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Ou Deus ou o dinheiro

por Thynus, em 03.12.12


Houve tempos em que a Igreja até parecia que colocava o monopólio da maldade e do pecado na sexualidade. Mas essa posição era contra o Evangelho. De facto, o Evangelho é tolerante em relação ao domínio sexual. A Bíblia não é contra a sexualidade. A Bíblia é contra o egoísmo.
Por isso, segundo o Evangelho, a ruptura passa por outra questão: a questão do poder e do dinheiro:
não podeis servir a Deus e à riqueza. Evidentemente, Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos). Neste domínio, é inclusivamente necessário lembrar que Jesus não se opôs àquela mulher que derramou sobre ele aquele perfume raro, cujo preço equivalia ao ordenado médio de um ano.
Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza. Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza. E fê-lo, por dois motivos fundamentais. O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade. O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno. Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre. É uma vergonha para a humanidade que mil e trezentos milhões de seres humanos tenham de viver com cento e oitenta e cinco escudos por dia. Devia envergonhar-nos a todos saber que mais de oitenta por cento da riqueza do mundo está ao serviço de apenas vinte por cento da humanidade... Este estado de coisas coloca-nos perante perigos e situações explosivas, de tal maneira que é necessário tomar consciência de que se impõe como urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres: se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno...
O outro motivo para Jesus açoitar veementemente o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa. A dignidade de ser homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino, a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza, e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade. Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento, já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa. De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e se deixa corromper; se for preciso, mata, compra gente, escraviza, faz a guerra... Ele já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas. Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.
No seu aviso, Jesus é frontal: "Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro."

(Anselmo Borges – “Janela do (In)Visível)

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publicado às 13:09



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