Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

O consumo toma tempo (ir ás compras também), e os vendedores de bens de consumo são naturalmente interessados em reduzir ao mínimo o tempo dedicado à agradável arte de consumir. Simultaneamente, eles se interessam em cortar o máximo possível, ou eliminar de uma vez, as atividades que ocupam muito tempo mas geram poucos lucros de mercado. Tendo em vista sua freqüência nos catálogos, as promessas contidas nas descrições dos novos produtos disponíveis - co-mo "não exige nenhum esforço", "não é necessária nenhuma habilidade", "você vai curtir [música, paisagens, delícias do paladar, a limpeza renovada de sua blusa etc] em minutos" ou "com apenas um toque" - parecem presumir que haja uma convergência de interesses entre vendedores e compradores. Promessas como essas são admissões ocultas/oblíquas de que os vendedores de bens não desejam que seus compradores passem muito tempo usufruindo deles, gastando assim um tempo que poderia ser usado em outras incursões de compra - mas, evidentemente, as promessas também devem ser um ponto de venda muito confiável. Deve-se ter descoberto que os potenciais compradores desejam resultados rápidos e um engajamento apenas momentâneo de suas faculdades físicas e mentais - provavelmente a fim de liberar seu tempo para opções mais atraentes. Se as latas podem ser abertas com um tipo de esforço menos "ruim para você" graças a um novo abridor de latas eletrônico milagrosamente engenhoso, sobrará mais tempo para ser gasto numa academia exercitando-se com aparelhos que prometem uma variedade de exercício "boa para você". Mas, quaisquer que sejam os ganhos de uma transação como essa, seu impacto sobre a soma total de felicidade é, no mínimo, bastante ambíguo.
Laura Potter embarcou numa habilidosa exploração de todos os tipos de sala de espera na expectativa de que viesse a encontrar ali "pessoas impacientes, descontentes, agitadas, xingando cada milissegundo perdido" - explodindo diante da necessidade de esperar pelo "assunto urgente", qualquer que fosse, que os levara para lá. Com nosso "culto à satisfação instantânea", ponderava ela, muitos de nós "teríamos perdido a capacidade de esperar":
Vivemos numa era em que "esperar" se transformou num palavrão. Gradualmente erradicamos (tanto quanto possível) a necessidade de esperar por qualquer coisa, e o adjetivo do momento é "instantâneo". Não podemos mais gastar meros 12 minutos fervendo uma panela de arroz, de modo que foi criada uma versão de dois minutos para microondas. Não podemos ficar esperando que a pessoa certa chegue, de modo que aceleramos o encontro ... Em nossas vidas pressionadas pelo tempo, parece que o cidadão britânico do século XXI não tem mais tempo para esperar coisa alguma.
Mas, para grande surpresa dela (e talvez da maioria de nós), Laura Potter encontrou um quadro bem diferente. Aonde quer que fosse, percebia o mesmo o sentimento: "a espera era um prazer ... Esperar parecia ter se tornado um luxo, uma janela em nossas vidas estritamente agendadas. Em nossa cultura do 'agora', de BlackBerrys, laptops e celulares, os 'esperantes' viam a sala de espera como um refúgio." Talvez, conclui Potter, a sala de espera nos relembre a arte, tão prazerosa mas infelizmente esquecida, de relaxar...
Os prazeres do relaxamento não são os únicos sacrificados no altar da vida apressada em nome da economia de tempo para buscar outras coisas. Quando os efeitos antes atingidos graças a nossa engenhosidade, dedicação e habilidades, adquiridas com dificuldade, foram "terceirizados" numa engenhoca que exige apenas sacar um cartão de crédito e a-pertar um botão, algo que fazia muitas pessoas felizes e provavelmente era vital para a felicidade de todos se perdeu pelo caminho: o orgulho pelo "trabalho bem-feito", pela destreza, astúcia e habilidade, pela realização de uma tarefa assustadora, a superação de um obstáculo inexpugnável. A longo prazo, as habilidades um dia adquiridas, e a própria capacidade de aprender e dominar novas habilidades, são esquecidas e perdidas, e com elas se vai a alegria de satisfazer o instinto de artífice, essa condição vital para a autoestima, tão difícil de ser substituída, juntamente com a felicidade oferecida pelo respeito por si mesmo.

("A arte da vida" / Zygmunt Bauman)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 14:39



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D