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DEPOIS DA MORTE DE DEUS

por Thynus, em 05.12.10

"Matemo-lo e fiquemos com a sua herança". (cfr.: Mt 21,33-43) Estas palavras dos feitores da vinha recordam-me os gritos do louco na obra do filósofo F. Nietzsche, a «Gaia Ciência»: "Onde está Deus? Eu vou dizer-vos. Nós matámo-lo, vós e eu! Somos todos seus assassinos! Mas, como é que podemos ter feito isso?... Que fizemos ao cortar a cadeia que unia esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde nos dirigimos nós?" Segundo F. Nietzsche, o maior acontecimento dos tempos modernos é que "Deus morreu". Deus não existe. Não existiu nunca. Apenas existem os homens, sós, para construir o nosso futuro. Esta é a convicção profunda que se encerra em todos os projectos de libertação que se lhe oferecem ao homem moderno, sejam de carácter cientifista, de inspiração marxista ou de origem freudiano. As religiões representam hoje uma resposta arcaica, ineficaz, insuficiente para libertar o homem. Uma resposta ligada a uma fase ainda infantil e atrasada da história humana. Chegou o momento de nos emanciparmos de toda a tutela religiosa. Deus é um obstáculo para a autonomia e o crescimento do homem. Há que matar Deus para que nasça o verdadeiro homem. É, uma vez mais, a atitude dos vinhateiros da parábola: "Vinde, matemo-lo e fiquemos com a sua herança" (Mt 21,33-46). Contudo, a história recente destes anos começa a descobrir-nos que não é tão fácil para o homem recolher a herança de «um Deus morto». De facto, depois da declaração solene da morte de Deus, são bastantes os que começam a entrever a morte do homem. Bastantes os que se perguntam como A. Malraux se o «verdugo de Deus» poderá sobreviver à sua vítima. As revoluções socialistas não parecem ter trazido consigo a liberdade a que o homem aspira desde o mais profundo do seu ser. A livre expansão dos impulsos instintivos, pregada por S. Freud, longe de fazer surgir um homem mais são e maduro, parece originar novas neuroses, frustrações e uma incapacidade cada vez mais profunda para o amor de comunhão. «O desenvolvimento científico, privado de direcção e de sentido, está convertendo o mundo numa imensa fábrica» (Marcuse-H) e vai produzindo não apenas máquinas que se assemelham a homens mas «homens que se assemelham cada vez mais a máquinas» (I. Silone). Este homem, frustrado nas suas necessidades mais autênticas, vítima da «neurose mais radical» que é a falta de sentido globalizante para a sua existência, atemorizado ante a possibilidade já real de uma auto-destruição total, não estará necessitado mais do que nunca de Deus? Mas, encontrará ainda, entre os crentes, esse Deus capaz de fazer o homem mais responsável, mais livre e mais humano?

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publicado às 18:27


O TABU DA MORTE

por Thynus, em 05.12.10
O homem contemporâneo não sabe o que fazer exactamente com a morte. A única saída que nos ocorre é ignorá-la, não falar dela, não pronunciar o nome das doenças incuráveis. Convertemos a morte no moderno «tabu» que substituiu o antigo tabu sexual. Às crianças explica-se-lhes tudo sobre a origem maravilhosa da vida, mas ninguém se atreve a iniciá-las ao mistério da morte. Há muitos pais que, ante a criança que pergunta para onde foi o avô, sentem o mesmo mal-estar ou maior que antes, quando perguntavam de onde vinham os meninos. São admiráveis todos os esforços que fazemos para adiar a morte, ignorá-la e viver afastando de nós tudo o que nos possa recordar a sua proximidade. Toda gente quer parecer jovem, forte, agressivo e invulnerável. Desejamos a juventude, a saúde e a força porque cremos poder encontrar em tudo isso uma protecção contra o irremediável: a velhice e a morte. Não queremos recordar o que na realidade somos: seres profundamente débeis, vulneráveis e, em definitivo, mortais. Mas há, todavia, algo mais. São muitos os que se dizem cristãos porque admiram o evangelho e veneram Jesus Cristo, ainda que confessem modestamente não ambicionar nem desejar ou esperar com alegria a ressurreição. Na realidade, contentar-se-iam com prolongar esta vida de modo indefinido. Não será tudo isto sintoma de um grave empobrecimento e sinal de uma profunda ingenuidade? Se a nossa vida é insatisfatória, não é porque seja curta, mas porque nunca poderá satisfazer as nossas aspirações mais profundas. O homem pode e deve prolongar esta vida, humanizá-la, torná-la sempre melhor. Mas, apenas com isso, não alcança a vida que anela. Apenas desde o realismo profundo da nossa condição mortal e desde a necessidade sentida de salvação, podemos escutar com fé a promessa de Jesus Cristo: «Eu sou a Ressurreição e a Vida: quem que crê em mim, mesmo que morra, viverá» .Talvez, para entender estas palavras, precisamos antes de mais, deixar de lado os auto-enganos ilusórios, libertar-nos da nossa ingenuidade e recordar aquela observação tão certeira de D. Solle: «O homem não vive apenas de pão, morre também apenas com pão» (cfr. Mt. 4,4).

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publicado às 18:25


O DINHEIRO QUE NÃO É NOSSO

por Thynus, em 05.12.10
Nas igrejas pede-se frequentemente dinheiro para os necessitados, mas dificilmente se expõe hoje a alguém a doutrina cristã que sobre o dinheiro pregaram com força teólogos e pregadores como S.to Ambrósio de Tréveris, S.to Agostinho de Hipona ou S. Bernardo de Claraval. De facto, uma pergunta aparece constantemente nos seus lábios. Se todos somos irmãos e a terra é uma oferta de Deus a toda a humanidade, com que direito se pode continuar a açambarcar o que não necessitamos, se com isso estamos a privar outros do que necessitam para viver? Não seria mais correcto afirmar que o que lhe sobra ao rico pertence ao pobre? Não podemos esquecer que possuir algo sempre significa excluir daquilo os outros. Com a «propriedade privada» estamos sempre "a privar" os outros daquilo que nós desfrutamos. Por isso, quando damos algo nosso aos pobres, talvez estejamos na realidade, a restituir o que não nos corresponde totalmente. Escutemos estas palavras de S.to Ambrósio: "Não dás ao pobre o que é teu, mas devolves-lhe o que é seu. Pois o que é comum é de todos, não apenas dos ricos... Pagas, portanto, uma dívida; não dás gratuitamente o que não deves». Naturalmente, tudo isto pode parecer idealismo ingénuo e inútil. As leis protegem de maneira inflexível a propriedade privada dos grandes potentados mesmo que dentro da sociedade haja pobres que vivem na miséria. São Bernardo reagia assim no seu tempo: «Citam-se continuamente leis nos nossos palácios; mas são leis de Justiniano, não do Senhor». A este propósito, permitam-me que faça aqui um pequenino parêntesis: Se São Bernardo dizia isso no seu tempo, o que não diria hoje da nossa Assembleia da República ou dos nossos Tribunais, quando as leis são manipuladas segundo a oportunidade do momento? Quando a Assembleia da República é dessacralizada pelos próprios deputados eleitos pelo povo? De facto parece que vivemos num País onde há uma lei para os poderosos (os políticos, os magistrados) e outra lei bem diferente para o comum dos cidadãos. Não nos venham pois contar que a Justiça é cega, porque o povo já não vai em histórias. E estando as coisas assim, quando uns são tratados como filhos e outros como enteados, temos que interrogar-nos seriamente sobre o Estado de direito da Nação. De facto, é preciso que nunca nos esqueçamos que a maior conquista da democracia é o "Estado de Direito", onde os direitos e os deveres são iguais para todos, onde há igualdade de oportunidades: no acesso à justiça, no acesso ao trabalho, no acesso à educação, no acesso à saúde... no acesso a tudo aquilo que diz respeito à dignidade e ao bem-estar dos cidadãos. Não nos admiramos, portanto, que Jesus, ao encontrar-se com um homem rico que cumpriu desde criança todos os mandamentos, lhe diga que ainda lhe falta uma coisa para ser perfeito, para alcançar a vida eterna, para poder segui-Lo: deixar de açambarcar e começar a partilhar, o que tem e o que é, com os necessitados. O rico afastou-se de Jesus cheio de tristeza. O dinheiro empobreceu-o, tirou-lhe a liberdade e a generosidade. O dinheiro impede-o de escutar o chamamento de Deus a uma vida mais plena e mais humana. «Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus». Não é uma sorte ter dinheiro mas um verdadeiro problema. Pois o dinheiro fecha-nos a passagem e impede-nos de seguir o caminho verdadeiro para a vida eterna. Quando falamos em vida eterna, não estamos a falar, apenas, na vida que nos espera no céu; mas estamos a falar de uma vida plena de qualidade, de uma vida que leva o homem à sua plena realização, de uma vida de paz e de felicidade. A vida tem sentido não por aquilo que temos, mas por aquilo que somos. E quem somos? Independentemente da nossa raça, condição social ou grau de cultura, somos obra de Deus. Perder o sentido de nossa dignidade significa construir uma vida vazia.

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publicado às 18:23


PALAVRAS QUE NAO PASSAM

por Thynus, em 05.12.10
É mais fácil descobrir o caminho para o espaço (modelo de sonho do optimismo humano), do que o caminho do homem para dentro si mesmo, para o núcleo da sua felicidade plena. De facto, os sinais de desesperança não são de todo visíveis, pois a falta de esperança pode disfarçar-se de optimismo superficial, de activismo cego ou de um secreto deixar correr. Curiosamente, são muitos os que não reconhecem sentir medo, aborrecimento, solidão e desesperança porque, segundo o modelo social em que vivemos, supõe-se que um homem que triunfa na vida, que tem sucesso não pode sentir-se só, aborrecido ou temeroso. Eric Fromm, com a sua habitual perspicácia, assinala que o homem contemporâneo tenta continuamente e a todo o custo libertar-se de algumas repressões (como, por exemplo, a repressão sexual), mas vê-se obrigado a «reprimir tanto o medo e a dúvida, como a depressão, o aborrecimento e a falta de esperança». Por outro lado, defendemo-nos do nosso «vazio de esperança», submergindo-nos no activismo. Não suportarmos estar sem fazer nada. Precisamos de estar ocupados em algo, para não enfrentarmos o nosso futuro. Temos medo de ficar sós. Mas, a pergunta é inevitável: o que é que nos espera depois de tantos esforços, lutas, ilusões e dissabores? Não teremos, os homens, outro objectivo senão produzir cada vez mais, distribuirmos cada vez melhor aquilo que produzimos, e consumir mais e mais, até ser consumidos pela nossa própria caducidade? Todo o homem necessita de uma esperança para viver em plenitude. Uma esperança que não seja «uma carta de resignação», como a daqueles que procuram viver a vida de uma maneira «tolerável» e, deste modo, suportar com estoicismo a aventura de cada dia numa atitude fatalista. Uma esperança que não deve confundir-se nunca com uma espera passiva, que não é, com frequência, senão «uma forma disfarçada de desesperança e impotência» (E. Fromm). Uma esperança que não é tão pouco o arrojo cego e falto de realismo de quem actua de modo desesperado, sem amor à vida, e portanto, sem medo em destruir os outros ou de que o destruam a ele. O homem necessita no seu coração de uma esperança que se mantenha viva mesmo que outras pequenas esperanças se vejam malogradas e incluso completamente destroçadas. Nós, cristãos, encontramos esta esperança em Jesus Cristo e nas suas palavras que "não passarão". Não esperamos algo que «não pode ser». A nossa esperança apoia-se no facto inabalável da ressurreição de Jesus. A partir das palavras do Ressuscitado atrevemo-nos a ver a vida presente no «estado de gestação» como algo que não nos entregou ainda o seu último segredo, como gérmen duma vida que alcançará a sua plenitude final apenas em Deus.

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publicado às 18:21


UM APELO À ESPERANÇA

por Thynus, em 05.12.10

A expressão "um mundo mais justo e fraterno" anda na boca de toda a gente como um sonho lindo que todos queremos realizar. Ao mesmo tempo, há um certo desencanto em todos os grupos sociais ao verificarem que, após tantas tentativas, a justiça tarda e as injustiças alastram. É certo que, objectivamente falando, tem-se verificado um grande progresso no que se refere à tomada de consciência, defesa e promoção dos direitos dos cidadãos. Haja em vista a situação da assistência social, hoje, comparada com a do início deste século. Apesar disso, o descontentamento é generalizado porque, ao comparar o projecto de justiça social que arquitectamos e a realidade que vivemos, ainda nos encontramos muito longe do que já devíamos ter alcançado. Ainda somos vítimas de muitas injustiças. Há diferenças muito gritantes no campo económico, cultural, social e político, entre os diversos sectores e grupos sociais. E porque será que ainda não atingimos, ao menos, um nível mínimo razoável do exercício da justiça? Há consciência da justiça social como nunca. Há progresso económico indesmentível. Há possibilidades tecnológicas que nem sequer se poderiam imaginar há poucas décadas. Há muitas riquezas já exploradas e muitas mais por explorar. Não falta nada! Porque é que falta quase tudo para a maioria? O "pão" é superabundante e, no entanto, milhões de pessoas passam "fome"! Sem dúvida que as grandes palavras do século XX, «liberdade», «justiça», «felicidade», revolucionaram o mundo, mas, essas mesmas palavras, estão hoje em crise. E isto não são teorias dos pensadores. Sentem-no assim os povos dos países mais desenvolvidos. Na sociedade moderna respira-se uma manifesta crise de valores. Parece que a desmesurada ambição de ter abafou a necessidade de ser. Daí que a fé no progresso começa a ser substituída pelo pessimismo. E, por isso, muita gente se interroga sobre o que é que nos espera no futuro? Por outro lado, a fé cristã parece ter perdido a sua força para dar sentido e alento ao ser humano. Não são poucos os que consideram a religião como uma fase já ultrapassada no quadro do desenvolvimento da humanidade. Entre os próprios cristãos, as coisas mudaram profundamente em poucos anos. Cresce a indiferença, o abandono e a «apostasía silenciosa». Difunde-se em não poucos um «desafecto interior» para com a Igreja. Talvez pela primeira vez amplos sectores de pessoas que se dizem cristãs percebem de maneira difusa, a níveis profundos da sua consciência, uma espécie de insegurança ou desassossego em volta da sua fé. São tempos em que a humanidade anda em busca de uma mensagem de esperança. Uma experiência nova capaz de libertar o homem contemporâneo da descrença, do cansaço e da indiferença. O mais importante nestes momentos não é potenciar a autoridade religiosa para impor desde fora uma segurança. Como diz o teólogo alemão Heinz Zahrnt, a renovação não chegará «administrando burocraticamente os resíduos de fé» da sociedade contemporânea. O mais importante não é nem sequer o desenvolvimento da teologia especializada. Alguém disse com ironia que «primeiramente se falava com Deus, depois começou-se a falar de Deus, mais tarde passou-se a falar do problema de Deus e acabou-se falando da possibilidade de falar acerca de Deus». A teologia é necessária, mas o certo é que a esperança apenas pode vir de um Deus que é maior que todas as nossas discussões doutrinais. O que o homem de hoje necessita é que alguém o ajude a encontrar-se com «o Deus da esperança». Um Deus em quem se possa crer, não por tradição, não por medo do inferno ou do fim do mundo, não porque alguém o ordena assim, não porque alguém o explica brilhantemente, mas sim porque pode ser experimentado como fundamento sólido de esperança para o ser humano. Esse Deus só pode ser anunciado por crentes que vivam eles próprios radicalmente animados pela esperança. O testemunho de «uma esperança vivida» é a melhor resposta a todos os cepticismos (descenças), indiferenças e abandonos. O Advento,esse tempo de preparação para o Natal de Jesus,é um chamamento para o despertar da esperança. Se o cristianismo perde a esperança, perdeu tudo. Como cristãos «habituados a crer desde sempre», que fizemos da esperança cristã?

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publicado às 18:19

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