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No início de uma noite calma e quente de agosto de 1986, na cidadezinha de Nyos, nas montanhas de Camarões, África ocidental, a maior parte da população já se preparava para dormir. Alguns gozavam o calorzinho, que já anunciava a aproximação da primavera, passeando e conversando pelas calçadas.
Outros saboreavam uma cerveja ou um copo de vinho de palmeira no bar mais próximo. Subitamente, uma nuvem baixa, vinda do belo Lago Nyos, situado acima no morro, a pouco mais de um quilômetro de distância, avançou pelo vale. Ela encobriu as bananeiras e a parte mais baixa das árvores, espalhou-se pela cidade e invadiu as casas. Em poucos minutos, a quase totalidade dos habitantes estava morta, asfixiada pelo gás contido na névoa. A nuvem, prosseguindo em seu caminho destruidor, antes de se dissipar, atingiu ainda outros dois vilarejos: Cha, a oeste de Nyos, e Subrum, a leste. Em menos de 1 hora mais de 1.200 pessoas morreram. Também foram encontrados mortos cerca de quatro mil vacas, 550 cabras, 300 carneiros e mais de três mil aves domésticas.
Os poucos sobreviventes da catástrofe, após terem permanecido inconscientes por várias horas, defrontaram-se, ao amanhecer, com uma inacreditável cena de horror e desolação. Ao se espalhar a notícia, poucas foram às pessoas das aldeias vizinhas que tiveram coragem de se dirigir ao local a fim de prestar socorro. Apenas um missionário católico, acompanhado de um amigo, piloto de um helicóptero, e um geólogo, que estudava a região. Chegando lá, iniciaram imediatamente o transporte dos sobreviventes para a cidade de Wurn, a cerca de 20 quilômetros. Só dois dias mais tarde é que um contingente do exército foi destacado para enterrar os cadáveres e tomar outras providências. Ao mesmo tempo, foram iniciadas as investigações científicas pelo Ministério de Minas de Camarões, visando descobrir as causas do acidente.
O Nyos é um lago natural, de origem vulcânica (um vulcão extinto há mais de 100 mil anos), com cerca de dois quilômetros de comprimento e uns 200 metros de profundidade. As pessoas que sobreviveram à catástrofe contam que, pouco antes de a nuvem mortífera descer, ouviram um grande rumor vindo do lago. Foi como se uma imensa onda se levantasse em meio à calmaria e batesse de encontro aos rochedos que circundam todo o corpo d'água. Imediatamente foi levantada a hipótese de que uma enorme bolha de gás, de origem vulcânica, teria se desprendido subitamente do fundo do lago provocando a onda. Sendo mais pesada que o ar, essa bolha espalhou-se por todo o vale.
A hipótese foi confirmada parcialmente pelas inúmeras missões científicas para lá encaminhadas, uma semana depois, procedentes de vários países, como Itália, França, Japão, Nigéria, Suíça, Estados Unidos e Inglaterra. As pesquisas realizadas evidenciaram que o gás carbônico encontrado na água do lago possui composição isotópica idêntica à do que se forma a partir de lavas vulcânicas. Assim, esse gás é proveniente de grande profundidade, embora não se saiba, ainda, como atinge o lago.
A conclusão da maior parte dos cientistas, pelo menos até agora, é que se trata de um fenômeno natural - embora nunca visto nessas proporções - de uma turbulência súbita, causada por diferenças de temperatura da água. Isso acabou provocando a subida repentina de gás carbônico aí acumulado durante um longo período de estagnação, isto é, de um período de ausência de circulação da água entre superfície e fundo.
As chuvas copiosas que caem naquela região, nesse período do ano, provocam um rápido resfriamento da superfície, formando uma camada de água mais fria.
Embora mais pesada (por ser mais fria), essa camada de água leva muito tempo, em condições atmosféricas normais, para se misturar às camadas inferiores. Uma anomalia qualquer, como, por exemplo, uma rajada de vento repentina, poderia ter provocado o se afundamento súbito e o deslocamento de uma porção considerável do gás acumulado sob pressão. Segundo os cálculos dos cientistas, o volume de gás desprendido atingiu a cifra de 300 milhões de metros cúbicos!
Essa repentina turbulência, inteiramente independente de qualquer interferência humana, teria causado um dos maiores e mais trágicos episódios de poluição do ar de que se tem notícia na história da humanidade.
De certa forma, bem mais desconcertante que o célebre soterramento da cidade de Pompéia pelas cinzas do Vesúvio — uma catástrofe de proporções bem maiores, porém acompanhada de prenúncios, tremores, ruídos e outros efeitos sensíveis que acompanham os cataclismos, em lugar do sinistro e silencioso avanço de uma simples neblina, aparentemente inofensiva e corriqueira...
A característica sinistra e traiçoeira constitui, em geral, a peculiaridade mais marcante da poluição atmosférica. Sendo causada por modificações da composição do ar que nos cerca e nos envolve - e do qual dependemos vitalmente -, é, na maioria dos casos, invisível, intangível e inevitável. Ela pode ser de origem natural ou gerada pela atividade consciente ou inconsciente do ser humano, esse incrível e constante modificador da natureza terrestre.

(SAMUEL MURGEL BRANCO - "Poluição do ar")

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