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Ocaráter irritantemente etéreo e a obstinada extraterritorialidade da “essência” solapam e corroem a territorialidade sólida das realidades européias. A Europa geográfica nunca teve fronteiras fixas e é improvável que venha a adquiri-las enquanto a “essência” continuar existindo, já que até agora ela tem“flutuado livremente”, apenas frouxamente atada, se é que chega a isso, a algum local determinado. E quando os Estados europeus tentam estabelecer as suas fronteiras “continentais” comuns e, para mantê-las, contratam guardas fortemente armados, ao lado de agentes alfandegários e de imigração, percebem que é impossível lacrá-las, torná-las estanques e impermeáveis. Qualquer linha que circunscreva a Europa será um desafio para o restante do planeta e um convite permanente à transgressão.
A Europa como ideal (podemos chamá-lo de “europeísmo”) é um desafio à propriedade monopolista. Não se pode negá-la ao “outro”, já que ela incorpora o fenômeno da “alteridade”: na prática do europeísmo, o esforço perpétuo de separar, expelir e expulsar é constantemente frustrado pela atração, admissão e assimilação do “externo”. Hans-Georg Gadamer acreditava que era essa a “vantagem particular” da Europa: seu talento para “viver com os outros, viver como o outro do outro”, sua capacidade e necessidade de “aprender a viver com os outros mesmo que estes não fossem assim”. “Todos nós somos outros, e todos somos nós mesmos.” A vida européia é vivida na constante presença e companhia dos outros e dos diferentes, e o modo de vida europeu é uma negociação contínua que prossegue apesar da alteridade e da diferença que dividem os que estão engajados na negociação e pela negociação.
Talvez seja essa internalização da diferença que marca a condição da Europa (na memorável expressão de Krzysztof Pomian) como o lugar de nascimento de uma civilização transgressora – uma civilização da transgressão (e vice-versa!). Podemos dizer que, a se avaliar pelos seus horizontes e ambições (embora nem sempre pelos seus feitos), essa civilização, ou essa cultura, foi e continua sendo um modo de vida que é alérgico a fronteiras – na verdade, a toda e qualquer fixidez e finitude. Limites a fazem sofrer muito. É como se ela traçasse as fronteiras apenas para dar vazão ao incurável impulso de transgredi-las.Trata-se de uma cultura intrinsecamente expansiva – traço intimamente interligado com o fato de a Europa ter sido o lócus da única entidade social que, além de ser uma civilização, também se denominou e se viu como tal; que é um produto da escolha, do desígnio e da capacidade administrativa – assim remodelando a totalidade das coisas, incluindo a si mesma, como um objeto inacabado-por-princípio, um objeto do escrutínio, da crítica e possivelmente da ação reparadora. Em sua versão européia, a “civilização” (ou a “cultura”, conceito difícil de separar do de “civilização”, apesar dos sutis argumentos dos filósofos e dos esforços, menos sutis, dos políticos nacionalistas) é um processo contínuo – sempre imperfeito, mas em luta obstinada pela perfeição – de refazer o mundo.Mesmo quando se executa esse processo em nome da conservação, a desesperada incapacidade das coisas de permaneceremcomo são, assim como o seu hábito de desafiar com sucesso todos os remendos indevidos, a menos que adequadamente realizados, é o pressuposto comumde toda a conservação. Ela é vista, incluindo os conservadores, como um trabalho a ser feito, e na verdade esse pressuposto é a principal razão pela qual esse trabalho é visto desse modo.
Parafraseando o dito espirituoso de Hector Hugh Munro (Saki), poderíamos dizer que o povo da Europa fez mais história do que podia consumir localmente. No que se refere à história, a Europa foi definitivamente um país exportador, apresentando (até bem recentemente) uma balança de comércio exterior consistentemente positiva...

(Zygmunt Bauman - "EUROPA, Uma aventura inacabada")

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