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Sentadas em três bancos dispostos em socalcos, as mulheres apertavam-se umas de encontro às outras. Uma rapariga de cerca de trinta anos, de feições delicadas e .bonitas, transpirava ao lado de Tereza. Um pouco abaixo dos ombros tinha dois seios incrivelmente volumosos pendurados, que ao menor movimento se punham logo a balançar. Quando se levantou, Tereza viu que atrás também parecia ter dois sacos enormes que não tinham nada a ver com o seu rosto.

Quem sabe se aquela mulher também não passava longos momentos diante do espelho a olhar para o corpo e a tentar ver a alma à sua transparência, como Tereza fazia desde criança? Com certeza que também ela devia ter estupidamente julgado que o seu corpo havia de ser o brasão da sua alma. Mas se fosse parecida com aquele cabide com dois pares de sacolas penduradas, devia ser bem monstruosa, essa sua alma!

Tereza levantou-se para ir para o duche. Depois foi tomar ar. Continuava a chuviscar. Encontrava-se num pontão lançado sobre uns poucos de metros quadrados do Vltava entre painéis de madeira muito altos que abrigavam as senhoras dos olhares da cidade. Ao baixar a cabeça, apercebeu à tona da água a cara da mulher em quem tinha estado a pensar.

Ela sorria-lhe. Tinha um nariz fino, grandes olhos castanhos e um olhar infantil.

Subia a escada e, por debaixo daquele rosto delicado, voltaram a aparecer as duas sacolas a balançar e a projectar em redor minúsculas gotas de água fria.

 

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Foi-se vestir. Tinha um grande espelho diante de si.
Não, o seu corpo não tinha nada de monstruoso. Não tinha dois sacos pendurados abaixo dos ombros, mas uns seios relativamente pequenos. A mãe fazia pouco dela por eles não serem suficientemente grandes, por não serem tão grandes como os seios devem ser, o que fizera com que ganhasse complexos de que só Tomas acabara por livrá-la. Agora, já aceitava perfeitamente as suas dimensões. Só não gostava daquelas auréolas grandes de mais e escuras de mais à volta dos mamilos. Se tivesse podido desenhar o seu próprio corpo, teria mas era uns mamilos discretos, delicados, pouco salientes em relação à curva do seio e de uma cor que mal se distinguisse da cor do resto da pele. Aqueles grandes alvos vermelho-escuros pareciam-lhe obra de um pintor de aldeia especializado em imagens obscenas para necessitados.

Examinava-se a si própria e ia imaginando o que aconteceria se o nariz lhe crescesse um milímetro por dia. Quanto tempo demoraria o seu rosto a ficar irreconhecível?

E se todas as partes do corpo lhe começassem a crescer e a diminuir até deixar de ter qualquer semelhança com Tereza, ainda continuaria a ser a mesma, ainda haveria uma Tereza?

Com certeza que sim. Mesmo supondo que Tereza passasse a ser completamente diferente de Tereza, lá dentro, a sua alma continuaria sempre a mesma e não poderia fazer nada senão assistir horrorizada ao que lhe estava a acontecer ao corpo.

Mas, então, que relação haveria entre Tereza e o seu corpo?

O seu corpo teria algum direito de se chamar Tereza? E se não tivesse, o que designaria então esse nome? Nada a não ser uma coisa incorpórea, intangível?

(Desde a infância que as mesmas perguntas bailam na cabeça de Tereza. Porque as perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular - e apenas essas. Só as perguntas mais ingénuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência.)
Tereza encontra-se imóvel, como que enfeitiçada, em frente do espelho, e olha para o seu corpo como se este lhe fosse estranho; estranho, embora no cadastro dos corpos este seja o seu. Dá-lhe vómitos. Não teve força suficiente para tornar-se o único corpo da vida de Tomas. Foi enganada por aquele corpo. Durante uma noite inteira, tinha aspirado o cheiro íntimo de outra com que o cabelo do marido estava completamente impregnado!
Apetece-lhe, de repente, despedir aquele corpo como se despede uma criada. Apetece-lhe não ser para Tomas senão uma alma e expulsar aquele corpo para bem longe, para ele passar a comportar-se como os outros corpos femininos se comportam com os corpos masculinos! Já que o seu corpo não soube substituir todos os outros corpos para Tomas e perdeu a maior batalha da vida de Tereza, muito bem!, agora pode ir-se embora!

 

(Milan Kundera – “A Insustentável Leveza do Ser”)

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publicado às 13:23



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