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Na mulher, o pudor sexual, a pudicícia, a virtude apreciada, em boa verdade não é mais que um conjunto de sutís subterfúgios, de delicadas ficções, de inocentes mentirinhas, destinadas a dissimular o tumulto dos sentidos, o ardor dos desejos, a rodear de mistério e de graça o rito sublime e adequado da função sexual e pela qual se deve a reprodução da espécie. Não fora essa maneira de agir da mulher e o mundo estaria deserto. Graças a aquelas inocentes mentirinhas a mulher consegue esconder o instinto de reprodução com a aparência bela e harmoniosa de um sentimento espiritual e requintado a que chama de amor.
Ainda em se falando dos meios utilizados para a conquista, posso continuar, lembrando-me do grande número de artifícios arquitetados pela mulher e destinados a enganar àquele a quem tem sob sua mira. Pós, cremes, tinturas, perfumes, silicone, aparelhos de proteses várias. Tudo tenta para que a pele não perca a frescura. Sente-se em pânico ao notar que os cabelos já não têm a mesma cor. Cuida para que a boca não se transforme em um cemitério, que o corpo mantenha as curvas que os anos podem não reter.
Posso recordar o texto de Danuza Leão no O Estado de S. Paulo de 6 de dezembro de 1999, quando a colunista retratou uma situação deveras interessante:
“tem uma hora que elas esquecem de tudo: é quando começam a se preparar para um encontro daqueles. Começando pelo banho, que leva horas; cada centímetro quadrado do corpo é banhado e ensaboado com cuidado, cada dedo do pé examinado com lupa, para que tudo esteja em seu devido lugar - e brilhando.
Depois, ainda enrolada na toalha, ela se permite ficar uns 20 minutos relaxando - e ai da empregada que se atrever, nessa hora, a pedir dinheiro para comprar produtos de limpeza. Daí em diante é uma lua-de-mel com ela mesma.
Você já reparou alguma vez uma mulher calçando meias, sem pressa? Ela acaricia suas próprias pernas, certa de que são iguais às de Cid Charisse. Se as meias forem pretas, então, nem as de Marlene Dietrich seriam páreo - ela acha, pelo menos.
Depois vêm os sapatos - altos. Claro, e aquela leve olhada no espelho para “sentir” o conjunto. Fica tranqüila e começa a botar a base, pintar os olhos, sem pensar em nada mais na vida, a não ser em ficar a mais linda possível. Aliás, toda mulher deveria se pintar de meias e sapato alto: faz o maior bem à moral.
Tudo é feito com o maior cuidado e, depois do toque final - o rímel -, é hora de separar as pestanas com um alfinete de ponta bem fina, para que nenhuma fique grudada na outra. Ah, é perigoso, pois pode machucar o olho? Claro que não: Deus sempre protege uma mulher que está se preparando para ‘aquele‘ encontro.
Aí é hora de cuidar dos cabelos e a força e a determinação com que ela maneja a escova são de dar medo a qualquer campeão de artes marciais.
Depois, é se vestir - o vestido está escolhido há semanas -, se olhar várias vezes no espelho, arrumar a bolsa e escolher os brincos que vai usar. Tente disfarçadamente observar uma mulher quando ela estiver diante do espelho dando o toque final, isto é, botando os brincos. É uma bobagem?
É, mas é verdade: ela se olha uma última vez e nessa hora se sente absolutamente segura, mais do que jamais se sentiu na vida, e pronta para o que der e vier. Usando as palavras certas: pronta para o combate e capaz de tudo.”
Não foi um bom relato? - Durante mais de uma hora, enquanto a mulher se apronta antes de sair de casa, mente o tempo para si mesma e não se percata disso! - Executa fielmente as palavras ao espelho da madrasta de Branca de Neve: existe no mundo mulher mais bela do que eu?

(Albertino Aor da Cunha - "A Mentira Nua e Crua")

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publicado às 11:51



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