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por Thynus, em 14.12.12
A Vênus de Cranach é identificada à Eva por ele pintada num quadro sobre a tentação no Paraíso - é a mesma figura feminina. No entanto, Eva tem o rosto culpado, enquanto Vênus traz um sorriso enigmaticamente sedutor e o véu transparente que mostra em lugar de esconder seu sexo. Durante a Idade Média e a Renascença considera-se que a mulher é, por essência, um ser lascivo, destinado à luxúria, insaciável e que a beleza demoníaca de suas formas é a causa do enfraquecimento masculino, de homens destinados à força da guerra. A ironia de Cranach está em mostrar que a força feminina vem da fragilidade de sua graça e leveza corporais.

Nas representações da antigüidade, o Amor (Eros, Cupido) é figurado tendo nas mãos um arco assestado, pronto a disparar um dardo (carregando outros dardos às costas). Na frase de São Gregório, há uma síntese entre morte e amor, através da referência ao dardo. Também em inúmeras pinturas medievais, o Amor é representado com uma venda nos olhos, disparando seus dardos sem ver. Essa venda, como mostraram os estudos iconográficos do estudioso da pintura, Panofsky (num livro intitulado Ensaios de Iconografia), não significa apenas, como pensamos correntemente, que o amor é cego. Nos códigos pictóricos medievais, a venda nos olhos é um atributo que permite identificar uma figura precisa: a morte. Assim, a pintura também exprime a síntese teológica entre sexo e morte.
Mas por que, sendo a virgindade vitória sobre a morte, os seres humanos a rejeitam e continuam sucumbindo ao sexo? Por que a virgindade não é espontaneamente desejada, mas obtida por férrea imposição ou disciplina da vontade? Porque, como filhos de Adão e Eva, somos corpos sexuados e almas enfraquecidas. A virgindade, quando não é uma graça ou dom de Deus (como o foi Maria, cheia de graça), é uma conquista. Escreve ainda São Gregório: ”O fogo, se nele não jogamos lenha, graveto ou palha, nem qualquer matéria combustível, não é de natureza a conservar-se a si mesmo. Assim, a potência da morte não se exercerá se o casamento não lhe fornecer matéria”. Vem de muito longe a imagem do fogo como representação do sexo, como incêndio que se propaga, se alimentado. Donde a expressão: arder de desejo. No Antigo Testamento, no poema Cântico dos Cânticos, diz o poeta: ”pois o amor é forte como a morte!/Cruel como o abismo é a paixão;/suas chamas são chamas de fogo/uma faísca de Javé.”
A idéia de propagação toma duas direções. Por um lado, o sexo se espalha por todo o corpo e consome o espírito que a ele sucumbiu; por outro lado, espalha-se para os demais seres que estiverem em contacto com aquele que arde de desejo. A idéia de ”matéria combustível”, isto é, que o sexo só prossegue se lhe for dado objeto de prazer, ainda significa (e é esse o ponto) que poderá extinguir-se por si mesmo, sem alimento. Mas significa algo ainda mais profundo: que o prazer obtido por seres finitos também é finito, fugaz, passageiro, que a busca recomeça sem cessar tão logo passado o efeito da satisfação, dela só restando uma lembrança que estimula o recomeço, como se os mortais esperassem da multiplicação e repetição dos prazeres dar-lhes perenidade. Mas nunca será possível o pleno contentamento. Como nos versos de Camões: ”Amor é fogo que arde sem se ver... É nunca contentar-se de contente”.
Uma das conseqüências dessa percepção, será a distinção feita pelo cristianismo entre amor profano (amor carnal) e amor divino (amor espiritual).
Numa das perspectivas cristãs, essa diferença aparece como oposição e antagonismo: o amor profano, sempre insatisfeito, desvia e distrai a alma do amor divino, único a dar contentamento pleno. Nas pinturas medievais, essa oposição é representada por duas mulheres, em geral uma nua e outra vestida, representando a Sensualidade e a Razão, ou por duas mulheres vestidas trazendo vários símbolos que, pelos códigos Pictóricos da época, permitem distinguir entre Felicidade breve e Felicidade Eterna. O amor profano tem ao fundo uma cidade fortificada e lebres ou coelhos (sexo animal e fertilidade), enquanto o amor divino tem ao fundo uma paisagem campestre, uma igreja e um rebanho de cordeiros (Jesus, cordeiro de Deus).

(Marilena Chauí - "Repressão Sexual")

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