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É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de Papa. Ele pode fazer de sua teologia particular, a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto Cardeal, nomeado Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois Papa. Tal fato não goza de legitimidade  e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente condenou mais cem teólogos e teólogas  por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo.        
Razões de saúde e o sentimento de impotência face à gravidade da crise na Igreja, o levaram a renunciar. Mas não só. No texto de sua renúncia dá conta da “diminuição  de vigor do corpo e do espírito”e de “sua incapacidade” de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar.  Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais.
As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas  acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como “pequeno mundo reconciliado”; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso “subsistit” que significa: só na Igreja Católica subsiste a  verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais “igrejas’ não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma, não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido  o colapso e coerentemente renunciado?  Há razões para esta hipótese.
O Papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirarador, objeto aliás de algumas conversas pessoais com ele.  De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua exdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz  com que  toda a humanidade seja uma “massa condenada”. Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é “um pequeno mundo reconciliado” que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Basta poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger incorporou esta visão. Completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituida por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Ela é apenas este pequeno grupo. Desconsidera os discípulos, as mulheres e  as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que “o pequeno mundo reconciliado” assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa “o mundo reconciliado” para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo.        
A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores,  não conseguem salvar porque porque não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Por isso que ela é eivada de relativismos. Consequentemente o Card. Ratzinger condena duramente a teologia da libertação porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja,  é insuficiente e  vã.
A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é  a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação sustentada na minha tese doutoral, mereceu uma explícita condenação do Card.Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que susbsiste vem de “subsistência” que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais “igrejas” possuem “somente” elementos eclesiais. Esse “somente” é um acréscimo arbitrário que fez ao texto oficial do Concílio.  Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: “ganhar corpo”, “realizar-se objetivamente”. Esse era o “sensus Patrum” o sentido dos Padres conciliares.
Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do “pequeno mundo reconciliado” há demasiados pedófilos até entre cardeais e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadora diante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. Dentro da Cidade dos Homens, se encontra também a Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres (outro nome para secularaização) que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política.
A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo Card. Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do “fora da Igreja não há salvação” se introduziu no discurso dos Papas e dos teólogos “o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo”.
Nutro a séria suspeita de que, tal fracasso e colapso de seu edifício teológico, lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa “sentir incapacidade” de exercer seu ministério. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

(Leonardo Boff)

publicado às 15:52


A Igreja Católica leva consigo um imenso paradoxo. O sociólogo Olivier Bobineau descreveu bem a situação. "A Igreja católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção - o descentramento segundo o amor - e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial - de que a confissão é o arquétipo - colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada."
Esta junção paradoxal é superável? Os desafios para a Igreja com o novo Papa são muitos. Ficam aí alguns, sem cuidar muito da sua ordem.
1. Desafio essencial é a conversão de todos os seus membros ao Evangelho, começando pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres. Acreditar em Jesus e tentar segui-lo. E anunciar a fé viva de sempre na linguagem do nosso tempo, articulando-a com a razão. E, contra um cristianismo reduzido a proibições, apresentá-lo como mensagem positiva e realização felicitante de sentido.
2. Outro, decisivo para o futuro: a reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja em geral (há quem se pergunte: mas a Cúria será reformável?). Tem de haver mais simplicidade (acabar com aqueles títulos todos: Eminência, Excelência, Monsenhor...) e transparência e democraticidade. Pergunta-se, por exemplo, se o actual modelo de eleição papal não sofre de endogamia, já que o Papa escolhe aqueles que elegerão o sucessor. Não se impõe um processo mais participativo e universal? Quanto às dioceses, alguém já sugeriu, em vez de dioceses gigantes, um bispo para um número mais reduzido de fiéis, que deveriam participar na sua eleição.
3. É intolerável que possa haver sequer suspeitas de que pelo Banco do Vaticano passa lavagem de dinheiro. Exige-se, pois, uma gestão eficaz e transparente. Jesus foi contundente: "Não podeis servir a Deus e a Mamôn" (o Dinheiro divinizado).
4. Tem de continuar a mão inflexível da tolerância zero no que se refere à pedofilia.
5. É uma pergunta enorme, a de um biblista belga, que me disse um dia em Bruxelas: como é que o movimento iniciado por Jesus desembocou numa instituição com um Papa chefe de Estado?
Evidentemente, onde há homens e mulheres - e os católicos são 1200 milhões - tem de haver um mínimo de instituição. O que ela não pode é ter o primado, pois este pertence às pessoas e aos seus problemas. O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas, ao serviço da paz, dos direitos humanos e do diálogo entre as nações.
6. Sem se negar, a Igreja tem de modernizar-se e, sendo verdadeiramente global, tem de estar aberta ao pluralismo. Esta abertura implicará também o acesso da mulher aos ministérios ordenados, o fim da lei do celibato, a reconciliação com a sexualidade e a revisão de questões como a pílula e o preservativo, a possibilidade da ordenação de homens casados, a comunhão para os divorciados recasados.
7. A continuação do diálogo ecuménico intracristão e inter-religioso e intercultural é um desafio irrenunciável, bem como o contributo para o debate nas questões de bioética.
8. A Igreja de Cristo tem de estar ao lado dos problemas dos homens e das mulheres, a começar pelos mais fragilizados. Por isso, espera-se dela pronunciamentos sem tibieza sobre a justiça social, a condenação de doutrinas económicas que endeusam o lucro, o combate pela dignidade de todos, a salvaguarda da paz, dos direitos humanos, a preservação da natureza.

(Anselmo Borges)

publicado às 15:50

Necessitamos de numerosas confissões de mulheres inteligentes para termos idéia sobre a verdadeira psicologia feminina.

Uma série de palavras e expressões usadas pelo povo, com referência à mulher, mostra o pensamento da cultura brasileira : seus condicionamentos da infância à velhice; a posição social, as funções orgânicas, o campo profissional, o estereótipo da mulher-objeto, a moral imposta, o duplo valor: social e sexual.

 

Nossa sociedade nos condicionou a considerar as idéias de feminilidade e masculinidade baseadas em conceitos antigos, conceitos estes que foram formulados para tentar explicar o mundo como era conhecido pelos homens daquela época e que perpetuou-se até os nossos dias.

 

Assim, agressividade, autoridade, decisão, vigor, defesa, independência e raciocínio analítico são características masculinas até hoje, apesar de todo avanço sociológico da humanidade.

 

Passividade, dependência, submissão, sensibilidade, emoção, superficialidade, indecisão, afetividade, intuição, ilogicidade e malícia são femininas.

 

A natureza nos fez masculinos ou femininos. As crenças e valores de nossa cultura nos tornam espécie de homens ou de mulheres.

 

Infelizmente, em pleno ano de 2000 a mulher é um ser humano anulado e, na maioria das vezes sua invisibilidade se dá nos mais diversos campos; nos ambientes sociais, nas companhias particulares, no governo e seus altos escalões e até mesmo no núcleo familiar, onde são os homens que decidem. Elas são notadas, unicamente, por sua ausência ou por uma participação passiva. Os homens são onipresentes, enquanto elas não são sequer percebidas. Só são percebidas quando portadoras de extrema beleza física.

 

As expressões origem da mulher e evolução da mulher têm sentido diferente de seus equivalentes masculinos pois a origem da mulher foi a costela do homem, e a evolução da mulher se fez nas últimas décadas. Nada disso é verdade e sim uma mentira que vem sendo pregada a séculos.

 

Uma forma de desvalorização dada à mulher em nossa cultura, encontra-se na enfatização dada à sua aparência física em detrimento da capacidade intelectual. Basta ser bonita para assegurar um lugar na sociedade e, por isso, ela trata de usar os recursos que lhe são destinados para tanto. Isto a estereotipa como sendo aquele ente que não precisa ser culto e nem inteligente.

 

Ser feminina significa até hoje o mostrar-se passiva, fútil, meiga, submissa, carinhosa, etc e rotular-se “ser mulher”. Assim, deve apenas preocupar-se em enfeitar-se, embonecar-se.

 

A tentativa de afirmação depõe contra a sua feminilidade. Ela é burrinha, mas bem engraçadinha, do jeito que o homem gosta. Você é bonita demais para ter tanto talento. Assim dizem especialmente da loira, que leva nos últimos anos o estigma que Marilyn Monroe legou. O homem, com seu aspecto físico não é relevante, mas apenas um atrativo a mais. Suas capacidades intelectual e sexual é que são valorizadas, infelizmente até por elas mesmas. Se for feio mas inteligente, não terá problema e pobre da mulher que se encontra na mesma situação. Ele não gosta de ser chamado de burro e não dá nenhuma importância ao fato de ser chamado de gordo. Por outro lado, para agradar a mulher, atingirá seu objetivo se chamá-la de linda, bonita, gata, belezinha, boneca, bonitona. Da mesma forma, se a mulher quiser elogiar a um homem, é suficiente chamá-lo de inteligente ou elogiar sua capacidade sexual: bom de cama, gostosão, gato, machão...


(Albertino Aor da Cunha - "A mentira nua e cruaa")

publicado às 01:47


A todas as mulheres pelo seu dia

por Thynus, em 08.03.13
Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .
Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.
Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !
És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !
Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...
Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus .

Emmanuel

publicado às 17:31


A pavorosa ilusão

por Thynus, em 07.03.13

Pavorosa ilusão da eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema da política opressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestável crença
Que envenenas delicias inocentes,
Tais como aquelas que no céu se fingem.
Fúrias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chama;
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror terrível quadro
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem de um Deus, quando quer, faz um tirano.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inútil vénia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessárias,
Chama espantosos, voluntários crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despótica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a fútil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não opressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido arrojando
Sobre os mortais a ríspida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, danados peitos,
Pungidos pelo sôfrego interesse,
Alto, impassível numen, te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véu compacto e venerando,
Atroz satisfação d’antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência:
Ou quer manter aspérrimo domínio,
Que os vaivéns da razão franqueia e nutre.
Ei-lo em santo furor todo abrasado,
Hirto o cabelo, os olhos cor de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Ei-lo cheio de um Deus tão mau como ele;
Ei-lo citando os hórridos exemplos,
Em que aterrada observa a fantasia
Um Deus o algoz, a vítima o seu povo.
No sobrolho o pavor, nas mãos a morte,
Envolto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tirano omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hipócrita feroz, Moisés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
“Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, voa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisível te precede;
Dos ímpios, dos ingratos, que me ofendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frágeis metais, a deuses surdos.
Sepulta as minhas vítimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas.”
Não lha retarda o rábido profeta.
Já corre, já vozeia, já difunde
Pelos brutos atónitos sequazes
A peste do implacável fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os pais, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricídio.
Os campos de cadáveres se alastram;
Sussurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tão valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu génio;
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles que não crêem que Deus existe.
Neste quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos séculos envolta,
Desde aqueles cruéis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a falaz doutrina,
E de crédulos pais preocupados
As quimeras, visões, fantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pai dos homens, não flagelo;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso delas;
Porque á nossa existência não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor é lei do Eterno, é lei suave:
As mais são invenções; são quase todas
Contrarias á razão e á natureza,
Próprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jamais diferem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar socorro ao pálido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do aflito,
E a remir a inocência consternada,
Quando nos débeis, magoados pulsos
Lhe roxeia o vergão de vis algemas.
Natureza e razão jamais aprovam
O abuso das paixões, aquela insânia
Que, pondo os homens a nível dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguais, quando uns aos outros
Traçamos fero dano, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não pode evitar-se o pensamento.
He inocente a mão que se arrepende.
Não vêem só dum principio acções opostas,
Tais dimanam de um Deus, e tais do exemplo,
Ou do cego furor, moléstia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anseiam fantásticos terrores,
Pregados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortais na voz, n'astúcia.
A bem da tirania está o inferno:
Esse que pintam báratro de angústias
Sería o galardão, sería o fruto
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bela,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; “Se a rigorosa,
Carrancuda opressão de um pai severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para também de amor dar leis ao mundo;
Se obter não podes a união solene,
Que alucina os mortais; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despótica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chama da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzela, e no teu pejo,
Destra iludindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ansioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso himeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno é toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os opressos desejos desafoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, envolvendo-se as vontades,
Gostos iguais se dam e se recebem.
Do jubilo há-de a força amortecer-te;
Do jubilo há-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Hás-de morrer e reviver com ele.
De tão alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora.”
Eis o que hás-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar é um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horríssona pregoa.
Céus não existem, não existe inferno.
O prémio da virtude é a virtude;
He castigo do vicio o próprio vício.

(M. M. B. DU BOCAGE)

publicado às 18:14

Para quem não sabe, a pessoa que chega a reger uma orquestra sinfônica costuma ter começado sua carreira como violinista (a maioria começa assim) no segundo naipe das orquestras; depois de anos passa ao primeiro naipe, e depois de mais outros anos e sendo muito bom chega a spalla (primeiro violino e responsável pela afinação a orquestra.

Alguns poucos spalla chegam a maestro. O cargo é fundamental porque o maestro comanda os músicos, indicando qual ou quais instrumentos entram na hora certa para que o efeito sonoro da música fique compreensível e perfeito, em completa harmonia entre os timbres diferentes de cada instrumento. Daí o gesto do maestro é importantíssimo, porque ele aponta a batuta para o músico com o instrumento certo indicando a hora certa que ele tem que entrar tocando o seu instrumento, seja ele o violino, a viola, o fagote, a clarineta, a flauta, o prato, etc., para que a música se desenvolva corretamente. Este gesto é feito meio compasso antes do som por razões óbvias.
Daí o gesto do maestro antecede cerca de metade a um terço de segundo ao som correspondente àquele gesto. E se o gesto sai errado, na hora errada, a orquetra se descompassa da música porque os músicos são treinados a esperar o comando do maestro para tocarem.
Pois bem. Sabendo deste detalhe importante, vejam este filme e tirem as suas conclusões.


(Texto gentilmente cedido pelo amigo Laplasse Passos)


 

publicado às 01:02

Keith O'Brien pede "perdão" por comportamento que "ficou, por vezes, aquém dos padrões que se esperariam de um padre, de um arcebispo e de um cardeal".
O cardeal escocês Keith O'Brien, que se demitiu na segunda-feira do cargo de arcebispo, devido a acusações de conduta indecente, reconheceu hoje ter tido um "comportamento sexual" inapropriado, e pediu "perdão às pessoas que ofendeu".
"As últimas duas acusações que foram feitas contra mim tornaram-se públicas. No início, contestei-as devido ao seu caráter anónimo e impreciso. Agora, quero aproveitar a oportunidade para reconhecer que o meu comportamento sexual ficou, por vezes, aquém dos padrões que se esperariam de um padre, de um arcebispo e de um cardeal", declarou o alto dignitário, em comunicado.
"Àqueles que ofendi, apresento as minhas desculpas e peço perdão. À Igreja Católica e ao povo da Escócia, também peço desculpa", acrescentou o mais velho clérigo britânico da Igreja Católica, com 74 anos.
Estas declarações surgem após a publicação, a 24 de fevereiro, no jornal britânico The Observer, de um artigo em que três padres e um ex-padre acusavam o cardeal O'Brien de ter tido "comportamentos indecentes" para com eles, a partir dos anos 1980.
Um padre queixou-se de ter sido vítima de atenções indesejadas por parte do cardeal, após um serão "bem regado".
Um outro afirmou que O'Brien aproveitava as orações noturnas para ter atitudes impróprias.
O cardeal negou, então, tais acusações, mas um dia após a sua divulgação, anunciou, todavia, a demissão do cargo de arcebispo de Saint Andrews e Edimburg, na Escócia, e decidiu renunciar à participação no conclave destinado a eleger o sucessor do papa Bento XVI.

Lobby gay no Vaticano pode ter levado Papa a abdicar 

No momento de sua iminente despedida, voltam à tona os escândalos que marcaram o pontificado de Bento XVI. De acordo com o diário italiano de centro-esquerda La Repubblica, no dia 17 de dezembro de 2012, quando deitou os olhos sobre o dossiê elaborado por três cardeais octogenários incumbidos de investigar o chamado caso Vatileaks – o escrutínio de documentos papais –, Bento XVI tomou a decisão de que renunciaria. 

Em miúdos, o relatório de 300 páginas se baseia no não cumprimento de dois mandamentos, o sexto e o sétimo. O sexto mandamento proíbe o adultério, mas, como esse ato não é realizável no mundo dos prelados, fala-se em proibição da pederastia. 

Por sua vez, o sétimo mandamento refere-se a casos de corrupção, também identificados pelos cardeais liderados pelo espanhol Julián Herranz. Os outros dois cardeais, responsáveis pela investigação realizada entre abril e dezembro do ano passado, são o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko. 

Segundo o inquérito, baseado em entrevistas com dezenas de bispos, cardeais e laicos, uma série de sacerdotes da Santa Sé teriam pecado, e, até prova em contrário, esses graves pecados poderão se transformar em delitos. 

O quadro piora quando o La Repubblica revela o seguinte: oficiais do Vaticano teriam, por conta de suas atividades mundanas, sofrido “influências externas” de laicos. 

Tradução: os oficiais do Vaticano estão sendo chantageados.

O escândalo, contudo, não pode ser visto como um complô de um diário de centro-esquerda, visto que o Corriere della Sera, prestigiado diário de centro-direita, também reportou sobre a gravidade do dossiê em 11 de fevereiro, data em que Bento XVI anunciou sua renúncia.
Difícil mesmo é saber se esse último escândalo foi, de fato, a gota d’água para o atual Papa.
Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, revelou que não haverá “nem desmentidos, nem comentários” sobre as “informações e opiniões” feitas pela imprensa às vésperas da resignação de Bento XVI.
O La Repubblica, é verdade, pode deixar o leitor por vezes perplexo. Por exemplo, diz que esta foi a primeira vez que a palavra “homossexualidade” foi pronunciada nos aposentos de Bento XVI.
O diário revela que os cardeais identificaram villas, saunas, e residências usados por um arcebispo italiano com seus amantes.
No entanto, casos gays não são novidades no Vaticano – e é difícil acreditar que a palavra “homossexualidade” nunca tenha sido citada pelo atual Papa. Angelo Balducci, um dos Cavalheiros de Sua Santidade, não foi afastado do cargo em 2010 porque tinha várias relações com homens, inclusive com o nigeriano Chinedu Thomas Ethiem, cantor de capela da basílica de São Pedro?
Bento XVI, diga-se, não permite gays ativos a estudar para o sacerdócio. Seria, portanto, interessante saber os termos utilizados pelo Papa ao tratar o caso Balducci.
A corrupção no relatório dos cardeais também parece endêmica, inclusive no Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do IOR, foi despedido em maio de 2011. Seu crime: tentava, há mais de dois anos, limpar as finanças da Igreja. Tedeschi, que após sua demissão temia ser assassinado, escreveu um documento oficial para que sua luta fosse  continuada pelo seu sucessor. O cargo deixado por Tedeschi só foi preenchido nove meses mais tarde…
E, é claro, são numerosos os casos de pedofilia não resolvidos – e vítimas, por tabela, não conseguem processar padres culpados.
Devido “à idade avançada”, Bento XVI renunciará dia 28 de fevereiro. Até a Páscoa um novo Papa deverá ser escolhido. Ele terá de lidar com o dossiê de 300 páginas sobre os podres da Igreja que talvez tenham levado Bento XVI a abdicar.

( http://www.cartacapital.com.br/internacional/lobby-gay-no-vaticano-pode-ter-levado-papa-a-abdicar/ )

Eugene Drewermann (ex-padre) reconhece, fruto da sua experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. Homossexualidade que era considerada pela Igreja como uma das formas mais graves de pecado (os acusados pelo "crime nefando" eram sentenciados à fogueira pela Santa Inquisição). Se fosse agora, muito havia que queimar!
Também entre os Bispos e Cardeais ainda há muita gente que não se esqueceu do velho "viciozito".

publicado às 23:10


“Deixe a Cúria, Pedro”

por Thynus, em 03.03.13
Poema de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Félix do Araguaia para reflexão pós-renúncia do papa.Ele é um pastor, um profeta e um poeta que vive ameaçado de morte por defender indígenas e camponeses. Sempre pleiteou por uma Igreja pobre, testemunhal, longe dos hábitos palacianos e principescos dos Papas, cardeais e bispos que estão a quilômetros luz do exemplo do Nazareno, carpinteiro, campones mediterrâneo, pobre e Filho de Deus encarnado em nossa miséria. Enquanto a instituição-Igreja não se espelhar nesse pobre de Nazaré andará sempre às voltas com escândalos derivados do poder que ela assumiu como eixo estruturador de toda sua organização.Vale recordar a frase do católico Lord Ancton, professor de história em Cambridge ao comentar o poder absoluto das Papas renascentistas:”Todo poder corrempe e o absoluto poder corrompe absolutamente”. É o que temos, tristemente, testemunhado no ocaso do pontificado de Bento XVI.

(LBoff)
 Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinédrio e as muralhas,
Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados
pelas palavras de vida e amor.

Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.

A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anônimos.

Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.

O povo é apenas um “resto”,
um resto de esperança.
Não O deixe só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.

Diga-lhes, diga-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.

Não te conturbes mais!
Como você O ama,
ame a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.

Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas…
… a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia,
ecumenicamente, aberto para o mundo.


Pedro Casaldáliga, Bispo.
Fonte: Revista Missões.

publicado às 13:05


Modernismo

por Thynus, em 01.03.13

Conjunto de movimentos culturais que buscava romper com as tradições acadêmicas. Teve origem na Europa do século XIX, que experimentava avanços científicos e tecnológicos. Marcado por guerras e revoluções, esse período fez aflorar uma série de novas ideias que incitavam mudanças na organização social e na vida cotidiana, bem como nas artes plásticas e na literatura. No Brasil, o movimento foi deflagrado pela Semana de Arte Moderna, em 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Lá foram expostos quadros e realizaram-se saraus, que causaram uma enorme efeverscência na cultura brasileira. Seus artistas negavam o ideário romântico, parnasiano e realista, que era considerado europeizante e deformador da identidade brasileira. O modernismo se iniciou a partir de outros movimentos, como impressionismo, cubismo, surrealismo etc., e com eles manteve laços estreitos. Seus principais artistas foram Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Candido Portinari, nas artes plásticas. Os renomados escritores Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Olavo Bilac, entre muitos outros, também se destacam na literatura.

(mo.der. nis.mo)
sm.
1. Característica, qualidade, caráter do que é moderno, novo (modernismo de linguagem, modernismo de estilo).
2. Preferência pelo que é moderno; tendência para aceitar o novo; MODERNICE
3. Adoção incondicional de ideias e práticas modernas ainda não consagradas pelo uso.
4. Arq. Art.pl. Liter. Mús. Conjunto de movimentos na literatura, nas artes plásticas, na música e na arquitetura que, a partir do fim do séc. XIX até a década de 1930, rompe com as tradições acadêmicas; arte moderna.
5. Bras. Art.pl. Liter. Movimento literário e artístico, deflagrado pela Semana de Arte Moderna (1922), de ruptura, inovação e renovação estéticas, formais e conceituais.
6. Teol. Movimento reformista cristão, condenado por Pio X, em 1907, de reinterpretação do credo e da doutrina tradicionais da Igreja Católica à luz da moderna exegese bíblica que levava em conta a crítica histórica, científica e filosófica.
[F.: moderno - + -ismo; fr. modernisme. Ant. ger.: arcaísmo. Ideia de: mod-.]
(Dicionário Aulete digital) 

publicado às 17:57


Refocilar é preciso!

por Thynus, em 01.03.13

Fevereiro é sempre um mês que carrega em si a agradável idéia de menos trabalho (para quem já o tem), seja por ser um mês mais curto (mesmo nos anos bissextos), seja pela constância com a qual o Carnaval nele desponta. E mês também um pouco indefinido, inclusive quanto à origem do nome februarius (talvez vindo do latim februare/purificar), e acabou se tornando para nós uma época raramente recomendável para iniciar projetos e atividades, exceto no insistente e fragmentado calendário escolar. Fevereiro parece um intervalo temporal menos sério e austero, quase que deixando levemente suspensa a gravidade de nós requerida para o restante dos meses; nele, o nosso desvelo dá-se o direito de relaxar um pouco e dissolve em parte o apego aos cronogramas implacáveis ("depois de fevereiro a gente vê como faz"). No entanto, apesar da fingida vacuidade, fevereiro lembra para muitos um período de agradável refocilamento. Refocilamento? Será que Assis Valente sabia disso ao escrever "Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros, que nós queremos sambar?" Nosso idioma guarda delícias surpreendentes e uma delas é que essa estranha palavra, refocilamento, significa recuperação das energias perdidas. De onde vem tal entendimento? Em latim o vocábulo focus (fogo) ganhou o diminutivo focilus (foguinho) não na acepção ébria, tão inconveniente por estes festejos, mas indicando o esquentar, aquecer, e, por extensão, reanimar. Refocilar é, portanto, reaquecer e revigorar! Uma pitada de erudição? E só lembrar que Camões usa o verbo no Canto 9 de Os lusíadas, dizendo: "Algum repouso, enfim, com que pudesse / refocilar a lassa humanidade". Fica malicioso perguntar a alguém se já está preparado para refocilar tranqüilamente nos feriados ou, melhor ainda, indagar a posteriori na volta ao trabalho: "refocilaste bem?" Para muita gente, refocilar implica antes de tudo em ser capaz de passar os dias de folga morgando. Morgar, essa gíria brasileira que quer dizer, entre outras coisas, dormir, nada fazer, deve ter a sua fonte indireta em morgue (necrotério, como descanso) ou, até, em morgado (bens e privilégios herdados que permitiam não trabalhar mais). De qualquer forma, morgar sugere o remanso, o sossego, a habilidade lentamente desejada e desenvolvida para imobilizar as atribulações do cotidiano e evitar perturbações momentâneas. Refocilar é restaurar e reforçar. E recompor potências, recuperar forças, retomar a animação, isto é, a vitalidade. Note-se que em todos os desdobramentos e identidades desse verbo aparece o prefixo "re" que indica repetição ou reforço de sentido, de forma a trazer de volta aquilo que talvez tenha se ausentado. Mas, logo fevereiro, pouco depois que o ano começa? Não parece prematuro? Refocilar, todavia, é também desenfadar e desenfastiar e aí o prefixo "des" é negativo, de modo a tornar nulo o enfado e o fastio. Qual enfado ou fastio? Aquele que os aborrecimentos, importunações e desprazeres miúdos provocam sorrateiros no nosso viver e que exigem sim uma carga refocilante. Reavivar a chama, dar à vida um tempo de recreio, de recreação (recreare, criar de novo), sinalizando esse recrear com a perspectiva de diversão e júbilo. Não é à toa que as nossas memórias se fartam vez ou outra na recordação de grandes recreios vividos com transbordante alegria na aparentemente longínqua infância. Falamos muito — e isso é importante para afastar a síndrome do ocupacionismo desenfreado — em valorizar o "ócio criativo"; porém, cautela nessa empreita, pois corre-se o risco de querer tornar continuamente produtivo (na acepção utilitarista do termo) aquele tempo livre que tanto reivindicamos. O refocilar deve somar-se ao morgar e disso tudo tem de trazer à tona a possibilidade de viver um fundamental "ócio recreativo"...

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

publicado às 01:50

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