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Do esforço e do repouso

por Thynus, em 04.01.13

Para endurecer-se, é preciso, enquanto se desfruta de boa saúde, submeter o corpo, em seu conjunto como em cada uma de suas partes, a muitos esforços e cansaços, e habituar-se a resistir a toda espécie de influências adversas. Por outro lado, quando se manifesta um estado mórbido, seja no todo, seja numa de suas partes, deve-se recorrer imediatamente ao procedimento contrário, e cuidar de todas as maneiras do corpo ou de sua parte enferma; porque o que é delicado e débil não é passível de endurecimento.
Com um emprego vigoroso, os músculos se fortificam, porém os nervos se debilitam. Convém, pois, exercitar nossos músculos com todos os esforços convenientes, mas guardar disso os nossos nervos; por conseguinte, guardemos nossos olhos de toda luz demasiado viva, sobretudo quando é refletida, contra todo esforço à meia-luz e contra o exame prolongado de objetos demasiado pequenos. Preservemos igualmente nossos ouvidos dos ruídos demasiado fortes. Acima de tudo, não devemos expor o cérebro a esforços excessivos, demasiado prolongados ou intempestivos. Desse modo, devemos deixá-lo repousar durante a digestão; pois nesse momento essa mesma força vital que, no cérebro, forma o pensamento, trabalha com todas as suas forças no estômago e no intestino, preparando o quimo e o quilo. Pelo mesmo motivo, nunca devemos utilizar o cérebro durante, ou imediatamente após, um trabalho muscular vigoroso. Porque, nesse respeito, sucede o mesmo com os nervos motores que com os nervos sensoriais; e assim como a dor sentida num membro lesionado tem seu verdadeiro fundamento no cérebro, de igual modo não são as pernas e os braços os que caminham e trabalham, senão o cérebro, ou seja, a porção de cérebro que, por intermédio da medula oblonga e da medula espinhal, excita os nervos desses membros e os faz moverem-se. Por conseguinte, a fadiga que sentimos nos braços ou nas pernas tem seu fundamento real no cérebro; por esse motivo, os músculos que se cansam são aqueles cujo movimento é arbitrário e voluntário, ou seja, proveniente do cérebro, não os que trabalham involuntariamente, como o coração. Portanto, é certamente prejudicial ao cérebro exigirmos dele atividade muscular e intelectual enérgicas simultaneamente, ou depois de um curto intervalo. Isso não está em contradição com o fato de que ao começo de um passeio ou, em geral, durantes curtas marchas, sentimos uma atividade reforçada do espírito; pois ainda não houve fadiga das partes respectivas do cérebro. Por outro lado, essa ligeira atividade muscular, acelerando a respiração, auxilia o fluxo de sangue arterial melhor oxigenado ao cérebro. Porém devemos dar especialmente ao cérebro a quantidade de sono necessária para seu descanso; porque o sono é ao cérebro o que a corda é ao relógio. (Cf. O Mundo como Vontade e Representação, vol. II, c. 19.) Essa quantidade deve variar de acordo com o desenvolvimento e a atividade do cérebro; não obstante, ir além disso seria desperdiçar tempo, porque o sono perde então em profundidade o que ganha em extensão. (Cf. O mundo como vontade e representação, vol. II, fim do cap. 19.) [1] Em geral, devemos compreender bem o fato de que nosso pensar não é outra coisa que a função orgânica do cérebro e, portanto, no que tange a atividade e o repouso, trabalha de uma maneira análoga a qualquer outra atividade orgânica. Um esforço excessivo estraga os olhos assim como o cérebro. Disse-se com razão que, assim como o estômago digere, o cérebro pensa. A idéia errônea de uma alma imaterial, simples, essencial e constantemente pensante – e, portanto, infatigável, como se estivesse alojada no cérebro e não tivesse necessidade de nada no mundo – tem levado muitos a condutas insensatas e ao embotamento de suas forças mentais. Por exemplo, Frederico o Grande certa vez tentou prescindir em absoluto do sono. Os professores de filosofia fariam bem em não encorajar tal noção, prejudicial até na prática, com sua filosofia ortodoxa para mulheres velhas que tenta se entender com o catecismo. Devemos aprender a considerar as forças intelectuais como funções absolutamente fisiológicas, a fim de saber dirigi-las adequadamente, economizá-las ou empregá-las, e lembrar que todo sofrimento, todo incômodo, toda desordem em qualquer parte do corpo afeta o espírito.

(Arthur Schpenhauer - "Aforsimos para a sabedoria e vida")

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