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O poder do toque

por Thynus, em 21.11.12

A ligação da mão e o toque é imprescindível no amor.
Quando não há o toque o amor terminou ou então é uma farsa. O toque é o traço maior do amor, seu retoque, seu sinal.
Tocar é o começo de cada ato de posse, de cada tentativa de fazer uso de uma pessoa ou coisa. “O toque, o contato físico, constitui o propósito mais imediato da “catexe” objetal, tanto agressiva como afetuosa (I
nibição, Sintoma e Angústia - Ed. Delta, vol VI, p. 261).
À continuação, Freud escreve: “Em sua tentativa de prevenir a ocorrência das associações, de obstaculizar a formação de conexões do pensamento, o ego está condescendendo com um dos mandamentos mais antigos e fundamentais da neurose compulsiva -- o tabu do toque. Na questão do porquê da abstenção do toque, -- do por qual motivo o contato ou contágio desempenha um papel tão extenso na neurose e é tornado o conteúdo de um sistema tão complicado -- a resposta é que o toque, o contato físico, constitui o propósito mais imediato da ‘catexe‘ objetal, tanto agressiva como afetuosa. Eros deseja o contato, porque luta pela união, pelo aniquilamento das fronteiras espaciais entre o ego e o objeto amado. Mas também a destruição que, antes do invento da grande série de armas, poderia se efetivar somente pela proximidade, pressupondo necessariamente o contato físico, o uso das mãos. Tocar uma mulher se tornou, em linguagem vulgar, um eufemismo para o seu uso como objeto sexual. Não tocar os genitais é a enunciação usual da proibição de satisfação auto-erótica. Desde que a neurose compulsiva procurou, em primeiro lugar, realizar o contato erótico e, então, o mesmo contato, subseqüente à regressão, disfarçado em agressão, nada era tabu em tão intenso grau como este mesmo contato, nada era tão adequado para se tornar a pedra angular de um sistema de proibições”.
“O toque na civilização atual ainda significa tabu. Tabu é uma palavra polinésia cuja tradução nos traz dificuldades, porque não possuimos mais a idéia com a qual tem conotação”. “Para nós, a palavra tabu se ramifica em duas direções opostas. Em primeiro lugar, significa sagrado, consagrado, porém, por outro, misterioso, perigoso, proibido e sujo. Na língua polinésia, o oposto de tabu é designado pela palavra ‘noa‘ e significa algo acessível. Desta maneira, qualquer coisa semelhante ao conceito de reserva é inerente a tabu; tabu se expressa essencialmente em proibições e restrições. Nossa combinação de ‘terror sagrado‘ poderia freqüentemente expressar a significação de tabu”.
“O tabu é uma proibição muito primitiva, imposta de fora (por uma autoridade), e dirigida contra os mais fortes desejos do homem. O desejo de transgredi-lo continua no inconsciente; as pessoas que obedecem ao tabu têm um sentimento ambivalente em relação ao que é afetado por ele.
O poder mágico, atribuído ao tabu, retrocede para a sua habilidade de induzir o homem à tentação; comporta-se como um contágio, porque o exemplo é contagioso e porque o desejo proibido se desloca no insconsciente para algo mais. A expiação para a violação de um tabu, através da renúncia, prova que a renúncia está na base da observância do tabu”.
De todo o exposto sobre as observações de Freud, percebe-se que, quando não há mais o toque entre os casais, já não há mais o “começo de cada ato de posse”. O esposo ou a esposa sente-se indiferente à posse do outro. Passa a haver o desprezo, o aviltar-se, envilecer-se, rebaixar-se. Com eles o desdém, o não fazer caso, não dar importância, menoscabar. O desdém, desprezo com orgulho, torna-se perigoso e pode criar a renúncia com altivez, o não se dignar. A partir dali o casamento acabou. Nesse caso, dá-se o perigo verdadeiro (angústia verdadeira) , desenvolvido em duas reações: uma afetiva -- o desencadeamento da angústia -- e a ação, procurando a proteção contra o perigo. A situação de perigo é a situação de desamparo reconhecida, lembrada e antecipada.
O amor tem necessidade de ser expresso fisicamente. Todos gostamos de ser tocados porque tememos que isto seja mal interpretado. Se não buscarmos o toque, permaneceremos sentados na solidão e fisicamente isolados.
No mundo conturbado de hoje a ausência do toque mais se pronuncia, pois estamos mais separados fisicamente que nunca. Na Europa e Ásia, mulheres e homens parecidos beijam-se, abraçam-se e caminham de mãos e braços dados (Tailândia). Ultimamente, jogadores de futebol na Europa e no Brasil estão beijando o rosto do parceiro do jogo, quando este consegue um gol ou se afasta da partida. Tocar-se é natural entre mulheres (elas se beijam e andam de braços ou mãos dadas, principalmente no Brasil), mas rigidamente proibido, desde a infância, entre os homens. Ainda que este tocar se constitua em uma forma de comunicação muitas vezes maior do que as palavras e a expressão. Colocar seu braço no ombro de outro homem é uma forma de dizer “eu o vejo”, “sinto como você”, “somos amigos” ou “preocupo-me com você”.
Ninguém hesita, entretanto, em tocar um bebê, ou afagar e acariciar um cachorro estranho. São manifestações estranhas e não vencidas pelo elemento humano em pleno terceiro milênio...

(Albertino Aor da Cunha - "Mentira Nua e Crua")

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publicado às 12:11



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