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O mundo parece ter mudado logo que ficamos sem João Paulo II. Com Wojtyla parecia que tudo estava calmo e que nada acontecia. As coisas estavam no seu lugar e o sexo era reprimido. Os pedófilos, se os havia, estavam contidos, escondidos, ao abrigo do silêncio. Ratzinger fazia um excelente trabalho no Tribunal da Fé e podia silenciar qualquer voz, por mais ofendida que estivesse. Mas acabou a era do star system e a maioria, que se mostrava (e ainda se mostra) muito respeitosa, observa agora como os eventos são precipitadas pelo grande medo da essência sexual do ser humano. Não há dúvida. O sexo existe atinge em pleno tanto os homens comuns como os homens santos. A natureza triunfa e as ereções apresentam-se agora sem véus, em uns e em outros.
São a ciência moderna e homens como Charles Darwin e Sigmund Freud quem imporão à Igreja a necessidade de ter em conta, e sempre contra a sua vontade, uma realidade que, graças aos esforços da razão e da experiência, vão forçando mudanças no modelo perfeito que construiu o dogma expresso magistralmente no novo “Catecismo da Igreja Católica”, editado pessoalmente pelo cardeal Ratzinger por ordem de João Paulo II. A "Lei de Santidade" foi comprometida. A relação sexual, que não tem por fim único a procriação dentro do casamento, também faz parte da vida dos consagrados e está forçando a cúria romana a enfrentar os vínculos entre a castidade, a pureza, e a tendência para abusar de crianças.
"A sexualidade está ordenada para o amor conjugal entre homem e mulher", diz o “Catecismo ...” e não é um ato puramente biológico, “mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal." Mas nestes tempos conturbados, o desejo transbordou e já não consegue ser mantido em segredo pelo Tribunal da Fé. Em 2003, Tarcisio Bertone, vice-prefeito do ex-Santo Ofício, a respeito da pedofilia, disse numa entrevista ao Observer: "Na minha opinião o pedido de que o bispo esteja obrigado a entrar em contato com a polícia para denunciar um padre que tenha admitido atos de pedofilia é improcedente." Mas em muitos lugares, o escândalo já é impossível de conter, tornando-se um enorme problema jurídico e económico, como nos Estados Unidos, México, Irlanda, onde os pedidos de compensação estão diminuindo as finanças florescentes do Vaticano.
Os ultrajados pedem que se resolva a sua dor e humilhação com grandes somas de dinheiro que lhes permitirão pagar os custos do seu tratamento para superar, de alguma forma, os danos causados pelo abuso. E é que um grande número de homens escondidos no abrigo da santidade, obrigado pelos seus votos a não conhecer mulher, a não procriar, colocaram a sua atenção e os seus desejos em crianças vulneráveis, que não podiam distinguir claramente se o ato que estavam a ser submetidas era lícito, porque quem as submetia era também quem lhes ditava a diferença entre o bem e o mal, entre o correto e o caminho do inferno.
O sexo é, e sem dúvida, a maior força que motiva os seres humanos. E não poderá ser contido com palavras, com as orações que os padres pedófilos ensinaram às crianças para que não revelassem o que aconteceu nas suas escolas, nos colégios e em todos os lugares que deveriam estar seguros e não estiveram. A educação sexual, tal como atualmente ensinada nas escolas seculares, é o antídoto contra os abusos. E a Igreja ainda protesta porque acredita que deve ser ensinada apenas pelos pais e só em casa.
O modelo de sexualidade que a Igreja impôs terá que ir mudando nestes novos tempos. A pedofilia é apenas a ponta do iceberg que há-de obrigar um Concílio Vaticano a considerar, como Galileu fez em seu tempo, a importância de conceber de uma maneira diferente questões como a homossexualidade, o aborto, a abstinência, a inseminação artificial, a castidade, o casamento. A ciência tem muito a ensinar, e é na medida em que a hierarquia católica a conheça e aceite que poderá ir resolvendo conflitos que, caso não o faça, os levará a um Armagedão que ainda pode ser evitado.

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