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Teria Jesus um pai desconhecido?

por Thynus, em 31.08.14
Embora apenas Mateus e Lucas afirmem o "nascimento virgem" de Jesus, e esse ensinamento não seja encontrado em nenhuma outra parte do Novo Testamento, a crença de que a gravidez de Maria resultou da intervenção de Deus sem qualquer envolvimento masculino tornou-se um dogma teológico fundamental do cristianismo primitivo. Para milhões de cristãos, a mera sugestão de que Jesus teria sido concebido por um processo normal de reprodução sexual humana, mesmo que fosse de alguma forma santificado por Deus, é vista como um escândalo, até como uma completa heresia. Mas, por sua própria natureza, a história é um processo aberto de investigação, que não pode ser constrangido por dogmas de fé. Os historiadores são obrigados a examinar todas as provas existentes, mesmo que tais descobertas possam ser consideradas chocantes ou sacrílegas por algumas pessoas. O historiador afirma que todos os seres humanos têm um pai e uma mãe biológicos e que Jesus não constitui uma exceção. Isso abre duas possibilidades — o pai de Jesus seria José ou outro homem desconhecido. Poderia uma leitura mais histórica desses dois relatos de nascimento, à luz de todas as provas que sobreviveram, revelar o Jesus profundamente humano que a fé dogmática ocultou? Poderia uma tal revelação terminar sendo tão significativa espiritualmente quanto a crença no "nascimento virgem" — ensinamento que muitos cristãos sinceros têm certa dificuldade em aceitar literalmente?'
Os eruditos que colocam em questão a verdade literal dos relatos de nascimento feitos por Mateus e Lucas sugerem que o fato de dar a Jesus um extraordinário nascimento sobrenatural é uma maneira de afirmar a natureza divina de Jesus como "Filho de Deus". Essa ideia de seres humanos procriados por deuses é extremamente comum na cultura greco-romana.' Há uma legião de heróis citados como sendo o produto de uma união entre sua mãe e um deus — Platão, Empédocles, Hércules, Pitágoras, Alexandre, o Grande e mesmo César Augusto.
A ideia do homem divino (theios aner) cujo nascimento sobrenatural, capacidade de fazer milagres e morte extraordinária o separam do mundo comum dos mortais é encontrada em vários textos. Esses heróis não são deuses "eternos", como Zeus ou Júpiter, mas seres humanos que foram elevados a um estado celeste de vida imortal. Seus templos e santuários povoavam cada cidade e cada província do Império Romano,' na época de Jesus. É fácil imaginar que os cristãos primitivos que acreditavam em Jesus o queriam tão louvado e celestial quanto qualquer dos heróis e deuses gregos e romanos, e se apropriaram dessa maneira de contar a história de seu nascimento como uma maneira de afirmar que Jesus era ao mesmo tempo humano e divino. Os intérpretes modernos, que adotam essa abordagem para as histórias, afirmam habitualmente que José era provavelmente o pai, e que esses relatos sobrenaturais eram inventados pelos discípulos de Jesus para atribuir-lhe honras e promover seu status elevado de uma maneira comum a essa cultura.
Mas há outra possibilidade, uma explicação alternativa ao que poderia estar por trás desses relatos sobre o "nascimento virgem", que apresenta alguns fatos extremamente sugestivos a seu favor. Quando lemos os relatos sobre a gravidez desconhecida de Maria, o que impressiona em ambos os textos é o tom subjacente de realismo que percorre as narrativas. Elas colocam em cena personagens reais, vivendo em um tempo e um espaço reais. Ao contrário, as histórias de nascimento comuns à literatura greco-romana têm seguramente um sabor legendário. Por exemplo, na narrativa de Plutarco sobre o nascimento de Alexandre, o Grande, sua mãe, Olímpia, ficou grávida de uma cobra; esse acontecimento foi anunciado por um trovão que selou seu ventre, de maneira a que seu marido, Felipe, não pudesse mais ter relações sexuais com ela.' Sem dúvida, tanto Mateus quanto Lucas incluem sonhos e visões de anjos em seus relatos, mas o centro mesmo da história — em que um homem descobre que sua noiva está grávida e sabe que não é o pai — tem uma qualidade realista e profundamente humana. Apesar dos elementos miraculosos, a narrativa "tem um tom verdadeiro".
E se essas histórias do nascimento virgem tivessem sido criadas não tanto para apresentar Jesus como um herói divino, no estilo greco-romano, mas para tratar de uma situação realmente chocante — a gravidez de Maria antes de seu casamento com José? Todas as quatro mulheres mencionadas por Mateus em sua genealogia tiveram relações sexuais fora do casamento, e pelo menos duas delas,ficaram grávidas. Ao nomear essas mulheres especiais, Mateus parece estar tratando implicitamente da situação de Maria.
Nossos Evangelhos dão algumas indicações de que boatos sobre a ilegitimidade já estavam circulando à boca pequena. Marcos, nosso primeiro Evangelho, escrito por volta de 70 d.C., inclui uma cena importante em que Jesus volta à sua casa em Nazaré, já adulto, suscitando rumores entre seus concidadãos. Notem com cuidado como eles falam:
Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs? (Marcos 6:3)
Mateus usa Marcos como fonte e inclui a mesma história, mas notem como, sabiamente, ele diz as coisas de outra maneira:
Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão todas suas irmãs conosco? (Mateus 13:55).
Esta mudança sutil, mas crítica, na maneira de se exprimir é absolutamente reveladora:
Não é este o carpinteiro, o filho de Maria? (Marcos)
Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria? (Mateus)
Chamar Jesus de "o filho de Maria" indica que seu pai era desconhecido. No judaísmo, refere-se invariavelmente às crianças como filhos ou filhas de seu pai — não de sua mãe. Marcos nunca se refere a José, seja pelo nome ou de outra maneira qualquer. Ele evita inteiramente a questão da paternidade. Deve haver uma boa razão para este silêncio. Ao contrário, Mateus rapidamente refaz o fraseado de Marcos, de modo a que a questão da ilegitimidade não seja sequer evocada. Vemos mesmo que os manuscritos gregos posteriores do Evangelho de Marcos tentam "resolver" o escândalo, alterando o texto, de forma a falar do "filho de Maria e José".
Há alguns manuscritos cristãos perdidos redescobertos nos últimos dois mil anos, pois contém 114 ditos de Jesus. Alguns o consideram um "quinto evangelho", na medida em que fornece tantas peças que faltavam do ensinamento de Jesus — que de outra maneira se :criam perdido e seriam esquecidas. Mais para o fim da coletânea, na Máxima 105, JESUS diz a seus discípulos:
Alguém que conhece seu pai e sua mãe será chamado de filho de uma prostituta. (A tradução é minha. O termo"prostituta"(porne) nesse contexto é difamatório para alguém acusado de imoralidade sexual ou infidelidade).
Muitos eruditos pensam que esse dito críptico é um eco do triste rótulo que Jesus teve de enfrentar durante toda sua vida — ou seja, de que sua mãe, Maria, tinha ficado grávida fora do casamento. O Evangelho de Tomás não contém histórias sobre o nascimento ou referências a José ou ao nascimento virgem, mas parece conter uma certa reflexão sobre a história da ilegitimidade. A dedução é que a acusação era injusta, que Jesus conhecia perfeitamente as circunstâncias de seu nascimento, assim como a identidade do pai desconhecido e ausente. Assim, se o pai de Jesus não era José, quem poderia ter sido ele? E em que circunstâncias Maria foi acusada de fornicação e rotulada de "prostituta"? Provavelmente nunca o saberemos, em termos de certeza histórica. Se fôssemos preencher o certificado de nascimento de -Jesus, teríamos de colocar"pai desconhecido". Mas essa questão não está inteiramente resolvida. Histórias e rumores circularam bastante cedo e um nome — Pantera — aparece inesperadamente aqui e ali com alguma coerência.
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Solucionado o mistério de Pantera
A primeira versão da história de Pantera vem de um filósofo grego chamado Celso. Em um trabalho anticristão intitulado Sobre a verdadeira doutrina, escrito por volta de 178 d.C., ele relata um conto em que Maria "estava grávida de um soldado romano chamado Pantera" e foi expulsa por seu marido como adúltera.' É pouco provável que Celso tenha inventado esse nome ou a ocupação do homem que ele dá como sendo o pai fisiológico de Jesus. Ele não faz mais do que repetir o que se falava nos círculos judeus.
Esse mesmo nome aparece ainda mais cedo. O proeminente rabino Eliezer ben Hircano, que viveu por volta do fim do século I d.C., relata um ensinamento que recebeu de um seguidor de Jesus, oriundo da Galileia, chamado Jacó de Sikhnin, na cidade de Séforis. Algumas pessoas identificaram esse Jacó como o neto do irmão mais novo de Jesus, Judas. Jacó transmitia seu ensinamento "em nome de Jesus, filho de Panteri". (Existem muitas ortografias do mesmo nome: Pantira, Pandera, Pantiri, Panteri. A história ocorre três vezes na literatura rabínica, mas o relato mais antigo se encontra no Tosefta Palestino, t. Hullin 2.24. As demais versões estão no Talmude Babilônico (b. Avodah Zarah 16b-17a) e o Midrash (Ecclesiastes Rabba 1:8:3). Há mesmo uma disputa entre os primeiros rabinos que envolve o mesmo seguidor de Jesus, chamado Jacó, sobre se se pode ou não curar uma mordida de serpente "em nome de Jesus, filho de Panter". (Tosefta Palestino t. Hullin 2.22-23.Também se encontra uma versão no Talmude Babilônico b.Avodah Zarah 27b. Uma história de cura semelhante encontra-se no Talmude de Jerusalém, y. Shabbat 14d). Essas fontes primitivas não informam por que Jesus seria chamado "filho de Pantera" e tampouco identificam Pantera como um soldado romano, mas mostram que Jesus era identificado assim bastante cedo na Galileia, e que esse nome poderia ser usado sem necessidade de explicação ou qualificação." Inúmeros eruditos cristãos sugeriram que Pantera fosse um termo ofensivo de gíria, um jogo com a palavra grega parthenos, que significa "virgem", mas as duas palavras não combinam tanto assim. Outros sugeriram que Jesus estivesse sendo caluniosamente chamado de "filho de uma pantera", com referência à natureza selvagem e lúbrica de seu verdadeiro pai. O problema que essas sugestões apresentam é que as primeiras referências a Jesus como "filho de Pantera" não são polêmicas. No judaísmo, quando se quer identificar uma pessoa, deve-se ligá-la ao nome de seu pai. Tal é o sentido claro dessas primeiras referências. Elas se destinam a identificar, não a difamar.
As provas mostram que os cristãos primitivos levavam essa tradição muito a sério e não foram capazes de desmenti-la como um rumor difamatório. Epifânio, cristão ortodoxo do século IV, afirma que há um certo grau de autenticidade na tradição de "Jesus filho de Pantera", mas a explica pelo fato de que o pai de José era conhecido como Jacó Pantera — razão pela qual esse nome fazia parte da família. (Epifânio, Panarion (Adv. Haer.) 78.7.5 (PG 42:708D). Significativamente, em uma época tão tardia quanto o século VIII d.C., apareceram tentativas similares para "domesticar" a tradição de Pantera. João de Damasco transmite a tradição de que o bisavô de Maria era chamado Pantera. Essas tentativas pouco plausíveis para legitimar o nome de "Pantera" como parte dos ancestrais de Jesus mostra que a designação "Jesus, filho de Pantera" não poderia ser simplesmente desmentida como uma invenção maliciosa dos oponentes judeus. Sabemos que Pantera/Panthera era um nome grego que aparece em inúmeras inscrições latinas desse período, especialmente como um nome familiar de soldados romanos. De uma coisa podemos estar certos — Pantera é um nome real, não é nenhum termo inventado para difamar.
Em 1906, o grande historiador alemão Adolf Deissmann publicou um curto artigo intitulado "O nome Pantera", em que detalha as várias inscrições antigas que utilizaram esse nome no século I e suas imediações." Ele conseguiu demonstrar de maneira conclusiva que o nome era usado durante essa época e que era especialmente apreciado por soldados romanos. Um dos exemplos citados por ele se destaca: foi encontrado na inscrição da pedra tumbal de um certo Tibério Júlio Abdes Pantera, descoberta em um cemitério romano, em 1859, em Bingerbrück, a cerca de vinte quilômetros ao norte de Bad Kreuznach, na confluência entre os rios Nahe e Reno. Deissmann inclui uma fotografia mostrando a imagem esculpida de um soldado romano com o pescoço e a cabeça cortados e uma inscrição latina claramente preservada sob seus pés, que dizia:
Tibério Júlio Abdes Pantera, de Sidônia, 62 anos,soldado com 40 anos de serviço da 1ª. coorte de arqueiros aqui jaz. (O texto em latim diz:"Tib. lul. Abdes. Pantera. Sidonia. ann. LXII stipen. )00«. miles. exs. coh I. sagitarriorum. h.s.e."(Corpus Inscriptionum Latinarum XIII 7514).
A inscrição de Tibério Júlio Abdes Pantera
Deissmann observa que esse "Pantera" específico morreu em meados do séculoI d.C., tendo vindo para a Alemanha proveniente da Palestina. Essa convergência improvável do nome, da data e do lugar me intrigaram. Decidi perseguir essa pedra tumbal, para descobrir os detalhes de sua descoberta e qualquer outra informação possível. Eu já tinha encontrado referências esparsas a essa tumba específica deera em vários livros mas, até onde eu sabia, ninguém ainda a tinha realmente estudado, e todo mundo estava simplesmente citando o artigo original de Deissmann, de 1906. Sem dúvida alguma, ela ainda teria muita coisa a nos ensinar. Claro que eu não tinha nenhuma prova de que essa pedra tumbal pudesse ser pelo menos localizada. Tinha ainda que imaginar quais eram as probabilidades de que ela tivesse resistido a duas guerras mundiais e de que o museu mencionado por Deissmann, em 1906, em Bad Kreuznach, ainda existisse em 2005. Localizei um site mantido pela cidade de Bad Kreuznach e me enchi de esperanças quando descobri que a cidade se vangloriava de ter um museu de antigüidades romanas chamado Rõmerhalle. Meu coração quase falhou quando li que, entre seus tesouros, encontrava-se uma coleção de pedras tumbais de soldados, descobertas na cidade vizinha de Bingerbrück. Certamente a de Tibério Júlio Abdes Pantera estaria entre elas.
Contactei a curadora do museu e fiquei satisfeito em saber que a pedra tumbal de Tibério Júlio Abdes Pantera estava a salvo e em exposição. Soube ainda que eles possuíam toda uma coleção de nove pedras tumbais de soldados romanos que tinham sido preservadas, descobertas quase por acaso no mesmo lugar, durante a construção da estação ferroviária de Bingerbrück, entre 1859 e 1861. Originalmente reunidas pela Sociedade Histórica local, foram expostas em 1933, no velho museu da cidade, sendo mais tarde transferidas para o recém-construído Rõmerhalle. Felizmente, Bad Kreuznach não fora bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. A curadora disse também possuir um espesso dossiê nos arquivos detalhando a descoberta original, que incluía urnas funerárias e moedas, a meu dispor para consulta. Em seguida, incitada por minhas questões, ela me falou de outra descoberta que ninguém conhecia no museu. Escondida em uma reserva na parte de trás do museu, em meio a um monte de velhas telas, encontrava-se a cópia de uma pintura a óleo original, feita em 1860, que mostrava em detalhe a descoberta do cemitério romano. Decidi viajar para a Alemanha a fim de examinar pessoalmente esse material.
Há algo extremamente empolgante em uma tumba antiga, um ossuário ou uma inscrição sobre um túmulo do tempo de Jesus, e, sem dúvida, eu vira um monte deles em Israel. Mas jamais poderia imaginar que, de todos os lugares do mundo, minha busca do Jesus histórico acabasse me levando à Alemanha. Haveria uma remota possibilidade de que eu logo me visse diante do que poderia ser uma autêntica relíquia da família de Jesus? Na verdade, isso parecia fruto de uma especulação inacreditável, mas coisas mais estranhas e inesperadas já aconteceram no mundo da arqueologia. Valia a pena investigar aquele Pantera, tivesse ele ou não algo a ver com a tradição que dizia que Jesus era o "filho de Pantera".
Essas eram as perguntas que enchiam minha mente no verão de 2005, quando voei para Frankfurt, na Alemanha, e tomei um trem matutino para a pequena cidade Bad Kreuznach, a uma hora ao sudoeste do rio Nahe. Bad Kreuznach era um importante postos avançado na época romana, e a região que o rodeava estava povoada de antigas ruínas romanas. (Até pouco tempo, Bad Kreuznach era o quartel-general da 1, Divisão Blindada do Exército dos Estados Unidos. Essa importante base foi fechada em dezembro de 2001). Não é difícil esquecer como essa fronteira alemã era importante para os romanos na época de Jesus. Era como o Vietnã ou o Iraque daqueles dias. Inúmeros soldados romanos eram transferidos para esses postos avançados na Alemanha, e milhares deles morreram e foram enterrados ali. Mas o que teria isso a ver com o pai de Jesus?
No museu Rõmerhalle, eu tive bastante tempo de fotografar, medir e examinar atentamente essas pedras tumbais, especialmente a de Tibério Júlio Abdes Pantera. Comecei também a ler os relatórios originais de sua descoberta, desde 1859. Lentamenente, iniciei a montagem das provas, e uma imagem extraordinária começou a emergir. Convenci-me de que não se devia logo rejeitar inteiramente uma possível associação entre esse soldado romano em particular e a tradição relacionada ao pai de Jesus, apenas porque soava ofensiva à piedade e à fé. Todos os fatos relevantes deveriam ser propostos e cuidadosamente considerados.

James Tabor examinando a sepultura de Pantera na Alemanha
Soube que três pedras tumbais, incluída a de Pantera, tinham sido inicialmente descobertas nos dias 19 e 20 de outubro de 1859, a cerca de trinta quilômetros do rio Nahe. A inscrição portava formalmente o nome completo de Pantera, Tibério Júlio Abdes Pantera, sendo este último seu sobrenome. Os nomes Tibério Júlio são cognomes ou nomes adquiridos, que indicam que Pantera não era um romano nato, mas um antigo escravo libertado, que recebeu os direitos de cidadania de Tibério César, por seus serviços no exército. Normalmente, os indivíduos se alistavam por 25 anos, mas Pantera fez carreira no exército, servindo durante quarenta anos até sua morte, aos 62 anos. Como o Imperador Tibério assumiu o poder em 14 d.C., pode-se pressupor que a morte de Pantera, aos 62 anos, ocorreu alguns anos depois, provavelmente por causas naturais, pois ele se alistara no exército aos 22 anos.
Abdes é o primeiro nome de Pantera, coisa extremamente interessante. Esse nome é a versão latinizada do nome aramaico ebed, que significa "servo de Deus", o que indica que Pantera era de origem semítica, ou mesmo judaica, fosse ele nativo, convertido ou de uma família simpática ao judaísmo. Pode até mesmo ter sido judeu. Pantera é um nome grego, embora apareça aqui em uma inscrição latina.Em 1891, o arqueólogo francês Charles Clermont-Ganneau fez uma descoberta surpreendente. Em uma tumba judaica do século I, na Estrada de Nablus, ao norteda Cidade Velha de Jerusalém, havia um ossuário com o nome Pentheros, em grego,junto com o de um certo Josepos ou José, filho desse Pantera. Os enterros indicam que ambos eram judeus, o que nos dá uma prova definitiva de que o nome Panteraera usado na época de Jesus tanto por judeus quanto por romanos. (A ligeira diferença de ortografia é insignificante e comum em nomes gregos adotados por semitas. Sobre essa descoberta, consulte o Corpus Inscriptionum Judaicarum 1211).
Abdes Pantera era originário de Sidônia, uma cidade costeira da Síria-Palestina, ao norte de Tiro, a menos de sessenta quilômetros de Séforis. Sabe-se que essa coorte específica de guerreiros tinha vindo da Palestina para a Dalmácia (Croácia), no ano 6 d.C., tendo sido depois transferida para a região dos rios Reno/Nahe em 9 d.C. Não provoca surpresa o fato de que Pantera tenha morrido e sido sepultado na Alemanha, como tantos outros soldados romanos que lutavam nessas terríveis guerras de fronteira na época de Jesus. Augusto chegou mesmo a transferir Varo, o legado da Síria, para o comando das legiões romanas ao norte dessa área da Alemanha. Os romanos ocuparam postos avançados na Alemanha, e o cemitério de Bingerbrück fornece provas de que alguns veteranos passaram suas vidas inteiras nessa fronteira. As nove outras pedras tumbais parecem datar do mesmo período — meados ao fim do século I d.C. — se nos baseamos nas provas fornecidas pelasmoedas, pelo estilo das pedras tumbais e pelo conteúdo de suas inscrições. O quadro de 1860 retratando a descoberta do cemitério de Bingerbrück mostra claramente que também foram descobertas urnas funerárias contendo as cinzas e os ossos dos falecidos. Os documentos mais antigos indicam que a maior parte dessas urnas foi destruída no processo de escavação, mas uma delas foi conservada. Não se sabe exatamente onde ela se encontra, embora haja algumas pistas. Não pude deixar de me indagar se o destino fora o responsável pela preservação dos restos de Tibério Júlio Abdes Pantera. Só o tempo poderá dizer.
Assim, o que se pode concluir com relação a Abdes Pantera? Haverá uma remota esperança de que, entre as milhares de inscrições funerárias desse período, essa possa ser a pedra tumbal do pai de Jesus — ainda por cima, na Alemanha? As possibilidades parecem ser mínimas, mas essas provas não devem ser imediatamente abandonadas. Pantera era um soldado romano, provavelmente um judeu; ele era nativo da Síria-Palestina, ao norte da Galileia e contemporâneo de Maria, mãe de Jesus. Temos assim o nome, a profissão, o lugar e o tempo corretos. Não há maneira de estabelecer uma ligação com esse tipo de prova — a não ser por testes de DNA de restos identificáveis.
É também importante não pensar que ser filho de um soldado romano tem forçosamente uma conotação negativa. João Batista tinha relações harmoniosas com os soldados romanos que vinham ouvi-lo: uma das primeiras descrições que se tem indica que João chegou mesmo a batizar alguns soldados romanos, que fizeram parte do movimento messiânico iniciado por João e seu parente Jesus (Lucas 3:14). Vários oficiais romanos foram elogiados por sua espiritualidade e sua piedade no Novo Testamento, e alguns deles fizeram parte dos primeiros discípulos de Jesus. (7) Na verdade, Jesus elogiou um centurião romano em Cafarnaum, uma cidade do Mar da Galileia, por ter mais fé do que qualquer pessoa que ele jamais tivesse encontrado — incluindo seus colegas judeus (Lucas 7:9). Outro centurião romano declarou, no momento da morte de Jesus,"Verdadeiramente, esse homem era o Filho de Deus" (Marcos 15:39).
Certas pessoas que dão peso histórico à tradição de "Jesus filho de Pantera" sugerem que talvez Maria tenha sido violada por um soldado romano. Tal possibilidade existe, se levarmos em conta os tempos e as circunstâncias turbulentas envolvendo o nascimento de Jesus. Por chocante que tal ideia possa parecer no início, alguns fizeram desse cenário uma prova indiscutível de aceitação e amor incondicionais, certamente por parte de Maria, como mãe, mas também por parte de José, como o marido que aceitou adotar a criança como sua. Maria pode também ter ficado grávida numa relação que ela tivesse escolhido, o que seria uma alternativa. Como nada se sabe das possíveis circunstâncias da gravidez de Maria e de sua relação com o pai de Jesus, fosse ele ou não um soldado romano, não há nenhuma razão para postular algo feio ou sinistro. Não possuímos nenhum detalhe sobre as circunstâncias que levaram Maria a ficar noiva de José. Teria ela participado voluntariamente de um casamento arranjado com um homem mais velho? Teria ela mantido uma relação anterior com outro homem? Estaria ela já grávida, mesmo antes de seu noivado com José? Talvez o responsável tivesse deixado a região desconhecendo aquela gravidez. Nosso Pantera enterrado na Alemanha deveria ser um homem mais jovem, aproximadamente da idade de Maria na época do nascimento de Jesus. Do ponto de vista do historiador, essa questão específica deveria ser deixada em aberto. Embora Mateus e Lucas representem Maria como tendo ficado grávida depois de seu noivado, como nenhum deles acredita que Jesus tenha tido um pai humano, essa representação não deve ser tomada como a última palavra. Maria pode perfeitamente ter ficado grávida antes de seu noivado, que foi então arranjado pela família e aceito por José com conhecimento de causa. Minha hipótese é que simplesmente não sabemos — e assim, não devemos emitir julgamentos ou afirmações negativas ao ouvir a expressão "soldado romano". Provavelmente os inimigos de Jesus a transformaram na pior coisa do mundo, usando livremente os rótulos de "fornicação" e "prostituta". Não há nenhuma razão para que endossemos suas afirmações. Quando se trata de escândalos familiares, gravidezes antes do casamento ou noivados rompidos, os boatos de rua de uma aldeia rural da Galileia são a última coisa para a qual devemos nos voltar, quando buscamos a objetividade.
Outra peça que pode ser significativa nesse quebra-cabeça 'e uma das histórias mais curiosas escritas por Marcos, nosso primeiro evangelista. Lembrem-se de que foi Marcos quem chamou Jesus de "filho de Maria", e nunca mencionou José ou o nascimento de Jesus. É ele quem, de repente, relata uma viagem misteriosa de Jesus quando pregava às margens do Mar da Galileia:
E levantando-se dali, foi para as regiões de Tiro e Sidônia. E entrando numa casa, queria que ninguém o soubesse, mas não pôde esconder-se (Marcos 7:24).
Sabe-se também que, ao voltar, retornou ao Mar da Galileia pela Sidônia, o que não é o caminho mais direto (Marcos 7:31). Isso nunca foi verdadeiramente explicado por ninguém. Não tendo a menor ideia do que fazer com essa história, Lucas simplesmente a deixa cair. Mateus a inclui, mas apaga cuidadosamente a parte em que Jesus entra em uma casa particular onde é conhecido, e elimina os detalhes referentes ao caminho de volta ao longo da Sidônia (Mateus 15:21, 29). Talvez ele julgasse que essa informação não fosse significativa, ou talvez quisesse evitar que seus leitores colocassem a pergunta óbvia — por que Jesus deixaria abruptamente o território de Herodes Antipas, na Galileia, e viajaria para a Síria, para as regiões costeiras de Tiro e Sidônia? E que casa é essa, que ele conhece e onde entra tão secretamente? Lembrem-se, essas cidades não são judaicas.
É também digno de nota que Jesus sempre elogie as cidades de Tiro e Sidônia como sendo potencialmente mais abertas à sua mensagem do que as cidades da Galileia, onde pregava com mais freqüência (Lucas 10:14). Tiro e Sidônia não são regiões tão distantes assim da Galileia, e sabemos que multidões dessas duas cidades vinham para a margem norte do Mar da Galileia ouvir a pregação de Jesus (Lucas 6:17). Da mesma maneira que os soldados romanos recebem um tratamento favorável nos Evangelhos, há também uma percepção bastante favorável dessas duas cidades costeiras gentias. Será possível, ou até mesmo provável, que exista uma relação?
Parece que a natureza brusca da história que Marcos recebeu por vias estranhas sugere algo mais.
Estou convencido de que nossa melhor prova indica que José, que se casou com Maria já grávida, não era o pai de Jesus. O pai de Jesus permanece desconhecido, mas chama-se possivelmente Pantera e, nesse caso, é bastante provável que seja um soldado romano. A pedra tumbal da Alemanha, seja ela do pai de Jesus ou não, tal como as tumbas e os ossuários que estudamos em Jerusalém, nos recordam que esses nomes associados com a família de Jesus estão baseados nas provas materiais que a arqueologia continua a descobrir. Esses personagens eram seres humanos reais que viveram e morreram em um passado que se torna cada dia mais acessível para nós. Jesus não era o filho de José, mas Maria estava casada com ele e teve outros filhos depois de Jesus. Assim, poder-se-ia pensar que José era o pai do resto da família — mas como acontece freqüentemente, quando se trata de assuntos familiares, especialmente de uma família real, as coisas não são tão simples assim.

(James Tabor - A dinastia de Jesus)
NOTA - James D. Tabor - nascido no Texas , Estados Unidos - é um professor do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, onde leciona desde 1989. Possui doutorado em Estudos Bíblicos, conferido pela Universidade de Chicago, e é especialista nos Manuscritos do Mar Morto.

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A porção feminina de Deus

por Thynus, em 30.08.14
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

(Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética')

Certa madrugada insone, retomei meu trabalho costumeiro ao computador. De repente, pretendi ter ouvido, não sei se do mundo celestial ou se de minha mente em estado alterado, uma voz, em forma de sussuro, que me dizia: “Filho, vou te revelar uma verdade que estava sempre lá, no meu evangelista Lucas, mas que os olhos dos homens, cegados por séculos de patriaracalismo não podiam enxergar”.

“Trata-se da relação íntima e inefável entre Maria e o Espírito Santo”. E a voz continuava sussurando: “aquele que é terceiro, na ordem da Trindade, o Espírito Santo, é o primeiro na ordem da criação. Ele chegou antes ao mundo; só depois veio o Filho de Deus. Foi o Espírito Santo, aquele mesmo que pairava sobre o caos primitivo e que de lá tirou todas as ordens da criação. Pois desse Espírito Criador, se diz pelo meu evangelista Lucas:’ virá sobre ti, Maria, e armará sua tenda sobre ti; por isso, o Santo gerado será chamado Filho de Deus”. “Armar a tenda”, como sabes, significa morar definitivamente. Se Maria, perplexa, não tivesse dito o seu “sim”, faça-se segundo a tua palavra, o Filho não ter-se-ia encarnado e o Espírito não ter-se-ia feminilizado”.

“Vede, filho, o que lhe estou dizendo: o Espírito veio morar definitivamente nesta mulher, Maria. Identificou-se com ela, se uniu a ela de forma tão radical e misterirosa que dela começou a se plasmar a santa humanidade de Jesus. O Espírito de vida produziu a vida nova, o homem novo, Jesus. Para ti e para todos os fiéis é claro que o masculino através do homem Jesus de Nazaré foi divinizado. Agora, vá lá no evangelho de São Lucas e constatarás que tambem o feminino, através de Maria de Nazaré, foi divinizado pelo Espírito Santo. Ele armou sua tenda, quer dizer, veio morar para sempre nela. Repare que meu evangelista João diz o mesmo do Filho: ‘Ele armou sua tenda em Jesus”.

“Não é o Espírito”, sussura a mesma voz, “que toma o profeta para alguma missão específica e cumprida, termina sua presença nele. Com Maria é diferente. Ele vem, fica e não a deixa mais. Ela é elevada à altura do Divino Espírito Santo. Daí que logicamente, ‘o Santo gerado será chamado Filho de Deus’. Somente quem foi elevado à altura de Deus pode gerar um Filho de Deus. É o caso de Maria. Não sem razão, é a “bendita entre as mulheres”.

“Filho, eis uma verdade que deves anunciar: por Maria Deus mostrou que além de ser Deus-Pai é também Deus-Mãe com as características do feminino: o amor, a ternura, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. Estas virtudes estão também nos homens, mas elas encontram uma expressão mais visível nas mulheres”.

“Filho: ao dizeres Deus-mãe descobrirás a porção feminina de Deus com todas as virtudes do feminino. Não deves esquecer nunca que as mulheres jamais traíram Jesus. Foram-lhe fiéis até ao pé da cruz. Enquanto os homens, os discípulos, fugiram, Judas o traiu e Pedro o negou, elas mostraram um amor fiel até o extremo. Elas, antes dos apóstolos, foram as primeiras a testemunharem a ressurreição de Jesus, o fato maior da história da salvação”.

“O feminino de Deus não se esgota em sua maternidade, mas se revela no que há de intimidade, de amorosidade, de gentileza e de sensibilidade, perceptíveis no feminino”.

“Não permita que ninguém, por nenhuma razão, discrimine uma mulher por ser mulher. Aduza todas as razões para respeitá-la e amá-la, pois ela revela algo de Deus que somente ela pode fazer, sendo junto com o homem, a minha imagem e semelhança. Reforce suas lutas, recolha as contribuições que traz para toda a sociedade, para as Igrejas e para um equilíbrio entre homens e mulheres. Elas são um sacramento do Deus-Mãe para todos, um caminho que os leva à ternura de Deus. Oxalá as mulheres assumam sua porção divina, presente numa companheira delas, em Maria de Nazaré. Mas o dia virá em que cairão as escamas que encobrem seus olhos. E então, homens e mulheres, nos sentiremos também divinizados pelo Filho e pelo Espírito Santo”.

Ao voltar a mim, senti na clareza de minha mente, o quanto de verdade me tinha sido comunicado. E comovido, enchi-me de louvores e de ações de graça.

Leonardo Bof escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 1999.

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A FASE INSTINTIVA DO CÉREBRO

por Thynus, em 30.08.14

Organismos unicelulares de bilhões de anos de idade podem reagir a seu ambiente. Muitos, por exemplo, nadam em direção à luz. A partir desse início se desenvolveu a fase mais antiga do cérebro, o cérebro instintivo. Ele corresponde ao comportamento que está expressamente programado em nosso genoma para a sobrevivência. Centenas de milhões de anos de evolução refinaram esse instinto. Quando existiam os enormes dinossauros, seu comportamento só requeria um cérebro estúpido, não maior do que uma noz ou um damasco.

No modelo trino do cérebro, a parte mais antiga é o cérebro reptiliano, ou tronco
cerebral, concebido para a sobrevivência. Ele abriga centros de controle vital, que
controlam a respiração, a deglutição e os batimentos cardíacos, entre outras coisas.
Também incita a fome, o desejo sexual e a reação de fuga ou luta.
O sistema límbico foi o próximo a se desenvolver. Ele abriga o cérebro emocional
e a memória de curto prazo. Emoções de medo e desejo se desenvolveram para servir
aos impulsos instintivos do cérebro reptiliano.
O desenvolvimento mais recente foi o do neocórtex, região do intelecto, da
tomada de decisões e do raciocínio superior. Enquanto nosso cérebro reptiliano e
nosso sistema límbico nos impulsionam a fazer aquilo de que precisamos para
sobreviver, o neocórtex representa a inteligência para alcançar nossos fins, mas
colocando limites a nossas emoções e impulsos instintivos. A mais importante parte
para o supercérebro, o neocórtex é o centro da autoconsciência, do livre-arbítrio e
das escolhas, tornando-nos usuários plenos e potencialmente senhores do nosso
cérebro.
As criaturas que só possuem essa fase do cérebro, como os pássaros, podem apesar disso revelar um comportamento muito complexo. Por mais reptiliano que seja seu cérebro, o papagaio–cinzento africano é capaz de repetir centenas de palavras, e, se as atuais pesquisas estiverem corretas, entender o significado delas. Mas, se olharmos nos olhos de um lagarto ou de um avestruz, de um sapo ou de uma águia, não detectaremos nenhuma emoção. Essa ausência pode parecer assustadora, porque a igualamos ao bote cruel de uma cobra ou ao ataque de um predador à presa. O instinto precedeu a emoção na escala evolucionária.
Esse cérebro instintivo fornece os impulsos naturais do corpo físico que garantem a sobrevivência, como fome, sede e sexualidade. (Alguém escreveu, referindo-se ao desejo sexual como “fome de pele”, uma franqueza bastante precisa em se tratando do cérebro instintivo.) Ele inclui também processos inteiramente inconscientes, como a regulação do sistema digestório e circulatório – basicamente todas as funções corporais que ocorrem automaticamente.
A ansiedade que permeia a sociedade moderna nasce em parte de nosso cérebro instintivo, que incansavelmente nos impele a prestar atenção ao impulso de medo, já que nossa sobrevivência depende dele. Ninguém morre em uma visita ao dentista, e, como outras partes do cérebro intervêm, o medo não nos impele a pular da cadeira do dentista e fugir. Mas o cérebro instintivo só sabe liberar o impulso, e não avaliálo.
Se você se observar, verá que a trégua que estabeleceu com o cérebro instintivo é incômoda. Tentar ignorar nossos impulsos nos torna agitados, inseguros e ansiosos. Rudy lembra de seus primeiros anos de universidade, pouco depois que perdeu o pai, vítima de um ataque do coração. Ele escrevia incessantemente em seu diário sobre os avassaladores sentimentos de ansiedade e desejo que dominam nossa adolescência. Quando surgiram os hormônios pós-pubescentes, Rudy ficou frustrado diante de sua incapacidade em ignorá-los. (A famosa escritora americana gastronômica M. F. K. Fisher conta a história de um homem que, arrasado pela morte súbita da mulher, percorreu a autoestrada da costa do Pacífico de cima a baixo, parando em cada restaurante de estrada para pedir um filé.)
Rudy sabia intelectualmente que sua ansiedade em festejar com os amigos a cada ano que começava vinha de uma necessidade irracional de aceitação social, de validação por seus pares. Mas não conseguia resistir à necessidade de confraternizar quando devia estar estudando. Cada início de ano letivo se transformava numa batalha aparentemente infinita de encontrar disciplina para permanecer na biblioteca estudando, enquanto seu cérebro instintivo saía vitorioso da maioria das batalhas.
A ansiedade levou vantagem até que a situação atingiu seu ponto crítico em 1979, durante seu último ano na universidade. Era noite de ano-novo na Times Square. Rudy fazia parte da multidão. O clima era tenso. O aiatolá Khomeini mantinha 52 reféns americanos no Irã. Bandos de jovens gritavam ofensas contra o Irã e atiravam garrafas de cerveja. Rudy se afastou de seus colegas de fraternidade e sentou-se na calçada, recostado contra as grades da estação de metrô, sentindo a ansiedade aumentar com a agressividade à sua volta.
Nesses momentos de crise pessoal, exatamente quando o cérebro instintivo parece levar vantagem, uma mudança radical pode ocorrer. Soldados em batalha podem experimentar uma repentina calma e silêncio interior enquanto as bombas explodem à sua volta. Naquele momento na Times Square, Rudy percebeu que toda a sua ansiedade tinha na origem impulsos de medo e desejo. O medo gerava dúvidas sobre sua segurança. O desejo criava apetites que requeriam satisfação, mesmo quando as circunstâncias eram inadequadas.
Sem saber ainda que os circuitos cerebrais estão ininterruptamente integrados (essa descoberta só foi feita décadas depois), Rudy sentiu que isso era verdade. O medo e o desejo não são estranhos – eles estão ligados. O medo alimenta o desejo de atividades capazes de aliviá-lo; reciprocamente, o desejo cria o medo de não poder, ou não dever, obter o que os apetites demandam. Recorremos a cientistas e poetas para validar os conflitos que essa fase instintiva do cérebro cria. Freud falou da força de impulsos inconscientes por sexo e agressividade, formas inominadas primitivas que ele chamou de “id”. O id é poderoso, e a máxima que Freud criou para curar seus pacientes foi: “Onde o id está, o ego deve estar”. O mundo testemunha constantemente a força destrutiva de nossos impulsos primitivos. O medo e a agressividade estão à espreita para derrubar as portas da razão.
Shakespeare sabia que corria atrás de mulheres e chamou sua luxúria de “desperdício de espírito”. Um de seus sonetos pode servir de lição sobre a anatomia do cérebro, uma vez que descreve o conflito entre impulso e razão.
O desperdício de espírito em um deserto de desonra
É a luxúria em ação; e, enquanto não é ação, a luxúria
É perjura, homicida, sanguinária, cheia de culpa,
Selvagem, extrema, rude, cruel, traiçoeira.

Poucas descrições dos impulsos primitivos, e de como as pessoas se comportam quando o sexo supera todo o resto, seriam tão perfeitas. Se dois carneiros selvagens batendo cabeça no cio escrevessem poesia, assim descreveriam suas necessidades descontroladas. Mas, sendo humano, Shakespeare via a luxúria com remorso:

Apenas desfrutada, logo se deprecia;
Loucamente perseguida; e assim que possuída,
Loucamente odiada, como isca engolida.

 Ele se compara a um animal que foi atraído a uma armadilha. A satisfação da luxúria trouxe uma nova perspectiva, uma perspectiva de autocensura. (Não temos provas de que Shakespeare tivesse uma amante, mas ele era um homem casado, com uma filha e dois gêmeos recém-nascidos, quando deixou a família em Stratford para tentar a sorte em Londres, em 1585.)
 Por que a armadilha foi lançada? Shakespeare não culpa as mulheres. Diz que a armadilha foi colocada pela nossa natureza, para nos enlouquecer:

Louco na perseguição, e também na posse…
Uma felicidade na prova e, provada, uma verdadeira desgraça.

 Ele saiu do cérebro instintivo para o cérebro emocional, que se desenvolveu em seguida. Os poetas elisabetanos revelavam sempre fortes paixões, fossem de amor ou ódio. Mas Shakespeare tinha se entregado demais a seus sentimentos, e agora o cérebro racional era invocado. Ele vê toda a loucura e profere uma triste moral:

 Tudo isso o mundo sabe, e no entanto ninguém sabe
Evitar o céu que conduz o homem a esse inferno.

 Nos momentos em que estamos divididos, o cérebro pode representar fisicamente cada aspecto de nossa guerra mental. Para Rudy, naquele momento na Times Square, a causa de medo e de desejo que controla o comportamento lhe pareceu cristalinamente clara. Os jovens descontrolados que gritavam contra o Irã e atiravam garrafas também eram ele, que se mantinha um observador passivo. O medo e o desejo os impulsionavam. Um desejo instintivo de poder e status, como qualquer bom psicólogo nos dirá, cria uma ansiedade impulsionada pelo medo da rejeição e de perda de poder. Um forte desejo de sucesso gera um medo ainda mais forte de fracasso, e, se o medo surge, pode criar o fracasso. O cérebro instintivo nos prende numa armadilha entre querer muito alguma coisa e não consegui-la.
Como qualquer outra fase do cérebro, os instintos podem se desequilibrar.
Se você é impulsivo demais, sua raiva, seu medo e seu desejo vão se descontrolar. Isso leva a atos irrefletidos e ao arrependimento posterior.
Se você controla demais seus impulsos, sua vida se torna fria e reprimida. Isso produz uma falta de laços com os outros e com os seus impulsos básicos.

Pontos essenciais: seu cérebro instintivo
• Entenda que os instintos são uma parte necessária de sua vida.
• Tenha paciência com o medo e a raiva, mas não se entregue a eles.
• Não tente discutir com seus impulsos.
• Não reprima pensamentos e sentimentos por culpa.
• Esteja consciente de seus medos e desejos. A consciência ajuda a equilibrá-los.
• Só porque você é impulsivo, não aja sempre por impulso. As partes superiores do cérebro também devem ser consultadas.

(Deepak Chopra - Super Cérebro)

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publicado às 05:33

Quando o cérebro sofre um dano devido a um trauma provocado por um acidente de trânsito ou um derrame, por exemplo, células nervosas e suas conexões (sinapses) são perdidas. Durante muito tempo acreditou-se que, uma vez que o cérebro sofresse uma lesão, as vítimas estariam condenadas a usar apenas as funções remanescentes. Mas, ao longo das duas últimas décadas, foi feita uma importante descoberta, e numerosos estudos a confirmaram. Quando neurônios e sinapses desaparecem devido a um trauma, os neurônios vizinhos compensam a perda e tentam reestabelecer as conexões ausentes, o que efetivamente reconstrói a rede neural danificada. Os neurônios vizinhos intensificam seu trabalho e realizam uma “regeneração compensatória” de suas principais partes (o tronco principal, ou axônio, e os numerosos filamentos, chamados “dendritos”). Isso recupera as conexões perdidas da complexa rede neural de que cada célula cerebral faz parte.
Olhando para trás, achamos estranho que a ciência tenha negado às células cerebrais uma capacidade comum a outros nervos. Desde o fim do século XVIII, os cientistas já sabiam que os neurônios do sistema nervoso periférico (os nervos que percorrem o corpo fora do cérebro e da medula espinhal) podiam se regenerar. Em 1776, William Cumberland Cruikshank, anatomista escocês, cortou meia polegada do nervo vago do pescoço de um cão. O nervo vago se conecta com o cérebro, estendendo-se ao longo da artéria carótida no pescoço, e está envolvido em algumas importantes funções – taxa de batimento cardíaco, suor, movimentos musculares da fala – e em manter a laringe aberta para a respiração. Se as duas pontas do nervo forem cortadas, o resultado é letal. Cruikshank retirou apenas uma extremidade e descobriu que a lacuna criada era logo preenchida por um novo tecido nervoso. Quando submeteu seu artigo à Royal Society, porém, o cientista foi recebido com ceticismo, passando décadas sem ser publicado.
As células nervosas (neurônios) são verdadeiras maravilhas da natureza graças à
sua capacidade de criar nossa percepção da realidade. Os neurônios se conectam
uns aos outros formando vastas e intrincadas redes neurais. Nosso cérebro contém
mais de 100 bilhões de neurônios e até 1 quatrilhão de conexões, chamadas
“sinapses”.
Os neurônios projetam filamentos sinuosos, conhecidos como “axônios” e
“dendritos”, que carregam sinais químicos e elétricos através das sinapses. Um
neurônio contém muitos dendritos para receber as informações de outras células
nervosas, mas tem apenas um axônio, que pode atingir mais de 1 metro de
comprimento. O cérebro de um adulto contém mais de 160.000 quilômetros de
axônios e incontáveis dendritos – suficientes para dar quatro voltas à Terra.
Nessa época, outra evidência confirmava que nervos periféricos como o vago podem formar-se novamente depois de cortados. (Podemos vivenciar esse fenômeno quando um corte profundo deixa um dedo adormecido; depois de algum tempo, voltamos a senti-lo.) Mas durante séculos as pessoas acreditaram que os nervos do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) não possuíam a mesma capacidade.
É verdade que o sistema nervoso central não pode se regenerar com a mesma qualidade e rapidez do sistema nervoso periférico. Entretanto, graças à neuroplasticidade, o cérebro pode se remodelar e remapear suas conexões depois de um dano. Esse novo mapeamento é a definição funcional da neuroplasticidade, hoje um assunto em voga. O termo “neuro” vem de neurônio, enquanto “plasticidade” se refere a maleabilidade. A velha teoria afirmava que os recém-nascidos constituíam suas redes neurais como parte natural de seu desenvolvimento, e que após essa fase o processo cessava e o cérebro se tornava imutável. Hoje vemos as projeções das células nervosas do cérebro como longos filamentos que se reconfiguram continuamente, reagindo às experiências, aos aprendizados e aos danos. Curar e evoluir são duas funções intimamente ligadas.
Seu cérebro está se remodelando neste exato momento. Não é necessário nenhum dano para desencadear o processo. Basta estar vivo. Podemos estimular a neuroplasticidade, principalmente, expondo-nos a novas experiências. Melhor ainda é nos prepararmos deliberadamente para aprender novas capacidades. Dar um bichinho de estimação a um idoso pode instilar nele mais disposição para viver. O fato de o cérebro estar sendo afetado faz a diferença, mas precisamos nos lembrar de que os neurônios são nossos servos. O bisturi de dissecção revela mudanças no nível das projeções nervosas e dos genes. O que de fato revigora o idoso é ter um propósito e alguém para amar.
A neuroplasticidade é a mente se tornando matéria à medida que os pensamentos geram um novo crescimento neural. No início, o fenômeno era ridicularizado, e os neurocientistas menosprezados por usar esse termo. No entanto, muitos conceitos novos que provavelmente serão aceitos daqui a décadas são julgados hoje como sem sentido e inúteis. A neuroplasticidade passou por um difícil começo antes de se tornar uma estrela.
Que a mente tenha tal poder sobre a matéria foi importantíssimo para nós, os autores, na década de 1980. Deepak estava concentrado no lado espiritual da conexão entre mente e corpo, promovendo a meditação e a medicina alternativa. Inspirava-se numa máxima com que tinha se deparado desde cedo: “Se quiser saber como eram seus pensamentos no passado, olhe para o seu corpo hoje. Se quiser saber como seu corpo será no futuro, olhe para seus pensamentos hoje”.
Para Rudy, essa quebra de paradigma foi relevante quando era aluno do curso de neurociência na Faculdade de Medicina de Harvard. Trabalhando no Boston Children’s Hospital, ele tentava isolar o gene que produz a principal toxina do cérebro no mal de Alzheimer, a proteína beta-amiloide, substância espessa que se acumula no cérebro e tem relação com os neurônios que vão se tornando disfuncionais e são destruídos. Rudy lia freneticamente todos os artigos que pudesse encontrar sobre essa doença e seu amiloide tóxico, que pode assumir a forma do beta-amiloide no mal de Alzheimer ou da proteína príon, presente nas doenças relacionadas à doença da vaca louca.
Um dia, Rudy leu um artigo que mostrava que o cérebro de um paciente com Alzheimer tinha acumulado o beta-amiloide no esforço de reconstruir a parte responsável pela memória de curto prazo, o hipocampo, que se localiza no lobo temporal (assim chamado porque fica abaixo das têmporas).
O fato de o cérebro poder tentar um caminho para superar um dano devastador mudou inteiramente a visão da doença que Rudy vinha estudando dia e noite em um laboratório do tamanho de um almoxarifado, no quarto andar do hospital. Entre 1985 e 1988, ele se dedicou a identificar o gene que leva o beta-amiloide a se acumular em excesso no cérebro dos pacientes com Alzheimer. Dia após dia, ele trabalhou lado a lado com sua colega Rachel Neve, ouvindo música, especialmente Keith Jarrett, considerado o melhor pianista de jazz.
Rudy adorava os concertos de Keith Jarrett por sua brilhante improvisação. Jarrett tinha uma palavra para isso: “extemporizar”. Em outras palavras, era uma música radicalmente espontânea. Para Rudy, Jarrett expressava na música o modo como o cérebro funciona no mundo cotidiano – reagindo imediatamente de forma criativa, com base nas experiências valiosas de uma vida. A sabedoria se renovando instantaneamente. A memória encontrando vida nova. É justo dizer que, quando Rudy descobriu o primeiro gene do Alzheimer, a proteína precursora do amiloide (APP), naquele pequeno laboratório no quarto andar, sua inspiração foi Keith Jarrett.
Nesse contexto entra o artigo de 1986, que trouxe esperança de regenerar o tecido cerebral aos pacientes de Alzheimer. Era um dia intempestivamente frio, mesmo para o inverno de Boston, e Rudy estava no terceiro andar da biblioteca da Faculdade de Medicina de Harvard, respirando o perfume familiar de papel bolorento – alguns desses artigos científicos não viam a luz do dia havia décadas.
Entre os novos artigos sobre o mal de Alzheimer, um fora publicado no jornal Science e tinha sido escrito por Jim Geddes e seus colegas com o intrigante título de “A plasticidade do circuito do hipocampo na doença de Alzheimer”. Depois de uma rápida olhada, Rudy correu para conseguir alguns trocados para comprar uma cópia da edição. (O luxo dos jornais on-line ainda estava no futuro.) Depois de ler o artigo atentamente com Rachel, eles se encararam surpresos, sem acreditar no que tinham lido. O mistério do cérebro que pode se curar tinha acabado de entrar em sua vida.
A essência desse estudo fundamental era a seguinte: no mal de Alzheimer, uma das primeiras coisas que se deterioram é a memória de curto prazo. No cérebro, as principais projeções neurais que permitem que as informações sensoriais sejam armazenadas são, literalmente, cortadas. (Estamos no mesmo campo de Cruikshank, quando cortou o nervo vago de um cão.) Mais especificamente, existe no cérebro um pequeno saco dilatado de células nervosas chamado “córtex entorrinal”, que funciona como uma estação intermediária para todas as informações sensoriais que recebemos, confiando-as ao hipocampo para uma armazenagem de curto prazo. (Se lembramos que Rudy estava trabalhando com uma colega chamada Rachel, é o hipocampo fazendo o seu trabalho.) O nome hipocampo vem da palavra latina para “cavalo-marinho”, pois sua forma lembra a do animal. Faça dois “cês” com o polegar e o indicador de cada mão, um de frente para o outro, e depois entrelace-os num plano paralelo, assim você terá a forma bastante aproximada do hipocampo.
Digamos que você volte para casa depois de fazer compras e queira contar a uma amiga que viu um par de sapatos vermelhos perfeitos para ela. A imagem desses sapatos, passando pelo córtex entorrinal, é transmitida por meio de projeções neurais chamadas “via perfurante”. Agora chegamos à razão fisiológica que explica por que alguém que sofre do mal de Alzheimer não se lembrará desses sapatos. Nos pacientes com essa doença, a região exata onde a via perfurante penetra o hipocampo rotineiramente contém uma abundância de beta-amiloides neurotóxicos, que interrompem a transferência de informações sensoriais. Para piorar o dano, as terminações nervosas começam a encolher e se rompem na mesma região, danificando a via perfurante.
As células nervosas do córtex entorrinal que deviam estar desenvolvendo essas terminações nervosas logo morrem, porque dependem de que fatores de crescimento, as proteínas que garantem sua sobrevivência, substituam as terminações nervosas que antes se conectavam com o hipocampo. Depois disso, a pessoa perde a memória de curto prazo e a capacidade de aprendizado, e a demência se instala. O resultado é devastador. Como se costuma dizer, a pessoa não sabe que tem Alzheimer porque esquece onde pôs as chaves do carro. Ela sabe que tem Alzheimer quando esquece para que elas servem.
Em seu estudo embrionário, Geddes e seus colegas mostraram que, nessa área de grande perda neuronal, ocorre algo que nada mais é do que mágica. Os neurônios vizinhos sobreviventes começam a brotar novas projeções para compensar as que se perderam. Essa é uma forma de neuroplasticidade chamada “regeneração compensatória”. Pela primeira vez, Rudy se deparava com uma das mais milagrosas propriedades do cérebro. Era como se uma rosa fosse arrancada da roseira e a roseira ao lado fizesse brotar uma nova rosa.
De repente, Rudy teve uma profunda constatação do poder e da resiliência do cérebro humano. “Jamais despreze a força do cérebro”, ele pensou. Com a neuroplasticidade, o cérebro se tornou um órgão maravilhosamente adaptável e extraordinariamente regenerável. Havia esperança de que, mesmo em um cérebro danificado pelo Alzheimer, se diagnosticado cedo, a neuroplasticidade pudesse ser desencadeada. É uma das mais brilhantes possibilidades para futuras pesquisas.

(Deepak Chopra - Super Cérebro)

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publicado às 22:20

Na semana passada prometi contar sobre as pipiras da minha nova morada, mas aconteceu algo inusitado, e decidi escrever sobre os pregoeiros de São Luís, já que, como afirma o historiador Vicente Salles, os pregões constituem “canto de trabalho” e “voz das ruas”. E são belos!

No domingo passado, num bandeiraço/panfletagem em São José de Ribamar (MA), onde vi pela primeira vez uma linda pipira azul, tive um emocionante encontro com seu Paulo, que quis confirmar se Flávio Dino (PCdoB), candidato a governador do Maranhão, era filho do dr. Sálvio Dino (advogado, várias vezes deputado e ex-prefeito de João Lisboa (MA)).

Agora estou pensando como a vida é. Parei meu carrinho na porta do seu Paulo, que lá estava sentado numa cadeira. Pedi licença para estacionar ali, no que ele consentiu. Ao sair, de bandeira em punho, disse-lhe: “Vamos votar na mudança, não é?”. Ele riu. Nada respondeu. Não demorou muito, chegou aonde eu estava, na praça diante da casa dele, e puxou conversa: “Flávio Dino é filho do dr. Sálvio Dino, que morava na rua de Santana?”. Ao ouvir que sim, com olhos lacrimejantes, balbuciou: “Senhora, meu pai foi o camaroeiro do dr. Sálvio Dino por anos e anos! Eram muito amigos!”. E engatamos o maior papo. Ao final, ele disse: “Eu e minha família somos 15 votos. Tudo dele! Lá em casa tem água e cafezinho, não se acanhe!”.

Depois conheci a mulher e uma filha dele: “Mulher, aqui em casa todo mundo vai votar nele! Papai está muito emocionado, porque teve a certeza, hoje, de que ele é quem ele pensava. Veja se no dia em que ele vier aqui pode dar um abraço em papai, que lembra quando ele era criança”.

Pra quem não sabe ou esqueceu, na ilha de São Luís (formada por quatro municípios: Paço do Lumiar, Raposa, São José de Ribamar e São Luís), camaroeiro é o vendedor de camarão (fresco) de porta em porta, que avisa a freguesia com seu bordão/pregão de musicalidade singular: “Camaroeiro, camaroeeeeeeeeiro, olha o camaroeiro! Camarão ‘fresquim’, freguesa!”

O camaroeiro é um dos muitos pregoeiros de nossas ruas – ambulante que vende seus produtos, anunciando-os de modo peculiar, como bem descreveu Zema Ribeiro em “Canto dos Pregoeiros Maranhenses Ecoa no Rio de Janeiro” (2005): “‘Pregoeiro’ é o nome dado ao ambulante que vende seus produtos pelas ruas, gritando-os, e geralmente fazendo rimas; muito comuns em São Luís, são eles laranjeiros, verdureiros, garrafeiros, doceiros, peixeiros, entre outros”.

Beatrice Borges, em “Pregoeiros: Novo Capítulo na História de São Luís” (2014): “Os pregoeiros, que tinham esse nome porque gritavam pregões de seus produtos, se espalhavam por toda a cidade, e, com o tempo, ficavam conhecidos das donas de casa, se transformando até em amigos para a vida inteira. Os pregoeiros mais comuns de que se tem notícia, no entanto, eram: padeiro, vendedor de frutas, principalmente bananas, jornaleiro, carvoeiro, verdureiro, peixeiro, vendedor de camarão, caranguejo e siri, sorveteiro, vendedor de pamonha, vendedor de pirulitos, vendedor de juçara, além dos vendedores de utensílios como pá de lixo, penicos, lamparinas, espanadores, vassouras e ainda compradores de ferro velho e garrafeiro. Eram todos homens fortes e dispostos, porque há de se reconhecer que era (e é) um trabalho árduo. Os produtos eram levados nas mãos e, quando muito, em carros de mão, que também dependiam da força humana para chegar até seus clientes”.

Na ilha de São Luís, muitos pregoeiros estão em processo de extinção, mas eu carrego na memória a musicalidade deles.


(Fátima Oliveira)

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publicado às 00:46

 

Um movimento conhecido como “nova terceira idade” está dominando a sociedade. O idoso, pela velha norma social, costumava ser passivo e triste, condenado a uma cadeira de balanço; contava–se com seu declínio físico e mental. Hoje, o contrário é verdadeiro.Pessoas mais velhas têm altas expectativas de continuar ativas com vitalidade. Com isso, a definição de velhice mudou. Uma pesquisa perguntou a pessoas nascidas no período após Segunda Guerra quando começava a velhice. A resposta foi, em média, 85 anos. À medida que as expectativas crescem, o cérebro acompanha o ritmo e se adapta à nova terceira idade. A velha teoria de um cérebro imutável e estagnado afirmava que seu envelhecimento era inevitável. Supunha-se que as células do cérebro morriam contínua e irreversivelmente à medida que a pessoa envelhecia.
Agora que sabemos que o cérebro é flexível e dinâmico, a inevitabilidade da perda celular não é mais válida. No processo de envelhecimento – que ocorre cerca de 1 por cento ao ano depois dos 30 –, não há duas pessoas que envelheçam da mesma maneira. Até gêmeos idênticos, nascidos com os mesmos genes, terão diferentes padrões de atividade genética aos 70 anos, e seus corpos podem ser radicalmente diferentes dependendo do estilo de vida escolhido. Essa escolha não aumentou ou diminuiu os genes com que nasceram, mas quase todos os aspectos da vida – dieta, atividades, estresse, relacionamentos, trabalho e o ambiente físico – mudaram a atividade desses genes. Na verdade, nenhum aspecto do envelhecimento é inevitável. Para cada função, mental ou física, podemos encontrar pessoas que melhoram o tempo todo. Existem corretores da bolsa com 90 anos que conduzem complexas transações e possuem uma memória que só melhorou com o tempo.
O problema é que muitos de nós aderimos à norma padronizada. Quando envelhecemos, tendemos a ter preguiça e apatia em relação ao aprendizado.
Qualquer mínima tensão nos perturba, e esse estresse dura muito tempo. O que costumava ser considerado uma “acomodação” natural de pessoas mais velhas, hoje está relacionado à conexão entre mente e cérebro. Às vezes o cérebro é dominante nessa parceria. Suponhamos um restaurante que esteja com dificuldades de disponibilizar mesa para seus clientes. Um jovem que está na fila de espera sente uma certa chateação, que entretanto se dissipa assim que ele se acomoda. Uma pessoa mais velha pode reagir com um ataque de raiva – e continuar chateada mesmo depois de estar na mesa. Essa é a diferença da reação de estresse pela qual o cérebro é responsável. Da mesma forma, quando pessoas idosas ficam sobrecarregadas por um excesso de estímulos sensoriais (o barulho do trânsito, uma loja de departamentos lotada etc.), seu cérebro provavelmente diminuiu a função de captar as ondas de dados do mundo agitado.
Na maior parte do tempo, porém, a mente domina a conexão entre mente e cérebro. À medida que envelhecemos, tendemos a simplificar nossas atividades mentais, muitas vezes como um mecanismo de defesa. Sentimo-nos seguros com o que sabemos e evitamos aprender qualquer coisa nova. Esse comportamento é julgado pelos mais jovens como irritabilidade e teimosia, mas sua verdadeira causa pode estar na dança entre mente e cérebro. Para muitas pessoas mais velhas, mas não para todas, o ritmo da música diminui. O mais importante é não abandonar a pista de dança, o que estaria abrindo caminho para o declínio tanto do cérebro quanto da mente. Em vez de fazer novas sinapses, o cérebro continua funcionando com as que já existem. Nessa espiral descendente de atividade mental, a pessoa idosa acabará tendo menos dendritos e sinapses por neurônio no córtex cerebral.

Felizmente, podemos tomar decisões conscientes. Você pode escolher estar consciente dos pensamentos e sentimentos que estão sendo evocados em seu cérebro a cada minuto. Pode escolher ter uma curva de aprendizagem ascendente, não importa que idade tenha. Fazendo isso, criará novos dendritos, sinapses e circuitos neurais, que melhoram a saúde do cérebro e podem até ajudar a prevenir a doença de Alzheimer (como sugerem as pesquisas mais recentes).

E quanto à irreversibilidade dos efeitos do envelhecimento? À medida que ficamos mais velhos, muitos de nós sentimos a memória falhando cada vez mais.
Não conseguimos lembrar por que entramos numa sala e brincamos, na defensiva, que isso é coisa de velho. Rudy tinha um gato maravilhoso que o seguia para todo lugar como um cão fiel. Muitas vezes, Rudy levantava de sua poltrona na sala e se dirigia à cozinha com o gato a reboque, e, quando chegavam lá, os dois se olhavam, sem saber por que tinham ido parar ali. Embora possamos dizer que esses lapsos são sinais de perda de memória relacionada ao envelhecimento, eles ocorrem, na verdade, devido à falta de aprendizado – de registrar novas informações no cérebro.
Quando não conseguimos lembrar um fato simples como onde colocamos as chaves, significa que não “aprendemos” ou gravamos o lugar onde as colocamos. Como usuários de nosso cérebro, não registramos ou consolidamos a informação sensorial em uma memória de curto prazo durante o processo de pôr as chaves num determinado lugar. Ninguém pode lembrar algo que nunca aprendeu.
Se nos mantivermos atentos, um cérebro saudável vai continuar a nos servir à medida que envelhecermos. Podemos contar com prontidão e vigor, em vez de medo da deficiência e da senilidade. Em nossa opinião – e Rudy fala com a autoridade de importante pesquisador do Alzheimer –, uma campanha pública que gerasse alarme sobre a senilidade teria um efeito danoso. As expectativas são um gatilho poderoso para o cérebro. Se alguém acha que vai perder a memória e observa cada mínimo lapso com ansiedade, está interferindo no ato natural e espontâneo de lembrar.
Biologicamente, mais de 80 por cento das pessoas acima dos 70 anos não têm perda significativa de memória. Nossas expectativas devem corresponder a essa descoberta, e não a nosso medo oculto e, em grande medida, infundado.
Se alguém se torna apático e aborrecido com a vida, ou simplesmente não sente entusiasmo por suas experiências de cada momento, é porque seu potencial de aprendizado está enfraquecido. Como evidência física disso, um neurologista pode indicar as sinapses que devem ser consolidadas na memória de curto prazo. Mas, na maioria dos casos, um acontecimento mental precedeu a evidência física: jamais aprendemos aquilo que acreditamos ter esquecido.
Nada solidifica a memória como a emoção. Quando somos crianças, aprendemos sem esforço porque temos um entusiasmo natural por aprender. Emoções de alegria e deslumbramento, mas também de horror e medo, intensificam o aprendizado. Isso guarda a memória dentro de nós, às vezes por toda a vida. (Tente lembrar seu primeiro hobby ou seu primeiro beijo. Agora tente lembrar o nome do primeiro deputado em que votou, ou a marca do carro do vizinho quando você tinha 10 anos.
Geralmente, as duas primeiras lembranças vêm facilmente, enquanto as duas últimas, não – a menos que você tivesse uma paixão precoce por política ou carros.) Às vezes, o fator de entusiasmo que ocorre com as crianças também funciona com os adultos. Uma forte emoção é quase sempre uma chave. Todos nós lembramos onde estávamos quando ocorreram os ataques de 11 de setembro, assim como os idosos americanos lembram onde estavam no dia 12 de abril de 1945, quando o presidente Roosevelt morreu de repente enquanto estava de férias em Warm Springs, no estado da Geórgia. Como a memória ainda continua inexplorada, não podemos afirmar, em termos de função cerebral, por que intensas emoções podem gerar lembranças muito detalhadas. Algumas emoções fortes podem ter o efeito contrário: em caso de abuso sexual na infância, por exemplo, o trauma é reprimido e só pode ser recuperado com intensa terapia ou hipnose. Essas questões não serão solucionadas antes que algumas perguntas básicas sejam respondidas: O que é a memória? Como o cérebro armazena as lembranças? Que tipo de sinal físico – se é que existe algum – uma lembrança deixa na célula cerebral?
Até que as respostas surjam, acreditamos que o comportamento e as expectativas sejam a chave. Quando você novamente se apaixona por aprender, como quando era criança, novos dendritos e sinapses se formam, e sua memória pode voltar a ser tão boa como era na sua juventude. Da mesma forma, quando você lembra um acontecimento antigo recuperando-o ativamente (ou seja, quando sua mente vasculha o passado com atenção), você cria novas sinapses, que fortalecem as velhas, aumentando a possibilidade de voltar a lembrar esse fato no futuro. A tarefa é sua, como líder e usuário de seu cérebro. Você não é seu cérebro; é muito mais que isso. No final, esse é o único fato que vale a pena lembrar.

(Deepak Chopra - Super Cérebro)

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publicado às 15:16


O paraíso na outra esquina

por Thynus, em 24.08.14
Dos hackers de Berlim às festas de todos, no Malecón de Havana, e a um mito que torna possível enfrentar as engrenagens do mundo

"Não há liberdade sem liberdade de pensar. O meu direito ao conhecimento é superior às leis que privatizam o que é de todos”, dizia-me um hacker alemão, sobre a questão da propriedade intelectual, num cenário revelador: computadores empilhados. Canibalizados. Esventrados. Salvo do massacre das máquinas estava um velho Apple Lisa, de 1983. O Kaos Komputer Klub é uma organização de hacktivistas que tem sede em Kreuzberg, o bairro de que eu mais gosto do lado ocidental de Berlim: boêmia, imigração e ativismo misturados. A história está escrita nas paredes. As pinturas da resistência curda confundem-se com palavras de ordem dos autonomistas. Nas ruas de Kreuzberg estão ainda as pichagens, datadas do final dos anos 70, protestos contra o assassinato na prisão de Ulrike Meinhof e Andreas Baader, da Facção do Exército Vermelho.
À saída do KKK vemos passar um grupo de autonomistas vestidos de preto. Um amigo diz-me que o problema deles é que não querem mudar a Alemanha mas aprender espanhol para ir para a América Latina. Acham que é “lá” que “as coisas vão acontecer”. Distraído com a “movida” do bairro onde se cruza gente de lenço islâmico com punks de crista verde, no mais puro estilo Bilal, pergunto: “Acontecer o quê?” “A revolução”, garante-me, divertido.
Naquele ano, de 1992, tinha atravessado Cuba de carro, durante um mês, e aquilo que consegui ver foi que a revolução é como as paixões, com o tempo cansam-se, mas há sempre uma memória que pode dar-lhe sentido. A meio da viagem, um velho disse-me: “Camaguey é o estômago de Cuba, e este estômago está vazio.” Quase a chegar à cidade de Guantánamo falei com um camponês. A casa estava cheia de condecorações. O “herói do trabalho” tinha várias vezes ultrapassado os recordes das colheitas de cana de açúcar. Afirmava-se disposto a defender a sua pátria, de armas na mão, das ameaças dos ianques e acrescentava a sorrir: “O socialismo é a coisa mais bonita do mundo, funciona nos livros, infelizmente ainda não na realidade.”
Viviam-se os anos do “período especial”, a União Soviética tinha acabado e Cuba estava só. Tudo faltava. O turismo era um remédio que salvava e sujava. No final do Malecón, a mítica marginal de Havana, acotovelavam-se as jineteras, nome por que as prostitutas são conhecidas na ilha. O rum e a música misturavam-se nas ruas, as pessoas dançavam ao som dos NG La Banda e a sua música de homenagem às novas heroínas: “Tú te crees la mejor, tú te crees una artista / Porque vas en turitaxi por buena vista / Buscando lo imposible…”
Bebíamos no Malecón o rum do cartão de racionamento, bastante mais adstringente que o añejo do Havana Club que se consumia no Hotel Nacional. Enquanto emborcávamos as conversas multiplicavam-se. Todo o mundo ria. Gente de copos. Homens que queriam partir da ilha. Bispos. Santeiros. Membros do partido. Marginais. Médicos. Putas. Artistas. Dissidentes. Polícias. Intelectuais. Cosmonautas, se os houvesse. Cuba entranha-se na pele. Todas as pessoas são geniais. Não há ninguém no mundo que fale tanto. Mal. Bem. Contra o regime. Viva Fidel! Sobre a ciência. Deus. O sexo. E os anjos. As mulatas e os mulatos dançavam. Os turistas abanavam-se fora de tempo.
Entrevistei o bispo Carlos Manuel de Cespedes, bisneto de um dos heróis da independência de Cuba, e Abel Prieto, membro do politburo do Partido Comunista Cubano. O dirigente do partido respondeu-me de uma forma apaixonada quando lhe disse que havia pessoas que estavam revoltadas e que em algumas zonas de Havana tinha havido protestos por causa dos apagones (cortes de energia). Disse-me num tom duro: “Tu acreditaste em todas essas mentiras, Nuno? Os cubanos não são covardes. Na guerra com Espanha, mais de um milhão de pessoas morreu. Se não quisessem o regime, há muito que ele teria caído. Bastava que alguém subisse acima de um palanque para que um multidão se formasse”. E olhou-me nos olhos e garantiu: “Se abríssemos as fronteiras, meio milhão de pessoas fugiria, mas essa gente não tem projetos, não quer um outro país, quer viver num outro país.”
O Homem da Igreja disse-me, em pura linguagem marxista, que quando um país muda as estruturas econômicas, legaliza o dólar, permite atividades privadas e autoriza o investimento estrangeiro, necessariamente a superstrutura da sociedade não vai ficar igual. Passaram mais de 20 anos, às vezes a história parece condenar os homens a tentar arrastar pedras montanha acima. O esforço parece sem lógica, até porque as pedras deslizam para a base da montanha, para serem novamente arrastadas. Mas a vida está presa neste gesto daqueles que acreditam ser possível transportar as pedras.

(Nuno Ramos de Almeida)

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publicado às 16:32


Receitas para se ser feliz

por Thynus, em 24.08.14

 

O que é que verdadeiramente queremos? Não há dúvida: ser felizes. Quanto a saber em que consiste a felicidade já não haverá unanimidade. Aristóteles escreveu: "Todos estão praticamente de acordo quanto ao bem supremo: é a felicidade. Mas quanto à natureza da felicidadejá não nos entendemos." Julgo, porém, poder dizer-se que ela tem a ver com uma vida boa, realizada, de tal modo que daí resulta o contentamento da vida e com a vida.
E, claro, sempre se foram apresentando conselhos, receitas para alcançá-la. Agora, foi o Papa Francisco, em entrevista ao diário Clarín, de Buenos Aires. O jornalista Pablo Calvo: "Queria perguntar--lhe a si que, para lá de Papa, é químico: qual é a fórmula da felicidade?"
E Francisco, depois de rir com vontade, foi dando sabiamente dez conselhos: 1) "Vive e deixa viver. Anda para diante e deixa que as pessoas andem também. Este é o primeiro passo da paz e da felicidade." 2) Dar-se aos outros. "Se alguém estagna, corre o risco de ser egoísta." 3) Mover-se com respeito, sem agitação. "A capacidade de mover-se com benevolência e humildade, o remanso da vida. Os velhos têm essa sabedoria, são a memória do seu povo, que, se não cuida dos seus velhos, não tem futuro." 4) Brincar com os filhos. "O consumismo leva-nos a essa ansiedade de perder a cultura sadia do ócio, ler, fruir a arte." E "brincar com os filhos é uma questão-chave, é uma cultura sã. É difícil, pois os pais vão trabalhar cedo e voltam por vezes quando os filhos já estão a dormir; é difícil, mas é preciso fazê-lo." 5) Partilhar os domingos com a família. Que o domingo seja dia de descanso, "é para a família." 6) Ajudar os jovens a conseguir emprego. "É preciso ser criativo com esta faixa etária". 7) "É preciso cuidar da Natureza e não estamos a fazê-lo. É um dos desafios maiores que temos." 8) Esquecer o negativo. "A necessidade de falar mal do outro é sinal de baixa auto-estima, isto é, sinto-me tão em baixo que, em vez de subir, rebaixo o outro. Esquecer rapidamente o negativo é saudável." 9) Respeitar quem pensa de modo diferente. Do pior que pode haver é "o proselitismo religioso, que paralisa: "Eu dialogo contigo para convencer-te" não é bom. A Igreja cresce por atracção, não por proselitismo." 10) Procurar activamente a paz. "Estamos a viver numa época de muita guerra. A guerra destrói. E é preciso gritar o clamor pela paz. A paz por vezes dá a ideia de quietude, mas nunca é quietude, é sempre uma paz activa."
O receituário papal para a felicidade tem muitas coincidências com o do filósofo R. D. Precht no seu best-seller Wer bin ich und wenn ja, wie viele? 1. Actividade. Para lá do ter e do ser, é preciso agir, sem agitação. 2. A amizade, a família, são saudáveis, pois quem tem uma rede densa de relações não enfrenta sozinho a dureza da vida. 3. É preciso aprender a fruir o aqui e agora nos prazeres simples. 4. Ter expectativas realistas, sem exigir demais nem de menos de si mesmo. 5. Pensamentos positivos: "procede como se fosses feliz, e sê--lo-ás". 6. Aprender a arte de lidar com as dificuldades e o sofrimento: há crises salutares. 7. "O trabalho é a melhor das terapias."
Agora, digo eu. Também faz parte ser gratuitamente generoso com alguém. Passear à beira-mar, ouvir o silêncio da noite e a paz do brilho das estrelas. Não esquecer o horizonte do infinito: "O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti", dizia Santo Agostinho a Deus.

(Anselmo Borges)

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publicado às 14:25


A Redenção de Judas?

por Thynus, em 22.08.14

É claro que tal revelação teria que gerar alguma polêmica no mundo cristão. A idéia de que Judas teria traído Jesus a mando Deste, idéia que já foi explorada no cinema por Martin Scorsese e seu também polêmico filme A última tentação de Cristo, suscitou debates. Uma corrente de manifestantes, que já se encontravam exaltados com o assunto religião, desde que O código da Vinci, de Dan Brown, assolou as livrarias e telas de cinema do mundo com a tese de que Jesus teria sido casado com Maria Madalena.
Em uma busca simples feita na internet, encontramos diversos sites que tentam minimizar a idéia lançada pelo documento encontrado no Egito, o berço de diversos apócrifos. Em um artigo de Ricardo Westin, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 8 de abril de 2006, lemos:
O chamado Evangelho de Judas é um texto autêntico, foi realmente escrito 1700 anos atrás, mas não representa uma ameaça às tradicionais bases do cristianismo, de acordo com estudiosos da religião. Por isso, Judas Iscariotes, o apóstolo renegado pelos cristãos, não deve ser alçado à condição de herói.
O autor cita também um teólogo ortodoxo russo, Andréi Kuráyev, professor da Academia Espiritual de Moscou, que afirma que o documento alardeado pela National Geographic não acrescenta conhecimentos sobre a vida de Jesus. Kuráyev lembra que no mesmo período do Evangelho de Judas havia várias correntes pseudocristãs, das quais algumas tinham por objetivo a adoração dos
personagens mais detestados da Bíblia, como os cainitas, que adoravam Caim, o primeiro assassino, que matou Abel, seu irmão, e os ofitas, que adoravam a serpente que causou a expulsão do casal Adão e Eva do Jardim do Éden.
O ponto que levanta maior suspeita é a afirmação de que o documento teria sido escrito pelo discípulo traidor. "Não pode ser obra de Judas Iscariotes, porque ele se enforcou no mesmo dia em que Jesus foi crucificado. Não pode haver nenhum Evangelho de Judas".
No mundo católico, a polêmica também se fez presente. O padre Thomas Williams, decano da Faculdade de Teologia da Universidade Regina Apostolorum de Roma, disse em entrevista à agência católica de notícias Zenit, que o Vaticano nunca se preocupou em esconder os textos apócrifos. "Basta ir a qualquer biblioteca católica e ver que esses textos também estão lá, embora saibamos que não são verdadeiros". Uma busca em livrarias católicas brasileiras também apresentou o mesmo resultado. O site O Verbo publicou uma notícia que afirmava que a descoberta do Evangelho de Judas não afeta a doutrina cristã para a igreja russa. Diz a nota:
O patriarcado ortodoxo de Moscou afirmou ontem que a descoberta do "Evangelho de Judas", cujo texto foi publicado ontem por cientistas americanos e suíços, não afeta a doutrina cristã e só tem interesse histórico. "Não podemos imaginar que a descoberta de um texto atribuído a um personagem do início do cristianismo, ou mesmo de um dos discípulos de Cristo, mude a composição da Sagrada Escritura", declarou o porta-voz do departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, o padre Mikhail Dudkó.
Mais para a frente, o texto complementa:
O porta-voz da Igreja Ortodoxa Russa disse que textos relativos ao período inicial do cristianismo já foram encontrados outras vezes e continuarão sendo. Por isso, "o interesse no 'Evangelho de judas' é acima de tudo, histórico". "Não há possibilidade alguma de incorporar o livro à Sagrada Escritura. Mas ele pode revelar novos detalhes históricos", explicou Dudkó. Ele acrescentou que será necessário um minucioso estudo para determinar o verdadeiro valor histórico do documento.

Variações sobre o mesmo tema
Há uma grande quantidade de textos que querem trazer à tona uma versão diferente de Judas. Uma delas teria sua origem no Alcorão, ou Corão, o livro sagrado do Islamismo. Essa lenda diz que Judas, em algumas versões, seria Simão de Cirene ou Simão o Cireneu, o homem que ajudou Cristo a levar a cruz, teria sido crucificado no lugar de Jesus. Essa "teoria da substituição" teria como suposta fonte a seguinte passagem do Alcorão, identificada como surata 4 §:
E por os judeus dizerem: "Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o Mensageiro de Alá", embora não sendo, na realidade, certo que o mataram, nem o crucificaram, senão que isso lhes íoi simulado. E aqueles que discordam, quanto a isso, estão na dúvida, porque não possuem conhecimento algum, abstraindo-se tão-somente em conjecturas; porém, o fato é que não o mataram.
A explicação mais coerente do trecho é de que os judeus seriam incapazes de se vangloriar por terem matado Jesus porque, na prática, era Deus quem estava no controle dos acontecimentos, e foi apenas por obra Dele que Jesus morreu na cruz. Essa teoria da substituição revela-se, assim, como uma maneira de suavizar a crucificação em si. Embora tal história não tenha o aval de nenhuma tradição islâmica, há uma base árabe para ela, oriunda de escritos de um cosmógrafo do século XIV.
Outra versão de Judas pode ser encontrada numa leitura realizada pelos padres da Igreja nos primeiros séculos da fé católica. Havia, segundo eles, uma analogia entre a venda de Jesus aos romanos, com a mesma situação que foi vivida por José, vendido por seu irmão, Judá, para os ismaelitas, de acordo com Genesis 37:26,27. O próprio nome, Judas, teria seu significado em hebraico como sendo "trinta". Assim, alguns intérpretes afirmam que, ao trair Jesus, Judas traiu também sua própria pessoa.

(Sérgio Pereira Couto - Os Arquivos Secretos do VATICANO)

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publicado às 19:11

 

A BÍBLIA ASSEGURA QUE OS PRIMEIROS seres humanos, Adão e Eva, viviam no Paraíso. Este, porém, não devia ser um lugar muito agradável, porque eles logo deram um jeito de ser banidos e tiveram de construir com as próprias mãos outro lugar onde morar.
Não ter tudo o que desejamos ou tudo de que necessitamos nos obriga a virar construtores. E isso é bom.
Com a arquitetura, quisemos imitar a natureza e superá-la. Será que conseguimos? Com relação à nossa época, a resposta é sim. Quanto a quem viveu há milhares de anos, não seria tão fácil responder.
Cada ser humano é arquiteto de alguma coisa: uns, de casas; outros, de planos intangíveis... SOMOS TODOS ARQUITETOS DE NOSSA PRÓPRIA VIDA. Não é possível delegar a ninguém a tarefa de desenhar essa planta. No máximo, podemos recorrer às orientações de mestres como Oscar Wilde, capazes de nos inspirar a criar o melhor projeto no papel da existência.

(Allan Percy - Oscar Wilde para pessoas inquietas)

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publicado às 18:42

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