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Sempre se disse que a única coisa certa sobre Jesus de Nazaré, se tanto, é que ele nasceu na Palestina e morreu crucificado em Jerusalém. Contudo, sabemos mais algumas poucas coisas sobre sua vida, embora, sem dúvida, o que ignoramos é muito mais, pois mesmo aquilo que oficialmente é tido como certo conta apenas com certo grau de credibilidade, nunca de certeza absoluta.
O que se tem como certo foi extraído, como dissemos, dos evangelhos, sobretudo dos de Mateus, Marcos e Lucas, mas também do de João. Esses textos, apesar de serem mais literários e teológicos, também deixaram algumas pistas da vida e dos ditos do profeta judeu. Curiosamente, alguns fatos da vida de Jesus que inspiraram não poucas obras de arte e fazem parte do imaginário coletivo não pertencem aos evangelhos oficiais e sim aos chamados “apócrifos”.
Por isso, tudo o que se sabe sobre Jesus, a começar pelo seu nascimento, ou pertence às passagens dos evangelhos canônicos consideradas menos confiáveis, ou aos apócrifos. Assim, não sabemos realmente nem o ano, nem o dia, nem o lugar onde Maria, a mãe de Jesus, o trouxe ao mundo. Quanto ao ano, parece que foi durante o reinado de Herodes, antes, portanto, do ano zero da era cristã, já que Herodes morreu no ano 4 a.C. Assim, o monge Dionísio, o Exíguo, no século IV, ao mudar o calendário para fazê-lo começar no nascimento de Cristo, errou quatro anos, no mínimo.


Sem dúvida, Jesus não nasceu em 25 de dezembro, e provavelmente nem sequer no inverno, pois, se for verdade o que Lucas relata, os pastores tinham seus rebanhos fora dos estábulos, o que seria impossível no frio de dezembro. Nenhum evangelista cita essa data, embora seja o dia em que se comemora o Natal em todo o mundo cristão. Acontece que, como a Igreja tinha que escolher uma data, optou por aquela em que se celebrava a festa do Sol, que por sua vez coincidia com o nascimento do deus pagão Mitra. E hoje tudo leva a crer que Jesus não nasceu em Belém, como afirmam os evangelhos de Mateus e Lucas (Marcos e João nem mencionam seu nascimento), mas em Nazaré.
Segundo alguns biblicistas modernos, como Antonio Pinero, a notícia de que Jesus nasceu em Belém deve-se à intenção de fazer coincidir o nascimento do Messias com a profecia de Miquéias, tal como aparece na Bíblia, que diz o seguinte: "E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá! Mas de ti há de sair aquele que há de reinar em Israel", justamente um texto citado por Mateus quando narra o episódio do nascimento.
É a partir daí que Mateus e Lucas constroem o relato do nascimento em Belém. Mas de maneira bem diferente. Mateus fala da ira de Herodes que ordena a matança dos inocentes, o que Lucas ignora. Lucas, ao contrário, fala de um recenseamento decretado por César Augusto, que seria o motivo de os pais de Jesus se mudarem para Belém, fato que Mateus ignora. E, de fato, parece que não há provas históricas da existência desse censo naquela época e naquele lugar. Crossan diz isso com todas as letras: "Nunca houve um censo geral no tempo de Augusto." Além do mais, o censo tinha uma finalidade fiscal, e cadastrar alguém longe de seu local de trabalho teria significado um verdadeiro pesadelo para a burocracia.
O mais provável é que Jesus tenha nascido em Nazaré. De fato, nos evangelhos ele nunca é chamado de "Jesus de Belém" e sim de "Jesus de Nazaré", que era como se costumava chamar as pessoas, ou seja, pelo lugar de nascimento ou pelo nome do pai. Neste caso, ele teria sido "Jesus de José", mas nunca foi chamado assim, provavelmente porque, como se sabe, os evangelistas não davam importância a São José, que é apresentado acima de tudo como um velho, devido à importância atribuída à virgindade de Maria antes e depois do parto. Curiosamente, o pai de Jesus é o grande desconhecido nos evangelhos e em toda a tradição cristã. Talvez por isso existam tantas lendas extra-oficiais sobre sua pessoa.
Mesmo nos evangelhos, perde-se a pista de Jesus depois de seu nascimento, reaparecendo só depois de trinta anos, para dar início à sua vida pública. Há um único episódio dele rapaz, aos 12 anos: o da visita ao Templo de Jerusalém, quando se perde dos pais e é encontrado três dias depois, sentado entre os doutores da Lei, discutindo com eles. É a cena em que Jesus recrimina aos pais o fato de o procurarem. Um relato de conteúdo muito mais apologético e teológico que histórico.
A verdade é que só os evangelhos apócrifos falam da infância e da juventude de Jesus. O que fez ele durante esses mais de vinte anos? Ninguém sabe. O que há são hipóteses, algumas absurdas.
(Juan Arias - "Jeus - esse grande desconhecido")


O tema do nascimento em uma gruta é também antiqüíssimo. Este símbolo está associado particularmente ao solstício de inverno, quando o sol alcança o ponto mais extremo da declinação terrestre e a luz se acha no nadir do abismo. Tal é a data do nascimento do deus Mitra, que é senhor da luz. Ele nasceu — lembramos que sua mãe é a Terra — empunhando uma arma talhada na rocha. Mitra foi o principal concorrente do cristianismo durante os três primeiros séculos da era cristã. A data do natal foi estabelecida em 25 de dezembro, que era a época do solstício, a fim de instaurar a competição com o Senhor da Luz, Mitra. Ninguém realmente sabe quando Cristo nasceu. Foi determinado que fosse 25 de dezembro por razões mitológicas, não históricas.
A gruta sempre foi o cenário da iniciação, onde ocorre o nascimento da luz. Aqui também é encontrada toda a idéia da gruta do coração, a câmara escura do coração, onde aparece pela primeira vez a luz do divino. Esta imagem também está associada ao emergir da luz do abismo do caos primitivo, de modo que se percebe as profundas ressonâncias desse tema.
(JOSEPH CAMPBELL - "Isto és Tu")

O Natalis Invicti, dia do nascimento do Sol e de Mitra, era o dia em que o Sol começava a crescer com o seu poder para salvar a humanidade e a natureza da morte; era um dia santificado desde muitos séculos antes da vinda de Jesus ao mundo. Esse dia é o 25 de dezembro.
(Jorge Adoum - "Do Sexo à Divindade")

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publicado às 22:05



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