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Paradoxo da revolução

por Thynus, em 29.09.14
O martírio era o meio mais seguro de os cristãos irem para os céus, mas com a oficialização do cristianismo não houve mais martírio e, então, os cristãos o substituíram pelo autoflagelo, o autossuplício. Depois, para tornar menos sacrificada a vida dos cristãos, o auto-flagelo foi substituído pela penitência, dando origem ao confessionário. Esse medo do Inferno levou os papas a criarem as indulgências e, desse modo, arrecadar dinheiro para construir o Vaticano e enriquecer bispados.
A. J. BARROS - O ENIGMA DE COMPOSTELA

A respeito do comércio das indulgências, ainda praticado no Vaticano,
citemos a resolução do Concilio de Trento 

(Chemnitz Examen Concilii Tridentini):
"Aqueles que compram cartas de indulgência podem
ficar certos da sua salvação; as almas que estão no purgatório,
pela redenção das quais se adquirem as indulgências, logo que

o dinheiro caia no cofre, escapam-se do lugar do tormento e sobem ao céu.”
“A eficácia das indulgências é tão grande que elas
podem apagar os mais monstruosos crimes, inclusive o da
violação da própria Virgem Maria se tal fosse possível" (!!!!!).
Felizmente, Jesus, os apóstolos e a própria Virgem Maria não leram essa
bula porque estavam distraídos com os cânticos celestiais.
Não há no mundo religião ou culto por mais estrambólico que faça do seu
altar tão vergonhoso balcão.
A Igreja Romana vende o perdão que o próprio Jesus pagou com seu
sangue, vende a moral social e seus preceitos, vende os méritos do sangue dos
justos, vende o direito de infringir as regras da moral, vende a justiça de Deus, de
que ela proclama a eqüidade, vende o reino dos céus aos pedaços, por meio do qual
Jesus fechou a corrupção dos ricos e cujas chaves, em vez de abrir suas portas,
abrem as dos vícios vomitados pelo seu inferno, vende chapéus cardinalícios,
púrpuras, mitras e a própria tiara pontificai, vende relíquias de santos, coroas
imperiais e fachadas presidenciais, resgata almas do purgatório por pouco preço e
por muito dinheiro conseguiria tirar do inferno o maior celerado.
Entre Deus e o adepto está erguida a Igreja Católica que, por isso
mesmo, ofusca Deus ao crente.

A. Leterre - A Vida oculta e mística de Jesus

A igreja católica teve no século XV o auge da sua exploração na Europa, quando até nos reis queria mandar. Vendiam indulgências (perdão pelos pecados) por verdadeiras fortunas, e mandavam matar pela “inquisição” aqueles que se manifestassem contrários à sua fé, exatamente como faz o Islã, hoje.
Alfredo Bernacchi - Ateu graças a Deus

 

 

O trabalho mais conhecido de Johannes Gutenberg é sua Bíblia de 42 linhas, um exemplo espetacularmente bonito do início da história da impressão. Mas esse não foi seu primeiro nem seu mais volumoso trabalho. (Ele imprimiu menos de duzentas cópias.) Essa honra fica mesmo com a impressão de indulgências.
Uma indulgência, na teologia católica, é uma forma de reduzir o tempo que uma pessoa passa no purgatório por pecados que já foram perdoados. Pecar, acreditam os católicos, aumenta o tempo pós-morte que você precisa esperar até ingressar no Paraíso. Indulgências são uma forma de reduzir essa espera, e a maneira de consegui-las é fazer doações à Igreja. A prática era vista com desconfiança em alguns círculos teológicos como uma troca de valor que parecia perigosamente muito próxima da compra, mas, enquanto a prática foi permitida, o desejo daqueles que as concediam e dos que as recebiam também existiu.
Na época de Gutenberg, uma indulgência era o registro escrito de uma transação, que também funcionava como um tipo de promissória que validava o futuro de seu portador. A Igreja delegava a determinadas pessoas o direito de reproduzir indulgências e coletar dinheiro em seu nome; o copista recebia pelo trabalho um percentual do valor da transação. (“O vendedor de indulgências” de Geoffrey Chaucer, é contado por um desses copistas.)
Entretanto, a renda das indulgências era limitada pela velocidade com que podiam ser escritas à mão. O resultado era um desequilíbrio entre oferta e demanda; o mundo queria mais indulgências do que a Igreja podia fornecer.
Entra Gutenberg. Consegue um empréstimo para começar o negócio de imprimir indulgências, (A Biblioteca Britânica discute a impressão de indulgências por Gutenberg em sua documentação da Bíblia de Gutenberg: http://www.bl.uk/treasures/gutenberg/indulgences.html (acessado em 9 de janeiro de 2010)) e assim consegue aumentar drasticamente a oferta, expandindo tanto o mercado quanto sua própria fatia. Ele imprimiu indulgências, provavelmente aos milhares (poucas sobreviveram) antes de imprimir a Bíblia. (Uma fonte sugere que ele teve que imprimir suas primeiras Bíblias em segredo, pois já havia assegurado o empréstimo para o trabalho muito mais lucrativo das indulgências.) Se você visse a loja de Gutenberg em 1450, quando seu produto eram indulgências e Bíblias, poderia pensar que a prensa tipográfica foi feita sob medida para fortalecer a posição econômica e política da Igreja. E então algo engraçado aconteceu: o oposto.
A prensa de Gutenberg inundou o mercado. No começo de 1500, John Tetzel, o maior comerciante de indulgências dos territórios germânicos, costumava entrar numa cidade com uma coleção de indulgências já impressas, lançando-as com uma frase normalmente traduzida como “Quando nova moeda o cofre desce / Outra alma no Céu se enobrece” (O lugar de Tetzel na história foi amplamente garantido pelas objeções de Martinho Lutero às indulgências em 1517, mas seu nome reapareceu há pouco tempo, quando a Igreja católica trouxe de volta as indulgências em 2008; discutindo essa mudança, John Allen faz referência à frase de Tetzel no blog Room for Debate, http://roomfordebate.blogs.nytimes.com/2009/02/13/sin-and-its-indulgences (acessado em 7 de janeiro de 2010). O explícito aspecto comercial das indulgências, entre outras coisas, enfurecia Martinho Lutero, que em 1517 lançou um ataque à Igreja na forma de suas Noventa e cinco teses. Ele primeiro pregou as teses na porta de uma igreja em Wittenberg, mas algumas cópias logo foram feitas e amplamente disseminadas. A crítica de Lutero, junto com a difusão de Bíblias traduzidas em línguas locais, levou à Reforma Protestante, jogando a Igreja (e a Europa) numa crise.
A ferramenta que parecia destinada a fortalecer a estrutura social da época, em vez disso, acabou com ela. Do ponto de vista de 1450, a nova tecnologia parecia não fazer nada além de oferecer à sociedade da época uma forma mais rápida e barata de fazer o que já era feito. Em 1550, ficou evidente que o volume de indulgências tinha corrompido seu valor, criando uma “inflação de indulgências” – mais uma prova de que para uma sociedade a abundância pode ser um problema mais difícil de lidar, do que a escassez. Da mesma maneira, a difusão de Bíblias não era um caso de mais do mesmo, e sim de mais e melhor – o número de Bíblias produzidas aumentou a quantidade de tipos de Bíblia produzidos, com Bíblias baratas traduzidas em línguas locais enfraquecendo o monopólio interpretativo do clero, já que agora os fiéis podiam ouvir o que o livro dizia em sua própria língua, e cidadãos alfabetizados podiam lê-lo por conta própria, sem padres por perto. Em meados do século, a Reforma Protestante de Lutero havia prevalecido, e o papel da Igreja como força econômica, cultural, intelectual e religiosa pan-europeia chegava ao fim.
Esse é o paradoxo da revolução. Quanto maior a oportunidade oferecida pelas novas ferramentas, menos completamente alguém consegue projetar o futuro a partir da formação anterior da sociedade. Também é assim atualmente. As ferramentas de comunicação que temos agora, que apenas uma década atrás pareciam oferecer uma melhora no panorama da mídia do século XX, agora o estão desgastando rapidamente. Uma sociedade em que todo mundo tem algum tipo de acesso à esfera pública é diferente daquele tipo de sociedade em que os cidadãos se relacionam com a mídia como meros consumidores.
O começo da revolução da imprensa também nos faz lembrar que, no início da difusão de uma nova ferramenta, é muito cedo para dizer como (e onde e quanto) a sociedade vai mudar por causa de seu uso. Grandes mudanças podem ser lentas. Depois da distribuição inicial de indulgências, o volume maior de sua produção reduziu drasticamente seu valor. As mudanças pequenas podem se espalhar. As Noventa e cinco teses, pregadas numa única porta, foram reimpressas, traduzidas e outra vez reimpressas, espalhando-se amplamente. O que parece ameaçar a uniformidade, na verdade, cria diversidade. Como diz Elizabeth Eisenstein em The Printing Press as an Agent of Change, observadores da primeira cultura da impressão presumiram que a abundância de livros significaria mais pessoas lendo os mesmos poucos textos. (Elizabeth Eisenstein, The Printing Press as an Agent of Change: Communications and Cultural Transformations in Early-Modern Europe (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1980). A imprensa parecia oferecer (ou ameaçar, dependendo do seu ponto de vista) um incremento da monocultura, já que um pequeno grupo de livros se tornaria o patrimônio literário compartilhado de um continente inteiro. Tal como aconteceu, a imprensa acabou enfraquecendo, em vez de fortalecer, a cultura intelectual mais antiga. Como cada leitor tinha acesso a mais livros, o resultado foi a diversidade intelectual, e não a uniformidade. Esse aumento na diversidade de fontes corroeu a fé nas instituições antigas. Quando um estudioso foi capaz de ler Aristóteles e Galeno lado a lado e ver que as duas fontes eram conflitantes, isso corroeu a fé inercial nos antigos. Se não podia confiar em Aristóteles, em quem você poderia confiar?
As mudanças de hoje têm algo daquele sentimento. Quando o público geral começou a usar redes digitais, a ideia de que todo mundo iria contribuir com alguma coisa para a esfera pública foi considerada contraditória à natureza humana (leia-se: comportamentos casuais do século XX). E, ainda assim, nosso desejo de nos comunicarmos uns com os outros se tornou um dos traços mais estáveis do ambiente atual. O uso de ferramentas que apoiam a expressão pública se transformou de pequeno em grande no espaço de uma década. O que parecia um novo canal para a mídia tradicional está na verdade mudando-a; o que parecia ameaçar a uniformidade cultural está na verdade criando diversidade.

 

A maioria dos adultos do mundo de hoje usa redes digitais, por computador ou telefone, e a maioria só começou a fazer isso na última década. Observadores da sociedade tiveram uma oportunidade sem precedentes de examinar o comportamento das pessoas em torno da adoção de ferramentas digitais, e o resultado é exatamente o que você esperaria do aparecimento de um novo e estranho meio: nós somos absolutamente terríveis em prever nosso próprio comportamento futuro. Pesquisa após pesquisa, na década de 1990, perguntou a usuários potenciais o que eles fariam com a internet caso tivessem acesso a ela, e as respostas mais comuns eram do tipo “Vou usá-la para achar informação”, “Vou usá-la para me ajudar com meus deveres da escola”, e por aí vai. Quando uma pesquisa perguntava a pessoas que já estavam on-line o que elas realmente faziam, as respostas eram muito diferentes. “Saber dos amigos e da família”, “Compartilhar fotos com os outros”, “Conversar com pessoas que têm os mesmos interesses que eu” e coisas assim apareciam no topo de toda lista. Como somos péssimos em prever o que vamos fazer com novas ferramentas de comunicação antes que as tentemos usar, essa revolução particular, assim como a da imprensa, está sendo conduzida por uma soma de experiências cujas ramificações nunca são claras à primeira vista.
Consequentemente, criar o valor máximo a partir de uma ferramenta envolve não planos magistrais ou grandes saltos à frente, e sim constantes tentativas e erros. A questão principal para qualquer sociedade que esteja passando por essa mudança é como extrair o máximo desse processo.
A possibilidade de compartilhamento em larga escala – o compartilhamento maciço e contínuo entre vários grupos formados a partir de um total potencial de 2 bilhões de pessoas – já está se manifestando em muitos lugares, desde a globalização da caridade à lógica da educação superior e à condução de pesquisas médicas. A oportunidade que nós coletivamente compartilhamos, no entanto, é muito maior do que possa exprimir um livro cheio de exemplos, porque esses exemplos, sobretudo os que envolvem uma ruptura cultural significativa, poderiam acabar sendo casos especiais. Como em revoluções prévias impulsionadas pela tecnologia – seja o surgimento de uma cultura alfabetizada e científica a partir da difusão da imprensa ou a globalização econômica e social que se seguiu à invenção do telégrafo –, o que importa agora não são as novas capacidades que temos, mas como transformamos essas capacidades, tanto técnicas quanto sociais, em oportunidades. A pergunta que agora enfrentamos, todos nós que temos acesso aos novos modos de compartilhamento, é o que vamos fazer com essas oportunidades. A pergunta será respondida muito mais decisivamente pelas oportunidades que fornecermos uns para os outros e pela cultura dos grupos que formarmos do que por qualquer tecnologia em particular.

 (Clay Shirky - A cultura da participação, Criatividade e generosidade no mundo conectado)

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publicado às 00:42


ONDE MORA A FELICIDADE

por Thynus, em 27.09.14
Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.
Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal.
Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. 
EPICURO  - Carta sobre a felicidade (a Meneceu)

Se podemos criar realidade, como seria a realidade ideal? Para começar, seria pessoal. Como o cérebro se remodela constantemente, ele se conforma ao que cada indivíduo quer da vida. Felicidade? Podemos supor que ela ocupe o topo da lista. Mas o desejo de felicidade imediatamente expõe uma séria fraqueza. Embora sejamos concebidos para criar realidade, a maioria das pessoas não tem capacidade de criar uma realidade feliz.
Só recentemente, com o surgimento de uma nova especialidade conhecida como “psicologia positiva”, a felicidade tem sido cuidadosamente estudada. As descobertas são contraditórias. Quando solicitadas a dizer o que as faria felizes, as pessoas listam coisas aparentemente óbvias: dinheiro, casamento e filhos. Mas a coisa não é bem assim. Cuidar de crianças pequenas é muito estressante para jovens mães. Metade dos casamentos termina em divórcio. O dinheiro só compra felicidade no que diz respeito à segurança. A pobreza é com certeza uma fonte de infelicidade, mas o dinheiro também é, porque, uma vez atendidas as necessidades básicas, o dinheiro extra não faz as pessoas mais felizes – na verdade, a maior responsabilidade, junto com o medo de perder o dinheiro, muitas vezes as torna mais infelizes.
Surpreendentemente, o quadro geral é que, mesmo quando as pessoas obtêm o que desejam, a maioria não fica feliz como esperava. Chegar ao topo da profissão, ganhar um campeonato esportivo ou fazer um milhão de dólares parecem excelentes como objetivos futuros, mas quem os realiza conta que o sonho era melhor do que a realidade. A competição pode tornar-se um processo sem fim, e suas recompensas diminuem com o tempo. (Uma pesquisa com campeões de tênis revelou que eles se sentiam menos motivados pela alegria da vitória do que pelo medo e decepção da derrota.) E quantas pessoas sonham em ficar ricas e não ter que trabalhar pelo resto da vida? Numa pesquisa, vencedores da loteria, para os quais o sonho se tornou realidade, afirmaram que isso na verdade havia tornado suas vidas piores. Alguns não sabiam lidar com o dinheiro e o perderam; outros enfrentaram problemas nos relacionamentos ou se entregaram a comportamentos temerários, como participar de jogos de azar e fazer investimentos arriscados. Todos foram perseguidos por parentes e estranhos com incessantes pedidos de ajuda.
Se as pessoas não sabem prever sobre como ser felizes, o que podemos fazer?
A tendência atual da psicologia sustenta que a felicidade nunca é permanente. Pesquisas revelaram que cerca de 80 por cento dos americanos – e muitas vezes mais – afirmam ser felizes. Mas, quando analisadas individualmente, cada pessoa experimenta apenas momentos de felicidade, estados temporários de bem-estar, que não são de forma alguma permanentes. Portanto, muitos psicólogos afirmam que tropeçamos na felicidade sem saber conquistá-la.
Mas nós, os autores, divergimos dessa conclusão. Sentimos que o problema está na criação da realidade. Se a pessoa tiver mais habilidade para criar sua realidade, a felicidade permanente virá.

Rumo à felicidade duradoura
Procure
… doar-se. Cuide dos outros e se preocupe com eles.
… trabalhar em algo que ame.
… estabelecer objetivos de longo prazo que levem anos para ser alcançados.
… manter a mente aberta.
… ter resiliência emocional.
… aprender com o passado, mas saber também abandoná-lo. Viva o presente.
… planejar o futuro sem ansiedade ou medo.
… criar laços sociais íntimos e calorosos.
Não
… coloque sua felicidade em recompensas externas.
… adie a felicidade para o futuro.
… espere que alguém o faça feliz.
… confunda felicidade com prazer momentâneo.
… persiga mais e mais estímulos.
… permita que suas emoções se tornem habituais ou que sejam bloqueadas.
… se feche a novas experiências.
… ignore os sinais de tensão ou de conflito interior.
… viva no passado ou com medo do futuro.
Numa sociedade consumista, é fácil fazer o que não se deve, porque todos os itens da lista do “não” ligam a felicidade ao prazer temporário e a recompensas externas. Mas vou contar a história de um homem chamado Brendon Grimshaw, que deve ter um instinto muito afiado para a felicidade, já que criou seu próprio paraíso.
O PARAÍSO É PESSOAL
Grimshaw nasceu em Devonshire, na Inglaterra, e trabalhava como jornalista na África do Sul quando abandonou o emprego, em 1973. Ele tinha comprado uma ilha tropical – a ilha Moyenne, nas Seychelles, entre a Índia e a África – por 8.000 libras, cerca de 12.000 dólares, nove anos antes. Então, deu o salto decisivo na vida: foi viver lá sozinho, com um empregado nativo. O que esse moderno Robinson Crusoé enfrentou foi incrível. Ele fez o contrário de relaxar na praia. A vegetação era tão densa quando ele chegou que os cocos caídos dos coqueiros não atingiam o solo.
Grimshaw decidiu limpar a vegetação rasteira e, depois de fazer isso, deixou que a ilha falasse com ele – foi assim que ele descreveu como planejou as novas plantações. Descobriu que árvores de mogno se davam bem lá, e então importou algumas mudas. Hoje são setecentas, que chegam a 20 metros de altura. Mas elas são apenas uma pequena fração das 16.000 árvores que plantou com as próprias mãos.
Ele deu abrigo à rara tartaruga gigante das Seychelles e hoje há 120 delas. Pássaros voam em busca da proteção de seu santuário e 2.000 são novos na ilha.
Em 2007, seu empregado morreu e, aos 86 anos, Grimshaw passou a cuidar sozinho da ilha, pela qual recebeu – e recusou – uma oferta de 50 milhões de dólares.
Ele se aborrece quando os visitantes só veem as árvores de mogno como madeira para móveis e as praias virgens como paraíso de ricos em férias. Moyenne continuará sendo uma área preservada depois de sua morte. Grimshaw parece queimado pelo sol e envelhecido quando caminha pela ilha, de shorts e chapéu de caçador, mas está extraordinariamente vivo. Seu contentamento se deve, quase item por item, às coisas que fazem parte da nossa lista para conquistar a felicidade duradoura. Ele se doou a um trabalho que amava. Estabeleceu um objetivo que levou anos para alcançar. Não dependeu de nada nem de ninguém que lhe desse constante aprovação.
O único aspecto da felicidade duradoura que ele não tem são os laços sociais.
Mas, para algumas pessoas, a solidão é uma companhia mais rica que a sociedade, e assim é para Grimshaw. Sua vida está adequada ao conceito de um cérebro totalmente integrado, no qual se fundem todas as necessidades que ele deve servir, como:
• Estar conectado com o mundo natural
• Ser útil
• Fazer exercícios físicos
• Achar um trabalho que dê satisfação
• Preencher a vida com um propósito
• Ter um objetivo que transcende os limites do ego
Isoladamente, nenhuma área do cérebro é capaz de supervisionar a fusão de todas essas necessidades para criar uma pessoa plenamente desenvolvida. Isso exige o cérebro inteiro, atuando como um todo integrado. A felicidade tem então sua raiz no sentimento de completude. A versão mais crível de um cérebro plenamente integrado foi dada pelo psiquiatra da Universidade de Havard, o dr. Daniel J. Siegel, hoje na Universidade da Califórnia, que fez carreira estudando a neurobiologia dos humores e estados mentais humanos. Siegel foi pioneiro na fascinante pesquisa sobre a correlação entre os estados subjetivos e o cérebro. O que o diferencia dos pesquisadores que realizam milhares de tomografias para descobrir como o cérebro se excita durante certos estados é seu objetivo terapêutico. Siegel quer que seus pacientes se sintam melhor. O caminho da cura, afirma, é localizar sintomas como depressão, obsessão, ansiedade etc. na área exata do cérebro que está causando o bloqueio.
Como todo pensamento e todo sentimento ficam registrados no cérebro, faz sentido que sintomas psicológicos como depressão e ansiedade sejam indicações de uma gravação defeituosa – ou seja, uma rota neural foi traçada e continua a repetir os sintomas ou comportamentos indesejáveis. Funciona como um microchip que não tem outra opção senão repetir o mesmo sinal. Mas a “gravação” neural pode ser mudada, entre outros meios, através de terapia – Siegel usa a terapia da fala em conjunto com sua teoria cerebral.
O objetivo de Siegel é um cérebro saudável, que mantenha o bem-estar do paciente. Para ele, o cérebro precisa de nutrição saudável todos os dias. Sua abordagem está de acordo com a nossa, uma vez que prescreve uma “dieta da mente saudável” a ser praticada diariamente, com base na ideia de que uma mente saudável produz um cérebro saudável. Em sua “dieta”, Siegel e seu colega David Rock incluem sete “pratos”:
• Tempo de sono
• Tempo físico
• Tempo de concentração
• Tempo interior
• Tempo de repouso
• Tempo de diversão
• Tempo de conexão
Anos de pesquisas cerebrais estão por trás dessas simples prescrições, mas, à medida que a ciência comprova cada vez mais que todos os aspectos da vida têm relação com o cérebro, a nutrição oferecida pela dieta mental de Siegel pode ser bem mais importante para o corpo do que qualquer conselho convencional. Nosso cérebro tem um enorme talento para a integração. Se usado holisticamente, ele consegue organizar tudo.

(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - SUPERCÉREBRO)

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publicado às 23:53


O mais livre dos pobres

por Thynus, em 26.09.14

Uma vez por ano, aproximadamente, Job achava um jeito de vir me visitar. Só ficava em minha casa por alguns dias, apenas o suficiente para que se ajustassem ao seu tamanho algumas de minhas roupas usadas ou para que o dentista da cidade lhe arrancasse, às minhas expensas, um molar cariado.
Minhas relações com Job remontam â época em que a Previdência Social ainda não existia, quer dizer, já vêm de longa data. Naqueles tempos, os pobres eram responsáveis e sabiam, com toda a certeza, que sua velhice não conheceria pensão alguma.
Pois exatamente Job era o mais livre dos pobres que já conheci. Vê-lo tão pobre e tão livre, tão despojado de qualquer tipo de proteção do governo, tão pouco solidário com uma sociedade na qual vivia como pária voluntário e feliz, tudo isto me proporcionava uma deliciosa má consciência cada vez que ele me visitava. Má porque a mim me envergonhava sentir mais interesse pelo pitoresco e o fantástico, do ponto-de-vista social, que pelas misérias humanas; e deliciosa porque (graças a Deus!) toda vocação justiceira, socialista ou sindicalista se desvanecia em mim ante apenas a presença daquele gigante esfarrapado que só consentia em trabalhar esporadicamente, e que, no entanto, respeitava sinceramente qualquer patrão temporário e se prestava com desenvoltura ao tão tranqüilizador jogo do paternalismo.
Quando via sua barba negra como o azeviche e seu chapéu redondo e amarfanhado, gritava-lhe: "Bem-vindo, Job!". E ele esperava, de pé junto ao portão do jardim, até que eu o convidasse a entrar. Meu cachorro, que o reconhecia de um ano para o outro, recebia-o sempre com enorme alegria; farejava-o de muito longe e nunca latia para ele.
- Não queria passar por sua cidade sem vir cumprimentá-lo dizia-me Job cortezmente.
Depois dos cumprimentos de praxe, apertávamos as mãos e eu o precedia até a cozinha, onde bebíamos alguns copos de vinho. Uma vez concluído este rito, acompanhava-o cerimoniosamente ao depósito de lenha, onde ele improvisava uma cama, como da vez anterior, estendendo um monte de palha sobre a serragem. Só a partir desse momento começávamos a verdadeira conversa.
- À força de dormir ao ar livre - dizia-me Job - acabei por converter-me num animal. Pouco a pouco minha alma foi-se evaporando. Vivo seguindo meus instintos, minhas necessidades e meus hábitos. Já não tenho honra nem moral, nem ambição. E não só isto, mas tampouco penso no futuro, nem na morte. Na verdade, sou um animal...
- Doméstico ou selvagem?
- Meus costumes são domésticos, mas meus instintos são selvagens. E entre as duas tendências estabeleceu-se um meio-termo. Se vivo muitos dias seguidos numa casa, sinto que uma alma se agita dentro de mim. Mas quando fico muito tempo dormindo em meio à natureza, então minha consciência de homem se dilui, até extinguir-se.
- E como você é mais feliz, Job: com ou sem alma?
- Quando sinto que tenho uma alma, sei que sou um desgraçado. Quando não a sinto, simplesmente não sei se sou feliz.
- Você escolheu viver livre, sem vínculos, sem casa, sem trabalho... Nada o obriga a levar esta vida de vagabundo. Você é forte, inteligente, inclusive bastante instruído, e ainda jovem o bastante para reintegrar-se facilmente na sociedade dos sedentários. Que está esperando para fazê-lo?
- Espero que meu lar fique habitável...
A palavra essencial fora pronunciada; agora tinha em minhas mãos a chave do mistério; Job, privado de seu lar natal, era incapaz de ser feliz. Sem dúvida, este lar estava amaldiçoado e era tão maléfico que ninguém podia viver lá são e salvo.

(ROGER DE LAFFOREST - CASAS QUE MATAM )

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publicado às 15:57


Ritos de passagem

por Thynus, em 25.09.14
 
Os ritos de passagem desempenham um papel importante na vida do homem religioso. É certo que o rito de passagem por excelência é representado pelo início da puberdade, a passagem de uma faixa de idade a outra (da infância ou adolescência à juventude). Mas há também ritos de passagem no nascimento, no casamento e na morte, e pode se dizer que, em cada um desses casos, se trata sempre de uma iniciação, pois envolve sempre uma mudança radical de regime ontológico e estatuto social. Quando acaba de nascer, a criança só dispõe de uma existência física; não é ainda reconhecida pela família nem recebida pela comunidade. São os ritos realizados imediatamente após o parto que conferem ao recém nascido o estatuto de “vivo” propriamente dito; é somente graças a esses ritos que ele se integra à comunidade dos vivos. Por ocasião do casamento, tem lugar também uma passagem de um grupo sócio-religioso a outro. O recém casado abandona o grupo dos celibatários para participar, então, do grupo dos chefes de família. Todo casamento implica uma tensão e um perigo, desencadeando portanto uma crise; por isso o casamento se efetua por um rito de passagem. Os gregos chamavam o casamento de télos, consagração, e o ritual nupcial assemelhava se ao dos mistérios.
No que diz respeito à morte, os ritos são mais complexos, visto que se trata não apenas de um “fenômeno natural” (a vida, ou a alma, abandonando o corpo), mas também de uma mudança de regime ao mesmo tempo ontológico e social: o defunto (1) deve enfrentar certas provas que dizem respeito ao seu próprio destino post mortem, mas deve também ser reconhecido pela comunidade dos mortos e aceito entre eles.
Para certos povos, só o sepultamento ritual confirma a morte: aquele que não é enterrado segundo o costume não está morto. Além disso, a morte de uma pessoa só é reconhecida como válida depois da realização das cerimônias funerárias, ou quando a alma do defunto foi ritualmente conduzida a sua nova morada, no outro mundo, e lá foi aceita pela comunidade dos mortos. Para o homem a religioso, o nascimento, o casamento, a morte não passam de acontecimentos que dizem respeito ao indivíduo e sua família; raramente – no caso de chefes de Estado ou políticos – esses acontecimentos têm repercussões políticas. Numa perspectiva a religiosa da existência, todas as “passagens” perderam seu caráter ritual, quer dizer, nada mais significam além do que mostra o ato concreto de um nascimento, de um óbito ou de uma união sexual oficialmente reconhecida. Acrescentemos, porém, que raramente se encontra uma experiência completamente a religiosa da vida total em estado puro, mesmo nas sociedades mais secularizadas. É possível que uma tal experiência completamente a religiosa se torne mais corrente num futuro mais ou menos longínquo; mas por ora é ainda rara.
O que se encontra no mundo profano é uma secularização radical da morte, do casamento e do nascimento, mas, como não tardaremos a ver, subsistem apesar de tudo vagas recordações e nostalgias de comportamentos religiosos abolidos.
Quanto aos rituais iniciáticos propriamente ditos, convém fazer uma distinção entre as iniciações da puberdade (faixa de idade) e as cerimônias de admissão numa sociedade secreta: a diferença mais importante reside no fato de que todos os adolescentes são obrigados a enfrentar a iniciação da idade, ao passo que as sociedades secretas são reservadas a um determinado número de adultos. Parece certo que a instituição da iniciação da puberdade é mais antiga do que a da sociedade secreta; encontra-se mais espalhada e é atestada desde os níveis mais arcaicos de cultura, como, por exemplo, entre os australianos e os fueguinos. Não nos cabe expor aqui as cerimônias iniciáticas em toda sua complexidade. Nosso objetivo é mostrar que, já nos estágios arcaicos de cultura, a iniciação desempenha um papel capital na formação religiosa do homem, e, sobretudo, que ela consiste essencialmente numa mudança do regime ontológico do neófito. Ora, este fato parece nos muito importante para a compreensão do homem religioso: mostra-nos que o homem das sociedades primitivas não se considera “acabado” tal como se encontra ao nível natural da existência: para’se tornar um homem propriamente dito, deve morrer para esta vida primeira (natural) e renascer para uma vida superior, que é ao mesmo tempo religiosa e cultural.
Em outras palavras, o primitivo coloca seu ideal de humanidade num plano sobre humano. Isto quer dizer que: (1) só se torna um homem completo depois de ter ultrapassado, e em certo sentido abolido, a humanidade “natural”, pois a iniciação se reduz, em suma, a uma experiência paradoxal, sobrenatural, de morte e ressurreição, ou de segundo nascimento; (2) os ritos iniciãticos comportando as provas, a morte e a ressurreição simbólicas foram fundados pelos deuses, os Heróis civilizadores ou os Antepassados míticos: esses ritos têm, portanto, uma origem sobre humana, e, ao realizá-los, o neófito imita um comportamento sobre humano, divino. É importante reter este fato, pois nos mostra mais uma vez que o homem religioso se quer diferente do que se encontra ao nível “natural”, esforçando se por ,fazer se segundo a imagem ideal que lhe foi revelada pelos mitos. O homem primitivo esforça se por atingir um ideal religioso de humanidade, e nesse esforço encontram-se já os germes de todas as éticas elaboradas mais tarde nas sociedades evoluídas.
Evidentemente, nas sociedades a religiosas modernas, a iniciação já não existe como ato religioso. Veremos mais adiante, contudo, que, embora fortemente dessacralizados, os padrões de iniciação ainda sobrevivem no mundo moderno.

(Mircea Eliade - O SAGRADO E O PROFANO)

(1) - O defunto é aquele que deixou de cumprir sua missão no mundo, é aquele que não exerce mais a sua função (functio, em latim), e já está em outra. A expressão latina usada era functus morte, aquele que já experimentou a morte, ou simplesmente functus.

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publicado às 14:15


A força do amor

por Thynus, em 23.09.14

“O amor é um elemento que, embora fisicamente invisível, é tão real quanto o ar, ou a água. Ele é uma força atuante, viva, de movimento... ele se move em ondas e correntes como as do oceano. “ (Prentice Mulford, Autor da Nova Era, 1834-1891)

“Tirem o amor e a nossa terra é um túmulo.”
(Robert Browning, Poeta, 1812-1889)
O tipo de amor sobre o qual os maiores pensadores e salvadores do mundo falaram é muito diferente do que a maioria das pessoas entende que o amor é. é muito mais do que amar sua família, amigos e coisas favoritas, pois o amor não é apenas um sentimento; o amor é uma força positiva. O amor não é fraco, tênue ou suave. O amor é a força positiva da vida! O amor é a causa de tudo que é bom e positivo. Não há uma centena de forças diferentes positivas na vida; há apenas uma.
Os grandes poderes da natureza, como a gravidade e o eletromagnetismo, são invisíveis a nossos sentidos, mas seu poder é indiscutível.
Da mesma forma, a força do amor é invisível para nós, mas seu poder é realmente muito maior do que quaisquer dos poderes da natureza. A evidencia do poder do amor pode ser vista em qualquer lugar no mundo; sem amor, não há vida.
“Tire um momento para pensar sobre isso: O que seria o mundo sem amor? Primeiramente, você nem ao menos existiria; sem amor você não teria nascido. Ninguém da sua família, e amigos, teriam nascido também. Na verdade, não haveria um único ser humano no planeta. Se a força do amor cessasse hoje, toda a raça humana diminuiria e, finalmente, se extinguiria.
Cada única invenção, descoberta e criação humana, vieram do amor num coração humano.
Se não fosse pelo amor dos Irmãos Wright, não poderíamos viajar num avião.
Se não fosse pelo amor dos cientistas, inventores e descobridores, não teríamos a eletricidade, aquecimento ou luz; nem seríamos capazes de dirigir um carro ou usar um telefone, um aparelho elétrico, ou quaisquer das tecnologias que faz a vida mais fácil e mais confortável. Sem o amor dos arquitetos e construtores, não haveria casas, prédios ou cidades. Sem amor, não haveria medicamentos, médicos ou equipamentos de emergência.
Nenhum professor, escolas ou educação. Não haveria livros, pinturas, nem musica, pois todas estas coisas são criadas a partir da força positiva do amor.
Dê uma olhada ao redor de você exatamente agora. O que quer que você veja que seja uma criação humana, não estaria aí sem o amor.
(Rhonda Byrne - O PODER)

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publicado às 21:34


SALMÁCIS E HERMAFRODITA

por Thynus, em 22.09.14
Andrógino e hermafrodita não são uma mesma coisa. No hermafrodita coexistem os dois sexos. Aí estão as estátuas de homens com seios... O andrógino, por sua parte, representa o ideal da perfeição: a fusão dos dois sexos. É outra espécie humana, uma espécie distinta... E acredito que isto é importante. Certamente, os dois, o hermafrodita e o andrógino existem na cultura não só européia, mas também universal. Por minha parte, sinto-me atraído pelo tipo do andrógino no que vejo uma perfeição dificilmente realizável, ou possivelmente, inexeqüível nos dois sexos separados.

(M I R C E A E L I AD E - A P R O V A D O L A B I R I N T O)

A ninfa é um ser livre por definição. Vivendo às margens dos rios, seu único trabalho é banhar-se nas suas águas claras e procurar fazer-se cada vez mais bela a cada hora que passa, de forma que à noite esteja ainda mais graciosa do que estava pela manhã.
Assim pensava a ninfa Salmácis, reclinada na relva, à beira de um regato. Com a cabeça apoiada numa das mãos, a jovem alisava o tapete esverdeado c: solo, arrancando pequenos pedaços de grama. Depois, lançava-os indolentemente à água, após estudá-los de todos os modos. Salmácis gastava ainda um tempo infinito no restante desta importante ocupação, acompanhando a minúscula odisséia do pequeno talo verde que navegava na corrente do rio até desaparecer da sua vista, misturado aos outros pequenos detritos que vagam na superfície das águas.
Às vezes, no entanto, fingia ser ela mesma esse pequeno talo. Deitada sobre o curso da água, boiava, deixando que a corrente a levasse aonde quisesse. Enquanto ia assim navegando, de costas sobre a água, Salmácis sentia-se flutuar, liberta de tudo.
Via ao alto as nuvens avançarem com ela, enquanto pequenas andorinhas voavam em círculo no grande azulejo invertido do céu. Às vezes o sol, por entre os galhos da vegetação das margens, obrigava-a a fechar momentaneamente os olhos. Então, a coisa mais fácil do mundo para Salmácis era acordar, de repente, quase desaguando ao mar, junto com as águas do rio.
Nesse momento, seus ouvidos ainda podiam escutar as vozes de suas companheiras, que se afastavam na outra margem comentando algo num tom raivoso.
— Invejosas! — disse Salmácis, colando, aborrecida, a face direita na relva. Tinha certeza de que falavam mal dela, pois havia pouco tempo tivera uma irritante discussão com as ativas e incansáveis colegas. Discussões, mais do que qualquer outra coisa, aborreciam-na profundamente. Simplesmente não conseguia imaginar como duas pessoas podiam se desentender num lugar maravilhoso como aquele.
— Vamos lá, preguiçosa! — disse uma delas, atirando-lhe um punhado de seixos.
— Vamos para a caçada. Diana já nos espera no bosque — disse uma outra. Diana... Diana... Essa tal de Diana era muito enfadonha. Criatura enjoada, incansável deusa dos bosques só queria saber, afinal, de caçadas.
— Vão vocês, eu estou bem aqui... — disse Salmácis, sem dar ouvido às censuras de suas aborrecidas irmãs. Mais tarde, sabia, elas voltariam esbaforidas, trazendo às costas veados ou corças cobertos de sangue, misturando o seu suor ao sangue dos animais abatidos. Era sempre a mesma coisa que a ninfa escutava de olhos fechados. Em meio à algazarra das vozes, podia sentir em seu corpo colado ao solo a vibração repugnante dos corpos lançados desrespeitosamente ao chão, como simples e pesados fardos de carne.
Suas irmãs, no entanto, recém haviam partido para a sua obrigação. Suas vozes esganiçadas aos poucos se misturavam aos ruídos naturais do bosque, até que a paz — a bendita paz! — retornava outra vez, pousando por tudo. A ninfa podia estender agora, ao comprido, o seu corpo delgado, deixando que o sol acariciasse a sua epiderme até arrancar dela minúsculas gotas de suor. Pois Salmácis era assim: gostava de suar em silêncio.
Enquanto o sol esquentava sua pele, pequenas abelhas vinham pousar sobre seu corpo.
Podia sentir os passinhos dos pequenos insetos dourados percorrendo suas pernas e subindo-lhe pelas coxas firmes e bronzeadas. De repente, porém, erguiam vôo outra vez, indo pousar em seus seios ou mesmo em seu rosto, passeando livremente em sua testa.
Ela ainda estava deitada, preparando-se para dar um mergulho, quando percebeu que alguém se aproximava da outra margem do rio. De bruços, precisou apenas erguer a cabeça para divisar um belo rapaz — que não teria mais de quinze anos de idade — sentar-se à beira da corrente. O jovem esticou uma das pernas, pondo um dos pés na água, enquanto a outra perna permanecia dobrada, deixando o joelho à altura do queixo. Seus cabelos loiros lhe caíam em desalinho pelos ombros, agitados ocasionalmente por uma suave brisa.

Tratava-se de Hermafrodita, o belo fruto da união entre Vênus e Mercúrio. Apesar de sua pouca idade, seu corpo tinha já a conformação quase idêntica à de um adulto robusto e sadio.
Seus traços revelavam nitidamente a sua ilustre descendência, de tal forma que era impossível passar despercebido aos olhos de qualquer mulher. Ou de qualquer ninfa.
Com a mão em concha, Hermafrodita recolheu um pouco de água do leito do rio e banhou sua face corada. Depois, repetindo o gesto, molhou o cabelo, fazendo com que pequenos veios d'água lhe escorressem pelos ombros, cobertos apenas por uma fina túnica, despenhando-se em seguida pelas suas robustas espáduas. Hermafrodita ainda não havia percebido, na outra margem, a presença da curiosa Salmácis, que, encantada com seus gestos ao mesmo tempo viris e delicados, apaixonara-se instantaneamente por ele.
"Quem será?", indagava-se a ninfa, intrigada.
Erguendo mais um pouco o busto, apoiada em duas mãos, Salmácis continuou a observar o rapaz, que prosseguia em sua higiene, bem à sua frente. Hermafrodita, já em pé, livrou-se de seu pequeno manto, descobrindo ao sol o seu corpo viril e atlético.
— Ele há de ser meu — disse a ninfa, segredando à terra o seu desejo. Quando ergueu a cabeça novamente, porém, enxergou apenas centenas de gotas d'água subindo para o alto, num borrifo imenso que lembrava o de um chafariz. Hermafrodita demorou um bom tempo para voltar à superfície, de tal sorte que a ninfa chegou a temer por sua vida. Mas bastaram mais alguns instantes para que sua bela cabeça molhada surgisse da água, quase à sua frente. Sua boca lançou-lhe, inadvertidamente, os respingos de seu fôlego quase perdido. A pele da ninfa cobriu-se das minúsculas gotas, que se uniram ao seu suor. Salmácis gostou disto. O rapaz, contudo, ao perceber que estava diante daquela bela mulher, tomara um susto, recuando um pouco para dentro do leito do rio.
— Calma, não se assuste! — disse a ninfa, com um sorriso malicioso. Salmácis, como uma pequena serpente feminil, rastejou em sua direção, esfregando seios e coxas sobre a relva, até aproximar o máximo possível a cabeça da corrente do rio. Com a cabeça pendida sobre a água, estudava implacavelmente o rapaz.
— Quem é você? — perguntou Hermafrodita, ainda não recuperado totalmente do susto.
— Aquela que deseja ardentemente saber quem é você! — disse Salmácis, mergulhando em seguida a cabeça inteira na corrente. Seus olhos mantiveram-se abertos, abaixo da linha da água, estudando os segredos que a superfície relativamente calma do rio ocultava. Depois, retirando a cabeça da água com violência, arremessou sobre a face do jovem, com a impetuosidade de um chicote, um grande jato d'água. Hermafrodita, definitivamente assustado com a audácia da ninfa, começou a nadar em direção à outra margem.
— O que há, garoto, está com medo de mim? — perguntou a ninfa, surpresa. Salmácis, na verdade, estava acostumada com a agressividade dos seus rudes e habituais cortejadores, faunos e sátiros, que já chegavam agarrando-a, passando em seu corpo as suas mãos grosseiras e peludas. A ninfa, contudo, jamais permitia que algum desses seres vulgares lhe chegassem perto, preferindo sempre a companhia dos gentis e delicados pastores. Mas que alguém quisesse fugir dela era uma novidade surpreendente.
Vendo que ele saíra já da água e rumava, num passo apressado, para dentro do bosque — esquecido até da própria roupa -, Salmácis pôs-se em pé e lançou-se à água. Seus braços ágeis cortaram a correnteza suave da água com tal rapidez que em breve estava na outra margem. Ao sair do rio, mal teve tempo de perceber o dorso nu do rapaz ganhando rapidamente a mata.
— Espere! Por favor, não tenha medo de mim! — disse a ninfa, com um riso nervoso.
Salmácis entrou, também, correndo na mata, fazendo com que seus seios vibrassem no mesmo ritmo de seu passo veloz. Mais adiante divisou Hermafrodita, encostado a uma grande árvore, cujos galhos recobertos de folhas cobriam-no quase que inteiramente.
— Espere, vamos conversar! — disse a ninfa. — Quero conhecê-lo melhor.
— Não tenho nada para conversar com você — Hermafrodita replicou.
— Mas quem é a mulher aqui, afinal?! — Salmácis exclamou, zangando-se. Hermafrodita, ofendido, retesou o peito, numa resposta instintiva à ninfa.
Esta gostou da resposta. Com seus olhos percorreu o corpo do jovem, até exclamar com um sorriso satisfeito:
— Você, com toda a certeza...!
Procurando ser mais contida, a ninfa tentou ganhar-lhe a confiança, como caçada.
Salmácis, afinal, também caçava agora.
— Você é bem novo, não? — perguntou, dando um pequeno passo adiante.
— Não tanto quanto você — disse o jovem, fingindo-se mais velho do que realmente era.
— Hum... é mais experiente, então...
Hermafrodita nada respondeu. A ninfa, no entanto, aproximara-se tanto que o jovem podia sentir a respiração dela em seu peito. Era um sopro curto e irregular que lhe provocava deliciosas cócegas no peito quase liso. Salmácis, na verdade, também começava a perder o controle da situação.
De repente, encurralando o rapaz contra o grosso tronco da árvore, ela tomou a sua cabeça nas mãos e colou com fúria os seus lábios aos dele. Mas foi surpreendida pelas mãos do jovem, que lhe apertavam com vigor a cintura, erguendo-a um pouco do chão. Ao sentir que seus pés separavam-se do solo, a ninfa abraçou-se ao pescoço do jovem, enlaçando-o com as pernas.
Nunca havia, na verdade, sentido tamanha identificação com o corpo e com a alma de alguém.
Tudo evoluiu rapidamente, como se ambos tivessem sido feitos expressamente um para o outro. Seus corpos encaixavam-se de modo perfeito; seus membros enlaçavam-se com tamanha familiaridade, que nem a ninfa nem o jovem podiam mais distinguir quais seriam os seus. Seus cabelos misturavam-se, ocultando como num véu o seu longo beijo.
De repente, porém, a ninfa, descolando momentaneamente os seus lábios dos do jovem e sentindo um desejo forte abalar todo o seu corpo, exclamou:
— O deuses! Quero que nós dois sejamos uma só pessoa!
Os deuses, que a escutavam, atenderam imediatamente ao pedido. Os corpos dos dois amantes começaram a se fundir, sob a sombra generosa da árvore, que parecia descer um pouco mais os seus galhos para ocultar a metamorfose. Os peitos de ambos, colados firmemente, impediam-nos agora de separar os seus troncos. Suas bocas fundiam-se uma na outra, tornando seu longo beijo um beijo perpétuo. As pernas da ninfa, enlaçadas à cintura do jovem, amarraram os dois amantes para sempre num nó indissolúvel: um único e perfeito ser.
(A. S. Franchini / Carmen Seganfredo - AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA MITOLOGIA)

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publicado às 15:16

O desejo da mulher de permanecer ao lado do homem depois do orgasmo (ou orgasmos) é muito mais forte quando ela está apaixonada. Porém, existe sempre, desde que aquele homem lhe agrade. Isso porque o orgasmo da mulher é mais prolongado, mas, acima de tudo, porque ela sente a necessidade de ser desejada, de agradar de modo contínuo, duradouro. A separação do homem lacera, interrompe essa continuidade. Uma vez que o prazer na mulher se manifesta como necessidade de continuidade, a interrupção não pode significar outra coisa a não ser desinteresse, rejeição.
Estamos diante de uma estrutura temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino pelo contínuo e uma preferência profunda do masculino pelo descontínuo (A explicação mais racional do fenômeno é a apresentada por Lillian B. Rubin: Intimate strangers, Nova York, Harper Colophon, 1983. Rubin lembra que a mulher, de modo diferente do homem, não se deve diferenciar do seu objetivo primário de amor e de identificação, que ê a mãe. Essa experiência leva-a a experimentar um senso de continuidade com as pessoas que ama. Ela tende à fusão e, às vezes, à confusão com o amado). Quando as mulheres dizem que apreciam a ternura, os carinhos, e que por isso mesmo os preferem ao ato sexual, não se referem apenas ao aspecto tátil, sensível da experiência. Indicam a necessidade de atenção amorosa prolongada, de interesse contínuo com relação à sua pessoa. A prevalência do tátil é somente uma manifestação dessa mais profunda prevalência do contínuo.
(...) O desejo de continuidade da mulher se manifesta de vários modos. A mulher aprecia os atos que significam a continuidade do interesse. Um telefonema, um elogio, flores. Em geral, a mulher ama também as palavras amorosas, as carícias, os abraços, o interromper e o recomeçar. Está sempre à procura da compreensão amorosa, íntima, tranquila, suave, do idílio. Não apenas esporadicamente, nos intervalos de tempo roubados a outras atividades, mas por longuíssimos períodos, como numa eterna lua-de-mel.
Naturalmente a mulher envolvida numa atividade profissional, que se realiza no trabalho, que tem sempre pouquíssimo tempo livre e muitas coisas a fazer, acaba por assumir, com o correr do tempo, uma postura masculina. Porém, no mais profundo de seu íntimo, também ela deseja poder abandonar-se a uma doçura prolongada, em que não existam tempo nem horário.
Como quando se deixa beijar pelo sol, estendida na praia. Porque lhe agrada ficar bronzeada e desejável, mas também porque o sol é como um amante que lhe dá prazer e ternura.
Provavelmente, é por esse motivo que a maior parte das mulheres deseja, no homem, uma ereção prolongada. Porque significa que ele ficou excitado pela sua beleza, que a deseja de modo contínuo, duradouro. Porque o abraço amoroso e o êxtase da fusão dos corpos duram por um longo tempo, horas e horas, e não são lacerados imediatamente pela interrupção, pela descontinuidade. O homem acha que a mulher adora seu pênis ereto, o deus Priapo. Na verdade, o que ela deseja é a permanência do interesse amoroso, da ternura, do abandono, da paixão. São esses os alimentos que nutrem seu erotismo, seu prazer. A ejaculação precoce é irritante, não por si mesma, mas por representar um desinteresse masculino e pelo estado de agitação, de frustração e de apatia que esse distúrbio provoca no homem.
Se a mulher não se sente amada, desejada, seu renovado esforço de sedução fica frustrado, e ela então experimenta uma sensação de vazio, de inutilidade, de desespero. Como se não existisse mais. E reage com raiva. Isso se verifica constantemente no casamento ou na convivência. A mulher imagina que vivendo junto com o homem amado realizará a continuidade do erotismo. Julga que a descontinuidade do comportamento masculino depende de fatores externos, de dificuldades materiais, de compromissos profissionais. Não consegue acreditar que seja um fator natural, próprio da masculinidade. Enfim, que seja a característica de seu desejo. Vivendo sempre juntos, pensa ela, esses impedimentos poderão ser removidos. Dormindo na mesma cama, fazendo juntos a primeira refeição matinal, comendo à mesma mesa, batendo papo à noite, haverá todo o tempo necessário para realizar a continuidade erótica. O tempo passado juntos é imaginado como um tempo erótico completo,  compacto, um tempo amoroso. A realização, que no homem acontece através do esplendor do encontro, aqui é procurada no prolongamento do encontro, no preenchimento erótico de toda a duração. Na erotização da continuidade temporal.
Na vertente masculina do erotismo, ao contrário, o que conta é a intensidade do encontro sexual. O encontro erótico é, para ele, um tempo luminoso, subtraído da vida comum. Tem, portanto, um princípio e um fim. Ele sabe que voltará à vida rotineira. O encontro luminoso é como uma área liberada e liberante, uma experiência regeneradora de que sai enriquecido, reforçado, feliz, realizado. Reingressa no mundo do dia-a-dia mais seguro, mais forte. Até mesmo no enamoramento a relação amorosa é uma sequência de encontros luminosos.
Além disso, o homem experimenta com mais frequência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. E um estado particularíssimo, exterior ao tempo. Quando o instante de eternidade desaparece, reaparece o tempo. Mas o valor desse instante é superior ao tempo. A sua lembrança (saudade) faz com que o tempo pareça apenas um obstáculo, uma falha, uma distração de nossa verdadeira natureza, que é viver no eterno. Exatamente como na experiência do místico, para o qual Deus se revela somente em gotas de eternidade.
O homem enamorado experimenta, às vezes, um sentimento de profunda tristeza pensando que o divino momento que vive está destinado a desaparecer, a perder-se no tempo. Olha então para o céu azul, para as plantas ou pedras, sabendo que aquela perfeição representa o eterno. No máximo, lhe será concedido recordar aquela experiência divina. Mas será como uma imagem desbotada.
Ao contrário do instante de eternidade, o encontro luminoso é um fragmento de tempo, uma ilha de experiência que pode ser recordada como um acontecimento, modificável pela fantasia.
Também o homem enamorado continuará, durante a separação, a pensar em sua amada. Às vezes, sentirá mesmo um desejo lancinante. Se imagina tê-la perdido, sentirá uma saudade dolorida. Em geral, porém, quando a cumprimenta, mesmo que esteja emocionado, sente-se cheio de vida. O encontro luminoso o torna mais audaz. Partindo, está certo de tornar a encontrá-la e procura somente merecer seu amor. A lembrança dela mora em seu coração, despertando-lhe arrojo, coragem. Enquanto trabalha, pensa nela. Se a sente sua, ela lhe faz companhia, lhe dá forças, alegra-o. No homem, a memória preenche a descontinuidade da presença.
Se o homem não está enamorado, o desejo de rever aquela mulher dependerá da beleza do encontro. Se este foi luminoso, desejará encontrá-la outra vez. E, se o milagre se repete, desejará encontrá-la ainda mais uma vez. Se o encontro não acontece, se nele se insinuam problemas, rancores, a amargura do cotidiano, diminui seu desejo de rever a mulher. Porque, por mais profunda, luminosa e extasiante que tenha sido a experiência erótica, não é suficiente para construir uma relação permanente. Somente o toque maravilhoso do enamoramento cria o irreversível. A sedução feminina tende a isso, mas o enamoramento profundo é um acontecimento raro, improvável. Além do mais, a mulher custa a reconhecê-lo com segurança. Tende a confundir o apaixonamento com a continuidade temporal física, coisa válida para ela, mas não para o homem. Procura obtê-la então com súplicas, ou duplicando a sedução erótica. Mas, assim fazendo, é obrigada a repetir seu esforço e torna-se cada vez mais insegura. A sedução feminina deve renovar-se para exorcizar o descontínuo que existe no homem.

(Francesco Alberoni - O Erotismo, Fantasias e realidades do Amor e da Sedução)

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publicado às 19:32


NO MILAGRE DA VIDA

por Thynus, em 21.09.14
Por mais complexa que seja, no nível químico a vida é curiosamente trivial: carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, um pouco de cálcio, uma pitada de enxofre, umas partículas de outros elementos bem comuns – nada que você não encontre na farmácia próxima –, e isso é tudo que você precisa. A única coisa especial nos átomos que o constituem é constituírem você. É milagre da vida.
(BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)
O DNA, as proteínas e os outros componentes da vida não poderiam prosperar sem algum tipo de membrana para contê-los. Nenhum átomo ou molécula já alcançou a vida independentemente. Extraia um átomo de seu corpo, e ele estará tão vivo quanto um grão de areia. Somente quando se reúnem no refúgio protetor de uma célula é que esses materiais diversos podem fazer parte da dança surpreendente a que chamamos de vida. Sem a célula, não passam de substâncias químicas interessantes. Mas sem as substâncias químicas, a célula não tem utilidade. Nas palavras do físico Paul Davies: “Se tudo precisa de todo o resto, como a comunidade de moléculas conseguiu surgir originalmente?”. É como se todos os ingredientes de sua cozinha tivessem conseguido se juntar e se auto-assar, formando um bolo – mas um bolo capaz de se dividir quando necessário para produzir mais bolos. Não espanta que chamemos isso de o milagre da vida. Tampouco espanta que mal tenhamos começado a entendê-la.
(BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)

Transposto o limite do tempo e vencida a dimensão da distância, mudam-se os conceitos sob a ação dinâmica da vontade.
Quem adquire o hábito de liberar-se nas asas velozes do pensamento, alcança 'os longes espaços' e trá-los para perto das emoções.
Quando se logra a empresa de compreender, decorrência natural do exercício mental de crer, o futuro chega agora, delineado e pronto pelas ações realizadas.
Não há, então, remotos lugares, não se medindo distâncias com os instrumentos habituais, mas com as vibrações do sentimento.
Não existem ontens nem amanhãs, mergulhando-se em uma realidade que começou hoje, um longo hoje de momentos que foram e ficaram, que virão e já se encontram.
Se são examinados os anseios projetados para longe, descobre-se que está perto o começo do fim, da mesma forma que o esperado já chegou, desde o momento em que se pensou na sua realidade.
Do mesmo modo, o que aconteceu prossegue sucedendo, enquanto é trazido à atualidade da imaginação.
O que se pretende, já se possui.
O que se desconhece, passa a saber-se, a partir do instante em que a ignorância se apresenta e começa a desaparecer.
Quanto se dá, pertence ao doador, e tudo que se recebe deixa de ser posse, para converter-se em dívida.
No longe-perto do amanhã-hoje, o pensamento cósmico do amor vê a eterna presença da vida, que se organiza em forma e se dilui em energia, sempre indestrutível e real.
Nenhum lugar está longe nem perto e coisa alguma se encontra distante ou próxima, no tempo, se o homem deseja e busca.
Longe-perto quando se sabe e próximo-remoto quando o ser se aturde e se debate na ignorância.
Agora e aqui, tudo que se deve e se pode realizar no milagre da Vida.
Vive, portanto!
(Divaldo Franco - No Longe do Jardim)

 

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publicado às 08:48


QUERIDA SERPENTE

por Thynus, em 20.09.14
“Quem ama sua mulher por ser formosa, cedo lhe converterá o amor em ódio; e muitas
vezes não será necessário perder-se a formosura para perder-se também o amor, porque
como o que se emprega nas perfeições e partes do corpo não é o verdadeiro amor,
se não apetite, e a nossa natureza é sempre inclinada a variedades, em muitos não durará”,
admoestava um pregador resmungão.

Era preciso enfear o corpo para castigá-lo. Os vícios e as “fervenças da carne”, ou seja, o desejo erótico, tinham como alvo o que a Igreja considerava ser “barro, lodo e sangue imundo”. Onde tudo era feio porque pecado. Isso, porque a mulher – a velha amiga da serpente e do Diabo – era considerada, nesses tempos, como um veículo de perdição da saúde e da alma dos homens. Aquela “bem aparecida”, sinônimo no século XVII para formosa, era a pior!
Logo, modificar a aparência ou melhorá-la com artifícios implicava aumentar essa inclinação pecaminosa. Mais: significava, também, alterar a obra do Criador, que modelara seus filhos à sua imagem e semelhança. Interferência impensável, diga-se de passagem. Vários opúsculos circulavam tentando impedir as vaidades femininas. Os padres confessores, por exemplo, ameaçavam com penas infernais: “Estar à janela cheia de bisuntos, tingir o sobrolho com certo ingrediente e fazer o mesmo à cara com tintas brancas e vermelhas, trazer boas meias e fingir um descuido para as mostrar, rir de manso para esconder a podridão ou a falta dos dentes e comer mal para vestir bem.”
Apesar de tantas advertências, a mulher sempre quis seduzir, fazendo-se bela. Se a Igreja não lhe permitia tal investimento, a cultura a incentivará a forjar os meios para transformar-se.
Os dispositivos de embelezamento, assim como o cortejo de sonhos e ilusões que os acompanhava, eram de conhecimento geral. O investimento maior concentrava-se no rosto, lugar por excelência da beleza. As outras partes do corpo, com exceção dos pés, eram menos valorizadas. Consequência direta dessa valorização, o embelezamento facial recorria a certa incipiente técnica cosmética. A preocupação maior era, em primeiro lugar, tratar a pele com remédios. Seguia-se a maquilagem com pós, “bisuntos” e “tintas vermelhas e brancas”, como já se viu.
Não faltaram marcas do apetite masculino em relação à morena ou mulata na literatura dos séculos XVIII e XIX. O riso de pérolas e corais, os olhos de jabuticaba, as negras franjas e a cor do buriti são os signos sedutores dessa fêmea que convida ao paladar, à deglutição, ao tato.
São elas as verdadeiras presas do desejo masculino, mulheres-caça, que o homem persegue e devora sexualmente. Morenice e robustez eram, então, padrões de erotismo velado e de beleza.
Aos cuidados com a beleza do rosto somaram-se outros, relativos à roupa. O caráter ambivalente dessa última, desvelando ao cobrir as partes mais cobiçadas da anatomia, constituía, ao mesmo tempo, um instrumento decisivo e um obstáculo à sedução. Montaigne protestava: “por que será que as mulheres cobrem com tantos impedimentos as partes onde habita nosso desejo? Para que servem tais bastiões com os quais elas armam seus quadris, se não a enganar nosso apetite, e a nos atrair ao mesmo tempo em que nos afastam?”. O pudor aumentava a cobiça que deveria atenuar. E essa obsessão de ver o que não se mostrava durou.
Anos mais tarde, o escritor francês Anatole France criou também uma parábola sobre o tema em seu A ilha dos pinguins. Um missionário, disposto a cobrir a nudez das aves que convertera, resolve vestir uma delas, e como esta passa a ser perseguida pelo conjunto de seus semelhantes, loucos de desejo, conclui: “o pudor comunica às mulheres uma atração irresistível”.
Mas desejar ardentemente uma mulher trazia riscos. Acreditava-se que o desequilíbrio ou a corrupção dos humores, graças à secreção da bile negra, explicasse uma desatinada erotização. Dela provinham os piores crimes e os mais violentos casos amorosos. Apesar do medo de castigos divinos, a razão não conseguia, muitas vezes, controlar o calor vindo do coração. Mas sem o controle de suas paixões físicas, homens e mulheres se perdiam. Pois foi o sentimento fora de controle, dando em erotismo desenfreado, que consolidou a ideia do desejo sexual como enfermidade.
Ao final do Renascimento, longos tratados médicos são escritos sobre o tema: O antídoto do amor, de 1599, ou A genealogia do amor, de 1609, são bons exemplos desse tipo de literatura.
Seus autores tanto se interessam pelas definições filosóficas do amor quanto pelos diagnósticos e tratamentos envolvidos na sua cura. Todos, também, recorrem a observações misturadas a alusões literárias, históricas e científicas para concluir que o amor erótico, amorhereos ou melancolia erótica, era o resultado dos humores queimados pela paixão. E mais: que todos os sintomas observados poderiam ser explicados em termos de patologia. De doença.
Entre as causas externas do desejo erótico estariam o ar e os alimentos. E entre as internas, a falta de repouso e de sono. Em 1540, em Portugal, João de Barros dizia que a paixão física “abreviava a vida do homem”. Incapazes de conter nutrientes, os membros enfraqueciam-se, minguando ou secando. Muitos males decorreriam daí, entre eles a ciática, as dores de cabeça, os problemas de estômago ou dos olhos. A relação sexual, por sua vez, emburrecia, além de abreviar a vida. E ele concluía: só os “castos vivem muito”.
E como combater tal problema? Os remédios poderiam ser dietéticos, cirúrgicos ou farmacêuticos. Ao “regime de viver”, que se esperava fosse tranquilo, somavam-se sangrias nas veias de braços e pernas. E, ainda, remédios frios e úmidos, como caldos de alface, grãos de cânfora e cicuta, que deviam ser regularmente ingeridos. Contra o calor do desejo sexual, tomavam-se sopas e infusões frias, recomendando-se, também, massagear os rins, pênis e períneo com um “unguento refrigerador feito de ervas”. Comer muito era sinal de perigo. Os chamados “manjares suculentos” eram coisa a evitar. Além disso, recomendava-se “Dormir, só de lado, nunca de costas, porque a concentração de calor na região lombar desenvolve excitabilidade aos órgãos sexuais”.

(MARY DEL PRIORE - Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil)

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publicado às 16:38


O OBSCURO OBJETO DE DESEJO

por Thynus, em 20.09.14

Cobrindo totalmente o corpo da mulher, a Reforma Católica acentuou o pudor, afastando-a de seu próprio corpo. Eis por que dirigir o olhar ao sexo feminino prenunciava um caráter debochado, bem representado nos poemas de Gregório de Matos, que, ao despir a mulher, encontrava seu “cono”, “o cricalhão”, “a fechadura” ou “Vênus”. Os pregadores barrocos preferiam descrevê-lo como a “porta do inferno e entrada do Diabo, pela qual os luxuriosos gulosos de seus mais ardentes e libidinosos desejos descem ao inferno”.
A vagina só podia ser reconhecida como órgão de reprodução, como espaço sagrado dos “tesouros da natureza” relativos à maternidade. Nada de prazer. As pessoas consideradas “decentes” costumavam se depilar ou raspar as partes pudendas para destituí-las de qualquer valor erótico. Frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos eram apanágios das prostitutas. Tal lugar geográfico só podia estar associado a uma coisa: à procriação.
Em 1559, outro Colombo – não Cristovão –, mas Renaldus, descobria outra América. Ou melhor, outro continente: o “amor Veneris dulcedo appeletur ” ou clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez e que era, segundo sua descrição, “a fonte do prazer feminino”. A descoberta, digerida com discrição nos meios científicos, não mudou a percepção que existia, há milênios, sobre a menoridade física da mulher. O clitóris não passava de um pênis miniaturado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. Sua existência apenas endossava a tese, comum entre médicos, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens, porém – segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV – “elas as possuíam no interior do corpo e não no exterior”. Galeno, que, no século II de nossa era, esforçara-se por elaborar a mais poderosa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, empenhou-se com afinco em demonstrar que a mulher não passava, no fundo, de um homem a quem a falta de perfeição conservara os órgãos escondidos.
Nessa linhagem de ideias, a vagina era considerada um pênis interior; o útero, uma bolsa escrotal; os ovários, testículos, e assim por diante. Ademais, Galeno invocava as dissecações realizadas por Herófilo, anatomista de Alexandria, provando que uma mulher possuía testículos e canais seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero. Os do macho ficavam expostos e os da fêmea eram protegidos. A linguagem consagrava essa ambígua visão da diferença sexual. Alberto, o Grande, por exemplo, revelava que tanto o útero quanto o saco escrotal eram associados à mesma palavra de origem: “bolsa”, “bursa”, “bource”, “purse”. Só que, no caso do órgão masculino, a palavra tinha também um significado social e econômico, pois remetia à bolsa, lugar de congraçamento de comerciantes e banqueiros. Lugar, por conseguinte, de trocas e ação. No caso das mulheres, o útero, no entanto, era chamado “madre ou matriz” e associado ao lugar de produção: “as montanhas são matrizes de ouro”! Logo, espaço de espera, imobilidade e gestação.

(MARY DEL PRIORE - Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil)

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