memória é um produto de nossa carga genética, do útero materno, do ambiente social, do meio educacional e das relações do nosso Eu com a própria mente.
Milhares de experiências que fazem parte do nosso banco de dados da primeira infância, como rejeições, perdas, contrariedades, medos, foram produzidas sem que pudéssemos controlá-las, filtrá-las, rejeitá-las. Claro que hoje, como adultos, fazemos escolhas, tomamos atitudes, mas nossas escolhas são pautadas pela base de dados que já temos, e, portanto, nossa liberdade não é plena como Sartre pensava.
Um homem, que talvez seja o maior educador da história, enxergava essa limitação de maneira clara e assombrosa. Quando estava morrendo sobre o madeiro, há mais de 2 mil anos, disse algo surpreendente: “Pai, perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem!”. Uma análise não religiosa, mas psicológica e sociológica, demonstra que a afirmação carrega um altruísmo sem precedente. Mas, ao mesmo tempo, parece inaceitável sua atitude de proteger os carrascos.
Os soldados romanos sabiam o que faziam, cumpriam a peça condenatória de Pilatos. Entretanto, para o mestre dos mestres, os pensamentos que eles construíam eram, por um lado, fruto da livre escolha e, por outro, reféns da base de dados da sua memória, da cultura tirânica do Império Romano. Cumpriam ordens, não eram completamente autônomos nem donos do próprio destino. Eram prisioneiros do seu passado, “escravos” de sua cultura.
A cultura é fundamental para a identidade de um povo, mas, se ela nos impede de nos colocar no lugar do outro e pensar antes de reagir, torna-se escravizante. Para o mestre da Galileia, por detrás de uma pessoa que fere, há sempre uma pessoa ferida. Isso não resolvia o problema dos seus opositores, mas resolvia o problema dele. Protegia a sua mente. Seu Eu não carregava as loucuras e agressividades que não lhe pertenciam. Sua tolerância o aliviava, mesmo quando o mundo desabava sobre ele.,

O Eu pode ser dominado pelo fenômeno do autofluxo
Não deixamos de ser livres apenas porque somos reféns do nosso passado, da “liberdade circunscrita a uma história existencial”. Mesmo dentro dessa base de dados, não temos plena liberdade de escolha, como Sartre pensava.
Imagine que tenhamos milhões de “tijolos” em nossa memória, que advêm da carga genética, da relação com pais, irmãos, amigos, das experiências na escola, das informações dos livros, do processo de introspecção. Não há dúvida de que temos liberdade de escolha para utilizar esses tijolos e construir emoções e pensamentos ao bel-prazer do Eu, pensamentos que acusam, discursam, analisam, acolhem, criticam, aceitam, amam, odeiam.
A não ser que alguém esteja em surto psicótico ou sob intenso efeito de uma droga, ou seja uma criança incapaz de ter consciência de seus atos, o exercício de escolher e utilizar os tijolos da memória está preservado. Mas, apesar da liberdade que o Eu tem de acessar e utilizar informações para construir cadeias de pensamentos sob sua responsabilidade, há fenômenos inconscientes que constroem pensamentos e emoções sem sua autorização. Se esses fenômenos realmente existem, isso muda drasticamente nossa compreensão sobre quem somos, o Homo sapiens.
Você entraria numa aeronave sabendo que há um terrorista a bordo que poderia dominar o piloto e fazer o avião despencar? Fiz essa pergunta para uma plateia de médicos. Claro, todos disseram que não. Em seguida, perguntei: “Quem gosta de sofrer, de se angustiar?”. Felizmente, não havia nenhum masoquista presente. E continuei: “Quem sofre por antecipação?”. Quase todos na plateia se manifestaram.
Expliquei então que, se considerássemos a mente humana como a mais complexa aeronave e o piloto, o Eu, a aeronave mental deles estaria em queda livre. Disse a eles que “se o Eu de vocês não é masoquista, se ninguém se detesta ou procura se mutilar, por que, então, sofrer por antecipação? Se não é o Eu que produz esses pensamentos perturbadores, quem os produz? A conclusão é que há um ‘terrorista’ a bordo, há um copiloto sabotando a aeronave mental”.
Quem é esse copiloto? Eu o chamo de autofluxo. Mais adiante, vamos investigá-lo em detalhes, mas, previamente, afirmo que tal fenômeno inconsciente é de vital importância para o psiquismo humano, para a criatividade e para o prazer de viver, porém pode perder sua função saudável e passar a nos aterrorizar. Aliás, ele é o grande responsável por produzir a Síndrome do Pensamento Acelerado.
Os médicos começaram, enfim, a entender que a tese de Jean-Paul Sartre não se sustentava. O nosso Eu é livre para pensar, para organizar os dados da sua memória, mas, ao mesmo tempo, há fenômenos inconscientes, que até então não tinham sido estudados por outros teóricos, que produzem pensamentos sem a autorização do próprio Eu e que podem sabotá-lo, escravizá-lo, encarcerá-lo.
Não podemos falar que somos condenados a ser livres. Não estamos sós na aeronave mental… Podemos e devemos ser educados para ser autores da nossa história, mas essa liberdade é conquistada e tem seus limites. A história da humanidade, com suas inúmeras injustiças e atrocidades, é um exemplo claro disso.

O fenômeno RAM domina a memória e o Eu
O terceiro elemento que questiona a tese de Sartre está ligado às limitações do Eu quanto ao arquivamento da memória. Nos computadores, somos deuses, registramos o que queremos e quando queremos, mas na memória humana isso é impossível. O registro de tudo o que contatamos é automático e involuntário, produzido por um fenômeno inconsciente chamado Registro Automático da Memória (RAM).
Não apenas o que o nosso Eu deseja será arquivado, mas também o que ele odeia e despreza. Tudo o que mais detestamos ou rejeitamos será registrado com maior poder, formando janelas traumáticas, que denomino killer. Se você detesta alguém, tenha certeza de que ele dormirá com você e estragará seu sono.
Portanto, se o Eu, que representa a capacidade de escolha, não tem liberdade para evitar o registro dos nossos pensamentos perturbadores e dos estímulos estressantes que nos abarcam, como podemos dizer que o ser humano está condenado a ser livre?
Estudar e compreender esses fenômenos inconscientes não apenas nos deixará atônitos, mas também nos levará a uma nova compreensão sobre as ciências da educação, a psicologia, a psiquiatria, a sociologia e as relações sociopolíticas.
O processo de construção de pensamentos e todas as suas implicações psicológicas e sociológicas não foram estudados sistematicamente por brilhantes pensadores como Freud, Jung, Roger, Skinner, Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Hegel, Kant, Descartes, entre outros.
Os grandes teóricos da psicologia e da filosofia usaram o pensamento pronto para produzir, com brilhantismo, conhecimento sobre o processo de formação da personalidade, o processo de aprendizado, a ética, as relações sociopolíticas, mas pouco investigaram aquele que pode ser considerado a última fronteira da ciência: o próprio pensamento.
Ao longo de mais de três décadas, estudei exaustivamente essa área e desenvolvi a Teoria da Inteligência Multifocal (TIM). Pensei dia e noite, ano após ano, analisando e escrevendo sobre a natureza, os tipos, os limites e o processo de construção de pensamentos.
Essa trajetória não alavancou meu orgulho; ao contrário, colocou-me em contato com minhas mazelas e minha pequenez, pois me fez perceber, em mais de 20 mil sessões de psicoterapia e consultas psiquiátricas, que todos os meus pacientes eram tão complexos como o mais culto e racional dos seres humanos. Estudar a dinâmica, a construção e a movimentação dos pensamentos me deixou plenamente convicto de que cada paciente que tratei, por mais fragmentada que estivesse sua personalidade, tinha a mesma dignidade que eu.
Temos o costume de nos classificar em negros e brancos, ricos e miseráveis, celebridades e anônimos, intelectuais e iletrados, reis e súditos, porque pisamos na superfície do planeta psíquico, porque conhecemos no máximo a antessala dos fenômenos que nos tecem como Homo sapiens. Somos uma espécie doente, que pouco honrou a arte de pensar.
O fato de o mais complexo de todos os fenômenos do intelecto, o pensamento, ter sido muito pouco investigado trouxe consequências seriíssimas para o desenvolvimento da nossa espécie. Pensar o pensamento sistematicamente nos leva a romper o cárcere de nossas verdades e abre um universo de possibilidades para compreender quem somos. E, também, para compreender que editar a construção do pensamento numa frequência altíssima leva ao mal do século (SPA), a um desgaste cerebral sem precedentes.

O erro de Einstein e outras consequências
Por não termos estudado o processo de construção de pensamentos, seus tipos e sua natureza, não desenvolvemos ferramentas para o Eu ser um gestor psíquico, o que gerou alguns paradoxos angustiantes. Vejamos. Estamos no apogeu da medicina e da psiquiatria, mas nunca estivemos tão doentes.
Estudo recente do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Michigan aponta que, ao longo da vida, uma em cada duas pessoas deve desenvolver um transtorno psiquiátrico, ou seja, mais de 3 bilhões de pessoas. Estamos no apogeu da indústria do lazer, mas nunca houve uma geração tão triste e depressiva como a nossa. Estamos na era do conhecimento, da democratização da informação, mas nunca produzimos tantos repetidores de informações, em vez de pensadores.
E os paradoxos não param por aí. Por não termos investigado o fenômeno fundamental que nos torna seres pensantes, vivenciamos ainda hoje erros grosseiros e gravíssimos na sustentabilidade das relações humanas, inclusive na inserção social. Qual a diferença entre uma pessoa em surto psicótico e um intelectual?
Havia diferenças entre o grande Einstein e o filho psicótico que ele internou num manicômio e nunca mais visitou? Havia algumas diferenças na organização do raciocínio, nos parâmetros da realidade, na profundidade das ideias, na formatação do imaginário, mas, nos bastidores da mente, eles eram exatamente os mesmos.
O filho de Einstein podia construir pensamentos ilógicos e imagens mentais desconectadas da realidade, mas a atuação do Eu e dos fenômenos inconscientes que construíam esses pensamentos e imagens era exatamente a mesma que Einstein usou para produzir sua sofisticada teoria da relatividade. Resgatar um verbo em meio a bilhões de opções e utilizá-lo numa cadeia de pensamento, ainda que ilógica, equivale a atirar na Lua e acertar numa mosca.
A leitura rapidíssima da memória e a utilização dos dados que financiavam os personagens bizarros e as ideias persecutórias do filho de Einstein, reitero, nem de longe eram menos complexas do que as de seu pai. Entretanto, o ambiente tétrico de um manicômio, as dificuldades de lidar com o raciocínio de seu filho sem parâmetros lógicos e o sentimento de impotência de Einstein levaram o homem que mais conheceu as forças do universo físico a ser asfixiado pelas forças de um universo mais complexo, o psíquico.
Quando estudamos o processo de construção de pensamentos, somos iluminados para entender que a loucura e a racionalidade são mais próximas uma da outra do que imaginamos. Por isso, uma pessoa inteligente jamais discrimina ou diminui os outros.

(Augusto Cury - ANSIEDADE, como enfrentar o mal do século)
 

publicado às 23:02

Um dia você foi qualificado para entrar na maior corrida de todos os tempos. Eram milhões de concorrentes. Pense nesse número. Quase todos tinham o mesmo potencial para vencer e só um venceria. Você era mais um deles. Analise quais seriam as suas chances. Zero vírgula zero, zero, zero alguma coisa. Suas chances eram quase inexistentes. Você nunca foi tão próximo do zero.
Você tinha tudo para ser um derrotado. Nunca o fracasso bateu tão perto de suas portas. Porém não podia perder essa corrida, caso contrário, perderia o maior prêmio da história, a vida. Nesse caso, outra pessoa estaria sentada em sua cadeira lendo este livro; outro ser estaria ocupando seu lugar no palco da existência.
Que corrida é esta? A corrida pela vida. Eram milhões de espermatozóides para fecundar apenas um óvulo e ter o direito de formar uma vida. E você estava lá como o mais teimoso ser da história acreditando que poderia vencer. Você nunca foi tão sonhador! Hoje você, talvez, sonhe pouco. Naquela época você sonhava sonhos quase impossíveis.
Se outro espermatozóide tivesse fecundado o óvulo, outra pessoa, e não você, teria sido formada. Você estaria banido para sempre das páginas da vida. Não teria olhos para ver o sol e nem emoção para ter amigos.
Naquela época você era pequeníssimo: milhares de vezes menor que um grão de areia. Era pequeno e incompleto, mas sua capacidade de luta pela vida era espantosa. Seu programa genético determinou que você não poderia morrer, que precisaria fecundar o óvulo no útero da sua mãe. Só assim seria um ser completo. Ansioso, você partiu para o alvo.
Era o maior concurso da história, a mais árdua corrida disputada por um ser vivo. Era incomparavelmente mais difícil do que superar hoje um câncer, um enfarto, uma crise familiar ou uma crise financeira. Não se desespere ante às crises atuais.
Conquistar o Oscar de melhor ator, ganhar um prêmio Nobel ou conquistar o topo da carreira de qualquer empresa mundial é uma tarefa facílima se comparada ao concurso de que você participou na aurora da sua vida. Por isso, se você se sente inferior porque não conquistou nada de grandioso, saiba que você é o mais injusto dos homens. Injusto consigo mesmo, pois você venceu o maior e mais difícil concurso da história e não o valoriza. Jamais se sinta inferior e menos capaz do que qualquer ser humano.
Se você tem dinheiro ou está falido, se é um intelectual ou um iletrado, se é uma pessoa famosa ou vive no anonimato, tudo isso é pequeno em relação ao espetáculo da vida que você conquistou. Sinta a vida pulsando em bilhões de células do seu corpo e vibrando no cerne de sua alma.
Na lógica da vida, dividir é aumentar. Dividir as células aumenta a vida. Dividir a emoção multiplica a felicidade. Na lógica financeira, dividir é diminuir. Siga sempre a lógica da vida, ela é mais rica do que a lógica da matemática. Você fecundou o óvulo, dividiu-se milhões de vezes e se tornou um ser inteligente.
Muitos não participariam de um concurso com milhões de concorrentes por medo de ser derrotados. Sabe o que você pensou na grande corrida da vida? Nada! Você ainda não pensava. Se pensasse, talvez tivesse desistido. O passo mais importante da vida foi dado na ausência das idéias.
O Criador, Deus, colocou-o nesta grande corrida. E você agradeceu profundamente a oportunidade que Ele lhe deu, ainda que não tivesse consciência desse agradecimento. Agradeceu como? Correndo, nadando, movendo-se e lutando pelo direito de viver. Você lhe agradeceu não "olhando" para trás, não ficando inerte diante dos problemas, não reclamando dos obstáculos. Hoje você pode ter se tornado um especialista em reclamar, naquela época você era um especialista em viver.
Toda vez que pensamos num obstáculo e o consideramos intransponível, ele nos paralisa. Ficamos engessados pelo medo. Pensar com lucidez é necessário, mas pensar excessivamente nas dificuldades que atravessamos trava a inteligência e rouba a esperança.
Muitos cientistas atormentam-se por não controlar minimamente o mundo das idéias. Muitos executivos mutilam-se por pensar demais. Muitos jovens têm baixa concentração e são irritadiços porque não descansam suas mentes.
Precisamos aprender a pensar com qualidade. Os que agem sem pensar tumultuam o ambiente, os que pensam excessivamente desgastam-se muito e, algumas vezes, caem nas raias da omissão. Pensar e agir devem rimar na mesma poesia. Ninguém pode acalmar as águas da emoção se não aprender a controlar a agitação dos seus pensamentos.
Ser feliz pode ter se tornado hoje uma miragem para você. Sua vida talvez tenha se transformado num canteiro de stress. Talvez você não saiba mais o que é ser espontâneo, livre e solto. Talvez você tenha desaprendido a ser alegre e simples e nem saiba mais fazer coisas fora de sua agenda, ainda que seja um jovem. Talvez você pense muito e sinta pouco, precise de grandes estímulos para se emocionar. Mas você pode reverter esse quadro. Lembre-se de que, sob a observação soberana do Autor da existência, você venceu todas as barreiras que o impediam de viver. Agora é hora de você aprender a navegar nas águas da emoção.

(Augusto Cury - Treinando a emoção para ser feliz)

publicado às 08:03

Nada é mais importante do que procurar a verdadeira felicidade, desenvolver as funções mais belas da inteligência e transformar os nossos sonhos em realidade. Como conseguir isso? Onde conseguir isso? Somente no mundo real, somente dentro do nosso próprio ser.
A fantasia pode estimular a imaginação e desenvolver a criatividade. Porém, é no mundo real, onde há conflitos, perdas, medos, drogas, lágrimas, metas, sucessos e fracassos, que devemos encontrar o verdadeiro significado da vida, libertar a nossa criatividade e cultivar nossa capacidade de pensar.
A coleção de livros “Harry Potter” escrita pela J.K. Rowling fez um enorme sucesso em todo o mundo entre as crianças e os adolescentes. Mexeu com o coração e libertou a fantasia. Até os adultos viajaram no mundo mágico desses livros. Harry Potter virou um símbolo da juventude.
Neste livro, não usarei o personagem da famosa coleção. Harry Potter será aqui representado por aqueles que viverão histórias baseadas em fatos reais. Harry Potter será o Ferdinando, o Roberto, o Lucas, o Mário, você. Enfim, cada jovem.
Eles viverão aventuras, passarão dificuldades, chorarão, terão de aprender a superar falhas, conflitos, sentimento de culpa, timidez, corrigir rotas. Este livro, portanto, é dirigido a jovens de 9 a 99 anos, pois todos somos pequenos alunos na escola da vida.
Nos livros de J.K. Rowling, Harry Potter e seus amigos entraram para uma escola de bruxos; no livro
“Escola da Vida - Harry Potter no Mundo Real”, os jovens entrarão na mais importante escola do mundo, a escola da vida. Ela inclui nossa família, bairro, colégio, sociedade, amigos.
Você tem medo de errar ou falhar? Pois bem, nessa escola você terá de enfrentar seus erros e descobrir que o mais importante não é errar, mas aprender lições de vida em cada um desses erros.
Na Escola da Vida, os jovens terão de aprender as funções mais importantes da inteligência, como pensar antes de reagir, expor e não impor suas idéias e trabalhar em equipe. Se quiserem brilhar na sociedade terão de desenvolver não apenas a inteligência lógica, mas também as inteligências “Emocional”, “Múltiplas” e “Multifocal”. O que são essas inteligências e como desenvolvê-las? Fique tranqüilo! As histórias que contarei poderão contribuir para estimular esse desenvolvimento.
No livro de J.K. Rowling, Harry Potter usou seus dons sobrenaturais, uma varinha mágica e uma vassoura voadora para resolver seus problemas; no livro “Escola da Vida”, os jovens terão de aprender a usar a “ferramenta” do pensamento para resolvê-los. Este livro ensina a pensar.
No livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, Harry Potter tinha um inimigo mortal que estava fora dele, chamado de Valdemort. No livro “Escola da Vida”, os jovens terão de descobrir que seus piores
inimigos estão dentro de si mesmos. Quem são eles? São seus pensamentos negativos, ansiedade, desmotivação, insegurança, baixa auto-estima.
Precisamos entender que não temos de viver num mundo mágico para que a vida seja uma aventura. A vida por si só já é uma grande aventura. Nem necessitamos viver perigosamente para transformá-la
numa fonte de prazer. É possível encontrar uma fonte de prazer dentro de cada um de nós.
Alguns jovens estão se drogando, se deprimindo ou vivendo numa bolha de solidão, porque não encontraram essa fonte de prazer dentro de si mesmos. Você é feliz? Sua vida tem sentido? Precisamos encontrar na Escola da Vida o verdadeiro sentido para a vida humana...
Nada é tão belo quanto viver. Não importa se você tem pele branca ou negra, se é um americano ou brasileiro, um judeu ou árabe, magro ou obeso, se mora em um palácio ou em uma favela. Você é um ser único. Se não se equipar, estudar e se preparar, poderá um dia ser substituído profissionalmente. Mas nunca se esqueça de que como ser humano ninguém ocupará seu lugar no palco da vida.
Você é um ser humano especial. Jamais se diminua ou se sinta incapaz.

(Augusto Cury - Escola da Vida, Harry Potter no mundo real)

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publicado às 13:12


A vitória subtil de Francisco

por Thynus, em 18.10.14
A própria palavra "cristianismo" é um mal-entendido - no fundo só existiu um
cristão, e ele morreu na cruz. 0 "Evangelho" morreu na cruz. 0 que, desse
momento em diante, chamou-se de "Evangelho" era exatamente o oposto do que
ele viveu: "más novas", um Dy sangelium. É um erro elevado à estupidez ver
na "fé", e particularmente na fé na salvação através de Cristo, o sinal distintivo do
cristão: apenas a prática cristã, a vida vivida por aquele que morreu na cruz, é
cristã... Hoje tal vida ainda é possível, e para certos homens até necessária: o
cristianismo primitivo, genuíno, continuará sendo possível em quaisquer épocas...
(Nietzsche - O Anticristo)


Na sua loucura lúcida, Nietzsche escreveu que cristão só houve um, Jesus, mas morreu na cruz, e o Evangelho tornou-se um Disangelho. Evangelho é palavra grega que quer dizer notícia boa, feliz e felicitante. Essa foi a mensagem de Jesus, que arrastou multidões em busca de saúde, libertação, vida expandida, salvação. Depois, tornou-se, tantas vezes e para muitos, uma má notícia, uma notícia de desgraça, um Disangelho. Só quem anda distraído ou não pode ou não quer saber é que não sabe disso.
O Papa Francisco pugna pelo regresso ao Evangelho do Jesus da vida, como notícia felicitante, por palavras e obras. Também na família. Ele sabe que, no meio das transformações culturais profundas, a sociedade e a Igreja continuam a precisar de "famílias felizes". E o contributo da Igreja é fundamental.
Assim, quis que, no Sínodo, com bispos de todo o mundo, casais, peritos e observadores, se falasse com liberdade e sem tabus. No relatório-síntese da primeira semana, é já possível antever o essencial dos novos caminhos, que, apesar das oposições, estão na linha pastoral de Francisco, que é a do Evangelho da alegria, antepondo a pessoa e a misericórdia ao dogma e à lei.
Claro que o ideal de família enquanto "escola de humanidade" continua a ser a união de amor fiel entre um homem e uma mulher por toda a vida e aberta à procriação. Mas a vida é o que é. E a Igreja reconhece a "urgência de novas opções pastorais" para as "famílias feridas". Haverá, pois, uma nova atitude face aos divorciados que voltaram a casar-se civilmente. O cardeal W. Kasper acaba aliás de declarar que uma "maioria crescente" do Sínodo é favorável à sua proposta de poderem aceder à comunhão. Por outro lado, entre as consequências da separação e do divórcio, sublinha-se, com razão, a necessidade de pensar nos filhos, que devem crescer do modo mais humano possível, não podendo, portanto, ser transformados num "objeto de contenda".
Há a valorização do casamento civil e da coabitação: "Uma nova dimensão da pastoral familiar atual consiste em captar a realidade dos casamentos civis e, com as devidas diferenças, também da coabitação ou uniões de facto. Na realidade, quando a união alcança uma notável estabilidade através de um vínculo público, está marcada por um afeto profundo, pela responsabilidade em relação aos filhos, com a capacidade de resistir às provas, podem ser vistos como um gérmen para acompanhar o desenvolvimento para o sacramento do matrimónio." Aliás, numa das intervenções, o geral dos jesuítas, Adolfo Nicolás, afirmou que "pode haver mais amor cristão numa união canonicamente irregular do que num casal casado pela Igreja"; assim, "a nossa tarefa é aproximar as pessoas da graça e não rejeitá-las com preceitos". Já antes, o Papa Francisco, constatando que "a juventude não se casa; é uma cultura da época; muitíssimos jovens preferem coabitar sem se casar", tinha perguntado: "Que deve a Igreja fazer? Expulsá-los do seu seio?"
Põe-se, inevitavelmente, a questão da contraceção dita artificial. Afinal, o que é natural e o que é artificial? Não pode o ser humano intervir racional e razoavelmente na natureza, que não é estática nem fixa?
Também a linguagem em relação à homossexualidade muda. "As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã. Estamos em condições de receber estas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade nas nossas comunidades?" E continua o documento: "A questão homossexual interpela-nos para uma reflexão séria sobre como elaborar caminhos realistas de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica integrando a dimensão sexual: portanto, apresenta-se como um importante desafio educativo." Mas, por outro lado, "a Igreja afirma que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas ao matrimónio entre um homem e uma mulher". Faço notar que, na terminologia eclesiástica, não se fala em casamento, que vem de casa, mas matrimónio, cujo étimo é matris, que é o genitivo de mater, mãe, o que quer dizer que, para a Igreja, o casamento está intimamente vinculado à possibilidade da procriação. No entanto, o texto refere que "a Igreja tem atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, reiterando que se deve pôr sempre em primeiro lugar as exigências e direitos dos mais pequenos".
Há ainda um longo caminho até à Exortação do Papa, com as decisões finais, em princípios de 2016. Entretanto, hoje ser-lhe-á entregue um relatório de trabalho desta assembleia, para o debate que continuará nas dioceses do mundo inteiro - outra vez W. Kasper: "Vivemos num mundo globalizado e não se pode governar tudo a partir da Cúria" -, até à nova assembleia sinodal, de 4 a 25 de outubro de 2015.

(Anselmo Borges)

publicado às 22:34


ESTOICISMO

por Thynus, em 16.10.14
 
No século IV a.C, a questão ética que preocupava os estóicos era como reagir à predominante sensação de fatalismo que brotava do fato de se viver num império rigidamente controlado. Eles não podiam fazer grandes mudanças em sua vida diária, então decidiram mudar de atitude quanto à vida em si. Era o único controle pessoal que lhes restava. O que os estóicos formularam foi uma estratégia de distanciamento emocional da vida. Chamavam essa atitude de apathia e, para os estóicos, a apatia era uma virtude, que os transformava em fonte de risos na taverna local. Os estóicos estavam dispostos a sacrificar alguns tipos de felicidade (sexo, drogas e hip-hop dionisíaco) a fim de evitar a infelicidade provocada por suas paixões (doenças sexualmente transmissíveis, ressacas e rimas ruins). Guiavam-se apenas pela razão, nunca pela paixão, e, portanto, consideravam-se as únicas pessoas realmente felizes - o que quer dizer que eram ininfelizes.
Na história abaixo, o Sr. Cooper demonstra uma forma moderna de estoicismo: o estoicismo por procuração.
O casal Cooper entrou no consultório do dentista, onde o Sr. Cooper deixou claro que estava com muita pressa.
- Sem muita frescura, doutor - mandou ele. - Não precisa anestesia nem nada. Arranque o dente de uma vez e vamos acabar logo com isso.
- Que bom seria se meus pacientes fossem estóicos como o senhor - disse o dentista, admirado. - Então, qual é o dente?
Sr. Cooper virou para a esposa e disse:
- Abra a boca, querida.
APATIA vem do grego APÁTHEIA formada a partir da partícula negativa A e PÁTHOS paixão, afeição. - Falta de paixões e, portanto, falta de acção para afazeres comuns; indiferença em relação a prazeres, honras, etc.
 
G.K. Chesterton uma vez escreveu: "A palavra 'bom' tem muitos sentidos. Por exemplo, se um homem matasse a mãe com um tiro a 500 metros de distância, eu diria que ele é um bom atirador, mas não necessariamente um bom homem." É o advérbio "necessariamente" que revela que Chesterton tinha uma mente verdadeiramente filosófica.

((Tom Cathcart e Daniel Klein - Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar...)

publicado às 23:40


Biosfera

por Thynus, em 15.10.14
A biosfera inclui todos os ecossistemas que estão presentes desde as altas montanhas (até 10.000 m de altura) até o fundo do mar (até cerca de 10.000 m de profundidade).
 
Nosso organismo, como a própria Terra, consiste em ecossistemas interligados. Para a ecologia, a "capacidade de sustentação" de um ambiente se refere ao número máximo de pessoas (ou de qualquer outra espécie) que um ambiente específico pode suportar antes de ocorrerem danos. Assim como os sistemas da Terra têm um limite que eles podem suportar antes de começar a se degradar e entrar em colapso, os sistemas no interior de nosso corpo têm um limite para o acúmulo de compostos estranhos acumulados antes de se transformarem em doença.
Nosso ecossistema orgânico envolve interações altamente complexas entre os genes e as substâncias químicas industriais às quais somos expostos por meio dos alimentos que ingerimos, do ar que respiramos e dos objetos que tocamos. Elas se mostram tão complexas que raramente somos capazes de estabelecer ligações específicas entre uma única substância química suspeita e um resultado biológico específico. Com algumas exceções, desconhecemos a consequência biológica exata da exposição a quantidades até mesmo mínimas de substâncias químicas sintéticas no dia a dia sobre o organismo humano.
A principal desvantagem de nos expormos a milhares de substâncias químicas sintetizadas consiste no fato de a natureza ser econômica, reutilizando uma dada estrutura molecular de inúmeras maneiras diferentes para diversos propósitos. Uma resina alcaloide secretada no ovário do broto de uma papoula imita as endorfinas no sistema opioide humano, a fim de criar um estado de entorpecimento. Um químico industrial pode valorizar um composto molecular que evita que as panelas grudem ou mata a erva-daninha no quintal, enquanto a natureza encontrará outras finalidades para esse mesmo composto assim que ele entrar na fábrica química altamente complexa em que consiste o organismo humano.
Tampouco isso leva em consideração o que acontece quando essas substâncias químicas são absorvidas pelo organismo de outras espécies. Os compostos feitos pelo homem que vão parar no solo, na água e no ar não desaparecem; misturam-se aos complexos ecossistemas da natureza dos quais os animais dependem. Fizemos uma série de descobertas sobre os danos causados por substâncias químicas produzidas pelo homem - dos pesticidas ao Prozac - nos sistemas naturais que invadem. Mesmo doses mínimas de algumas substâncias químicas podem ter efeitos colaterais jamais previstos. A promessa de uma vida melhor oferecida pela química pode se transformar no pesadelo da natureza.
Vejamos, por exemplo, todos aqueles medicamentos que costumamos ter em casa, no armário de remédios. As substâncias farmacêuticas são desenvolvidas especificamente para iniciar uma reação biológica precisa com doses extremamente baixas. Essas substâncias químicas se transformam em algo semelhante a projéteis biológicos quando acabam na natureza, seja através do esgoto ou pela infiltração dos depósitos de lixo.(Bethany Halford, "Side Effects", Chemical and Engineering News, 25 de fevereiro de 2008, pp. 13-17) Doses mínimas de uma forma sintética de estrogênio encontrado em anticoncepcionais orais "feminilizam" peixes machos; cientistas que colocaram um pouco do composto químico em um lago canadense descobriram que alguns dos peixes machos deixaram de produzir esperma e passaram a produzir óvulos. Em três anos, os peixes haviam desaparecido e o número de trutas do lago que se alimentavam deles diminuíra quase 30%.(Karen A. Kidd et al., "Collapse of a Fish Population After Exposure to a Sy nthetic Estrogen", Proceedings of the National Academy of Science 104 (2007): 8897-8901. Muito embora o organismo humano secrete esses compostos de estrogênio sob a forma de um metabólito, nas estações de tratamento de águas residuais as bactérias se ligam ao metabólito para recriar o composto original)
Quanto mais a ciência avança em sua capacidade de detectar perigos ainda mais sutis dos efeitos colaterais das substâncias feitas pelo homem, mais a lista cresce. Os geneticistas que estudam as bactérias do solo e dos lagos afirmam que o uso maciço de antibióticos gera inadvertidamente germes que resistem a esses próprios antibióticos - e, quanto mais usamos, mais essas bactérias resistentes aos antibióticos se espalham na natureza. Embora matem uma bactéria específica, os antibióticos também favorecem a difusão das combinações de DNA imunes a seus efeitos; essas cepas resistentes acabam trocando seus genes com outras bactérias, que adquirem sua imunidade. Os mais de 11 milhões de quilos de antibióticos usados na engorda acelerada de ovelhas e vacas - barateando sua comercialização - acabam gerando enormes quantidades de bactérias que resistem a esses próprios antibióticos animais. Qualquer pessoa que tome antibióticos ou use sabonetes antibióticos contribui para o problema.
Essa é apenas uma das inúmeras maneiras como as substâncias químicas industriais interferem na natureza. Eis uma lista da longa relação de avaliações da Análise do Ciclo de Vida de como os compostos químicos afetam nossa saúde ou a biosfera:
•O impacto do câncer avalia um processo ou composto químico industrial em termos dos caminhos esperados dos carcinógenos despejados no meio ambiente, sua persistência depois que estão ali presentes, a probabilidade de exposição humana a eles, a potência cancerígena de cada composto químico e exatamente onde, na cadeia de suprimentos, todos esses impactos cancerígenos têm origem. Para 116 substâncias químicas altamente tóxicas liberadas no ar pelos processos industriais nos Estados Unidos ao longo de um ano, os cientistas ambientais calculam a ocorrência de 260 casos de câncer a mais por US$1 milhão de produção industrial envolvendo essas substâncias; os principais culpados foram os compostos aromáticos policiclícos liberados na produção do alumínio e as dioxinas liberadas pelas fábricas de cimento.
•Os anos de vida ajustados por incapacidade (DALY - Disability Adjusted Life Years) mede a quantidade de vida saudável perdida devido aos impactos de emissões de toxinas, carcinógenos etc. Isso pode ser calculado mesmo para quantidades mínimas de uma substância e traduzido em sua contribuição para a incidência crescente de câncer infantil ou de enfisema para as pessoas afetadas. A unidade básica, um DALY, representa a perda de um ano de saúde plena.
•A perda de biodiversidade refere-se ao grau de extinção de espécies causado por um processo ou uma substância específica. Tecnicamente medida como uma "fração potencialmente danificada", permite calcular quanto a liberação de uma substância química específica poderia reduzir um ecossistema, acelerando o declínio de plantas ou animais.
•A toxicidade personificada calcula quantas substâncias químicas problemáticas são dispostas na natureza durante o ciclo de vida do produto. Para uma cortina de chuveiro de PVC (polivinil clorado), temos de calcular o petróleo extraído e processado e o cloro acrescentado para a produção do polivinil clorado - rico em carcinógenos -, do qual a cortina do chuveiro é feita. Assim, quando usamos a cortina, há as emissões de gases do ftalatos que se misturam para deixar a cortina maleável à medida que suas moléculas vão se dissolvendo no ar. Quando uma cortina de chuveiro finalmente termina seus dias em um lixão, libera lentamente o gás cloro. Entretanto, o maior perigo de uma cortina de chuveiro para a vida humana afeta os operários durante sua produção ou decorre do cloro liberado quando ela for incinerada em um lixão. A toxicidade geral da cortina considera todos esses fatores ocultos durante o ciclo de vida do produto. A toxicidade incorporada remodela o que há muito consideramos "riscos profissionais" - como o risco aumentado de doença de Parkinson entre os soldadores em decorrência da inalação de fumaça de manganês - como problemas de consumo.
Gregory Norris nos adverte contra a mentalidade do tipo "ou tudo ou nada" a respeito desses impactos, lembrando-nos de que "tudo está conectado". Precisamos entender, diz ele, "que o ciclo de vida de todo produto está ligado à liberação de, pelo menos, quantidades-traço de poluentes em algum ponto da cadeia de suprimentos". Portanto, a pergunta a ser feita torna-se quantitativa: quanto de qual poluente é liberado e como podemos reduzir, da maneira mais eficaz, essas emissões? Uma vez que toda a cadeia de suprimentos causa tantos impactos, não podemos mais ignorar a mudança climática, a destruição dos habitats, as substâncias químicas liberadas ou incorporadas ou as condições dos trabalhadores - tampouco podemos nos concentrar exclusivamente em uma delas.

(Daniel Goleman - Inteligência Ecológica)

Os ecossistemas são unidades funcionais básicas em que os componentes bióticos e abióticos interagem e estão inseparavelmente relacionados.

publicado às 02:00


É das louras que eles gostam mais

por Thynus, em 14.10.14
 
Se a pessoa nunca cortasse o cabelo, ele atingiria cerca de um metro de comprimento. As louras têm 140 mil fios de cabelo, as morenas 110 mil e as ruivas 90 mil. As louras também estão na frente em outras coisas. Mulheres de cabelo louro têm um nível de estrogênio mais alto que as morenas, algo que só os homens parecem perceber. Eles o interpretam como sinal de fertilidade, o que imediatamente os atrai - será este o verdadeiro motivo do sucesso maior das louras? O cabelo louro é também um poderoso indicador visual da juventude da mulher: ele escurece depois que ela dá à luz, e as louras genuínas têm pelos púbicos também louros.
Fizemos uma pesquisa com 5.214 homens britânicos, perguntando que tipo de cabelo lhes parecia sexualmente mais atraente nas mulheres. O resultado era previsível: 74% acham as mulheres de cabelos compridos sexualmente mais atraentes; 12% preferem mulheres de cabelo curto; o restante não tem preferência. Em épocas remotas, cabelos longos e brilhantes indicavam um corpo saudável e bem nutrido e contavam o histórico de saúde de sua portadora e seu potencial para a procriação. Considerava-se que o cabelo comprido dava à mulher um encanto sensual e que o cabelo curto indicava um enfoque mais sério da vida. As lições a serem aprendidas aqui são claras: a mulher deve usar cabelo comprido quando quer atrair os homens e cabelo curto ou puxado para trás em reuniões de trabalho. Nos negócios, uma aparência sensual pode ser desvantajosa para a mulher em posição de poder ou num ramo onde predominam os homens.

(Bárbara & Allan Pease - Por que os homens mentem E as Mulheres choram?)

publicado às 22:57


A Sombra Inconsciente

por Thynus, em 13.10.14
Quando deres um donativo, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita...
(MT. 6,2-3)
 

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 A pergunta à qual nenhum de nós tem resposta é: o que guardamos no nosso subconsciente?
Por definição, jamais poderemos saber o que permanece inconsciente. Ou seja, não conhecemos algo que nos conhece a nós. E, muito pior, aquilo que não conhecemos sobre nós persiste e infiltra-se subtilmente nos nossos valores e escolhas.
Uma das formas de começarmos a reconhecer a nossa Sombra é a forma como muito prontamente racionalizamos ou justificamos as nossas atitudes, comportamentos e escolhas. É-nos tão fácil criticar outros indivíduos, ou grupos de indivíduos. É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não seja para que a nossa Sombra absorva mais daquele sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos semabrigo abandonam os mesmos em muito pouco tempo. Sem se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não têm necessidade de se sentirem superiores. É claro que é importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos. Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou que valem enquanto seres humanos. Este motivo irá alimentar a sombra e criar projecções monstruosas. Mas fazê-lo pelo simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem esperar algo em troca, aí vale a pena.
Se você está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros que está neste projecto é preferível que o abandone imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra. Mas se o trabalho que faz passa despercebido, se não sente necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então continue! Está a prestar um óptimo serviço.
A sombra inconsciente manifesta-se de muitas maneiras. Quando contamos uma anedota sobre os Alentejanos. Ou quando criticamos os produtos das lojas Chinesas. Ou quando manifestamos a nossa veemente oposição a um político. Ou temos pena da família que sofre a tortura de um patriarca alcoólico. Quando lemos meia dúzia de livros de auto-ajuda e acreditamos ter a resposta para os problemas dos nossos amigos (alguma vez se ouviu a dizer “Se ela fizesse as coisas como eu lhe tinha dito...”). Ou, entre as pessoas ‘espirituais’: “O meu mestre disse que o melhor era...”
A Sombra inconsciente leva-nos a procurar a nossa espiritualidade em muitos lugares, excepto naquele onde sempre esteve: dentro de nós.
Mantenha sempre presente que a complexidade do universo, assim como a complexidade das nossas vidas, nunca será completamente compreendida nem revelada. Mas nós podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem somos e o que queremos. E criamos um conjunto de situações problemáticas no processo de tentar compreender tudo à nossa volta. E o nosso problema é apenas um: não aceitar Aquilo Que É.
A nossa Sombra contém tudo aquilo que nos causa preocupações, aquilo que é estranho ao ideal do ego, tudo o que é contrário aquilo que desejamos que os outros pensem de nós. Tudo aquilo que ameaça criar instabilidade no ambiente ‘seguro’ que nos esforçamos tanto por criar.
Da mesma maneira que o ego é formado a partir dos pedaços quebrados de muitas experiências, assim também é ameaçado pelo seu próprio lado mais escuro. Tudo o que contradiga o ego é uma ameaça. A Sombra é a maior ameaça ao nosso ego. E o perigo verdadeiro surge quando esta  Sombra começa a ter mais energia do que o próprio ego. Eventualmente irá tomar posse dele.
Por este motivo, este sentimento de ameaça desconhecida, é que o nosso ego não sabe nada sobre a sua sombra. A sombra é inconsciente. Será que os peixes sabem que nadam na água? Não creio. São um com o elemento que os rodeia. Será que o ego sabe que nada num mar de contradições que competem por atenção? Raramente.
Quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes (ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros? Quem é capaz de admitir que por vezes dá aos amigos os conselhos que o próprio precisa urgentemente de colocar em prática? Quem é capaz de admitir que por vezes tem inveja de um amigo? A nossa sombra tem uma agenda diferente da do nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos.
Quem, de entre nós, não se sente por vezes necessitado, vaidoso, narcisista, hostil, dependente ou manipulativo?
Pergunto-me se as esposas dos grandes homens da História seriam felizes partilhando as suas camas com amantes poderosas como eram as causas dos seus maridos.
Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o farão movidas apenas por uma enorme insatisfação, depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos aqueles que expressamos conscientemente, ou será uma forma muito profunda de honestidade?
Será que uma pessoa foi ‘santa’ porque sacrificou a sua viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida? E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo?
Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a lado com uma vida interior carregada de sentimentos torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada, apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa mascarar uma sombra poderosa?
Para responder à questão anterior basta olharmos para qualquer noticiário. O padre acusado de pedofilia, o líder político acusado de corrupção, o bom samaritano que bate nos filhos. Não podemos cair na tentação de subestimar o poder da sombra do ser humano.
Será que o fundamentalista que tenta desesperadamente converter todos à sua ideologia está convencido que isto é para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e dúvidas existenciais?
Um autor que muito admiro, Nicholas Mosley, afirma que “pessoas como os católicos ou islamitas, são-no muito mais para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio emocional num mundo conturbado, do que por motivos de escolha feita depois de uma busca da verdade e significado na vida”. E lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e da integridade individual! Repare ainda que este tipo de questão levanta de imediato, em muitas pessoas, um sentimento de ofensa. Naturalmente lutamos para defender os nossos valores morais (mesmo que nunca tenham sido nossos). Ao defendermos as nossas escolhas, justificandonos por cada decisão, estamos a dar poder à sombra. Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser defendida.
E mesmo assim, e porque a sombra se mantém inconsciente, longe da nossa vista, em oceanos demasiado profundos para nos atrevermos a mergulhar, não compreendemos como é que ela brinca com as nossas vidas. E onde é que está a nossa rectidão? Será que a humanidade é inerentemente boa? Seremos pessoas boas apenas porque a nossa cultura nos criou assim? Será que é possível existir a bondade sem o seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de muitos anos, não pode tornar-se numa força demoníaca? Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço.
Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos, rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E contudo, na altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de todos, com a melhor das intenções. Fazer um levantamento da nossa história pessoal é o primeiro passo para reconhecer aquilo que permanece no inconsciente: a presença e actividade da nossa sombra.
Quem, de entre nós, poderá afirmar: “Eu estou consciente da vida do meu inconsciente?”
O que permanece no inconsciente é como um segundo governo, ou governo-sombra, capaz de a qualquer momento destruir toda uma vida, assim como a vida daqueles que mais ama.

(Emídio Carvalho - A Sombra Humana, O Resgate Do Ser Humano Completo)

 
 
 

publicado às 23:48


Feminismo

por Thynus, em 12.10.14
De maneira ampla, o feminismo pode ser definido como um longo processo não terminado de transformação da relação entre os gêneros. Um processo com raízes que se estendem desde o passado remoto até o presente. Por outro lado, o feminismo também pode ser apresentado como o discurso de busca de igualdade entre os sexos, e como tal já podia ser encontrado, por exemplo, na obra A cidade das mulheres, de Christine de Pisan, escritora francesa do século xiv que apresentava um discurso articulado e consciente em defesa dos direitos da mulher e da igualdade entre os sexos.
Todavia, se queremos definir o feminismo como movimento de massas, ele é um fenômeno bastante contemporâneo, que pode ser datado em torno das décadas de 1960-70, no mundo ocidental. Esse feminismo contemporâneo surgiu em um contexto no qual emergiram diversos movimentos de libertação denunciando a existência de vários tipos de opressão. Movimentos pelos Direitos Civis, pela igualdade racial, ecologistas, movimentos de homossexuais e de mulheres surgiram, então, como forma de pensar a opressão de modo mais amplo do que a partir da ideia de luta de classes, até então o fundamento das principais críticas à desigualdade social. Cada vez mais esses grupos foram percebendo que suas vidas estavam carregadas de estigmas e preconceitos, bem como que seus objetivos políticos nem sempre se confundiam com os objetivos do operariado, então considerado a classe social que seria a vanguarda de uma nova forma de organização social, o Socialismo. Foi nesse contexto que as mulheres começaram a perceber que o sexo é político, ou seja, que é permeado por relações de poder e de hierarquia, e essa situação (marcada pela desigualdade) continuaria a existir mesmo em um regime no qual inexistisse a luta de classes. Com o afloramento dessa consciência a partir dos anos 1960, nos Estados Unidos, surgiu o movimento feminista, que assumiu e criou uma identidade coletiva de mulheres como indivíduos do sexo feminino, possuidoras de interesses compartilhados: o fim da subordinação aos homens, da invisibilidade e da impotência, a defesa do direito de igualdade e de controle sobre seu corpo e sobre sua vida.
O principal objetivo das feministas era superar o autoritarismo e a desigualdade entre homens e mulheres nas relações pessoais, mas se preocuparam também com o entrelaçamento das relações pessoais com a organização política pública. Ou seja, a opressão de poder que se dava no âmbito privado não podia ser isolada de uma ação política pública mais abrangente: a luta por direitos de cidadania para todos, por exemplo. Assim, foram sendo organizados grupos de reflexão nos quais as mulheres compartilhavam suas agruras, e o que antes parecia um problema individual tornava-se coletivo.
O fato é que, desde a Independência dos EUA e a Revolução Francesa, no final do século xviii, as ideias de igualdade natural e de direitos inalienáveis do homem e do cidadão constituíram o arcabouço dos Estados liberais modernos. Princípios supostamente universais e racionais deveriam reger a criação das leis, no sentido de se dividir o poder e evitar a tirania. Mas os códigos de leis emanados desses dois movimentos revolucionários, ao mencionarem a igualdade supostamente universal de “todos os homens”, não incluíram as mulheres, negando-lhes, assim, a cidadania política. A França e os Estados Unidos após o século xviii, apesar de entrarem para a história ocidental como baluartes da liberdade, mantiveram as mulheres distantes dos direitos que tanto orgulhavam seus líderes. Não eram sequer cidadãs de segunda categoria, simplesmente não eram cidadãs. Vale lembrar que a França foi o último país da Europa a introduzir o voto feminino, e isso apenas em 1944. Essas contradições não passaram despercebidas pelas mulheres que viveram esses movimentos. Muitas delas, como Olympe de Gouges, exigiram, já na Revolução Francesa, que os direitos “naturais” fossem estendidos à parte feminina da humanidade.
Assim, uma das principais demandas feministas foi o direito de votar e ser votada. As mulheres pleiteavam, dessa forma, os direitos políticos e a cidadania. Por essa razão, o movimento feminista, durante muito tempo, se confundiu com o movimento sufragista, este um movimento de mulheres que reivindicava especificamente o direito das mulheres ao voto. Como indicam Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy, o sufragismo teve início nos Estados Unidos por volta de 1848, logo se estabelecendo também na Inglaterra. Tanto nos eua quanto na Inglaterra, o sufragismo foi um movimento de massas. As chamadas suffragettes, feministas inglesas radicais, ficaram famosas por fazerem uso da violência como forma de alcançar seus objetivos, tendo lutado por mais de seis décadas até conseguirem, em 1928, o direito ao voto.
Uma das principais marcas do feminismo era a resistência ao ridículo com que foi tratado. Muitas mulheres foram consideradas “masculinas demais” apenas por defenderem igualdade de direitos e atuarem na esfera dita “masculina”, ou seja, a política. Outras, como Virginia Woolf, tiveram de defender vigorosamente o status intelectual da mulher diante de homens que insistiam em reforçar a tese da inferioridade intelectual da mulher na década de 1920.
No Brasil, somente no final do século xix, as pioneiras do feminismo pleitearam o direito ao voto. As primeiras reivindicações foram feitas por meio de jornais, entre as décadas de 1860-90; em linguagem moderada, exigiam educação de qualidade para as mulheres, para que pudessem ser “boas mães” e “companheiras”. No final do século xix, entretanto, o voto já era uma demanda das brasileiras de classe alta e média alta. Mas, no Brasil, o feminismo não chegou a ser um movimento de massas, pelo menos até 1940, e nesse período não incluía mulheres pobres e trabalhadoras. O movimento sufragista brasileiro teve, assim, um perfil elitista. Além disso, seu caráter moderado contrastou com o inglês. Em geral de classe média alta, e com vínculos com os grupos dominantes, as feministas brasileiras optaram por um feminismo relativamente inexpressivo ideologicamente. Por outro lado, foi suficientemente organizado para convencer os extratos dominantes. Nesse sentido, sobressaiu-se Bertha Lutz, uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.Em 1932, a Federação e outras organizações feministas brasileiras alcançaram seu objetivo, e a Constituição de 1934 referendou o direito da mulher ao voto.
Atualmente, o feminismo não pode mais ser definido apenas pelo sufragismo, pois o voto já configura uma conquista. Mas muitos outros problemas ainda precisam ser discutidos, sobretudo os ligados aos hábitos arraigados na cultura machista: sexualidade e violência, saúde e reprodução e divisão de papéis no próprio lar (responsabilidades domésticas), entre outros. Pesquisas recentes sobre o mercado de trabalho no Brasil e sobre a violência contra a mulher, por exemplo, indicam que, apesar de algumas conquistas, velhas demandas ainda persistem. A socióloga Cristina Bruschini demonstrou que, apesar do aumento da presença feminina no mercado de trabalho, as mulheres em geral ocupam empregos tradicionalmente “femininos” (setores de serviços e setores informais), sofrem com a desigualdade salarial em relação aos homens, e precisam fazer grande esforço para articular os papéis familiar e profissional, uma vez que sobre elas continuam a recair as responsabilidades domésticas. Do mesmo modo, apesar de muitas mulheres estarem inseridas no mercado de trabalho (uma conquista feminina), as relações de gênero não mudaram muito, uma vez que homens (muitas vezes maridos desempregados) costumam usar da violência contra suas mulheres, demonstrando assim sua frustração por não exercer o antigo papel de provedor do lar. Ou seja, o feminismo ainda tem muito pelo que lutar, e isso fica mais evidente quando vemos muitos países implantando ações afirmativas para garantir a presença feminina, seja em postos de trabalho bastante masculinizados, seja para garantir seu espaço nos cargos do poder político formal.
Uma amostra de como o feminismo é um processo permanente de lutas e tensões é o fato de as mulheres, nas décadas de 1960 e 1970, mesmo após o reconhecimento legal de seu ingresso nas universidades, ainda terem de lutar por espaços nessas instituições – espaços até então masculinos por excelência. Homens de mentalidade tradicional acusavam a produção intelectual feminina de ser “política” e não “profissional”. Os historiadores norte-americanos, por exemplo, ressentidos por terem de dividir os espaços da academia com as mulheres, entrincheiravam-se na defesa de uma suposta neutralidade do saber histórico em oposição ao caráter “ideológico” da produção de historiadoras feministas. Durante muito tempo, mulheres, negros, judeus, católicos e “não cavalheiros”, como diz Joan Scott, foram sistematicamente sub-representados na Associação Histórica Americana (aha). O mesmo aconteceu na França, como apontou a historiadora francesa Michelle Perrot, país onde a História é uma disciplina muito prestigiada e, exatamente por isso, muito masculina.
Aqui entramos em outra discussão: a relação entre o feminismo e a História das mulheres. Em primeiro lugar, a História das mulheres emergiu atrelada à explosão do feminismo, como indica Mary Del Priore. Foram as feministas, antes dos historiadores, que perceberam o esquecimento que a História até então produzida devotava às mulheres. Elas eram ideologicamente identificadas com o objeto de estudo. As feministas fizeram da produção histórica outra arena de luta para resgatar seu passado e identificar o porquê da dominação masculina. A memória coletiva havia “esquecido” as mulheres como agentes da história, e era preciso, particularmente nos anos 1970, mostrar suas lutas, suas resistências, vitórias desconhecidas, humilhações. Esse resgate inspirou a prática política. Mas, aos poucos, a História das mulheres foi se afastando da política, ampliando seus questionamentos, ganhando legitimidade e rigor teórico. Finalmente, já na década de 1980, rompeu definitivamente com a política a partir da emergência da categoria de análise Gênero. Joan Scott descreve o percurso: do feminismo à História das mulheres, e desta para o gênero; ou da política para a História especializada, e desta para a análise. Mas, segundo Scott, o feminismo continua presente até hoje, seja na academia, seja na sociedade, e muitas pessoas que usam o termo gênero se definem como feministas. Além disso, a História das mulheres carrega de seu passado feminista a herança, positiva, em nosso entender, de ser um campo inevitavelmente político. Joan Scott, por exemplo, uma das principais defensoras da aplicação da categoria gênero, busca demonstrar que essa categoria guarda estreita ligação com as relações de poder entre os sexos.
Na sala de aula, a relação entre os gêneros é um tema pouco abordado. É preciso sensibilidade e coragem para lidar com o feminismo com alunos e alunas cujas famílias, muitas vezes, ainda adotam comportamentos tradicionais, sobretudo no que se refere à divisão de tarefas no lar, como a responsabilidade com os filhos e os serviços domésticos. Além disso, muitos livros didáticos ainda abordam superficialmente a História das mulheres e a relação entre os gêneros na história, e é preciso que o profissional busque outros recursos para empreender uma discussão satisfatória. Uma estratégia é fazermos a relação passado/presente. Mas precisamos nos precaver ao estudarmos o feminismo e suas lutas, mostrando quais os direitos hoje consolidados foram conquistas do movimento feminista. Por outro lado, precisamos sempre tentar incluir as mulheres como objeto de estudo em todos os períodos históricos trabalhados com os alunos: quais as condições das mulheres no Egito Antigo? No Brasil Colonial? Na Idade Média? Essa abordagem evita que releguemos às mulheres a uma História marginal, como se elas não fizessem parte do processo histórico como um todo. Para tal abordagem, professores e professoras podem encontrar uma diversidade de recursos, desde livros didáticos até longasmetragens e documentários sobre as mulheres em diferentes períodos históricos. Tais recursos podem incluir desde músicas até filmes. Mas é preciso também não transmitir a sensação de “progresso” na condição feminina. Ou seja, não dar a entender que estamos vivendo no melhor dos mundos e que, por isso, não precisamos fazer nada mais para mudar a relação entre mulheres e homens em nosso cotidiano.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - Dicionário de Conceitos Históricos)

publicado às 23:04



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