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A felicidade não se compra

por Thynus, em 05.12.10
Há dois mil anos Jesus pregou: "Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5,10). E, no nosso tempo, levantou-se a sociedade de consumo e disse: - "Infelizes os pobres de espírito, pois não irão a lugar nenhum. - Infelizes os que choram, pois estão mostrando suas fraquezas. - Infelizes os mansos, pois nunca conseguirão se impor. - Infelizes os famintos e sedentos de justiça, pois irão morrer de fome esperando o direito. - Infelizes os que se compadecem, pois se mostram despreparados para a competição social. - Infelizes os limpos de coração, pois não sabem o que estão perdendo. - Infelizes os pacíficos, porque são reconhecidos como filhos da fraqueza. - Infelizes os perseguidos por causa da justiça, porque não tiveram dinheiro para comprar os seus direitos a tempo." Sejamos sinceros: não é esta lógica das "mal-aventuranças" que norteia muito mais os princípios da nossa sociedade que a lógica do estar ao lado do fraco, desprovido, despreparado, doente, faminto, injustiçado? Jesus mostra no seu famoso discurso (Sermão da Montanha) que a lógica divina é a lógica da inversão. Ninguém sabe dar uma resposta clara, quando é questionado sobre a felicidade. Que é na verdade a felicidade? Em que consiste realmente? Como alcançá-la? Por quais caminhos? Certamente que não é fácil conseguir ser feliz. Não se consegue a felicidade a qualquer preço. Não basta conseguir o que estavamos procurando. Não é suficiente satisfazer os desejos. Quando alguém conseguiu o que queria, descobre que está novamente procurando ser feliz. Também é claro que a felicidade não se pode comprar. Não se pode adquiri-la em qualquer prateleira de algum hipermercado, tal como a alegria, a amizade ou a ternura. Com dinheiro apenas podemos comprar aparência de felicidade. Por isso, existem tantas pessoas tristes nas nossas ruas. A felicidade foi substituída pelo prazer, a comodidade e o bem-estar. Mas ninguém sabe como devolver ao homem de hoje o gozo, a liberdade, a experiência de plenitude. Nós temos as nossas «bem-aventuranças». Soam assim: Felizes os que têm uma conta corrente bem recheada, os que podem comprar o último modelo, os que sempre triunfam a qualquer preço, os que são aplaudidos, os que desfrutam da vida sem escrúpulos, os que se desligam dos problemas... Jesus colocou a nossa «felicidade» de cabeça para baixo. Deu uma volta de 180.º na nossa maneira de entender a vida e mostrou-nos que estamos correndo «em direcção contrária». Há um outro caminho verdadeiro para ser feliz, que a nós nos parece falso e pouco credível. A verdadeira felicidade é algo que encontraremos facilmente, como fruto de um seguimento simples e fiel de Jesus. Em que acreditar? Nas bem-aventuranças de Jesus ou nos reclamos de felicidade da nossa sociedade? Temos que eleger entre estes dois caminhos. Ou tratar de assegurar a nossa pequena felicidade e sofrer o menos possível, sem amar, sem ter piedade de ninguém, sem compartilhar... Ou amar, procurar a justiça, estar próximo daquele que sofre e aceitar o sofrimento que for necessário, crendo numa felicidade mais profunda. Vamo-nos tornando crentes quando vamos descobrindo na prática que o homem é mais feliz quando ama, incluso sofrendo, do que quando não ama e portanto não sofre por isso. É um equívoco pensar que o cristão está chamado a viver de maneira mais infeliz que os outros. Ser cristão, pelo contrário, é procurar a verdadeira felicidade pelo caminho indicado por Jesus. Uma felicidade que começa aqui, embora alcance a sua plenitude no mais além do aqui e agora.

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publicado às 19:14


"Não é este o carpinteiro...?"

por Thynus, em 05.12.10

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Em geral, nós homens procuramos Deus no espectacular e extraordinário. Parece-nos pouco digno encontra-lo no simples e habitual, no normal e não vistoso. Segundo os relatos evangélicos, a verdadeira dificuldade para acolher o Filho de Deus, não foi a sua grandeza extraordinária ou o seu poder subjugante, mas precisamente o encontrar-se com «um carpinteiro», filho de Maria, membro de uma família insignificante. Disse alguém que «a raiz da incredulidade é precisamente esta incapacidade de acolher a manifestação de Deus no quotidiano» (R. Fabris). Não sabemos «reconhecer» Deus no ordinário da vida. A encarnação de Deus num carpinteiro de Nazaré faz-nos ver, porém, que Deus não é um exibicionista que se oferece em espectáculo, o Ser todo-poderoso que se impõe, perante quem é conveniente adoptar uma postura de «legítima defesa» (F. Nietzsche). O Deus encarnado em Jesus é o Deus discreto que não humilha. O Deus humilde e próximo que, desde o mistério mesmo da vida ordinária e simples, nos convida ao diálogo. Como escrevia o teólogo D. Bonhoeffer, «Deus está no centro da nossa vida, ainda que esteja mais além dela». A Deus podemo-lo descobrir nas experiências mais normais da nossa vida quotidiana. Nas nossas tristezas inexplicáveis, na felicidade insaciável, no nosso amor frágil, nos desejos e anseios, nas perguntas mais profundas, no nosso pecado mais secreto, nas nossas decisões mais responsáveis, na procura sincera. Quando um homem ou uma mulher penetra com lealdade na sua própria experiência humana, é-lhe difícil evitar a pergunta pelo mistério último da vida a que os crentes chamamos «Deus». O que precisamos é de uns olhos mais limpos e simples e menos preocupados em ter coisas e monopolizar pessoas. Uma atenção mais profunda e desperta para o mistério da vida, que não consiste apenas em ter «espírito observador» mas em saber acolher com simpatia as inumeráveis mensagens e apelos que a mesma vida irradia. Deus «não está longe dos que o procuram». O que precisamos é libertar-nos da superficialidade, das mil distracções que nos dispersam e dessa actividade nervosa que, com frequência, nos impede de tomar consciência do que é a vida e nos fecha o caminho para Deus.

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publicado às 19:13


Sofrer de maneira mais humana

por Thynus, em 05.12.10
Todos queremos ser felizes. Por caminhos diferentes, com mais ou menos acerto, todos nos esforçamos por alcançar «algo» que chamamos «felicidade» e que nos atrai desde o mais profundo do nosso ser. Mas, tarde ou cedo, todos nos encontramos na encruzilhada do sofrimento. Por muito que se esforce em evitá-lo, todo o homem ou mulher termina experimentando na sua própria carne a verdade das palavras de Job: «O homem, nascido de mulher, é curto de dias e farto de inquietações.» Sem dúvida, os sofrimentos de cada pessoa são diferentes e podem dever-se a factores muito diversos. Mas K.G. Durckheim-K recorda-nos nas suas obras as três principais fontes donde brota o sofrimento humano. O homem busca, antes que nada, segurança e quando na sua vida surge algo que a põe em perigo, começa a sofrer porque a sua segurança pode ficar destruída. Muitos dos nossos sofrimentos provêm do medo de que fique destruída a nossa imagem, a nossa tranquilidade, a nossa saúde. O homem busca, além disso, sentido para a sua vida, e quando experimenta que esta não significa nada para ninguém nem sequer para ele mesmo, começa a sofrer porque já tudo lhe parece absurdo e inútil. Nada merece a pena. Quanto sofrimento nasce dos fracassos, frustrações e desenganos. O ser humano busca também amor frente ao isolamento e à solidão, e quando se sente incompreendido, abandonado e só, começa a sofrer. Quantas pessoas sofrem hoje porque não têm próximo ninguém que na verdade as queira. A fé não dispensa o crente destes sofrimentos; também ele conhece, como qualquer outro homem ou mulher, o lado doloroso da existência. Por outro lado a fé não carrega necessariamente o cristão com um sofrimento maior que o do resto dos homens. A primeira coisa que o crente escuta quando se sente interpelado por Cristo a levar a cruz atrás dele não é uma chamada a sofrer «mais» que os outros, mas a sofrer em comunhão com Ele, ou seja, a «levar a cruz» não de qualquer maneira, mas «atrás dele», com a mesma atitude e com o mesmo espírito. Quem vive assim a cruz, unido a Cristo e com uma atitude de confiança total em Deus, aprende a viver o sofrimento de uma maneira mais humana. Os sofrimentos continuarão com todo o seu realismo e crueldade, mas com o olhar posto em Cristo crucificado, o crente encontra uma força nova no meio da insegurança e da destruição; descobre uma luz, incluso nos momentos em que tudo parece absurdo e sem sentido; experimenta uma protecção última e misteriosa quando se sente abandonado por todos.

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publicado às 19:12


Igreja rendida ao deus marketing?

por Thynus, em 05.12.10
Como poderia a Igreja recuperar o seu prestígio social e exercer de novo aquela influência que teve na nossa sociedade há apenas alguns anos? Sem o confessar, talvez, em voz alta, são muitos os que têm saudade daqueles tempos em que a Igreja podia anunciar a sua mensagem desde plataformas privilegiadas que contavam com o apoio do poder político. Não teremos de lutar por recuperar outra vez essas plataformas perdidas que nos permitam fazer «uma propaganda» religiosa e moral, eficaz, capaz de superar outras ideologias e correntes de opinião que se vão impondo entre nós? Não teremos de trabalhar mais na formação sólida dos cristãos para que, bem equipados na doutrina cristã, possam transmiti-la de maneira persuasiva e convincente, atraindo de novo as pessoas para a verdade? Não teremos que criar estruturas religiosas mais fortes, aperfeiçoar os organismos pastorais e fazer da Igreja uma «empresa mais competitiva e rentável»? Sem dúvida, no fundo desta inquietação há uma vontade sincera de levar o evangelho de Jesus Cristo aos homens e mulheres do nosso tempo, mas será esse o caminho a seguir? As palavras de Jesus, ao enviar os seus discípulos sem pão nem alforje, sem dinheiro nem túnica, insistem mais bem em «caminhar» pobremente, com liberdade, ligeireza e disponibilidade total. O importante não é um equipamento que nos dê segurança mas sim a força mesma do evangelho vivido com sinceridade, pois o evangelho penetra na sociedade não tanto através de meios eficazes de propaganda, quanto por meio de testemunhos que vivem fielmente o seguimento de Jesus Cristo. São necessários cristãos bem formados doutrinalmente, mas são necessários, muito mais, testemunhos vivos do evangelho. São necessárias na Igreja a organização e as estruturas, mas apenas para sustentar a vida evangélica dos crentes. Uma Igreja carregada de excessivo equipamento corre o risco de tornar-se sedentária e conservadora. A curto ou médio prazo, preocupar-se-á mais em abastecer-se a si mesma do que em caminhar livremente no evangelho. Uma Igreja mais desguarnecida, mais privada de privilégios e mais empobrecida de poder sócio-político-económico, é uma Igreja mais livre e mais capaz de oferecer o evangelho na sua verdadeira pureza. Ao fazer esta reflexão, não podemos deixar de pensar na maneira faustosa como vivem muitos Bispos e padres da Igreja. Não, não vamos falar do modo como enriqueceram tão depressa. Vamos apenas focar a atenção na falta de testemunho que vem de cima. Que dizer de um Papa rendido ao marketing? (cfr.:http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=199640&idCanal=21) Que pensar de um Papa preocupado em exibir a sua vaidade? (cfr.:http://www.terra.com.br/istoe/1894/internacional/1894_papa_fashion.htm) Que dizer de uma Igreja subserviente ao poder económico e vendedora de sacramentos? Será esta a liberdade pedida por Jesus aos seus seguidores ao ordenar-lhes que "nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas" ? Chocante, não é?! Termino com uma advertência muito séria de Santo Ambrósio: Não é digno de um imperador interditar a liberdade de palavra e não é digno de um sacerdote não dizer aquilo que pensa. Em vós, imperadores, não há nada que seja mais democrático e amável do que apreciar a liberdade, até mesmo naqueles que vos devem obediência militar. É esta, precisamente, a diferença entre os bons e os maus príncipes: os bons amam a liberdade, os maus a escravidão. Ao mesmo tempo, para um sacerdote não há nada mais perigoso perante Deus e indigno perante os homens do que não dizer livremente aquilo que pensa. Está escrito: "dava testemunho de ti na presença dos reis e não me envergonhava" (Sl 118, 46); e, noutro passo: "Filho do homem, coloquei-te como sentinela da casa de Israel porque, no caso do justo deixar o caminho da justiça e cometer um delito e tu nada lhe disseres, de nada lhe aproveitará a sua anterior justiça, mas eu pedirei contas a ti pela sua condenação... (cf. Ez 3, 17-19). http://www.terra.com.br/istoe/1894/internacional/1894_papa_fashion.htm

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publicado às 18:47


Férias, descanso ou tédio?

por Thynus, em 05.12.10
São muitos os que pensam que o homem actual, escravo da «sociedade da eficácia», está a perder a capacidade de celebrar, fazer festa e desfrutar profundamente da vida. A actividade pura marca a sua vida inteira. Conseguimos à base do trabalho criar condições mais aptas para uma vida digna, mas, no entanto, não sabemos desfrutar dessa vida. O homem actual suspende temporariamente o trabalho, a tensão e a pressão da actividade para conseguir outra vez o equilíbrio psicológico, a distensão física e uma nova capacidade para o trabalho. Porém em muitas pessoas, «já não existe culto nem celebração nem descanso, mas tão só o direito ao tempo livre, férias e prazer» (H. Rombach). No entanto, o homem não é apenas «uma máquina» que precisa de recuperação, mas um ser que precisa de encontrar-se consigo mesmo e redescobrir as raízes mesmas que dão sentido à sua vida. Por isso o verdadeiro descanso não é tempo morto, prazer vazio, dobrar-se egoísta sobre si mesmo, aborrecimento insuportável, obrigação social de sentir-se feliz e passar bem. O descanso deve ser «re-criação» que nos liberta de novo para a vida e o amor. O problema de muitos é que, ao deixar o seu trabalho e ao não estar ocupados pelas obrigações habituais, se encontram com o seu próprio vazio e a sua incapacidade de comunicar-se com um pouco de ternura, nem sequer com as pessoas mais próximas. Então as férias convertem-se numa fuga louca e o descanso num esforço vão por encher o vazio interior acumulando experiências sempre novas, procurando estimulantes sempre mais fortes ou deixando-se espremer de maneira infantil pela "indústria do tempo livre». No entanto, mais tarde ou mais cedo, corre-se o perigo de encontrar tudo aborrecido já que nós mesmos, com o nosso próprio vazio, somos a fonte e a causa do nosso próprio tédio e aborrecimento. É bom escutar uma vez mais a sabedoria do filósofo Pascal: «Toda a desgraça dos seres humanos procede duma só coisa que é não saber permanecer em paz dentro de uma casa». Dentro da própria casa, no nosso espírito... O descanso gera tédio e torna-se insuportável quando o homem não sabe abrir-se para o melhor que há nele e para Aquele que é fonte de vida e de liberdade. Oxalá saibamos escutar no meio das nossas férias as palavras de Jesus: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco». De facto, Jesus não disse 'retirai-vos' mas 'retiremo-nos' porque ele está sempre presente, quer na actividade quer no descanso. Aliás, enquanto descansavam, veio uma multidão e Jesus, compadecido, começou a ensinar-lhes muitas coisas. Sempre que alguém descansa, parece que Jesus fica com mais trabalho.

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publicado às 18:45


A OUTRA SOLUÇÃO

por Thynus, em 05.12.10
A rica teologia do relato da multiplicação dos pães pode ter uma ressonância muito particular para estes tempos de crise, esgotamento de recursos energéticos, escassez de trabalho, miséria crescente dos povos subdesenvolvidos. Como resolver o problema da subsistência de homens e povos confrontados com uma situação de escassez e falta de bens necessários para uma vida digna? O relato evangélico propõe uma primeira solução insuficiente e inviável. Não bastariam duzentos denários para comprar um pedaço de pão para cada um. A solução não está no dinheiro. Os homens e mulheres sumidos na necessidade não podem «comprar pão». Por outro lado, «comprar pão» significa que há homens e povos que dispõem de alimentos em abundância, mas que não os cedem a não ser impondo um preço e condições que aumentam o seu poder sobre os necessitados. Jesus orienta os seus discípulos para uma solução distinta que não crie novas dependências de opressão e exploração. Uma solução enormemente simples e que consiste em partilhar com os necessitados o que temos cada um, mesmo que seja tão pouco e desproporcionado com a magnitude do problema como os cinco pães e os dois peixes daquele menino. Mas não podemos esquecer algo que o relato quer sublinhar. Jesus, antes de começar a reparti-los, pronuncia a acção de graças ao Pai... Só quando reconhecemos que os nossos bens são benção do Pai à humanidade, podemos pô-los ao serviço dos irmãos. Ao restituir a Deus com a sua acção de graças os bens da terra, Jesus orienta-os para o seu verdadeiro destino que é a comunidade de todos os homens e mulheres. Não é possível reconhecer sinceramente a Deus como Pai dos homens e fonte de todos os nossos bens e continuar a monopolizá-los de modo egoísta, desinteressando-nos dos povos famintos e dos homens sumidos na miséria. Os bens da terra não podem servir para acrescentar a nossa discórdia e mútua exploração, mas para criar maior fraternidade e comunhão. A vida não nos foi dada para fazer dinheiro, mas para nos tornarmos irmãos. A vida consiste em aprender a conviver e a colaborar na longa marcha dos homens para a fraternidade. (Cfr. Jo, 6,1-15)

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publicado às 18:44


UM VAZIO DIFÍCIL DE PREENCHER

por Thynus, em 05.12.10
A palavra «religião» suscita hoje em muitas pessoas uma atitude defensiva. Em muitos ambientes, o simples facto de colocar a questão religiosa provoca mal-estar, silêncios evasivos, um desvio hábil da conversa. Entende-se a religião como um estádio infantil da humanidade que já está sendo superado. Algo que pôde ter sentido noutros tempos, mas que, numa sociedade adulta e emancipada, carece já de todo o interesse. Crer em Deus, orar, alimentar uma esperança final é, para muitos, um modo de comportar-se que pode ser tolerado, mas que é indigno de pessoas inteligentes e progressistas. Qualquer ocasião parece boa para trivializar ou ridicularizar o religioso, incluso, nos meios públicos de comunicação. Dir-se-ia que a religião é algo supérfluo e inútil. O que é realmente importante e decisivo pertence a outra esfera: a do desenvolvimento técnico e a produtividade económica. Ao longo destes últimos anos foi crescendo entre nós a opinião de que uma sociedade industrial moderna não necessita mais de religião, pois é capaz de resolver por si mesma os seus problemas de maneira racional e científica. Porém, este optimismo «a-religioso» carece de ser confirmado pelos factos. Os homens vivem quase exclusivamente para o trabalho e para o consumismo durante o seu tempo livre, mas «esse pão» não preenche satisfatoriamente a sua vida. O lugar que ocupava anteriormente a fé religiosa deixou em muitos homens e mulheres um vazio difícil de preencher e uma fome que debilita as próprias raízes da sua vida. F. Heer fala de «esse grande vazio interior em que os seres humanos não podem por muito tempo viver sem escolher novos deuses, chefes e líderes carismáticos artificiais». Talvez seja o momento de redescobrir que crer em Deus significa ser livre para amar a vida até ao fim. Ser capaz de procurar a salvação total sem ficar satisfeito com uma vida fragmentada. Manter a inquietação da verdade absoluta sem contentar-se com a aparência superficial das coisas. Buscar a nossa re-ligação com o Transcendente dando um sentido último ao nosso viver diário. Quando se vivem dias, semanas e anos inteiros, sem viver verdadeiramente, só com a preocupação de «continuar funcionando», não deveria passar inadvertido o convite interpelador de Jesus: «Eu sou o pão de vida».

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publicado às 18:43


"ABRE-TE"

por Thynus, em 05.12.10

Se Sarte diz “o inferno são os outros”, Gabriel Marcel responde: “para mim o céu são os outros”. Por isso o filosofo diz ainda: 'Só há um sofrimento e é ser sozinho'. Apenas existe um sofrimento e é o estar só. A afirmação poderá parecer exagerada, mas o certo é que, para muitos homens e mulheres de hoje, a solidão é o maior problema da sua existência. Aparentemente, o homem actual está melhor comunicado do que nunca com os seus semelhantes e com a realidade inteira. Os meios de comunicação multiplicaram-se de modo espantoso. O telefone permite manter uma conversa com as pessoas mais distantes. A televisão introduz nas nossas casas imagens de todo o mundo. A rádio acabou com o isolamento. A internet permite ás pessoas falarem-se e verem-se umas às outras a milhares de kilómetros de distância… Por outro lado, o público impõe-se sobre o privado. Fala-se de associações de todo o tipo, círculos sociais, relações públicas, encontros. No entanto tudo isso não impede que uma solidão indefinida, difusa e triste se vá apoderando de muitos homens e mulheres. Lares onde as pessoas se suportam com indiferença ou agressividade crescente. Crianças que não conhecem o carinho e a ternura. Jovens que descobrem com amargura que o encontro sexual pode encobrir um egoísmo enganoso. Amantes que se sentem cada vez mais sós depois do amor. Amizades que ficam reduzidas a cálculos e interesses inconfessáveis. O homem actual vai descobrindo pouco a pouco que a solidão não é necessariamente o resultado de uma falta de contacto com as pessoas. Antes que isso, a solidão pode ser uma doença do coração. Se a minha vida é um deserto, o mundo inteiro é um deserto, mesmo que esteja povoado de todos os tipos de pessoas. Sem dúvida, são muitos os factores que podem levar uma pessoa a esse isolamento interior que se manifesta em frases cada vez mais escutadas entre nós: «Ninguém se interessa por mim». «Não acredito em ninguém». «Que me deixem só. Não quero saber nada de ninguém». Mas para superar o isolamento, é necessário abrir-se de novo à vida. Aceitar-se a si mesmo com simplicidade e verdade. Escutar de novo o sofrimento e a alegria dos outros. Destruir o círculo obsessivo dos «meus problemas». Recuperar a confiança nos gestos amistosos dos outros por muito limitados e pobres que nos possam parecer. A fé não é um remédio terapêutico que possa prevenir ou curar a solidão. O crente está submetido, como qualquer outro, às tensões da vida moderna e às dificuldades da relação pessoal. Mas pode encontrar na sua fé uma luz, uma força, um sentido, una energia para superar o isolamento, a solidão e a incomunicação. Como aquele homem surdo e mudo, incapaz de comunicar-se, que escutou um dia a palavra curadora de Jesus: «Abre-te!».

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publicado às 18:30


CRER EM ALGUÉM

por Thynus, em 05.12.10

Nós cristãos esquecemos com muita frequência que a fé não consiste em crer em algo, mas em crer em Alguém. Não se trata de aderirmos fielmente a um credo e, muito menos, de aceitar cegamente «um conjunto estranho de doutrinas», mas de encontrarmo-nos com Alguém vivo que dá sentido radical à nossa existência. O verdadeiramente decisivo é encontrar-se com a pessoa de Jesus Cristo e descobrir, por experiência pessoal, que só Ele pode responder de maneira plena às nossas perguntas mais decisivas, aos nossos anseios mais profundos e às nossas necessidades mais últimas. Nos nossos tempos torna-se cada vez mais difícil crer em algo. As ideologias mais firmes, os sistemas mais poderosos, as teorias mais brilhantes foram-se desmoronando ao descobrirmos as suas limitações e profundas deficiências. O homem moderno, desiludido dos dogmas, ideologias e sistemas doutrinais, talvez ainda esteja disposto a crer em pessoas que o ajudem a viver e o possam «salvar» dando um sentido novo à sua existência. Por isso o teólogo K. Lehmann pôde dizer que «o homem moderno só será crente quando tiver feito uma experiência autêntica de adesão à pessoa de Jesus Cristo». Causa tristeza observar a atitude de sectores católicos cuja única obsessão parece ser «conservar a fé» como «um depósito de doutrinas» que há que saber defender contra o assalto das novas ideologias e correntes que, para muitos, resultam mais atrativas, mais actuais e mais interessantes. Crer é outra coisa. Antes de tudo, nós cristãos temos de preocupar-nos em reavivar a nossa adesão profunda à pessoa de Jesus Cristo. Só quando vivermos «seduzidos» por Ele e trabalhados pela força regeneradora da sua pessoa, poderemos transmitir também hoje o seu espírito e a sua visão da vida. Caso contrário, continuaremos a proclamar com os lábios doutrinas sublimes, ao mesmo tempo que continuamos a viver uma fé medíocre e pouco convincente. Nós cristãos temos de responder com sinceridade a essa pergunta interpeladora de Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Cfr. Mc. 8,27-35). Ibn Arabi escreveu que «aquele que ficou preso por essa enfermidade que se chama Jesus, não pode mais curar-se» . Quantos cristãos poderiam hoje intuir desde a sua experiência pessoal a verdade que se encerra nestas palavras?

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publicado às 18:29


EM DEFESA DAS CRIANÇAS

por Thynus, em 05.12.10

Disse alguém que o trabalho que se faz nas escolas é mais importante e decisivo para o futuro de uma sociedade do que o trabalho que se realiza nas oficinas, nas fábricas e que os despachos dos políticos. Certamente, não é nada fácil a arte de educar. As ciências da pedagogia falam-nos hoje de muitos factores que tornam árdua e complexa esta tarefa. Mas, talvez, a primeira dificuldade seja a de nos encontrarmos realmente com a criança. Não é fácil para um homem ou uma mulher integrados numa sociedade como a nossa aproximar-se das crianças com à vontade. O seu olhar e os seus gestos espontâneos desarmam-nos. Não lhes podemos falar das nossas ganâncias nem das nossas contas correntes. Não entendem os nossos cálculos nem as nossas hipocrisias. Para aproximarmo-nos delas, teríamos que voltar a apreciar as coisas simples da vida, aprender de novo a ser felizes sem possuir muitas coisas, amar com entusiasmo a vida e tudo o que é vivo. Por isso, é mais fácil tratar a criança como um pequeno computador a quem alimentamos de dados do que aproximarmo-nos dela para lhe abrir os olhos e o coração a tudo o que é bom, ao belo, ao grande. É mais cómodo sobrecarregá-la de actividades escolares e extra-escolares do que acompanhá-lo no descobrimento maravilhoso da vida. Apenas homens e mulheres, livres de avidez e de ódios, que não acreditem só no dinheiro ou na força, podem fazer com as crianças algo mais que transmitir-lhes uma informação científica. Apenas homens e mulheres respeitosos que sabem escutar as perguntas importantes da criança para apresentar-lhe com humildade as próprias convicções, podem ajudá-la a crescer como pessoa. Apenas os educadores que sabem intuir a solidão de tantas crianças para oferecer-lhes o seu acolhimento carinhoso e firme, podem despertar nelas o amor verdadeiro à vida. Como dizia Saint-Exupéry, e talvez hoje mais do que nunca, «as crianças devem ter muita paciência com os adultos» pois não encontram em nós a compreensão, o respeito, a amizade e o acolhimento que procuram. Mesmo que a sociedade não saiba, talvez, valorizar e agradecer devidamente a tarefa silenciosa de tantos educadores e educadoras que desgastam a sua vida, as suas forças e os seus nervos junto das crianças, eles devem saber que o seu labor, quando é realizado responsavelmente, é um dos maiores contributos para a construção de um povo. E os que o fazem desde uma perspectiva cristã, devem recordar que «quem acolhe uma criança em nome de Jesus, acolhe-o a ele».

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publicado às 18:28



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  155. N
  156. D

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