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 E VI UMAS DAS SUAS CABEÇAS COMO FERIDA DE MORTE,
 E A SUA CHAGA MORTAL FOI CURADA; 
E TODA A TERRA SE MARAVILHOU APÓS A BESTA.
(Apocalipse 13:3)

A 13 de Maio de 1981, nada fazia adivinhar a tragédia que se avizinhava. João Paulo II almoçou ao meio-dia com vários convidados e pelas cinco da tarde o papa dirigiu-se ao Palácio Apostólico para celebrar a audiência geral semanal na Praça de São Pedro, a qual começou com pontualidade. Milhares de pessoas apinhavam-se no círculo formado pela Colunata de Bernini: 264 colunas coroadas por 162 estátuas de santos.
O percurso que o "Papamóvel" devia realizar já estava delimitado, quando um jovem turco chegara à praça meia hora antes. O papa João Paulo II recusou levar escolta. Chegou ao veículo e num salto subiu para a plataforma. Seguiam-no de perto Camillo Cibin, chefe de Segurança do Vaticano, dois agentes de fato azul, dois agentes da Santa Aliança e à frente quatro membros do corpo da Guarda Suíça. Poggi tinha convocado Cibin meses antes para lhe dar a conhecer que receberam um relatório da espionagem francesa no qual se falava de uma trama de qualquer serviço secreto do Pacto de Varsóvia para tentar matar o Sumo Pontífice e que por isso os seus homens deviam estar atentos.
Às 5.18 da tarde, e quando o papa estava com uma menina ao colo, soou o primeiro tiro na praça de São Pedro. Com as mãos agarradas na barra do "Papamóvel", João Paulo II começou a cambalear. A bala disparada por Mehmet Ali Agca perfurou-lhe o estômago e causou graves ferimentos no intestino delgado, cólon e intestino grosso. Sem pestanejar, o papa João Paulo II, que sabia estar ferido pela dor insuportável no estômago, tentava com as mãos, mas sem o conseguir, deter o sangue que brotava pelo pequeno orifício.
Tinham passado apenas breves segundos e ouviu-se o segundo tiro, mas desta vez a bala feriu o papa na mão direita. O terceiro tiro disparado por Agca atingiu o papa mais acima, no braço. O condutor olhou para trás sem entender o que se passava, mas ao voltar-se Cibin estava já a agarrar a cabeça do papa, caído no banco, no meio de uma poça de sangue.
Cibin gritava aos agentes com as armas na mão que procurassem o atirador, que mergulhara na multidão. Agca corria e abria caminho de arma na mão, uma Browning automática de nove milímetros. Mas a certa altura sentiu que alguém lhe bateu nas pernas e o fez cair: era um agente da polícia italiana que estava num passeio da praça e o prendeu.
Estendido no chão, vários agentes papais pontapearam e bateram em Ali Agca antes de ele ser arrastado para uma carrinha celular, enquanto o "Papamóvel" se dirigia a toda a velocidade para a Porta de Bronze para colocar o papa numa ambulância. No meio dos gritos, o veículo abriu passagem até à Clínica Gemelli de Roma, a que ficava mais próximo do Vaticano.
Uma vez na zona cirúrgica do nono andar, foi rasgada a sotaina branca do papa João Paulo II e ficaram a descoberto uma medalha de ouro e uma cruz manchadas de sangue. Curiosamente, a medalha estava abaulada pelo impacte de uma das balas. Ao que parece, o projéctil ter-lhe-ia atingido o peito se não fosse essa medalha desviar a bala, que apenas lhe atingiu o indicador da mão direita.
Quando recuperou a vida depois de seis horas de intervenção cirúrgica, João Paulo II acreditava que tinha sido salvo pela Virgem de Fátima. Ao longo dos muitos meses de recuperação, o desejo de saber quem tinha dado a ordem para o assassinar converteu-se numa obsessão para João Paulo II.
Leu todos os relatórios da Santa Aliança que caíam nas suas mãos vindos da CIA, da BND alemã, do Mossad israelita, do serviço secreto austríaco ou da espionagem turca, mas nenhum deles respondia à sua pergunta. E nem sequer se inteirou de algo mais quando Mehmet Ali Agca foi presente à justiça de Roma na última semana de Julho de 1981 e condenado a prisão perpétua.
Segundo o escritor Gordon Thomas, no seu livro Gideorís Spies. The History of Mossad, seria monsenhor Luigi Poggi, chefe da Santa Aliança, quem lhe daria a resposta. Durante meses, o espião papal tivera estreitos contactos com Yizhak Hofi, o memuneh do Mossad. Poggi teve reuniões secretas em Viena, Varsóvia, Paris e Sófia. Em Novembro de 1983, monsenhor Luigi Poggi voltava de uma reunião em Viena e trazia consigo a resposta para a pergunta de João Paulo II. Quem tinha dado a ordem para o matar?
O seu motorista esperou durante horas no aeroporto pela chegada do avião que trazia Poggi da capital austríaca. Ao chegar à Porta dos Sinos, deram passagem ao veículo com matrícula vaticana, mas mesmo assim foi detido pelos elementos da Guarda Suíça para identificação do passageiro. Ao ver de quem se tratava, o soldado pôs-se em sentido e apresentou armas ao chefe da Santa Aliança.
O arcebispo trazia vestida uma gabardina preta e um cachecol que lhe cobria todo o rosto, mas notava-se que era um homem corpulento. E enquanto aquecia o corpo, recordava ainda a reunião secreta havida no bairro judeu de Viena. Era uma sala um tanto desarrumada, mas Poggi escutara atentamente um katsa chamado Eli responder à pergunta que João Paulo II fazia constantemente.
Poggi foi acompanhado por um mordomo até ao gabinete do papa. Os livros e os relatórios militares amontoavam-se nas estantes. O chefe da espionagem papal sabia que o atentado afectara muito o Santo Padre física e mentalmente. Depois de uma breve saudação, Poggi sentou-se com as mãos sobre os joelhos e num tom baixo começou a relatar a história que tinha ouvido na Áustria. Depois de 13 de Maio de 1981 não deixavam de chegar notícias ao quartel-general do Mossad em Telavive e o facto de todos os serviços secretos terem realizado as suas próprias investigações fez com que Hofi mantivesse o Mossad fora do assunto.
A investigação do serviço de espionagem israelita teve realmente início em 1982, por ordem de Nahum Admoni, que substituíra Yitzhak Hofi no comando do Mossad. Para os norte-americanos estava claro que Ali Agca tinha apertado o gatilho, mas a ordem partira do KGB, ao ver que o apoio expresso de João Paulo II e do seu serviço de espionagem ao sindicato "Solidariedade" podia acender o facho do nacionalismo polaco. Esta mesma versão é defendida pela escritora Claire Sterling no seu livro The Time ofthe Assassins. Para os israelitas, a conspiração tinha sido preparada em Teerão e ordenada pelo ayatola Khomeini: assassinar o papa era o primeiro passo para o ythad contra o Ocidente. Esta mesma versão defende-a o jornalista russo Eduard Kovaliov no seu livro Atentado en la plaza de San Pedro.
Antecipando-se ao fracasso de Agca, os serviços secretos iranianos pensaram apresentar o turco como um fanático solitário e nesse sentido se faria todo um relatório favorável.
Poggi relatou ao papa a história de Agca, que estava num relatório da Santa Aliança que entregou ao Sumo Pontífice dentro de uma pasta vermelha: "Mehmet Ali Agca nasceu na aldeia de
Yesiltepe, a leste da Turquia. Com dezanove anos ligou-se aos «Lobos Cinzentos», um grupo terrorista pró-iraniano que era financiado por Teerão. Em Fevereiro de 1979, Agca assassinou o editor de um jornal célebre pela sua posição a favor do Ocidente. Poucos dias depois do assassínio, o jornal recebeu uma carta supostamente escrita por Agca, na qual se referia a João Paulo II como o comandante das Cruzadas e ameaçava matá-lo se ele (o papa) pisasse solo do Islão".
O papa fazia pequenas pausas no relato de Poggi para beber água e fazer-lhe perguntas concretas. Depois da Líbia, continuava o espião papal a relatar, Agca viajou para a Bulgária em Fevereiro de 1981 para se juntar aos agentes do serviço secreto búlgaro. William Casey estava tão furioso pelo facto de o KGB ter envolvido a CIA no atentado que ordenou criar uma "conexão búlgara" na tentativa de assassínio. Segundo ele, o KGB ordenou aos búlgaros que preparassem uma conspiração para liquidar o papa pela sua política em relação à Polónia e ao "Solidariedade".
A 23 de Dezembro de 1983, o papa João Paulo II pôde fazer a pergunta que não lhe saía da cabeça nos últimos dois anos directamente a Mehmet Ali Agca. O papa avançou sozinho até à cela T4 da prisão de Rebibbia. Ao vê-lo, Ali Agca ajoelhou-se e beijou com todo o respeito o anel do Pescador. Os dois homens sentaram-se e, quase roçando as suas cabeças, Agca começou a falar, quase a sussurrar, ao ouvido do papa e, enquanto escutava o que Agca dizia, o seu rosto tornava-se mais sério. Finalmente, o papa João Paulo II obteve a resposta para a sua pergunta.
Mais tarde o próprio espião do papa, monsenhor Poggi, explicava: "Ali Agca sabe coisas apenas até certo nível. Para lá desse nível não sabe nada. Se se tratou de uma conspiração, ela foi tramada por profissionais e estes não deixam vestígios. Nunca ninguém encontra nada."
A verdade é que desde esse dia 13 de Maio de 1981 se escreveram dezenas de livros e reportagens acerca de quem tentou matar o papa João Paulo II naquela tarde, na Praça de São Pedro. Foram procurados centenas de presumíveis culpados e dezenas de explicações dos motivos políticos para essa conjura. Foram acusados os iranianos pelo yihad, acusaram os soviéticos pela política papal na Polónia, a CIA pela ligação de Mehmet Ali Agca com um ex-agente colocado na Líbia, os búlgaros como títeres do KGB, mas ninguém sabe de fonte segura, nem sequer a Santa Aliança, quando passaram mais de vinte anos sobre o atentado na Praça de São Pedro, quem esteve por detrás do gatilho de Mehmet Ali Agca.
Poucos anos depois havia de se saber que, após o encontro de 23 de Dezembro de 1983 entre o Sumo Pontífice e Ali Agca na prisão de Rebibbia, João Paulo II ordenou a monsenhor Luigi Poggi, e portanto à Santa Aliança e ao Sodalitium Pianum, que cessasse qualquer inquérito a respeito do atentado. Como "ordem pontifícia", o espião papal assumiu o mais puro estilo vaticano, ou seja, colocando um véu escuro sobre o que se relacionasse com o "13 de Maio de 1981". A 24 de Dezembro de 1983, e enquanto o Vaticano se preparava para as festividades de Natal, dois agentes da Santa Aliança, escoltados por quatro membros da Guarda Suíça, transportaram em várias caixas, hermeticamente fechadas e seladas com o escudo pontifício, todos os documentos que diziam respeito ao atentado na Praça de São Pedro até ao Arquivo Secreto Vaticano, onde ainda dormem no esquecimento.
Entretanto, as pontas que ficaram por atar no caso IOR-Banco Ambrosiano-Calvi-Marcinkus estavam prestes a ser bem atadas. Michele Sindona, o banqueiro da Máfia, foi condenado a 13 de Junho de 1980 a vinte e cinco anos de prisão por um tribunal norte-americano, mas no entanto havia muito que dizer até ele ser assassinado, em 1986. E ainda há muito para dizer sobre os anos polacos.

(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

publicado às 12:53

 

É arriscado fazer um balanço do pontificado de Francisco pois o tempo decorrido não é suficiente para termos uma visão de conjunto. Numa espécie de leitura de cego que capta apenas os pontos relevantes, poderíamos elencar  alguns pontos.

1.Do inverno ecclesial à primavera: saimos de dois pontificados que se caracterizaram pela volta à grande disciplina e pelo controle das doutrinas. Tal estratégia criou uma espécie de inverno que congelou muitas iniciativas. Com o Papa Francisco, vindo de fora da velha cristandade européia, do Terceiro Mundo, trouxe esperança, alívio, alegria de viver e pensar a fé crista. A Igreja voltou a ser um lar espiritual.

         2.De uma fortaleza à uma casa aberta: Os dois Papas anteriores passaram a impressão de que a Igreja era uma fortaleza, cercada de inimigos contra os quais devíamos nos defender, especialmente o relativismo, a modernidade e a pós-modernidade. O Papa Francisco disse claramente: “quem se aproxima da Igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da afândega da fé; “é melhor uma Igreja acidentada porque foi à rua do que uma Igreja doente e asfixiada porque ficou dentro do templo”. Portanto mais confiança que medo.

         3.De Papa a bispo de Roma: Todos os Pontífices anteriores se entendiam como Papas da Igreja universal, portadores do supremo poder sobre todos as demais igrejas e fiéis. Francisco prefrere se chamar bispo de Roma, resgatando a memória mais antiga da Igreja. Quer presidir na caridade e não pelo direito canônico, sendo apenas o primeiro entre iguais. Recusa o título de Sua Santidade, pois diz que “somos todos irmãos e irmãs”. Despojou-se de todos os títulos de poder e honra. O novo Anuário Pontifício que acaba de sair  cuja página inicial deveria trazer o nome do Papa com todos os títulos, agora aparece apenas assim: Francesco, bispo de Roma.

         4.Do palácio à hospedaria: O nome Francisco é mais que nome; sinaliza um outro projeto de Igreja na linha de São Francisco de Assis: “uma Igreja pobre para os pobres” como disse, humilde, simples, com “cheiro de ovelhas” e não de flores de altar. Por isso deixou o palácio  papal e foi morar numa hospedaria, num quarto simples e comendo junto com os demais hóspedes.

         5.Da doutrina à prática: Não se apresenta como doutor mas como pastor. Fala a partir da prática, do sofrimento humano, da fome do mundo, dos imigrados da África, chegados à ilha de Lampedusa. Denuncia o fetichismo do dinheiro e o sistema financeiro mundial que martiriza inteiros países. Desta postura resgata as principais intuições da teologia da libertação, sem precisar citar o nome. Diz:”atualmente, se um cristão não é revolucionário, não é cristão; deve ser revolucionário da graça”. E continua:”é uma obrigação para o cristão envolver-se na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade”. E disse à Presidenta Cristina Kirchner:”é a primeira vez que temos um Papa peronista” pois nunca escondeu sua predileção pelo peronismo. Os Papas anteriores colocavam a política sob suspeita, alegando a eventual ideologização da fé.

         6.Da exclusividade à inclusão: Os Papas anteriores enfatizaram, especialmento Bento XVI a exclusividade da Igreja Católica, a única herdeira de Cristo fora da qual corre-se risco de perdição. O Francisco, bispo de Roma, prefere o diálogo entre as Igrejas numa perspectiva de inclusão, também com as demais religiões no sentido de reforçar a paz mundial.

         7. Da Igreja ao mundo: Os Papas anteriores davam centralidade à Igreja reforçando suas instituições e doutrinas. O Papa Francisco coloca o mundo, os pobres,  a proteção da Terra e o cuidado pela vida como as questões axiais. A questão é: como as Igrejas ajudam a salvaguardar a vitalidade da Terra e o futuro da vida?

         Como se depreende, são novos ares, nova música, novas palavras para velhos problemas que nos permitem pensar numa nova primavera da Igreja.

(Leonardo Boff é teólogo e autor de Francisco de Assis e Francisco de Roma, Editora Mar de Ideias, Rio 2013.)

publicado às 10:46

 

Uma das maiores conquistas da pessoa humana em seu processo de individuação é a liberdade de espírito. Liberdade de espírito é a capacidade de ser duplamente livre: livre das injunções, regras, normas e protocolos que foram inventados pela sociedade e pelas instituições para uniformalizar comportamentos e moldar personalidades segundo tais determinaçãos. E significa fundamentalmente ser livre para ser autêntico, pensar com sua própria cabeça e agir consoante sua norma interior, amadurecida ao largo de toda vida, na resistência e na tensão com aqueles injunções.
E essa é uma luta titânica . Pois todos nascemos dentro de certas determinações que independem de nossa vontade seja na  família, na escola, na roda de amigos, na religião e na cultura que moldam nossos hábitos. Todas estas instâncias funcionam como super egos que podem ser limitadores e em alguns casos até castradores. Logicamente, estes limites desempenham uma função reguladora importante. Pelo fato de o rio possuir margens e limites é que ele chega ao mar. Mas estes podem também represar as águas que deveriam fluir. Então se esparramam pelos lados e se transformam em charcos.
As atitudes e comportamentos surpreendentes do atual bispo de Roma, como gosta de se apresentar, comumente chamado  de Papa, Francisco, nos evocam esta categoria tão determinante da liberdade de espírito.
Normalmente o cardeal nomeado Papa logo incorpora o  estilo clássico, sacral e hierático dos Papas, seja nas vestimentas, nos gestos, nos símbolos do supremo poder sagrado e na linguagem. Francisco, dotado de imensa liberdade de espírito, fez o contrario: adaptou a figura do Papa a seu estilo pessoal, aos seus hábitos e às suas convicções. Todos conhecem as rupturas que introduziu sem a maior cerimônia. Aliviou-se de todos os símbolos de poder, especialmente, a cruz de ouro e pedras preciosas e o mantelo (mozetta) colocado aos outros, cheio de brocados e preciosidades, outrora símbolo dos imperadores romanos pagãos: sorrindo disse ao secretário que queria colocá-lo a seus ombros: “guarde-o porque o carnaval já acabou”. Veste-se na maior sobriedade, de branco, com seus sapatos pretos habituais e, por baixo, com sua calça também preta. Dispensou todas as facilidades atribuídas ao supremo Pastor da Igreja, desde o palácio pontifício substituido por uma hospedaria eclesiástica, comendo junto com outros. Reporta-se antes ao pobre Pedro que era um rude pescador ou a Jesus que, segundo o poeta Fernando Pessoa, “não entendia nada de contabilidade nem consta que tinha biblioteca”, pois era um “factotum” e simples campones mediterrâneo. Sente-se successor do primeiro e representante do segundo. Não quer que o chamem de Sua Santidade, pois se sente “irmão entre irmãos”, nem quer presidir a Igreja no rigor do direito canônico, mas na caridade calorosa.
Em sua viagem ao Brasil mostrou sem nenhuma espetacularização, esta sua liberdade de espírito: deseja como transporte um carro popular, um jeep coberto para locomoção no meio do povo, pára para abraçar crianças, para tomar um pouco de chimarrão, até trocar seu “solideo papal branco” da cabeça, por um outro, meio desengonçado oferecido por um fiel. Na cerimônia oficial de acolhida por parte do Governo que obedece a um rigoroso protocolo, após o discurso, vai à Presidenta Dilma Rousseffe e a beija para estarrecimento do mestre de cerimônia. E muitos seriam os exemplos.
Esta liberdade de espírito lhe traz uma inegável irradiação feita de ternura e vigor, as carcaterísticas pessoais de São Francisco de Assis. Trata-se de um homem de grande inteireza. Tais atitudes serenas e fortes mostram um homem de grande enternecimento e que realizou uma significativa síntese pessoal entre o seu eu profundo e o seu eu consciente. É o que esperamos de um líder, especialmente religioso. Ele evoca ao mesmo tempo leveza e segurança.
Esta liberdade de espírito é potenciada pelo resgate esplêndido que faz da razão cordial. A maioria dos cristãos está cansada de doutrinas e é cética face a campanhas contra reais ou imaginados inimigos da fé. Estamos todos impregnados até a medula pela razão intelectual, funcional, analítica  e eficientista. Agora vem alguém que a todo momento fala do coração como o fez em sua fala na comunidade(favela) de Varginha ou na ilha de Lampedusa. É no coração que mora o sentimento profundo pelo outro e por Deus. Sem o coração as doutrinas são frias e não suscitam nenhuma paixão. Face aos sobreviventes vindos de África, confessa:”somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de “padecer com’: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar”. Sentencia com sabedoria:”A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como trata os mais necessitados”.
Por esta medida, a sociedade mundial é um pigmeu, anêmica e cruel.
A razão cordial é mais efetiva na apresentação do sonho de Jesus que qualquer doutrina erudita e tornará o seu principal arauto, o Francisco de Roma, uma figura fascinante que vai ao fundo do coração dos cristãos e de outras pessoa.

(De Leonardo Boff acaba de sair Francisco de Assis e Francisco de Roma, Mar de Ideias, Rio 2013.)

 

publicado às 10:43

 

Deixou uma obra filosófica importante, um dos fundamentos das posteriores filosofias da existência - é dele o adjectivo "existencial". Refiro-me a Sören Kierkegaard, cujo segundo centenário se celebra este ano - nasceu em Copenhaga em 1813. O que lhe interessava não era o saber na sua pureza teórica, mas como agir e viver. Escreveu: "O que no fundo me falta é ver claro em mim mesmo, saber o que hei-de fazer e não o que hei-de conhecer, excepto na medida em que o conhecimento deve preceder a acção. Trata-se de compreender o meu destino, descobrir aquilo que Deus no fundo quer de mim, encontrar uma verdade que seja tal para mim, encontrar a ideia pela qual possa viver e morrer." Contra Hegel, cujo eco ouviu em Berlim, argumentou que não há um sistema da existência e do indivíduo. Ora, o decisivo é o indivíduo e a sua interioridade, a liberdade, a possibilidade, a angústia, o desespero, a salvação, numa decisão intransferível. Como dirá Unamuno, "eu sou único e não há outro eu no mundo", como também não há outro tu ou outro ele/ela. É célebre a sua definição da existência humana como "uma relação que se relaciona consigo mesma ou, por outras palavras, como o que na relação faz com que a relação se relacione consigo mesma". É decisiva esta auto-referência, que é, inevitavelmente, hetero-referente. De facto, "uma relação que se relaciona consigo mesma -portanto, um eu -, tem que ter-se posto a si mesma ou ter sido posta por outro". Ora, a existência humana não se põe a si mesma e, por isso, a auto-relação é, necessariamente, relação a outro, o autor da relação, Deus, numa relação única de "comunicação existencial". A existência está colocada perante três possibilidades fundamentais, a que chamou "estádios", não no sentido cronológico e lógico de passagem sucessiva de um a outro, mas de atitudes ou modos de existência. Seja como for, a passagem de um a outro não se dá dialecticamente, mas por um "salto" que transforma radicalmente a existência. O estádio estético (do grego aisthesis, sensação, sensibilidade) tem a sua figura no Don Juan e caracteriza-se pela busca saltitante do gozo imediato das sensações, no instante fugidio da conquista, de prazer em prazer. Esta via da repetição hedonista desemboca no sentimento de frustração e melancolia e pode levar ao desespero. Pode dar-se então o salto para o estádio ético, empenhando a liberdade própria e assumindo a seriedade da existência, no cumprimento do dever e da responsabilidade, concretamente na relação estável e fiel com o outro no casamento. Mas, aqui, o indivíduo ainda está sob a lei geral. Só no estádio religioso o indivíduo se encontra verdadeiramente a si próprio e à sua singularidade no "abandono mais absoluto" a Deus, o totalmente Outro. O religioso é "o sério, e o sério é: o único". "Tornar-se cristão é a coisa mais decisiva que um homem pode tornar-se", pois resolve o seu "paradoxo": no tempo, decidir e encontrar a eternidade. A fé tem o seu modelo em Abraão a quem Deus mandou sacrificar o filho. Segundo a exegese, o que o texto diz é que Deus põe termo aos sacrifícios humanos. Aliás, Kant, confrontado com o tema, escreveu que Abraão deveria ter dito a Deus que não era seguro que a voz que ouvia fosse de Deus, mas era certo que não devia matar. Kierkegaard, porém, coloca-se noutro plano: o do combate da fé, numa luta de vida e de morte com Deus. Deus põe à prova a fé de Abraão e o seu amor, quer ver se realmente O ama. Abraão, por sua vez, põe também Deus à prova: dispõe-se a matar o filho, mas, se Deus não intervier, só pode tornar-se ateu. Deus interveio. A fé e o amor são levados ao paroxismo. Luterano, foi crítico ácido da Igreja oficial dinamarquesa: "Na sumptuosa catedral, eis que aparece o Reverendíssimo e Venerabilíssimo pregador da Corte, o eleito do grande mundo, e aparece perante um círculo de uma elite e prega com emoção sobre este texto que ele mesmo escolheu: "Deus escolheu o que é humilde e desprezado no mundo" - e ninguém se põe a rir." Mas, já à beira da morte, foi-lhe perguntado se acreditava em Jesus Cristo. E ele (cito de cor): "Sim. Em quem haveria de acreditar nesta hora?" 

(Anselmo Borges)

publicado às 10:42

 

Há anos que associações mexicanas acusam o antigo pontífice de falta de vontade de agir contra padres acusados de pedofilia.

 

Papa Francisco tem o poder de virar "página negra" da história da Igreja, considera activista STEFANO RELLANDINI/AFP

Vítimas de abusos sexuais no México e activistas estão a aproveitar a primeira visita do Papa Francisco à América Latina para lhe pedir que interrompa o processo de canonização de João Paulo II até que seja apurado se deu, ou não, cobertura a situações de pedofilia na Igreja.

Há anos que associações mexicanas acusam o antigo Papa de falta de transparência e vontade de agir contra padres acusados de pedofilia, entre os quais Marcial Maciel, fundador da Legião de Cristo.

Alberto Athié, que em 2000 renunciou ao sacerdócio e se tornou um dos principais acusadores de padres pedófilos, disse à AFP, na Cidade do México, que Francisco tem o poder de “virar esta página negra da história da Igreja” e abrir para a sua “verdadeira renovação no mundo contemporâneo”.
Isso implicaria, disse, a colaboração com a ONU, que a 10 de Julho, exigiu explicações detalhadas ao Vaticano sobre abusos sexuais e outros actos de violência no seio da Igreja Católica.
“Pedimos explicitamente ao Papa Francisco para interromper a canonização de João Paulo II porque o seu pontificado é […] suspeito de delito contra os direitos do Homem e contra a integridade física e moral de milhares de crianças”, declarou.
Várias organizações associaram-se ao apelo, por considerarem que há motivos suficientes para considerar que João Paulo II teria protegido Marcial Maciel.

AFP

publicado às 14:28

 

O Papa Francisco acrescentou à anterior programação de Bento XVI para a JMJ, uma peregrinação pessoal ao santuário de Aparecida. Ali, em maio de 2007, participou da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e coordenou a redação do Documento de Aparecida.
Irá como peregrino ao encontro de expressão antiga, mas muito viva do catolicismo brasileiro, pois Aparecida atrai mais de 10 milhões de romeiros por ano. É um catolicismo que deita raízes no passado, com seus santuários plantados à beira dos rios – os antigos caminhos coloniais – ou ao longo do mar, por onde se escoava o açúcar dos engenhos.
Há um fio invisível que une Bom Jesus de Pirapora no rio Tietê, ao Bom Jesus da Lapa, à beira do Rio São Francisco e que alcança o santuário de São Francisco das Chagas de Canindé no Ceará ou ainda o Bom Jesus de Matosinhos em Minas Gerais e a catedral do Bom Jesus de Cuiabá, no longínquo Mato Grosso. Trata-se do mesmo catolicismo que Fafá de Belém irá evocar, ao trazer para o Papa, os ecos da grande procissão do Círio de Nazaré. Será a Virgem do mundo indígena da bacia amazônica contracenando com a Virgem negra das fazendas de café tocadas pelo braço escravo no Vale do Paraíba paulista e fluminense, ou com N.S. da Penha em Vitória e N.S. da Conceição da Praia, em Salvador. A cada 8 de dezembro, parte dali o cortejo das filhas de santo, com seus cântaros de água de cheiro, para lavar as escadarias da Igreja do Bonfim.
Esse catolicismo tradicional ganha rosto militante e libertador com as muitas Romarias da Terra e das Águas promovidas pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) ou com o XIII Intereclesial das CEBs que acontecerá em janeiro próximo no Juazeiro do Pe. Cícero, com o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida” e o lema “CEBs, romeiras do Reino no campo e na cidade”.
No Rio, o Papa tocará o contraste de um catolicismo, que respaldado, na década de 30, por mais de 98% dos brasileiros que se declaravam católicos, sonhou com uma nova cristandade e erigiu no alto do Corcovado a estátua do Cristo Redentor, que devia reinar sobre a cidade e o país. Hoje o Rio é a capital estadual com o menor percentual de católicos e a maior porcentagem dos que declaram “sem religião”. Na sua periferia, os católicos viraram minoria frente aos fieis das Igrejas batistas e das muitas igrejas pentecostais. Passeando o olhar pelas favelas dos morros do Rio e na sua visita à Comunidade de Varginha, no complexo de Manguinhos, o Papa entrará em contato com uma franja do Brasil de mais de 100 milhões de afrodescendentes, mas terá  ao seu lado nas missas, uma maioria de bispos e padres de origem branca e europeia, com escassa presença negra!
Durante a JMJ, os 2 milhões de jovens que estarão com o Papa serão acompanhados ao vivo por vasta audiência no Brasil e mundo afora. Aqui reside outro rosto da Igreja, o de um catolicismo mediático, cuja face mais visível são os padres cantores e as redes católicas de TV: Rede Vida, Canção Nova, TV Aparecida, TV Século XXI, com fortes laços com a renovação carismática católica. Essas redes são, entretanto, pálida presença frente ao poder mediático de uma IURD, com a Rede Record de Televisão ou as intermináveis horas alocadas nos outros canais de TV a diferentes igrejas pentecostais.
Para a Igreja católica, são muitos os desafios de hoje: Como passar de um catolicismo tradicional e apenas nominal a um catolicismo de opção e a uma fé atuante? Como transitar de um catolicismo rural para sua vivência no contexto da cultura urbana, técnica, científica e mediática? Como implantar uma Igreja-comunidade, numa sociedade de extremado individualismo e competição? Como viver modesta e frugalmente, atentos à crise ambiental, na contramão de um consumismo sem freio nem medida? Como atuar em solidariedade com os pobres, empenho nas lutas por justiça e superação das desigualdades, discriminação racial e violência, de forma corajosa e cidadã no campo social e político, no momento em que cresce a tendências de espiritualismos desencarnados?
Como falar à juventude, depois que se rompeu o vínculo da transmissão da fé no seio das famílias, mas surgiu também renovado anseio por justiça, paz e cuidado com a criação? Como aprofundar a reflexão sobre sentido da sexualidade humana, do amor, do prazer, exercitando escuta e misericórdia frente a sofrimentos e perplexidades neste campo? Como responder ao grito das mulheres, cuja emancipação e aspiração a igual dignidade em todas as esferas da vida, não é suficientemente acolhido nas estruturas da Igreja? Como mover-se, enfim, nos espaços do crescente pluralismo religioso da sociedade brasileira, aprendendo a dialogar e a cooperar ecumenicamente para o bem comum, com todas as pessoas, nas diferentes igrejas, religiões e filosofias de vida?

(J.O. Beozzo, Historiador, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular/ CESEEP.)

publicado às 09:27


A IDADE VERDADEIRA DO SEU CÃO

por Thynus, em 26.07.13

 

Convencionou-se dizer que cada ano canino corresponde à sete anos da idade do homem... Mas será que um cão de 15 anos teria mesmo 105 anos? Essa correlação não é muito precisa. Não existe uma tabela exata, pois a idade do cão varia com inúmeros fatores. Por exemplo: raças grandes ou gigantes vivem menos tempo, ou seja, 9 anos para um doberman representam muito mais idade do que para um poodle. As raças pequenas, sabidamente, têm longevidade maior.

Você já deve ter visto um cão de 10 anos que aparente ter bem menos idade. Como no homem, alguns indivíduos tardam a envelhecer, enquanto outros parecem ter envelhecido precocemente. A alimentação, prevenção de doenças e cuidados com o animal irão influenciar em sua saúde e aparência, embora, em alguns casos, esses fatores não sejam determinantes. Mesmo extremamente cuidado, não há como retardar o envelhecimento dos animais.

O conhecimento da idade do cão em relação à idade humana nos ajuda a entender melhor o comportamento de nossos animais. Para termos uma idéia aproximada dessa relação, podemos usar a tabela abaixo. Como já foi explicado, ela é apenas uma base para você determinar a idade do seu cão. Agora é só tirar a dúvida: será que ele está mais conservado do que você?



(A curiosidade não matou o gato)

publicado às 00:42


A IMAGEM DE SI PRÓPRIO

por Thynus, em 25.07.13

 

 

Todo ser humano tem uma imagem de si mesmo. É uma imagem ideal da qual busca aproximar-se. Na civilização esta imagem é variável de acordo com os conceitos de cada época. O que foi o ideal de mulher para minha avó não é para mim. O que é ideal para uma cultura, não é para outra.
É outro postulado da psicanálise que o homem mede a si próprio pelo grau de proximidade que logra atingir de seu ideal. Parece haver, hoje mais do que nunca uma certa confusão de ideais. Muitas vezes pessoas parecem confusas em relação ao que devem ser. Já não há padrões de comportamento tão rígidos dizendo-nos como agir, pensar e nos conduzir em nossas escolhas. Somos, em tese, mais livres, mas continuamos necessitando de modelos com os quais nos identificar.
Nem sempre os modelos disponíveis são os mais saudáveis e tentar encaixar-se neles pode ser extremamente complicado. Há casos até dramáticos como as adolscentes que precisam desesperadamente manter-se num peso considerado ideal para modelos, e muitas vezes impossível para elas. São razões orgânicas. Cada uma tem sua estrutura física que deixa de ser respeitada, levando-as a adoecer. E há outros casos menos drásticos em que pretendemos alterar profundamente nossa natureza pessoal para nos encaixarmos em uma imagem que nos é mostrada como ideal.
A perda da autenticidade é um grande risco e não deveria ser estimulada em hipótese alguma.
Na formação dessa imagem ideal, que perseguimos pela vida a fora, estão profundamente enraizados os valores morais transmitidos pela família e os educadores.
São eles enfim que nos ensinam como devemos ser para recebermos aprovação e sermos aceitos, amados e admirados.
Evidentemente desejamos muito isso, tanto porque precisamos ser aceitos num grupo como pela nossa própria vaidade pessoal.
Mais tarde entram em jogo os padrões da escola, do grupo de adolescentes, da mídia, do nosso meio social. Esses padrões podem ser conflitantes e nos tornar divididos internamente, confusos em relação ao que devemos ser.
Confusos e insatisfeitos. Agudamente conscientes de nossa insatisfação e achando sempre que o problema somos nós. O mundo tenta nos convencer disso, e a medicina ajuda quando silencia a respeito do erro que esta sendo cometido.
A medicina, como defensora da vida e da saúde humanas, talvez coubesse denunciar muito mais claramente o quanto nossos conceitos coletivos, que passamos a denominar realidade, podem ser nocivos a nós mesmos.
Ela costuma optar por uma postura mais fria e conivente com toda forma de maltrato a que somos submetidos pelos nossos próprios enganos pessoais e sociais. Freqüentemente limita-se a remendar uma parte de nós quando adoecemos fisicamente ou, chega a nos considerar anomalias, seres infantis e mal adaptados quando o sofrimento é emocional.
Há muito sofrimento mental nos dias que correm. Nossos consultórios estão cheios de pessoas infelizes, e trabalhar com cada uma delas pode fazer uma grande diferença na sua qualidade de vida, mas seria necessário um trabalho mais amplo que atingisse a coletividade e onde cada um pudesse rever seus padrões e forma como se comporta. Os erros com que compactua e pelos quais paga alto preço.
Pensaríamos em um ser saudável quando este fosse suficientemente forte para construir uma imagem de si próprio com certa independência e respeitando suas necessidades naturais e individuais sem ter que se encaixar em todos os padrões externamente ditados, freqüentemente incompatíveis com sua verdadeira satisfação.
Uma pessoa enfim mais liberta para julgar e defender-se de padrões equivocados que venham de fora, com suficiente senso crítico para reconhecer o que serve ou não a ela .E Com permissão interior para questionar o que é razoável no próprio ideal e atrevimento suficiente para revê-lo.
De nada adianta uma libertação de tirânicos ideais passados se precisarmos substituí-los por outros ditadores, qual crianças indefesas que dependam de que alguém as guie e diga como comportar-se e em que acreditar.
Viver nossas próprias e preciosas vidas respeitando nosso direito a um quinhão de bem estar, do qual não deveríamos abrir mão sob nenhum pretexto ou influência, e respeitando aqueles que compartilham nosso viver, é o grande desafio da saúde mental e de qualquer um de nós.
Isso implica em escolhermos ideais mais compatíveis com nossa realidade pessoal e coletiva, que não nos obriguem a sacrifícios e artificialismos sem perspectiva de sustentação.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

 

publicado às 14:27


TIRANIAS

por Thynus, em 24.07.13

 

Elas podem ser internas ou externas e facilitam-se mutuamente, têm ação de reforço. Sempre parecemos precisar delas pois, quando nos livramos de uma, logo arranjamos outra. A sociedade atual, com seu aparente liberalismo, continua exercendo várias formas de tirania, a maior delas talvez seja a ditadura econômica.
Os economistas terão mil explicações para todo o desarranjo e a desigualdade do planeta, mas são apenas discursos e, em sã consciência, não se pode deixar de admitir que deve existir alguma razão mais profunda, inconsciente e portanto desconhecida por nós, que nos leve a lidar tão mal com a questão de distribuir riquezas e viver em paz.

Acredito que, no cerne dessa dificuldade, esteja o mesmo instinto que produz dominação. Não quero aqui elogiar nem atacar nenhum dos sistemas inventados pelo homem para regular essas relações. Todos de alguma forma se revelaram falhos e precisaremos continuar trabalhando essa questão, talvez por muitos séculos ainda. O fato, que para essa análise basta, é que o dinheiro é um meio de poder e o veículo de tirania mais usado na atualidade. Facilita a escravização humana, a serviço mais do nosso sadismo que de qualquer outra justificativa consciente que tenhamos.
A competitividade coloca-nos na tensa posição de ter de ser o melhor e alija-nos do que há de agradável na convivência pacífica. Cria, para nós mesmos, verdadeiros infernos de esforço para corresponder a essas expectativas que assumimos como nossas, e incrementa nossa sensação de solidão. O homem urbano contemporâneo possui muito e vive mergulhado em solidão.


(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

publicado às 00:00


DEPRESSÃO

por Thynus, em 23.07.13

 

 

Há algum tempo este tema tornou-se parte de nosso cotidiano. Nas ruas no trabalho, em casa, na vizinhança...Todo mundo tem algum contato com ela, até mesmo pessoal. Acredito que se deva, ao analisá-la, partir do ponto de vista de que a tristeza é um estado de alma normal em determinados momentos. Inclusive na vida dos chamados animais irracionais existe a reação de tristeza, que sempre se refere a uma perda. È um modo de reagir à perda de algo ou alguém que é comum a uma ampla lista de espécies no reino animal. Tristeza é um estado passageiro de desinteresse pelo externo, introspecção e luto. É uma espécie de saudade.
A melancolia que Freud descreve é uma imensa saudade que nos faz adoecer. Só podemos sentir a falta de algo que conhecemos e não temos mais e sabemos todos como essas ausências podem ser dolorosas.
Uma fêmea que perde o filhote provavelmente desenvolverá algum tipo de reação semelhante. O filhote que perde a mãe...o animal que perde a liberdade... o índio aculturado, o atual homem civilizado... também podem desenvolver essa resposta afetiva, Pela duração de tal mal estar ou pela intensidade da experiência e seu impacto sobre o aparelho psíquico, isso pode tornar-se doença .Aí entramos em casos em que a tristeza passa a ser o estado corrente.
O animal em cativeiro não reencontra a alegria privado de sua liberdade. Simplesmente a circunstância desfavorável permanece e estado emocional correspondente também. É possível que um animal destes recobre parte do equilíbrio conseguindo uma adaptação a nova situação, mas será sempre castrado em suas potencialidades e é por isso que não se pode viver em cativeiro, é o máximo da saudade: a falta de si mesmo.
O estado emocional tristeza pode perpetuar-se pela vida, formando um modo de ser ou de reagir que se repetirá. Desenvolvemos uma resposta emocional durante a infância que dependendo da intensidade e da duração se perpetuará como um modelo.
Crianças tem menos estrutura e devem ser poupadas de perdas e perigos para que possam se desenvolver. Esse é um fato óbvio que o Brasil não tem visto com a devida seriedade. Somos alegres, fazemos carnaval, mas e as seqüelas em nossa auto estima? Ninguém percebe este traço melancólico disfarçado no brasileiro? Ele às vezes parece acreditar-se parte de uma casta inferior, um país de segunda linha onde as coisas não podem dar certo. O brasileiro amarela.
Temos uma pátria mãe gentil, exuberante e doce mas meio distraída, deixa as coisas meio frouxas, seus filhos por demais à vontade. Precisaria talvez ser um pouco mais clara quanto às regras e empenhar-se mais na educação de seus filhos. Não permitir que os fantasmas das perdas, da violência e da insegurança os atinjam ainda crianças.
Há distinção entre tristeza passageira, estado de alma temporário e tristeza mantida. Seja esta decorrente da fragilidade emocional de uma criança, seja pela recorrência ou manutenção das circunstâncias desfavoráveis.
Uma é resposta, a outra é crônica. Uma é vivência delimitada no tempo, a outra é modo de reagir e sentir o mundo. Tristeza patológica, se podemos chamar assim, não necessariamente precisa ter uma intensidade dramática, embora possa ser assim. Várias reações de tristeza pouco visíveis podem produzir estados de inibição permanente, com prejuízo para a capacidade de desfrutar a vida e relacionarse e exercer atividades criativas e produtivas. São formas mascaradas e subclínicas de depressão.
Somos seres que crescemos e nos desenvolvemos investindo nossa libido no mundo que nos cerca. Libido é nossa energia amorosa. Para permitir que flua temos que poder interagir com o que nos cerca com um mínimo de inibições e entraves. Essa interação mantém a tensão psíquica sob controle há uma descarga adequada ao bom funcionamento mental.
É nossa libido que se dirige a nossos pais e forma um elo amoroso que nos mantém interessados nesse contato e faz com que procuremos interagir e fazer crescer essa ligação.
Libido é um termo popularmente associado apenas à sexualidade, no entanto é mais abrangente e constitui toda experiência de prazer e a base de todas as nossas construções. Usamos a libido para nos relacionar com pessoas, com o trabalho e com tudo o que está ao nosso redor.
Sendo a libido a força que nos liga mais fortemente à vida, podemos compreender sua importância. Quando investimos essa energia em alguém, ele se torna emocionalmente significativo para nós. Assim também uma circunstância ou algo que amamos, porque representam oportunidades de gratificação. Podemos então entender que uma perda de qualquer uma dessas relações nas quais depositamos nossa energia amorosa, desperte um estado de mal estar.
Ele poderá vir a ser superado, após um período de luto, se conseguirmos recuperar esse capital afetivo e investí-lo em outras pessoas ou circunstâncias, estabelecendo novamente uma ligação que nos proporcione a sensação de bem estar em substituição da que perdemos.
Pode ocorrer, contudo que não consigamos recuperar esse capital e que a energia de que tanto necessitamos para viver, fique retida nessa situação de luto sem que ela chegue a ser superada.
Tal é o caso de perdas muito significativas ou repetidas em situações em que somos ainda muito frágeis para administrar tais prejuízos e incapazes de realizar o processo de substituição de uma ligação amorosa por outra, como na infância.
As conseqüências desse desarranjo precoce de nossas energias será uma menor disponibilidade delas para interação com o mundo. Além disso, perdas posteriores tenderão a despertar o mesmo estado de luto e angústia verificado nessas primeiras experiências. Teremos então uma predisposição emocional às reações depressivas.
Há também uma predisposição genética a esse tipo de adoecer. Sabe-se que as chamadas doenças afetivas têm um caráter familiar, como várias outras enfermidades também o têm. Em todas as vidas existirão situações de perda e decepção com aqueles ou aquilo que amamos e até conosco mesmos. Talvez aquelas pessoas cuja genética predispõe a uma queda na produção de determinados neurotransmissores, causadora de depressão, estejam mais vulneráveis e reajam mais intensamente às adversidades ao longo da vida.
Porém, mesmo sem predisposição genética qualquer pessoa pode desenvolver uma reação depressiva em determinado ponto da vida, dependendo das suas circunstâncias. E podem responder muito bem ao uso de antidepressivos, sugerindo que a reação emocional acompanha-se ou pode mesmo ser a geradora de um déficit na produção dos neurotransmissores.
Atualmente há um significativo aumento no número de pessoas, pelo mundo afora, que estão desenvolvendo sintomas depressivos. Pessoalmente acredito que tal situação esteja ligada a desequilíbrios nas situações de vida de cada uma delas e da humanidade como um todo. Creio que se possa falar de um desequilíbrio em nosso habitat emocional, que se apresenta hoje mais intenso do que em outras épocas.
Quer dizer: existem perdas maciças de aspectos muito importantes de nossas naturezas e por isso estamos desconfortáveis. O desconforto mantido gera stress e este o esgotamento de nossas possibilidades interativas, que representa a depressão. Assim, é de qualquer forma uma saudade que nos atinge e enferma.
Saudade de tudo aquilo que nossa natureza sensível necessita para manter-se vigorosa e que os valores da atualidade tentam nos convencer que não são importantes. Como a liberdade, a criação, a segurança, o amor, a esperança e os sonhos.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

publicado às 13:54



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