Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




...

por Thynus, em 26.11.12
"Fazer amor é sagrado. É tão sagrado comer como fazer amor ou rezar."
Aí está uma afirmação que produzi numa comunicação ao III Simpósio do Clero, em Fátima, em 31 de Agosto de 1999, e que, apesar de constituir um simples parêntesis no discurso, foi objecto de primeira página em jornais diários. Uma evidência que foi notícia! Trata-se efectivamente de uma evidência, pois não se afirma como doutri
na oficial da Igreja que o casamento é um sacramento, significando sacramento precisamente que o amor em corpo é sagrado, experiência santa de Deus?
Quando se estuda a fenomenologia da religião, aparecem como categorias primeiras as do sagrado e do profano: há um espaço sagrado e um espaço profano, um tempo sagrado e um tempo profano. Mas, deste modo, não surge Deus acantonado nos espaços e nos tempos sagrados? Depois, haveria o imenso espaço e tempo profanos, com pequeníssimas ilhas de sagrado, de tal modo que a quase totalidade da existência se passaria no profano (de profanum: em frente e fora do templo).
Aos poucos, a Bíblia dá indicações de que é necessário acabar com esta separação dicotómica do sagrado e do profano. Diz-se expressamente que com a morte de Cristo o véu do Templo se rasgou de cima abaixo. Se Deus criou exclusivamente por amor, toda a realidade é ao mesmo tempo sagrada e profana: tudo é profano, pois pertence à autonomia, e simultaneamente tudo é sagrado, pois Deus é sempre presença infinita a todas as criaturas. O homem é tão religioso quando reza como quando estuda ou realiza qualquer outra dimensão do seu ser. Já não há o imenso deserto do profano, com pequenas ilhas de sagrado. Como diz o filósofo Andrés Torres Queiruga, num exemplo feliz, também no casamento, os que se amam tanto se amam na cama como quando trabalham para a família ou estão a comer, a descansar ou a passear.
Precisamos certamente de tempos e espaços de meditação, de celebração festiva, ritual e simbólica, não porque aí Deus esteja presente com mais intensidade, mas porque nós mesmos precisamos de dar-nos conta e tomar consciência mais intensamente de uma realidade que é sempre simultaneamente profana, no sentido de vivida autonomamente, e sagrada, no sentido de que está sempre referida a Deus, fonte do ser e de ser.
Isto não significa, porém, que concretamente o tempo seja homogéneo: de facto, o kairós, o instante do começo de uma pessoa, por exemplo, ou o instante da sua morte não formam um continuum no tempo. Há o tempo qualitativo. Por outro lado, este mundo em que nos encontramos não é um simples lugar de passagem: ele é real e verdadeiro, pois é o mundo de Deus, que ele mesmo quis e criou, para estabelecer uma aliança de liberdade com homens e mulheres livres. O que se passa é que está ainda a caminho, em processo, ainda não chegou à sua consumação, ainda não é o que será, e nós próprios não somos ainda também o que seremos.

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:37



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D