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por Thynus, em 07.12.12
NO MUNDO OCIDENTAL, os visionários e místicos são hoje muito menos encontradiços do que costumavam ser. Há duas razões principais para essa situação — uma, de natureza filosófica, e outra, de ordem tecnológica ou, mais precisamente,química. No quadro atual de nosso universo não há lugar para experiências transcendentais convincentes. Em conseqüência, aqueles que tenham tido experiênciasdessa ordem, por eles consideradas válidas, são encarados com suspeita e consideradosou lunáticos ou mistificadores. Já não é mais honroso ser místico ou visionário.Mas não é apenas nosso clima mental que é desfavorável ao místico e aovisionário; também o é nosso ambiente químico — um ambiente profundamentediferente daquele em que viveram nossos antepassados.O cérebro é quimicamente controlado, e a experiência já nos demonstrou que ele pode tornar-se permeável aos aspectos desfavoráveis (biologicamente falando) daOnisciência, ante uma modificacão do equilíbrio químico normal (também do ponto devista biológico) do organismo.Durante cerca da metade de cada ano, nossos ancestrais não comiam frutas,hortaliças verdes e (visto que lhes era impossível alimentar, durante o inverno, mais de umas poucas cabeças de gado bovino e suíno e algumas aves) consumiam pouquíssima manteiga e carne fresca, e poucos eram os ovos de que dispunham. No começo de cada nova primavera, a maioria da população estava sofrendo, com maior ou menor intensidade, de escorbuto (ante a falta de vitamina C) e de pelagra (pela deficiência, em sua dieta, do complexo B). Aos desoladores sintomas somáticos dessas doenças,associavam-se os não menos pungentes  indícios de desequilíbrio psíquicos.


O sistema nervoso é mais vulnerável que os demais tecidos do corpo. Emconseqüência, as deficiências de vitaminas tendem a atuar sobre o estado de espírito antes de agirem, ao menos de modo ostensivo, sobre a pele, os ossos, as mucosas, os músculos e as vísceras. A primeira conseqüência de uma dieta imprópria é uma reduçãoda eficiência do cérebro como instrumento de sobrevivência biológica. O subnutrido tende a ser dominado por ânsias, depressões, hipocondria e sentimentos de angústia. Ê também capaz de ter visões, pois quando a válvula redutora — o cérebro — diminui sua eficiência, muito material biologicamente inútil flui para o consciente, vindo lá de fora, do Onisciente. Grande parte das experiências por que passaram os antigos visionários eram aterradoras. Para usar a linguagem da teologia cristã, o Demônio revelou-se, em suas visões e seus êxtases, com muito maior freqüência do que Deus. Em uma época na qual as vitaminas eram deficientes e a crença em Satanás era universal, isso não seria para surpreender. O sofrimento mental, associado a casos ainda que incipientes de pelagra e escorbuto, era agravado pelo temor ao Inferno e pela convicção de que os poderes do mal eram onipresentes. Esse sofrimento era capaz de tingir com suas próprias cores sinistras o material visionário admitido ao consciente através de uma válvula cerebral cuja eficiência havia sido prejudicada pela subnutrição. Mas, a despeitode suas preocupações com a punição eterna e de suas doenças carenciais, os ascetas de mentalidade espiritual atingiam com freqüência o Céu em suas visões e chegavammesmo, por vezes, a perceber aquela divina e imparcial Unidade, na qual os pólos opostos se reconciliam. Não parecia haver preço suficientemente elevado para um lampejo de beatitude, para o antegozar do ímpar.A mortificação do corpo pode produzir um sem-número de sintomas mentais indesejáveis; mas pode também abrir uma porta para um mundo transcendental deExistência, Saber e Bem-Aventurança. Eis a razão por que, a despeito de suas desvantagens evidentes, quase todos os que aspiraram a uma vida espiritual, no passado,submeteram-se a práticas regulares de mortificação do corpo.

(Aldous Huxley – "As Portas da Percepção")

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publicado às 12:10



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