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A tirania empresarial

por Thynus, em 10.01.13

 

Em nome da ética profissional, os mais fracos são sacrificados numa empresa, e em nome da participação triunfa o autoritarismo: junto com os partidos, as empresas são atualmente uma das estruturas mais autoritárias que existem. Mas ao menos nos partidos sobrevive o rito democrático: são as bases que elegem os chefes. Na empresa, em nome da praticidade, a estética também é sacrificada, sob um amontoado de fórmicas com cores que mais parecem de hospital e bandejões onde a comida também tem gosto hospitalar.

Eu sei que a empresa não é só isso. Ela também é sobrevivência, salário, convívio social, erotismo, carreira, é a sensação de estar por dentro, de ser in, porque dá a ilusão de que as notícias que contam realmente chegam até ela sempre como de primeira mão. Mas os problemas são o preço que se paga por tudo isso, as renúncias, as neuroses.
Todas as organizações que atualmente produzem bens de serviço e informação são filhas da velha indústria de manufaturas que durante duzentos anos administrou o exército de analfabetos que assumiram tarefas repetitivas.
Agora se tenta fazer a mesma coisa com os diplomados e graduados.
Por duzentos anos a empresa manufatureira aperfeiçoou a sádica arte do controle sobre tudo e todos: hora de entrada e de saída, despesas, ritmos e biorritmos. Hoje se tenta fazer a mesma coisa com as pessoas que exercem trabalhos criativos, que, ao contrário, requerem motivação.
Durante duzentos anos esse mesma indústria aposentou seus trabalhadores aos sessenta anos, porque era a idade média com que morriam.
Hoje que a vida média prolongou-se por mais vinte anos, realizam-se pré-aposentadorias quando o trabalhador atinge cinqüenta e cinco anos de idade, sendo condenado assim a trinta anos de inutilidade, depois de ter sido sugado e iludido com a idéia de que era indispensável e insubstituível.
A empresa subutiliza todo mundo. Qualquer executivo de hoje seria capaz de fazer as mesmas coisas que faz o seu chefe. Enquanto é tempo, os executivos deveriam reorganizar as próprias vidas, começando pela cura desse delírio que os faz pensar que são eternos e adiar continuamente para a velhice o momento de curtir a família e os filhos. Deveriam começar a cultivar a própria vida interior, no lugar da carreira que um dia terá fim, que será num nível bem mais baixo do que aquele que a empresa, com esperteza, os fez sonhar: todos ambicionam virar presidente, mas o presidente é sempre um só.
Assim que acabarem de fazer o trabalho do dia, os trabalhadores devem ir para casa. Devem parar com essa história de chegar em casa exaustos, passando do domínio do chefe ao domínio da telinha. Essas pessoas, que estão acostumadas a trabalhar de dia e dormir de noite, devem sobretudo entender que não existe uma hierarquia ética entre o dia e a noite, como se a noite fosse malvada e o dia bondoso, como se a noite pertencesse aos vagabundos, enquanto o dia pertence aos trabalhadores virtuosos e honestos.
(Domenico De Masi - "Ócio criativo")

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publicado às 13:46



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