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O menino com o espelho

por Thynus, em 17.11.13

 

Em seguida, Zaratustra retornou às montanhas e à solidão de sua caverna e afastou-se dos homens: aguardando como um semeador que espalhou suas sementes. Mas sua alma ficou plena de impaciência e avidez por aqueles que amava: pois ele ainda tinha muito a lhes dar. Isto é, de fato, o que há de mais difícil: por amor cerrar a mão aberta e, fazendo dádivas, conservar o pudor.
Assim transcorreram luas e anos para o solitário; mas sua sabedoria cresceu e causou-lhe dor com sua abundância.
Um dia, porém, ele despertou antes da aurora, refletiu longamente em seu leito e falou enfim a seu coração:
“Com o que me assustei tanto, em meu sonho, que acordei? Não me apareceu um menino com um espelho?
‘Ó Zaratustra’, disse-me ele, ‘olha-te no espelho!’
Ao olhar no espelho, porém, soltei um grito e meu coração se abalou: pois não foi a mim que vi nele, e sim a careta e o riso galhofeiro de um demônio.
Em verdade, compreendo bem demais o sinal e aviso do sonho: minha doutrina está em perigo, o joio quer ser chamado de trigo! (Cf. a parábola do joio e do trigo, em Mateus, 13, 24-30; já no início desta seção houve referência à parábola do semeador, no mesmo capítulo de Mateus (13, 3-9).
Meus inimigos tornaram-se poderosos e distorceram a imagem de minha doutrina, de modo que os que mais amo se envergonharão das dádivas que lhes fiz.
Perderam-se para mim os amigos; chegou a hora de buscar os meus perdidos!”
Com essas palavras levantou-se rapidamente Zaratustra, não como alguém assustado que busca por ar, mas antes como um vidente e cantor que é tomado pelo espírito. Sua águia e sua serpente olharam-no com admiração: pois seu rosto, como a aurora, irradiava uma felicidade iminente.
Que me aconteceu, meus animais?, disse Zaratustra. Não estou transformado? A bem-aventurança não chegou a mim como um vendaval?
Tola é minha felicidade, e falará coisas tolas: é ainda jovem demais — tende então paciência com ela!
Fui ferido por minha felicidade: todos os sofredores me servirão de médicos!
Posso novamente descer para junto de meus amigos e também de meus inimigos! Zaratustra pode novamente falar e presentear e fazer o melhor para os que mais ama!
Meu impaciente amor extravasa em torrentes, para baixo, para o nascente e o poente. Desde silenciosas montanhas e tempestades de dor, minha alma rumoreja rumo aos vales.
Por tempo demais ansiei e olhei ao longe. Por tempo demais pertenci à solidão: assim desaprendi o silêncio.
Tornei-me apenas boca, e o bramir de um riacho a descer de altos rochedos: em direção aos vales quero precipitar minha palavra.
E ainda que a torrente de meu amor caia em terreno intransitável! Como poderia uma torrente não encontrar enfim o caminho do mar? (Cf. Hölderlin, Hyperion, 1.1.7, onde o protagonista compara sua alma e a de seu amigo Alabanda a “duas torrentes que descem da montanha” e afinal se juntam “num rio majestoso a caminho do mar”.)
Certamente há um lago em mim, solitário e que basta a si mesmo; mas meu rio de amor o arrasta consigo para baixo — para o mar!
Novos caminhos sigo, uma nova fala me vem; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Meu espírito já não deseja caminhar com solas gastas.
Lento demais, para mim, corre todo discurso: — pularei para tua carruagem, furacão! E mesmo a ti fustigarei com a minha maldade!
Como um grito e um júbilo viajarei por amplos mares, até encontrar as ilhas bem-aventuradas onde se acham meus amigos: — E entre eles meus inimigos! Como amo, agora, todo aquele a quem puder falar! Também meus inimigos são parte de minha ventura.
E, quando quero montar meu corcel mais selvagem, minha lança é o que mais me ajuda a nele subir: é o sempre disposto servidor de meu pé: — A lança que arremesso contra meus inimigos! Como agradeço a meus inimigos poder enfim arremessá-la!
Grande demais era a tensão de minha nuvem: por entre os risos dos coriscos lançarei rajadas de granizo à profundeza.
Fortemente se inflará então meu peito, fortemente soprará sua tormenta sobre os montes: assim terá seu alívio.
Em verdade, como uma tormenta chegam minha felicidade e minha liberdade! Mas meus inimigos devem pensar que o Maligno se enraivece por sobre suas cabeças.
Sim, também vós, meus amigos, vos assustareis com minha selvagem sabedoria; e talvez dela fugireis, juntamente com meus inimigos.
Ah, soubesse eu atrair-vos de volta com flautas de pastores! Ah, se minha leoa sabedoria soubesse rugir meigamente! Muita coisa já aprendemos juntos!
Minha selvagem sabedoria ficou prenhe nos montes solitários; em ásperas pedras deu à luz seu filhote mais novo.
Agora corre desvairada pelo duro deserto, procurando um relvado macio — minha velha sabedoria selvagem!
No relvado macio de vossos corações, meus amigos! — no vosso amor ela quer aninhar seu favorito!
Assim falou Zaratustra.
(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

publicado às 20:18


Da árvore na montanha

por Thynus, em 17.11.13

 

 

 

Zaratustra havia percebido que um jovem o evitava. E uma noite, quando ia pelos montes que rodeiam a cidade conhecida como A Vaca Malhada, eis que encontrou esse jovem, sentado no chão e encostado numa árvore, observando o vale com um olhar cansado. Zaratustra agarrou a árvore junto à qual o jovem estava sentado e assim falou:
“Se eu quisesse balançar essa árvore com as duas mãos, não conseguiria. Mas o vento, que nós não vemos, pode atormentá-la e dobrá-la como quiser. É por mãos invisíveis que somos atormentados e dobrados da pior maneira.”
Levantou-se então o jovem, assustado, e disse: “Ouço Zaratustra, e nesse momento pensava nele”.
Respondeu Zaratustra: “E te espantas por causa disso? — Com o homem sucede o mesmo que com a árvore.
Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza — no mal.”
“Sim, no mal!”, exclamou o jovem. “Como foi possível que descobriste a minha alma?”
Zaratustra sorriu e falou: “Algumas almas jamais descobrimos, a não ser que antes as inventemos”.
“Sim, no mal!”, tornou a exclamar o jovem.
“Disseste a verdade, Zaratustra. Já não confio em mim mesmo, desde que quero alcançar as alturas, e ninguém mais confia em mim — como pode acontecer isso?
Eu me transformo depressa demais: meu hoje contraria meu ontem. Com frequência pulo degraus ao subir — isso nenhum degrau me perdoa.
Estando lá em cima, sempre me vejo só. Ninguém fala comigo, o gelo da solidão me faz tremer. Que quero eu nas alturas, afinal?
Meu desprezo e meu anseio crescem um com o outro; quanto mais subo, tanto mais desprezo aquele que sobe. Que quero eu nas alturas, afinal?
Como me envergonho do meu subir e tropeçar! Como escarneço do meu forte arquejar! Como odeio aquele que voa! Como estou cansado nas alturas!”
Nisso o jovem se calou. Zaratustra olhou a árvore junto à qual estavam e assim falou:
“Essa árvore está sozinha aqui na montanha; cresceu muito acima dos homens e dos animais.
E, se quisesse falar, não teria ninguém que a compreendesse: tão alto cresceu.
Agora ela espera e espera — mas pelo que espera? Ela habita perto demais das nuvens: será que espera pelo primeiro raio?”
Depois que Zaratustra falou isso, o jovem exclamou com gestos veementes:
“Sim, Zaratustra, tu falas a verdade. Eu ansiava pelo meu declínio quando desejava subir às alturas, e tu és o raio pelo qual esperava! Olha: que sou eu ainda, depois que nos apareceste? Foi a inveja de ti que me destruiu!” — Assim falou o jovem, e chorou amargamente. Mas Zaratustra pôs o braço ao seu redor e o levou consigo.
E, quando haviam caminhado juntos por um momento, Zaratustra se pôs a falar assim:
Isso me parte o coração. Mais do que tuas palavras, teus olhos me falam do teu perigo.
Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. Tua procura te deixou tresnoitado e insone.
Queres chegar às livres alturas, tua alma anseia por estrelas. Mas também teus maus impulsos anseiam por liberdade.
Teus cães selvagens querem a liberdade; ladram de alegria em seu porão, quando teu espírito busca abrir todas as prisões.
Ainda és, para mim, um prisioneiro que contempla a liberdade: ah, em tais prisioneiros a alma se torna prudente, mas também ardilosa e ruim.
Também precisa ainda purificar-se o libertado do espírito. Nele ainda há muito de prisão e de mofo: seu olhar ainda precisa se tornar puro.
Sim, conheço o teu perigo. Por meu amor e por minha esperança, porém, eu te suplico: não jogues fora teu amor e tua esperança!
Ainda te sentes nobre, e nobre ainda te sentem os outros também, os que te guardam antipatia e te lançam olhares maus. Aprende que um nobre é um obstáculo no caminho de todos.
Também para os bons há um nobre em seu caminho: e, mesmo se o chamam de bom, querem com isso afastá-lo dali.
Coisas novas quer criar o nobre, e uma nova virtude. Coisas velhas quer o bom, e que o velho seja preservado.
Mas o perigo do homem nobre não é tornar-se um bom, e sim um impudente, um zombador, um destruidor.
Ah, eu conheci homens nobres que perderam sua mais alta esperança. E então caluniaram todas as altas esperanças.
Então passaram a viver de forma impudente, em breves prazeres, sem cultivar uma meta para além do dia.
“Espírito é também volúpia!” — diziam eles. Nisso quebraram-se as asas do seu espírito: agora ele rasteja por aí, sujando aquilo que rói.
Outrora pensavam em se tornar heróis: agora são libertinos. O herói é, para eles, um desgosto e um horror.
Mas por meu amor e minha esperança eu te suplico: não lances fora o herói que há em tua alma! Mantém sagrada a tua mais alta esperança! — Assim falou Zaratustra.

 

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

publicado às 19:28


O enigma da pergunta e a religião

por Thynus, em 17.11.13

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta, não podendo deixar de perguntar. Mas o próprio perguntar é enigmático. Se perguntamos, é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos. Então, o que é que sabemos quando perguntamos? Sabemos sempre de modo imediato e atemático sobre o ser. É sempre no ser que estamos, numa experiência originária.
Mas essa experiência é a do ser na sua ambiguidade, causando-nos, por isso, espanto positivo e negativo e levando-nos à pergunta: o que é? Outra experiência fundamental, explicitando esta, tem que ver com o aparente e o real. Há sempre aquele encontro com o que nos parecia real e era apenas aparente: alguém, por exemplo, parecia cheio de saúde e, afinal, estava doente. Daqui, a pergunta: o que é verdadeiramente? Qual é a realidade última? Como escreve o filósofo Carlos João Correia, a religião é, numa primeira abordagem essencial, "um fenómeno cultural, de natureza pessoal e social, que engloba um conjunto de crenças, acções e emoções organizadas em torno da ideia do que se poderia designar, em termos filosóficos, "como uma realidade última e fundamental"".
Esta realidade última remete-nos e liga-nos ao incondicionado ou, se se quiser, ao absoluto. De facto, o contingente, o efémero, tem como sua condição de possibilidade uma realidade necessária prévia, o incondicionado.
Aqui, pode surgir uma crítica semelhante à que Bertrand Russell fazia a uma causa primeira, a Deus enquanto causa sui, causa de si, causa incausada: se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?, se o incondicionado é condição de todo o condicionado, qual é a sua causa? Simon Blackburn mostrou que a argumentação de Russell não convence: "Russell terá notado que o argumento da causa primeira era mau, excepcionalmente, terrivelmente mau, uma vez que a conclusão não só não se segue das premissas, mas também na realidade as contradiz. A sua ideia era que o argumento parte da premissa de que "tudo tem uma causa (prévia e distinta)", mas acaba na conclusão de que tem de haver algo que não tem uma causa prévia e distinta, mas "tem em si a razão da sua própria existência". Portanto, a conclusão nega o que a premissa afirma. Ora, a rejeição de Russell é um pouco fraca. Realmente, o objectivo do argumento, na perspectiva teológica, é mostrar que, apesar de tudo o que é material ou físico ter uma causa prévia distinta, precisamente este facto leva-nos a postular algo de diferente, que não tem uma causa prévia distinta. No jargão teológico, isso seria algo que é "necessário" ou "causa sui": algo que é a sua própria causa. E uma vez que isto não se verifica no caso das coisas comuns que nos rodeiam, precisamos de postular algo extraordinário, uma Divindade enquanto titular desta extraordinária auto-suficiência." A questão é realmente a de um ser auto-suficiente.
É raro tematizarmos esta questão essencial, mas ela está lá sempre presente. Carlos João Correia acrescenta: "Mesmo que não quiséssemos, a percepção da nossa mortalidade far-nos-ia relembrar a sua presença silenciosa, pois a morte, enquanto nadificação das nossas possibilidades, faz emergir a própria questão de se ser."
Aceitando o carácter irredutível e necessário de uma "realidade última", fica a questão da relação humana com ela, percebendo-se que varie em função das diferentes mundividências e perspectivas culturais. Assim, "múltiplas posturas designadas como ateias" - pense-se, por exemplo, na concepção marxista de uma realidade última dialéctica - "não deixam, por isso, de serem religiosas". De facto, dá-se uma experiência religiosa, sempre que há "a consciência de dois postulados fundamentais: 1. Para lá da contingência dos fenómenos existe um horizonte em que eles têm sentido; 2. É incontornável para cada ser pessoal uma certa postura de relacionamento com esse mesmo horizonte." Por isso, embora a importância da palavra religião pareça desaparecer a um ritmo galopante do léxico humano contemporâneo, "a sua realidade permanece actual, na medida em que a resposta global às questões centrais da vida permanece tão ou mais viva do que antes".

(Anselmo Borges)

publicado às 07:07


A EMOÇÃO NO FUTURO

por Thynus, em 16.11.13

 

 

O futuro da espécie humana dependerá da qualidade da emoção que predominar entre nós. A faculdade da razão, na qual a humanidade tanto tem confiado nos últimos séculos, não se mostrou livre de falhas, nem suficiente para fazer da comunidade humana um sistema equilibrado.

A observação e a lógica que conhecemos, serve apenas para guiar-nos no que tange ao mundo exterior e seu funcionamento. Sua influência sobre nossas ações é menor do que pensávamos. As razões humanas são infinitamente maiores do que a racionalidade conhecida, que é apenas uma parte de nossa inteligência e dirige-se ao concreto.
Ainda que seja inegável sua utilidade, a racionalidade que conseguimos não abrange todas as áreas da vida, nem conhece todas as necessidades e motivações que nos formam.
 Nos países altamente civilizados, em que a razão predomina, nada semelhante ao paraíso se formou. Há tantos problemas e angústias lá, que a conclusão inevitável é que o desenvolvimento deste aspecto da inteligência é apenas parte da resposta que procuramos. Outras habilidades parecem necessárias, novas áreas da inteligência devem ser educadas ampliando formas de percepção e avaliação do mundo.
A maior amplitude de percepção e controle sobre a própria conduta, só se obtém com equilíbrio interno e, este depende da qualidade da emoção e do uso correto da energia psíquica. Um tal nível de desenvolvimento parece uma distante possibilidade para muitos. Quando se avalia a saúde das mentes, individual e coletivamente, precisamos ser realistas o suficiente para evitar as previsões catastróficas e os excessos de otimismo. Admitir que estamos distantes desse equilíbrio é inevitável. Enquanto a emoção humana estiver mantida em um baixo nível de educação e não formos capazes de lidar com seu poder, estaremos andando em círculos. A ampliação da inteligência da espécie precisa ir também na direção interna, da aquisição de poder e conhecimento sobre nossa natureza e a forma como nos relacionamos.
Vai ser difícil convencer uma sociedade, convicta de seus acertos ao ocupar-se produzindo muitos bens materiais e que se dedica a um estilo de vida tão pouco livre, cheio de restrições e comandos, a encontrar outras formas de vida. No entanto, as falhas estão cada vez mais evidentes, mesmo aqueles que recebem uma educação formal e têm suas necessidades materiais satisfeitas cometem atos de violência e autodestruição. Muitas pessoas estando no topo de suas carreiras, percebem que sua qualidade de vida não é das melhores e se sentem angustiadas e insatisfeitas.

 

A vaidade humana depende muito de desconhecermos, ou procurarmos ignorar, certos aspectos menos favoráveis de nós mesmos. O avanço da comunicação, porém, não nos dá sossego. Todos os dias há notícias de que somos um sistema perigoso, nossas mentes são capazes de criar ou destruir com igual força.. Os processos mentais têm mais poder do que se supôs até agora, não apenas sobre nosso destino, mas sobre o de todo o planeta. Essa é uma razão definitiva para adquirirmos o controle da situação. E o controle está em nós, em aplacar nossa angústia, nossas estranhas tendências e nossas condutas pouco inteligentes, dominadas por emoções mal resolvidas ou mal educadas.
É preciso concordar que há razões para temer um auto-conhecimento, o que é parte de nós tem sido aquilo que com menos freqüência podemos tolerar e controlar.
O mundo precisa resolver problemas urgentes derivados das enormes desigualdades de desenvolvimento entre os povos. As diferenças tendem a ficar menores na medida em que a educação e a comunicação avançam, cada parte do mundo toma conhecimento do que ocorre e a indignação se espalha. Nada mais pode ficar escondido por muito tempo.
Mesmo a corrupção não poderá durar tanto, há uma massa crítica criada dentro de elevados padrões de educação, que já se importa muito mais com a ética e as relações humanas e não apenas com seu bem estar pessoal. É uma geração privilegiada em informações, que recebe um mundo problemático sob vários aspectos, mas que tem, mais do que as gerações anteriores a exata noção do que acontece a seu redor.
São mais agitados, mais angustiados talvez, mas sabem o que lhes reserva o futuro; se suas ações não tenderem numa direção oposta a muito do que esteve estabelecido até aqui, sabem que terão grandes problemas.
É uma geração inteligente e que tem melhor qualidade de emoção. Protestam, são agressivos em suas posições, rompem com muitos padrões de comportamento mas estão no direito de quem tem a tarefa de construir um mundo novo e melhor.
Cada geração sempre precisa revisar a anterior, com olhos bem abertos para observar os pontos fracos e tentar fazer diferente, aquilo que for acerto preserva-se.
Atualmente as coisas parecem anárquicas, talvez a ruptura esteja sendo acelerada demais. Diferentes gerações que convivem hoje, tem dificuldades em suportar tão intensa diferenciação cultural. Nossos filhos foram mais protegidos e sob muitos aspectos receberam bem mais do que nós, em meio à tantas dificuldades alguns se sentirão frágeis. Essa descoberta da fragilidade e dos limites, em meu entendimento é algo que precisa acontecer à humanidade. Tomar contato com nossa realidade levando em conta como cada um se sente sobre o planeta, possibilitará que encontrem muitas possibilidades; terão que buscar caminhos novos, e o que buscam passa muito pela emoção, pela qualidade de vida, pela liberdade, pela ecologia, pela justiça social.
Assim, a emoção vai influenciar mais as decisões desta nova geração que começará a assumir o poder dentro em breve. Cada ação será avaliada do ponto de vista humano, de sua repercussão sobre a vida, o bem estar e os direitos de cada cidadão.
As próximas gerações tendem a apresentar uma capacidade empática bastante desenvolvida e um senso crítico saudável; elas se sentirão livres para assumir posições discordantes das gerações anteriores e para resgatar outros valores que eventualmente tenham sido perdidos e façam falta.
Lamentavelmente existe uma grande parcela desta nova geração que não recebe cuidados e educação suficiente e será atirada à pobreza e à falta de oportunidades. Num mundo onde, eles sabem que se pode viver bem melhor o vai convencê-los a abrir mão de seu direito a uma fatia de satisfação e respeito nesta sociedade? Não vejo mais a submissão nestes jovens, eles lutarão e, se a violência lhes foi ensinada a praticarão. Se sentirem-se roubados, roubarão. Não ficarão calados em guetos, não há mais como isto acontecer.
Mesmo estas emoções ligadas à revolta e indignação serão benéficas, se postas a serviço da construção de algo melhor. Se simplesmente forem direcionadas a destruir o que existe, então não teremos avanços. Quando se dá uma oportunidade, as crianças que vivem na pobreza agarram-se com unhas e dentes à ela. Existem muitos projetos funcionando pelo mundo afora, buscando resgatar essas pessoas de uma vida sem oportunidade de crescimento e aprendizado, as respostas são excelentes. Não se deixa gente abandonada porque sua emoção vai para o lado errado. Porque a emoção correta é aquela que vê o outro, que permite a paz. Isto as novas gerações perceberão.

 

Quem chega à vida adulta neste inicio de milênio é fruto uma trajetória de longos esforços humanos cujos frutos começarão a aparecer neles. Muito do passado se vai para que se erga o novo, mas o modelo bom será resgatado e os valores humanos tendem a ser abrandados para os lados do coração.
A grande esperança é que todo este mal estar represente o início da criação de um homem novo. Um ser que, apesar do desenvolvimento tecnológico, não se furta à emoção, para além das conveniências imediatas seleciona suas ações. Homem novo, revigorado, que pode chorar e sentir, que se nega a concordar com o infortúnio. Portador de emoção abrangente, ele sabe por onde andar e sabe que não anda sozinho.
O novo humano é livre para duvidar do absolutismo da lógica e dos rigores da lei, nem sempre certas nem justas, embora úteis tentativas de acerto. Neste novo homem a emoção tem lugar privilegiado, será mais educada e elevada. Isso não ocorrerá por imposições religiosas e temores de castigos, mas por amadurecimento e mérito de uma humanidade que há tantos milênios evolui. Confio nas próximas gerações, pois terão a oportunidade certa de desenvolver-se em razão e emoção, lado a lado.

 

 

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

 

 

 

publicado às 20:41


O LADO TÓXICO DOS PROCESSOS MENTAIS

por Thynus, em 15.11.13

 

 

 

É INTERESSANTE AQUI RESSALTAR OS COMENTÁRIOS DO AUTOR SOBRE A POSSIBILIDADE DAS EMOÇÕES PRODUZIREM EFEITOS TÓXICOS:

 

“...É EXTREMAMENTE LAMENTÁVEL QUE ATÉ AGORA ESSE LADO TÓXICO DOS PROCESSOS MENTAIS TENHA ESCAPADO AO ESTUDO CIENTÍFICO.’

 

Isto foi escrito em l927, de lá para cá muito se descobriu em termos de relacionar substâncias químicas a estados de humor e alterações de comportamento e percepção.
O curioso é que, ao descobrirmos tais substâncias, as tenhamos colocado como causadoras de tais enfermidades ou distúrbios, sem correlacioná-las às emoções. Quer dizer: colocamos as substâncias como produtoras da emoção penosa, retirando de cena as relações interpessoais, que são onde se originam as emoções.
Se substâncias podem produzir emoções, o que parece enunciado na afirmação de Freud é que o contrário pode ser verdadeiro: emoções produzem substâncias tóxicas.

 

Após um período em que se julgou possível tratar alguns quadros depressivos apenas com a correção química do déficit de neurotransmissores, alguns psiquiatras começam a falar do risco desse procedimento, fazendo reviver a eficácia e necessidade da abordagem dos aspectos emocionais.
Quando o sofrimento nos alcança desde a direção do outro, e atinge uma intensidade tal que nisso fique retida nossa energia, tendemos a buscar caminhos para o afastamento da realidade. Isso subentende que, no estado natural das coisas, o que nos liga realmente ao mundo é o interesse pelo outro. Quando há uma falha mais profunda nisso, produzem-se em nós emoções tóxicas. Nesse caso, a realidade passará a nos interessar menos, a ponto de desejarmos nos afastar, afinal é nela que localizamos a fonte do nosso desconforto.
Tomamos então dois prováveis caminhos: o afastamento físico e o químico. O primeiro representado pela tendência ao isolamento e o segundo por substâncias que nos desconectem de uma realidade desfavorável.
Podemos buscar de vários modos alterar a toxicidade causada por alguma emoção. Usamos freqüentemente uma forma química de neutralizar os efeitos de uma outra reação química, produzida endogenamente através da emoção.
Trabalhar com as emoções, no intento de reduzir ou extinguir sua toxicidade é um caminho que não pode ser dispensado. Quando a gravidade do processo emocional compromete a qualidade de vida e o comportamento, modificá-lo através de substâncias químicas exógenas só é possível até certo ponto. Mascarar os sentimentos, ao invés de chegar a elucidálos é, na verdade, um prejuízo ao paciente. É compreensível que alguém que sofre busque alívio rápido para sua dor, não importa se é de natureza física ou psíquica. Lamentavelmente, a idéia de que todo sofrimento deriva apenas de um desequilíbrio biológico tem sido uma posição freqüente em correntes das ciências que se ocupam da saúde mental. O paciente aceita esta posição cômoda e prefere manter-se indefinidamente usando substâncias capazes de alterar a percepção de seus sofrimentos, atenuando-a, a ter que se encontrar com suas motivações emocionais profundas. Por tais razões, é necessário distinguir entre condições crônicas que necessitarão de intervenção química mantida, e outras que podem beneficiar-se do uso de medicamentos temporariamente, enquanto se providencia o tratamento das emoções.

 

Talvez pudéssemos acrescentar uma terceira reação à decepção, a agressividade. A agressividade natural é, em princípio defensiva, portanto seria de esperar que, ao nos sentirmos agredidos por algum ponto da realidade nos tornemos agressivos.
A própria depressão pode começar a se manifestar por um aumento da agressividade e posteriormente evoluir para a apatia e a retirada do interesse do mundo externo. Em determinado ponto da evolução, um quadro depressivo não apresenta agressividade visível, ela está toda dirigida ao próprio indivíduo. O extremo desta agressividade auto dirigida é o suicídio, afastamento definitivo da realidade.
Também outras patologias apresentam um aumento da agressão, auto ou hetero direcionada, como resposta ao sofrimento e aos desequilíbrios químicos.
Embora tal sofrimento seja atribuído a uma percepção equivocada do mundo, temos de reconhecer que em muitos casos, senão em todos, podemos identificar uma fonte de sofrimento real que participa no processo de alteração de comportamento. Muitos dos sintomas da loucura são realizações fantasiosas de desejos ou revivências de situações traumática. O medo é uma emoção muito presente na loucura, mais do que todas as outras talvez, e explica a agressividade exacerbada dos quadros psicóticos.
A agressividade é uma forma de que se lança mão, na tentativa de lidar com o sofrimento.
É possível que o que decida se vamos ou não adoecer mentalmente, seja nossa predisposição genética mais a sensibilidade de cada um ao sofrimento e sua capacidade de percebê-lo. Este pode ser um longo caminho que termine por realmente turvar todo juízo de realidade, com o desenvolvimento de idéias delirantes que se organizam na forma de pesadelo. Um pesadelo que se vive acordado.
Se a loucura for um último e desesperado ato de fuga e distanciamento do que, no mundo produziu a dor, encontra-se na situação de um lamentável engano. Nada mais do que tenha visto assemelha-se mais à descrição do inferno, que a angústia, a loucura e a violência descontrolada.
Evidentemente tal fuga não poderia ser voluntária, ou cairia numa situação de fingimento. A loucura é bem menos agradável do que possa fazer supor a figura do maluco beleza, ele é um maluco mais esperto, que se defende do mundo criando seu próprio código de comportamento e vendo o que se passa em torno com o riso do estrangeiro, que não tem os mesmos compromissos e a paixão que nos torna, às vezes risíveis figuras.
O louco de verdade é bem menos capaz de se defender, na verdade caiu numa rede de sonhos em plena vigília e encontra-se na situação de um prisioneiro, ou pior, já que o prisioneiro ao menos ainda guarda algum controle sobre seus pensamentos.
Mas esse tipo de doença mental, que apresenta tão alto grau de distorção de percepção e tamanhas alterações de comportamento é relativamente raro.. O que mais afeta as pessoas são pequenos grandes distúrbios em que a apreensão da realidade fica parcialmente deformada, toma a forma de sintomas neuróticos. Eles podem passar despercebidos e até ser reconhecidos como naturais ou desejáveis pela sociedade.
Afinal, todos temos de lidar de alguma forma com nossas emoções tóxicas, e um pouquinho de loucura todos são capazes de perceber em si mesmos.
Da forma que se dá o desenvolvimento emocional do homem, é muito improvável que escape de uma contaminação por identificação e do desenvolvimento de um sintoma.
Os adultos são em grande parte crianças, embora administrem seus negócios e dirijam seus carros em perfeita adequação à imagem social que lhes corresponde, sua imperícia no trato das emoções geralmente se mostra com facilidade a um examinador honesto.
O que conservamos de traços infantis é aquilo que não pode amadurecer, ficou retido em algum momento, por uma dificuldade enfrentada durante o período de amadurecimento do Ego. Algumas coisas ficam para trás como se houvessem falhas na nossa alfabetização afetiva ou como se tivéssemos deixado de compreender determinadas lições.
Mais tarde, falta a habilidade para lidar com situações emocionalmente semelhantes ou, somos compelidos por uma força interna a repetir incontáveis vezes a lição na tentativa de acertar. O difícil, é que repetimos mil vezes errado, porque a aprendizagem foi incorreta. Nós aprendemos o que nos foi ensinado, mas o conteúdo estava errado.
Os professores são os adultos, que já tinham suas próprias dificuldades e estavam mal informados também. Assim, seguimos num semi analfabetismo afetivo herdado a cada geração, que nos mantém sob efeito de processos mentais mal arranjados e tóxicos.
Esse é o resumo bem rápido de uma neurose, algo que fica mal entendido, mal absorvido e pressiona como um calo. Dói mas, geralmente dá pra ir levando e não foge muito do comportamento médio; então nos damos por satisfeitos e até mesmo somos capazes de não nos apercebermos que algo ande errado, especialmente quando correspondemos ao padrão familiar. As coisas que aprendemos em casa nos são apresentadas como corretas e por maiores que sejam as críticas em determinado ponto da vida, logo estaremos repetindo automaticamente tudo o que criticamos. Foi a linguagem em que fomos emocionalmente alfabetizados, e tal como a língua mãe, tenderá sempre a ocupar nossos pensamentos.
Para fins de entendimento da psicopatologia da sociedade em seu cotidiano, basta-nos pensar em termos de neuroses e traços neuróticos, e mais recentemente em reações de estresse. Basta-nos perceber, que a maioria das pessoas sofre de alguma deficiência de aprendizagem emocional, sofrendo com a toxicidade de suas emoções que nem sempre lhes permitem ter o comportamento mais saudável, mesmo quando o desejem. Essas pessoas educam seus filhos sob o efeito da mesma toxicidade e ela vai atravessando gerações.
Uma neurose tem seu núcleo formado na infância e se prolonga pela vida adulta, florescendo incólume até que se descubra sua existência e busque um tratamento, que não é rápido e muito menos indolor, mas benéfico, no sentido de agregar qualidade às nossas vidas.
Todo mundo tem suas esquisitices, seus pontos de desequilíbrio, suas “luas”, dias de baixo astral, inibições, temores e manias. Esses, pela constância na vida de alguém, podem ser denunciados como sintomas neuróticos. Mas quase ninguém suporta essa palavra, todos pretendemos nos considerar saudáveis e não desejamos complicar nossas vidas com explicações e buscas que nos parecem sempre desnecessárias.
A formação de um sintoma é sempre um remendo de que a mente lança mão em situações de dificuldade maior. Uma solução provisória que acaba ficando permanente. Um jeito, enfim de lidar com um conflitos que se instalem dentro de nós produzindo efeitos tóxicos. Todo conflito produz ansiedade, que é desagradável, e da qual nosso aparelho psíquico tenta livrar-se.
Mais ou menos como uma cadeira cujo pé quebrou ou ameaça quebrar e a qual remendamos. Depois passamos uma demão de tinta e vamos encontrando um jeitinho de poder sentar sem que ela se desmonte.
Mesmo que isso signifique nunca poder sentar confortavelmente, ao menos podemos continuar usando a cadeira.

 

Esse é o sintoma neurótico, um arranjo mental que nos produz algum desconforto, mas nos permite continuar funcionando, ainda que precariamente, e às custas de um dispêndio de energia psíquica. Sim, esses sintomas são verdadeiros ladrões de energia, levam embora uma parte preciosa do que poderíamos usar em nosso benefício.
Mas, porque então ninguém gosta da idéia de ter que admitir que a cadeira está com o pé quebrado? Porque quando o sintoma se formou havia sofrimento. Foi exatamente para escapar dele que chegamos a formar o sintoma. Como o tempo é algo que só existe para a consciência, toda a emoção continua guardada, tão intacta como uma múmia egípcia, bem como as idéias que originaram o conflito. Mas não ligamos mais uma coisa à outra, sofremos por outras situações semelhantes, reagimos mal à situações que nos lembrem aquele conflito inicial mas, ele mesmo ficou soterrado.
Se ele vier a tornar-se consciente, coisa que é desejável no tratamento, sentiremos a mesma dor psíquica que nos fez adoecer e reviveremos tudo como se fosse hoje. Evidentemente isso é desagradável, embora necessário à cura. O mesmo princípio que originou o movimento de enterrar o conflito, na tentativa de fazer cessar a angústia, é o que tentará nos afastar de ter que revivê-la. Mesmo que funcionemos com remendos.
Outra razão é que a sociedade não vê com bons olhos que seus membros demonstrem qualquer sofrimento psíquico. O sofrimento físico é bem tolerado, mas o mental tende a ser visto como sinal de fraqueza.
A sociedade espera que sejamos fortes o suficiente para suportá-la com toda a insanidade que a forma. Se não conseguirmos, a fraqueza é nossa. Nós é que somos seres mal adaptados. Reclamar demais ou desviar-se do padrão social sempre pode ser considerado um ato subversivo. Isso, muitas vezes, é punido com a desaprovação do grupo demonstrada no conceito de anormalidade, do qual todos querem escapar.
O que acontece na atualidade, é que as pessoas estão perdendo o medo de dizer que se sentem mal. Também é verdadeiro que a pressão cresceu demasiado sobre o indivíduo contemporâneo, e seus remendos estão se desfazendo, deixando ver a patologia subjacente.

 

 

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

 

publicado às 20:32


CONVERSA COM FREUD

por Thynus, em 15.11.13

 

 

 

Em meus devaneios, imagino como seria bom poder conversar com Freud. Muitas vezes me perguntei que pensaria ele agora, tantos anos depois. Novos questionamentos surgiram para quem trabalhe com a mente humana, tantas coisas estão diferentes neste mundo que conheço, em relação ao que ele conheceu. Imagino se não estaria interessado nessas coisas de que falava e outras, como o renascimento do desejo ocidental da relação com a espiritualidade, as formas de comunicação direta entre pessoas, além do verbal e pára verbal. As influências mentais que um humano pode exercer sobre outro, a forma como cores e luzes e outras formas eletromagnéticas podem influenciar o psiquismo.
O ritmo de vida que temos hoje, e a disparidade com nossos ciclos biológicos, sobretudo após o advento do controle da luz pelo homem.
A quantidade de estímulos que o sistema nervoso central é capaz de processar de forma saudável, em comparação a que estamos submetidos. Acredito que diria: “vocês tem, realmente, muitos motivos para estarem todos perturbados: seu mundo é insano e tóxico.”

 

A vida nas metrópoles, o novo comportamento sexual e as posições feminina e masculina, o advento das drogas psicoativas na medicina e sua disseminação na sociedade.
Seja nas formas terapêuticas ou adictivas A violência, as angústias do ser hoje. Há muitas coisas sobre as quais Freud não falou, ao menos diretamente, pois eram desconhecidas no tempo em que viveu. Que pensaria ele sobre todas estas questões?
Isto é o que tenho me perguntado. Muito do que escreveu serve como início para a compreensão de fenômenos da atualidade mas, é inevitável que surjam novas perguntas e respostas diante de tão grandes alterações dentro e fora da cabeça. Meu desejo de ouvi-lo está presente em qualquer um que tenha interesse por comportamento humano, é impossível não imaginar como seria esclarecedor ouvir sua opinião e que seu saber pertence à humanidade, é parte do quebra cabeças e importa para todos.

 

Quando foi lançada a fluoxetina, o primeiro dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, houve quem a saudasse como a droga da felicidade. Passados alguns anos se confirma o que já sabíamos: isto não existe! O número de usuários da fluoxetina e de outros antidepressivos é enorme. Todos estão doentes? Muitos não estão. O que parece é que tentamos compensar com drogas os estragos do meio e nossa insatisfação com a vida. Não é possível o que o mundo atual quer das pessoas, elas realmente se desequilibram e tentam acelerar ou acalmar seu psiquismo através de medicamentos. É uma tentativa de adaptar-se ao ritmo frenético da vida, corresponder às novas exigências e conviver com as inseguranças.

 

Um grande avanço ocorreu com o tratamento químico dos desequilíbrios mentais, mas ele não representa a totalidade da resposta que buscamos. Sabemos que a depressão e ansiedade tem hoje uma freqüência crescente e boa parte disso se deve à insatisfação vital e ao estresse. Se entristece e angústia o ser contemporâneo, privado de seus ritmos, seus afetos e crenças internas. Por essas últimas entendendo o que cada um crê de si mesmo e dos seus vínculos que lhe fornece reasseguramento contra o desamparo. Crenças externas seriam aquelas pertinentes à realidade objetiva, comumente confundida com real, esquecendo que, para o homem, suas crenças internas são igualmente parte da realidade.
Que respostas temos para tudo isso? Como vamos enfocar e tratar estes sinais de desconforto dados pela mente humana nos dias que correm, mais de em todos os que em todos os precedentes?
O contexto favorece o desenvolvimento destes distúrbios em populações que, sob outras condições de vida, estariam provavelmente sadias. Se pensarmos no quanto nos resulta cara esta nova problemática de saúde, com perdas individuais e sociais, dispêndio de recursos para tratar, não apenas a condição direta de enfermidade mas, suas repercussões sobre o meio, teremos que reavaliar modos de viver, pensar, desejar, estabelecer relações.
Nossos tempos são geradores de emoções tóxicas. Remeto essas considerações ao artigo “O Lado Tóxico dos Processos Mentais,” e a “O Mal Estar na Civilização, S. Freud.

 

O ideal econômico desta civilização avançou tanto que suprimiu muitas das reações espontaneamente ditadas por nossa natureza. Várias de nossas necessidades passaram a ser consideradas incompatíveis com os deveres e as conveniências da sociedade.
Desconhecemos a razão principal da existência de todo este esforço que se chama civilização: o próprio homem e seu bem estar, e parecemos desconhecer ainda as considerações da biologia para nossa saúde ou enfermidade.
Arriscaria dizer que viver está progressivamente mais complicado. Se as facilidades proporcionadas pela tecnologia aumentam, as exigências crescem num ritmo mais acelerado, e as ameaças se tornaram mais diversificadas.
A grande conquista humana deste último século deveria Ter sido a liberdade, o avanço da democracia nas relações entre cidadãos e nas íntimas também. A liberdade de fato é um bem precioso, e o direito primeiro do ser, o que representaria um salto evolutivo impressionante. Contudo, não somos ainda totalmente livres, muitas são as tensões que incidem sobre nós e nosso mal estar diante delas, bem como é insipiente nossa capacidade para auto determinação construtiva.

 

Neste mundo em que me movo e onde vivem meus pacientes, posso dizer que o culto à produção e consumo tem escravizado a sociedade de tal forma, que os avanços conseguidos estão ruindo. As relações interpessoais estão mais instáveis e superficiais, enquanto que as sociais são comandadas pela competição. Portanto, apenas substituímos nossos deuses por outros que não sei se são melhores, e as tiranias persistem, inda que tenham tomado outras formas.

 

Temos ameaças nucleares, econômicas, biológicas, pairando sobre nós. E é grande o desafio de convivência, com milhões de homens apinhados em aglomerados urbanos cuja qualidade de vida é duvidosa e a segurança precária. Muito mais que uma droga como a fluoxetina é necessário para responder a isso. Fica adiada e descoberta da felicidade instantânea, permanente, e advinda de algo externo, facilmente encontrado, acessível a todos. Sem dúvida, era uma boa fantasia.
Resta-nos, prosseguir na jornada de entender e tratar as emoções e seu local de existência: as relações humanas. Não se pôde sustentar a simplificação que tínhamos em mente quando se previu que as alterações da química cerebral acabariam com o sofrimento humano.
Algo mais está na fonte desses desacertos e desencontros: ainda dependemos do outro, ainda temos uma natureza de afetos e uma biologia cujas necessidades não se pode descartar.
A evolução do conhecimento faz com vivamos num dia sempre novo, onde há sempre algo acontecendo. Este mundo agitado está sempre mudando, até mesmo numa velocidade maior que somos capazes de acompanhar. Em nossa essência mais profunda, somos os mesmos, nem todas as modificações foram assimiladas pela mente nem o corpo. As impossibilidades constituem aquilo que resulta na patologia da atualidade.
É inevitável que o senso de identidade fique perturbado neste redemoinho, no torvelinho das mudanças, da hiper informação, da super exigência, dos mega qualquer coisa e da escassez afetiva e de segurança..
O senso de identidade fundamenta o ser, qualquer geração que houvesse passado por tão bruscas mudanças como as últimas, teria sérios abalos em sua saúde física e mental.
Este, talvez seja o tempo de maior conflito interno que a humanidade já viveu e, por isso mesmo, é um momento interessante: crises são grandes oportunidades, nelas pode haver intenso crescimento emocional, apesar do desconforto.
Analisando estes tempos e os homens e mulheres que os constróem, concluímos que, ou aproveitamos o momento e amadureceremos muito como sociedade nos próximos anos, ou podemos ficar todos ruins da cabeça.

 

 

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

 

publicado às 18:04


ENERGIA DESPERDIÇADA

por Thynus, em 14.11.13

O mecanismo básico através do qual nossa cabeça tenta livrar-se de um conflito é semelhante à solução dada pela sociedade aos criminosos. Quando uma parte de nós, seja um desejo ou um impulso agressivo, é julgada indesejável pela nossa consciência, ela é jogada nos porões do inconsciente.
Tal como um prisioneiro que se pretenda ignorar, a idéia reprimida continua lá. Não há possibilidade de eliminá-la, apenas de mantê-la presa. A parte condenada, de modo algum concorda com sua prisão. Ficará lá apenas se mantivermos um rígido esquema de segurança com grades e guardas para contê-la. Teremos então um abalo em nossa economia psíquica para manter esse arranjo, mas isso ainda nos parecerá vantajoso.
Sempre corremos o risco de uma rebelião, uma fuga, ou que o prisioneiro se associe a alguém que está em liberdade para continuar agindo. No caso, isso se dará pelo sintoma, que sempre aparece, mesmo que de forma disfarçada.
Além disso, à noite, quando a censura relaxa, o inconsciente aparece em nossos sonhos.
Mas, os prisioneiros de nosso inconsciente são na maioria inocentes. A neurose se apoia numa justiça excessivamente rigorosa e assustada, que pune sem chances de defesa.
Se a justiça for excepcionalmente rigorosa, pode vir a gerar sérias inibições, já que quase todo nosso mundo interno estará encarcerado e, só a parte que se adapta à rigidez das normas estará vivendo livremente. Isso pode resultar em menos energia mental disponível para a aprendizagem e para a vida em geral.
A justiça dentro de nós é representada pelo sentimento de culpa, que é em todo caso necessário para que não causemos danos a outrem. Só que costuma prender as emoções e fantasias erradamente e não é eficiente em coibir a violência, que encontrará outras formas de se manifestar.
Pode também prender impulsos amorosos e nos tornar culpados de crimes que nem cometemos, basta ter desejado fazê-lo.
Esse sistema é apenas um arranjo, nascido da precariedade das defesas de uma criança, diante das exigências do meio. Não é o melhor modo de solucionar nossos conflitos, é apenas o que conseguimos fazer naquele momento. Ele falha por não conseguir inibir o desconforto mental, como pretendia, e por representar um alto consumo de energia psíquica.
Um afeto ou emoção está sempre ligado a uma imagem, idéia ou fantasia. O máximo que podemos fazer é reprimi-las. A emoção não se submete a esse encarceramento.
Dizendo de outra forma: alguém pode apagar uma lembrança mas não se livrará da emoção que ela desperta. Poderá apenas mascará-la e ela aparecerá sob uma outra forma.
Então você se pega tendo reações emocionais que não compreende. Poderá ficar muito emotivo diante de uma cena, ou ansioso, ou agressivo numa circunstância que normalmente não provocaria isso. São manifestações emocionais que não guardam uma correlação adequada com os fatos. O exemplo mais fácil de compreender são as fobias, um medo extremo de algo que não apresenta um perigo suficiente, ou muitas vezes não apresenta perigo algum.
Todo esse esquema de proteção, cria incapacidade de leitura correta da realidade. É o quer dizer a expressão governado pelas emoções. Mesmo que a aparência seja de perfeito controle e os sintomas silenciosos, toda a conduta obedecerá a motivações inconscientes que tentaremos justificar de alguma forma a nós mesmos.
Assim, o que somos obrigados a concluir é que um arranjo rigoroso, onde uma justiça interior age com mão de ferro, tem sido usado até aqui. Foi a forma como a humanidade conseguiu controlar seus impulsos menos desejáveis e obrigar-se a seguir os caminhos da cultura. É, contudo, um método primitivo. Sua eficácia é pequena e seu consumo energético excessivo.
Por isso, estamos tentando encontrar outra maneira de funcionar, em que o inconsciente deixe de ser um porão cheio de degredados. O inconsciente deve então, deixar de ser um local inacessível e mantido assim à custa de energia que deveria estar disponível à consciência. Na verdade significa que precisamos encontrar um meio de expandir a consciência para que nos tornemos mentalmente mais potentes.

 

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")


publicado às 21:03


INCREMENTO DA VIOLÊNCIA

por Thynus, em 14.11.13

Deve abrigar muitos aspectos, pensei na perda da esperança. Insegurança e insatisfação continuadas levam a perda da esperança. Não se tira a esperança de um povo ou de um indivíduo, sem ela estamos mortos, nossa relação com a vida se deteriora, nosso potencial criativo e produtivo se esvai.
A esperança é o motor de quaisquer realizações. A sua perda é o incentivo a todas as formas de deterioração, entre elas a violência e o desejo de romper o contato com a realidade desfavorável. A vontade de sair do mundo. Mas não dá para sair e ele não pára.
Precisamos cada vez mais de momentos de afastamento do caos. Há muitas formas de fazer isso e uma das soluções mais procuradas tem sido o uso de drogas. Álcool sempre foi consumido em escala significativa e é reconhecidamente um facilitador da violência. Violência no trânsito, violência doméstica, todos os tipos dela. Cresce o contingente de mulheres que abusam do álcool , geralmente dentro de suas casas, mas com efeitos de irrupção de agressividade contra os filhos, coisa que antes costumava acontecer somente aos homens. O crack e a cocaína deterioram o comportamento e são altamente potencializadores de violência.
Continuo atribuindo, em última instância, todos estes comportamentos à perda de esperanças nessa realidade e ao desejo de conexão com outra.
Tais substâncias alteram o juízo de realidade abolindo toda e qualquer censura ou oposição moral do próprio indivíduo.

O comportamento agressivo é também uma mazela transmitida de uma geração a outra. Crianças que sofrem agressões até os cinco anos de idade tem enorme chance de se tornarem adultos violentos. As circunstâncias externas desfavoráveis fazem crescer uma agressividade latente que a  droga libera e potencializa.
Os impulsos destrutivos são freados por duas situações: o juízo moral da própria pessoa que condena a ação violenta, e o temor da represália, a contenção externa. Parece que temos tido um decréscimo nos fatores inibidores e um acréscimo nos geradores e facilitadores de comportamentos agressivos.
É outra falha evidente nos ideais da civilização, estamos mais agressivos que os irracionais.
Até aqui estamos falando de situações de agressividade extrema, com lesões corporais e atentados à vida. Há também as pequenas agressões do dia a dia, o comportamento irritadiço e explosivo, o popular mau humor, que nos atinge como peste, dando sinais de que nosso psiquismo se encontra prejudicado, funcionando mal em algum ponto.
Muitos estão assim pelas ruas da cidade e não agiram sempre dessa forma, não é um traço de personalidade, é um comportamento atual, surgido sob determinadas circunstâncias estressoras, agudas ou crônicas.
Um tipo de comportamento social em que todos ao redor passam a ser identificados com o estado de mal estar que vivenciamos. Até porque, parecem mais competidores e alguém que nos ameace do que possa nos beneficiar. Esperamos a agressão do outro porque já criamos uma expectativa nesse sentido, que nasce da experiência de se Ter sido repetidamente agredido. Essa talvez seja a pior forma de perdermos a esperança, não esperarmos outra coisa do meio e das pessoas além de agressão.
Parece necessário, nos dias em que vivemos, sair um pouco da análise individual e partirmos para analisar uma conjuntura, uma vez que a sintomatologia atinge tão elevada incidência.
Já podemos falar de uma sociedade doente, ou mais agudamente doente do que em épocas anteriores. Os eventos vitais e o meio social sempre foram importantes na manutenção ou rompimento do equilíbrio psíquico. Em todos os tempos sempre se pode identificar fatores desencadeantes do desequilíbrio.
Hoje a questão é que um número crescente de pessoas estão tento seu equilíbrio rompido, o adoecer cresceu demasiado para que continuemos a analisar apenas os fatores individuais.
Mesmo em relação ao abuso de drogas, sabemos que há certos traços de personalidade comuns aos chamados adictos, mas como foi que cresceu tanto esse número? Não teríamos que considerar fatores sociais? Não teríamos que pensar na hipótese de que viver nesse mundo tenha se tornado por demais angustiante para muitos? E que então as substâncias capazes de alterar isso sejam naturalmente mais procuradas?
Se não posso mudar o mundo, posso ao menos mudar a percepção que tenho dele e obter algum prazer que não estou conseguindo sozinho.
Álcool e drogas são freqüentemente utilizados como “tratamento”, tranquilizante para quem está ansioso, estimulante para quem está deprimido, desinibidor para o tímido.
Quanto mais cresce a angústia do viver e quanto menos eficiente é a sociedade em nos oferecer segurança material e emocional, mais desejaremos estar fora dela e buscar alternativas que nos aliviem, além de, naturalmente desenvolvermos intensa agressividade contra tudo aquilo que identifiquemos como responsável pelo nosso mal estar.

 

 (Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")


publicado às 20:27

Honduras, El Salvador, Venezuela e Guatemala encabeçam a lista de mais assassinatos por 100 mil habitantes, diz relatório das Nações Unidas.

 

UN Development Programme (UNDP) Administrator Helen Clark (left) speaks at the launch of the 2013 Latin America Human Development Report. Photo: UNDP/Fabrice Grover

 

 

A América Latina é a zona mais desigual e insegura no mundo, precisando de instituições que estimulem o crescimento económico sustentável, a segurança e a justiça nos vários países, alerta um novo relatório das Nações Unidas.

De acordo com o relatório Citizen Security with a Human Face: evidence and proposals for Latin America, dado a conhecer na terça-feira, apesar de ter registado na última década algum crescimento económico, a América Latina viu também disparar as taxas de criminalidade, com mais de 100 mil assassinatos por ano. O documento excluiu os países de língua inglesa por já terem sido alvo de análise num outro estudo.

Assim, na lista entram 18 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Destes, Honduras, El Salvador, Venezuela e Guatemala são considerados quatro dos cinco países mais violentos do mundo tendo como referência o número de assassinatos por 100 mil habitantes. Se os países de língua inglesa fossem incluídos, a América Latina teria oito países no top ten.
Entre 2000 e 2010, a taxa de assassinatos na região cresceu 11%, enquanto na maior parte das regiões do mundo caiu ou pelo menos estabilizou. Ao longo da última década, mais de um milhão de pessoas morreram na América Latina e nas Caraíbas na sequência de violência criminal. De acordo com os dados avançados no relatório, só os assaltos triplicaram em 25 anos. Num dia típico nesta zona do globo, 460 pessoas sofrem as consequências de actos de violência sexual — na sua maioria mulheres.
“A segurança dos cidadãos é um assunto sensível que preocupa muitos decisores políticos e que está espelhado à cabeça nas campanhas eleitorais”, diz a responsável pelo programa de desenvolvimento das Nações Unidas, Helen Clark, num comunicado. Clark diz que tanto na América Latina como nas Caraíbas é fundamental criar um ambiente de paz, “sem o qual não há desenvolvimento”. Nas contas da organização, o ambiente vivido travou o crescimento do Produto Interno Bruto da região em 0,5%, o que corresponde a qualquer coisa como 24 mil milhões de euros tendo como referência o ano de 2009.
O relatório destaca seis pontos essenciais que estão a contribuir para o cenário negro da região: criminalidade nas ruas, violência e crimes contra jovens, violência de género, corrupção, violência cometida por actores públicos e criminalidade organizada.
Rafael Fernandez de Castro, que conduziu o relatório, diz, por seu lado, que a criminalidade organizada, nomeadamente o tráfico de droga, é normalmente o exemplo dado à cabeça, mas defende que “a dinâmica é muito mais diversa” nestas regiões. Além disso, garante que uma das lições que o relatório traz é que as políticas demasiado repressivas ou restritivas para combater a criminalidade têm um efeito contraproducente, tendo a sua implementação em alguns países coincidido com as mais elevadas taxas de criminalidade.

Imagem do Rio de Janeiro onde a violência tem aumentado nos últimos meses (Ricardo Moraes/Reuters)   

 

publicado às 18:04


A Oração ao Deus Desconhecido

por Thynus, em 13.11.13

 

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direcção de quem eu fujo.

 

A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que,
em Cada momento,
Tua voz me pudesse chamar.

 

Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
"Ao Deus desconhecido".
Seu, sou eu,
embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.

 

Seu, sou eu,
não obstante os laços que me puxam para o abismo.

 

Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero Te conhecer,
quero servir só a Ti.

 

Autor: Friedrich Nietzsche
Tradução e interpretação: Leonardo Boff

 

 

 

Alguém escreveu:

“Deus está morto!”— assinado Friedrich Nietzsche

Veio outro alguém e escreveu:

“Nietzsche está morto!”— assinado Deus.


Ora, o “Deus” que para Nietzsche morreu foi o “Deus” que já nasceu morto: o “Deus” da religião.

Nietzsche não cria na morte de Deus-Deus. Aliás, para ele, essa não era uma questão passível de comprovação ou discussão, nem para afirmar e nem para negar.

Nietzsche sabia que assim como a verdade, Deus só pode ser provado existencialmente, e, jamais elucubrado ou sistematizado.

Quando Nietzsche declarou que Deus estava morto, ele se referia ao ‘Deus do Cristianismo’, o qual, já nasceu morto; posto que surgiu como uma criação humana fadada ao esclerosamento e à morte.

E mais: a Oração ao Deus Desconhecido, é uma confissão de amor ao que Ama, e é a declaração de uma alma que, mesmo enlouquecida de desejo de verdade, sabe que Aquele que é, sabe quem ele é — apesar de todos os véus de linguagem que ‘aparentemente’ fizessem separação entre ele e Deus.

Certamente Nietzsche está sob as misericórdias de Jesus. E hoje ele sabe do Deus pessoal, não como uma categoria congelada de uma Existência que sabe de Si e que á capaz de amar. Mas sim como Amor mesmo. Deus não é uma pessoa que ama. Porque Ele é amor é que Ele é pessoal, mas não uma Pessoa Fixa, conforme nossas categorias de pessoalidade, todas tendo o homem como referência de “pessoa”.

Portanto, o “Deus” que Nietzsche quis matar tem que morrer mesmo!

Esse “Deus” das virtudes do judaísmo, do cristianismo e do islamismo — é o grande promotor das guerras e das desarmonias vistas e vomitadas neste planeta moribundo.

Esse “Deus” é a morte da terra.

Esse “Deus” não é Deus.

Esse “Deus” tem sido frequentemente um diabo.

Esse “Deus” tem que morrer.

Nele, que É; e que amou Nietzsche mesmo em sua maior loucura; pois, por que o supremo Louco não amaria um ser enlouquecido pela busca da Verdade de Deus, e que é loucura para os homens?

 

Caio Fábio

publicado às 00:14



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