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No princípio foi o engano. Difícil é saber, quem enganou quem? Primeiro Adão, envergonhado de seu ato, tenta enganar a Deus: esconde-se com Eva entre as árvores do Éden. Descoberto, contudo, ele admite perante Deus a traição da promessa de não tocar o fruto proibido. O que Adão tenta, então, é eximir-se da culpa acusando Eva de tê-lo oferecido sedutor
amente a ele. Eva, por sua vez, responde à interpelação divina apontando o dedo acusador para a serpente: foi ela quem a teria enganado e persuadido a provar o fruto. A serpente, porém, o que disse? Ela contou a Eva que a ameaça feita por Deus era enganosa — que eles não morreriam ao comer o fruto, mas que os seus olhos se abririam e eles se tornariam semelhantes a Deus no discernimento do bem e do mal.

Foi precisamente o que aconteceu. Adão e Eva não só não morreram como, nas palavras do próprio Deus, temeroso agora de que eles provassem do fruto da imortalidade, "eis que o homem se tornou como um de nós, capaz de conhecer o bem e o mal" (Gênesis, 3:2). Os sentimentos da vergonha e da culpa, é certo, contaminaram a mente do primeiro casal; mas o fruto trouxe um saber divino e não os matou.

Conclui-se, então, que Deus mentiu? Que tentou abafar a aspiração humana de conhecimento e transcendência com uma falsa ameaça? Não necessariamente. No sentido literal da verdade, por estranho que pareça, a serpente foi mais honesta que Deus. O que transparece, contudo, é que a morte a que Deus se referia em sua ameaça não era a morte súbita e literal do organismo, mas a consciência antecipada da morte — a experiência aguda da amarga condição de finitude que nos junta e separa, liga e arranca da união com tudo o que vive." O engano original da queda, portanto, teria partido de um engano de entendimento acerca da palavra divina. A serpente não mentiu. O que ela fez foi explorar a porta aberta por um mal-entendido espontâneo, ou seja, pela atribuição ingênua e indevida de literalidade a uma ameaça igualmente real. Foi por essa pequena brecha — a suposta mentira divina — que a astúcia da serpente logrou penetrar e impregnar a inocência de Eva.

(Eduardo Giannetti - "Auto-Engano")
http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAm3sAD/auto-engano

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publicado às 13:05



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