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CAIXA DE PANDORA

por Thynus, em 03.12.12


“Mais do que o tórax, o abdômen é a nossa caixa de Pandora, aquele misterioso receptáculo mitológico que, uma vez aberto, liberta todos os males do mundo. O abdômen é enigmático, e é enigmático, sobretudo, por causa do intestino. Sentimos o nosso coração bater, podemos controlar a inspiração e a expiração; mas o intestino se move de maneira própria e caprichosa, por meio de ronco
s e dos flatos.
Porque o intestino é um órgão primitivo. O cérebro é a sede do pensamento, o coração, ao menos metaforicamente, a sede das emoções; mas o intestino fala dos arcaicos mecanismos de manutenção da vida. Fazer das tripas coração significa deixar de lado a sensibilidade e assumir a nossa natureza anima. E, de outra parte, é com o ventre que respondemos, de maneira arcaica, às ameaças da existência: o frio na barriga, por exemplo, alerta contra o perigo imediato.
O ventre pode se apoderar de nossos conflitos e guardá-los dentro de si: é a prisão de ventre. Que está, claro, ligada a hábitos alimentares: quanto menos fibra na dieta, mais preguiçoso fica o intestino. Aliás o termo é significativo; a ideia que se tem é de que o cólon, como um humilde escravo, deveria trabalhar em silêncio e com afinco, fazendo a limpeza do corpo. Mas nem sempre é isso que acontece. Para muitas pessoas o hábito intestinal é motivo de aflição. Os especialistas sempre destacam que a evacuação diária é uma coisa mais cultural do que orgânica, mas isso não diminui a aflição daqueles que, na expressão americana, são bowel conscious, têm a consciência da existência da existência do intestino. Mas, uma vez que ela se instala, permanece, tanto no WC quanto em nossa cabeça.
Freud postulou que a criança usa o intestino para controlar os pais; recompensa-os com a evacuação e pune-os com a retenção. Mais tarde, sempre segundo Freud, o dinheiro será o equivalente das fezes: a acumulação do capital, de que Marx tanto falou, pode ter origem em traumas infantis (a taxa de juros também, como deve saber o ministro Palocci, que é médico).
E assim, a cada manhã, depois da pergunta habitual ao espelho (“Espelho, espelho meu, existe alguém mais linda, ou lindo, do que eu?”) vem a pergunta do intestino: vais me gratificar ou vais me punir? A resposta vem depois de muitos gemidos, e é gloriosa quando resulta no som da descarga do banheiro.
O intestino a gente educa. Nós o estimulamos com alimentação adequada e com exercício físico, nós o condicionamos em termos de horários. Tudo isso é muito bom. Há algumas décadas, o médico inglês Denis Burkitt notou que a incidências de câncer de cólon era menor na África, coisa que atribuiu ao maior consumo de fibras pelos africanos.
Agora: para educar o intestino, é preciso compreender o intestino, e isso significa compreender a nós próprios. É um processo de autoconhecimento, não tão glorioso quanto aquele que Sócrates ou Freud usavam, mas muito útil. É preciso ouvir a voz do corpo. Mesmo sob a forma de roncos ou de flatos.”
(Moacyr Scliar – O Olhar Médico)

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publicado às 16:40



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