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Somente em sua velhice o homem chega plenamente ao nil admirari [não se admirar de nada] de Horácio, isto é, à convicção imediata, sincera e firme da vaidade de todas as coisas e da vacuidade de todas as pompas do mundo. As quimeras desapareceram e não nos enganamos com a ilusão de que reside em alguma parte, no palácio ou na cabana, uma felicidade especial maior que aquela da qual desfrutamos sempre que estivemos livres de toda dor física ou moral. Já não existem mais as distinções mundanas entre o grande e o pequeno, entre o nobre e o vil. Isso dá ao ancião uma tranquilidade particular de ânimo que lhe permite observar com um sorriso as fantasmagorias deste mundo. Está completamente desiludido, e sabe que a vida humana, faça-se o que se fizer para decorá-la ou enfeitá-la, não tarda em revelar, em meio a esses ouropéis, sua natureza árida e miserável. Faça-se o que se fizer para pintá-la e adorná-la, sempre foi e será essencialmente a mesma coisa, uma existência cujo valor real deve ser calculado pela ausência das dores e não pela presença dos prazeres, e ainda menos da pompa e do fausto (Horácio, Epistolae, I. 12. 1–4). O traço fundamental e característico da velhice é a desilusão; desapareceram as ilusões que até então davam à vida seu encanto e à atividade seu aguilhão. Reconhecemos o nada e a vaidade de todas as magnificências deste mundo, especialmente da pompa, do brilho e do esplendor das grandezas. Compreendemos a insignificância do que há no fundo de quase todas essas coisas que se deseja e desses prazeres a que se aspira; e chegamos assim, pouco a pouco, a convencer-nos da pobreza e do vazio da existência. Só aos setenta anos se compreende bem o primeiro versículo de Eclesiastes [Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.]; e isso, por sua vez, explica por que os indivíduos idosos às vezes são ranzinzas e mal-humorados. O que o homem tem em si mesmo nunca é mais bem aproveitado que na velhice.
É verdade que a maioria dos indivíduos, tendo sido o tempo todo obtusos de entendimento, se tornam cada vez mais autômatos à medida que avançam na vida. Pensam, dizem e fazem sempre o mesmo; e nenhuma impressão exterior pode mudar o curso de suas idéias ou fazer-lhes produzir algo novo. Falar com velhos semelhantes é como escrever na areia, pois a impressão se borra quase instantaneamente. Uma velhice dessa espécie, na verdade, não é mais que o caput mortuum [“cabeça morta”, i.e. restos mortais] da vida. A natureza parece haver desejado simbolizar a chegada dessa segunda infância pelo aparecimento de uma terceira dentição, algo que ocorre em alguns casos raros entre os anciãos. A debilitação de todas as forças conforme envelhecemos é, em verdade, uma coisa triste; porém é necessária e até benéfica, do contrário, a morte, da qual é um prelúdio, seria demasiado penosa. Assim, a vantagem principal que uma idade muito avançada proporciona é a eutanásia. Uma morte muito fácil, sem enfermidades que a precedam, sem convulsões que a acompanhem; uma morte que não se sente.

(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida")

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publicado às 15:31



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