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(Este artigo é a sequência de “Vítimas da pedofilia: uma metáfora do católico perfeito”, onde se esboça uma possível resposta à pergunta: PORQUE HÁ TANTOS PADRES PEDÓFILOS? Aqui procuraremos uma resposta a outra questão pertinente: PORQUE A IGREJA, DURANTE TANTAS DÉCADAS, IMPÔS A OMERTÀ (SILÊNCIO) SOBRE A PEDOFILIA NO SEU CLERO?)



O padre pedófilo não deixa de ser padre ("Tu es sacerdos in aeternum"), pelo contrário, talvez manifeste na forma mais eloquente e explícita a ideologia que a sua mente absorveu durante anos e anos, acabando por identificar-se com ela. Vejamos bem: os padres pedófilos, se descobertos, nunca “abandonam” o sacerdócio, ao contrário dos padres que tiveram "triviais" relações com mulheres. Além disso, dificilmente são suspensos das suas celebrações religiosas, no máximo, são transferidos "para evitar o escândalo."

Agora sabemos a razão: a pedofilia manifesta, na verdade, funções e significados profunda e intimamente "católicos", embora o padre pedófilo tenha o papel paradoxal de ser tanto vítima (seja dos seus problemas pessoais, seja de uma ideologia que é objectivamente nociva para o equilíbrio psíquico) como carrasco (porque comete abusos sem se preocupar com os danos indeléveis que causa nos outros).

A dinâmica "padre pedófilo-criança" é, portanto, uma metáfora eficaz para o relacionamento entre a igreja e os seus fiéis, entre a instituição possessiva e autoritária, e os seus seguidores ingênuos e "crianças".

Por outro lado, a igreja, batizando crianças inconscientes e “indoutrinando-as” desde a infância, observando bem, implementa as mesmas técnicas de aliciamento usadas pelos pedófilos, que, de facto, baseiam a sua sedução propriamente sobre o não conhecimento, sobre a não consciência e, finalmente, sobre o sentimento de temor reverencial que a vítima adverte "depois" do "batismo" ocorrido (neste caso, o termo deve ser interpretado com duplo sentido).

Em ambos os casos, estas crianças "vítimas" (seja de pedófilos, seja de igrejas pedófilas) conseguem apenas provar sentimentos de culpa, e não o oportuno e sacrossanto direito à sua integridade física e mental. Como todos os psicoterapeutas sabem muito bem, por experiência profissional, receber uma educação rigidamente católica não deixa menos efeitos adversos na personalidade do que os efeitos dos traumas psicológicos decorrentes do sofrimento de episódios de pedofilia. Antes, talvez os últimos, sendo mais circunscritos, possam ser superadas mais facilmente.

Outra analogia simbólica entre pedofilia e catolicismo encontramo-la, nada mais nada menos, na Missa. O que é a Missa? A re-evocação do sacrifício de uma vítima inocente! O ritual do assim chamado “cordeiro” que é sacrificado no altar para “expiação dos nossos pecados."

Portanto, um padre que celebra a Missa, simbolicamente dramatiza (para a teologia católica, mesmo fisicamente) o "sacrifício de uma vítima inocente." Poderíamos dizer que, paradoxalmente, também os pedófilos "sacrificam vítimas inocentes." Isto é muito importante porque é o coração da ideologia católica. Acostumar a própria mente a pensar que sacrificar vítimas inocentes é um ritual sagrado, positivo, expiatório, purificador e do qual deriva o bem, pode certamente confundir o inconsciente, “habituando-o” a idéias subtilmente perversas e sacralizadas.

O padre pedófilo, estuprando crianças, por mais desviante e assustador que possa parecer, não faz outra coisa que “celebrar uma missa”, usando símbolos diferentes, mas evocando significados semelhantes, a saber: a vítima inocente acaba sacrificada. O seu sangue não é prova de violência humana, pelo contrário, ele "lava-nos” e purifica-nos! Além disso, coisas semelhantes aconteciam também em muitos antigos ritos religiosos. Quantos pobres animais foram torturados, mortos e sangrados para que os sacerdotes se iludissem, assim, de lavar a sua consciência e a dos outros!

Podemos assim concluir que o pedófilo, seja padre ou não, é uma pessoa com graves problemas, que de modo irracional, desviante e, sem dúvida, prejudicial para os outros, procura apenas a si mesmo e a sua identidade sexual. No caso em que o pedófilo é um padre, a situação é ainda mais complicada por causa da influência psíquica perniciosa da teologia que foi objeto dos seus estudos, da sua formação e da sua vida.

O silêncio da igreja, e as suas negações usuais da evidência, além disso, impedem a esses padres de serem curados, apoiados por especialistas em psicologia, talvez encaminhados a uma psicoterapia. E, porque não, mais estudados, para prevenir a contínua repetição destes fenómenos.

Obviamente a igreja preferiu manter os padres pedófilos, que continuariam a fazer vítimas inocentes, em vez de correr o risco de confrontar-se com mentes livres.

Só agora, depois de décadas de silêncio cúmplice ou ocultação de provas e após forte pressão (das vítimas ou de seus familiares, da sociedade e dos tribunais civis), a Igreja parece "disposta" a acabar com a omertà e a purgar os padres pedófilos. Mas, uma pergunta, não menos inquietante, paira no ar: o que deve mudar na Igreja para resolver a fundo esta "lixeira" no seu seio? É que não basta “excomungar” os padres pedófilos, também eles "vítimas" do obscurantismo católico.

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publicado às 13:34



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