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SONHADORES

por Thynus, em 31.07.13

 

 

Toda a grande mudança ocorrida na trajetória humana resultou em nos tornarmos sonhadores. Sonhamos e construímos nossos sonhos, que às vezes se revelam pesadelos. Somos seres que constróem no mundo ao seu redor os desejos e fantasias que povoam seu interior. Só quando sentimos estar no caminho de criar aquilo que brota de nossos mais profundos anseios nos sentimos realmente felizes e entusiasmados, achamos que a vida tem valor. Não queremos apenas comida, abrigo e alívio para a dor. Queremos nos sentir inseridos num grupo. Queremos diversão e beleza, arte e troca. Universo rico e louco que somos precisamos ter a chance de manifestar nosso atrevimento frente à vida e tomá-la em nossas mãos. Sentirmos, tanto quanto possível, que somos agentes do nosso viver. Superar nosso desamparo infantil e contar conosco, com nosso discernimento e toda a consideração que temos por nós mesmos e que nos leva a buscar um estado que denominamos felicidade.
Somos todos loucos varridos quando atentamos contra isso qualquer que seja a explicação que tenhamos para produzir sofrimento.
Não se trata de uma frenética busca ao prazer, de uma sociedade hedonista cuja desenfreada busca de satisfação desrespeita a condição humana. Saímos de um extremo de falta de liberdade e sacrifícios duramente impostos, para a cultura da satisfação imediata, onde vale tudo. O próximo passo deve ser o equilíbrio. Este que por ora não estamos encontrando. Precisamos continuar nos esforçando para descobrir quem somos, como funcionamos, qual é nossa natureza e nossas reais necessidades.
Mais e mais pessoas começam a se questionar sobre a forma como vivemos. Mais e mais denúncias e protestos surgem sobre situações falsas e danosas. Estamos nos tornando mais conscientes do que nunca de tudo o que nos faz mal. Em todos os cantos do mundo pessoas buscam alternativas para uma vida mais saudável, cada grupo com uma visão, todos podem ter uma contribuição importante a dar.
O grande benefício do conhecimento dos modos de vida de todas as culturas, proporcionado pela moderna tecnologia da informação, é justamente mostrar-nos quem somos, onde estão nossas falhas e acertos.
Já não é possível viver no mundo pequeno de cada comunidade. Temos uma consciência crescente de espécie e dentro dela uma certeza de sermos indivíduos com direito ao respeito àquilo que em nós é autêntico.
Nos próximos anos estaremos cada vez mais dispostos a descobrir o que serve e o que não serve para nossas vidas, como afinal, queremos viver.
A força de muitos equívocos vem caindo e a liberdade sendo conquistada, embora não igualmente para todos. Mas a educação se expande e ela pode ser um meio eficaz de desenvolver o senso crítico do indivíduo e sua capacidade de interação positiva com o mundo.
Não queremos mais mentiras e limpá-las tem nos custado bastante. Há feridas expostas e isso, num primeiro momento é doloroso e chocante. Estamos em meio a uma descoberta de nós mesmos como grupo e como indivíduos. Vivemos uma situação de crise, mas elas servem ao crescimento. Temos uma tendência a escamotear, esconder e deixar como está, até que todo mal estar fique muito evidente e a crise se instale. Então, por algum tempo, tudo será questionado e reavaliado e nosso mundo parecerá caótico. Passada esta fase de angústia e às vezes desespero, caminharemos para algo mais satisfatório aprendendo com nossa dor e resgatando nossa identidade.
No futuro não concordaremos mais em vender nossas almas a nenhum tipo de engano e não participaremos de nenhuma falsidade. Compreenderemos finalmente que temos o direito básico à saúde, aquela cujo conceito é um estado de bem estar físico e mental na maior parte do tempo. Então nenhum valor poderá se sobrepor a este e compreenderemos que não é possível ignorar partes desse todo que é a humanidade. Enquanto não pudermos todos desfrutar de saúde, não seremos uma espécie saudável.
Somos um ecossistema social e este, repito, não é um discurso ideológico ou religioso, mas psicológico. À medida que vamos tratando a nós mesmos com mais respeito, estendemos isso aos demais. Quando nos tornamos mais saudáveis há um efeito a nosso redor. O conceito de saúde mental passa pelo auto respeito e pela capacidade amorosa, criativa e de autenticidade. Este afinal era o objetivo da civilização: a associação humana com vistas a promover o bem estar e a libertação sobre nossas dificuldades.
Os laços afetivos precisam também se redesenhar nessa nova ordem. Há que haver espaço para o espontâneo e o que é em nós livre, mas também respeito pela necessidade humana de interação com o outro.
Até aqui as relações humanas têm sido marcadas pelo desejo de dominação. Contudo, a dominação não é necessária, cria uma carga extra para ambos os lados. Podemos começar a pensar associações mais construtivas onde a troca esteja presente e se estabeleça espontaneamente entre as partes. Quanto mais rico interiormente cada indivíduo se torna, mais tem a oferecer e mais enriquecedor será conviver com ele. Recebemos mais e melhor do outro à medida que nossa qualidade individual cresce.
Sempre precisaremos do outro, não existimos isoladamente. O desafio é tornar mais positivas estas interações e termos consciência de que somos indivíduos e não podemos nem queremos sacrificar isso em nome do desejo infantil de dependência e dominância.
As relações serão cada vez mais igualitárias, com respeito às diferenças, mas colocando todos num mesmo plano de valor embora com papéis diferentes.
Respeito parece ser a palavra chave, a grande questão a ser pensada e praticada, já que decidimos abandonar as cavernas. Respeito á diferença, respeito a nossa natureza, ao outro, a si próprio. Respeito ao direito que cada um tem de seguir seu coração, dar vazão ao seu potencial e de expressar-se como ser vivente. Respeito ao direito de sonhar também, pois somos sonhadores.
Quando esta nova forma de ver as coisas amadurecer em nós e finalmente se instalar, não parece que ainda teremos tanto desejo de agredir e destruir. Nossa potencialidade inteligente adquirida os substitui pelo lúdico, o erótico, o desejo de criar e a agressividade auto-defensiva. O que há em nós de destrutivo é resíduo ou patologia.. O homem sadio, respeitado em suas necessidades, não é agressivo.
Não somos uma raça de decaídos, estamos ainda submetidos à criações culturais insatisfatórias, muitas vezes incompatíveis com nosso bem estar e equilíbrio. Porém, à despeito dos tropeços e atropelos durante o período de maturação desta idéia inicial que se expressa no ideal civilizado, acredito que possamos chegar a ela um dia. Aí, uma nova ética finalmente prevalecerá, colocando em definitivo a vida acima de tudo. A vida em todas as suas manifestações e em todo seu potencial.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 14:30

 

 

 

 

 No pensamento social e filosófico a questão da  fé não está em alta. Antes pelo contrário, a maioria dos pensadores tributários dos mestres da suspeita e filhos da modernidade, colocam a fé sob suspeita, considerada como pensamento arcaico e mítico ou como cosmovisão do povo supersticioso e falto de conhecimento, na contramão do saber científico.

 

         Como quer que interpretemos a fé, o fato é que ela está ai e mobiliza milhões de jovens vindos de todo mundo para a Jornada Mundial da Juventude, além de outros milhares que acorreram para ver o novo Papa Francisco. Suspeito que nenhuma ideologia, causa ou outro tipo de lúder que não religioso consiga trazer para as ruas tão numerosa multidão. Pode-se dizer responsavelmente que ai vigora alienação e arcaismo?

 

         Tal fato nos leva a refletir sobre a relevância da fé na vida das pessoas. O conhecdido sociólogo Peter Berger mostrou em seu Rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (1969) a falácia da secularização que pretendeu ter banido do espaço social a religião e o sagrado. Ambos ganharam novas formas mas estiveram sempre ai presentes, porque estão enraizados profundamente nas damandas fundamentais da vida humana.

 

         Imaginar que um dia o ser humano abandone totalmente a fé é tão inverossímil quanto esperar que nós para não ingerirmos alimentos quimicalizados ou transgênicos deixemos uma vez por todas de comer. Quero abordar a fé em seu sentido mais comezinho, para aquém das doutrinas, dogmas e religiões, pois ai aparece em sua densidade humana.

 

         Há um dado pre-reflexo que subjaz à existência de fé: a confiança na bondade fundamental da vida. Por mais absurdos que haja e os há quase em demasia, o ser humano crê que vale mais a pena viver do que morrer. Dou um simples exemplo: a criança acorda sobressaltada em plena noite; grita pela mãe  porque o pesadelo e a escuridão a encheram de medo. A mãe toma-a no colo, no gesto da magna mater, enche-a de carinho e lhe diz: “querida, não tenhas medo; está tudo bem, está tudo em ordem”. A criança, entre soluços, reconquista a confiança e dentro de pouco, adormece tranquila. Estará a mãe enganando a criança? Pois nem tudo está bem. E contudo sentimos que a mãe não mente à criança. Apesar das contradições, há uma confiança de que uma ordem básica perpassa a realidade. Esta  impede que o absurdo tenha a primazia.

 

         Crer é dizer:”sim e amém” à realidade. O filósofo L. Wittgenstein podia dizer em seu Tractatus logico-philosophicus: “Crer é afirmar que a vida tem sentido”. Este é o significado bíblico para fé –he’emin ou amam – que quer dizer: estar seguro e confiante. Daí vem o “amém” que significa:“é isso mesmo”. Ter fé é estar seguro no sentido da vida.

 

         Essa fé é um dado antropológico de base. Nem pensamos nele, porque vivemos dentro dele: vale a pena viver e sacrificar-se para realizar um sentido que valha a pena.

 

         Dizer que este sentido da vida é Deus é o discurso das religiões. Esse sentido pervade a pessoa, a sociedade e o universo, não obstante nossas infindáveis interrogações. Escreveu  o Papa Francisco na encíclica Lumen Fidei:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho”.

 

         Dizer que esse sentido, Deus, se acercou de nós e que assumiu nossa carne quente e mortal em Jesus de Nazaré é a leitura da fé cristã. Em nome desta fé em Jesus morto e ressuscitado, se reuniram esses milhares de jovens e acorreram mais de dois milhões de pessoas em Copacabana.

 

         Entre outros traços do carisma do Papa Francisco é sua fé cristalina que o torna tão despojado, sem medo (o que se opõe à fé não é o ateismo mas o medo) que busca proximidade com as pessoas especialmente com os pobres. Ele inspira o que é próprio da fé: a confiança e o sentimento de segurança. É o arquétipo do pai bom que  mostra direção e confiança.

 

         Fez uma conclamação importante, verdadeira lição para muitos movimentos no Brasil: a fé tem que ter os olhos abertos para as chagas dos pobres, estar perto deles e as mãos operosas para erradicar as causas que produzem esta pobreza.

 

         Na Jornada houve belíssimas celebrações e canções cujo tom era de piedade. Entretanto, não se escutaram as belas canções engajadas das milhares comunidades de base. Não se ouviram também  suas belas canções que falam do clamor das vítimas, dos indígenas e camponeses assassinados e do martírio da  Irmã Dorothy Stang e do Padre Josimo. O Papa Francisco enfatizou uma evangelização que se acerca do povo, na simplicidade e na pobreza. Repetiu muito:”não tenham medo”. O empenho pela justiça social cria conflitos, vítimas e suscita medo, que deve ser vencido pela fé.

 

         Voltemos ao tema da fé humana. Quantos são aqueles que se apresentam como ateus e agnósticos e no entanto possuem essa fé como afirmação do sentido da vida e se empenham para que seja justa e solidária. Talvez não a confessam em termos de Deus e de Jesus Cristo. Não importa. Pois a base subjacente a esta fé em Deus e Cristo está lá presente sem ser dita.

 

Esta fé básica impõe limites à pós-modernidade vulgar que se desinteressa por uma humanidade melhor e que não tem compromisso com a solidariedade pelo destino trágico dos sofredores. Outros, vendo o fervor da fé dos jovens e a comoção até às lágrimas sentem talvez saudades da fé da infância. E ai podem surgir impulsos que os animam a viver a fé humana fundamental e quem sabe se abrem até à fé num Deus e em Jesus Cristo. É um dom. Mas o dom de uma  conquista. E então um sentido maior se abre para uma vida mais feliz.

 

 

 

(Leonardo Boff)

 

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publicado às 15:44

 

 

Não é fácil em poucas palavras resumir os pontos relevantes das intervenções do Papa Francisco no Brasil. Enfatizo alguns com o risco de omitir outros importantes.

O legado maior foi a figura do Papa Francisco: um humilde servidor da fé, despojado de todo aparato, tocando e deixando-se tocar, falando a linguagem dos jovens e as verdades com sinceridade. Representou o mais nobre dos líderes, o líder servidor que não faz referência a si mesmo mas aos outros com carinho e cuidado, evocando esperança e confiança no futuro.

 

            No campo político encontrou um país conturbado pelas multitudinárias manifestações dos jovens. Defendeu sua utopia e o direito de serem ouvidos. Apresentou uma visão humanística na política na economia e na erradicação da pobreza. Criticou duramente um sistema financeiro que descarta os dois pólos: os idosos porque não produzem e os jovens não criando-lhes postos de trabalho. Os idosos deixam de repassar sua experiência e os jovens são privados de construir o futuro. Uma sociedade assim pode desabar.

 

O tema da ética era recorrente, fundada na dignidade transcendente da pessoa. Com referência à democracia cunhou a expressão “humildade social” que é falar olho a olho, entre iguais e não de cima para baixo. Entre a indiferença egoista e o protesto violento apontou uma opção sempre possível: o diálogo construtivo. Três categorias sempre voltavam: o diálogo como mediação para os conflitos, a proximidade para com as pessoas para além de todas as burocracias e a cultura do encontro. Todos tem algo a dar e algo a receber. “Hoje ou se aposta na cultura do encontro ou todos perdem”.

 

No campo religioso foi mais fecundo e direto. Reconheceu que”jovens perderam a fé na Igreja e até mesmo em Deus pela incoerência de cristãos e de ministros do evangelho”. O discurso mais severo reservou-o para os bispos e cardeais latinoamericanos (CELAM). Reconheceu que a Igreja, e ele mesmo se incluíu, está atrasada com referência à reforma das estruturas da Igreja. Conclamou não apenas a abrir as portas para todos, mas a sairem em direção do mundo e para as “periferias existenciais”. Criticou a “psicologia principesca” de membros da hierarquia. Eles tem que ser pobres interior e exteriormente. Dois eixos devem estruturar a pastoral: a proximidade do povo, para além das preocupações organizativas e o encontro marcado de carinho e ternura. Fala até da necessária “revolução da ternura” coisa que ele mostrou viver pessoalmente. Entende a Igreja como mãe que abraça, acaricia e beija. Essa atitude materna os pastores devem cultivar para com os fiéis. A Igreja não pode ser controladora e administradora mas servidora e facilitadora. Enfaticamente afirma que a posição do pastor não é a posição do centro mas a das periferias. Esta afirmação é de se notar: a posição do bispos deve ser “ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre” e dar-se conta de que “o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos”. Ademais, deu centralidade aos leigos para junto com os pastores decidirem os caminhos da comunidade.           O diálogo com o mundo moderno e a diversidade religiosa: o Papa Francisco não mostrou nenhum medo face ao mundo moderno; quer trocar e inserir-se num profundo sentido de solidariedade para com os privados de comida e de educação. Todas as confissões devem trabalhar juntas em favor das vítimas. Pouco importa se o atendimento é feito por um cristão, judeu, muçulmano ou outro. O decisivo é que e o pobre tenha acesso à comida e à educação. Nenhuma confissão pode  dormir tranquila enquanto os deserdados deste mundo estiverem gritando. Aqui vige um ecumenismo de missão, todos juntos, a serviço dos outros.

 

Aos jovens dedicou palavras de entusiasmo e de esperança. Contra uma cultura do consumismo e da desumanização convocou-os a serem “revolucionários” e  “rebeldes”. É pela janela dos jovens que entra o futuro. Criticou o restauracionismo de alguns grupos e o utopismo de outros. Colocou o acento no hoje:”no hoje se joga a vida eterna”. Sempre os desafiou para o entusiasmo, para a criatividade e para irem pelo mundo espalhando a mensagem generosa e humanitaria de Jesus, o Deus que realizou a proximidade e marcou encontro com os seres humanos.

 

Na celebração final havia mais de três milhões de pessoas, alegres, festivas e na mais absoluta ordem. Desceu um aura de benquerença, de paz e de felicidade sobre o Rio de Janeiro e sobre o Brasil que só podia ser a irradiação do terno e fraterno  Papa Francisco e do Sentimento Divino que soube transmitir.


 (Leonardo Boff escreveu Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja? Editora Mar de Ideias, Rio 2013)

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publicado às 15:43


ÉTICA E LIBERDADE

por Thynus, em 29.07.13

 

Sendo assim, temos que pensar que o aprendizado da ética seja o grande objetivo dessa nossa aventura como espécie, que ele acontece a nível individual antes que se manifeste no coletivo. E que este aprendizado é o mesmo da liberdade. Porque ambas, ética e liberdade, talvez tenham o mesmo significado e só a sua existência conjunta complete o quebra cabeças.
Se soubéssemos respeitar os outros e fossemos respeitados o que teríamos a temer? Que tipo de sentimentos despertaríamos uns nos outros? Que motivos teríamos para sofrer se nos recusássemos a ser a fonte de sofrimento para outra pessoa ou a servirmos de alvo às suas agressões?
Como disse Freud, nenhum sofrimento nos é tão penoso quanto aquele que provém de outro ser humano. E se finalmente pudéssemos pelo menos tentar deixar de ser fonte desse sofrimento?
Não estou falando de idéias piedosas, a piedade não precisa existir onde há o respeito. Não estou falando de nenhuma idéia religiosa sobre nos tornarmos santos ou nos comportarmos de uma forma que nos garanta acesso ao paraíso. Estou falando de querer ser respeitado e de enxergar que os outros tem o mesmo direito. Simplesmente porque não há nenhuma necessidade de vivermos no inferno que não tenha sido inventada por nós mesmos. Somos o inferno uns dos outros. Estabelecemos relações parasitárias com nossos semelhantes. Somos os parasitas e os parasitados dependendo das circunstâncias.
Quando estabelecemos relações de domínio e dependência estamos sendo imaturos e retrocedendo a um estágio muito primitivo de desenvolvimento mental em que precisamos controlar o outro para termos nossas necessidades satisfeitas. Tal comportamento é legítimo em crianças muito pequenas, mas adultos precisam aprender a existir por seus próprios meios, isso inclui pensar, preservar-se de condutas auto destrutivas e aprender que não há realmente nenhuma necessidade de parasitar alguém. Nem por que permitir que alguém haja como parasita em relação a nós.
Nós precisamos aprender a estabelecer relações amorosas e não parasitárias. Na relação verdadeiramente amorosa há benefício para ambos, ela é voluntária e nos traz bem estar. Caracteriza-se pelos sentimentos de consideração e respeito mútuo. Não há privação de liberdade. É mais parecida com o comensalismo.
A relação parasitária é só aparentemente vantajosa para o parasita. Na verdade ele é uma criatura incapaz de vida independente, não tem meios para prover sua subsistência senão prejudicando alguém. Corre sério risco pois, assim que puder, o outro se livrará dele, e sua vida dura enquanto dure a do outro .É uma sub vida a do parasita.
Já para o ser parasitado o prejuízo é total. Ninguém em sã consciência pretende estar nessa posição de tão evidente desvantagem. O que pretende parasitar terá de usar a força ou valer-se da fragilidade do outro para se instalar lá. A vítima do parasitismo, para alimentar o parasita terá de fazer esforços redobrados e não hesitará se puder manter com outro o mesmo tipo de relação espoliativa a que está sujeito.
O dominado, se puder, inverterá as coisas de forma ninguém pode encontrar segurança em tal situação. Por isso não é um discurso piedoso. É uma avaliação de que tanto como indivíduos quanto como espécie, precisamos evoluir em nossas relações para que o nível de bem estar encontrado nelas seja mais satisfatório e duradouro.
É, na verdade, um discurso que faz a defesa da saúde mental como um direito de cada um e uma grande conquista a ser efetuada, já que é a nossa cabeça que está movimentando o planeta.
À ciência honesta cabe comunicar tudo o que descobre sobre a saúde e a enfermidade, às pessoas cabe o direito de tomar ou não em consideração o que é dito.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 23:20


LIBIDO, O ELO

por Thynus, em 29.07.13

 

“E, no desenvolvimento da
humanidade como um todo, do mesmo
modo que nos indivíduos, só o amor atua
como fator civilizador, no sentido de
ocasionar a modificação do egoísmo em
altruísmo.”
Ed. Standard, vol. XVIII.
Segundo a hipótese acima, grupo se uniria baseado no laço libidinal entre seus participantes. O primeiro destes laços se estabelece na infância e é forçado, ou facilitado, pelo fato de sermos absolutamente indefesos e dependentes. É preciso que alguém mantenha-se suficientemente interessado em nós para prover nossas necessidades e manter-nos vivos. Esse primeiro laço é, então, de total dependência, e nele, em princípio, desconhecemos a existência do outro como um ser independente de nós. Supomos que existe em função de ser nosso provedor e o vemos com os olhos do interesse em obter satisfação.
É inicialmente um amor egoísta e movido pelo interesse de auto-preservação. À medida que crescemos, desenvolvemos consciência da existência do outro, um ser amado e desejado que existe separadamente. Forma-se a idéia de eu e não eu.
Quando descobrimos a existência do OUTRO, passamos a nos preocupar com sua segurança e bem estar. Sua presença é tranquilizadora e desejada e sua integridade vital para nós. Ainda estamos atuando em proveito próprio: esse alguém nos é muito caro e perdê-lo seria doloroso e ameaçador. Este fato representa um grande avanço no desenvolvimento da psiquê, saímos de um estágio anterior de nos considerarmos o centro do mundo para o universo das relações. E toda nossa existência será assim, a menos que adoeçamos mentalmente ou que alguma patologia nos tolha por demais essa capacidade.
Se chegarmos a ser saudáveis o suficiente para ingressar nessa etapa já teremos cumprido importante parte de nosso desenvolvimento.
Algum tempo depois passamos a nos identificar com esse outro. Com a maturidade nos tornaremos gradualmente capazes de identificar seus estados de espírito e de avaliar seu bem estar comparando com o que sentimos, num processo de empatia.
Aí já temos uma forma mais evoluída de amor, em que tentamos proteger a quem amamos, zelamos por ele e já somos capazes de abrir mão de algum desejo em seu favor. Seremos capazes, por exemplo, de renunciar a um impulso agressivo para não feri-lo.
Esse período do desenvolvimento psíquico humano acompanha-se das maiores aquisições de habilidades. Um verdadeiro surto de desenvolvimento ocorre na criança que vive essa fase. Desencadeia-se o processo de aquisição da linguagem e da marcha e acentua-se a capacidade de imitar. A criança adquire independência gradual a medida que se reconhece como indivíduo.
Esse seria o desenvolvimento desejável e correto da nossa capacidade de relacionamento e auto-percepção. Mas, não necessariamente ocorre assim e, na vida adulta temos inúmeras oportunidades de preservar a forma primitiva de ligação, em que outro é visto como mera fonte de satisfação sem que exista nenhum reconhecimento de suas necessidades.
Em tal situação torna-se muito dificultada a formação de grupo, cada um verá o outro a serviço de si próprio e terá dele uma visão parcial, já que só algumas de suas características serão proveitosas e não haverá genuína preocupação e reconhecimento.
Numa relação em que os laços libidinais se tenham desenvolvido satisfatoriamente, os indivíduos terão alcançado este nível mais amadurecido de percepção integral e capacidade empática, segundo as observações da psicologia do desenvolvimento feitas pela escola inglesa.
(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 22:57

 

Pontífice conversou sobre temas difíceis com o repórter Gérson Camarotti

 

 

Na sua visita ao Brasil, o sumo pontífice encontrou tempo na agenda para receber o repórter Gérson Camarotti, da GloboNews, para uma conversa franca.
Na entrevista, o papa abordou assuntos difíceis, como os escândalos no Vaticano e os desafios da Igreja Católica para atrair fiéis. Comentou também a acolhida que teve no Brasil, durante a Jornada Mundial da Juventude, e deu lições de humildade, solidariedade e humanidade.

Francisco também explicou a atitude que toma em relação a sua segurança.
“Eu não sinto medo. Sei que ninguém morre de véspera. Quando acontecer, o que Deus permitir, será. Eu não poderia vir ver este povo, que tem um coração tão grande, detrás de  uma caixa de vidro. As duas seguranças (do Vaticano e do Brasil) trabalharam muito bem. Mas ambas sabem que sou um indisciplinado nesse aspecto.”
Leia, a seguir, trechos da entrevista concedida pelo Papa a Gérson Camarotti.

Rivalidade entre Brasil e Argentina
“O povo brasileiro tem um grande coração. Quanto à rivalidade, creio que já está totalmente superada. Porque negociamos bem: o Papa é argentino e Deus é brasileiro.”
Pobreza x ostentação
“Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade - eu diria, inclusive, de pobreza. O povo sente seu coração magoado quando nós,  as pessoas consagradas, são apegadas a dinheiro.”
Perda de fiéis
“Não saberia explicar esse fenômeno. Vou levantar uma hipótese. Pra mim é fundamental a proximidade da Igreja. Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe... dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta. Não sei se foi isso o que aconteceu no Brasil. Não sei, mas sei que em alguns lugares da Argentina que conheço isso aconteceu.”
Escândalos no Vaticano
“Agora mesmo, temos um escândalo de transferência de 10 ou 20 milhões de dólares de monsenhor. Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal, e a Igreja tem que dar a ele a punição que merece, pois agiu mal. No momento do conclave, antes temos o que chamamos congregações gerais - uma semana de reuniões dos cardeais. Naquela ocasião, falamos claramente dos problemas. Falamos de tudo. Porque estávamos sozinhos, e para saber qual era a realidade e traçar o perfil do novo Papa. E dali saíram problemas sérios, derivados em parte de tudo o que vocês conhecem: do Vatileaks e assim por diante. Havia problemas de escândalos. Mas também havia os santos. Esses homens que deram sua vida para trabalhar pela Igreja de maneira silenciosa no Conselho Apostólico.”
Os jovens
“Com toda a franqueza lhe digo: não sei bem por que os jovens estão protestando. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto: um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é muito lindo! É preciso ouvir os jovens, dar-lhes lugares para se expressar, e cuidar para que não sejam manipulados.”

 

 

Fantástico

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publicado às 03:25


As alterações feitas na Bíblia

por Thynus, em 28.07.13

 

 

Falar sobre os Arquivos Secretos do Vaticano leva a dois assuntos que sempre despertaram certa curiosidade nas pessoas: conhecer os processos reais das pessoas perseguidas pela Inquisição e saber mais sobre os documentos que estão lá e que tratam de assuntos polêmicos, como os processos da Inquisição e a manipulação (alteração) dos textos da Bíblia.
Sabe-se que o livro sagrado do cristianismo foi traduzido e sofreu alterações ao longo dos anos por motivos ligados ao trabalho de adaptação de uma língua morta, como o aramaico, para o grego, o latim e depois para as línguas mais modernas. Mas o que se sabe sobre esse processo de modificação, mesmo que tenha sido involuntário?

Intervenção humana

O status de livro sagrado que a Bíblia adquiriu com o passar dos anos causou muito da bibliolatria. Também há a questão das alterações e edições sob o ponto de vista histórico, um ponto que, para muitos, seria o suficiente para que estudiosos fossem queimados por duvidar de intervenção humana em tais textos.
O fato é que, querendo ou não, é necessário admitir que tal coisa aconteceu. Com o passar dos anos e dos séculos, seria quase impossível que os homens não mexessem com seu conteúdo de uma maneira ou de outra. O importante, nessa questão, não é colocar a Bíblia em xeque, mas entender que histórias como a dos evangelhos, que "levitaram" durante o Concilio de Niceia, são, com todas as chances, possíveis justificativas mistificadoras para se esconder uma participação humana.
A Bíblia é uma obra escrita e, como tal, esteve e estará sujeita a edições e alterações. Até aí, isso é normal. Quando falamos, por exemplo, das traduções que a obra sofreu, vimos os estilos comparados de algumas edições, observamos que palavras são adicionadas ou excluídas conforme avançamos no tempo, assim como a moda e os costumes variam. O que nos resta explicar, e o faremos neste capítulo, é mostrar as possibilidades e circunstâncias que levaram a essas alterações, já que não temos acesso aos textos dos Arquivos Secretos do Vaticano. Comecemos com uma opinião especializada.
No site Bíblia World Net, há um artigo, assinado por Jorge Pinheiro, que cita essa situação. Vejamos o que o autor nos diz:

Há casos extremos de manipulação da Bíblia que são facilmente identificáveis. Os teólogos da prosperidade dizem, por exemplo, que o jumento que Jesus usou ao entrar em Jerusalém eqüivalia a um carro de luxo nos dias de hoje. Logo, os cristãos têm o direito de exigir de Deus carros de luxo. O resultado dessa teologia é a sacralização do modo de vida da cultura vigente.

Claro que tudo é uma questão de interpretação. Há pessoas que comparam Jesus a um político moderno, o que teria inspirado roteiristas de Hollywood a conceber um anticristo como o famoso Damien, da série A Profecia, transformado em político.
Comparar o jumento que Jesus montava com um carro de luxo não chega a ser um exemplo de manipulação dos textos, mas mostra claramente como a imagem dos episódios bíblicos chega às mentes modernas.
Imagine só o efeito que os textos oficiais e não oficiais faziam nas mentes dos primeiros cristãos. Era necessário arrumar a "casa". Entre os muçulmanos, também há acusações de alterações no conteúdo da Bíblia. Isso acontece há alguns anos, principalmente entre os comentadores mais antigos como Bukhari e al-Razi.
Todos eles afirmavam que, como a Bíblia é a Palavra de Deus, não poderia ser alterada sob nenhuma circunstância. Mesmo assim, alguns séculos teriam se passado antes que os muçulmanos começassem a acusar os cristãos de "corromper" a Bíblia, principalmente quando começaram a ler as histórias do Alcorão e notaram que, de fato, há detalhes que as diferenciam de suas versões bíblicas.
Vejamos rapidamente um exemplo. Na Sura 2,42, está escrito: "Confundir a verdade com a falsidade e conscientemente ocultar a verdade". Estas teriam sido as palavras do profeta Maomé quando dois judeus foram trazidos a seu julgamento por terem cometido adultério. Outros judeus quiseram testar seus conhecimentos para ver se realmente ele era um profeta de Deus. Se fosse, pensavam, saberia o conteúdo da Torá. Maomé pediu que lhe trouxessem uma cópia da Escritura e a deu a um rapaz para que lesse qual seria a punição por desobediência (que aqui quer dizer adultério).
Segundo o que contam, o rapaz teria lido Levítico 20:10, que diz: "Se um homem comete adultério com a esposa de outro, ambos devem ser condenados à morte". Notem que é outra versão do seguinte verso: "Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera".
Voltemos à história. Os acusados colocaram suas mãos sobre o versículo para impedir que o rapaz concluísse a leitura. Na mesma hora, houve um grito de horror e indignação por parte dos presentes quando constataram a maneira como o texto bíblico havia sido corrompido, ou seja, mudado para ser mais leve que o original.
Há outra história contada pelos muçulmanos, que diz que um grupo de judeus que estava em Meca, e, portanto, não a raça judia em geral, ao escutar a escritura, quiseram alterá-la. Não sabemos exatamente como eles o fariam, mas precisariam ter em suas mãos cópias dos originais para serem acusados de alterar o texto.
Há pesquisadores que acreditam que as versões originais desses textos estão nos Arquivos Secretos e que deveriam ser colocadas em aberto para o público. Um desses pesquisadores é o professor de religiões João Flávio Martinez, que coloca a questão em artigo publicado no site do Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Lá lemos:

Se a Bíblia foi corrompida, aconteceu isso antes ou após Maomé? Se antes, por que Deus diz a Maomé para recorrer a uma Escritura corrompida como guia, e por que fala do Torá e dos Evangelhos, "nos quais se encontram a orientação e a luz", em vez de avisar 'que os usou antes deles serem corrompidos?". Se depois, por que os muçulmanos não aceitam a Bíblia, já que as traduções correntes estão todas fundamentadas sobre os manuscritos datados antes de Maomé?

Seria esse um sinal de que a sabedoria muçulmana sobre a natureza bíblica é maior que a dos próprios cristãos? Essa é uma acusação séria e, se levarmos em conta alguns dos Manuscritos do Mar Morto, veremos que as alterações são possíveis, algumas até significativas. Aquelas cópias antigas trazem alguns dados reveladores sobre como essas manipulações poderiam ter ocorrido. Mas voltemos ao artigo do professor Martinez. Ele conclui seu pensamento da seguinte forma:
Se ela (a Bíblia) foi corrompida, quem a corrompeu foram os judeus ou os cristãos? Já que nenhum deles estava em condições de combinar um com o outro (diz a Sura 2:113: "Os judeus dizem que os Cristãos não seguem nada (verdadeiro) e os cristãos dizem que os judeus não seguem nada (verdadeiro), contudo ambos são leitores das Escrituras" (ver também Sura 5:82). Como puderam ambos concordar em alterar toda a Bíblia do mesmo modo? Por que não há registro desse acontecimento e por que ninguém se opôs a isso ou conservou as Escrituras autênticas? Os livros do Novo Testamento foram largamente distribuídos, logo que foram escritos, por exemplo: o Papiro 26 do Evangelho de Jesus escrito por Mateus, datado do ano 68 d.C., que foi recentemente encontrado no Egito: presumivelmente, Mateus ainda estava vivo quando foi escrito... Assim, por que ele não o corrigiu, se estava corrompido? Por que os Cristãos não retiraram os episódios vergonhosos como o de Pedro negando Jesus (Mt 26,69-75) ou a briga de Paulo com Barnabé (Atos 15,39)? De que serve o testemunho da Bíblia sobre si mesma? "Toda Escritura é inspiradas por Deus" (2 Tm 3,16). Pedro fala dos escritos de Paulo como Escrituras já que alguns maliciosos distorciam seus ensinamentos "como distorcem as outras Escrituras" (2Pd3,16). "A Lei foi dada por Moisés" (Jó 1,17) e Jesus disse: "a Escritura não pode ser desprezada' (Jó 10,35). Suas palavras são "espírito e vida" (Jó 6,63) e Ele "tem palavras de vida eterna" (Jó 6,68). Como poderia algum Cristão ousar acrescentar ou remover porções das Escrituras diante da advertência de Apocalipse 22,18-19: "Se alguém acrescentar algo a elas, Deus lhe dará as pragas descritas nesse livro. E se alguém retirar palavras de seu livro de profecias, Deus o deixará fora da participação da árvore da vida e da cidade celeste..."?.

As alterações nos textos sagrados

Para muitas pessoas, admitir que a Bíblia seja um livro 100% humano é o mesmo que tirar delas uma prova tangível de que Deus existe. O assunto já levou a muitas discussões acadêmicas e religiosas e, até os dias de hoje, não se chegou a uma conclusão sobre se o fato de chamarmos a atenção para essas alterações teria algum papel significativo na crença de milhares de pessoas.
O historiador norte-americano Barth Ehrman, do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, acusou muito dessa manipulação, na obra O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Grande parte dessas acusações podem ser conferidas em artigo da revista Galileu, edição de outubro de 2006. O artigo, em suma, mostra como os copistas do Novo Testamento "eram voluntários que adaptavam o texto às suas crenças". Alguns dos trechos do citado livro incluem assuntos como a polêmica participação da mulher:

Há algumas comunidades cristãs que enfatizam a importância da mulher e lhes permitem desempenhar funções de destaque na Igreja e há outras que acreditam que as mulheres devem manter-se silenciosas e subservientes aos homens da comunidade. Obviamente, os copistas reproduziram os textos que, mais tarde, vieram a constituir as Escrituras estavam envolvidos nesses debates. E em algumas ocasiões os debates causaram impacto sobre os textos que eram copiados, dado que algumas passagens foram mudadas para refletir a posição dos copistas que as reproduziam.

O trecho abaixo é um dos mais polêmicos. Fala justamente sobre Jesus e sua adoração por Deus-Pai:

Uma das ironias do cristianismo primitivo é que o próprio Jesus era um judeu que adorava o Deus judeu, mantinha costumes judeus, interpretava a lei judaica e recrutava discípulos judeus que o aceitavam como Messias judeu. Mesmo assim, poucas décadas depois da morte de Jesus, os seus seguidores formaram uma religião que se opôs ao judaísmo.

Entre as várias acusações feitas estão pontos intrigantes, como o fato de os copistas distorcerem o Novo Testamento para justificar dogmas da Igreja Católica; que "só Deus sabe o quanto o verbo foi modificado na Bíblia ao longo dos séculos"; a inserção de textos em diversas passagens bíblicas, como em I João 5:7, Macabeus 16:9-20 e 1:41.

Em busca da verdade

Outro autor que afirma, com todas as letras, que houve alterações na Bíblia é o escritor francês Robert Charroux. Em sua obra, O livro dos mundos esquecidos, já publicada no Brasil, ele dedicou um capítulo inteiro aos chamados "Segredos do Vaticano". Lá podemos ler algumas informações interessantes, que resumirei a seguir.
Charroux afirma que não há nenhum relato histórico que confirme a existência de Jesus. Essas provas estariam em atas governamentais emitidas por Pôncio Pilatos e enviadas ao imperador romano Tibério. Lá seria possível ler sobre o mais famoso condenado de todos os tempos, sua vida, morte, crimes a ele imputados, sua crucificação e ressurreição.
O problema é que ninguém sabe dizer onde estariam esses documentos. Charroux afirma que, se um dia existiram, seriam forjados pelos próprios cristão para legitimar sua religião. Ele também destaca que havia vários falsos relatórios escritos por Pilatos, mas que a Igreja não teria reconhecido a autenticidade de nenhum desses documentos.
A aparência física de Jesus é outro ponto que o autor levanta. Além de ressaltar que os evangelhos canônicos se contradizem uns aos outros, ressalta que os primeiros cristãos sabiam dessas discrepâncias e que esse teria sido o principal motivo pelo qual a leitura dos evangelhos permaneceu por muito tempo reservada apenas ao clero. Uma fonte interessante que Charroux cita é o depoimento do doutor Harvey Spencer Lewis no livro deste último, A vida mística de Jesus:

Nós sabemos que os padres da Igreja primitiva tiveram acesso a documentos secretos porque, durante os Concílios da primitiva igreja cristã e durante as discussões que aconteceram entre as mais altas autoridades da Igreja primitiva, foram feitas alusões a certos lotes de manuscritos e de documentos oficiais que se referiam á crucificação e a outros acontecimentos da vida de Jesus, que agora estão escondidos ou que foram destruídos.

Seriam esses documentos cópias de apócrifos, ou ainda cópias como as encontradas em Qumram? Nenhuma fonte consultada para a redação deste livro parece saber responder a essa pergunta.
Outra figura bíblica cuja existência parece ser não comprovada historicamente é o apóstolo João, o suposto autor do quarto evangelho canônico. Sabe-se que ele se tornou bispo de Éfeso, mas muitos estudiosos admitem que o texto a ele atribuído possui características que o localizariam posteriormente e que teriam a participação de vários outros autores teólogos. Charroux cita também algumas passagens de escritos de São Jerônimo, um dos maiores doutores da Igreja dos primeiros séculos. Ele teria afirmado sobre os canônicos e apócrifos: "Somente quatro evangelhos podem ser admitidos. Todas as bobagens dos apócrifos só servem para serem contadas a hereges mortos e jamais a crentes vivos".
Os opositores de São Jerônimo, por sua vez, argumentam que são justamente os canônicos que trazem, em sua maioria, as contradições e os fatos opostos entre si. E que foi justamente para conseguir imprimir essa coesão entre os textos que a Igreja os teria modificado.
Um exemplo disso seria Taciano, um discípulo de São Justino, que teria tentado escrever um "Evangelho segundo os quatro", que mesclaria os dados de Mateus, Marcos, Lucas e João num único texto. Um exemplo de contradição pode ser vista na própria genealogia de Jesus, descrita pelos canônicos. Elas são diferentes entre si, o que levou Santo Agostinho a se pronunciar sobre o assunto, afirmando que "não era permitido dizer, e nem mesmo pensar, que qualquer um dos evangelistas mentiu". Porém, é o mesmo santo que afirmou que nesses casos contraditórios "precisa-se acreditar que eles são conciliantes, mesmos em saber como".
Charroux também aponta as contradições que podem ser encontradas no Evangelho de João. Como exemplo o autor afirma que, segundo João, o verdadeiro dia da crucificação não foi uma sexta-feira, mas um sábado, em plena vigília da Páscoa judia. Outra contradição estaria nas testemunhas da ressurreição: as duas Marias, a mãe de Jesus, e Maria Madalena, estariam presentes na ocasião segundo Mateus, mas Lucas e João afirmam que apenas Madalena estava lá.
Policarpo, bispo de Esmirna ordenado por João, o Evangelista, no ano 80 d.C., seria o mais confiável dos
santos. Ele é autor de uma epístola sobre os escritos de Inácio Teóforo, o primeiro santo Inácio conhecido. São Policarpo cita e fala muito bem dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, mas misteriosamente se cala quanto ao texto de João. Para piorar a situação, a primeira menção histórica desse texto aconteceu em um texto de Teófilo de Antióquia, datado do ano 180. Todos esses detalhes são material farto para especialistas em teorias de conspiração como Lynn Picknett, Clive Prince e o fiel discípulo deles, Dan Brown.

As revisões dos evangelhos

Charroux, ao mesmo tempo que expõe fatos, dá um nó na cabeça de quem lê seus livros. Um exemplo disso é uma citação a um obscuro escritor, de nome Kronos, autor de um livro chamado Ensaio de meditações imateriais. Ali há um relato que diz que os papas Gregório VII e Inocêncio III ordenaram editar um dos evangelhos para posterior uso dos sacerdotes.
Também é lembrado que a tradução de tais textos era proibida "pelo receio que pudesse surgir um erro simples ou um contrassenso", de acordo com o pesquisador, Fedele Pasquero em O mundo da Bíblia. Esse escritor, que se esconde sob o nome Kronos (que ninguém consultado para este trabalho soube dizer quem é), também afirma em seu trabalho que as alterações mais radicais feitas nas Escrituras datam justamente do Concilio de Niceia, e que teriam sido motivadas por acordos entre o papa Dâmaso I (305-384) e o então imperador Constantino.
Foi nessa época que os evangelhos mais antigos, em especial um apócrifo, o Evangelho dos Hebreus, que ficaria conhecido como uma versão primitiva do evangelho de Mateus, são declarados como não inspirados por Deus, e adições, subtrações e modificações são feitas nos quatro canônicos. Tudo a cargo de São Jerônimo.
Outras revisões terminariam por ser levadas a cabo pelo papa Anastácio II (496-498), no fim do século V, segundo relata São Vitor, bispo de Tumona, na África. Segundo o santo, o papa teria mandado "examinar, criticar, expurgar e revisar" as Escrituras por completo. Depois disso, o imperador Carlos Magno (cerca de 747-814), teria feito uma nova revisão, seguido depois pelo papa Sisto V (1585-1590).
Estamos já nos referindo à época em que a prensa de Gutenberg ameaçou de excomunhão qualquer um que ousasse revisar os textos sagrados, mas o próprio Gutenberg teria modificado em seu trabalho mais de 200 passagens. Antes que a prensa entrasse em ação, foi feita mais uma revisão, dessa vez pelo papa Clemente VIII (1592-1605). Charroux afirma que a razão de tantas modificações é que a maioria dos dogmas estava em contradição com os livros sagrados, portanto era necessário reorganizar as escrituras para que elas concordassem com os atos da Igreja.

Correções e mudanças

Alfredo Lissoni diz em seus escritos que os teólogos modernos admitem que, com a ajuda de várias tecnologias, foi possível admitir a existência de cerca de 80 mil diferentes traduções da Bíblia com manipulações e modificações em pontos relevantes. E cita o Codex Vaticanus, considerado por especialistas como o melhor manuscrito grego do Novo Testamento e um dos mais antigos manuscritos da Bíblia, inclusive ligeiramente mais antigo que o Codex Sinaiticus, descoberto em 1859 e considerado um dos mais importantes manuscritos gregos para o criticismo textual, além da versão Septuaginta.
O Codex Vaticanus foi descoberto em 1844 no mosteiro de Santa Caterina, no Sinai. Hoje os especialistas apontam que, com a tecnologia moderna, foi possível identificar pelo menos 16 mil correções pertencentes a, no mínimo, sete revisores diferentes. Nessa confusão, não é possível saber se há um texto que tenha sobrevivido aos séculos sem nenhum tipo de mudança, proposital ou não. E a presença dos apócrifos, nos dias modernos, pode levar também a uma confusão total.
Esse assunto é, de fato, fascinante, pois imaginar que existem detalhes desconhecidos da vida de Jesus atrai a atenção dás pessoas. Mas o que dizer de manuscritos parcialmente destruídos, como os do Mar Morto, e das informações que conseguiram colher dos fragmentos conservados?
Corre entre os acadêmicos a hipótese de que Jesus teria escapado da crucificação e fugido para a índia. De fato, há pessoas, como Elena Bordogni, uma italiana que teria visitado a suposta tumba de Jesus entre os indianos, e que foi entrevistada por Lissoni. Além dela, há o depoi-mento do estudioso italiano Francesco Piccolo, que investigou o assunto e publicou um artigo em uma revista italiana na década de 1980. Em determinado trecho, faz a seguinte declaração:

Nos restos de um livro sânscrito do ano 115, conservado no Instituto de Orientalismo da Universidade de Mumbai, existem claros sinais da presença de Cristo na região da Caxemira. Tratar-se-ia de uma segunda viagem, após a crucificação. Na página 282 é descrito o encontro entre o rei Shalewahin e um homem de pele clara que vestia hábitos brancos. O soberano de Caxemira lhe perguntou quem era. O desconhecido disse ser Jus Afa e que vinha de um país distante para purificar a região. O homem reiterou que o chamassem de Isa Maish — Jesus, o Messias.

Se esse relato traz ou não uma verdade, talvez nunca saibamos. O que levaria a Igreja a esconder um destino diferente para Jesus é uma pergunta que poucos podem responder. Mas a grande quantidade de apócrifos faz as pessoas pensarem o quanto os textos que estão na Bíblia foram realmente alterados.
Se isso atinge ou não a fé de cada um, é uma questão pessoal, que não cabe a ninguém responder. Apenas é difícil ignorar as evidências históricas em nome de uma fé cega. 

(Sérgio Pereira Couto - "Os arquivos secretos do Vaticano") 

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publicado às 21:48


FILHOS

por Thynus, em 28.07.13

 

 

Ter filhos é um desejo comum, talvez instintivo: preservação da espécie. Quase todos quando se casam já planejam quantos filhos desejam ter. Hoje já há um número maior de casais dispostos a excluir a paternidade dos objetivos de uma união amorosa.
Ter filhos é sempre um pouco mais difícil do que nos parece antes de tê-los. Tal como idealizamos o casamento e as relações de amor romântico, idealizamos a paternidade.
Depois idealizamos os próprios filhos. Infelizmente não é incomum depositarmos neles nosso narcisismo, nossas vaidades e desejos não satisfeitos, nossos objetivos não alcançados. Eles, sendo a nossa continuidade parecem os herdeiros naturais e perfeitos de nossas ambições. Passamos a viver por eles e através deles esperamos novamente aquela satisfação que esperamos do ser amado escolhido para partilhar a vida conosco. Desta vez não haverá erro: nossos filhos serão perfeitos, talvez seja nossa última oportunidade de realizar esse ideal de perfeição.
Como das outras vezes em que esperamos de algo ou de alguém a felicidade suprema, acabamos descobrindo que ter filhos pode ter suas delícias e compensações, mas às vezes é também muito difícil. Eles não vão nos amar incondicionalmente e é muito provável que pensem o mesmo: que é difícil serem nossos filhos em alguns momentos.
Na infância deles seremos idealizados e copiados, nossa presença e atenção intensamente desejados. Mas quando a adolescência se aproxima, eles já não pretendem mais ser as nossas gracinhas nem seguir obedientemente nossos ditames e provavelmente tampouco concordarão em satisfazer nossas vaidades. Desejarão ter seus próprios juízos de valor e fazer suas escolhas. E é bom que seja assim, afinal são individualidades a serem respeitadas. Resolver o nosso narcisismo e frustrações é tarefa nossa e não deles. Se não entendemos tais coisas é porque estamos agindo novamente daquela forma primitiva em que não reconhecemos o outro separado de nós, não o vemos em sua totalidade.
Na verdade estaremos sendo pais crianças, com expectativas infantis. E não conhecendo esse modo amadurecido de relacionamento como podemos ensinar a maturidade nas relações a nossos filhos? Provavelmente os estimularemos a terem relações dependentes se esta é a nossa linguagem emocional. Nem poderemos ensiná-los a nos respeitar e nossos desejos, limites e necessidades serão para eles tão desconhecidos quanto os deles para nós.
Um relacionamento de tal ordem tenderá a evoluir com muitos conflitos e ressentimentos. Talvez venhamos a nos sentir vítimas de suas incompreensões e desconsiderações e vice versa. Em todo caso é sempre interessante tentarmos basear a relação no exercício de respeitar, no que há de amoroso nela e nos limites que são necessários. O limite é o respeito ao outro e a si próprio, mas primeiro precisamos aprender a agir assim, senão soará totalmente falso. Não teremos a credibilidade necessária se agirmos de forma contraditória, mesmo crianças muito pequenas percebem isso com facilidade.
A paternidade não exige, nem poderia, que sejamos perfeitos mas ao menos sinceros, com certa humildade para questionar o que estamos fazendo com nossos filhos, com maturidade para entender que não são prolongamentos de nós mesmos e com auto respeito suficiente para exigir deles uma conduta respeitosa para conosco. Respeito não é obediência cega, é consideração. Filhos podem considerar o que dizemos por duas razões mais obvias: porque nos temem e de nós dependem, ou porque acreditam em nós e em nosso amor por eles.
Para que uma relação de confiança se estabeleça, além da coerência é fundamental a sinceridade, podemos exprimir nossos sentimentos com clareza mostrando o efeito que suas ações produzem em nós. Este é um método eficaz de educação emocional que os leva a nos perceber e identificar o que sentimos. Não quer dizer que devamos nos fazer de vítimas ou usar o sentimento de culpa para controlá-los, longe disso. Mas posso dizer que não gostei dessa atitude determinada.
Uma das piores coisas que se pode fazer por um filho é bancar a mãe ou pai abnegados que nem existem e suportam qualquer coisa que faça. Se não aprender em casa terá poucas chances de reconhecer o outro e respeitá-lo quando sair daí. Filhos criados assim tenderão a construir relacionamentos baseados naquela linguagem mais primitiva e menos frutífera de que falávamos antes.
A família, sendo o primeiro meio social que freqüentamos, será onde aprenderemos as primeiras lições de relacionamento. Não é um território livre de conflitos e desavenças. Muitas vezes os interesses de um serão contrariados pelo de outro. Um funcionará como competidor e adversário em relação ao outro com maior freqüência do que gostamos de admitir. Crianças, por se regerem pelo princípio do prazer, tendem a agir como exigências consideráveis de atenção. Quando há irmãos, há mais gente disputando o amor e a atenção. Ensiná-los que suas demandas de gratificação só poderão ser parcialmente atendidas é tarefa dos pais. Se estes não precisam continuar agindo como agentes constantes e severos da frustração, tampouco parece prudente passar aos filhos a idéia de que serão suas eternas fontes de inesgotável satisfação. Um pouco de frustração é necessária ao correto desenvolvimento da personalidade já que não há como encontrar um mundo real onde ela não exista. Se fatalmente ela aparecerá em nossas vidas é preciso que aprendamos a lidar com ela desde cedo.
Novamente encontramos o princípio do equilíbrio entre experiências de frustração e gratificação para o saudável funcionamento mental. Nossos desejos não são realizáveis se daí resultará prejuízo para outro. E é em casa que devemos aprender a respeitar o espaço e o direito alheios, para isso temos que aprender a conter nossas demandas. Não há problemas nisso, desde que a criança seja também respeitada e alguns dos seus desejos, aqueles que são possíveis, sejam atendidos.
O perigo de agirmos de forma imatura na educação dos nossos filhos colocando neles toda a satisfação que não tivemos e disto desfrutando, é criarmos uma pessoa cuja análise da realidade seja insatisfatória e a capacidade de independência fique comprometida. Não queremos criar alguém cujo narcisismo o faça julgar-se capaz de realizar qualquer ato proveniente de sua vontade sem se preocupar com os eventuais danos que possa causar a si e aos outros.
Nosso desejo de vê-los bem sucedidos e vitoriosos, que pode funcionar como um prêmio para nossas frustrações, às vezes acaba por levar-nos a ensiná-los a se comportar como se estivéssemos de volta à selva. A agressão fica livre e a ética vai para o espaço.
Num tal estado de coisas há muita ansiedade envolvida. Se o excesso de limites e o impedimento compulsório da satisfação geram ansiedade, a falta de limites e regras também gera.
É o adulto que precisa ter o comando da situação, a ele cabe ter aprendido a lidar com a própria angústia e saber conduzir-se pela vida, porque os filhos vem atrás observando tudo. Se não há regras claras, se o comportamento dos adultos é incoerente e a deixa confusa, a criança será tomada pela ansiedade. Quando adulta não saberá ao certo quais caminhos tomar e como comportar-se. Quando tiver de relacionar-se com mundo sozinha, não terá entendido bem como funciona e quando as exigências da realidade se apresentarem a ela, não terá meios adequados de superá-las e enfrentá-las.
Tanto o Ego que jamais se enfrentou com a frustração quanto aquele que foi demasiadamente exposto a ela, tornam-se frágeis.
O perigo que percebemos à nossa volta é sempre medido em relação a nossa própria força e capacidade de enfrentá-lo. O Ego avalia o perigo e o compara a sua força, se se sente em condições de enfrentá-lo o faz, se vê que não há como fazê-lo recua. E, se não se sente em condições de enfrentá-lo nem pode fugir, entra em desespero.
Quanto mais possamos oferecer aos nossos filhos uma experiência balanceada de auto-estima e reconhecimento dos próprios limites, mais forte estará se formando seu Ego e mais capaz será de interagir com o mundo.
A expectativa realista e equilibrada dos pais em relação aos filhos e renúncia aos ideais impossíveis projetados neles é desejável. Quando se mede com o perigo, precisa-se fazer uma avaliação subjetiva disto. Se nos vemos premidos a responder a super exigências, a nós impostas inicialmente pelos nossos pais, fica complicado. Portanto, dizer ao seu filho que ele deve ser um campeão, pode até ser um estímulo naquela final do campeonato, mas repetir isso obcecadamente, é um desastre. Se você acha tão importante ser um campeão é melhor que tente você mesmo ao invés de transferir ao seu filho a responsabilidade de ser o que você não conseguiu. Responsabilize-se pelos seus desejos e não os ponha das costas dos outros. Ou seu filho tenderá a entender que, satisfazer suas expectativas é a condição para ser amado e ter valor; se não conseguir, é provável que não consiga com tal carga, vai sentir-se um fracasso e passará a agir como tal. O conflito que se instalará será contra ele mesmo, que poderá julgar-se com severidade e criar ansiedades e inibições.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 13:02


O vazio existencial

por Thynus, em 27.07.13

 

 

O vazio existencial é um fenômeno muito difundido no século XX. Isto é compreensível; pode ser atribuído a uma dupla perda sofrida pelo ser humano desde que se tornou um ser verdadeiramente humano. No início da história, o homem foi perdendo alguns dos instintos animais básicos que regulam o comportamento do animal e asseguram sua existência. Tal segurança, assim como o paraíso, está cerrada ao ser humano para todo o sempre. Ele precisa fazer opções. Acresce-se ainda que o ser humano sofreu mais outra perda em seu desenvolvimento mais recente. As tradições, que serviam de apoio para seu comportamento, atualmente vêm diminuindo com grande rapidez. Nenhum instinto lhe diz o que deve fazer e não há tradição que lhe diga o que ele deveria fazer; às vezes ele não sabe sequer o que deseja fazer. Em vez disso, ele deseja fazer o que os outros fazem (conformismo), ou ele faz o que outras pessoas querem que ele faça (totalitarismo).
Um levantamento estatístico recente revelou que entre os meus alunos europeus, 25% mostravam um grau mais ou menos acentuado de vazio existencial. Entre meus alunos norte-americanos a porcentagem não era de 25, mas de 60%.
O vácuo existencial se manifesta principalmente num estado de tédio. Agora podemos entender por que Schopenhauer disse que, aparentemente, a humanidade estava fadada a oscilar eternamente entre os dois extremos de angústia e tédio. É concreto que atualmente o tédio está causando e certamente trazendo aos psiquiatras mais problemas de que o faz a angústia. E estes problemas estão se tornando cada vez mais agudos, uma vez que o crescente processo de automação provavelmente conduzirá a um aumento enorme nas horas de lazer do trabalhador médio. Lastimável é que muitos deles não saberão o que fazer com seu tempo livre.
Pensemos, por exemplo, na "neurose dominical", aquela espécie de depressão que acomete pessoas que se dão conta da falta de conteúdo de suas vidas quando passa o corre-corre da semana atarefada e o vazio dentro delas se torna manifesto. Não são poucos os casos de suicídio que podem ser atribuídos a este vazio existencial. Fenômenos tão difundidos como depressão, agressão e vício não podem ser entendidos se não reconhecermos o vazio existencial subjacente a eles. O mesmo é válido também para crises de aposentados e idosos.
Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual. Podemos observar nestes casos que a libido sexual assume proporções descabidas no vácuo existencial.
Algo análogo ocorre em casos de neurose. Existem certos tipos de mecanismos retroalimentadores e de configurações tipo círculo vicioso que ainda discutirei abaixo. Pode-se observar em casos e mais casos, entretanto, que esta sintomatologia invadiu um vácuo existencial no qual ela continua em plena florescência. No caso desses pacientes não estamos lidando com neuroses noogênicas. Entretanto, jamais conseguiremos que o paciente supere a sua condição se não suplementarmos o tratamento psicoterápico com logoterapia. Isto porque, ao se preencher o vácuo existencial, o paciente estará prevenido contra relapsos. Por isso a logoterapia é indicada não só em casos noogênicos, como foi ressaltado aqui, mas também em casos psicogênicos, e às vezes mesmo em "(pseudo) neuroses somatogênicas". Sob esta luz se justifica uma afirmação feita certa vez por Magda B. Arnold: "Toda terapia precisa, de algum modo, por mais restrito que seja, ser também logoterapia."

(Viktor E. Frankl - Em Busca de Sentido)

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publicado às 17:12


O sentido do amor

por Thynus, em 27.07.13

 

 

O termo "logos" é uma palavra grega, e significa "sentido"! A logoterapia, ou, como tem sido chamada por alguns autores, a "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia", concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por este sentido. Para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano. Por esta razão costumo falar de uma vontade de sentido, a contrastar com o princípio do prazer (ou, como também poderíamos chamá-lo, a vontade de prazer) no qual repousa a psicanálise freudiana, e contrastando ainda com a vontade de poder, enfatizada pela psicologia adleriana através do uso do termo "busca de superioridade".

Amor é a única maneira de captar outro ser humano no íntimo da sua personalidade. Ninguém consegue ter consciência plena da essência última de outro ser humano sem amá-lo. Por seu amor a pessoa se torna capaz de ver os traços característicos e as feições essenciais do seu amado; mais ainda, ela vê o que está potencialmente contido nele, aquilo que ainda não está, mas deveria ser realizado. Além disso, através do seu amar a pessoa que ama capacita a pessoa amada a realizar estas potencialidades. Conscientizando-a do que ela pode ser e do que deveria vir a ser, aquele que ama faz com que estas potencialidades venham a se realizar.
Na logoterapia o amor não é interpretado como mero fenômeno de impulsos e instintos no sentido de uma assim chamada sublimação. O amor é um fenômeno tão primário como o sexo. Normalmente sexo é uma modalidade de expressão do amor. O sexo se justifica e é até santificado no momento em que, porém apenas enquanto for veículo do amor. Desta forma o amor não é entendido como mero efeito colateral do sexo, e sim é entendido como um meio de expressar a experiência daquela união chamada de amor.


(Viktor E. Frankl - Em Busca de Sentido)

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publicado às 13:53

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