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UMA ÉTICA DA FELICIDADE

por Thynus, em 30.09.13

 

A filosofia de Espinosa é uma ética da alegria, da felicidade, do contentamento intelectual e da liberdade individual e política. Na abertura de uma de suas primeiras obras, o Tratado da emenda do intelecto, o filósofo escreve:

 

Tendo eu visto que todas coisas de que me arreceava ou temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, decidi, enfim, indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro, comunicável e pelo qual unicamente, afastado tudo o mais, o ânimo fosse afetado; mais ainda, se existia algo que, uma vez encontrado e adquirido, me desse eternamente a fruição de uma alegria contínua e suprema.

O escopo do tratado é não apenas buscar os meios para adquirir a força de ânimo — pois somente deste depende a qualidade das coisas desejadas —, como ainda esforçar-se “para que muitos também a adquiram”, pois “faz parte de minha felicidade” compartilhar com outros o verdadeiro bem e “formar uma sociedade tal que a maioria possa chegar a ele facilmente”. A afirmação de que a felicidade é compartilhar com outros a fruição do bem é reiterada no Tratado teológico-político, onde lemos:

A verdadeira felicidade e beatitude do indivíduo consiste unicamente na fruição do bem e, não, como é evidente, na glória de ser o único a fruí-lo quando os outros dele são excluídos; quem se julga mais feliz só porque é o único a ser feliz, ou porque é mais afortunado do que os outros, ignora a verdadeira felicidade e a beatitude.

A filosofia espinosana germina nessa busca e a ela se dedica até seu florescimento em sua obra magna, a Ética, em cuja conclusão lemos:

Se o caminho que mostrei conduzir a este estado [de plenitude e contentamento] parece muito árduo, pode, todavia, ser encontrado. E com certeza há de ser árduo aquilo que muito raramente se encontra. Como seria possível, com efeito, se a salvação estivesse à mão e pudesse encontrar-se sem muito trabalho, que fosse negligenciada por quase todos? Mas tudo que é precioso é tão difícil quanto raro.

Essa ética é a verdadeira entrada da filosofia na modernidade, pois se oferece liberada do peso de duas tradições: a da transcendência teológicoreligiosa ameaçadora, fundada na ideia de culpa originária e na imagem de um Deus juiz; e a da normatividade moral, fundada na heteronímia do agente, uma vez que este, para ser moralmente virtuoso, deve submeter-se a fins e valores externos não definidos por ele.
Com efeito, a tradição teológico-religiosa concebe o homem como um ser decaído em decorrência de uma falta originária, quando, usando seu livrearbítrio, transgrediu os mandamentos divinos. Assim, a primeira manifestação de nossa liberdade foi o pecado e, com ele, a culpa. Colocando-se contra a tradição, no Prefácio à Parte III da Ética, Espinosa escreve:

Quase todos que escreveram sobre os afetos e a maneira de viver dos homens parecem tratar não de coisas naturais, que seguem as leis comuns da Natureza, mas de coisas que estão fora da Natureza. Parecem, antes, conceber o homem na Natureza qual um império num império [imperium in imperio]. Pois creem que o homem mais perturba do que segue a ordem da Natureza, que possui potência absoluta sobre suas ações e que não é determinado por nenhum outro que ele próprio. Ademais, atribuem a causa da impotência e inconstância humanas não à potência comum da Natureza, mas a não sei que vício da natureza humana, a qual, por isso, lamentam, ridicularizam, desprezam, ou, o que o mais das vezes acontece, amaldiçoam; e aquele que sabe mais arguta ou eloquentemente escarnecer a impotência da mente humana é tido como divino.

 Por seu turno, a tradição normativa submete a ética a imagens de coisas boas ou más em si e apresenta bom e mau como modelos externos da conduta virtuosa (conforme ao bem) e viciosa (conforme ao mal), identificando a liberdade com o poder da vontade para escolher entre valores postos como regras e normas para o agente. Nas duas tradições, o corpo é tido como a causa das paixões da alma e estas são consideradas vícios em que caímos por nossa culpa, desobedecendo à vontade de Deus (na tradição teológicometafísica) ou contrariando as leis da Natureza (na tradição da normatividade moral).
A ética espinosana subverte essa dupla tradição porque sua viga mestra é a ideia de que o homem é efeito imanente da atividade de uma potência absolutamente infinita, Deus, que engendra a Natureza sem separar-se dela. Porque efeitos imanentes à causa infinita, os seres humanos, como todas as coisas singulares finitas, são uma parte da Natureza e uma expressão singular do ser absolutamente infinito. A liberdade não é livre-arbítrio da vontade — seja esta divina ou humana —, mas a ação que segue necessariamente das leis da essência do agente, ou, em outras palavras, a liberdade não é a escolha entre alternativas externas possíveis, mas a autodeterminação do agente em conformidade com sua essência. Eis por que Espinosa introduz a enigmática expressão livre necessidade com que indica que liberdade e necessidade não se opõem e que a primeira pressupõe a segunda.
Afastando imagens antropomórficas e antropocêntricas da divindade, Espinosa demonstra que Deus não é um poder monárquico e legislativo, uma vontade soberana que comanda e julga as ações humanas; que os humanos não são dotados de livre-arbítrio a rivalizar com a vontade divina; e que, por suas paixões e ações, não são perturbadores da ordem natural, mas uma parte dela, uma potência natural capaz de tomar parte na atividade infinita da Natureza.

(Marilena Chaui - Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa)

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publicado às 04:32

Para o Papa Francisco, a morte não é tabu. "Quando somos novos, não olhamos tanto para o fim, valorizamos mais o momento. Mas lembro-me de dois versinhos que a minha avó me ensinou: "Olha que Deus te está a ver, olha que te está olhando; olha que hás-de morrer e que não sabes quando." Passados 70 anos, não consigo esquecê-los. Ela inculcava-me a consciência de que tudo acaba, de que devemos deixar tudo bem. No meu caso, penso todos os dias que vou morrer. Não me angustio por isso, porque o Senhor e a vida prepararam-me. Vi morrer os meus antepassados, e agora é a minha vez. Quando? Não sei."
Deus é o Deus da vida e não da morte. Bergoglio segue a leitura teológica tradicional: "O mal entrou no mundo através da astúcia do Demónio, que sentiu inveja, porque Deus fez o homem como o ser mais perfeito. Por isso o Demónio entrou no mundo. Na nossa fé, a morte é uma consequência da liberdade humana. Fomos nós, através dos nossos pecados, a optar pela morte, que entrou no mundo, porque criámos espaço para a desobediência ao plano de Deus. Entrou também o pecado, como soberba face aos planos do Senhor, e com ele a morte."
Não queremos morrer, temos medo e angústia. "A morte é um despojamento, por isso se vive com angústia. Estamos agarrados à vida e não queremos ir. Até o mais crente sente que o estão a despojar, que tem de abandonar parte da sua existência, da sua história. São sensações intransferíveis." O próprio Jesus sentiu angústia. "Disso ninguém se salva. Mas eu acredito que Deus nos agarra com a sua mão quando estamos prontos a dar o salto. Teremos de nos abandonar nas mãos do Senhor; sozinhos não conseguiríamos aguentar."
A vida é um caminho e é a esperança que estrutura o nosso caminho. Um dos perigos é "apaixonarmo-nos pelo caminho e perdermos de vista a meta"; o outro é "o quietismo: ficar a olhar para a meta e não fazer nada pelo caminho."
É preciso, pois, assumir o caminho e nele desenvolver a nossa criatividade, o nossos trabalho de transformação do mundo. Não estamos encerrados em nós: recebemos uma herança e temos de entregar uma herança, o que constitui "uma dimensão antropológica e religiosa extremamente séria, que fala de dignidade". A vida e a morte lutam corpo a corpo, no sentido biológico, mas sobretudo em relação à forma como se vive e morre. "Nos Evangelhos, aparece o tema do Juízo Final e de uma forma vinculada ao amor. Para os cristãos, o próximo é a pessoa de Cristo."
Então, a meta, que é a vida do Além, "gera-se aqui, na experiência do encontro com Deus, começa no assombro do encontro. Acreditamos que existe outra vida, porque começamos a senti-la aqui. Contudo, não por via de um sentimento suave, mas por um assombro através do qual Deus se nos manifesta." Os primeiros cristãos "associavam a imagem da morte à da esperança e usavam a âncora como símbolo".
A morte está sempre presente como possibilidade, mas tem um vínculo indissolúvel com a velhice. "A amargura do idoso é pior do que qualquer outra, porque não tem retorno." Por outro lado, se, antes, falávamos de opressores e oprimidos, incluídos e excluídos, hoje "temos de acrescentar outra antinomia: os que entram e os que estão a mais. Estamos a habituar-nos ao facto de que existem pessoas descartáveis, e, entre elas, os idosos têm um lugar muito importante". São muitos os que "abandonam quem lhes deu de comer, quem os educou, quem lhes limpou o traseiro. Dói-me, faz--me chorar por dentro. E nem vale a pena falar daquilo a que chamo eutanásia encoberta: o tratamento indevido dado aos idosos nos hospitais e nas instituições de assistência social, a quem não dão os medicamentos e a atenção de que necessitam."
Olhar para o idoso é ver o caminho de vida até mim. É preciso perceber que sou mais um elo, que "teremos de honrar aqueles que nos precederam e fazermo-nos honrar por aqueles que nos vão seguir, a quem teremos de transmitir a nossa herança." Referindo-se a si, com 74 anos, diz: "Estou a preparar-me e quereria ser vinho envelhecido, não vinho passado."

(Anselmo Borges)

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publicado às 00:52


PROMETEU E OS PRIMEIROS HOMENS

por Thynus, em 28.09.13
 
 
Em seguida, os deuses criaram do barro os seres vivos. Sem perceber, privilegiaram os animais, em detrimento dos homens.
De fato, os primeiros receberam as qualidades físicas que lhes permitiam se adaptar perfeitamente ao meio natural. Alguns, como o urso, foram dotados de grande força; outros, menores, como os passarinhos, ganharam asas para fugir. A divisão parecia eqüitativa, e as qualidades distribuídas entre as diversas espécies se equilibravam. Mas uma das espécies foi esquecida: a humana. Com sua pele apenas, os homens não podiam suportar o frio, e seus braços nus não eram suficientemente robustos para combater os animais selvagens. A raça humana estava ameaçada de extinção...
Prometeu, filho do titã Jápeto, sentiu pena dos fracos mortais. Ele sabia que a inteligência deles possibilitaria que fabricassem armas e construíssem abrigos se eles tivessem meios para isso, mas lhes faltava um elemento essencial: o fogo. Com o fogo, poderiam endurecer a ponta de suas lanças, a fim de torná-las mais resistentes, e se aquecer em seu lar.
Ora, os deuses conservavam com o maior cuidado a preciosa chama só para si. Prometeu teve que penetrar discretamente na forja de Hefesto, o deus do fogo, para roubar a chama, que levou para os homens oculta no oco de uma raiz.
Zeus não ignorou por muito tempo esse furto. Assim que notou o brilho de uma chama entre os mortais, o poderoso soberano deu vazão à sua cólera. No mesmo instante jurou se vingar dos homens e do benfeitor deles, Prometeu.
 
Combatendo uma esperteza com outra, teve a idéia de produzir uma criatura irresistivelmente encantadora que causaria a desgraça dos homens. Assim, usando barro, criou a primeira mulher, que chamou de Pandora. Contou com a ajuda de Hefesto, que a enfeitou com as jóias mais delicadas, e de Atena, que a vestiu com um tecido vaporoso, preso na cintura por um cinto trabalhado artisticamente.
Quando ela ficou pronta, Zeus a mandou à casa de Epimeteu, irmão de Prometeu. Conhecia a ingenuidade e a imprudência desse deus. Não podendo resistir aos atrativos de tão bela pessoa, Epimeteu esqueceu que o irmão o prevenira contra os presentes de Zeus. Recebeu Pandora e a instalou em sua casa.
Pandora havia trazido consigo uma caixa que não deveria abrir em hipótese nenhuma. Isso lhe fora expressamente recomendado por Zeus ao lhe dar a caixa. Era mais uma esperteza, porque ele sabia muito bem que um dia a jovem iria querer descobrir o conteúdo dela.
Movida pela curiosidade, Pandora acabou abrindo a caixa... de onde saiu precipitadamente um vento de desgraças. Apavorada, ela viu passar a fisionomia ameaçadora da crueldade e o sorriso malicioso do engano. Ouviu os gritos queixosos dos miseráveis e dos sofredores. Outras desgraças começavam a se propagar assim no vasto munido. Quando Pandora descobriu seu trágico erro, tampou rapidamente a caixa. E então a Esperança e todas as promessas de felicidade para os homens ficaram para sempre trancadas ali.
Nada disso se devia ao acaso: a primeira etapa da temível vingança de Zeus se consumara.
O segundo castigo, mais cruel, iria atingir Prometeu. Zeus o acorrentou a um rochedo com cadeias (cadeia: corrente de ferro para prender condenados). que o prendiam dolorosamente pelos braços e pernas. Assim exposto, sem poder se defender, Prometeu sofria todos os dias o ataque de uma águia que vinha lhe devorar o fígado. E todos os dias, para seu suplício, seu fígado se recompunha. Em troca de um favor, Prometeu recebeu uma terrível punição.
Quanto aos homens, eles aprenderam com isso que um bem podia vir acompanhado de uma desgraça.

(C L A U D E P O U Z A D O U X - CONTOS E LENDAS DA MITOLOGIA GREGA)
Nada é absoluto. Tudo é mutável

 

 

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publicado às 00:53

 

La liberté n'est pas un bien que nous possédions. Elle est un bien que l'on nous a empêché d'acquérir à l'aide des lois, des règlements, des préjugés, ignorance... (Paris, Maio de 1968)

 

Mill suavizou o utilitarismo de Bentham de muitas formas. Os críticos tinham objectado que a suposição de que a vida não tem um fim mais elevado do que o prazer era uma doutrina digna apenas de porcos. Mill respondeu fazendo uma distinção entre a qualidade dos prazeres. «Dados dois prazeres, se existir um que todas ou quase todas as pessoas que dele tiveram experiência prefiram decididamente, sem relação com qualquer sentimento de obrigação moral para o preferir, é esse o prazer mais desejável». Na posse desta distinção, Mill está apto a concluir que «É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates insatisfeito do que um louco satisfeito». Ao aplicar o princípio da maior felicidade, devemos ter em conta o seguinte: o fim para o qual todas as outras coisas são desejáveis é uma existência tanto quanto possível isenta de dor e tão rica quanto possível na quantidade e qualidade dos prazeres.
O utilitarismo de Bentham, com a sua negação dos direitos naturais, justificaria em princípio, em certas circunstâncias, um regime altamente autocrático e grandes intromissões na liberdade individual. Nos seus escritos, Mill sempre se esforçou por temperar o utilitarismo com o liberalismo; e a sua pequena obra Da Liberdade é um eloquente clássico do individualismo liberal.
O opúsculo procura traçar os limites da interferência legítima da opinião colectiva na independência individual. Ele declara o seu princípio orientador nos seguintes termos:

O único fim em vista do qual a humanidade está autorizada, individual
ou colectivamente, a interferir com a liberdade de acção de quaisquer
dos seus membros é a auto-protecção. O único objectivo em função do
qual o poder se pode correctamente exercer sobre algum membro de
uma comunidade civilizada, contra a sua vontade, é o de impedir qualquer
dano causado a terceiros. O seu próprio bem, físico ou moral, não
é motivo suficiente.

A única parte da conduta de alguém que o torna responsável para com a sociedade é a que diz respeito a outros. O indivíduo é soberano de si mesmo, do seu corpo e da sua alma.
Mill aplica o seu princípio em particular na defesa da liberdade de expressão . Uma opinião silenciada pode ser verdadeira; se não for verdadeira, pode conter uma parte de verdade; e, mesmo que seja inteiramente falsa, é importante que a opinião contrária seja contestada, caso contrário será mantida como simples preconceito ou como uma declaração formal, desprovida de convicção. Com base nestas considerações, Mill afirma que as liberdades de opinião e de expressão são «necessidades para o bem-estar moral da humanidade, das quais todas as outras formas de bem-estar dependem».

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

"Poucas criaturas humanas consentiriam ser transformadas em qualquer dos animais inferiores em troca da promessa do mais pleno acesso aos seus prazeres bestiais; nenhum ser humano inteligente consentiria tornar-se um tolo, nenhuma pessoa instruída, um ignorante, ninguém de sensibilidade e consciência, um ser egoísta e reles, e isso mesmo que eles fossem persuadidos de que o tolo, o beócio ou o infame estavam mais satisfeitos com a sua sorte do que eles estão com a deles. (...) É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito; melhor ser um Sócrates insatisfeito que um tolo satisfeito; e, se o tolo ou o porco tem uma opinião distinta, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão."

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publicado às 21:58

 

 A concepção gadameriana da compreensão é fortemente marcada pela análise heideggeriana da estrutura de antecipação da compreensão, de acordo com a qual nós compreendemos o mundo e os outros à luz do nosso horizonte ou contexto histórico, social e cultural. Segundo Heidegger, não há interpretação sem pressupostos, porque toda a interpretação é determinada por um determinado contexto prático, por uma certa grelha conceptual e ainda pela adopção de uma determinada perspectiva dentro do nosso horizonte de inteligibilidade. Esta pré-compreensão nunca pode ser dispensada ou abolida, mas apenas elaborada ou desenvolvida. Deste modo, a noção tradicional de círculo hermenêutico, que remetia para a dependência mútua do sentido das partes e do sentido do todo ao nível da compreensão de um texto, é reinterpretada como o movimento circular entre a pré-compreensão de um intérprete e o interpretandum.
Gadamer subscreve a reinterpretação heideggeriana do círculo hermenêutico, dedicando especial atenção ao domínio da interpretação dos textos:
«Quem quer compreender um texto executa sempre um projectar.
A pessoa em questão antecipa um sentido para o todo mal
um primeiro sentido se mostra no texto. E, por seu turno, este
primeiro sentido mostra-se apenas porque já se lê o texto com a
expectativa de um determinado sentido. É na elaboração de um
tal projecto antecipador, constantemente revisto, é certo, a partir
da penetração posterior no sentido, que consiste a compreensão
do que lá está»
(Hans-Georg Gadamer, Wahrheit und Methode, Tübingen, J. C. B. Mohr, 1999, p. 271.Esta obra, o magnum opus de Gadamer, será doravante citada como WM. Existem traduções de Wahrheit und Methode em inglês (Truth and Method, New York, Continuum, 2003), francês (Vérité et méthode, Paris, Seuil, 1996), espanhol (Verdad y método, Salamanca, Ed. Sígueme, 1998), italiano (Verità e método, Milão, Bompiani, 2001) e em português do Brasil (Verdade e Método, Petrópolis, Vozes, 1998).
O círculo hermenêutico significa, assim, que «a compreensão do texto permanece duradouramente determinada pelo movimento antecipador da pré-compreensão» (Ibidem, p. 298), daí decorrendo que «se compreende de modo diferente, se se compreende efectivamente» (Ibidem, p. 302). Com efeito, se a interpretação depende de um horizonte de compreensão e se tal horizonte difere de intérprete para intérprete, então dois intérpretes diferentes deverão compreender de modo diferente o mesmo texto.
Na obra de Gadamer, a reflexão sobre o círculo hermenêutico assume a forma de uma reabilitação do preconceito: «os preconceitos [Vorurteile] do indivíduo são, muito mais do que os seus juízos [Urteile], a constituição histórica do seu ser» (Ibidem, p. 281. Note-se que Gadamer vê nesta passagem uma formulação possível da noção de círculo hermenêutico (Cf. IDEM, Wahrheit und Methode: Ergänzungen – Register, p. 224). Com efeito, em oposição ao «preconceito contra o preconceito» (WM, p. 275) característico do Iluminismo, Gadamer alerta para o facto de os preconceitos serem condições da compreensão e, por conseguinte, da comunicação. Eles não devem ser entendidos como juízos errados, mas tão-só como juízos prévios que podem ser confirmados ou refutados no decurso da nossa experiência do mundo:
«Os preconceitos não são necessariamente injustificados e erróneos,
de modo que dissimulassem a verdade. Na verdade, a historicidade
da nossa existência implica que os preconceitos constituem,
no sentido etimológico do termo, as linhas de orientação
prévia que tornam possível a nossa experiência. Eles são predisposições
da nossa abertura ao mundo, condições que permitem
que tenhamos experiências e que aquilo que encontramos nos
diga algo» (IDEM, Wahrheit und Methode: Ergänzungen – Register, p. 224)..
Enquanto fonte de inteligibilidade, os preconceitos não podem ser suprimidos; uma tal supressão, longe de conduzir a um conhecimento objectivo, inviabilizaria o próprio conhecimento. A impossibilidade de erradicar os preconceitos não tem, todavia, como consequência uma capitulação perante o poder dos preconceitos. Uma vez reconhecida a importância epistemológica e ontológica dos preconceitos, torna-se necessário distinguir entre preconceitos adequados e inadequados, iluminadores e obscurantes. Os dois pontos estão estreitamente ligados; quanto menos consciência se tiver do papel desempenhado pelos preconceitos no nosso pensamento, tanto menor é a capacidade de corrigi-los (Cf. WM, p. 366: «Quem está convencido de que não tem preconceitos, porque se apoia na objectividade dos seus procedimentos e nega o seu próprio condicionamento histórico, sofre o poder dos preconceitos, que o dominam de forma descontrolada, como uma vis a tergo»). Mas como controlar a acção dos preconceitos? Como veremos, os preconceitos são controlados por aquilo que eles tornam possível: a compreensão e a comunicação.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - Filosofias da Comunicação)

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publicado às 21:01

 

Eu tomo um remédio para controlar a pressão.
Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.
Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o preção.
Tô sofrendo de preção alto
. 

O médico mandou cortar o sal. Comecei cortando o médico, já que a consulta era salgada demais.
Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico. Sério!
Não sei mais o que é real.
Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no banco.
Não tem mais um Real.


Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!
Aquela viagem? Esquece!
Tudo o que a "presidenta" prometeu? Esquece!

Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao meu time: - nas últimas.
Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala perdida... Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Faz diferença... "A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo"

" Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio" ....
 


(Luiz Fernando Veríssimo)

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publicado às 20:25

 

 

A lenda surgiu de um mal-entendido. Em muitos feudos, os senhores autorizavam o casamento dos servos com um gesto simbólico, colocando a mão ou a perna na cama dos noivos – a tal “pernada”. Citações a essa tradição foram mal interpretadas por historiadores, que acharam ter encontrado provas da exploração sexual das camponesas. “É um exemplo impressionante de certas interpretações baseadas apenas em jogos de palavras”, escreveu a historiadora Régine Pernoud.
Apesar do pouco fundamento, a história é poderosa e duradoura. “O conteúdo sexual do direito de pernada faz com que ele se prenda na memória”, diz o historiador francês Alain Boureau, que dedicou um livro inteiro para derrubar esse mito. “É uma história que fascina por sua total alteridade; por alimentar a fantasia de um consentimento institucional e até jurídico à violência” (Alain Boureau, The Lord’s First Night: The Myth of the Droit de Cuissage, The University of Chicago Press, 1998, página 4). Por causa desse enorme poder de provocar indignação, o direito de pernada é uma ótima ferramenta para quem pretende mostrar como era detestável e bárbaro um povo ou seu líder. Tanto que é usado muito antes da Idade Média. É o caso da Epopeia de Gilgamesh, uma das primeiras obras literárias da história do mundo, escrita na Mesopotâmia há 4 mil anos. Gilgamesh é um rei opressor cuja “luxúria não poupa uma só virgem para seu amado; nem a filha do guerreiro nem a mulher do nobre”. No século 5 a.C., o grego Heródoto, “o pai da História”, conta que na tribo dos adyrmachidae, da Líbia, todas as noivas eram enviadas ao rei, que escolhia aquelas com quem gostaria de passar a noite.
Até mesmo os cristãos medievais, hoje vítimas da lenda, a reproduziram. Diziam que o costume era praticado pelos povos bárbaros além das fronteiras cristãs. O fato de se referirem ao direito à primeira noite como algo aviltante é mais um indício de que não o consideravam normal ou rotineiro, muito menos que consentiriam tal costume. Apesar disso, durante o Iluminismo, o filósofo Voltaire, interessado em retratar a Idade Média como a época do obscurantismo e da opressão, escreveu uma peça sobre o suposto costume medieval. A credibilidade de Voltaire deu força ao mito, que sobrevive. No filme Coração Valente (1995), o guerreiro escocês William Wallace, vivido por Mel Gibson, casa-se em segredo para evitar a violação de sua noiva pelo detestável senhor feudal.

(Leandro Narloch - Guia politicamente incorreto da História do Mundo)

«O direito do Senhor», por Vasily Polenov
Pintura que mostra um pobre ancião entregando suas jovens filhas ao despótico Senhor Feudal.

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publicado às 08:33

 

 

Os Evangelhos foram escritos por homens que estiveram entre os primeiros a ter a fé e
que queriam compartilhá-la com outros. Depois de terem conhecido na fé quem é Jesus,
puderam ver e fazer ver os traços de seu mistério em toda a sua vida terrestre. Desde os
paninhos de sua natividade até o vinagre de sua Paixão e o sudário de sua Ressurreição,
tudo na vida de Jesus é sinal de seu Mistério. Por meio de seus gestos, de seus milagres,
de suas palavras, foi revelado que "nele habita corporalmente toda a plenitude da
divindade" (Cl 2,9). Sua humanidade aparece, assim, como o "sacramento", isto é, o sinal
e o instrumento de sua divindade e da salvação que ele traz: o que havia de visível em sua
vida terrestre apontava para o mistério invisível de sua filiação divina e de sua missão
redentora.

 

(Catecismo da Igreja Católica)


Tudo que diz respeito à pesquisa bíblica vem acompanhado obrigatoriamente pela palavra "suposto". Há poucas evidências arqueológicas que comprovem uma história das escrituras com 100% de certeza. Apesar disso, os pesquisadores continuam a escavar e estudar resquícios antigos na Terra Santa que possam levar a um esclarecimento maior sobre o distante passado daquele pedaço do planeta.
A famosa briga entre ciência e religião já abraçou os diversos segmentos da narrativa bíblica. Um exemplo disso foram os recentes estudos conduzidos por equipes norte-americanas sobre a verdadeira origem do Sudário de Turim, o famoso pano que os fiéis acreditam ter envolvido o corpo de Jesus após a crucificação. Sobre isso a revista Planeta falou, em artigo de Paulo Urban, publicado em abril de 2001, referindo-se a um teste para comprovação da autenticidade, conduzido em outubro de 1988:

João Paulo II, crendo na antigüidade do Sudário, autorizou o teste. Na madrugada de 21 de abril de 1988, em sessão solene, foi cortado dele um fragmento de 7 cm x 1 cm. Três laboratórios de renome foram selecionados para a prova realizada com todo rigor científico. Mas os resultados foram decepcionantes para a Igreja que não viu confirmada sua crença; o Sudário não poderia ter envolvido o corpo de Cristo, era peça medieval, do século XII. Passado o impacto da notícia, desde então vários cientistas vêm pondo em dúvida a datação. As objeções são muitas. Já em 1988, o Prof. Júlio Duarte (Júlio César Teixeira Duarte, advogado e paleo-antropólogo, erudito na historiografia de Jesus) apontava que a datação não seguira o protocolo conforme estabelecido pelo Doutor Willard F. Dibb, prêmio Nobel de Química em 1960, criador do teste. Ele pede que se queime 1/6 da amostra original para que o resultado seja preciso, o que obrigaria cortar mais de lm do Sudário, razão pela qual a Igreja sempre se opusera a esta prova. Além disso, são necessários minimamente 10g de material, e as tiras de linho não pesavam sequer 50mg. "Mesmo com o aprimoramento da técnica", dizia Júlio, "a permitir que se queime um ínfimo fragmento do Sudário, temos que levar em conta que o pano sofrerá o incêndio de 1532, capaz de prejudicar um teste assim".

Sempre houve esse tipo de embate entre ciência e religião. Uns acusam os outros de serem forças opostas e, até certo ponto, canibais umas das outras. Seria possível que ciência e religião tenham algum dia o mesmo ponto de vista? Os últimos relatos de pesquisas nesse sentido parecem utilizar a tecnologia moderna quase em seu limite, porém apresenta sempre provas de que, quanto mais se corre atrás de uma evidência divina, menos se encontra.

A briga pelo sudário de Turim

O sudário mais famoso da Igreja, uma vez que não podemos esquecer que há outras relíquias religiosas que se dizem também sudários de Cristo, como o de Oviedo, na Espanha, e o de Verônica, em Manopello, na Itália, já foi alvo de controvérsias e acusações de profissionais científicos e religiosos de ambos os lados. Os defensores da fé católica acusam os cientistas de querer derrubar dogmas religiosos com suas provas de falsificação, enquanto os estudiosos afirmam que a fé cega dos crentes não os permite enxergar que podem estar frente a frente com uma farsa histórica. Vamos ver como começou essa briga de anos.
A história moderna do sudário começou em 1898, quando Secondo Pia, um advogado que era conselheiro da cidade de Turim, recebeu a incumbência de fotografar a relíquia religiosa por ocasião dos 400 anos em que o pano estava na cidade. Quando foi revelar as fotos, ele observou pasmo que os negativos mostravam uma imagem oculta que ficava mais nítida do que a observada no próprio pano. O que se revelou foi um corpo anatomicamente perfeito. De Pia vamos para um médico, Pierre Barbet, que, por volta de 1930, escreveu um livro, A paixão de Cristo segundo o cirurgião.
Ao estudar o mecanismo da crucificação, resolveu fazer alguns experimentos com cadáveres e percebeu que a imagem do Cristo pregado na cruz pelas palmas não correspondia à realidade, pois o peso do corpo faria com que o condenado as rasgasse e caísse da cruz. Conta o artigo da revista Planeta:

Os romanos perfuravam os punhos, inserindo os pregos numa fenda anatômica hoje chamada "espaço de Destot". Com a lesão do nervo radial, ocorria a retração dos polegares para as palmas.

Esse conceito confirmava o que a foto de Pia revelara que as chagas estaria sobre os punhos. Barbet, animado com os resultados, resolveu então contar as marcas de açoite que a figura continha. Foram no total 121 marcas feitas com a utilização de um chicote romano chamado "flagrum taxilatum".
Esse instrumento apresentava bolas de chumbo nas pontas, que provocaram 600 ferimentos por todo o corpo, menos o coração, que era uma região proibida para o uso daquele chicote.
A análise da figura do Sudário concluía que se tratava de um homem com aparência de uns 35 anos, l,82m de altura, 81 quilos, e que fora chicoteado por dois carrascos, um era mais alto do que o outro. Outras conclusões da análise de Barbet incluem os hematomas espalhados por todo o corpo e rastros se sangue que, de acordo com os cadáveres que ele mesmo experimentara em cruzes modernas, eram compatíveis com essa posição. Constata a coroa de espinhos sobre a cabeça da figura e encontra lesões nos ombros que carregaram a trave horizontal da cruz, o que quebra a imagem mais tradicional de Cristo levando a cruz inteira.
Ainda há sinais de que o nariz foi fraturado, sinal de que o homem tivera quedas com o peso da trave, algo próprio de quem caminha até o Calvário. Também foram encontrados sinais de uma ferida no flanco esquerdo, feita por uma lança, localizada no "quinto espaço intercostal no tórax e daí, o coração, de onde jorrou sangue e soro, a conferir com o relato de Jo 19,34", segundo o artigo. A conclusão do pesquisador é que aquele homem morreu por asfixia.
Pulemos agora para o ano 1973. Um suíço, o doutor Max Frei Sulzer, renomado criminologista, fundador e durante vinte e cinco anos diretor do serviço científico da Polícia de Zurique, na Suíça, entrou em cena. Seu objetivo era recolher, por meio da utilização de fitas adesivas, amostras de pólen que pudessem estar fixadas no linho. Foram detectados no total 58 tipos diferentes de substâncias, entre plantas francesas, italianas e da Turquia Oriental, algumas delas extintas e que só havia na Palestina há dois mil anos.
Cinco anos depois surge um projeto da NASA, chamado STURP (Shroud of Turin Research Project [Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim]. Vejamos uma definição:

Esse grupo era formado por 40 cientistas americanos, especializados nas mais diversas áreas: biologia, genética, química, física, entre outras. Os diversos estudos e testes realizados comprovaram em vários aspectos a autenticidade do Santo Sudário, e os resultados foram oficialmente divulgados após a reunião de encerramento, convocada em maio do ano 1981, em Nova Londres. Apenas um dos componentes do grupo afirmou que o Sudário era uma falsificação, Walter McCrone, mas seu embasamento teórico era falho e este sequer compareceu às reuniões para defender sua tese. Enfim, o Grupo STURP foi fundamental para precisar a veracidade do sangue humano encontrado no Sudário e, sendo assim, a vida e morte de Cristo.

Curiosamente, foi o STURP quem mais defendeu a autenticidade do Sudário, embora possua membros que vão pela opinião contrária. Entre aqueles que defenderam estava o doutor John Heller, um especialista em porfirinas, que são pigmentos de cor púrpura e de origem natural cuja estrutura é a razão para que seus derivados absorvam luz a um comprimento de onda próximo dos 410 nm, o que lhes dá uma cor característica.
Foi ele quem revelou que havia sangue sobre o pano, do tipo AB, característico entre o povo judeu. Claro que outros aspectos da peça foram igualmente investigados com todo o cuidado. Por exemplo, o estudo do tecido mostrou que fora "trançado como espinha de peixe, propriamente o tipo fabricado manualmente na Palestina". Nessa trama foram identificados vestígios de um algodão que, segundo os especialistas, jamais foi cultivado na Europa durante a Idade Média, o Gossypium herbaceum.
Somente esse dado derrubaria a afirmação de outros pesquisadores de que o Sudário era de origem medieval.
O computador V8, o mesmo usado para avaliar imagens do planeta Marte pelas naves Viking, entrou em cena para analisar o sudário. Foi então que se constatou que a imagem impressa é tridimensional, o que eliminaria qualquer teoria de conspiração que afirma ter sido pintada. Inclusive derrubaria uma tese predileta de uma das fontes em que o livro O código da Vinci foi baseado, feita pela escritora Lynn Picknett, que chegou a afirmar na obra Revelação dos templários que a imagem havia sido pintada por Leonardo da Vinci como um retrato dele mesmo.
Fotos feitas sobre o rosto revelaram mais alguns dados impressionantes. Há sobre as pálpebras moedas com inscrições que as identificam como sendo cunhadas entre 29 e 32 d.C. por ninguém menos que o famoso Pôncio Pilatos, conhecidas como "dilepton lituus". Para alguém que creia na autenticidade da peça, essas já seriam provas mais que suficientes para acreditarmos nela. Então, por que os pesquisadores insistem no estudo mais detalhado? Novamente consultemos o artigo já citado:

As provas a favor da autenticidade já são tantas e incontáveis que o C14, que restava até há pouco como único empecilho, cada vez mais perde seu prestígio. E tal exame foi há pouco fulminado pelas descobertas que trazem uma reviravolta para o caso: o bioquímico Doutor Leôncio Garça Valdez, da Universidade de San Antonio (Texas), à microscopia eletrônica examinou fibras de linho do Sudário, sobra de amostras retiradas para a datação pelo C14, e descobriu uma verdadeira "capa bioplástica" produzida por bactérias e outros contaminantes presentes no tecido, capazes de absorver o isótopo radioativo do carbono, razão suficiente para alterar o cálculo de sua idade. Indo adiante, Garça Valdez, analisando fios retirados da nuca da imagem do Sudário, além de sangue, identificou traços da madeira do patíbulo e concluiu tratar-se do roble, um tipo de carvalho, e não o pinho, como antes se pensava.

Para piorar um pouco mais a situação, entram em cena os esotéricos, pessoas que estudam os mistérios históricos e levantam teorias as mais confusas para confundir ainda mais a cabeça dos crentes.
Por exemplo, dois livros dos escritores, o norte-americano Christopher Knight e o britânico Robert Lomas, As chaves de Hiram, de autoria dos dois, e O Segundo Messias, de autoria somente de Knight. Nessas duas obras, a teoria apresentada é a de que o Santo Sudário não seria bem santo e que o pano teria enrolado o corpo de Jacques de Molay, o último grão-mestre dos templários, queimado na fogueira em 1307.
O pano teria servido para envolvê-lo alguns meses antes de sua execução. Do lado dos céticos, a coisa fica ainda mais complicada. Há algum tempo, quando o teste do carbono 14 revelou que a peça seria medieval, os religiosos que defendem sua autenticidade alegaram que um incêndio que aconteceu em 1532 e que marcou o Sudário, teria de alguma forma influenciado nos testes de autenticidade.
Essa desculpa foi combatida por uma declaração feita por um micro-químico norte-americano, o doutor Walter McCrone em artigo do site Dicionário Céptico:

A sugestão de que o incêndio de 1532 em Chambery teria alterado a data do tecido é risível. As amostras para a datação por carbono são rotineira e completamente queimadas e transformadas em C02 como parte de um bem testado procedimento de purificação. As sugestões de que contaminantes biológicos modernos seriam suficientes para modernizar a data também são ridículas. Seria necessário um peso de carbono do século 20 correspondente a duas vezes o do carbono do sudário para se alterar uma data do século 1 para o século 14 (veja o gráfico do Carbono 14). Além disso, as amostras do tecido de linho foram limpas com muito cuidado antes da análise em cada um dos laboratórios de datação por carbono.

Ele complementa sua alegação com uma explicação do motivo de, para ele, o sudário ser mesmo uma pintura. Segundo ele, a inspeção cuidadosa que ele mesmo realizara em 1979, revelou sinais de pigmentos espalhados por uma tempera de colágeno, que nos tempos medievais era produzido à base de pergaminho e usado na época para cópias de obras literárias.
E esses pigmentos são nas palavras do especialista "quimicamente e distintamente diferentes em composição do sangue humano". Nos anos seguintes uma nova série de testes foi realizada. As radiografias indicaram presença de ocre vermelho (óxido férreo, hematite), além de cinabrino, ferro, mercúrio e enxofre em várias amostras da área da imagem. Assim, os resultados obtidos pelo doutor McCrone revelariam que a imagem "foi pintada duas vezes, uma vez com ocre vermelho, seguido por cinabrino para aumentar as áreas de sangue da imagem".

(Sérgio Pereira Couto - Arquivos secretos do Vaticano)

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publicado às 02:07


Ascesa e caduta di Marcinkus

por Thynus, em 23.09.13

 

Una guardia del corpo molto particolare

 

 

Negli anni Cinquanta inizia a percorrere i corridoi della Santa Sede un giovane sacerdote americano, trasferitosi a Roma per frequentare i corsi di diritto canonico all'Università gregoriana. E un uomo alto un metro e ottantasei, imponente, dal passo deciso. Viene da Cicero, violento sobborgo della Chicago di Al Capone, dov'è nato da genitori lituani immigrati nel 1922. Si chiama Paul Casimir Marcinkus e cresce nella periferia senza legge dove il mafioso aveva insediato il suo quartier generale. Viene ordinato sacerdote nel 1947. Dopo l'Università gregoriana, Marcinkus si trasferisce ala Pontifìcia accademia ecclesiastica, campus per i diplomatici dela Santa Sede. Che sia un astro nascente lo si capisce subito. Ad appena trent'anni, nel 1952, già dispone di una scrivania presso la segreteria di Stato. Le voci sul suo ingresso lesto in Vaticano si rincorrono. C'è chi indica nell'allora segretario di Stato, il cardinale Giovanni Benelli, che lo volle subito come collaboratore, il suo mentore. C'è chi legge nelle raccomandazioni americane del giovane sacerdote la chiave che lo introdusse nelle stanze del potere di papa Pacelli (Pio XII), assai sensibile alle tesi anticomuniste del cardinale di New York Francis J. Spellman.1 Quest'ultima è la ricostruzione più accreditata e merita un approfondimento. In quegli anni di Guerra fredda, il potentissimo cardinale americano è infatti il regista dei rapporti tra Usa e Vaticano e ha modo di consolidare le sue rela zioni con gli uomini più influenti dei sacri palazzi, a iniziare dall'ingegnere Bernardino Nogara, l'uomo che aveva reso floride le casse vaticane gestendo i risarcimenti ottenuti dallo Stato italiano con i Patti Lateranensi del 1929.2 Nel novembre del 1958, alla morte dell'ingegnere, Spellman lo elogia senza remore: «Dopo Gesù Cristo la cosa più grande che è capitata alla Chiesa Cattolica è Bernardino Nogara». Probabilmente ha ragione. Secondo le stime dello storico inglese David Yallop, Nogara lascia un patrimonio finanziario pari a 500 milioni di dollari di gestione dell'amministrazione ordinária dell'Apsa (Amministrazione del patrimonio della sede apostolica), al quale sono da aggiungere i 940 milioni di dollari di patrimonio dello Ior che ne maturava 40 solo di interessi ogni anno. La Vaticano S.p.A. è ormai una realtà nel panorama finanziario mondiale. 
Con il biglietto da visita di Spellman in tasca, per Marcinkus si aprono molte porte. Non ha il piglio del prevosto. Fuma sigari cubani. Frequenta i salotti, i campi da golf, preferisce le palestre alle sacrestie. Ma ciò che qui più interessa è un incontro negli uffici dela segreteria di Stato che andrà a cambiargli la vita, facendo poi precipitare le finanze vaticane. Factotum di Pio XII è infatti Giovanni Battista Montini, allora pro segretario del papa. Um bresciano tignoso. Seppur agli antipodi per stile e carattere rispetto all'imponente sacerdote americano, dopo un'iniziale avversione, stringerà con Marcinkus un'alleanza di ferro.

 

Figlio di un banchiere, Giovanni Battista Montini diventa papa Paolo VI nel 1963, dopo la morte di Giovanni XXIII. Egli riporterà la finanza della Santa Sede, dopo un periodo di basso profilo, sui binari di una politica aggressiva e spregiudicata. Dettata subito dalle necessità. Francis Spellman fa la spola tra New York e Oltretevere. Appena Paolo VI si insedia, incontra il cardinale americano che pare abbia raccomandato affettuosamente Marcinkus.5 Poi un piccolo incidente nel 1964. Paolo VI è in visita nel centro di Roma, la folla straripa e quasi lo schiaccia. La prontezza di Marcinkus è fulminea. Sua santità viene portato in salvo dal robusto sacerdote. L'indomani è scelto come guardia del corpo. Diventa il responsabile della sicurezza del papa nei viaggi in tutto il mondo: dall'India alla Turchia, dal Portogallo agli Stati Uniti. Nel 1970, durante un viaggio nelle Filippine, Marcinkus blocca un pittore che si avventava sul pontefice con um pugnale.6 L'americano entra nella stanza dei bottoni. Stringe amicizia anche con il segretario personale del papa, padre Pasquale Macchi, che gode di un fortissimo ascendente sul santo padre. Tra i due l'intesa è immediata. Marcinkus sale i gradini in fretta. Diventa vescovo e viene scelto come segretario della banca vaticana (1971). Ha le idee chiare. Celebre la sua frase: «Si può vivere in questo mondo senza preoccuparsi del denaro? Non si può dirigere la Chiesa con le Avemaria».


(Gianluigi Nuzzi - "Vaticano S.p.A.") 

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publicado às 21:37


Camillo Cibin – o fim de uma era

por Thynus, em 23.09.13

Alguns dias depois de retornar da Polônia, no dia 3 de junho de 2006, foi o fim no Vaticano, da era de serviço de uma das pessoas mais estranhas do mundo. Após trabalhar por 58 anos como guarda-costas do sumo pontífice, Camillo Cibin se aposentou. A vida inteira de Cibin foi vinculada à velocidade do papa. Quando o papa dirigia rapidamente, então Camillo Civin conseguia relaxar e seguir em um dos carros de escolta que ia ao lado ou atrás do carro do papa. Mas se o papa dirigia devagar, andava no papa-móvel somente em uma velocidade de passeio ou se ele ia a pé, então Camillo Cibin ficava o tempo todo ao lado do chefe da Igreja Católica. Acho que a confirmação em 2005 de manter o Cibin em seu cargo foi muito peculiar, porque a mensagem silenciosa de Bento XVI era uma que dizia “a minha vida está nas mãos de Deus”. Nenhum sumo pontífice que pensasse seriamente em ter que depender de ajuda terrestre, no caso de um atentado, deixaria a sua vida nas mãos de um guarda-costas de 79 anos. Profissionais de segurança que precisavam falar com o guarda-costas de Sua Santidade antes de uma viagem papal não conseguiam acreditar que o papa Bento XVI havia decidido manter no cargo um homem que mal seria capaz de defendê-lo em caso de ataque. Um guarda-costas de uma empresa de segurança normal já estaria aproveitando a sua aposentadoria há pelo menos quatorze anos. Além disso, nos seus últimos anos de trabalho, nenhum outro guarda-costas manteve um cargo tão importante por tanto tempo até a aposentadoria: o cargo de proteger um chefe de Estado. Mas no Vaticano é assim. Camillo Cibin esteve presente por vinte anos da minha vida, assim como o Sol ou a chuva. Ele sempre estava lá. Eu recordei muitos momentos, que confundo na minha memória. Mas era exatamente assim que eu me lembrava dele: Camillo Cibin participou de todas as 104 viagens internacionais do papa João Paulo II e das duas viagens internacionais do papa Bento XVI, até a sua aposentadoria. O Vaticano concedeu-lhe uma honra que apenas os principais cardeais da Cúria conseguiam: ele podia escolher não se aposentar ao completar 75 anos de idade. Assim como o cardeal Ratzinger, Cibin foi confirmado no seu cargo por João Paulo II apesar de ter excedido a idade limite. Mas o prazo final foi alguns dias antes dele completar oitenta anos. Não consigo me lembrar se Cibin alguma vez ficou doente. Sempre que o chefe da Igreja Católica aparecia, via-se também Camillo Cibin com sua fisionomia séria. E todos tinham a impressão de que Cibin queria se punir com as centenas de quilômetros que andou ao longo das décadas ao lado do papamóvel por não ter prestado atenção por alguns segundos. Ele não foi capaz de evitar a tentativa de assassinato do papa João Paulo II no dia 13 de maio de 1981. Mas foi Camillo Cibin quem capturou Mehmet Ali Agca, autor do atentado, enquanto ele tentava fugir pela praça São Pedro. Cibin prestou mais atenção um ano mais tarde, quando o papa João Paulo II viajou para Fátima para agradecer a Virgem Maria por ter salvado a sua vida. No dia 13 de maio de 1982 ele arrancou uma baioneta das mãos do padre Juan Fernandes Kohn. Cibin e o bispo Paul Marcinkus imobilizaram o autor do atentado. O padre pertencia à Fraternidade Sacerdotal São Pio X e ele queria acertar o ombro ferido do papa João Paulo II. Não era função de Cibin proteger o papa de atentados a bomba, a função dele era proteger o sumo pontífice de atentados diante dele. Eu vi centenas de vezes como Cibin afastava as mãos de homens e mulheres que tentavam tocar no papa ou no papa-móvel. Cibin, um lutador de caratê robusto, salvou centenas de vidas de pessoas que tentavam se jogar na frente ou embaixo do papa-móvel. Ele os levantava como se fossem feitos de pena e os jogava de volta para trás da grade de segurança. Por décadas ele não teve que lidar com atentados, e sim com uma quantidade absurda de fanáticos que queriam tocar no chefe da Igreja. Cibin temia mais que tudo os religiosos e os padres que pulavam as grades porque diziam que por serem sacerdotes, tinham o direito de tocar o papa e entregar uma mensagem ou dar algum conselho. Somente uma vez eu vi Camillo Cibin verdadeiramente em pânico. Foi no dia 23 de maio de 2002 em Baku. O papa João Paulo II decidiu visitar todas as 120 igrejas católicas no Azerbaijão. Durante uma devoção, em Baku, o papa se aproximou do pódio. Naquela época, Karol Wojtyla mal conseguia andar. Teria sido muito fácil derrubá-lo e machucá-lo de verdade. Nesse dia, na primeira fila estavam, como sempre, pessoas deficientes e, como sempre, havia uma fileira de cadeiras de roda e ao lado havia grupos de pessoas com muletas. De repente, um homem que estava se apoiando em duas muletas, jogou uma delas e por milagre ela não acertou Karol Wojtyla. Ele realmente queria pular sobre o papa. Cibin o agarrou em plano ar e se jogou contra o homem. Parecia uma cena de um jogo de futebol americano. Mas o medo estava estampado no rosto de Cibin. Quase foi tarde demais, tudo porque ele nem se preocupou em prestar atenção aos deficientes. Se ele os tivesse observado por alguns segundos, ele teria percebido que ali no meio havia um terrorista se passando por deficiente. Mas por sorte deu tudo certo naquele dia, em Baku. Os membros da Cúria queriam parabenizá-lo por ter evitado o pior, mas o velho espadachim não queria saber disso. Cibin nunca foi popular no Vaticano. Ele era uma das pessoas mais quietas que já conheci. Por décadas, havia boatos na gendarmeria do Vaticano, divisão da qual ele era o chefe, sobre ele nunca responder a uma pergunta, nem mesmo quando perguntavam que horas eram. Com Camillo Cibin encerrou-se uma era. Ele serviu seis papas, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e por fim Bento XVI. Domenico Giani ficou com o cargo de seu ex-chefe. Giani, ex-funcionário da alfândega, tornou-se adjunto de Cibin em 1999. Por fora, Giani é um guarda-costas severo em um carro Volkswagen Phaeton blindado, um presente da Alemanha. Mas na verdade ele possui uma visão da paz que é corajosa e também romântica. Ele é um dos inventores do projeto Rondini (andorinhas) em Arezzo. Ali, crianças, filhas de inimigos mortais, moram em uma mesma casa e estudam em italiano. Jovens russos moram com tchecos, palestinos com israelitas. A esperança do projeto Rondini é que esses estudantes façam amizades com os inimigos dos seus antepassados, e quando voltarem para o seu país natal após a conclusão dos seus estudos eles estarão com mente aberta, e assim o projeto Rondini espera aos poucos ajudar a fazer do mundo um lugar mais pacífico. Mas Domenico Giani só fala sobre esse sonho quando ele não está em serviço.

 

(Andreas Englisch - "O homem que não queria ser papa"

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