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Já não há valores

por Thynus, em 02.06.13

 

 

Já não há valores! Aí está uma afirmação que se ouve constantemente, vinda de ex-presidentes da República, bispos, professores, padres, pais e mães, educadores. De quase toda a gente.
A afirmação, porém, não é verdadeira. Evidentemente, continua a haver valores. Não é possível viver sem valores. Não há sociedade sem valores. O que se passa é que mudou a escala de valores. A hierarquia dos valores, agora, é outra.
Abraham Maslow estabeleceu uma famosa pirâmide: a pirâmide das necessidades humanas. Segundo o psicólogo norte-americano, essas necessidades têm uma hierarquia ascendente, que vai, portanto, da base até aos níveis superiores. As necessidades básicas confundem-se com as necessidades fisiológicas, condição de sobrevivência: respirar, comer, beber, dormir, reproduzir-se. No segundo patamar, encontra-se a necessidade de segurança, que tem a ver com a integridade do corpo, da saúde, a salvaguarda dos bens e da propriedade. As necessidades de pertença estão no terceiro plano e referem-se à necessidade de identidade e de afecto; daí, a importância da amizade, do amor, da vida familiar e grupal. O quarto nível é ocupado pelas necessidades de estima, tanto no que se refere a si mesmo - auto-estima - como confiança nos outros: estimar-se a si e aos outros e ser estimado e respeitado pelos outros. No quinto nível, temos a realização pessoal, com tudo o que isso implica de criatividade, ética, vida interior, sentido e transcendência.
Evidentemente, esta escala é discutida e discutível, pois pode não ser tão universal como pode parecer, não tendo na devida conta a sua determinação histórica e cultural. No entanto, como escreveu Frédéric Lenoir, parece possível "considerar estes cinco tipos de necessidades como sendo todos, e com a mesma dignidade, condições do bem-estar, da felicidade, da realização de si".
A esta escala de necessidades corresponde uma escala de valores. É claro que as necessidades biológicas são as mais urgentes - sem a sua satisfação, não se sobrevive -, mas isso não significa que sejam as mais humanas, já que são partilhadas com os outros animais.
Valor vem de valere - vale, valete era a saudação romana: passa bem!, passai bem! -, que significa ser forte, ter saúde, passar bem, estar de saúde. E está em conexão com perguntas como: quanto custa isto?, quanto vale?, qual o seu preço? No contexto desta conexão, percebe-se que rapidamente venha à ideia a ligação ao dinheiro.
E não é o dinheiro um valor? A questão é saber se é o valor primeiro - é o mais urgente, pois dele depende a salvaguarda da vida -, mas é o mais humano, aquele que determina verdadeiramente a nossa realização humana?
Jesus disse que havia incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro: "não podeis servir a dois senhores, a Deus e ao Dinheiro; ou a um ou a outro." É evidente que Jesus não condena o dinheiro enquanto tal, isto é, enquanto meio. Ele próprio teve de servir-se dele, ganhando a sua vida através do trabalho. O que se passa é que a palavra utilizada no Evangelho para dizer este dinheiro é Mamôn, isto é, o Dinheiro divinizado e fim em si mesmo. De facto, não é possível servir o Deus da Vida, que quer a vida de todos, e o Dinheiro enquanto ídolo. Quem faz do dinheiro e da riqueza o objectivo essencial da sua vida de certeza que fará muitas vítimas pelo caminho e impedirá muitos de viver.
Continua a haver valores. Mas a sua hierarquia transtornou-se e o que é meio tornou-se fim. E aí está o culto do bezerro de ouro, o egoísmo feroz, a avareza, a ganância sem limites. Mas são o dinheiro e a riqueza a finalidade última da vida? Os gregos apresentaram sabiamente a famosa lenda do rei Midas: tudo o que tocasse transformar-se-ia em ouro. Ora, quem ele tocou primeiro foi a filha. Depois, quando levava algo à boca para comer, também se transformava em ouro. E viu a sua desgraça trágica.
Precisamos é de repor uma escala decente de valores. Comecemos pela justiça, em ligação com a verdade e a igualdade; junte-se-lhe a liberdade, coroada pelo amor. Afinal, há gente riquíssima que é infeliz e quem viva feliz na sobriedade.

(Anselmo Borges)

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publicado às 16:35


O mundo dos afectos, a fé e a cura

por Thynus, em 02.06.13

 

 

A definição do Homem como animal racional não dá conta adequada do que somos: de facto, não começamos por pensar, mas por sentir. Somos afectados pelo meio ambiente, desde o ventre materno. Daí, não ser indiferente uma gravidez querida e serena e uma gravidez vivida no meio da inquietação e do sobressalto.
No instante da concepção, está-se no que alguns chamam a "inocência do sentimento". Depois, começamos a ser afectados, positiva ou negativamente, e assim se vai formando uma atitude positiva ou negativa face ao mundo e aos outros, com consequências na auto-estima e autoconfiança ou não, com confiança no mundo e nos outros ou, pelo contrário, com desconfiança e inquietação.
Na altura, ainda se não pensa, mas sente-se. Primeiro, são os afectos. Suponhamos que, depois do nascimento, não se cuida convenientemente do bebé, ninguém lhe sorri, ninguém o acarinha. O que fica? O sentimento de frustração. Afinal, o que vale o mundo? Para que serve? Não começa aqui o sentimento de revolta, violência e destruição?
Depois, com a aquisição lenta do uso da razão, há-de estudar-se a vida afectiva, para aproveitar a sua força - querer ser e viver - na condução da existência, sabendo conviver com ela nas suas dimensões positivas e negativas. Porque a razão, sem os afectos, pode ficar paralisada, mas estes, sem aquela, podem tornar-se cegos. E assim se constata a importância do que hoje se chama a razão que sente, razão sensível, razão emocional.
É neste fundo anímico-vital afectivo que mergulha a própria fé religiosa. Esquece-se frequentemente que a fé não começa por ser religiosa, mas uma atitude fundamental da existência enquanto confiança de base. Hoje, quando o que faz falta é confiança e crédito, percebe-se melhor o tema. Mas, a um dado momento, há-de colocar-se também a questão da fé religiosa, na medida em que se põe a pergunta pelo fundamento último da confiança.
A realidade da fé como atitude fundamental de toda a existência e como possível abertura à fé religiosa, garante do sentido último e pleno, é sublinhada cada vez mais, também em estudos científicos referentes à doença e à cura. Aliás, não há aqui nenhuma descoberta, pois sempre se soube que a atitude do Homem face à vida, à doença e à própria morte depende do grau da sua confiança.
Também da confiança em Deus? "Uma grande maioria do corpo científico considera que a religião tem um impacto positivo na saúde", explicou na Time Magazine Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia.
Agora, Le Monde des Religions (n.° 54, 2012) foi investigar e dá conta de um artigo da Universidade de Oxford em 2001, com a síntese de 1200 estudos sobre a questão, concluindo que "crer , rezar, praticar uma religião levam a uma melhor resiliência às doenças mentais como a esquizofrenia e têm uma acção positiva sobre a pressão arterial e as funções imunitárias". Isto não significa que a oração seja um medicamento, mas que acreditar permite suportar melhor a doença, favorecendo o tratamento. A imagem de Deus, bom ou castigador, é fundamental.
Gail Ironson, da Universidade de Miami, num estudo sobre a ligação entre VIH e crença religiosa, conclui que, "mesmo tendo em conta os medicamentos, a espiritualidade traz um melhor controlo da doença". Nel Krause, da Universidade do Michigan, mostrou que as pessoas que acreditam que "a sua vida tem um sentido" vivem mais tempo.
O acto médico não pode ser de modo nenhum o de um técnico perante uma máquina estragada que é preciso reparar. É necessário aproximar-se do paciente dentro de uma compreensão global do Homem. Georges Engel, num artigo célebre - "The Need for a New Medical Model" -, falou de uma aproximação "bio-psico-social", que, segundo o teólogo Guy Jobin, teve enorme impacto. "Já não se trata de uma divisão do trabalho entre cura do corpo e cura das almas. Em vários sectores do cuidado - em geriatria, nos cuidados de longa duração, nos cuidados paliativos -, o acompanhante espiritual faz agora parte integrante da equipa de cuidados. É considerado um profissional como os outros membros da equipa."

(Anselmo Borges)

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publicado às 16:34

 

   
Pelo fato de o atual Papa ter escolhido o nome de Francisco, muitos voltaram  a se interessar por esta figura singular, talvez uma das mais luminosas que o Cristianismo e o próprio  Ocidente já produziram: Francisco de Assis. Há quem o chame de o “ultimo cristão” ou o “primeiro depois do Único” quer dizer, de Jesus Cristo.

Seguramente podemos dizer: quando o Cardeal Bergoglio escolheu este nome quis sinalizar um projeto de Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e abadias grandiosas. São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade, vivendo entre os  hansenianos e comendo com eles da mesma escudela. Nunca criticou o Papa ou Roma. Simplesmente não lhes seguiu o  exemplo. Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: “quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco”: louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: “desejo pouco e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade era nada. Despojou-se de qualquer título. Considerava-se “idiota, mesquinho, miserável e vil”.

Este caminho espiritual, vivido a duras penas, pois na medida que seguidores acorriam, mais se opunham a ele, querendo conventos, regras e estudos. Resistiu o mais que pode e no fim teve que se render à mediocridade e à lógica das instituições que pressupõem regras, ordem e poder. Mas não renunciou ao seu sonho. Frustrado, voltou a servir aos hanseianos, deixando que seu movimento, contra sua vontade, fosse transformado na Ordem dos Frades Menores.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram  uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma fraternidade tão universal que inclua a todos, como ele o fez: o sultão do Egito que encontrou na cruzada, o bando de salteadores,  o lobo feroz de Gúbio e até  a morte?

Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização mediante uma prática vivida com simplicidade e paixão. Ao não possuir nada, entreteve uma relação direta de convivência e não de posse com cada ser da criação. Ao ser radicalmente humilde, colocou-se no mesmo chão (humus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Sentiu-se irmão da água, do fogo,  da cotovia, da nuvem, do sol e de cada pessoa que encontrava. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, independente se eram Papas ou servos da gleba, para cima com o sol, a lua e as estrelas. Todos são irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai de bondade.

A pobreza e a humildade assim praticadas não tem nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tira a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixa um galhinho quebrado para que se recupere, alimenta no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, perdidas. Colocou-se no meio das criaturas com profunda humildade, sentindo-se irmão delas. Confraternizou-se com a “irmã e Mãe Terra”. Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens, rechaçando tudo o que poderia colocá-lo acima de outras pessoas e acima das coisas, possuindo-as, emergiu como irmão universal. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coracão puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado, cheio de confiança e ternura.

A fraternidade universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres. Essa fraternidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para fraternidade humana. Sem esse respeito e essa fraternidade dificilmente a Declaração dos Direitos Humanos terá eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião  e  outras.

Esta sua postura de fraternidade cósmica, assumida seriamente, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra” com respeito e cuidado. Essa fraternidade demanda inarredável paciência mas encerra também uma grande promessa: ela é realizável. Não estamos condenados a liberar o animal feroz que nos habita e que ganhou forma em Videla, Pinochet, no delegado Fleury e em outros convardes torturadores.

Oxalá o Papa Francisco de Roma em sua prática de pastor local e universal honre o nome de Francisco e mostre a atualidade dos valores vividos pelo  fratello e poverello  de Assis. 
(Leonardo Boff é autor de Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1999)

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publicado às 16:34


Dos sábios famosos

por Thynus, em 01.06.13

 


Servistes ao povo e à superstição do povo, sábios famosos — e não à verdade! E justamente por isso fostes venerados.
E também por isso foi tolerada vossa descrença, porque era uma graça e um rodeio para chegar ao povo. Desse modo o senhor deixa os escravos à vontade e até se deleita com sua petulância.
Mas aquele odiado pelo povo como um lobo pelos cães é o espírito livre, o inimigo dos grilhões, o não adorador, o que habita as florestas.
Caçá-lo de seu refúgio — isto sempre foi, para o povo, “senso de justiça”: contra ele sempre açula os cães de dentes mais afiados.
“Pois a verdade está aqui — não está aqui o povo? Ai daqueles que procuram!” — é o que se diz desde sempre.
Queríeis justificar vosso povo em sua veneração: a isso chamastes “vontade de verdade”, ó sábios famosos!
E vosso coração sempre falou a si mesmo: “Eu vim do povo; de lá também me veio a voz de Deus”.
Teimosos e prudentes como o asno, assim sempre fostes, como advogados do povo.
E mais de um poderoso, que queria andar bem com o povo, atrelou diante de seus cavalos — um pequeno asno, um sábio famoso.
E agora eu gostaria, ó sábios famosos, que afinal despísseis inteiramente a pele de leão!
A pele do animal de rapina, sarapintada, e a juba daquele que busca, explora, conquista!
Ah, para que eu chegue a acreditar em vossa “veracidade”, deveis primeiramente partir vossa vontade veneradora.
Veraz — assim chamo àquele que vai para desertos sem deuses e que partiu seu coração venerador.
Na areia amarela e queimado do sol, olha de soslaio, sedento, para as ilhas ricas em fontes, onde seres vivos descansam sob árvores escuras.
Mas sua sede não o convence a se tornar como esses confortáveis: pois onde há oásis há também imagens de ídolos.
Faminta, violenta, solitária, sem deus: assim quer a si mesma a vontade leonina.
Livre da felicidade do servo, redimida de deuses e adorações, destemida e temível, grande e solitária: assim é a vontade do veraz.
No deserto moraram desde sempre os verazes, os espíritos livres, como senhores do deserto; mas nas cidades moram os bem nutridos, famosos sábios — os animais de tiro.
Pois sempre puxam, como asnos — a carroça do povo!
Não que eu me irrite com eles por isso: mas para mim continuam servidores e arreados, ainda que resplendam com arreios de outro.
E muitas vezes foram bons serventes, dignos de louvor. Pois assim fala a virtude: “Se tens de servir, procura aquele a quem sejas mais útil!
O espírito e a virtude de teu senhor devem crescer pelo fato de o servires: assim, tu mesmo crescerás com seu espírito e sua virtude!”
E, em verdade, ó sábios famosos, ó serventes do povo! Vós mesmos crescestes com o espírito e a virtude do povo — e o povo, através de vós!
Em vossa honra o digo!
Mas permaneceis povo também em vossas virtudes, povo com olhos fracos — povo que não sabe o que é espírito!
Espírito é a vida que corta na própria vida: no próprio sofrimento aumenta o próprio saber — sabíeis isso?
E a felicidade do espírito é esta: ser ungido e consagrado vítima de sacrifício com lágrimas — sabíeis isso?
E a cegueira do cego e seu buscar e tatear deverão testemunhar o poder do sol para o qual ele olhou — sabíeis isso?
E com as montanhas o homem do conhecimento deve aprender a construir! É pouco que o espírito mova montanhas — sabíeis isso?
Conheceis apenas as centelhas do espírito: mas não vedes a bigorna que ele é, nem a crueldade do seu martelo!
Em verdade, não conheceis o orgulho do espírito! E menos ainda suportaríeis a modéstia do espírito, se ela um dia quisesse falar!
E jamais pudestes lançar vosso espírito num fosso de neve: não sois quentes o bastante para isso! Assim, não conheceis tampouco os êxtases de sua frieza.
Em tudo, porém, agis com excessiva familiaridade com o espírito; e muitas vezes fizestes da sabedoria um abrigo e hospital para poetas ruins.
Não sois águias; assim, tampouco experimentastes a felicidade que há no terror do espírito. E quem não é pássaro não deve permanecer sobre os abismos.
Vós me pareceis mornos: mas todo conhecimento profundo corre frio.
São gélidas as mais íntimas fontes do espírito: bálsamos para mãos quentes e para os que agem com ardor.
Aí estais, honrados, tesos e aprumados, ó sábios famosos! — não vos impele nenhum forte vento e vontade.
Não vistes jamais uma vela sobre o mar, redonda, inflada e tremendo à impetuosidade do vento?
Semelhante à vela, tremendo à impetuosidade do vento, vai minha sabedoria sobre o mar — minha selvagem sabedoria!
Mas vós, serventes do povo, vós, sábios famosos, — como poderíeis ir junto comigo?
 — Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 18:26


Do novo ídolo

por Thynus, em 01.06.13

 

Em algum lugar ainda há povos e rebanhos, mas não entre nós, irmãos: aqui há Estados.
Estado? O que é isso? Pois bem! Abri vossos ouvidos, pois agora vos falarei sobre a morte dos povos.
Estado é o nome do mais frio de todos os monstros frios. E de modo frio ele também mente; e esta mentira rasteja de sua boca: “Eu, o Estado, sou o povo”.
Isso é mentira! Criadores foram aqueles que criaram os povos e deixaram uma fé e um amor suspensos sobre eles: assim serviram à vida.
Destruidores são aqueles que preparam armadilhas para muitos e as chamam de Estado: deixam uma espada e cem desejos suspensos sobre eles.
Onde ainda existe povo, ele não entende o Estado e o odeia como mauolhado e pecado contra os costumes e os direitos.
Este sinal eu vos dou: cada povo fala a sua língua do bem e do mal: o vizinho não a entende. Ele inventou para si sua língua, nos costumes e nos direitos.
Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal; e o que quer que diga, mente — e o que quer que tenha, roubou.
Tudo nele é falso; morde com dentes roubados, esse mordedor. Até suas entranhas são falsas.
Confusão de línguas do bem e do mal: este sinal eu vos dou, como marca do Estado. Na verdade, este sinal indica vontade de morte! Na verdade, ele acena para os pregadores da morte!
Nascem pessoas demais: para os supérfluos foi inventado o Estado!
Vede como ele atrai para si os demasiados! Como ele os devora, mastiga e rumina!
“Nada existe sobre a terra que seja maior do que eu: sou o dedo ordenador de Deus” — assim ruge o colosso. E não apenas aqueles de vista curta e orelhas compridas se ajoelham!
Ah, também para vós, ó almas grandes, ele sussurra suas sombrias mentiras!
Ah, ele percebe os corações ricos, que gostam de esbanjar a si mesmos!
Sim, também a vós ele percebe, ó vencedores do velho Deus! Ficastes cansados na luta, e agora vosso cansaço serve ao novo ídolo!
Heróis e homens honrados ele quer ao seu redor, o novo ídolo! Gosta de aquecer-se no sol das boas consciências — o frio monstro!
Tudo dará a vós, desde que o adoreis, o novo ídolo: assim compra ele o brilho de vossa virtude e o olhar de vossos olhos altivos.
Ele quer usar-vos como isca para os demasiados! Sim, uma artimanha infernal foi aí inventada, um cavalo da morte, a retinir nos adornos das divinas honrarias!
Sim, uma morte para muitos foi aí inventada, que se gaba de ser vida: na verdade, um grande serviço para todos os pregadores da morte.
Estado chamo eu ao lugar onde todos bebem veneno, bons e ruins: Estado, onde todos perdem a si mesmos, bons e ruins: Estado, onde o lento suicídio de todos se chama — “vida”.
Vede esses supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios: “cultura” chamam a seu roubo — e tudo, para eles, torna-se doença e desventura!
Vede esses supérfluos! Sempre estão doentes, vomitam seu fel e o chamam “jornal”. Devoram uns aos outros e não conseguem digerir-se.
Vede esses supérfluos! Adquirem riquezas e com elas se tornam mais pobres. Querem o poder e, primeiro, a alavanca do poder, muito dinheiro — esses indigentes!
Vede como sobem trepando, esses ágeis macacos! Sobem trepando uns sobre os outros, e assim se empurram para a lama e a profundeza.
Todos querem chegar ao trono: esta é sua loucura — como se a felicidade estivesse no trono! Com frequência a lama se acha no trono — e, também com frequência, o trono se acha na lama.
Loucos me parecem todos eles, macacos trepadores e seres febris. Mau cheiro tem para mim seu ídolo, o frio monstro: mau cheiro têm todos eles para mim, esses idólatras.
Meus irmãos, quereis então sufocar na emanação de suas bocas e cobiças?
Quebrai antes as janelas e pulai para fora!
Fugi do mau cheiro! Fugi da idolatria dos supérfluos!
Fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos!
Ainda agora a terra está livre para as almas grandes. Vazios estão ainda, para os solitários e os sozinhos a dois, muitos lugares em torno dos quais corre o cheiro dos mares quietos.
Ainda está livre, para as almas grandes, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos será possuído: louvada seja a pequena pobreza!
Ali onde cessa o Estado, apenas ali começa o homem que não é supérfluo: começa o canto do necessário, a única e insubstituível melodia.
Ali onde cessa o Estado — olhai para ali, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do super-homem? —
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 12:54


Da castidade

por Thynus, em 01.06.13

 

 

 Há na sensualidade uma espécie de alegria cósmica.
(Jean Giono)

 

Eu amo a floresta. É ruim viver nas cidades: ali são demasiados os que estão no cio.
Não é melhor cair nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma mulher no cio?
E observai esses homens: seu olhar já o diz — eles nada conhecem de melhor na terra do que deitar-se com uma mulher.
Há lama no fundo de suas almas; e que desgraça, se sua lama também tiver espírito!
Se ao menos fôsseis perfeitos como animais! Mas do animal é própria a inocência.
Aconselho-vos eu a matar vossos sentidos? Eu vos aconselho a inocência dos sentidos.
Aconselho-vos a castidade? A castidade é virtude em alguns, mas em muitos outros, quase um vício.
Esses podem se abster, mas a cadela sensualidade lança olhares invejosos de dentro de tudo que fazem.
Ainda nas alturas de sua virtude e no interior do frio espírito segue-os essa besta com sua inquietação.
E como sabe a cadela sensualidade mendigar uma porção de espírito, quando lhe é negada uma porção de carne!
Vós amais as tragédias e tudo o que parte o coração? Mas eu desconfio de vossa cadela.
Vossos olhares me parecem muito cruéis, e buscais avidamente por sofredores. Vossa volúpia não teria apenas se disfarçado e agora se chama compaixão?
E também esta parábola vos dou: muitos que queriam expulsar seus demônios entraram eles mesmos nos porcos.
Àquele para quem a castidade é difícil, ela deve ser desaconselhada: a fim de que não se torne o caminho para o inferno — isto é, para a lama e a lascívia da alma.
Falo de coisas sujas? Para mim isso não é o pior.
Não quando a verdade é suja, mas quando é rasa, o homem do conhecimento reluta em entrar nas suas águas.
Em verdade, existem os castos do fundo do ser: eles são mais mansos de coração, riem com mais gosto e mais frequentemente do que vós.
Riem também da castidade, e perguntam: “Que é a castidade?
Não é a castidade uma tolice? Mas essa tolice veio a nós, não fomos a ela.
Oferecemos abrigo e afeto a essa visitante: agora ela habita conosco — que permaneça o tempo que quiser!”
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 12:31


Por que Nietzsche não é cristão?

por Thynus, em 01.06.13

 

Friedrich Nietzsche (1844-1900) ainda hoje é um autor que chama a atenção de muitos leitores. Seja porque Foucault, Heidegger ou Sartre o tenham citado amplamente, seja porque tantos outros o chamaram de maldito (em relação à sua herança: as críticas à religião cristã). Ou ainda por causa das deturpações que sua irmã, Elisabeth Nietzsche, promoveu em suas obras; especialmente em Vontade de Potência, para agradar Adolf Hitler e os nazistas e se promover na década de 1930.
Nietzsche escreveu sobre arte (literatura e música), moral e ética, religião, antropologia, teoria do conhecimento e também é autor de um romance filosófico, o Assim falou Zaratustra. A diculdade para ler Nietzsche está no fato de, além das traduções do alemão para o português nem sempre serem fiéis, ele não separar tais assuntos em obras sistematizadas (por exemplo, Kant - 1724/1804 - o fez), mas aqueles que querem escutar Nietzsche por meio de suas obras devem executar verdadeiro trabalho de pesquisador atento, pois são muitos os jogos de linguagem que ele usa, os trocadilhos e ironias, interjeições etc.
Mas Nietzsche era um filósofo do porvir, como gostava de salientar, e isso porque talvez, mais do que um Feuerbach (1804-1872) ou um Schopenhauer (1788-1860), tenha vivido na própria carne seu tempo e as mazelas da Europa de um de século com a Guerra Franco-Prussiana, que abalou as bases culturais do continente.
Enquanto Feuerbach desmisticava o cristianismo (em sua A essência do cristianismo) e Schopenhauer filosofava racionalmente (aos moldes ocidentais em O mundo como vontade e como representação) sobre a ideia oriental budista da ascese, e fazia avançar o pensamento humano para considerar a existência da possibilidade de uma "vontade cega" que guia o universo, concluindo, com isso, que não há sentido último no universo, que o mundo não está aí para o homem se deleitar com seus frutos (ao contrário, tudo está aí por mero acidente), não há planejamento, não há deuses por trás das coisas, o homem, grosso modo, para Schopenhauer, também é um acaso da "vontade cega" que comanda o universo.

NIETZSCHE E AS CRÍTICAS AO CRISTIANISMO
Nietzsche não é o primeiro autor moderno a criticar a religião cristã. Feuerbach, Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) já o tinham feito. Feuerbach mostra que foi o homem quem criou "deus" e não o contrário, e isso se deu quando o homem projetou em um ser imaginário tudo aquilo que desejava ter: imortalidade, sabedoria, onipresença, onipotência e onisciência.
Marx mostrou que são as condições econômicas e materiais que condicionam as ideias do ser humano e que eles estão atrelados a seu horizonte histórico. Além disso, a sociedade, para Marx, é constituída pela luta de classes (que é o motor da história), sendo assim há uma luta entre proprietários dos meios de produção (burgueses) e operários (proletários), estes últimos são espoliados pelos patrões, que se beneficiam deles pela mais-valia (o lucro que o trabalhador produz e que vai para o bolso do patrão); logo Marx advoga pelo fim dessa luta, ou seja, a abolição das classes sociais, o socialismo. Isso para que todos tenham acesso às benesses da vida moderna (e não apenas alguns poucos que podem pagar por isso). Consequentemente, Marx afirma que a religião também desapareceria, pois "Deus" não passa de uma criação do homem para justificar a vida de sofrimentos que tem na Terra (com ideias como pecado e redenção ou sofrimento e recompensa no além).
Mas aí surge Nietzsche com outro foco crítico contra a doutrina cristã, a moral e sua gênese. E é para entender isso que não se poderia inescrupulosamente apresentar o autor sem seu contexto histórico e sem aqueles que o antecederam. Da mesma forma como é importante avisar àqueles que tomam primeiro contato com Nietzsche e suas polêmicas declarações de que ele não conflita apenas uma das igrejas cristãs, mas todas.

CONTRAPOSIÇÃO: A ÉTICA CRISTÃ NEGA A VIDA NA TERRA
Para Nietzsche, o Ocidente, adotando a ética cristã, negou a vida real (material). Então, segundo ele, a doutrina judaico-cristã, com o conceito de "Deus castigador", moralista e juiz de homens como no Antigo Testamento, serviu apenas como um "cabresto". Jesus, com ideias como "ressurreição" e "mundo melhor" após a morte, apenas contribuiu para que todos se penitenciassem para escapar do pecado original. Mas esse pecado é impossível para Nietzsche quando ele pressupõe que o homem não tem "alma" (no sentido de algo que sobrevive após a morte) e que "Deus" não existe fora da mente humana.
O homem, então, é concebido apenas pela força da natureza e se perece com a morte. Caso isso seja verdade, infere Nietzsche que o "pecado" não passa de invenção que alimenta o medo (medo de morrer e ir para o "inferno"), medo este que é o fundamento da moral cristã. Em sua Genealogia da Moral, Nietzsche afirma que primeiramente a moral foi criada para impedir o homem de cair no niilismo e para dar explicações para a vida e seus sofrimentos. Entretanto, seu principal fator de fundamentação se constituiu no medo (NIETZSCHE, Genealogia da Moral In: Os Pensadores, p. 333). Quer dizer, o que o autor percebe de nocivo aí é que não há nenhuma relação de amor ou gratuidade com um suposto "Deus", o que há é o culto de "Deus" pelo homem porque o homem é um "covarde da vida". Teme suas mazelas e se esconde atrás de "Deus", que serve como muleta.
Nietzsche diz que é esse medo que gera a angústia diante da vida e acarreta a busca do perdão de "Deus". O problema para Nietzsche está no administrador do perdão, o sacerdote. Para Nietzsche, a lei, falando pela boca do sacerdote, transforma-se na moral vigente. Há uma máscara sobre "Deus", porque o sacerdote ganha para si o poder da lei, personificando "Deus". E, como a lei vem de um "Deus" que precisa de intérpretes (pois os textos bíblicos são a única manifestação que o crente aceita como tal), os homens elegem o sacerdote como o intérprete de "Deus". Mas aí surge outro problema, diz Nietzsche: se "Deus" é juiz dos homens e o sacerdote (padre ou pastor cristão) é seu porta-voz, então, na realidade, é o sacerdote quem julga os homens? Sim, diz ele, porque mesmo que "Deus" exista quem dá a última palavra é o sacerdote.
Assim, o sacerdote, se é quem controla o divino (porque interpreta a lei e "sabe" o que "Deus" quer dos homens), controlando o mundo terreno e controlando as coisas da Terra, controla o comportamento das pessoas por meio da moral. Assim Nietzsche mostra como os homens se deixam aprisionar por uma metafísica, ou seja, moral cristã, que é reproduzida de geração a geração e pela qual são punidos aqueles que desejam apontar suas contradições. É por isso, conclui Nietzsche, que a moral é uma "prisão" para os homens.
Quanto ao crente (cristão), este se deixa guiar passionalmente por acreditar que o sacerdote o levará ao paraíso com a graça de "Deus". Mas, para Nietzsche, esse "Deus" (como já foi dito) é uma muleta que serve para o homem amenizar sua fraqueza carnal diante do mundo real. Logo, Nietzsche rejeita a doutrina cristã, chamando-a de "moral de rebanho". "Moral de fracos" que se unem para louvar "Deus" (o cabresto) e pedir perdão a "ele". A moral cristã que arrebanha crentes para cultuar "Deus" recruta culpados para que "ele" seja reconhecido como tal. O menosprezo pelo homem que eleva "Deus" torna-o algoz do homem. Foi por isso que Nietzsche afirmou no Anticristo: "Deus está morto".

O PROBLEMA DA MORAL CRISTÃ
O problema da moral cristã, seu maior erro, diz Nietzsche, é querer mudar o homem para algo melhor. Em outras palavras, ele quer dizer que quando Jesus instituiu sua moral, o fez em nome do "Deus-cabresto." É como se Jesus dissesse: "Obedeça-me ou o meu 'Deus' te punirá. A pergunta que surge da reflexão nietzschiana é: "se perdoar significa apenas contentar um 'Deus' ou cumprir a lei, que valor tem o perdão?" Perdoar por esse motivo é comprar "Deus" e isso pode ser ilustrado no sacrifício que os judeus realizavam no Templo de Javeh na antiga Israel.
Para superar isso é que Nietzsche propõe uma ética a ser praticada por aqueles que têm coragem de enfrentar a vida sem se ajoelhar diante dos cabrestos. Por quem não acredita no reino dos céus nem espera recompensas no além-mundo. Nietzsche queria, sim, a abolição do cristianismo. Pode-se argumentar que a ética nietzschiana é para aqueles que se sentem gratificados com a simples felicidade do próximo. Como exercício de ilação pode-se inferir que aqueles que pensam assim perdoariam ou não de acordo com sua consciência (com o sentimento de bem-estar consigo mesmo) e não a partir dos padrões morais vigentes ou por causa da vontade da igreja ou do sacerdote e muito menos por medo do castigo divino.

Para Nietzsche, foi o ideal ascético (a vontade de se purificar) o principal motivo que levou ao surgimento da moral. Por isso ela é (aparentemente) uma autoridade superior à qual se obedece não porque ordene o que é "melhor", mas simplesmente porque ordena e questioná-la já é por si uma imoralidade. É o medo perante essa "inteligência" superior que ordena, é o medo de um poder incompreensível e impreciso de qualquer coisa que ultrapassa o individual, um medo que está impregnado de superstição, como diz em O crepúsculo dos ídolos (p. 69): "Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes.
A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas, as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito. Chamar melhoramento à domesticação do animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Contudo, duvido muito que o animal acabou melhorando. É debilitado, é efeito menos perigoso; com um sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo. O mesmo sucede ao homem domesticado, que o sacerdote tornou melhor".
Nietzsche diz que o homem era uma "caricatura", um "aborto" e que assim é que foi feito um pecador. "Estava enjaulado, fora encerrado no meio de ideias espantosas. Doente e miserável se aborrecia a si mesmo, estava repleto de ódio contra os instintos da vida, repleto de desconfiança em relação a tudo que permanecia sendo forte e feliz. Em uma palavra: era cristão" (Idem).
RRMATIAS "Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém, sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes. A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito."
Aqui Nietzsche aponta alguns malefícios que a moral cristã fez ao homem em geral, enjaular o humano (o animal) e domesticá-lo foi já transformálo em algo doente e estabelecer nele valores niilistas, porque se negou uma parte de sua própria natureza para dar lugar a outra (mutilada), ao racionalismo, apenas. Pretende perguntar com isso onde está, afinal, o humano no cristão quando se comporta negando a sexualidade, o corpo, o amor como encontro com o outro (encontro até sexual). Em outras palavras, é possível perguntar: Que validade tem, afinal de contas, ser cristão se este vive ameaçado pela terrível punição de ser excluído da presença de Deus se não se comportar "bem"? Se não se enquadrar na sua "moral"? Para responder a isso, Nietzsche propõe "transvalorar" todos os valores.

A TRANSVALORAÇÃO DOS VALORES
Diz Nietzsche que o que ele exige do " filósofo é que se coloque além do bem e do mal, que ponha sob si a ilusão do juízo moral" (Anticristo, p. 69). Ainda diz que o "juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem."
Para ele, a moral é uma interpretação de certos fenômenos, mas uma falsa interpretação: "O juízo moral pertence, como juízo religioso, a um grau de ignorância em que a noção da realidade, a distinção entre o real e o imaginário não existe, de modo que em tal grau a palavra 'verdade' serve para expressar coisas que hoje chamamos imaginação. Por isso não se deve nunca tomar ao pé da letra o juízo moral, pois entendido assim seria um contrassenso. Entretanto, como semiótica possui um valor inapreciável, pois revela ao que sabe entender, ao menos, realidades preciosas acerca das civilizações e dos gênios que não souberam o bastante para compreender a si mesmos. A moral é apenas uma linguagem de signos, uma sintomatologia, é preciso saber de antemão do que se trata para se poder tirar partido dela (Crepúsculo dos ídolos, p. 69)"
Nietzsche conclui ainda que o erro da moral está em acreditar que seus princípios são absolutos e ideais. E que seus extremos estão nos ditos homens morais. Para mudar a moral é preciso mudar a maneira de julgar ("quem disse que o bem e o mal se medem a partir do homem?", pergunta-se), e também mudar o seu modo de sentir. Por isso, ele afirma que a moral, como instituição, surgiu para tirar o homem do estado de natureza, legalizar a vida em sociedade, perpetuar os costumes e dirigir as sociedades pelas gerações como sua cultura, mas falsa cultura porque foi construída por outros homens e não por divindade alguma.
A moral imortalizou a prática religiosa na vida cotidiana, impôs a noção de culpa (ao sujeito que a transgredia) e determinou as relações comerciais e afetivas entre os cidadãos por meio dos castigos: "[...] fica aqui o esquema a que eu mesmo cheguei, com fundamento em um material relativamente pequeno e contingente. Castigo como tornar-inofensivo, como impedimento de novo dano. Castigo como pagamento de dano a quem sofreu o dano, sob qualquer forma (também sob a forma de uma compensação afetiva). Castigo como forma de isolamento de uma perturbação do equilíbrio, para impedir a propagação da perturbação" (Genealogia da Moral, p. 318)
A partir daí, pode-se argumentar por que Nietzsche propõe a transvaloração dos valores, ou seja, a abolição da moral, o que acarreta, por conseguinte, a abolição de sua principal viga mestra, a religião que domina o Ocidente há mais de 2 mil anos, o cristianismo. Diferentemente de Marx, Nietzsche não pregava uma revolução para que isso acontecesse, o que ele almejava (como solução, se é que se pode usar essa palavra) é que cada um de seus leitores tomasse consciência desses argumentos e percebesse que ser cristão é entregar sua vida para uma fantasia (crença em "Deus") ou para a vontade da moral dos padres. Énfim, é mais uma proposta de cunho individual do que coletiva, pressupondo que seja possível cada homem e mulher no Ocidente se conscientizar dos equívocos de sua própria cultura.

(Gerson Nei Lemos Schulz é filósofo, professor na universidade do estado do Amapá

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