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A alucinação é o auto-engano intrapsíquico em estado puro: claro e cristalino, porém longe da vida prática e comum. Bem mais familiares que a alucinação, e, felizmente, fora dos anais da patologia médica, são alguns de seus populares vizinhos no repertório do auto-engano: o sonho propriamente dito e o sonhar acordado. Se os animais sonham como s
onhamos é uma questão discutível; mas a universalidade do sonho entre os homens, não importando época, etnia ou cultura, dificilmente poderia ser contestada.

Nossa experiência subjetiva da vida é bifurcada. Ao dormir cada homem se retira do mundo em que vive e circula, e se recolhe a um universo todo seu. Ao acordar, porém, ele às vezes se dá conta de que sonhou — ele se recorda com maior ou menor vividez de experiências perceptivas, emocionais, reflexivas e narrativas que teria vivenciado no recesso da mente enquanto dormia. Tempo, espaço e lógica comum adormecem: os mortos visitam os vivos; um crucifixo arde no inferno; o imperador Marco Aurélio lê uma prescrição médica; um míssil nuclear ejacula; Pele menino sorri; amantes se chupam como raízes; Descartes vislumbra geometrias. Enquanto está sendo sonhado, o grau de realidade subjetiva de um sonho é absoluto. O sonhar que se está apenas sonhando é um sonho tão real quanto o sonhar que é realidade, não sonho. "Quando sonhamos que sonhamos", observa o poeta e pensador alemão Novalis, "estamos próximos do despertar."
Se o teor dos sonhos de cada um obedece ou não a algum princípio geral explicativo, não importa aqui. O que é relevante acerca do sonho sob a ótica do auto-engano é que se trata de algo vivido intensamente como real e genuíno enquanto sonhamos, mas que depois se revela apenas sonho quando despertamos. A mente de quem sonha embarca e mergulha inteiramente na verdade subjetiva da ficção que ela mesma fábula.
Um sonho não é algo que possa ser feito ou fabricado pelo indivíduo para consumo interno; ele é um fluxo imaginário que "passa" por sua mente, ou seja, algo que ele "recebe" e vivência como ocorrência involuntária, embora seja no fundo o fruto selvagem do trabalho subterrâneo de sua própria mente adormecida. Ao mergulhar no sono, em suma, nós jamais podemos escolher se vamos ou não sonhar daquela vez; qual será o conteúdo particular do sonho e qual o grau de intensidade emocional com que ele será vivido. Esse pequeno mundo que seria todo nosso revela-se, dessa forma, um universo estranhamente alheio — um mundo subjetivo que pode ser delicioso, indiferente, terrível ou todas essas coisas, mas que é inteiramente fechado à nossa vontade e escolha conscientes.
O sonhar acordado pertence ao lado desperto da vida. Como o sonhar propriamente dito, ele consiste na criação de uma realidade subjetiva; na atribuição de uma veracidade mais ou menos fungível às maquinações e confabulações de nossa própria imaginação. A capacidade da mente humana de processar simultaneamente diversas experiências e de manter várias bolas no ar ao mesmo tempo parece ser fundamental aqui.
A visão do impossível não precisa mais que de um trecho de melodia ou de um momento solto nas dobras do tempo: alguém revive um fragmento de sonho ao descer sozinho pelo elevador bem cedo; outro conversa com o ídolo ao dirigir o carro ouvindo rádio; a aluna toma sol na praia com o ex-namorado enquanto anota uma aula de cálculo; um negociante fecha contratos na igreja; o mendigo ganha na loteria e é recebido pelo papa; sob o sol do meio-dia absorto a dúvida assalta o pedestre ("E se tudo é um sonho que alguém de outro mundo está sonhando?"). "Os sonhos do acordado", relata o narrador de Dom Casmurro, "são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações [...] a imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo." Experiências desse tipo não têm a agudez alucinatória da síndrome de Bonnet ou a convicção absoluta do sonho noturno ao ser sonhado, mas a sua realidade e presença em nossa vida mental cotidiana é inquestionável.

(Eduardo Giannetti, in “Auto-engano”)

 

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