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Em nome de Deus...

por Thynus, em 04.12.12

Certa vez, vi o nome de Jesus escrito com letras garrafais na traseira de um caminhão que circulava carregado de porcos pelas estradas do Brasil. Para quê?

Jesus foi e continua sendo um coringa fácil para encobrir injustiças e misérias inconfessáveis, para defender a ordem constituída de regimes ditatoriais. E usado até pela Igreja Católica e sua Congregação da Fé — triste herança da Inquisição —
para tolher a liberdade de expressão, amordaçando os teólogos mais comprometidos com o Jesus que anunciou novos reinos de liberdade e misericórdia.


Pronunciamos o nome de Jesus até para espirrar. Se hoje ele desse um passeio por este planeta, não sei se se irritaria ou acharia graça ao ver tudo o que se construiu e destruiu em seu nome, e que provavelmente tem muito pouco a ver com o que ele pregava por aquelas aldeias pobres da Palestina, cobertas de mendigos, leprosos e possessos. São justamente os que não crêem nele, ou o vêem como um simples profeta que criticou as injustiças do mundo, os que por vezes mais o respeitam, e por isso se escandalizam ao ver como tantos cristãos banalizam seu nome, sua memória e sua mensagem de fraternidade universal.

É sintomático o fato de que Jesus, que em tudo se mostrava radical, apaixonado, sempre oposto à ordem constituída, defensor aguerrido de todos os fracos, tenha sido transformado, em suas Igrejas, em um elemento conservador, em um apelo à prudência mundana, em um amigo de poderosos e ditadores, a quem o Vaticano nunca nega suas bênçãos.

O incômodo profeta judeu da Palestina foi afastado de tudo o que significa aventura, risco, criatividade, compaixão, amor pelo prazer e pela vida. É um Jesus para mortos, para amantes da dor, para aqueles que nada querem arriscar. Para a paz burguesa, nunca para a revolução imaginativa. Mais para quem não precisaria de seu consolo e de sua ajuda que para aqueles a quem não resta outra esperança na vida que a de um Deus que não os ameace com novos castigos, já estando, como estão, bem castigados pela vida.

"Está certo que também apresentemos Jesus àqueles a quem a vida sorri, já que Deus não é racista", comentava, irônico, um teólogo da libertação; "mas que eles acabem sendo os preferidos da Igreja, enquanto a grande fila de miseráveis que ele mais amava continua para sempre na sala de espera, isso já é demais".

É curioso que Jesus, que foi o que de menos diplomático existiu na história, que pedia que se dissesse "sim ou não" e que gritava as verdades aos quatro ventos, tenha inspirado, na Igreja, a mais sofisticada das diplomacias, tanto que na Escola Diplomática Vaticana se ensina os alunos a não utilizarem toda uma lista de palavras em seus futuros documentos. Uma das normas para esses diplomatas, por exemplo, é que, quando tiverem de dar uma resposta negativa em nome do papa a alguém importante, um cardeal, um bispo ou um chefe de Estado, façam isso com palavras tão ambíguas que nunca pareçam um não definitivo, para poder um dia voltar atrás. E tudo em nome de Jesus, que tantas vezes qualificou de hipócritas aqueles que tendiam a confundir as pessoas com seus subterfúgios de leguleios.

A personalidade de Jesus, pelo pouco que se pode entrever nos vestígios que dele ficaram, pode agradar ou não. Pode ser objeto de simpatia e respeito ou de repulsa. Mas o que está claro é que ele não foi um homem de segundas intenções, ele caminhou sempre dizendo o que pensava e sentia, e que quem melhor o entendeu foram os últimos da sociedade, que intuíam que ele era um curioso profeta que semeava esperança entre os mais desesperados. Por isso acabou mal.

Só uma vez vi o nome de Jesus num lugar em que, muito provavelmente, ele teria gostado. Foi numa rua do Rio, escrito em grandes letras pretas num caixote de madeira que um menino de rua levava na mão, com uma escova velha e um pouco de graxa, tentando convencer os transeuntes a que deixassem engraxar seus sapatos.

Não sei quem tinha escrito aquele nome em sua única propriedade. Provavelmente o menino nem sabia ler. Mas ali o nome do profeta judeu não ficava mal. Seu nome roçava a sujeira da rua cada vez que o menino apoiava seu caixote no chão para engraxar os sapatos de um cliente. Sem dúvida, ali Jesus deve ter-se sentido mais à vontade que nos majestosos murais ou nos luxuosos estandartes dos desfiles triunfais organizados nos quatro cantos do mundo nestes 2.000 anos de história cristã.

(in Jesus Esse Grande Desconhecido, Juan Arias)

 

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publicado às 20:19



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