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Sexo e morte no cristianismo

por Thynus, em 11.12.12

Que é perder o Paraíso? Tornar-se mortal, separar-se de Deus e conhecer a dor (lavrar a terra estéril, parir no sofrimento). O pecado original (tanto no sentido de primeiro pecado quanto no de pecado da origem) é uma queda: separarse de Deus, descobrir a morte e a dor, conhecer a carência e a falta. É nessa constelação de sentidos que se desenvolverá a meditação dos primeiros Padres da Igreja sobre o sexo.
A queda, o distanciar-se para sempre de Deus, é o sentimento de um rebaixamento real e do qual a descoberta do sexo como vergonha e dor futura é o momento privilegiado. Com ele, os humanos descobrem o que é possuir corpo. Corporeidade significa carência (necessidade de outra coisa para ”sobreviver), desejo (necessidade de outrem para viver), limite (percepção de obstáculos) e mortalidade (pois nascer significa que não se é eterno, é ter começo e fim). O pecado original é originário porque descobre a essência dos humanos: somos seres finitos. A finitude é a queda.
Separar-se de Deus é descobrir os efeitos de não possuir atributos divinos: eternidade, infinitude, incorporeidade, auto-suficiência e plenitude. Ora, pelo sexo, os humanos não somente reafirmam sem cessar que são corpóreos e carentes, mas também não cessam de reproduzir seres finitos. O sexo é o mal porque é a perpetuação da finitude. Nele, está inscrita a morte como diria, séculos mais tarde, Freud. Ou o poeta, respondendo à pergunta: o que é o homem? com a resposta: ”cadáver adiado que procria”.
Os primeiros cristãos, julgando que a morte e ressurreição de Cristo eram sinais de que logo viria o Juízo final e a imortalidade seria reconquistada, graças à Redenção, consideraram desnecessárias as relações sexuais, pois já não havia por que nem para que perpetuar a espécie humana, inúmeras seitas proibindo o sexo. Essa idéia ressurgiu com a aproximação do ano 1.000, o primeiro milênio; reapareceu na grande crise do Papado e do Sacro Império Romano-Germano, no século XIII, quando muitos esperavam a vinda do AntiCristo; e parece estar recomeçando em vários lugares agora, com a aproximação do segundo milênio, o ano 2.000.
A vinculação do sexo com a morte e, conseqüentemente, do sexo com a procriação, faz com que na religião cristã a sexualidade se restrinja à função reprodutora. Embora o sexo esteja essencialmente atado ao pecado, todas as atividades sexuais que não tenham finalidade procriadora são consideradas ainda mais pecaminosas, colocadas sob a categoria da concupiscência e da luxúria e como pecados mortais. Além disso, como o sexo é função vital de um ser decaído, quanto menor a necessidade sexual sentida, tanto menos decaído alguém se torna, purificando-se cada vez mais. Donde toda uma pedagogia cristã que incentiva e estimula a prática da continência (moderação) e da abstinência (supressão) sexuais, graças a disciplinas corporais e espirituais, de tal modo que a elevação espiritual traz como conseqüência o abaixamento da intensidade do desejo e, conforme à mesma mecânica, a elevação da intensidade do desejo sexual traz o abaixamento espiritual.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”) 

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publicado às 18:59


1 comentário

De Anónimo a 12.12.2012 às 09:08

Na relação sexual, na sua vertente carnal e espiritual, os amantes morrem um no outro, fundem-se num clímax orgásmico e renascem num NÓS divino ("e os dois serão uma só carne!").

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