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Objecto Quase de José Saramago

por Thynus, em 08.06.10
No imaginário de José Saramago os objectos, muitas vezes, fogem de suas funções enquanto ojectos para assumir uma independência perigosa, como pode ser a fantasia. Em "Cadeira" a personagem principal é exatamente a cadeira ocupada por uma vítima sem nome que cai em câmera lenta (mas não é difícil de reconhecer o ditador português Antonio de Oliveira Salazar, que morreu pouco heroicamente por uma pequena queda da cadeira em que descansava). Em "Embargo" o protagonista não é o funcionário que está indo trabalhar de carro, mas o próprio carro, uma espécie de máquina infernal que se rebela contra o embargo do petróleo pelos árabes e leva à morte o proprietário que o conduz. Nas histórias deste livro a epidemia da independência se difunde, o elemento fantástico restitui-nos um mundo, talvez menos funcional, mas, sem dúvida, mais correspondente ao real. Pode-se atravessá-lo como um território novo.

Objecto Quase, publicado pela primeira vez em 1978, é uma coletânea de seis histórias breves e tensas do escritor português José Saramago e evidenciam as raízes do maravilhoso nesse autor. Em um gênero não muito praticado por ele, os climas são variados - podem ir do humor sarcástico ao lirismo romântico -, os personagens também, mas algo os une intimamente: o pessimismo, onde o autor espelhou não somente o presente, mas o futuro também. Vemos nesta obra o homem "coisificado" e as coisas, "humanizadas"... É simplesmente o reflexo de nossa sociedade, que se preocupa mais com a segurança dos pertences do que com o próprio cidadão!

Nos contos de Objecto Quase há dois grupos de protagonistas. No primeiro, eles são o avesso do herói, quase objetos que têm a morte indigna por destino: é o empregado que se torna vítima do próprio automóvel em “Embargo”; em “Coisas” é o sujeito que covardemente se submete às normas do mundo; em “Refluxo” é o rei que como Minos, antípoda de Teseu, foge à aventura heróica; em “Centauro” é o ser dividido entre dois mundos e, por isso, sem possibilidade de transpor mundos. No segundo grupo há a luta entre herói e vilão: em “A cadeira” – metonímia do ditador - Salazar é derrotado por um metafórico cupim, que provoca o tombo e a ruína do regime, trazendo um benefício para a sociedade; em “Desforrra”, o protagonista adolescente descobre a força de Eros, ao recusar a repressão sexual representada pela castração de um porco. Nestes casos, há uma luta e a vitória da vida.

A versatilidade de Saramago (verbal, imaginativa, observadora, refletiva) leva-o às raias do surrealismo, patente na roupagem dos "fatos", no conto "Coisas", onde os ingredientes da psicologia patológica, individual e coletiva, e da parapsicologia, são expropriados pelas palavras, cujo objetivo, constante no autor, é o homem, para o despir até à pele e deixá-lo nu na praça pública da história, em confronto com a história, que o mesmo é dizer consigo próprio, o que explica a sua toada sarcástica e a sua intenção pedagógica acerada.

Com Objeto Quase, José Saramago denuncia o estado de animalização do homem e a materialização da violência como um capítulo comum, doloroso da história de um povo.

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publicado às 11:18



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