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por Thynus, em 11.12.12

Na Gênese bíblica, o mito da origem combina a idéia de origem divina com a de origem autóctone, pois Deus, que criara todas as coisas apenas pela Palavra (”Faça-se”), no caso dos humanos, modelou no barro o primeiro homem (e, no momento da condenação lhe dirá: ”Tu és pó e ao pó retornarás”). A deformidade aparece, então, visto haver um elemento de autoctonia: a perda de uma costela. E também aparece um monstro ctônico: a serpente que rasteja. A diferença sexual também é enfrentada: olhando os animais, Deus decide dar ao homem uma companheira, porém como até essemomento estamos no reino da Natureza, lemos: ”Esta sim é osso de meus ossos e carne da minha carne!”, portanto o mesmo vem do mesmo. ”Ela será chamada mulher (em hebraico, mulher = ishshà) porque foi tirada do homem (em hebraico, homem = ish)”, a diferença sexual sendo obtida por uma extração do corpo feminino do interior do corpo masculino, sem procriação. Também encontramos a supervalorização do parentesco: ”Sede fecundos, multiplicai-vos e cobri a terra”; e a superdesvalorização: Caim mata Abel. E, por fim, aparece a lei do incesto quando Deus, olhando a terra povoada, viu ”que estava toda pervertida porque toda carne tinha uma conduta perversa” e enviou a purificação: o Dilúvio e a distribuição dos seres na Arca por casais.
O advento da Cultura aparece em dois momentos de ruptura: na expulsão do Paraíso e no Dilúvio.
A expulsão do Paraíso é a saída do estado natural de inocência, ocorrendo no momento em que, tendo pecado, os humanos ”perceberam que estavam nus e se envergonharam, cobrindo-se com folhas de figueira”, isto é, percebem a diferença sexual e a diferença entre seus corpos e os dos animais, donde o sentimento cultural da vergonha, pois, como escreveu o filósofo Merleau-Ponty, os humanos não se cobrem porque tenham medo das intempéries e do frio, mas porque sabem que estão nus. A ruptura se consumacom a condenação divina: o homem deve trabalhar a terra estéril para obter frutos e a mulher deve passar pela dor no trabalho do parto. Duplo cultivo, cultura.
O Dilúvio decorre da queda dos humanos pelo retorno a uma naturalização, impossível após o pecado original: poligamia, sodomia, fratricídio e incesto. Mas a Arca é reposição da ordem cultural: não só é produto de cálculos e de trabalho] mas em seu interior estarão casais de animais (que posteriormente praticarão ”incesto”, pois são animais) e a família de Noé, esposa, filhos e noras. E sua descendência será abençoada, quando nos céus aparecer o arco da aliança.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”)

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publicado às 23:53



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