Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Influência dos humores no homem

por Thynus, em 18.12.12
[A natureza, agora, confecciona sujeitos bem curiosos: uns, de olhos apertados, riem, como papagaio trepado numa gaita de foles; outros andam com tal cara de vinagre, que nunca os dentes mostram à guisa de sorriso, muito embora Nestor jurasse que a pilhéria é boa. (O Mercador de Veneza, ato I, cena I)]

Essa é exatamente a diferença descrita por Platão com as expressões δύσκολος [de humor difícil] e εὔκολος [de humor fácil], a qual pode ser relacionada à grande diversidade de suscetibilidade exibida por pessoas diferentes perante impressões agradáveis e desagradáveis, em consequência da qual um homem ri daquilo que leva outro ao desespero. Normalmente, quanto mais fraca é a suscetibilidade a impressões agradáveis, maior é para as desagradáveis, e vice versa. Com possibilidades iguais e êxito ou fracasso de um evento, o δύσκολος ficará incomodado ou angustiado se o evento fracassar, mas não se alegrará com o êxito. Por outro lado, o εὔκολος não ficará incomodado ou angustiado se o evento fracassar, mas se regozijará se houver êxito. Se o δύσκολος tiver, em seus empreendimentos, sucesso em nove de dez, não ficará satisfeito, mas contrariado porque um dos empreendimentos fracassou. Por outro lado, o εὔκολος é capaz de encontrar consolo e alegria mesmo num único êxito no empreendimento. Assim como dificilmente encontramos um mal sem compensação, mesmo aqui vemos que o δύσκολος e, portanto, aqueles de caráter sombrio e inquieto, tendem a suportar mais desgraças e sofrimento imaginários, enquanto, em contrapartida, menos desgraças e sofrimentos reais que os de caráter alegre e despreocupado. Pois o homem que vê tudo negro sempre pensa no pior e, assim, tomando precauções, não terá desilusões tão frequentes como aquele que vê as coisas em cores e perspectivas promissoras. Todavia, quando uma afecção mórbida do sistema nervoso ou do aparelho digestório manifesta um δυσκολία [mau humor] inato, isso pode chegar ao grau em que a insatisfação permanente produz um cansaço de viver e, consequentemente, surge uma tendência ao suicídio. Mesmo a menor contrariedade pode provocá-lo; quando o mal atinge o grau mais elevado, a contrariedade nem mesmo é necessária. Pelo contrário, um homem decide cometer suicídio apenas em consequência de uma insatisfação permanente; o suicídio é cometido com deliberação tão fria e resolução firme que o enfermo – nesta etapa, normalmente já sob certa supervisão – se vale do primeiro momento oportuno para recorrer, sem hesitação, sem esforço ou espanto, à forma de alívio que, naquele momento, é tão natural e oportuna. Descrições detalhadas desse estado mental são fornecidas por Esquirol em Des maladies mentales. Mesmo o homem mais saudável, talvez mesmo o mais alegre, pode em certas circunstâncias decidir cometer suicídio, por exemplo, quando a magnitude de seu sofrimento ou desgraça inevitável são maiores que os terrores da morte. A diferença está somente na magnitude do sofrimento necessário, que é inversamente proporcional ao grau de δυσκολία. Quanto maior for esse, tanto menor poderá ser o motivo, até chegar a zero. Pelo contrário, quanto maior for o εὐκολία [bom humor] e a saúde que o sustenta, tanto maior deverá ser o peso do motivo. Há, pois, inumeráveis casos entre os dois extremos do suicídio, entre seu surgimento de uma intensificação mórbida de um δυσκολία inato e de seu surgimento no homem saudável e alegre, oriundo de motivos puramente objetivos.

(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida") 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:20


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds