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Homem: ser de desejo

por Thynus, em 25.06.13
A paixão(do grego, pathos, significa sofrer ou suportar uma situação dificil) é uma emoção de ampliação quase patológica. O acometido de paixão perde sua individualidade em função do fascínio que o outro exerce sobre ele. É tipicamente um sentimento doloroso e patológico, porque, via de regra, o indivíduo perde parcialmente a sua individualidade, a sua identidade e o seu poder de raciocínio. Contudo a paixão não é distúrbio ou doença, mas faz parte da realidade humana (prejudicial seria a apatia, a ausência de sentimento e paixão).

Nada se faz sem paixão

Quando perguntamos "o que é o homem?", a resposta mais comum é "o homem é um animal racional". Isso é bem verdadeiro, mas incompleto. O homem é também um ser de desejo.
E como surge o desejo? Surge à medida que o homem estabelece relações com a natureza e com os outros homens, ocasião em que vivência emoções e sentimentos, isto é, reage afetivamente aos acontecimentos. Qualquer ação humana se explica pelo fato de ser motivada: o homem sente falta, precisa de alguma coisa e deseja alcançá-la. Por isso sai em busca de alimento, de abrigo, de repouso, como também do reconhecimento dos outros, do amor, da beleza etc. Nessa busca, tenta evitar a dor, o sofrimento, o desconforto, a solidão e a morte.
A razão é importante por fornecer ao homem os meios para compreender a realidade, solucionar problemas, projetar a ação e reavaliar o que foi feito. Mas o impulso, a energia, a vibração vêm do desejo. É este que põe o homem em movimento.
Enquanto os atos da razão são resultado da vontade, os sentimentos e emoções afetam os homens independentemente de seu consentimento. Quando somos afetados, não podemos evitar a resposta, seja ela de prazer, dor ou cólera. É nesse sentido que podemos entender o conceito de paixão a partir de sua etimologia: paixão vem de pathos, que em grego tem a mesma raiz de sofrer, suportar, deixar-se levar por.
Existe uma longa tradição que identifica a paixão aos afetos fortes e incontroláveis. Além disso, a paixão é com freqüência associada apenas ao amor, principalmente ao amor intenso, fulminante e "perturbador da alma" que impede o homem de perceber os acontecimentos com clareza. Trata-se de uma concepção negativa, pois os que pensam dessa forma consideram a paixão uma espécie de fraqueza humana, e portanto perigosa, já que o homem por ela "arrebatado" perde o controle de si.
Vamos aqui considerar a paixão como qualquer afeto, seja fraco ou forte. E mais:
• a paixão amorosa não é a única existente; pode-se falar também em paixões em relação ao ódio, medo, inveja, glória; isto é, existem tantas paixões quantos são os afetos humanos;
• a paixão não é distúrbio ou doença, mas faz parte da realidade humana (prejudicial seria a apatia, a ausência de sentimento e paixão);
• não há por que se envergonhar das paixões: elas surgem independentemente de nossa vontade, isto é, não podemos ter ou não ter paixões; por isso, a paixão não é alguma coisa a ser evitada ou negada.
Paixão de vida e paixão de morte
Não convém concluir apressadamente que o homem pode viver todas as paixões tal como elas se impõem. Se isto ocorresse, a vida em comum se tornaria impossível e o próprio indivíduo enfrentaria impulsos contraditórios e inconciliáveis. Além do que, não se poderia contar com a possibilidade de existência de uma vida propriamente moral.
Se "nada se faz sem paixão", também é verdade que razão e paixão são inseparáveis. Mas a relação que se estabelece entre esses dois pólos varia de acordo com as diversas correntes filosóficas.
Para Platão, o homem é constituído por três almas, uma pela qual compreendemos (racional), outra pela qual nos irritamos (irascível) e outra pela qual "desejamos os prazeres da comida, da reprodução e todos os outros da mesma família" (concupiscível). O homem sábio é aquele que fortalece a razão, alma superior, e não se deixa ar-rastar pela força das paixões.
Já não é assim que pensa o holandês Spinoza (séc. XVII), para quem a razão não é superior aos afetos, nem cabe a ela controlá-los. As afecções do corpo e sentimentos da alma são forças de existir e agir e jamais serão vencidas por uma idéia ou por uma vontade, mas apenas por outros afetos mais fortes e poderosos do que eles.
Para Spinoza, a tristeza é a consciência que temos da diminuição da nossa realidade e da nossa capacidade de agir. Por exemplo, ignorar é tristeza, perder o amado é tristeza. Daí derivam outros afetos (tristes): desesperança, autopiedade, medo, ressentimento, inveja, ódio. É possível ultrapassar esse estado criando condições para as paixões alegres se tornarem mais fortes que as tristes. Conhecer e criar geram alegria, que consiste na consciência do aumento de nossa capacidade de agir. As paixões alegres fazem nascer o amor, a amizade, o contentamento, a esperança, e só elas serão capazes de combater as paixões nascidas da tristeza.
As boas paixões permitem o desenvolvimento humano, facilitam o encontro das pessoas e proporcionam a alegria. As más paixões impedem o crescimento, corrompem as relações e orientam para as formas de exploração e destruição.
Em resumo, a boa paixão é voltada para a vida, enquanto a má paixão se volta para a morte.

(Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins - "Temas de filosofia")
Filósofos há que concebem os afetos, em nós conflitantes, como vícios em que caem os homens por sua própria culpa. Por isso costumam ridicularizá-los, deplorá-los, censurá-los e (quando querem parecer mais santos) detestá-los. (...) Concebem os homens não como são, mas como gostariam que fossem. Por isso quase todos, em lugar de ética escreveram sátira e, em política, quimera conveniente ao país da Utopia ou à Idade de Ouro dos poetas, quando nenhuma instituição era necessária (...) Tive todo o cuidado em não ridicularizar as paixões humanas, nem lamentá-las ou detestá-las, mas compreendê-las. (Spinoza.)

Entre as espécies de afecções, que devem ser muito numerosas, as mais notáveis são a luxúría, a embriaguez, a lubricidade, a avareza e a ambição, as quais não são senão designações de amor ou de desejo, que explicam a natureza de cada uma destas afecções pelos objetos a que se referem. Com efeito, por luxúría, embriaguez, lubricidade, avareza e ambição não entendemos senão um amor ou um desejo imoderado de comida, de bebida, de relações sexuais, de riqueza e de glória. Além disso, estas afecções, enquanto as distinguimos das outras apenas pelo objeto a que se referem, não têm contrárias. Na verdade, a temperança, a sobriedade e a castidade, que costumamos opor à luxúria, à embriaguez e à lubricidade, não são afecções ou paixões, mas indicam a capacidade da alma que modera essas afecções.
  •  O desejo (Cupiditas) é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer nela verificada. 
  • A alegria (Laetitia) é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior
  • A tristeza (Tristitia) é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor. 
  • A inveja (Invidia) é o ódio na medida em que afeta o homem de tal maneira que ele se entristece com a felicidade de outro e, ao contrário, experimenta contentamento com o mal de outrem. 
  • O contentamento (Acquiescentia in se ipso) é a alegria nascida do fato de o homem se contemplar a si mesmo e à sua capacidade de agir. 
  • A humildade (Humilitas) é a tristeza nascida do fato de o homem contemplar a sua impotência ou a sua fraqueza. 
  • A vingança (Vindicta) é o desejo que nos impele a fazer mal, por um ódio recíproco, àquele que, afetado por uma afecção semelhante para conosco, nos causou um dano.       
(SPINOZA, Baruch. Ética, Col. Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1973. p. 216-217. 219, 220,224,227).

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publicado às 06:37


Aprendendo a ler

por Thynus, em 24.06.13

 

Aprendendo a ler o mundo

 

 

 

Pensando um pouco sobre o dia de ontem, percebo que fui obrigada a interpretar, ou seja, a dar significado a uma série de acontecimentos que invadiram o meu dia e me levaram a abandonar, temporariamente, o projeto de escrever. Vamos destacar alguns. 

 

Primeiro, foi o cheiro ao qual atribuí o significado "feijão queimado". Em seguida, ao fato de o feijão ter queimado dei outro significado: a perda do almoço. 

 

Segundo, foi o caso do som: associei-o inicialmente à campainha da porta. Percebendo que o som se repetia, sempre igual, e a intervalos regulares, tive a pista para chegar ao seu significado exato: era o telefone que estava tocando. E assim fazemos o dia todo, a vida toda. A essa atividade de atribuir significados podemos dar o nome de leitura. A leitura, nesse sentido, passa a ser uma atividade bastante ampla: é efetuada toda vez que "lemos" um significado em algum acontecimento, alguma atitude, algum texto escrito, comportamento, quadro, mapa e até, por exemplo, nas gracinhas de um cachorro. A tudo isso podemos chamar de leitura do mundo. E, para que possamos fazer uma leitura adequada do mundo à nossa volta, é preciso saber observá-lo, recolhendo informações dos mais variados tipos. Mas voltemos à história inicial. Ao sentir o cheiro, tive uma informação olfativa. Ao ver o feijão queimado grudado na panela, tive uma informação visual. Com relação ao telefone, tive uma informação auditiva. Ao ligar cada informação às minhas experiências anteriores, cheguei ao significado dos acontecimentos. Por exemplo, como já havia sentido antes o cheiro de feijão queimado, identifiquei-o mesmo antes de olhar a panela. 

 

Assim, precisamos estar atentos a tudo o que acontece à nossa volta e saber que todos os nossos sentidos (olfato, visão, paladar, audição, tato e a cinestesia, isto é, a capacidade de sentir o espaço através dos nossos movimentos) estão constantemente nos fornecendo inúmeras informações a respeito do mundo. Basta que prestemos atenção a elas.
Neste ponto, podemos ampliar, também, o conceito de texto: em latim, texto significa "tecido" e pode ser entendido como qualquer significado tecido ou articulado através de uma linguagem determinada. Assim, por exemplo, um quadro pode ser um texto, pois tem um significado articulado através da linguagem da pintura (linguagem pictórica). Um filme, além do texto verbal dos diálogos, apresenta um texto visual, constituído pelas imagens que se sucedem na tela. O mesmo acontece na televisão. Quantas vezes "lemos", isto é, damos um significado às imagens que vemos na "telinha" mesmo que não estejamos ouvindo o som? 

 

No entanto, precisamos lembrar que essa tarefa de leitura, de atribuição de significados depende da vivência de cada leitor, porque é essa vivência que faz cada um de nós observar o mundo de forma diferente dos outros. Toda leitura depende de nossas experiências, idade, sexo, país e época em que vivemos, classe social a que pertencemos, enfim, de nossa história de vida. 

 

Vamos considerar, por exemplo, apenas os objetos presentes em nossa vida diária, para poder entender melhor como o significado se modifica de acordo com a situação individual de cada leitor. Examinemos o caso do leite. Para as crianças que moram na cidade, o leite chega em embalagem de plástico, pasteurizado, pronto para o consumo imediato. Para as crianças da área rural, no entanto, o leite é associado à vaca que o produz, ao bezerro que dele se aumenta, ao trabalho de quem o tira, à presença de grande quantidade de nata, à necessidade de ser fervido para não estragar, e assim por diante. Esses diferentes significados atribuídos ao mesmo objeto — o leite — são fruto de experiências de vida diversas entre si. 

 

Concluindo, todos nós, alfabetizados ou não, precisamos aprender a observar o mundo ao nosso redor, aprender a estar constantemente indagando: o que isto significa? o que quer dizer?, pois é nesse momento que estamos aprendendo a ler.

 

 

(Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins - "Temas de filosofia")

 

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publicado às 04:40

 

 

O capitalismo moderno necessita de homens que cooperem sem atrito e em amplo número; que queiram consumir cada vez mais; e cujos gostos sejam padronizados e possam ser facilmente influenciados e previstos/ Necessita de homens que se sintam livres e independentes, não submissos a qualquer autoridade, ou princípio, ou consciência — e contudo desejosos de ser mandados, de fazer o que se espera deles, de adequar-se em fricção à máquina social; que possam ser guiados sem força, dirigidos sem líderes, impulsionados sem alvos — exceto o de produzir bem, estar em movimento, funcionar, ir adiante.
Qual é o resultado? O homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza. (Veja-se mais detalhada discussão do problema da alienação e da influência da sociedade moderna sobre o caráter do homem em The Sane Society, E. Fromm, Routledge (Kegan Paul, Londres.) Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como um investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes. As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações. Ao mesmo tempo que todos tentam estar tão próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa que sempre ocorre quando a separação humana não pode ser superada. Nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a se tornarem conscientemente inconscientes dessa solidão: antes de tudo, a estrita rotina do trabalho mecânico, burocratizado, que as auxilia a permanecerem sem conhecimento de seus desejos humanos mais fundamentais, da aspiração de transcendência e unidade. Como a rotina, por si só, não o consegue, o homem supera seu desespero inconsciente através da rotina da diversão, do consumo passivo de sons e visões oferecidos pela indústria do divertimento; e, além disso, pela satisfação de comprar sempre coisas novas e de logo trocá-las por outras. O homem moderno está efetivamente próximo do quadro que Huxley descreve em seu Admirável Mundo Novo: bem alimentado, bem trajado, sexualmente satisfeito, e contudo sem personalidade, sem qualquer contacto com seus semelhantes a não ser o mais superficial, guiado pelos lemas que Huxley formulou tão sucintamente, como estes: “Quando o indivíduo sente, a comunidade vacila”; “Nunca deixes para amanhã o prazer que podes ter hoje”, ou, como afirmativa culminante: “Todos agora são felizes”. A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em “divertir-se”. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, cigarros, gente, conferências, livros, fumes — tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite, uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande seio; somos os sugadores, os eternamente em expectativa, os esperançosos — e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo.
A situação, no que refere ao amor, corresponde, como não pode deixar de ser, a esse caráter social do homem moderno, autômatos não podem amar; podem trocar seus “fardos de personalidade” e esperar um bom negócio. Uma das expressões mais significativas do amor, e especialmente do casamento, nessa estrutura alienada, é a idéia de “equipe”. Em qualquer número de artigos escritos sobre o casamento feliz, o ideal descrito é o da equipe que funcione lubrificadamente. Essa descrição não difere muito da idéia de um empregado que funcione lubrificadamente: ele deve ser “razoavelmente independente”, cooperativo, tolerante e, ao mesmo tempo, ambicioso e agressivo. Assim, diz-nos o conselheiro matrimonial, o marido deve “compreender” sua mulher e ser-lhe de auxílio. Deve fazer comentários favoráveis sobre seu vestido novo, sobre um prato gostoso. Ela, por sua vez, deve compreendê-lo quando ele chega cansado e resmungão deve ouvi-lo atentamente quando ele fala de seus aborrecimentos nos negócios, não deve encolerizar-se, mas mostra-se compreensiva, se ele se esquece de que ela faz anos. Toda esta espécie de relações, na verdade, vem a dar na bem lubrificada relação entre pessoas que permanecem estranhas a vida inteira, que nunca chegam a uma “relação central”, mas que mutuamente se tratam com cortesia e que tentam fazer com que a outra pessoa se sinta melhor.
Neste conceito de amor e casamento, a principal ênfase é colocada no encontro de um refúgio para o que, de outra forma, seria insuportável sentimento de solidão. No “amor” encontra-se, afinal, um porto ao abrigo da, solidão. Forma-se uma aliança de dois contra o mundo, e esse egoísmo a dois é enganosamente tomado por amor e intimidade.
Esta acentuação do espírito de equipe, da tolerância mútua e assim por diante é um desenvolvimento relativamente recente. Foi precedido, nos anos que se seguiram à primeira, guerra mundial, por um conceito de amor em que a satisfação sexual mútua se supunha ser a base de relações de amor satisfatórias e, especialmente, de um casamento feliz. Acreditava-se que as razões das freqüentes infelicidades no casamento estavam no fato de que os nubentes não haviam feito um “ajustamento sexual” correto; via-se o motivo desta falta na ignorância em encarar a conduta sexual “correta” e, portanto, na técnica sexual falha de um ou de ambos os parceiros. A fim de “curar” essa falha e ajudar os casais infelizes que não conseguiam amar-se mutuamente, muitos livros davam instruções e conselhos relativos á correta conduta sexual e prometiam, implícita ou explicitamente, que felicidade e amor viriam em seguida. A idéia subjacente era a de que o amor é filho do prazer sexual, a de que, se duas pessoas aprendem a satisfazer-se sexualmente, amar-se-ão uma à outra. Adequava-se à ilusão geral da época imaginar que o uso das técnicas corretas é a solução não só dos problemas técnicos da produção industrial, como também de todos os problemas humanos. Ignorava-se que a verdade está no oposto a essa idéia subjacente.
O amor não é o resultado da adequada satisfação sexual, mas a felicidade sexual — e mesmo o conhecimento da chamada técnica sexual — e que é o resultado do amor, Se, à parte a observação quotidiana, esta tese precisasse ser provada, poder-se-ia encontrar tal prova em amplo material de dados psicanalíticos. O estudo dos mais freqüentes problemas sociais — a frigidez nas mulheres e as formas mais ou menos graves de impotência psíquica nos homens — mostra que a causa não está numa falta de conhecimento da técnica correta, mas nas inibições que tornam impossível amar. O medo do outro sexo, ou o ódio para com ele, acham-se no fundo das dificuldades que impedem uma pessoa de entregar-se completamente, de agir espontaneamente, de confiar no parceiro sexual numa direta e imediata proximidade física. Se uma pessoa sexualmente inibida puder emergir do medo ou do ódio e, portanto, tornar-se cai)az de amar, seus problemas sexuais, dele ou dela, estarão resolvidos. Se não, nenhum total de conhecimento a respeito de técnicas sexuais servirá de ajuda.

(Erich Fromm - "A arte de amar")

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publicado às 15:30


MARX E OS JOVENS HEGELIANOS

por Thynus, em 22.06.13

 

 

A importância de Hegel na história da filosofia deriva não tanto do conteúdo do que escreveu, mas da enorme influência que exerceu nos pensadores que se lhe seguiram. De todos os que ele influenciou, o que por sua vez veio a ser mais influente foi Karl Marx, que descreveu a sua própria vocação filosófica como consistindo em «virar Hegel de pernas para o ar».
Marx nasceu em Trier, em 1818, numa família protestante de ascendência judaica. Na universidade, primeiro em Bona e depois em Berlim, estudou a filosofia de Hegel com Bruno Bauer, o líder de um grupo esquerdista conhecido como «Jovens Hegelianos». Com Hegel e Bauer, Marx aprendeu a ver a história como um processo dialéctico — ou seja, como uma sucessão de estádios que se seguiam uns aos outros, como os passos de uma demonstração geométrica, numa ordem determinada por princípios lógicos ou metafísicos fundamentais. Esta foi uma concepção que reteve ao longo de toda a sua vida.
Os jovens hegelianos atribuíram grande importância ao conceito hegeliano de alienação , isto é, o tratarmos como estranho algo com o qual nos devíamos identificar. A alienação é o estado no qual as pessoas vêem como exterior algo que, na verdade, é um elemento intrínseco do seu próprio ser. Aquilo que o próprio Hegel tinha em mente era que os indivíduos, todos manifestações de um único Espírito, se viam uns aos ouros como rivais hostis e não como elementos de uma unidade. Os jovens hegelianos rejeitaram a ideia do espírito universal, mas conservaram a noção de alienação, atribuindo-lhe um lugar diferente no sistema.
Hegel tinha encarado a sua filosofia como uma apresentação sofisticada e autoconsciente de verdades a que as doutrinas religiosas tinham, acrítica e miticamente, dado expressão. Para os jovens hegelianos, a religião não devia ser traduzida, mas eliminada. Para Bauer, e ainda mais para Ludwig Feuerbach, a religião era a forma suprema de alienação. Os seres humanos, a mais alta forma de existência, projectavam as suas próprias vida e consciência num céu irreal. A essência do homem é a unidade da razão, da vontade e do amor; não querendo aceitar limites para estas perfeições, formamos a ideia de um Deus de conhecimento infinito, vontade infinita e amor infinito, e o homem venera-O como um Ser independente distinto do próprio homem. «A religião é a separação do homem de si mesmo: ele lança Deus contra si próprio, como um ser que se lhe opõe.»
Marx simpatizava com a crítica que os jovens hegelianos fizeram da religião, a qual descreveria mais tarde como «o ópio do povo», mas colocou desde cedo o foco da alienação noutro lado. Escreveu Marx:

O dinheiro é o valor universal e autoconstituído de todas as coisas. Despojou, assim, o mundo inteiro, tanto o mundo humano como a natureza, do seu próprio valor. O dinheiro é a essência alienada do trabalho e da vida humanos, e esta essência alienígena domina-o enquanto ele a idolatrar.

Em 1841, Marx escreveu uma crítica da filosofia hegeliana do Estado, na qual atacou a teoria segundo a qual a propriedade privada era o pilar da sociedade civil. Na medida em que um Estado for baseado na propriedade privada, é, ele próprio, uma alienação da verdadeira natureza do homem.
Em 1842, tornou-se director de um jornal de esquerda, o Rheinische Zeitung. O governo prussiano considerou-o subversivo e encerrouo. Marx, desempregado e recém-casado, emigrou para Paris com a mulher, Jenny . Aí, encontrou trabalho como jornalista e travou-se de amizades com alguns radicais, incluindo o socialista revolucionário Friedrich Engels, que se tornaria o seu braço direito. Estudou também as obras de economistas britânicos como Adam Smith e começou a desenvolver a sua própria teoria económica. A sua intuição básica era a de que, dado que o dinheiro é uma forma de alienação, todas as relações puramente económicas — como, por exemplo, a que existe entre trabalhador e patrão — são formas alienadas de relacionamento social e até mesmo formas de escravidão que degradam quer o escravo, quer o senhor. Só a abolição da escravidão dos salários e a substituição da propriedade privada pelo comunismo podia pôr fim à alienação do homem.
Em breve seria de novo obrigado e emigrar, desta vez para Brux elas. Aí, com Engels, Marx escreveu A Ideologia Alemã, uma obra de crítica filosófica que não foi publicada senão muito tempo depois da sua morte. Nela, enuncia o princípio segundo o qual «a vida determina a consciência, e não a consciência a vida». A história é determinada não pela história mental de um Espírito hegeliano, nem pelos pensamentos e teorias dos homens individuais, mas pelos processos de produção das coisas necessárias à vida.
Marx tinha já chegado à conclusão de que a mera crítica filosófica não poria fim à alienação humana. Não se tratava apenas de que, na sua famosa formulação, «Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o que importa é transformá-lo». A transformação necessária teria de ser violenta, o que exigia uma aliança entre os filósofos e os trabalhadores. «Tal como a filosofia encontra as suas armas materiais no proletariado, assim também o proletariado encontra as suas armas intelectuais na filosofia.» Em 1847, uma recém-formada Liga Comunista reuniu-se em Londres, e Marx e Engels foram encarregues de escrever o seu manifesto, publicado no início de 1848, pouco antes de uma série de revoluções ter abalado os principais reinos do continente europeu.
«A história de todas as sociedades até agora existentes», diz o Manifesto, «é a história das lutas de classes». Isto é uma consequência da teoria materialista da história. À superfície, a história pode parecer um registo de conflitos entre diferentes nações e diferentes religiões; mas as realidades subjacentes são, ao longo dos tempos, as forças da produção material e as classes criadas pelas relações entre aqueles que tomam parte nessa produção. As instituições legais, políticas e religiosas que têm tanto destaque nas narrativas históricas são apenas uma superstrutura que esconde os níveis históricos fundamentais: as forças e os poderes produtivos e as relações económicas entre os produtores. A filosofia, ou «ideologia», usada para justificar as instituições legais e políticas de cada época é apenas uma cortina de fumo que esconde os interesses particulares das classes dominantes de então.

(Anthony Kenny - "História concisa da filosofia ocidental"

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publicado às 15:01


Escândalo acima das nuvens

por Thynus, em 21.06.13

 

O dia 9 de maio de 2007 vai ficar gravado na memória como o dia em que, pela primeira vez em dois mil anos da história papal, um sucessor de Pedro foi publicamente despojado do poder por seu secretário de Estado e seu assessor de imprensa. O que aconteceu nesse dia no céu, acima das nuvens, em um avião da Alitalia que saiu de Roma e se dirigia a São Paulo, foi tão ultrajante que os passageiros não conseguiam acreditar no que viam e ouviam. Até esse momento, era impensável que um papa pudesse ser publicamente constrangido pelo seu próprio pessoal. Isso aconteceu essencialmente por causa de seu predecessor. Quem perguntasse se Karol Wojtyla poderia vencer, precisava apenas ver as fotos de 1983 do aeroporto de Manágua. João Paulo II se ajoelhou diante do ministro da Cultura, o padre trapista Ernest Cardenal, e mais tarde o colocou sob uma suspensão “a divinis” da Igreja, apesar de o padre já ser uma estrela mundial nos âmbitos político e literário, que o fizeram candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Isso basta para mostrar o conflito contínuo entre o secretariado de Estado e o papa, desde a eleição de Karol Wojtyla em 1978 até sua morte, em 2005.
Isso era principalmente relativo às diversas viagens. O secretariado de Estado acreditava que as viagens eram função do cardeal secretário de Estado, o segundo homem do Vaticano. Porque, na qualidade de sucessor de Pedro, o papa deveria permanecer em Roma, e mandar o segundo homem para proclamar a mensagem de Cristo aos povos. No caso de Pedro, o segundo homem era Paulo. Isso escondia uma exigência simples: o papa deveria permanecer em casa. Porque se o chefe viajasse incansavelmente pelo mundo, para que ele precisaria do secretariado de Estado? Qual o sentido das negociações individuais do secretariado de Estado com países e a inundação de repórteres para o sumo pontífice, quando ele viajava pessoalmente para se encontrar com chefes de Estado de diversos países? Mas ele não visitava somente alguns países pessoalmente e sim o mundo inteiro. Isso fazia que surgisse a dúvida de por que manter o secretariado de Estado. Apesar dos apelos do secretariado de Estado ao papa para que ele ficasse em casa, ele fez 104 viagens internacionais, o equivalente a três vezes a distância entre a Terra e a Lua. O secretário de Estado não tinha alternativa, ele devia aceitar e lamentar o fato de ter perdido a importância. Era assim que o poder no Vaticano esteve dividido até a morte de Karol Wojtyla.
Eu não esperava que algo emocionante fosse acontecer quando embarquei no avião papal, um Boeing 777 da Alitalia, no dia 9 de maio de 2007. Uma viagem do papa ao Brasil não é nada que desperte muita emoção, porque é um exemplo clássico de jogo que se ganha em casa. O que o sumo pontífice deveria esperar, na e da maior nação católica do mundo? No mínimo multidões alegres. Qualquer outra coisa seria uma surpresa, porque ninguém duvidava que a Igreja Católica brasileira se encarregaria de juntar multidões alegres. Na verdade eu fiquei surpreso com o que aconteceu enquanto íamos para São Paulo. Eu estava ansioso pela festa que os brasileiros fariam para o papa. Havia uma velha rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro sobre quem receberia o papa mais entusiasticamente. Durante a viagem do papa, em 1997, para antiga capital federal, os esfuziantes cariocas penduraram faixas com os dizeres “Se Deus é brasileiro, então o papa é carioca”. Na verdade, o papa João Paulo II tinha ido mais vezes ao Rio do que a São Paulo. Mas agora o papa alemão estava indo para a grande São Paulo, e não para o Rio de Janeiro. E estava certo que os moradores da cidade mais importante da América Latina estavam ansiosos para aquele momento.
Havia ainda outro motivo, não muito religioso, que me deixava ansioso para voltar ao Brasil. Lembro-me como os jovens brasileiros e brasileiras haviam celebrado freneticamente, durante o Encontro Mundial para as Famílias em 1997, no Rio de janeiro. As jovens católicas que participavam da oração noturna do papa, apesar de ser um evento religioso, estavam vestidas como se fossem um exército de supermodelos prontas para uma festa de biquíni na praia, onde haveria uma competição de camiseta molhada. Lembro-me de ter pensado: “Nossa, se essas são as jovens católicas que se vestiram para a missa do sumo pontífice, como se vestem então as que não são religiosas?”.
O voo para São Paulo já deveria entrar para a história, porque era o último dia da única prática democrática na corte papal: a coletiva de imprensa. Os homens e mulheres poderosos do mundo inteiro que respeitam a democracia respondem às perguntas dos jornalistas nas coletivas de imprensa. O papa João Paulo II havia instituído essa prática no Vaticano. Participei dessas coletivas de imprensa por quase duas décadas. O papa ia para perto dos jornalistas e ele não apenas respeitava como também simpatizava com as pessoas que tinham que observar um pontífice. Karol Wojtyla respondia tranquilamente às perguntas, mesmo se fossem perguntas que não diziam respeito a ele. Perguntei várias vezes a ele, durante a década de 1990, sobre o conflito que surgia na Alemanha, devido ao sistema de apoio para grávidas, liberando a interrupção voluntária de gravidez. Para ele, esse assunto era muito desagradável, não gostando de abordá-lo. Mas, apesar disso, ele tinha o dom de usar a simpatia para se livrar dessas situações incômodas e mesmo assim não dizer nada, o que deixava a pessoa que fez a pergunta um pouco decepcionada. Muitas vezes, em assuntos delicados, ele simplesmente respondia fazendo uma pergunta de volta. Se um repórter quisesse saber como o papa escolhe essa ou aquela questão, João Paulo II perguntaria a ele: “O que o senhor faria, se fosse o papa?”. Às vezes, ele respondia fazendo brincadeiras: “Eu fiz uma escolha, sobre o tema de sua pergunta, mas com certeza não a compartilharei com o senhor”. Um encontro de João Paulo II com um cardeal que queria cair nas graças dele foi lendário. O cardeal disse: “Vossa Santidade, é muito triste que a imprensa às vezes escreva coisas tão ruins sobre a vossa pessoa”. Monsenhor Dziwisz adorava relembrar a resposta do papa: “Sabe de uma coisa, é verdade, eles escrevem coisas ruins sobre mim, mas na verdade eu merecia que eles escrevessem muito pior”.
Era assim que o 263˚ sucessor de Pedro lidava com a imprensa. Mas, agora, o 264˚ sucessor estava no avião e precisava responder a algumas perguntas. Aquela deveria ser a última vez. Após esse dia, o Vaticano aboliria a última prática democrática e, no futuro, o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi iria escolher as perguntas para só perguntar ao papa o que ele, um jesuíta que jurou obediência ao sumo pontífice, considerava apropriado.
Quando meu amigo Marco Politi levantou o braço para fazer uma pergunta, temi que pudesse gerar um conflito. Marco não estava sentado muito na frente do avião, o padre Lombardi poderia ter passado facilmente sem perceber o seu braço esticado para o lado esquerdo do compartimento do passageiro. Mas o padre Lombardi não imaginava sobre o que seria a pergunta, então deixou Marco fazê-la. Acredito que o motivo para Marco abordar um tema tão delicado não tenha tido nada a ver com um desejo de se envolver nos debates complexos que afetavam a América Latina. Sei que o meu amigo Marco Politi era preguiçoso demais para ler seriamente os documentos da Conferência dos Bispos da América Latina para a qual Bento XVI estava indo. Marco não sabia quase nada da América Latina e eu descobri isso de primeira mão, quando estávamos andando por um parque em São Paulo e ele me disse que os brasileiros que conheceu diziam que estávamos nos expondo e eventualmente nos arriscando, naquele parque. Mas havia ainda outro motivo para Marco escolher uma questão tão complicada. Ele era grande amigo de Valentina Arzachi, a correspondente para a emissora televisiva mexicana Televisa e ela sabia mais sobre os problemas da América Latina do que muitos cardeais. Valentina era educada demais para fazer uma pergunta tão incômoda ao papa, mas Marco não. E foi assim que Marco Politi, o único vaticanista italiano que passou sua infância na Alemanha, levou o papa alemão à desgraça.
Marco queria saber se o chefe da Igreja iria atender aos pedidos dos bispos mexicanos e excomungar qualquer político que não se declarasse abertamente contra a legalização do aborto. O assunto era tão sensível que a pergunta foi praticamente uma crueldade. Eu não tinha a menor dúvida que a pergunta era na verdade de autoria de Valentina, porque as pessoas na Itália não acompanhavam a disputa entre os bispos mexicanos e os políticos. A pergunta era especialmente maldosa sobretudo porque o papa não podia se recusar a respondê-la. As questões mais sensíveis podem facilmente “queimar” um papa. Em todos os anos que trabalhei como observador do Vaticano, diversas vezes colegas cometeram o mesmo erro e perguntaram ao papa uma questão fascinante: quando o celibato finalmente seria abolido e quando os padres parariam de abusar de crianças, mulheres ou homens? O que vocês tem contra o homossexualismo? Por que vocês não querem mulheres como padres? E assim por diante... O papa poderia tirar a questão da pauta, dizendo que agora ele estava indo para o Brasil e só iria responder perguntas sobre a América Latina. Mas a pergunta sobre os bispos mexicanos tinha a ver com aquela viagem e ele não conseguiria se livrar dessa questão tão facilmente.
O tema era tão delicado justamente porque era sobre o México. O México ultracatólico possui uma Constituição tradicional que separa o Estado da Igreja. O chefe de Estado é proibido de participar de serviços religiosos ou de receber líderes religiosos, coisas que o presidente do México ignorara nos últimos anos. Eles beijavam a mão do sumo pontífice, Constituição para cá, Constituição para lá. Uma interferência tão grande nos assuntos internos do México, como a campanha de excomunhão, precisaria ser muito bem considerada. Primeiramente, o papa fez o que deveria ser feito, ele desconversou. Explicou que os bispos mexicanos iriam resolver essa questão corretamente. Com essa resposta, o papa Bento XVI, mesmo que sem saber e naturalmente sem querer, desencadeou um caso terrível. Marco percebeu isso imediatamente e explicou ao sumo pontífice que sua resposta havia sido uma tolice, porque os bispos mexicanos já explicaram que a decisão do que fazer dependia do papa. Como ele, Joseph Ratzinger, era o atual chefe da Igreja, ele precisaria saber o que fazer em seguida.
Bento XVI caiu na armadilha. E foi terrível testemunhar aquilo. O papa deu uma resposta errada e explicou o que iria fazer. Ele disse que os políticos excomungados pelos bispos mexicanos, ou seja, políticos que não tivessem se manifestado abertamente contra o aborto, seriam proibidos de receber o sacramento. Mas um político que não pode ir para a comunhão era o mesmo que perder dezenas de milhares de votos no México.
Depois dessa resposta, o Vaticano parecia farto, então o chefe de viagem levou o papa para a parte dianteira do avião. Era o fim da coletiva de imprensa. Marco Politi fez uma entrada triunfal, mas a única pessoa que realmente entendeu o que aconteceria com o que o sumo pontífice acabava de dizer foi Valentina Arzachi. Ela soube na mesma hora que a resposta do papa faria dele uma sensação no México. Ninguém no México jamais pensara que fosse possível o papa ir tão longe, como excomungar políticos aos montes. Foi inevitável surgir o debate de o quanto a Igreja Católica pode interferir nos assuntos internos de um país como o México.
A situação, naquele momento, não era algo inédito. Apesar de o público nem sempre perceber, muitas vezes o que o chefe da Igreja diz ou faz não tem relação com a Igreja. Na verdade, muitas coisas que estão escondidas e mantidas em segredo não conseguem passar despercebidas. Um dos maiores fracassos no pontificado de João Paulo II refere-se ao milagre de Civitavecchia. Há quem diga que saíram lágrimas de sangue dos olhos de uma Virgem Maria de gesso do local de peregrinação de Medjugorje. A Congregação para a Doutrina da Fé do cardeal Joseph Ratzinger dirigiu-se imediatamente para o local, para acabar com aquela bobagem. Os críticos da Igreja Católica vinham esperando por um caso assim, para dizer: “Por acaso, agora os católicos acreditam que o Deus todo poderoso no céu tem tanto mal gosto que faz estátuas de gesso chorarem lágrimas de sangue humano?”. O caso todo teria sido simples, se não fosse por um bispo. Sua Excelência Girolamo Grillo, bispo de Tarquínia, jurou na televisão que havia visto as lágrimas de sangue da Virgem Maria, e que aquilo tinha sido um milagre. O Vaticano ficou indignado, o cardeal Walter Kasper esclareceu a situação, dizendo: “Nós, do Vaticano, não acreditamos em madonas que vertem lágrimas de sangue”. Joseph Ratzinger tinha convocado o bispo Grillo e feito uma advertência zangada a ele: como um bispo podia elogiar publicamente um alegado milagre daquela maneira? A Igreja demorava décadas, se não séculos, para provar um milagre.
E, então, o inesperado aconteceu. O papa interferiu. Apesar de todos os alertas que o bispo Grillo havia recebido do cardeal Ratzinger, ele continuou a rezar diante da estátua milagrosa da Madona e então ele a levou para o apartamento papal. Mas não evitou que o cardeal Deskur, seu melhor amigo, fosse para Tarquínio para presentear os fiéis com uma nova estátua da Virgem Maria de Medjugorje, depois que a polícia confiscou a suposta estátua milagrosa, porque eles suspeitavam de uma fraude. Qualquer que fosse a direção para a qual se voltasse, o fato é que o sumo pontífice foi obrigado a admitir que aquela Virgem Maria miraculosa não convinha à imagem da Igreja. Ele aquentou pacientemente, quando a maioria absoluta do Vaticano acusava aquilo tudo de ser uma fraude e uma estupidez. Todo mundo sabe o que o Vaticano costuma fazer, em um caso desses: eles esperam a poeira baixar até que o caso seja esquecido. Monsenhor Grillo foi silenciado pelo secretariado de Estado, que o proibiu de mencionar o milagre novamente. Mas era impossível deixar de lado o fato de o próprio papa adorar a imagem da Virgem Maria.
Naquele dia 7 de maio de 2007, eu estava certo de que o mesmo aconteceria no caso dos bispos mexicanos. Se o papa tivesse realmente dito algo errado, então eles não fariam nada, de início. Em alguns dias, talvez semanas, o Vaticano iria simplesmente explicar que a situação no México havia mudado e que o chefe da cristandade tinha decidido, em sua infinita bondade, ser misericordioso antes de justo, e por isso voltaria atrás em sua decisão relativa às excomunhões em massa. Tudo voltaria a ficar bem e ninguém se daria conta de que o papa havia dito uma tremenda bobagem.
Eu vi coisas desse tipo acontecer uma centena de vezes. Mas o que se passou no avião significava uma mudança épica para o cargo de sumo pontífice. Até então, o Vaticano tinha o seguinte objetivo, como o mais importante de todos: o cargo do papa não poderia ser danificado em nenhuma hipótese. Mas isso foi válido somente até o dia 7 de maio de 2007, pois, de repente, a cortina do avião papal se abriu e o portavoz do Vaticano Federico Lombardi apareceu diante da imprensa. Era óbvio que ele havia sido mandado, ele jamais se dirigiria a nós por iniciativa própria. Quando ele começou a falar, pensei que não tivesse ouvido corretamente, porque ele disse com toda seriedade e franqueza que o papa tinha dito uma besteira e não fazia ideia do caso do México. E mais: que o plano de excomungar os políticos seria colocado em prática, independentemente da vontade papal.
Fiquei chocado. O secretariado de Estado era tão forte a ponto de apresentar o chefe da Igreja à imprensa mundial como um ignorante que não tinha ideia do que acontecia na sua própria Igreja? Uma medida como aquela, que prejudicava a imagem do papa, teria sido impensável durante o pontificado de João Paulo II, porque o cargo do papa precisava ser protegido acima de tudo. Não havia motivo para no dia 7 de maio se agir tão apressadamente e humilhar o papa publicamente. Havia apenas uma conclusão para tal atrocidade ter acontecido: o papa Bento XVI era um papa fraco. Um homem com o qual o secretariado de Estado pode fazer que o seu próprio pessoal o apresente publicamente como alguém que não sabe o que diz. O preço que o sumo pontífice pagou por tudo isso foi perder sua autoridade. Karol Wojtyla havia feito com o secretariado de Estado o que bem entendia, mas agora havia começado uma nova era. Sem necessidade, o secretariado de Estado deixava que o mundo visse os bastidores e percebesse quem estava agora no comando do Vaticano. Esse foi o dia em que comecei a sentir pena de Bento XVI.
O papa precisou aceitar passivamente um mau agouro logo após a aterrissagem em São Paulo. O secretariado de Estado não fez o seu trabalho direito, pois, de alguma forma, eles tinham simplesmente esquecido de trazer o passaporte do papa Bento XVI. O papa João Paulo II visitou muitos países sem nunca terem pedido pelo seu passaporte. Mas as condições impostas pela comunidade internacional de aviação haviam se modificado. Todos os passageiros deveriam ter um documento válido consigo. Isso também valia para o sumo pontífice, e como ninguém no Vaticano tinha imaginado que isso aconteceria no Brasil, pela primeira vez na história um papa precisou pagar uma multa, porque o chefe da Igreja Católica do mundo estava viajando de avião sem um documento de identidade.
Mas o Vaticano percebeu claramente que a recepção do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva não havia sido calorosa. Lula era filho de trabalhadores, tinha tido uma infância pobre no Nordeste, antes de se transformar em líder sindicalista na região que circunda a colossal cidade de São Paulo, quando descobriu que o pai tinha uma segunda família em segredo. Pai que perdeu para a bebida. Lula fora batizado em uma Igreja Católica Apostólica Romana, mas não era segredo que ele não dava importância à religião. Nada surpreendente para um ex-engraxate e líder sindicalista. Por muitos séculos, a Igreja Católica na América Latina tinha sido pensada principalmente para as famílias que podiam pagar por suas cerimônias de casamento. A Igreja começou a se interessar pelos pobres tarde demais.
Ninguém se surpreenderia muito com uma recepção fria, mas a recepção não foi apenas fria, ela foi gelada. Pior do que descobrir o desinteresse óbvio de Lula pelo sumo pontífice, foi descobrir uma total indiferença dos brasileiros. Era impressionante como o relacionamento dos brasileiros com o papa tinha mudado, entre 1997 e 2007. Durante o Encontro Mundial das Famílias, no Rio de Janeiro, dez anos antes, para todos os lados que alguém olhasse havia bandeiras, faixas e muitos pôsteres, dando boas-vindas ao chefe da Igreja. Mas agora, nada. Não havia nada nas ruas de São Paulo. Passeei com Marco pelo centro da cidade e não conseguíamos acreditar, não havia nada, nem uma bandeirola, uma foto, absolutamente nada. As pessoas não se levantavam quando o papa passou, em seu papa-móvel. Por todos os lados da cidade havia prédios que abrigavam templos das igrejas livres evangélicas. Eu quase não as notei em 1997, mas agora elas estavam em todos os lugares. Os católicos estavam perdendo terreno em um dos seus países fundamentais.
Junto com Marco, falei com pessoas nas ruas, perguntei a elas o que elas achavam do sumo pontífice, ou se elas estavam felizes que ele tivesse vindo. A maioria nem sabia que Bento XVI estava visitando o país deles naquele instante. A viagem para o Brasil também ameaçava ser uma decepção e parecia que o papa alemão havia sofrido outra derrota. Mas no dia seguinte, o avião chegou à Fazenda da Esperança.

(Andreas Englisch - "O homem que não queria ser papa"

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publicado às 16:35

 

 

 

Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
(...)
Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos.

 (João de Deus)

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Anos são desenganos? Só? Anos não serão também experiência de vida e descoberta do valor da amizade na nossa vida? Do poeta João de Deus retenho para mim apenas os “vinte e seis anos!”. Que se dane a lógica linguística e viva a matemática que, no caso, assenta que nem uma luva: “a ordem dos factores não altera o produto”. Como sói dizer-se: uma mentirita não prejudica ninguém e dá sempre jeito. Ora aí está: 26 anos que linda idade! A idade dos sonhos e projectos. Invertendo a ordem dos factores, é quantos acabei de completar. Pois que venham os anos (o reumático, os problemas cardíacos... ou mesmo as denúncias e queixinhas dos inimigos), mas que os sonhos não morram nunca: sonhar é preciso! Ou como canta Sebastião da Gama:

 

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

 

Chegamos? Não chegamos?

 

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

 

Chegamos? Não chegamos?

 

─ Partimos. Vamos. Somos.

 

 

 
Aniversário é dia de louvor a Deus pelo dom da vida, mas também de dizer OBRIGADO pelos presentes que Deus vai colocando na nossa vida ao longo do tempo: os pais, a família, os amigos... Cada um com uma missão a desempenhar, mas todos interligados no mesmo sonho e na mesma história. Sem a família e os amigos a obra de Deus não estaria completa. São a família e os amigos que dão côr e sabor à vida.

 

Agradeço do fundo do coração a todos os que me felicitaram neste dia de aniversário. Que Deus lhes dê em dobro tudo o que me desejaram. Sou uma pessoa feliz, muito feliz mesmo, pois tenho pessoas maravilhosas que fazem parte desta história de vida: uns de perto, outros, geograficamente, mais distantes... Não importa a distância e sim o amor e o carinho. Isso é o maior presente da minha vida. Obrigado a todos e, já agora, parafraseando o grande Raul Solnado, façam o favor de ser felizes! Estarão sempre aqui, no meu coração. Abraços.

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publicado às 17:50


O sentido das palavras

por Thynus, em 17.06.13

 

 

Usamos todos os dias as palavras como instrumentos dóceis e disponíveis, como se sempre estivessem estado prontas para nós, com seu sentido claro e útil. O poeta, porém, aconselha:

Penetra surdamente no reino das palavras.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
(Carlos Drummond)

Se as palavras tivessem sempre um sentido óbvio e único, não haveria literatura, não haveria mal-entendido e controvérsia. Se as palavras tivessem sempre o mesmo sentido e se indicassem diretamente as coisas nomeadas, como seria possível a mentira? É por isso que o poeta Fernando Pessoa, em versos famosos,
escreveu:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente.

O poeta é um “finge-dor” e seu fingimento – isto é, sua criação artística – é tão profundo e tão constitutivo de seu ser de poeta, que ele finge – isto é, transforma em poema, em obra de arte – a dor que deveras ou de verdade sente. A palavra tem esse poder misterioso de transformar o que não existe em realidade (o poeta finge) e de dar a aparência de irrealidade ao que realmente existe (o poeta finge a dor que realmente sente).
Na tragédia Otelo, de Shakespeare, o mouro Otelo, apaixonado perdidamente por sua jovem esposa, Desdêmona, acaba por assassiná-la porque foi convencido por Iago de que ela o traía. Iago, invejoso dos cargos que Otelo daria a um outro membro de sua corte, inventou a traição de Desdêmona, mentiu para Otelo e este, tomando a mentira pela verdade, destruiu a pessoa amada, que morreu afirmando sua inocência. Para construir a mentira, Iago despertou em Otelo o ciúme, caluniando Desdêmona. Usou vários estratagemas, mas sobretudo usou a linguagem, isto é, palavras falsas que envenenaram o espírito de Otelo.
Como é possível que as palavras ou que a linguagem tenham o poder para tornar o verdadeiro, falso, e fazer do falso, verdadeiro? Como seria uma sociedade na qual a mentira fosse a regra e, portanto, na qual não conseguíssemos nenhuma informação, por menor que fosse, que tivesse alguma veracidade? Como faríamos para sobreviver, se tudo o que nos fosse dito fosse mentira? Perguntas e respostas seriam inúteis, a desconfiança e a decepção seriam as únicas formas de relação entre as pessoas e tal sociedade seria a imagem do Inferno.
Essa sociedade infernal é criada pelo escritor George Orwell, no romance 1984. Orwell descreve uma sociedade totalitária que controla todos os gestos, atos, pensamentos e palavras de seus membros. Estes, todos os dias, entram num cubículo onde uma teletela exibe o rosto do grande chefe, o Grande Irmão, que, pela mentira e pelo medo, domina o espírito da população, falando diariamente com cada um.
Nessa sociedade, é instituído o Ministério da Verdade, no qual, todos os dias, os fatos reais são modificados em narrativas ou relatos falsos, são omitidos, são apagados da História e da memória, como se nunca tivessem existido. O Ministério da Verdade cria a mentira como instituição social. O poder cria a Novi-Língua, isto é, inventa palavras e destrói outras; as inventadas são as que estão a serviço da mentira institucionalizada e as destruídas são as que poderiam fazer aparecer a mentira. A negação da verdade é, assim, usada para manter uma sociedade inteira enganada e submissa.
Quando vemos o modo como os meios de comunicação funcionam, podemos perguntar se 1984 é uma simples ficção ou se realmente existe, sem que o saibamos.
Como é possível que a linguagem tenha tamanho poder mistificador? E, ao mesmo tempo, como é possível que, em todas as culturas, na relação entre os homens e a divindade, entre o profano e o sagrado, o papel fundamental de revelação da verdade seja sempre dado à linguagem, à palavra sagrada e verdadeira que os deuses dizem aos homens? Como uma mesma coisa – a palavra, o discurso – pode ser origem, ao mesmo tempo, da verdade e da falsidade? Como a linguagem pode mostrar e esconder?
Como essa duplicidade misteriosa da linguagem pode servir para manter o dogmatismo? Mas também, como pode despertar o desejo de verdade?

(Marilena Chaui - "Convite à Filosofia")

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publicado às 18:42

 

"Tudo deve ser baseado em uma ideia simples. 

 

Depois de a descobrirmos ela será tão irresistível, 

 

tão bela, que comentaremos entre nós, sim, 

 

não poderia ser diferente." (John Wheeler, 1911-, físico)

 


 

"Poderemos ser enganados de duas formas. 

 

Uma é acreditando no que não é verdade; 

 

a outra é nos recusando a acreditar 

 

no que é verdade." (Soren Kierkegaard, 1813-1855, filósofo)

 

 


Os primeiros raios da manhã lançavam sombras compridas da silhueta das montanhas Sangre de Cristo que se erguiam atrás de nós, ao leste. Eu tinha concordado em encontrar meu amigo José (chamemo-lo assim) aqui no vale, simplesmente para passear, conversar e aproveitar a manhã. Enquanto mirávamos a vastidão de terra que une o norte do Novo México ao sul do Colorado, descortinávamos os muitos quilômetros de campos que nos separavam da grande e profunda grota da Garganta do Rio Grande, com suas laterais escarpadas que constituem as margens do rio de mesmo nome. As sálvias do altiplano desértico espalhavam no ar uma fragrância especial naquela manhã e, enquanto andávamos, José comentava sobre a família da vegetação que cobria o terreno.
"Todo esse campo", disse ele, "até onde nossa vista alcança, funciona como se fosse uma única planta." O calor de sua respiração formava pequenas e breves nuvens de vapor a cada palavra que ele pronunciava no ar gelado da manhã. "Existem muitos arbustos nesse vale", ele continuou, "e cada planta está unida às outras por um sistema de raízes que escapa à nossa visão. Embora invisíveis aos nossos olhos, enterradas no solo, as raízes não deixam de existir — o campo inteiro faz parte de uma única família de sálvias. E assim como acontece em qualquer família", ele explicou, "a experiência de um membro é compartilhada, até certo ponto, por todos os demais membros da mesma família."
Fiquei meditando sobre as palavras de José. Que bela metáfora para o modo pelo qual nos encontramos interligados uns aos outros e ao mundo em torno de nós. Somos levados a pensar que estamos separados uns dos outros, de nosso mundo e de tudo o que acontece nele. Com base nessa crença sentimo-nos isolados, algumas vezes impotentes, para alterar as coisas que nos causam dor e que podem provocar sofrimento em outras pessoas. A ironia é que também nos encontramos inundados por livros de autoajuda e workshops que frisam como é intensa nossa interligação, como é poderosa nossa consciência e como o gênero humano realmente constitui uma única e preciosa família. Enquanto José falava, eu não podia deixar de pensar sobre a forma escolhida pelo grande poeta Rumi para descrever nossa condição. "Que seres estranhos nós somos!", constatou ele. "Mesmo sentados no inferno, no fundo da escuridão, tememos pela nossa própria imortalidade."
Precisamente, pensei. As plantas desse campo não estão apenas interligadas; em conjunto elas têm mais poder do que qualquer uma delas sozinha. Qualquer arbusto isolado no vale, por exemplo, exerce influência apenas em torno da pequena área que o cerca. Entretanto, ponha centenas de milhares de arbustos juntos e tudo muda de figura! Juntos eles alteram aspectos como o pH do solo de tal modo que garantem a própria sobrevivência. Ao fazerem isso, o subproduto de suas existências — o oxigênio abundante — vem a ser o substrato de nossa própria essência. Como família unificada, essas plantas têm o poder de mudar o mundo delas.

Na verdade, é bem possível que tenhamos mais em comum com a sálvia do Novo México do que poderíamos imaginar. Assim como elas individual e coletivamente podem mudar o próprio mundo, nós também podemos mudar o nosso.
Cada vez mais pesquisas têm indicado que somos mais do que simples retardatários cósmicos passando por um universo cuja construção terminou há muito tempo. Evidências experimentais permitem concluir que, na realidade, criamos o universo ao longo da vida, somando nossa contribuição ao que já existe! Em outras palavras, parece que somos a própria energia da qual o cosmos é formado, bem como os seres que experimentam a própria criação. Isso porque somos consciência, e a consciência aparentemente é feita da mesma "coisa" da qual o universo é formado.
Essa é a verdadeira essência da teoria quântica, fonte de tantas preocupações para Einstein. Até o fim da vida, Einstein acreditou firmemente que o universo existia independentemente de nós. Respondendo às analogias sobre como afetamos o mundo e ao comentar os experimentos que demonstram que a matéria muda de comportamento quando a observamos, ele simplesmente declarou: "Gosto de pensar que a Lua está lá no céu, mesmo quando não a estou vendo".
Embora nosso papel preciso na criação ainda não esteja perfeitamente compreendido, as experiências levadas a efeito no mundo quântico demonstram claramente que a consciência exerce efeito direto nas partículas mais elementares da criação. E nós somos a fonte da consciência. Talvez John Wheeler, professor emérito em Princeton e colega de Einstein, tenha conseguido fazer o melhor de todos os resumos sobre a nossa tão recente compreensão desse papel.
Os estudos de Wheeler levaram-no a acreditar que poderíamos viver em um mundo na realidade criado pela própria consciência — um processo que ele chamou de universo participativo. "De acordo com isso [com o princípio participativo]", diz Wheeler, "não poderíamos nem ao menos imaginar um universo que, de algum modo e por algum tempo, não contivesse observadores, pois os próprios materiais de construção do universo são esses atos de observação participativa". Ele apresenta o ponto central da teoria quântica quando declara: "Nenhum fenômeno elementar pode ser considerado um fenômeno até que seja observado (ou registrado)".


(Gregg Braden - "A matriz divina)

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publicado às 22:28

 

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach, publicadas somente em 1888 por Engels. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro mas reducionista: ”A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência  humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso pois resulta do conjunto de suas relações totais.
Descritivamente, sem querer definer a essência humana, ela emerge como um nó de relações voltadas para todas as direções: para baixo, para cima, para dentro e para fora. É como um rizoma, aquele bulbo com raízes em todas as direções. O ser humano se constrói na medida em que ativa este complexo de relações, não somente as sociais.
Em outros termos, o ser humano se caracteriza por surgir como  uma abertura ilimitada: para si mesmo, para o mundo, para o outro e para a totalidade. Sente em si uma pulsão infinita, embora encontre somente objetos finitos. Daí a sua permanente implenitude e insatisfação. Não se trata de um problema psicológico que um psicanalista ou um psiquiatra possa curar. É sua marca distintiva, ontologógica, e não um defeito.
Mas aceitando a indicação de Marx, boa parte da construção  do humano se realiza, efetivamente, na sociedade. Daí a importância de considerarmos qual seja a formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações.
Sem oferecer as devidas mediações, diria que a melhor formação social é a democracia: comunitária, social, representativa, participativa, debaixo para cima e que inclua a todos sem exceção. Na formulação de Boaventura de Souza Santos, a democracia deve ser ser sem fim. Temos a ver com um projeto aberto, sempre em construção que começa nas relações dentro da família, da escola, da comunidade, das associações, dos movimentos, das igrejas e culmina na organização do estado.
Como numa mesa, vejo quatro pernas que sustentam uma democracia mínima e verdadeira, como tanto acentuava em sua vida Herbert de Souza (o Betinho) e que juntos em conferências e debates, procurávamos difundir entre prefeitos e lideranças populares.
A primeiro perna reside na participação: o ser humano, inteligente e livre, não quer ser apenas beneficiário  de um processo mas ator e participante. Só assim se faz sujeito e cidadão. Esta participação deve vir de baixo para não excluir ninguém.
A segunda perna consiste na igualdade. Vivemos num mundo de desigualdades de toda ordem. Cada um é singular e diferente. Mas a participação crescente em tudo impede que a diferença se transforme em desigualdade e permite a igualdade crescer. É a igualdade no reconhecimento da dignidade de cada pessoa e no respeito a seus direitos que sustenta a justiça social. Junto com a igualdade vem a equidade: a proporção adequada que cada um recebe por sua colaboração na construção do todo social.
A terceira perna é a diferença. Ela é dada pela natureza. Cada ser, especialmente, o ser humano, homem e mulher, é diferente. Esta deve ser acolhida e respeitada como manifestação das potencialidades próprias das pessoas, dos grupos e das culturas. São as diferenças que nos revelam que podemos ser humanos de muitas formas, todas elas humanas e por isso merecedoras de respeito e de acolhida.
A quarta perna se dá na comunhão: o ser humano possui subjetividade, capacidade de comunicação com sua interioridade e com a subjetividade dos outros; é um  portador de valores como  solidariedade, compaixão, defesa dos mais vulneráveis e de diálogo com a natureza e com a divindade. Aqui aparece a espiritualidade como aquela dimensão da consciência que nos faz sentir parte de um Todo e como aquele conjunto de valores intangíveis que dão sentido à nossa vida pessoal e social e também a todo o universo.
Estas quatro pernas  vem sempre juntas e equilibram a mesa, vale dizer, sustentam uma democracia real. Ela nos educa a sermos co-autores da construção do bem comum; em nome dele aprendemos a limitar nossos desejos por amor à satisfação dos desejos coletivos.
Esta mesa de quatro pernas não existiria se não estivesse apoiada no chão e na terra. Assim a democracia não seria completa se não  incluisse a natureza que tudo possibilita. Ela fornece a base físico-química-ecológica que sustenta a vida e a cada um de nós.  Pelo fato de terem valor em si mesmos, independente do uso que fizermos deles, todos os seres são portadores de direitos. Merecem continuar a existir e a nós cabe respeitá-los eentendê-los como concidadãos. Serão incluidos numa democracia sem fim sócio-cósmica. Esparramdo em todas estas dimensões realiza-se o ser humano na história, num processo ilimitado e sem fim.

(Leonardo Boff é autor de O destino do homem e do mundo, Vozes 2000.)

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publicado às 20:35

 

Padres gays, orgias e filhos clandestinos são parte da rotina do Vaticano, descreve jornalista italiano em livro

"Os dois acompanhantes lhe homenageiam, espremendo-o no meio, em um sanduíche. Envolvem-no em uma dança muito sensual. Esfregam-se, rodeiam, esmagam-se, abrem a sua camisa, o acariciam, tocam nele. Dirty dancing a três em uma variação homossexual. O grupo olha para eles de cima a baixo. Apreciam. Aplaudem. Incitam. Assobiam. Cutucam. O francês [no meio dos acompanhantes] é um padre. Poucos dias antes havia celebrado a missa da manhã na basílica de São Pedro. No Vaticano."
A cena é de uma festa em Roma, uma entre as muitas nas qual padres, bispos e cardeais exercem a sexualidade que as regras da sua própria Igreja Católica restringem e condenam, de acordo com a descrição feita pelo jornalista italiano Carmelo Abbate em seu novo livro, "Sex and the Vatican -  viaggio segreto nel regno dei casti" (em tradução livre, "Sexo e o Vaticano - viagem secreta no reino dos castos").
O fenômeno da sexualidade na Igreja Católica, segundo o autor, é gigantesco e complexo. Fazem parte deste mundo os padres gays que optam por uma vida dupla; os sacerdotes que se relacionam com mulheres clandestinamente; e mesmo os filhos desses relacionamentos, que são abortados, escondidos ou privados de um pai pela vida inteira, para que se evite escândalos.
“Entre os sacerdotes que não respeitam a castidade, há muitos que têm uma verdadeira vida paralela, uma companhia fixa com a qual não apenas fazem sexo, mas com quem vivem uma vida escondida, como marido e mulher", afirmou Abbate, em uma entrevista exclusiva ao UOL Notícias.
O jornalista conta que a investigação, nascida de uma reportagem publicada na revista italiana "Panorama", terminou como um extenso mergulho nesse mundo, munido de uma câmera escondida para garantir "provas sobre aquilo que iria contar".
E apesar de ter seu foco em Roma, Abbate garante que o cenário que ele descreve não está restrito ao núcleo do Vaticano. "Da Alemanha à França, da Espanha à Irlanda, da Suíça à Áustria, da Polônia à África, da América Latina aos Estados Unidos e ao Canadá. Acontece a mesma coisa em toda parte do mundo", afirma.
Procurada pela reportagem, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disse que não tinha conhecimento do livro e por isso não poderia comentar os temas citados.

Acompanhe os principais trechos da entrevista.

UOL Notícias: Em seu livro, o senhor denuncia vários casos de padres que têm uma vida religiosa tradicional ao mesmo tempo em que também exercem sua sexualidade. Como o senhor fez a investigação para chegar a essas histórias? Qual era o seu objetivo em publicar o livro?
Carmelo Abbate: Realizei a reportagem com uma câmera escondida, isso com o objetivo de ter provas sobre aquilo que iria contar. O objetivo do meu trabalho é trazer à tona a vida escondida de grande parte do clero católico, como padres que têm uma vida sexual secreta, tanto homossexuais quanto heterossexuais. Há padres que têm uma companhia fixa e até mesmo filhos.
E me choca especialmente a atitude da alta hierarquia eclesiástica, o comportamento dos bispos, quando tomam conhecimento das relações secretas dos religiosos, as tentativas de convencer as mulheres a abortarem, dar o filho para adoção, os contratos que garantem o sustento e compram o silêncio das mães com relação à identidade dos pais destas crianças.
UOL Notícias: O senhor diz que o Vaticano conhece a questão dos padres gays e mesmo dos abortos. Quais são as verdadeiras dimensões do fenômeno?
Abbate: Coletar dados para dimensionar o fenômeno é uma tarefa difícil. Difícil porque, como é óbvio, não há estudos e tabelas oficiais, é preciso se contentar com estimativas parciais, que não têm a pretensão de trazer a verdade científica, mas que podem ajudar a entender quão grande é o terreno sobre o qual caminhamos.
As tentativas mais articuladas vêm dos Estados Unidos. Segundo vários estudos do psiquiatra Richard Sipe, ex-monge beneditino e ex-sacerdote, 25% dos padres americanos tiveram relações com mulheres depois da ordenação. Outros 20% estiveram envolvidos em relações homossexuais ou se identificam como homossexuais ou se sentiram em conflito com essa questão.
No Brasil, o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) realizou uma pesquisa anônima com 758 padres católicos: 41% admitiram ter tido relações sexuais. Metade se diz contrária ao celibato.
Vamos à Europa. Eugene Drewermann, escritor, crítico, teólogo e ex-padre, afirma que na Alemanha, em um total de 18 mil sacerdotes, pelo menos seis mil vivem com uma mulher.
O jornal “The Guardian” fala de milhares de casos de filhos de padres católicos no Reino Unido. Segundo Pat Buckley, bispo irlandês que fundou um grupo de apoio para amantes de padres, pelo menos 500 mulheres na Irlanda têm uma relação com um padre católico.
E na Itália? Nada de nada. Ninguém nunca tentou esboçar qualquer levantamento. E tente entrar em contato com os psiquiatras que acompanham os casos mais difíceis de padres envolvidos em affaires sexuais. Evitam você como se fosse a peste.
UOL Notícias: Então seria possível afirmar que este é um fenômeno presente no mundo inteiro?
Abbate: Da Alemanha à França, da Espanha à Irlanda, da Suíça à Áustria, da Polônia à África, da América Latina aos Estados Unidos e ao Canadá. Acontece a mesma coisa em toda parte do mundo, não só em Roma e nas vizinhanças do Vaticano.
UOL Notícias: O seu livro conta de padres que procuram espaços para expressar a sexualidade, seja em bares, seja na internet, com perfis secretos no Facebook nos quais assumem a homossexualidade, mas que ao mesmo tempo não desejam abandonar a vida religiosa. Depois de tudo que o senhor conheceu, como vê exigência do celibato?
Abbate: O celibato não funciona, é óbvio. Nunca funcionou. O sexo é onipresente. Estão envolvidos nesses casos não só padres, mas bispos e cardeais. A cultura do sigilo que permeia a Igreja existe há milênios, ditada pelos eclesiásticos. Os eclesiásticos são um círculo restrito que controla toda a igreja e detém todo o poder, e o poder exige um nível de sigilo. O resto do mundo que fique na ignorância.
UOL Notícias: O Vaticano nega os casos? Como reage a Igreja?
Abbate: Para o Vaticano, o centro do problema é o escândalo, não o pecado individual. Porque o escândalo vai além da questão individual e alcança a instituição, alimenta uma série de dúvidas fortes sobre quem é envolvido. O escândalo coloca o problema de uma Igreja que mantém a seu serviço aqueles que não cumprem com sua missão universal, aqueles que traem essa missão. Em resumo, o escândalo afugenta os fiéis da Igreja.
Durante o tempo em que estive envolvido com essa questão, entendi uma coisa: a Igreja não quer problemas. O respeito aos pobres fiéis ingênuos, salvo raríssimas exceções, é fator secundário. Muito diligente nas declarações de princípio, muito hipócrita nas questões práticas: esta é hierarquia vaticana. Esta é a Igreja de Roma. Seu primeiro mandamento é salvaguardar sua espécie, uma espécie a caminho da extinção.
 
Uma pesquisa com câmera escondida, seguida por testes rigorosos e controles cuidadosos. Durante 20 dias Carmelo Abbate, jornalista da revista Panorama, acompanhado por um "cúmplice" gay, se infiltrou nas noites quentes de alguns padres que, em Roma, levam uma vida dupla incrível: de dia são sacerdotes em trajes clericais, e à noite, tirando a batina, são homens perfeitamente integrados nos ambientes homossexuais da capital. Daqui emergiu uma investigação sobre o campo que permitiu descobrir um realidade inédita e deveras inquietante: sacerdotes que participam de festas noturnas com os homens escort; que têm relações homossexuais com parceiros casuais; que frequentar clubes de bate-papo e encontros gay.
 Neste texto a seguir, o autor descreve como Michele, um italiano gay de 25 anos, conhece um padre francês em uma sauna de Roma. (Tradução livre do original)

Michele passa. Olha. Eles se olham. Depois volta. Passa de novo. A mão agarra na toalha e o puxa para dentro de uma cabine.
Beijam-se, tocam-se, amam-se. Não é um encontro de sexo casual como de costume. Tudo é muito suave, tranquilo, educado, leve. Belo. Alcançado o orgasmo, a mão se esgueira até Michele. Aconchega-se ao seu lado, o abraça, em silêncio. Cochilam.
O despertar não é desconfortável. Apresentam-se, a mão quer saber o que Michele faz da vida, onde mora, quantos anos tem.
- "E você, de onde é?", diz Michele.
- "Sou francês", diz a mão.
- "E o que faz em Roma?", diz Michele.
- "Estudo teologia", diz a mão.
- "Ah, vá!", diz Michele.
- "Sim", diz a mão.
- "Legal", diz Michele.
- "Mas você entendeu?", diz a mão.
- "Claro", diz Michele.
- "Se quer me fazer uma pergunta, pode fazer", diz a mão.
- "Você é um padre?", diz Michele.
- "Sim", diz a mão. 
(...)
Michele pergunta como pode um padre não conseguir seguir o ensinamento da Igreja. Como pode não ser coerente com as coisas que prega no púlpito. Não julga. Pergunta. A mão não se esquiva. Responde. Quer ser compreendido. Fala da beleza e da grandeza do Senhor, da importância do credo. E de como um padre é antes de tudo um homem, e só depois um padre.
(Thiago Chaves-Scarelli)


Como é que o lóbi 'gay' conseguiu infiltra-se nos muros do Vaticano? Como é que a Igreja católica romana ficou refém do lóbi 'gay'? Talvez a resposta esteja no relato do livro de Carmelo Abbate.

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publicado às 17:00



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