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Sociedades como a nossa, movidas por milhões de homens e mulheres em busca da felicidade, estão se tornando mais ricas, mas não está claro se estão se tornando mais felizes. Parece que a busca dos seres humanos pela felicidade pode muito bem se mostrar responsável pelo seu próprio fracasso. Todos os dados empíricos disponíveis indicam que, nas populações das sociedades abastadas, pode não haver relação alguma entre mais riqueza, considerada o principal veículo de uma vida feliz, e maior felicidade! (Michael Rustin - "What is wrong with happiness?")
A íntima correlação entre crescimento econômico e maior felicidade é amplamente considerada uma das verdades menos questionáveis, talvez até a mais auto-evidente. Ou pelo menos é isso que nos dizem os líderes políticos mais conhecidos e respeitáveis, seus conselheiros e porta-vozes - e que nós, que tendemos a nos basear nas opiniões deles, ficamos repetindo sem pausa para refletir ou pensar melhor. Eles e nós agimos no pressuposto de que essa correlação é genuína. Queremos que eles ajam com base nessa crença de modo ainda mais resoluto e enérgico - e lhes desejamos sorte, esperando que seu sucesso (ou seja, aumentar nossas rendas, o dinheiro à nossa disposição, o volume de nossas posses, bens e riquezas) melhore a qualidade de nossas vidas e nos torne mais felizes.
Segundo praticamente todos os relatórios de pesquisa examinados e resumidos por Rustin, "as melhoras nos padrões de vida em nações como Estados Unidos e Grã-Bretanha não estão associadas a um aumento - e sim a um ligeiro declínio - do bem-estar subjetivo". Robert Lane descobriu que, apesar do imenso e espetacular aumento das rendas dos americanos nos anos do pós-guerra, a felicidade por eles declarada era menor ("The Loss of Happiness in Market Democracies"). E Richard Layard concluiu, a partir de uma comparação de dados transnacionais, que embora os índices de satisfação com a vida declarados cresçam amplamente em paralelo com o nível do PNB, eles só crescem de modo significativo até o ponto em que carência e pobreza dão lugar à satisfação das necessidades essenciais, "de sobrevivência" - e param de subir, ou tendem a decrescer drasticamente, com novos incrementos em termos de riqueza ("Happiness: Lessons from a New Science"). No todo, só uns poucos pontos percentuais separam países com renda média per capita anual entre 20 mil e 35 mil dólares daqueles situados abaixo da barreira dos 10 mil dólares. A estratégia de tornar as pessoas mais felizes aumentando suas rendas aparentemente não funciona. Por outro lado, um indicador social que até agora parece estar crescendo de modo espetacular paralelamente ao nível de riqueza - na verdade, tão rapidamente quanto se prometia e esperava que aumentasse o bem-estar subjetivo - é a taxa de criminalidade: roubos a residências e de automóveis, tráfico de drogas, suborno e corrupção no mundo dos negócios. E cresce também uma incômoda e desconfortável sensação de incerteza difícil de suportar, e com a qual é ainda mais difícil conviver permanentemente. Uma incerteza difusa e "ambiente", ubíqua mas aparentemente desarraigada, indefinida e por isso mesmo a-inda mais perturbadora e exasperante...
Essas descobertas parecem profundamente decepcionantes, considerando-se que precisamente o aumento do volume total de felicidade "do maior número de pessoas" - um aumento provocado pelo crescimento econômico e por uma ampliação do volume de dinheiro e crédito disponíveis - foi declarado, durante as últimas décadas, o propósito principal a orientar as políticas estabelecidas por nossos governos, assim como as estratégias de "política de vida" colocadas em prática por nós mesmos, seus súditos. Também serviu de régua principal para medir o sucesso e o fracasso de políticas governamentais, assim como de nossa busca da felicidade. Poderíamos até dizer que nossa era moderna começou verdadeiramente com a proclamação do direito humano universal à busca da felicidade, e da promessa de demonstrar sua superioridade em relação às formas de vida que ela substituiu tornando essa busca menos árdua e penosa, e ao mesmo tempo mais eficaz. Podemos perguntar, então, se os meios indicados para se alcançar essa demonstração (principalmente o crescimento econômico contínuo, tal como mensurado pelo aumento do "produto nacional bruto") foram escolhidos erroneamente. Nesse caso, o que exatamente estava errado nessa escolha?
(...) Presume-se que o aumento do dispêndio de dinheiro deva coincidir com um movimento ascendente similar da felicidade daqueles que o gastam, mas isso não é imediatamente óbvio. Se, por exemplo, a busca da felicidade como tal, reconhecida como atividade absorvente, consumidora de energia, enervante e repleta de riscos, provoca maior incidência de depressão psicológica, provavelmente mais dinheiro será gasto com antidepressivos. Se, graças a um aumento do número de proprietários de automóveis, a freqüência de acidentes de carros e o número de suas vítimas crescem, assim também as despesas com consertos de veículos e tratamento médico. Se a qualidade da água potável continuar se deteriorando, mais e mais dinheiro será gasto comprando-se garrafas de água mineral a serem carregadas em nossas mochilas ou malas em toda viagem, longa ou curta (vão nos pedir para esvaziar o conteúdo da garrafa ali mesmo quando chegarmos a este lado do controle de segurança do aeroporto, e precisaremos comprar outra garrafa do lado de lá). Em todos esses casos, e numa multiplicidade de situações similares, mais dinheiro troca de mãos, aumentando os números do PNB. Isso é certo. Mas bem menos óbvio é um crescimento paralelo da felicidade dos consumidores de antidepressivos, vítimas de acidentes de automóveis, portadores de garrafas de água - e, de fato, de tantas pessoas que se preocupam com a má sorte e temem que sua vez de sofrer esteja chegando. Nada disso deveria realmente ser novidade.
(...) Nosso PNB considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição de nossas florestas de sequóias e sua substi-tuição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de napalm, armas nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra... programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PNB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena (Jean-Claude Michéa, "L'Empire du moindre mal, Essai sur la civilisation libérale").

(Zygmunt Bauman - "A Arte da Vida")

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publicado às 08:45

 

É da praxe e de bom tom, renovarmos votos de FELICIDADES no início de Novo Ano. Mas o que é a felicidade? A felicidade está no TER ou no SER? A felicidade vem das coisas ou do coração? A felicidade está em "dar" ou no "dar-se"? A felicidade cai do céu de mão beijada, como num golpe de magia (ou num jogo de sorte ou azar), ou será uma conquista do coração, um sentido de vida que se vai configurando passo a passo?

“A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em “divertir-se”. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, cigarros, gente, conferências, livros, fumes — tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite, uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande seio; somos os sugadores, os eternamente em expectativa, os esperançosos — e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo.
A situação, no que refere ao amor, corresponde, como não pode deixar de ser, a esse caráter social do homem moderno, autômatos não podem amar; podem trocar seus “fardos de personalidade” e esperar um bom negócio.” (Erich Fromm, psicólogo – “A Arte de Amar”)

“Observadores indicam que cerca de metade dos bens cruciais para a felicidade humana não tem preço de mercado nem pode ser adquirida em lojas. Qualquer que seja a sua condição em matéria de dinheiro e crédito, você não vai encontrar num shopping o amor e a amizade, os prazeres da vida doméstica, a satisfação que vem de cuidar dos entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a auto-estima proveniente do trabalho bem-feito, a satisfação do "instinto de artífice" comum a todos nós, o reconhecimento, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos; você não encontrará lá proteção contra as ameaças de desrespeito, desprezo, afronta e humilhação. Além disso, ganhar bastante dinheiro para adquirir esses bens que só podem ser obtidos em lojas é um ônus pesado sobre o tempo e a energia disponíveis para obter e usufruir bens não-comerciais e não-negociáveis como os que citamos acima. Pode facilmente ocorrer, e freqüentemente ocorre, de as perdas excederem os ganhos e de a capacidade da renda ampliada para gerar felicidade ser superada pela infelicidade causada pela redução do acesso aos bens que "o dinheiro não pode comprar.” (Zygmunt Bauman, sociólogo – “A Arte da Vida”)
Durante séculos fizémos todo o possível para não viver de amor. Deixámos esta escolha aos santos e aos loucos, aos poetas e aos utupistas precisamente para termos o direito de dizer-nos –consolando-nos ou exorcizando as nossas carências- que não é um tema tão importante para o cidadão comum. Antes de tudo deve estar o trabalho, o dinheiro, o poder, a guerra e a paz, a economia e a política, a família e o Estado, o indivíduo e a comunidade. Chegamos até a pensar que a felicidade pudesse ser vivida sem amor.

“Onde está o teu coração, aí está o teu tesouro!” Esta é a verdade do Evangelho e a razão de viver: só o amor é tempero e sentido de vida. Sem amor não existe felicidade. Toda a felicidade tem como base o amor, como estilisticamente escreveu Frei Betto, na entrada do ano 2000, em mensagem intitulada
"FELIZ ANO-NOVO AOS CORAÇÕES VELHOS!":

* Feliz ano-novo aos que praguejam o solo árido de suas vidas sem garimpar alegrias, e aos que amarram o espírito em teias de aranha sem dar conta de que os dias tecem destinos. Também aos que desaprenderam o sorriso ao olvido da criança que neles residia.

* Feliz ano-novo aos que perambulam às margens da memória e semeiam ódio no quintal da amargura, guardam dinheiro na barriga da alma e penhoram a felicidade em troca de ambições; são náufragos de lágrimas, cegos aos arquipélagos da esperança e fantasiam de asas as suas garras, voejando em torno do próprio ego.

* Feliz ano-novo aos que sonegam carinho e ainda cobram atenção, são alpinista da prepotência que os conduz ao abismo; àqueles que, alheios ao que se passa em volta, ilham-se na indiferença enquanto o mar arde em fogo; e à que gasta saliva tentando se justificar por se disfarçar em pomba e agir como raposa.

* Feliz ano-novo aos que escondem o sol no armário, sopram a luz das estrelas e põem espessas cortinas no limiar do horizonte. Aos que nunca tiveram tempo para a dança, ignoram por que os pássaros cantam e jamais escutaram um rumor de anjos.

* Feliz ano-novo aos que bordam iras com agulhas afiadas, sequestram dignidades e, como os colecionadores de borboletas sentem prazer em espetá-las no interior das cavernas obscuras.

* Feliz ano novo aos faquires de angústias e aos que, equilibrados num fio de sal, trafegam por cima de montanhas de açúcar. Também aos que jamais dobram os joelhos em reverência aos céus e acreditam que a história do Universo tem início e fim neles.

* Feliz ano-novo às mulheres que destilam antigos amores em cápsula de veneno e aos homens que, ao partir, mostram nas costas, a face diabólica que traziam mascarada sob juras de amor.

* Feliz ano-novo aos jovens enfermos de velhice precoce e aos velhos que, travestidos de adolescentes, bailam aos desafinados acordes do ridículo. E aos que atravessam o tempo sem se livrar de bagagens inúteis e ainda sonham em ingressar numa nova era sem tornar carne o coração de pedra.

* Feliz ano-novo aos que já sabem conjugar os verbos no plural; agendam sentimentos e estão sempre atrasados na vida; mendigam admiração e prostituem-se diante da sedução do poder.

* Feliz ano-novo àqueles que dão "mau-dia" ao acordar, afogam em trevas interiores a alegria que lhes resta, encaram a vida como madrasta de história infantil. E aos que julgam que laços de família se cortam com a ponta afiada da língua e ignoram que o sangue escreve letras indeléveis.

* Feliz ano-novo aos que se apegam ao poder como fuligem ao lixo, infantilizados pela mesuras, prenhes de mentiras ao agrado do ouvido alheio, solícitos às providências que assassinam a ética. Sejam também felizes os que tentam corromper os filhos com agrados materiais e nunca dispõem de tempo para olhá-los nos olhos do coração.

* Feliz ano-novo aos navegantes cibernéticos,, mariposas de nações fragmentadas, amantes virtuais que se entregam afoitos ao onanismo eletrônico, digitando a sua própria solidão.

* Feliz ano-novo aos poetas que não sabem tragar emoções e engolem com ira palavras que trariam vida ao mundo. E aos que abominam a arte por desconhecerem que o ser humano é modelado em barro e sopro.

* Feliz ano-novo aos que temem a felicidade ou consideram, equivocadamente que ela resulta da soma dos prazeres. E aos que enchem a boca de princípios e se retraem, horrorizados, diante do semelhante que lhe é diferente.

* Feliz ano-novo às mulheres que se embelezam por fora e colecionam vampiros e escorpiões nos lúgubres porões do espírito. E aos homens que malham o corpo enquanto definha a inteligência, trangênicos prometeus acorrentados ao feixe dos próprios músculos.

* Feliz-ano novo a todos os infelizes, aos que se julgam cegos às infinitas possibilidades da luz e das rotas. Sejam todos agraciados pela embriaguez da alegria divina ao Deus que os habita e ao amor que, como um rio cristalino, jamais nega água a quem se ajoelha, reverencia o milagre da vida e aprende a beber do próprio poço.
 

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publicado às 05:52


Angústia e esperança

por Thynus, em 29.12.12



Rolamos velozmente na estrada e, de repente, ali ao lado, quase na valeta - consequência da brutalidade de um acidente - somos confrontados com o corpo morto do que já foi um ser humano. Ali está, esfacelado, torcido, morto, absolutamente morto. Depois de um calafrio, pode então desabar sobre nós, fulminante, a pergunta: Qual a diferença entre aquilo e o que mais frequentemente encontramos nas mesmas circunstâncias: um cão morto? O resultado brutal é o mesmo: uma coisa que apodrece.
O resultado é, pois, aparentemente de coincidência, mas, consideradas as coisas de cá para lá, isto é, antes da morte, tudo se modifica, como foi dito de modo cru por Erich Fried: "Um cão/que morre/e sabe/que morre/como um cão/e que pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem". Este duplo percurso - de cá para lá, de lá para cá -situa-nos no ponto preciso de confluência do enigma trágico da morte: a coisa mais natural da evidência - tudo o que nasce morre -, e o sobressalto da impossibilidade: como é que alguém autoconsciente - consciente do mundo e de si mesmo - pode morrer? Que momento é aquele em que se deixa de ser neste mundo, mas precisamente assim: nunca mais ser para sempre? É um instante sem antes, sem depois, insecável, único, intangível, irreversível, que escapa a toda a compreensão, pois é absoluto. Dostoievski, em O Idiota, referiu-se-lhe nestes termos: "Pintar o rosto de um condenado no momento em que vai ser guilhotinado... no último quarto de segundo, quando a cabeça já está sob a lâmina decapitante e o homem espera... e sente."
Porque ser homem é viver nessa confluência da evidência da mortalidade e da impossibilidade da representação do morrer e estar morto, estamos marcados por um duplo afecto fundamental (qual será o mais radical?): a angústia e a esperança. Marcel Conche fala-nos do medo, que nos marca desde a raiz e que é como que o eco de nos sabermos temporais, arrastados para um termo inexorável: "Um Medo difuso é o fundo afectivo do nosso ser, a tonalidade afectiva fundamental. O medo está sempre aí. Uma ninharia e temos medo, pois essa 'ninharia', quem sabe?, talvez não seja uma ninharia, talvez seja a morte". Preocupar-nos-íamos com a temporalidade, se fôssemos imortais? Para Ernst Bloch, pelo contrário, a esperança, contra o medo e a angústia, é "o mais humano de todos os movimentos afectivos, só acessível aos seres humanos e ao mesmo tempo referido ao horizonte mais vasto e iluminado". Como escreveu Espinosa, experien-ciamos e sabemos que somos imortais.
Mas morreremos. De qualquer modo, porquê envenenar a vida com a morte, se precisamente a vida é que é decisiva? Como sublinha o filósofo Fernando Savater, deveríamos reflectir muito mais sobre "a maravilha de ter nascido, que é tão grande como o espantoso assombro da morte. Se a morte é não ser, já vencemos uma vez no dia em que nascemos". Pelo nascimento roubámos algum tempo ao nada. Lembrando o velho Epicuro, nunca coexistimos com a morte: enquanto eu estou, ela não está; quando ela estiver, eu já não sou. Se a morte desembocar no nada, já não estaremos lá para nos revoltarmos, para nos darmos conta da angústia de que já não existimos. Mas, por outro lado, precisamente o pensamento de que tudo acaba na morte é intolerável: não se tolera não ir para lado nenhum. Mais do que intolerável é impensável: como é que um existente consciente pode pensar o nunca mais existir?
Por isso, acena sempre um outro pensamento na esperança: Ou será que aquele instante da morte no qual deixamos de pertencer ao tempo é coincidente com o instante da memória criadora de Deus?

(Anselmo Borges - "Janelas do (In)Visível")

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publicado às 10:38




Uma característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro.
Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido...
Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o aqui e agora, o presente a que se segue outro presente. A salvação consiste no amor e fruição do presente...
Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro...
Ora, se pensarmos bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, nenhum ser humano pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando damos por nós, já lá estamos, o que significa que vimos de um passado, que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.
Depois, também não é possível a simples instalação no presente, pois só podemos viver no presente projectando-nos constantemente no futuro. O ser humano está estruturalmente voltado para o futuro, pois é constitutivamente um ser esperante.
Mas, aqui, é necessário perguntar-se: não é a esperança filha da infelicidade e do temor? É célebre a afirmação de Espinosa: "Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança". O que é que isto quer dizer?
Vivemos voltados para o futuro, pois somos projecto: agimos e somos, antecipando sempre. Sem esta antecipação, não poderíamos agir humanamente. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que realmente a esperança também significa que, se desejamos, é porque não temos, e isso implica que se não é feliz. E, depois, quando temos, há sempre o temor de perder o que temos, o que nos coloca em permanente inquietação...
Viver humanamente não pode, portanto, significar viver exclusivamente do futuro e para o futuro, pois viver unicamente da esperança é nunca viver, já que verdadeiramente só se vive no presente. Viver unicamente da esperança seria adiar constantemente a vida, no sentido do viver. Aliás, colocar permanentemente o presente ao serviço do futuro, vê-lo exclusivamente em função do futuro, é abrir as portas ao perigo da tirania: quantos homens e mulheres não foram de facto vítimas do sonho de "amanhãs que cantam"?!...
É isso: querer viver exclusivamente do presente e para o presente não é humano, pois isso significaria viver na imediatidade animal, sem horizonte de futuro e transcendência. Mas, por outro lado, quem quisesse viver exclusivamente do futuro e para o futuro nunca poderia afastar a dúvida de estar apenas a lidar com as suas ilusões.
Assim, a arte de viver humanamente consiste em, a partir do passado, viver com tal intensidade e dignidade o presente que se torna legítimo esperar a vida plena futura...

(Anselmo Borges - "Janelas do (In)Visível")

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publicado às 10:29

 

 

 A MITOLOGIA GREGA CONTA que Pandora abriu a tampa da caixa proibida e aproximou o rosto da pequena abertura, mas teve que se afastar rapidamente, espantada. Uma fumaça densa e negra saía da caixa em espirais enquanto mil horríveis fantasmas se formavam naquelas nuvens que invadiam o mundo e escureciam o Sol.
Eram todas as doenças, as dores, os horrores e os vícios do mundo. Todos saíam da caixa de forma violenta, entrando nas tranquilas moradas dos homens.
Pandora tentou fechar a caixa e evitar que mais males escapassem, para remediar o desastre, mas foi em vão. O destino inexorável se cumpria e, desde então, a vida dos homens foi assolada por todas as desventuras desencadeadas por Zeus.
Quando a fumaça se desfez e a caixa parecia vazia, Pandora olhou para dentro dela e viu um lindo passarinho de asas cintilantes. Era a Esperança. Ela se apressou em fechar a caixa, impedindo que a Esperança escapasse também.
Dessa forma, a Esperança se conserva guardada no fundo de nosso coração.
(Allan Percy – “Nietzsche para Estressados”)

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publicado às 10:20

 

Uma questão importante na sabedoria de vida consiste na proporção correta entre a atenção que damos ao presente e ao futuro, a fim de que um não nos faça perder o outro. Muitas pessoas vivem demasiado no presente, são pessoas frívolas; outras vivem demasiado no porvir, são as tímidas e as inquietas. Raramente se consegue preservar a proporção entre ambas as partes. Aqueles que, movidos a anseios e esperanças, vivem somente no futuro, com o olhar sempre fixo à frente, antecipando impacientemente as coisas futuras – coisas que hão de lhes trazer a verdadeira felicidade –, enquanto deixam o presente escapar sem desfrutá-lo, são, apesar de seus objetivos astutos, comparáveis àqueles asnos que se vêem na Itália, cujo passo pode ser apressado colocando um bastão com um fardo de feno pendurado diante de sua cabeça. Vêem o feno diante de si e têm a esperança de alcançá-lo. Esses homens se enganam durante toda sua existência, visto que sempre estão vivendo apenas ad interim – até que estejam mortos. Assim, pois, em vez de nos ocuparmos única e exclusivamente de planos e inquietudes do futuro ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca deveríamos nos esquecer de que somente o presente é real e certo, e que o futuro, por outro lado, quase invariavelmente se mostra diferente daquilo que pensávamos e que o próprio passado foi diferente. Na verdade, no todo, ambos têm muito menos importância do que nos parece. Porque a distância, que torna os objetos pequenos à vista, faz com que pareçam grandes ao pensamento. Apenas o presente é verdadeiro e efetivo; é o tempo realmente ocupado no qual se funda exclusivamente nossa existência. Assim, devemos sempre considerá-lo digno de uma boa recepção, e conscientemente desfrutá-lo como tal em toda hora suportável e livre de incômodos ou dores presentes. Ou seja, não obscurecê-lo com desilusões do passado ou apreensões quanto ao porvir. Pois é completamente insensato rechaçar uma boa hora presente ou perdê-la sem motivo por desgosto do passado ou inquietude quanto ao futuro. Sem dúvida, um certo tempo deve ser dedicado à premeditação e mesmo ao arrependimento; porém, depois disso, devemos pensar daquilo que se passou: Ainda que tenha nos mortificado, deixemos que o passado seja passado; e ainda que nos seja muito difícil, é preciso suprimir a inquietude em nossos corações (Homero, Ilíada, XVIII. 112 seg.) e daquilo que há de vir: Tudo isso descansa no colo dos deuses, (Homero, Ilíada, XVII. 514.) mas, quanto ao presente: singulos dies singulas vitas puta [considera cada dia como uma vida isolada (Sêneca, Epistulae, 101, 10.)], e tornemos esse tempo o mais agradável possível, pois é o único que verdadeiramente possuímos.

Os únicos males futuros que devem, com razão, alarmar-nos, são aqueles cuja chegada e cujo momento são seguros. Porém esses são muito poucos; porque os males são ou simplesmente possíveis, no máximo prováveis, ou são certos; o tempo de sua chegada, todavia, é incerto. Assim, se cedermos a esses dois males, já não teremos sequer um momento de paz. Portanto, para que não percamos a tranquilidade devido a males incertos e indefinidos, devemos nos acostumar a considerar o primeiro como algo que provavelmente nunca ocorrerá e o segundo como algo que provavelmente ocorrerá, mas não em breve.

Porém, quanto menos nossa paz é incomodada pelo medo, mais somos agitados por desejos, cobiças e pretensões. O verdadeiro sentido da tão conhecida canção de Goethe, Ich hab’ mein’ Sach auf nichts gestellt [não depositei minhas esperanças em nada], é que apenas após ter se livrado de todas as possíveis pretensões, retornando à existência tal como é, o homem pode alcançar a tranquilidade que constitui a base da felicidade humana. Porque essa calma é necessária para que o presente seja suportável e, portanto, a vida inteira. Para tal fim, deveríamos sempre ter em mente que o hoje só vem uma vez e nunca mais. Porém, imaginamos que voltará amanhã; todavia, amanhã é outro dia que também só virá uma vez. Esquecemos que cada dia é uma parte integral e, por conseguinte, insubstituível da vida, e a encaramos como se fosse uma noção ou nome coletivo em que não há prejuízo se um dos indivíduos que abarca for destruído. Também apreciaríamos e desfrutaríamos melhor o presente se, nos dias de bem-estar e saúde, não deixássemos de refletir sobre como, durante a enfermidade ou a aflição, as lembranças das horas que decorreram sem dor e privação nos pareceram dignas de inveja – como um paraíso perdido, um amigo esquecido ao qual não demos o merecido valor. Porém, vivemos nossos bons dias sem percebê-los; só quando chegamos aos dias ruins desejamos recuperá-los. Deixamos passar mil horas alegres e agradáveis sem conceder-lhes um sorriso, e depois suspiramos por elas quando os tempos são sombrios. Em vez disso, deveríamos aproveitar cada momento presente que seja suportável, mesmo o mais corriqueiro, que deixamos passar com indiferença ou mesmo apressamos impacientemente. Deveríamos sempre ter em mente que tais momentos no mesmo instante estão se precipitando na apoteose do passado, onde a memória os preservará transfigurados e brilhantes com uma luz imortal, e representarão a nossos olhos o objeto de nossos anseios mais profundos quando, especialmente nas horas de infortúnio, a recordação vem a levantar o véu.  

 

 

(Arthur Shopenhauer = “Aforismos para a Sabedoria de Vida”)

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publicado às 09:32


Há regiões em que na noite de passagem de ano tudo o que é velho - roupas, pratos, mobília - vai pela janela fora para a rua. E também é sabido que na noite de passagem de ano há licenças ao nível do álcool e até com a sexualidade que normalmente não são permitidas. É um pouco como se, retomando agora de modo secularizado os mitos cosmogónicos, se instalasse o caos primitivo, para em seguida, como fizeram os deuses in illo tempore, ser reposta a ordem do cosmos.
Perante um Ano Novo que está aí à nossa frente, os sentimentos misturam-se: perplexidade, entusiasmo, dúvida, expectativa, temor, esperança... Que é que nos reserva o novo ano: para mim, para a minha família, para os meus amigos, para o país, para a Europa, para o mundo? Será melhor, será pior que o ano que passou?
Querendo ir mais fundo, até somos tentados a pensar que é tudo igual, que tudo se repete: morre um ano, surge outro ano, na roda eterna do mesmo... Mas não é assim. Nunca houve na história de cada um de nós, na história do país, na história da Europa, na história da humanidade, na história do mundo, com quinze mil milhões de anos, um ano como esse que acaba de surgir. Ele está aí, novo, pela primeira vez, como criança acabada de nascer. E exactamente como a criança está aí com confiança. Todos nós, individual e colectivamente, enfrentamos o novo ano essencialmente com confiança: se reflectirmos bem, esperamos, evidentemente com realismo, também com algum temor, mas essencialmente esperamos confiadamente. Porque o ser humano é um ser constitutivamente esperante, apesar da dureza toda com que a vida nos foi confrontando.
Por que é que os homens e as mulheres, apesar de todos os fracassos, horrores, sofrimentos e cinismos, ainda não desistiram de lutar e de esperar? Por que é que continuamos a ter filhos? Por que é que depois de guerras destruidoras e terramotos devoradores, recomeçamos sempre de novo? Pergunta, com razão, o célebre teólogo Johann Baptist Metz: "Por que é que recomeçamos sempre de novo, apesar de todas as lembranças que temos do fracasso e das seduções enganadoras das nossas esperanças? Por que é que sonhamos sempre de novo com uma felicidade futura da liberdade", embora saibamos que os mortos não participarão nela? Por que é que não renunciamos à luta pelo homem novo? Por que é que o homem se levanta sempre de novo, "numa rebelião impotente", contra o sofrimento que não pode ser sanado? "Por que é que o homem institui sempre de novo novas medidas de justiça universal, apesar de saber que a morte as desautoriza outra vez" e que já na geração seguinte de novo a maioria não participará nelas? Donde é que vem ao homem "o seu poder de resistência contra a apatia e o desespero? Por que é que o homem se recusa a pactuar com o absurdo, presente na experiência de todo o sofrimento não reparado? Donde é que vem a força da revolta, da rebelião?"
Neste movimento incontível, ilimitado, do combate da esperança, pode ver-se um aceno do Infinito, um sinal de Deus. Como se não cansava de repetir o ateu Ernst Bloch: "Onde há esperança, há religião".

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")


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publicado às 11:05


Toda a felicidade é baseada no amor

por Thynus, em 28.12.12


Toda a felicidade é baseada no amor. Assim procurou demonstrar Frei Betto no artigo “Feliz ano-novo aos corações velhos” publicado no O Estado de São Paulo, referindo-se ao novo ano de 2000: “Feliz ano-novo às mulheres que destilam antigos amores em cápsulas de veneno e aos homens que, ao partir, mostram, às costas, a face diabólica que traziam mascarada sob-juras de amor”. “Feliz ano-novo aos jovens enfermos de velhice que, travestidos de adolescentes, bailam aos desafinados acordes do ridículo. E aos que atravessam o tempo sem se livrar de bagagens inúteis e ainda sonham em ingressar numa nova era sem tornar carne o coração de pedra”. “Feliz ano-novo aos navegadores cibernéticos, mariposas de noções fragmentadas, amantes virtuais que se entregam, afoitos, ao onanismo eletrônico, digitando a própria solidão”. “Feliz ano novo a todos que temem a felicidade ou consideram, equivocadamente, que ela resulta da soma de prazeres. E aos que enchem a boca de princípios e se retraem, horrorizados, diante do semelhante que lhe é diferente”. “Feliz ano-novo às mulheres que se embelezam por fora e colecionam vampiros e escorpiões nos lúgubres porões do espírito. E aos homens que malham o corpo enquanto definha a inteligência, transgênicos prometeus acorrentados ao feixe dos próprios músculos”.
Indivíduos que não se amam não podem ser felizes. Todos os estados depressivos estão ligados a sensações de odio que podem evoluir até ao odio destruidor, contra si próprios. A embriaguez de felicidade daquele que ama é conseqüência de seu êxtase amoroso. Homens que duvidaram muito tempo da sua possibilidade de amor, tornam-se escravos humildes e reconhecidos de uma companheira que os força a amar.

(Albertino Aor da Cunha - "A Mentira Nua e Crua)


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publicado às 10:49


A Civilização da empatia

por Thynus, em 28.12.12

Durante séculos, filósofos, cientistas, economistas e psicólogos contribuiram para a difusão da idéia de que o ser humano é por natureza agressivo e utilitário, voltado principalmente para a satisfação egoísta das suas necessidades e do lucro material. A história, portanto, não seria outra coisa que uma batalha sem tréguas entre indivíduos isolados, apenas ocasionalmente unidos por razões de mera utilidade e lucro. Mas nas últimas décadas algumas descobertas sensacionais no campo da biologia e da neurociência têm questionado esta tese, e demonstraram, pelo contrário, que homens e mulheres desde cedo manifestam a capacidade de relacionar-se com os outros de maneira empática, percebendo os seus sentimentos, principalmente o sofrimento, como se fossem seus próprios. À luz desta nova abordagem, Jeremy Rifkin propõe uma reinterpretação radical do curso dos acontecimentos humanos. Se no mundo agrícola a consciência era governada pela fé e no setor industrial pela razão, com a globalização e a transição para a era da informação, a consciência será baseada na empatia, ou seja, sobre a capacidade de sentir na própria carne o estado de ânimo ou a situação de uma outra pessoa. Este resultado foi no entanto conseguido com um preço elevado: a fim de crescer e prosperar, as sociedades cada vez mais complexas e sofisticadas exigiram quantidades cada vez maiores de energia e recursos naturais, impondo um pesado tributo sobre o meio ambiente sob a forma um aumento significativo da entropia. Um incessante auto-esvaziamento, que pode, agora, comprometer definitivamente a saúde da terra e pôr em risco a própria sobrevivência da espécie humana. Mas para Rifkin nem tudo está perdido. Enquanto as sociedades saqueavam os bens da natureza, silenciosamente fez estrada uma nova "consciência da biosfera", que tem o poder de nos fazer realmente ser solidários com o planeta que habitamos, levando-nos a redefinir o curso do desenvolvimento económico e os nossos estilos de vida na direção de uma maior sustentabilidade ambiental. Cabe a cada um de nós garantir que esta nova "cultura da empatia" veja a luz antes que seja tarde demais.

Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends de Washington, é professor na Wharton School of Finance and Commerce, onde lecciona cursos de Programa de Educação Executiva sobre a relação entre o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e o desenvolvimento económico, meio ambiente e cultura. Entre seus livros realço: O fim do trabalho (1995), O Século Biotech (1998) e Entropia (1982). Ecocídio (2001), Economia a hidrogénio (2002) e O Sonho Europeu (2004).

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publicado às 09:44

Como narrar o período desde o final dos anos sessenta até hoje? Para entender o que aconteceu, as categorias tradicionais da cultura e da política parecem inadequadas. Encontramo-nos diante de acontecimentos como o Maio de 68 francês, a Revolução iraniana de 1979, a queda do Muro de Berlim em 1989 e do ataque às Torres Gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001, em confrontos com os quias todos exclamaram: "Impossível, embora real." Estes eventos tiveram um impacto enorme sobre todos os aspectos da vida individual e coletiva, desestabilizando radicalmente instituições, os costumes sexuais e a forma de sentir de gerações inteiras. Nasceu um novo regime de historicidade, caracterizado pela experiência de fenômenos que que foram vividos ou como um milagres e ou como traumas, porque parecem inacessíveis a uma explicação racional e a uma narração coerente. O autor, que viveu com envolvimento emocional e com supervisão intelectual os acontecimentos deste período histórico, prestando atenção constante às mudanças e perguntando-se sobre o seu significado, propões critérios de inteligibilidade que ajudam a compreender a unidade essencial deste período de quarenta anos, em que a possibilidade de acção política real, sexual e literária falhou: em todas essas áreas o lugar da acção foi tomado pela comunicação, juntamente com efeitos devastadores e cómicos.

Mario Perniola ( Asti , 20 de Maio de 1941) é um filósofo italiano de reputação internacional, professor de Estética e autor de vários livros. É também um ensaísta, teórico de arte contemporânea e escritor. Professor de estética na Universidade de Roma "Tor Vergata", é diretor do Centro de Estudos e Documentação "Linguagem e Pensamento" na mesma universidade. Muitas das suas obras estão publicadas em língua portuguesa.

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publicado às 09:28

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