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A dignidade infinita de ser homem

por Thynus, em 20.12.12

A festa do Natal é infinitamente mais do que o festival do comércio natalício exasperado. Há pessoas que chegam à noite de Natal cansadas e desfeitas, por causa dos presentes. No último instante, ainda tiveram de ir à última loja aberta, por causa de mais uma compra. Há inclusivamente pessoas para as quais o tormento das compras natalícias começa logo em Janeiro, uns dias após o Natal: o que é que vão dar como presente àquele, àquela, no próximo Natal?!...
Realmente, a festa do Natal é infinitamente mais, e deve sê-lo. Porque o Natal é a visita de Deus aos homens. É Deus presente entre os homens. E, ao contrário do que frequentemente fazemos com os nossos presentes, que pretendem ser uma manifestação de ostentação de poder junto dos outros, Deus veio, sem majestade, sem poder. Veio, humilde, na simplicidade. De tal maneira que os mais pobres entre os pobres - os pastores - se não sentiram humilhados ao visitá-lo. Foram os pastores os primeiros que viram Deus visível num rosto de criança. Quem é que imaginaria que Deus, se algum dia viesse, viria assim: simples, pobre, precisamente para que ninguém se sentisse excluído?...
Quer se seja cristão ou não, quer se acredite quer não, é necessário reconhecer que foi através do cristianismo, isto é, mediante a fé no Deus feito homem, que veio ao mundo a tomada de consciência explícita e clara da dignidade infinita de ser homem. Isso foi reconhecido por pensadores da estatura de Hegel, Ernst Bloch, Jürgen Habermas. Hegel afirmou expressamente que na religião cristã está o princípio de que "o homem tem valor absolutamente infinito". Ernst Bloch, embora ateu, confessou que foi pelo cristianismo que veio ao mundo a consciência do valor infinito de ser homem, de tal modo que nenhum homem pode ser tratado como "gado". E Jürgen Habermas ainda recentemente escreveu que a democracia se não entende sem a compreeensão judaico-cristã da igualdade radical de todos os homens, por causa da "igualdade de cada indivíduo perante Deus". A própria ideia de pessoa enquanto dignidade inviolável e sujeito de direitos inalienáveis veio ao mundo através dos debates à volta da tentativa de compreender a pessoa de Cristo e o mistério do Deus trinitário cristão.
Afinal, é uma alegria enorme dar um presente e receber um presente, concretamente na época de Natal. Mas essa alegria não provém tanto do valor material do presente como desse saber que consiste em sermos e estarmos nós próprios presentes uns aos outros: ele lembrou-se de mim, eu lembrei-me dele; eu lembrei-me dela, ela lembrou-se de mim...
O pequeno presente oferecido é sinal, símbolo, dessa presença calorosa, e exprime a alegria de ser homem, cuja dignidade infinita reconhecemos em cada ser humano. Assim, celebrar o Natal tem de ser também contribuir para que se concretize o anúncio dos anjos aos pastores, os mais pobres de entre os pobres de então: "Nasceu para vós um salvador; Paz na terra aos homens amados por Deus". É uma vergonha para a humanidade que hoje 20 por cento das pessoas nos países mais ricos sejam responsáveis por 86 por cento do consumo mundial, que quase metade da população do planeta (2,8 mil milhões de pessoas) tenha de sobreviver diariamente com apenas um a dois dólares, enquanto para um quinto da população (1,2 mil milhões de seres humanos) pode não chegar a um dólar por dia. Não era preciso tanto como aquilo que os norte-americanos gastam anualmente em cosméticos e os europeus em gelados para dar educação de base, água potável e saneamento a mais de dois mil milhões de pessoas. Estaríamos dispostos a pagar um imposto para o Terceiro Mundo?

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível)

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publicado às 20:07



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