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Cogito, ergo sum

por Thynus, em 05.12.10
A primeira regra do método prescreve de aceitar como verdadeiro apenas aquilo que é evidente, privado de toda a forma di dúvida e de incerteza. Isto significa suspender o consenso sobre toa a coisa que não ofereça tal garantia, ou seja, duvidar dela. Mas como se poderá chegar à certeza da evidência? Para resolver o problema não existe outra via para Descartes senão transformar a dúvida mesma num instrumento metodológico. Se me empenhar a duvidar de tudo e, apesar de tudo, qualquer coisa se subtrair à minha dúvida metódica, esta coisa será necessariamente evidente. A primeira coisa de que se deve duvidar é do testemunho dos sentidos. É de facto comum a experiência de que às vezes os sentidos nos enganam. Mas se eles nos enganam, ainda que seja apenas uma vez, porque não poderiam enganar-nos sempre? No fundo é o mesmo discurso que tinham os Cépticos: assim como os sentidos me enganam quando me parece quebrado um remo imerso na água devido aos efeitos óticos, quem me diz que os sentidos não me enganam, sempre, sobre todas as coisas? Analogamente devemos duvidar da nossa existência corpórea e de toda a realidade exterior, pois poderiam ser o resultado de uma ilusão análoga àquela que temos nos sonhos: quem de facto nos assegura que a nossa vida não é um sonho contínuo? Enfim, deverá duvidar-se das mesmas certezas matemáticas, pois não se pode excluir que Deus me queira enganar ou pelo menos permita que eu mesmo me engane, ou talvez, se isto repugna à bondade inerente necessariamente à sua essência, é possível supor que no lugar de Deus exista um génio diabólico, que utiliza toda a sua omnipotência para enganar-me. Malgrado a aplicação metódica da dúvida seja assim radical, uma coisa, porém, se subtrairá sempre da minha dúvida: o facto mesmo que eu duvido; também esta no fundo é uma concepção de matriz céptica e agostiniana: não tenho a certeza se não a certeza de não ter certeza: todavia pode-se fazer a crítica de que se não se têm certezas não se pode sequer ter a certeza de não ter certezas. Se é evidente que duvido, diz Descartes, é da mesma maneira evidente que penso, e, portanto, que existo como substância pensante. Cogito, ergo sum. Mesmo que eu sonhe ou seja enganado por um génio diabólico, não é por isso certamente que deixo de pensar – ainda que sejam fantasias e erros - e tenho a certeza de existir como sujeito do meu pensamento. Fincando-se no ergo contido na forma do cogito, já os contemporâneos acusaram Descartes de ter-se servido de um raciocínio de que se cala, pressupondo a premissa maior: "Tudo aquilo que pensa existe", "Eu penso" "Portanto existo". O cogito não seria, portanto, o conhecimento "primeiro e certíssimo" sobre o que tudo o resto se deve fundar, mas dependeria de uma premissa não subjugada à dúvida, e, portanto, não demonstrada. Além disso, Descartes teria assim de qualquer maneira introduzido aquela lógica silogística de matriz aristotélica que tanto aborrecia. Mas Descarte mesmo responde à objeção, precisando que o cogito ergo sum não é um raciocínio discursivo, mas uma intuição imediata, com a qual aquele que duvida ou pensa - o que é o mesmo - percebe a própria existência como uma evidência certíssima e inquestionável. Cogitare e essere não são dois momentos distintos de uma sucessão lógica – apesar do ergo que os une - mas dois aspectos de uma única evidência.

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publicado às 23:37


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